domingo, 26 de abril de 2020

EM TEMPOS DE BIOPOLÍTICA, GLOBALISMO E GEOPOLÍTICA

EM TEMPOS DE BIOPOLÍTICA, GLOBALISMO E GEOPOLÍTICA

A recente pandemia, conforme a Organização Mundial de Saúde decretou em 2020 por causa do Coronavírus, realmente trouxe fatos importantes que devem ser analisados e que impactarão sobre nossa realidade de forma significativa.
Pela primeira vez na história da humanidade, bilhões de pessoas acompanharam em tempo real o alastramento da doença, caso a caso. Todos fomos expostos a uma enorme carga de informação e especulações com enormes potenciais tanto positivos quanto negativos. 
Do lado positivo, sem dúvida, a possibilidade de acompanhar curvas epidêmicas e compará-las em todo o mundo, enriquecendo em muito a ciência epidemiológica. Do lado negativo, a enorme ansiedade que isso gera e todo o impacto social e econômico decorrente.
Quanto ao alastramento da doença, foi auxiliado pela intensa globalização, que abriu fronteiras e mercados por todos os lados, aprofundando laços de interdependência entre os países e o deslocamento de grandes massas humanas em pouquíssimo tempo.
Essa interdependência e essa fluidez de fronteiras geraram situações interessantes no contexto da pandemia. Uma delas é, por exemplo, a concentração da produção global de máscaras cirúrgicas na China, justamente onde se iniciou a pandemia.
Mundo afora, há diversos oligopólios globais, gerando especializações centradas em algumas nações. Na hipótese de fechamento de fronteiras, há um sério risco de desabastecimento do mercado interno de diversas nações dependentes. Para um mundo globalizado, eis que foi desenvolvida uma solução globalista.
Isso gera uma preocupação em relação à plena abertura dos mercados e uma nova tendência ao protecionismo, que pode ser interessante no caso de bens essenciais à subsistência e à segurança de todo um povo.
A dependência de uma nação, em termos estratégicos, da produção de outra nação significa algo muito claro: submissão, seja ao governo que produz o bem para exportação, seja ao grupo que lidera a produção, que pode apresentar caráter não governamental. De ambas as formas, há uma série de possíveis fragilidades, ainda mais em tempos de conflito e desconfiança, como aqueles presenciados durante a pandemia da Doença do Coronavírus (COVID-19).
Não se pode desprezar os ganhos da globalização. Informação rápida, facilidade na aquisição de mercadorias antes indisponíveis, flexibilização das fronteiras e aumento do sentimento cosmopolita por todo o globo. Mas há que se diferenciar duas situações.
A globalização propriamente dita do globalismo.
O globalismo é uma forma de administrar a realidade globalizada em termos políticos, econômicos e culturais. Sua grande ênfase é o poder concentrado em entidades supranacionais, é como controlar o próximo por cima de suas fronteiras. Há um elemento de substituição de uma elite governante de caráter nacional, muitas vezes alocada pelo próprio povo de uma nação, por uma elite tecnocrática que rompe questões como nacionalidade e patriotismo. 
Essa elite internacional atua em diversos países e funciona como um poderoso elemento geopolítico que não pode ser ignorado. 
Um exemplo seria o de um pequeno país no qual se instala um enorme complexo produtor pertencente a um dos membros dessa elite internacional. Uma vez dependente do comércio internacional, este pequeno país pode praticamente ser colocado em profunda recessão econômica e grave crise política caso tal complexo seja removido ou fechado.
A resposta dada à pandemia nesse delicado contexto de globalização permeada de globalismo, com seus mercados abertos em nível internacional, gerou uma consciência aguda acerca das limitações do modelo de caráter internacionalista.
Novamente muitos questionam as vantagens e desvantagens do nacionalismo, diferenciando a postura cautelosa e protetora da cultura e dos interesses nacionais – o nacionalismo propriamente dito – daquela postura agressiva de conquista e imposição cultural, denominada de imperialismo por autores como Yoram Hazony, autor da obra As Virtudes do Nacionalismo.
As repercussões desse grande tubo de ensaio em que se tornou a pandemia serão percebidas no campo das Relações Internacionais, da Economia, da Saúde, da Política e do Direito só para começar. As repercussões culturais ainda são incalculáveis.
Vivemos, na verdade, um cenário parcialmente previsto pelo Filósofo Olavo de Carvalho no início do século XXI, que recomendara ao então presidente do Brasil, Itamar Franco, a realização de um Congresso Mundial sobre o Nacionalismo. A sugestão então ignorada agora se faz urgente, como também é urgente a redefinição dos mercados e das fronteiras diante das atuais mutações políticas, científicas, econômicas e culturais.

terça-feira, 21 de abril de 2020

OBEDEÇA OU MORRA

Liberdade e Opressão em tempos de Pandemia

Obedeça, obedeça, obedeça... ou, na visão de certos elementos preocupados com o bem do próximo, os princípios do SUS – Universalidade, Integralidade e Equidade – não valerão para você.

“(...) parte da minha área de atuação [é] a orientação que passarei para o gabinete de crise e, em especial, aos médicos que estiverem atendendo, é que se tiverem que escolher entre esses pacientes que seguem essas recomendações (de isolamento social) e outros pacientes que não seguem essas recomendações, que já foram autuados, que vão para as redes sociais convocar os outros para a rua, que vão para as redes sociais convocar que abram o comércio, que vão para as redes sociais convocar passeata, não importa em apoio de quem (...), se tiver que escolher entre um paciente como esse e um paciente que cumpre as regras, que está exercendo uma função essencial e por isso está se arriscando, sem nenhuma dúvida faça a escolha em favor desses que estão obedecendo. A gente perfeitamente consegue monitorar as pessoas pela rede social, montar um banco de dados.”
Se nós avançarmos para esse estágio, tenhamos um banco de dados à disposição para que o profissional de saúde faça essa escolha em favor daquele que foi acometido por uma fatalidade já que não procurou “o COVID”. Uma coisa é o COVID procurar o paciente, outra coisa é o paciente por ignorância ir ao encontro do COVID. Eu acho que essas pessoas que estão cavando a sua cova com sua própria ignorância não têm o direito de tirar a vida daqueles que estão fugindo do COVID”. (Marcelo Lessa, Promotor Público, em declaração para RJTV).

Seguindo essa curiosa linha de raciocínio, deveríamos negar atendimento a presidiários ou criminosos que chegam baleados em serviços de emergência? Deveríamos usar quais outras formas de classificar adultos, idosos e crianças? Capacidade de contribuir para a sociedade com trabalho? Notas escolares? Cor da pele ou dos olhos? Concordância política com o governante? Usuários regulares de vitaminas e suplementos alimentares?
Basta termos um sistema de vigilância poderoso o suficiente e o grande porrete do Estado estará a postos para te excluir ou te punir se você não tiver sido um bom menino. 
Por alguns momentos senti que estava em um romance de George Orwell, mas percebi que esta é a realidade em que vivemos. E pessoas que defendem essa postura são justamente aquelas que sequestraram a expressão democracia e acusam quem se lhes opõe de ditador!
Na realidade alternativa em que vivem, as coisas ocorrem como Orwell descreveria: Ódio é Amor, Mentira é Verdade, Opressão é Liberdade...

terça-feira, 24 de março de 2020

DIGA-ME COMO REAGES E TE DIREI QUEM ÉS

Seria muito melhor se esse novo Coronavírus jamais tivesse existido, com certeza. Mas da complexidade da realidade, muitas coisas se apreendem de cada situação. Lições de vida são algumas delas, proporcionadas por momentos alegres ou, no caso de uma epidemia como a atual, tensos, mas reveladores.
Nesses momentos de grande tensão, medo e dificuldade, algo de menos controlado e mais instintivo parece vir à tona em todos nós. Pela resposta das pessoas nessas horas, podemos conhecer bem mais a respeito delas ou de nós mesmos. A resposta individual à epidemia do novo coronavírus não seria um caso diferente. Alguns podem dizer que a reação política e social está exagerada ou até mesmo histérica, outros diriam que estão subestimando o problema, mas a resposta individual dada à presente situação é algo bem concreto e imediatamente verificável.
Há aqueles que reagem com calma e coragem, e fazem o possível para ajudar. No caso de profissionais da saúde, surgiram muitos pedidos, vindos de diversas partes do país, de estudantes da saúde e profissionais – alguns até acima de 70 anos de idade – para que pudessem ajudar de alguma forma, qualquer forma. São pessoas que se sentiram profundamente incomodadas pela situação e sabem que podem ajudar, que podem ser úteis. Essa é a essência da nobreza da qual tanto falou José Ortega y Gasset, o oposto da mediocridade característica do que o filósofo espanhol chamava de homem-massa.
Para Ortega, o homem-massa é justamente aquele que odeia qualquer um que ouse se levantar acima dos demais, qualquer um que ouse demonstrar valor e caráter. O homem-massa é o “senhorzinho que só busca a própria satisfação” e torna-se insensível ao próximo e aos mais altos ideais de dever e responsabilidade que formam a história de um povo.
Em contextos como o que vivemos, todos têm sua colaboração de dever, responsabilidade e honra a oferecer. Seja ficando em casa, com paciência, mesmo que sem sintomas, sabendo que pode transmitir a doença a alguém mais frágil, seja trabalhando como profissional da saúde, no front dessa guerra silenciosa.
Na esfera política e social, que muito influencia a saúde, surgiram também ofertas de ajuda mesmo de alguns que nunca se mostraram lá muito amistosos em relação ao atual governo. Compreendem que somos pessoas e tratamos de pessoas. O melhor em cada um que veio à tona foi capaz de superar desavenças em tempos diferentes.
Mas nem tudo são rosas.
Há outras formas de resposta que de regra surgem nessas horas e que mostram um contraste tão evidente como o da noite em relação ao dia.
Há quem se aproveite da situação de tensão para capitalizar tudo em termos políticos, para aproveitar a tensão e alimentar o caos com objetivo de desestruturar o próximo, de plantar a discórdia para semear o ódio e o medo. Há quem tente lucrar durante a crise não por meio da coragem e da criatividade, mas da mesquinhez e do oportunismo político, para tentar ganhar na crise o que não ganhara em tempos mais tranquilos, por exemplo.
Pode ser que tais elementos o façam por não acreditar em algo chamado Justiça, ou que justiça para eles seja ajudar os amigos e detonar os “inimigos”, como afirmara Polemarco diante de Sócrates no antigo diálogo filosófico A República.
Por fim, há aqueles que, chamados a agir com calma e a ajudar o próximo, temem desesperadamente o risco. Profissionais de saúde e estudantes que, mesmo munidos de equipamentos de segurança e fora dos grupos de risco de maior de letalidade da doença, se apavoram e declaram que não irão à frente assistencial.
Tal medo é compreensível. Aliás, só é corajoso aquele que venceu o próprio medo, como tantos discursaram de forma correta ao longo da história.
Mas é preciso salientar algumas perspectivas básicas no presente cenário quando tantos falam em questões como heroísmo, segurança e profissionalismo.
Uns falam de heroísmo, outros dizem que o discurso que profissional da saúde precisa ser herói é uma desculpa para exigir condições inadequadas de trabalho e para que profissionais se exponham ao risco de forma despreparada e se submetam a condições ruins e desnecessárias de trabalho. 
Estupidez é uma coisa, heroísmo é outra. E ser prudente não é ser covarde. Heróis podem e devem ser prudentes, mas são heróis pelos valores encarnados e pelo sacrifício realizado em prol do próximo. 
Médicos que não se enxergam como heróis ou sacerdotes não são profissionais na concepção mais tradicional da palavra. Somente por almejar ser herói ou santo é que o médico foi respeitado desde os tempos hipocráticos, utilizando o mandato social recebido para agir além do mínimo que se exigiria para qualquer um. Quando nos afastamos disso, caímos na perigosa e morna mediocridade.
Mesmo fora dos tempos de epidemia, muitos profissionais da saúde seguem dando exemplos de como ser herói sob diversos aspectos. 
Um médico cirurgião não pode negar cirurgia a um paciente com hepatite C ou soropositivo pra HIV, por exemplo. Ele sabe que assume um risco quando entra em campo operatório. Mas para isso ele será treinado e receberá os devidos meios para agir com a máxima redução do risco.
Há risco e necessidade de certo heroísmo cada vez que um médico intensivista ou infectologista e toda a equipe de saúde composta por fisioterapeutas, enfermeiros e nutricionistas entram em uma área de isolamento na unidade de terapia intensiva, pois mesmo fora de epidemias, há doenças altamente contagiosas e muito perigosas a serem combatidas.
Quantos médicos, enfermeiros e diversos outros profissionais da saúde rotineiramente fazem muito mais do que entregar um serviço? Há exemplos do que chamaríamos de ação supererrogatória por todos os lados. Palavra utilizada no campo dos estudos éticos que denota justamente fazer mais do que o mínimo necessário, fazer algo de valor que supera a obrigação 
Almejar cumprir o antigo Juramento de Hipócrates, que preconiza respeitar a vida e de guardar a si mesmo e a Arte Médica com pureza e santidade pode parecer anacrônico para alguns. Eu, por outro lado, diria que tais valores representados entre profissionais da saúde há milênios são atemporais e jamais desvanecerão enquanto durarem os sentimentos profissionais de beneficência e excelência.
Há quem diga que heróis ou santos são reflexos de uma sociedade doentia, que caso estivesse saudável jamais necessitaria dos mesmos. O fato é que todos somos fracos, doentes e limitados por natureza e em diferentes graus, e que somente naqueles momentos em que nos elevamos um pouco acima de nossas mais cotidianas misérias é que vislumbramos algo superior a nós mesmos, algo pelo qual valha a pena fazer algum tipo de sacrifício. São esses momentos e a resposta que lhes é dada que direcionam a história de um povo, e que podem ser capazes de realmente formar uma história digna de ser legada à próxima geração e definir de fato o que é o Brasil.
Hoje temos um povo que ousou sair da mediocridade, ousou mudar de rumo. Pessoas falam novamente de heroísmo, valores, família, sacrifício e honra. Palavras consideradas fora de moda ou inúteis para alguns e que há relativamente pouco tempo eram politicamente incorretas. No entanto, são símbolos das coisas que realmente refletem o bem que nos transcende, e que sem dúvida merecerão ser recordadas nos livros de história para nossos filhos.
Que Deus ajude nosso país a ter cada vez mais pessoas que realmente desejam tornar-se heroicas e tomar para si a corajosa missão de fazer algo além do mínimo necessário. Pessoas que, na crise, ao invés do oportunismo egoísta ou da indiferença, estendam a mão para oferecer auxílio.
Hélio Angotti Neto
24 de março de 2020, Brasília - DF.

quinta-feira, 19 de março de 2020

NOS PIORES MOMENTOS, OS MELHORES

Essa frase – “nos piores momentos, os melhores” – foi inspirada no lema dos bombeiros voluntários que tive a feliz oportunidade de conhecer durante uma visita a trabalho em Santa Catarina. Fornecem grande inspiração para o presente e demonstram o valor daqueles que decidem realmente fazer a diferença positiva na sua comunidade.
Há momentos na história em que uma nação tem a chance de mostrar seu heroísmo e seu caráter, deixando para a posteridade a lembrança do que realmente alcançou em seus mais difíceis desafios ao mobilizar todo seu potencial. 
No caso de guerras, erguem-se os combatentes: membros das forças armadas que pegam em armas não para atacar os inimigos à frente, mas para proteger aqueles que ficaram para trás. 
No caso da suspeita ou instalação de epidemias, levantam-se os profissionais da saúde, não para pegar em armas, mas para usar da ciência e da excelência técnica contra um inimigo invisível e tantas vezes letal que por diversas vezes ressurge ao longo da história sob diferentes formas.
Hoje, esse inimigo que se aproxima assume a forma de um novo vírus altamente contagioso e potencialmente letal, principalmente na mais frágil parcela de nossa população.
Ainda não se sabe a real extensão do desafio que aguarda o nosso povo, mas sabemos do nobre papel milenar que pertence aos médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos e tantos outros valorosos combatentes da saúde. Nos momentos de grande fragilidade, seja no tumulto dos dias de suspense frente à suspeita de epidemia, seja nos dias de franco combate, cabe ao profissional da saúde cumprir o papel hipocrático de valorizar a vida e cuidar daqueles que ficaram doentes.
Pode parecer duro e até mesmo injusto para alguns que, no momento em que a maioria se recolhe, o profissional de saúde deva se expor, mas é justamente isso o que está implícito no chamado profissional: a nobre busca pela virtude em prol do cumprimento de um dever considerado sagrado em benefício do próximo, pois profissão vem de professio: professar elevados valores que beneficiam a todos. 
Nenhuma mãe, pai, esposa, filho ou marido gosta de ver seu amado ir para o combate ou para um cenário de risco ao lidar com doenças contagiosas, mas todos sabem em seus corações o que é necessário nesse momento de crise.
Diante do desespero, há que se manter a equanimidade temperada pela ciência, pela habilidade técnica e pela presteza em tomar difíceis decisões diante da rápida evolução clínica ou de um conturbado cenário social. Diante do perigo, há que se comportar de forma prudente e cuidadosa, consciente de que riscos devem ser controlados para quem cuida e para quem recebe o cuidado. Diante da fraqueza e da necessidade alheia, há que se manter a coragem, a caridade e a compaixão. 
Após cada conquista, cada vida salva, cada dor aliviada ou cada família confortada, deve-se manter a humildade para reconhecer em si mesmo semelhante fragilidade àquela encontrada no paciente e a possibilidade de tornar-se também doente – de virar paciente – absorvendo no corpo e na alma a doença que no outro foi eliminada ou aliviada.
O chamado do qual aqui se fala não é um chamado para todos, como acredito que aqueles que me leem perceberam, mas é um chamado especialmente direcionado a alguns – daí o nome vocação – para que todos possam ser beneficiados. É o chamado heroico dos profissionais da saúde. E a resposta a esse grande chamado – marcado pela caridade, compaixão, integridade, ciência, coragem e esperança – é o que diferencia quem é profissional de fato daqueles que somente possuem um diploma.
A todos aqueles que se arriscam e se arriscarão para ajudar ao próximo e suas famílias, nenhum agradecimento é suficiente. Que Deus ajude cada profissional da saúde a ser o melhor possível para o próximo. E que nossos filhos e netos escutem acerca de nossa geração os grandes feitos e realizações que marcarão nossas vidas e o futuro de nossa nação.
Que sejamos, de fato, os melhores profissionais nos piores momentos.

Hélio Angotti Neto

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

COMO SER UM ALUNO DO SEMINÁRIO DE FILOSOFIA APLICADA À MEDICINA – SEFAM

Recebi uma pergunta que julgo muito pertinente: o que é preciso para ser um aluno do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina (SEFAM)?
O objetivo do SEFAM é, antes de tudo, enriquecer o ambiente cultural brasileiro com conteúdos não somente de saúde, mas também filosóficos, históricos, pedagógicos e científicos. 
Há várias possibilidades de participação. Gostaria de expor aqui as principais oportunidades de estudar Humanidades Médicas no SEFAM.
A primeira, e mais simples, é acessar o material gratuito disponível em minha página no YouTube[1]ou o Blog do SEFAM.[2] Costumo divulgar o material de ambas as fontes em minhas redes sociais, preferencialmente o Facebook, o Twitter ou o Instagram. Esses materiais são gravações diversas ou aulas sistemáticas, mas nem sempre se encontram completos ou possuem alta capacidade de interatividade. Procuro colocar novos materiais a cada duas semanas, seja no Blog, seja no YouTube.
A segunda possibilidade é ler as obras indicadas em nossos materiais. Na verdade, isso seria essencial a qualquer atividade dentro do SEFAM. Algumas aulas públicas ou privadas do SEFAM, inclusive, são dadas especificamente sobre o conteúdo de uma determinada obra, como acontece atualmente nas breves reflexões sobre o livro A Vida Intelectual de Antonin-Dalmace Sertillanges.
A terceira possibilidade, que pretendo disponibilizar em breve, é um seminário semanal de cerca de uma hora. Essa seria a possibilidade de ser um aluno regular do SEFAM, interagindo com os demais participantes em um ambiente virtual. Pretendo deixar todo o conteúdo gravado para quem ingressar no Seminário. Provavelmente terá um baixo custo de manutenção e será bem acessível. Não substitui a interação e a experiência presencial de um seminário ou de um Workshop, mas para quem realmente se interessa no tema pode ser um ambiente muito produtivo.
A quarta possibilidade é participar do SEFAM presencial. Existem duas formas de participar. Uma delas é ser aluno em uma instituição que disponibiliza o seminário e, inclusive, pode certificar como atividade complementar ou atividade de extensão universitária. Esse era o modelo adotado no Centro Universitário do Espírito Santo (UNESC), quando tive a honra de trabalhar lá como professor e coordenador de curso. Estou organizando essa mesma possibilidade em São Paulo, prevendo aulas mensais de três horas com os alunos da UNINOVE. Com autorização da Reitoria, alguns alunos de fora às vezes frequentavam o SEFAM do UNESC. Quando eu tiver mais detalhes de como funcionará em São Paulo, divulgarei.
Um projeto paralelo é realizar o SEFAM presencial aqui em Brasília. Já tivemos algumas reuniões, mas ainda preciso sistematizar como aconteceria o seminário de forma regular.
Por fim, pretendo organizar alguns cursos de curta duração, provavelmente durante dois ou três dias de atividades. O primeiro curso a ser disponibilizado, ainda para o primeiro semestre de 2020 se tivermos alunos suficientes, será especialmente dedicado à Filosofia da Vida Intelectual e às técnicas de aprendizagem com base no legado cultural e nas mais atuais evidências científicas. O nome do curso será Vida de Estudos, e terá o seguinte conteúdo: 
Atenção Focal; Elementos impeditivos; O Mito da Caverna de Platão; A Causa Final de Aristóteles; Ilusões de Competência; Atenção Focal X Atenção Difusa; A Planilha Básica de Estudos; O Necrológio; Memória de Trabalho e Memória Profunda; Correção; Revisão Periódica; O Mapa da Ignorância; Disciplina e Constância; Procrastinação; Full Throttle in the Morning; Estudo Ascendente e Descendente; Idem Velle, Idem Nolle; A Filosofia de Vida de um Intelectual; A Planilha Avançada de Estudos. 
Provavelmente teremos vagas somente para 25 alunos. Assim que tiver mais informações, divulgarei.
Quem participa do SEFAM muitas vezes deseja escrever um artigo, realizar alguma pesquisa ou publicar na área. Essa é uma possibilidade que depende muito do tempo e da oportunidade. Tenho escrito alguma coisa em parceria com alguns alunos e ex-alunos, e pretendo ampliar essa forma de interação.
Independente de tudo o que o Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina poderá oferecer em termos de participação, o principal é realmente dedicar com constância uma parte de seu dia para o estudo da Alta Cultura e para o aperfeiçoamento intelectual. No campo das Humanidades Médicas, comecei sozinho há vinte anos, estimulado pela obra do professor Olavo de Carvalho. Alcancei outros mestres de nosso tempo e de tempos idos – Aristóteles, Hipócrates, Platão e Edmund Pellegrino, para citar alguns – e ainda tenho muito a caminhar. O SEFAM pode oferecer um início, uma rota mais segura, mas é a dedicação pessoal pelo resto da vida e a aplicação à prática cotidiana do que há de melhor na cultura que configura o real estudo das Humanidades Médicas.

Hélio Angotti Neto
Brasília, DF. 28 de janeiro de 2020.


[2] Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina. Internethttp://medicinaefilosofia.blogspot.com

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

O SAUDOSO TRIVIUM E A RETÓRICA MÉDICA

A formação de uma intelectualidade real é dever da atual geração
Em sua aula de número 503 do Curso Online de Filosofia[1], Olavo de Carvalho relembra um artigo escrito em 1999, sobre os equívocos de um dos muitos imbecis coletivos daquele momento. Nesse artigo, Olavo explica o be-a-bá do que é o Trivium e o Quadrivium e a sua importância para a formação intelectual.[2]
Trivium é a antiga metodologia que iniciava o neófito na vida intelectual por meio do ensino da Gramática, para depois avançar pela Lógica e alcançar a Retórica.[3]
Nessa aula 503 do curso online semanal, que começou em 2009, Olavo de Carvalho explica que há um atual dever de se colocar contra a falsa intelectualidade que vive de pompa e circunstância e carece de real conteúdo cultural e moral. Segundo ele, cabe à atual geração preencher a lacuna criada pelas hostes de imbecis coletivos que utilizaram por décadas sua inteligência para tornar cada vez mais burro e incapaz o ambiente. Aliás, este contexto de incapacidade é o que há de melhor e mais conveniente para que falsos intelectuais possam transmitir a imagem de erudição e pertinência que tanto gostam de emular. Tudo corria muito bem, obrigado, até o momento em que Olavo lançou seu Imbecil Coletivo nos anos noventa, implodindo a credibilidade dos grandes “luminares” da Academia brasileira e expondo o cenário geral de hipocrisia e inépcia.[4]
Fontes para bons estudos não faltam, mesmo que seja difícil encontrar bons mestres contemporâneos. Logo, não há desculpas para quem sinceramente queira se aprimorar intelectualmente. Por aí estão os grandes mestres de todos os tempos, desde Aristóteles[5] e Quintiliano até os muito mais contemporâneos Mortimer Adler e Chaim Perelman. 
E também há que se estudar a erística, isto é, a arte de argumentar trapaceando por meio de recursos psicológicos. Afinal de contas, vivemos no Brasil, se é que o leitor me entende, e expressiva fração da Academia não passa de macaqueação maliciosa. 

Novas e Antigas Bases para uma Educação Liberal
Hoje, segundo Olavo de Carvalho, a retórica poderia ser estudada como uma ciência da comunicação, unindo o clássico estudo da pessoa, do discurso e da audiência ao estudo das novas informações baseadas em neurociências, por exemplo, formando um rico cenário científico e cultural. Contudo, tal estudo não se faz presente nos currículos brasileiros e, ousaria dizer, tampouco se encontra na enorme maioria dos currículos mundo afora.
E antes mesmo de se aprofundar na retórica, seria necessário adquirir a adequada bagagem cultural para realizar uma boa interpretação textual, em outras palavras, seria necessário deixar o analfabetismo funcional que assola o Brasil para trás.
Tal capacidade interpretativa seria justamente a manipulação dos signos e símbolos, elementos básicos da cultura. Signos seriam todos os elementos representativos da realidade que nos chegam pelos sentidos e são trabalhados pela imaginação. Significados seriam justamente as explicações verbais desses signos, isto é, símbolos que explicam outros símbolos com o intuito de torna-los permeáveis à nossa inteligência. Por fim, para completar a tríade semiótica, existem os referentes, que são justamente aquelas coisas às quais se referem os signos.
Um cientista, um médico ou um escritor destituído de cultura, isto é, desprovido de um rico arsenal simbólico e da capacidade de interpretar tal arsenal, torna-se um idiota, subespécie de analfabeto funcional incapaz de tocar os referentes por meio dos signos presentes na realidade.
Com um rico imaginário povoado de símbolos expressivos capazes de transmitir apreensões verídicas e complexas da realidade, o médico pode ousar compreender o contexto de vida e a história de seus pacientes como pessoas concretas que são. E com tal capacidade, surge de forma qualificada o substrato que poderá ser trabalhado pela boa retórica que, segundo Aristóteles, é a arte de defender o que é justo.
Quando olhamos os currículos médicos e os perfis de egresso atuais – meras cópias das Diretrizes Curriculares, por sua vez produzidas durante o governo do Partido dos Trabalhadores no Brasil para promover um programa de trabalho escravo internacional (Programa Mais Médicos para o Brasil) e repassar dinheiro à ditadura cubana dos Castros –, o que se observa é a justa descrição da necessidade de humanizar a assistência à saúde e promover o ensino de uma comunicação eficaz entre médico e paciente desde a graduação. O grande problema está justamente no como fazer isso.
Quantos professores médicos estudaram não somente a retórica de Aristóteles, mas a Instituição Oratória de Quintiliano e acrescentaram a tudo isso as lições contemporâneas de Perelman e Mortimer Adler? E quem uniu isso tudo ao estudo da Teoria dos Jogos e dos estudos mais recentes de como respondemos a tentativas de manipulação? Quantos professores médicos estudaram a erística descrita por Schopenhauer e os automatismos trabalhados pela Programação Neurolinguística? Ouso dizer que alguns o fizeram, mas não o suficiente para educar de forma minimamente adequada os mais de 30.000 alunos que em breve serão formados por mais de 300 escolas médicas em todo o país.[6]
Apelar para professores da área de humanas tampouco resolve o problema, pois carecem da real vivência junto aos pacientes e seus problemas. Por mais que possam ajudar, não seriam totalmente eficazes em educar uma nova geração de médicos para o ato médico integral. Ademais, uma fração expressiva desses professores não médicos da área de estudos humanísticos encontra-se devotada a projetos ideológicos revolucionários que pouco acrescentam ao bem do paciente, isso quando não são completamente deletérios para a saúde física e mental da humanidade.
E creiam, há sim a necessidade de estudos sérios sobre comunicação e sobre seu uso eficaz e correto, pois como diria Marcos Fábio Quintiliano,
VI. 1. Há também regras próprias para fala e as próprias para quem escreve. A linguagem fundamenta-se num sistema, no tempo, na autoridade e no uso. A analogia e às vezes também a etimologia sustentam o sistema. Certa grandeza antiga e, para dizê-lo assim, uma religiosidade lhe conferem valor.
2. A autoridade costuma ser buscada junto aos oradores e aos historiadores (...): quando na eloquência seguem em vez do sistema, a alternativa dos maiores expoentes, ou ocorre o desvio honesto de acompanhar os grandes mestres.[7]
Isso tudo aponta para o pré-requisito de um bom estudo da retórica: uma aprendizagem profunda da lógica, da dialética e da poética (gramática, conforme os estudiosos do Trivium). Na poética, incluindo as grandes narrativas culturais, estarão presentes os exemplos dos grandes mestres da linguagem e da comunicação.

O Valor de uma Educação Liberal na Medicina
Sem esse arcabouço intelectual, como pode o médico lograr sucesso na compreensão do paciente que está à sua frente pedindo ajuda? Como poderá o médico realmente convencer e educar com qualidade seu paciente, vencendo as barreiras culturais e educacionais? Como poderá promover o bem por meio da linguagem, pois como diria Aristóteles, a retórica é “útil porque a verdade e a justiça são por natureza mais fortes que os seus contrários”.[8]
Nas palavras do filósofo Olavo de Carvalho,
A verdade está nas coisas e fatos. Mesmo não dita, ela nos fala. Já a mentira existe somente na voz humana e pela força da voz humana. Daí a necessidade de gritá-la e repeti-la sob mil formas variadas, revesti-la da autoridade do número, reforçá-la pelo poder do dinheiro e, pelo tom de coisa respeitável, dar-lhe ares de ciência certa.[9]
A verdade dos fatos aliada à uma intelectualidade treinada para sondá-la e um treino discursivo adequado para transmiti-la compõem a essência de um bom discurso retórico, capaz de desmascarar as mais elaboradas falsidades e injustiças.
Se os amargurados relativistas vierem contra argumentar falando mal da retórica, devolve-se a eles a defesa do próprio Aristóteles:
E, se alguém argumentar que o uso injusto desta faculdade da palavra pode causar graves danos, convém lembrar que o mesmo argumento se aplica a todos os bens exceto à virtude, principalmente aos mais úteis, como a força, a saúde, a riqueza e o talento militar; pois, sendo usados justamente, poderão ser muito úteis, e, sendo usados injustamente, poderão causar grande dano.[10]
É claro que a enorme maioria dos médicos aprende a se comunicar na forja da vida, nas inúmeras vivências ao lado de mestres e pacientes. Contudo, tal vivência qualificada e tornada agudamente consciente por meio da cultura, pode intensificar a aprendizagem de uma comunicação realmente eficaz em muito menos tempo, com muito mais qualidade. Eis um papel educacional das Humanidades Médicas que faria muito bem à nossa geração de professores e aprendizes médicos.

Hélio Angotti Neto
27 de janeiro de 2020
Brasília, DF


[1] CARVALHO, Olavo de. Curso Online de Filosofia Aula 504. 25 de janeiro de 2020. Internethttps://www.seminariodefilosofia.org
[2] CARVALHO, Olavo de. “Falsíssimo Veríssimo”. Internethttp://olavodecarvalho.org/falsissimo-verissimo/
[3] JOSEPH, Irmã Miriam. O Trivium. As Artes Liberais da Lógica, Gramática e Retórica. São Paulo, SP: É Realizações, 2002.
[4] CARVALHO, Olavo de. O Imbecil Coletivo. Atualidades Inculturais Brasileiras. Rio de Janeiro, RJ: Record, 2018.
[5] ARISTÓTELES. Retórica. São Paulo, SO: WMF Martins Fontes, 2012.
[7] QUINTILIANO. Instituição Oratória. Tomos I a IV. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2015, p. 127.
[8] ARISTÓTELES. Retórica. São Paulo, SO: WMF Martins Fontes, 2012, p. 10.
[9] CARVALHO, Olavo de. Publicado em rede social no dia 25 de janeiro de 2020 (Facebook).
[10] ARISTÓTELES. Op. cit., p. 11

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

LEGADO CULTURAL E VALORES PROFISSIONAIS NO LIVRO I DE MÉTODO DA MEDICINA, DE GALENO

TRANSMISSÃO DE CONHECIMENTOS E VIRTUDES


1. Desde que tu, querido Hiero, convocaste-me muitas vezes, e agora, também ciente de que outros colegas estão a me chamar para que escreva a eles um método da medicina, e desde que desejei em especial obrigar-me a vós todos e, ademais, também optei por ajudar os que viriam depois de nós, o tanto quanto eu fosse capaz, porém hesitando e atrasando por várias vezes por muitas razões, parece-me melhor aclarar tais razões agora, antes que eu comece o tratado, pelo que tais razões têm alguma relevância sobre o que será dito.

A principal razão de todas é o risco de escrever em vão, já que poder-se-ia dizer que ninguém hoje deseja a verdade. Ao invés disso, pessoas buscam dinheiro, poder político e o insaciável desfrute dos prazeres em tal extensão que seria considerada loucura a busca por excelência em qualquer área. Pensam que a verdadeira forma primeira da sabedoria, que é o conhecimento das coisas divinas e humanas, sequer existe.[1]

Em seu Livro I da obra Método da Medicina, Galeno reclamava dos médicos que transformam a arte médica em um pretexto para adular os ricos e, assim, tornarem-se superficiais por degradar sua arte. Hesitava escrever, pois levava em conta como tais médicos guerreavam para obter destaque e honrarias na sociedade e como ele mesmo poderia ser alvo de duras críticas. Usava o médico Téssalo (Thessalus) como exemplo de suas críticas, pois este tentara criar fama para si mesmo menosprezando e rebaixando a herança hipocrática, já famosa entre os romanos e transmitida pelos livros da escola hipocrática, utilizados como fonte de aprendizagem entre muitos. Galeno iniciava a escrita de sua obra Método da Medicina ciente da malícia que despertaria e do cenário decadente que o cercava, e sabia muito bem que atrairia os invejosos olhares de rivais.

Os aspectos éticos da introdução e do Livro I de sua obra exibem uma série de valores caros à medicina. O primeiro é o sentimento de ser o guardião e transmissor do conhecimento médico para as próximas gerações. Galeno sente-se obrigado a transmitir seus conhecimentos.

No Preâmbulo do Código de Ética Médica brasileiro, já se observa que o papel do médico envolve o ensino, e que tal ensino está comprometido com uma postura moral adequada à importância dos conhecimentos a serem difundidos:

I - O presente Código de Ética Médica contém as normas que devem ser seguidas pelos médicos no exercício de sua profissão, inclusive nas atividades relativas a ensino, pesquisa e administração de serviços de saúde, bem como em quaisquer outras que utilizem o conhecimento advindo do estudo da medicina.[2]

Hipócrates e Galeno compreenderam bem o valor do legado em suas mãos e a necessidade de transmiti-lo com responsabilidade. No Juramento de Hipócrates está o compromisso em transmitir a Arte para aqueles dedicados à “lei dos médicos”, como se observa no seguinte trecho:

(...) compartilhar os preceitos, ensinamentos orais e todas as demais instruções com os meus filhos, os filhos daquele que me ensinou, os discípulos que assumiram compromisso por escrito e prestaram juramento conforme a lei médica, e com ninguém mais;[3]

Cuidavam para que a educação chegasse aos comprometidos com os altos valores professados, incluindo também formas de instrução direcionadas ao público em geral. Era compromisso do médico hipocrático educar as massas e os pares.[4]

Prova disso se encontra registrado nos antigos escritos pré-cristãos da escola hipocrática:

LXVIII. Primeiramente, agora devo escrever para a grande maioria dos homens sobre os meios para ajudar no uso da comida comum e da bebida, os exercícios que são absolutamente necessários, a caminhada e as viagens por mar requeridas para coletar os meios de subsistência. Escrevo para as pessoas que fazem uso do regime de forma irregular, sofrendo o calor contrariamente ao que é benéfico e o frio contrariamente ao que lhes é útil.[5]

Na obra Da Dieta Salutar, o autor hipocrático escreve sobre a necessidade de o paciente se educar para o cuidado de sua própria saúde:

IX. Um homem sábio deve considerar que a saúde é a maior das bênçãos humanas, e aprender por si mesmo como obter benefício em suas doenças. [6]

Em Afecções, de igual forma,

1. Qualquer homem inteligente deve possuir o conhecimento essencial para ajudar a si mesmo quando doente, considerando a saúde como do mais alto valor para os seres humanos. Deve também ser capaz de entender e julgar o que dizem os médicos e o que administram em seu corpo, sendo versados em tais assuntos em grau adequado ao leigo. [7]

Demonstrando um elemento do ato médico ainda hoje muito ressaltado, os hipocráticos inclusive exortavam os aprendizes a uma comunicação eficaz com os pacientes.

É particularmente necessário, na minha opinião, para o que discute esta arte, falar de coisas familiares às pessoas comuns. Pois o assunto de discussão é somente e simplesmente os sofrimentos dessas mesmas pessoas comuns. Para que aprendam sozinhos como os seus próprios sofrimentos surgem e cessam, e as razões pelas quais eles pioram ou melhoram, não é uma tarefa fácil para pessoas comuns. Porém, quando estas coisas são reveladas e demostradas por outros, tornam-se de mais simples compreensão.[8]

Após ressaltar o papel de guardião e transmissor dos conhecimentos da Arte e reconhecer a necessidade de cumprir seu papel de educador, mesmo que sob a possibilidade de sofrer alguns reveses, Galeno coloca uma crítica que também guarda um forte elemento de contemporaneidade, visto que se baseia nas vicissitudes do próprio ser humano.

No início de sua obra, ao dizer em tom de desabafo que pessoas buscam dinheiro, poder político e o insaciável desfrute dos prazeres em tal extensão que seria considerada loucura a busca por excelência em qualquer área, Galeno já tece a crítica que acompanha a humanidade desde os tempos mais remotos, como bem apontou Eric Voegelin em sua obra magna Ordem e História, ao descrever a revolta de um egípcio antigo contra a decadência moral e a desordem da sociedade em que vivia.

Com quem posso falar hoje?
Os colegas são maus; 
Os amigos de hoje não amam.

Com quem posso falar hoje?
Os rostos desapareceram:
Cada homem baixa o olhar diante de seus companheiros.

Com quem posso falar hoje?
Um homem deve despertar a ira por seu caráter ruim, Mas ele faz todos rirem, apesar da perversidade de seu pecado.

Com quem posso falar hoje?
Não há justos;
A terra é deixada para aqueles que agem mal.

Com quem posso falar hoje?
O pecado que aflige a terra,
Ele não tem fim.[9]

Versos semelhantes, sem dúvida, aos da antiga sabedoria judaica, presente nos primórdios da cristandade, como visto na Carta aos Romanos:

(...) conforme está escrito:

Não há homem justo,
Não há um sequer,
Não há quem entenda,
Não há quem busque a Deus.
Todos se transviaram,
Todos juntos se corromperam;
Não há quem faça o bem, 
Não há um sequer.[10]

A consciência do estado frágil de nossas consciências levava os antigos profissionais a destinarem grande importância ao preparo moral dos candidatos para o exercício da Medicina, representado no momento de grande simbolismo que era o Juramento de ingresso à família de Esculápio, como se observa no seguinte trecho: com pureza e santidade conservarei minha vida e minha arte.[11]

E tal pureza também preconizava a responsabilidade em transmitir os conhecimentos específicos somente àqueles dedicados à mesma comunidade moral, aos discípulos que assumiram compromisso escrito e prestaram juramento conforme a lei médica, e com ninguém mais.[12]

Deve ser um esforço contínuo, aquele o de evocar o lado moral da profissão e estimular as novas gerações a assumirem o nobre e elevado compromisso de se dedicarem de corpo e alma ao cuidado com o próximo dentro dos preceitos da ciência, da boa técnica e da ética. Galeno não se furtou a tal compromisso, e mesmo diante da mediocridade e malícia de seus tempos – e de todos os tempos, por que não dizer? –, ousou por no papel o que lhe ia no coração. Pensou nos seus herdeiros de profissão, incluindo Hiero, mesmo sabendo que atrairia sobre si a oposição de muitos.

Hoje, precisamos daqueles que também ousam por no papel o que de bom lhes vai no coração, ignorando o coro dos maus médicos, daqueles que venderiam sua profissão por trinta moedas de prata[13] ou por quinze minutos de fama.

Ao médico também cabe a busca e o conhecimento das coisas dos sábios, da filosofia primeira, que perscruta as coisas divinas e as coisas dos homens, mesmo que, ainda hoje, se ergam aqueles que afirmam do subterrâneo de suas inconsciências a inexistência dos valores ou da verdade. O tempo passa, mas a burrice, a mediocridade e a malícia são forças perenes, de fato; signos da constante entropia de nossa realidade. Os fracos e extremamente maleáveis, carentes da chama profissional que oferta coragem e caráter para assumir uma vida fundamentada em altos valores, unem-se à mediocridade da turba que insiste em anunciar a relatividade do valor de tudo que distingue um indivíduo da massa que o cerca. 

Nada pode ser tão deletério a uma classe profissional como a mediocridade daqueles que cuidam do próximo por meio daquilo que Ortega y Gasset muito bem denominou de A rebelião das massas[14],uma desistência de agir de forma nobre para assumir a postura de um “senhorzinho satisfeito” em sua eterna busca por direitos à revelia da ordem social.

Prevendo o que viria, Galeno sabia que seria alvo de críticas, talvez tão infundadas quanto aquelas que ele presenciava serem jogadas contra o velho Hipócrates.

Por que, meu caro, tentas desacreditar aquelas coisas que são boas com o objetivo de ser bem visto pela multidão, quando é possível ser excelente nas que são verdadeiras, se fores diligente e amares a verdade? Por que fazes uso da ignorância de seus ouvintes como sua aliada no escracho dos antigos? Não apontes os amigos de ofício de teu pai como juízes dos doutores, ó incauto Téssalo. Mediante tais homens, de fato triunfarás ao falar contra Hipócrates, Diócles, Praxágoras e todos os outros antigos. Traga, ao invés disso, ao posto de juízes, os homens de antigamente – homens treinados na dialética e capazes de conhecimento, que eram experientes em discernir a verdade da mentira, que sabiam como diferenciar consequência e contradição como deviam, e homens que prestaram atenção cuidadosa ao método demonstrativo desde a infância. Ousa encontrar alguma falta em Hipócrates diante deles. Tenta, com sua grosseira e bárbara voz, avançar contra Hipócrates quando aqueles homens estiverem a julgar. Primeiro, a tentar comprovar que o homem não deva se ocupar sobre a natureza do homem e, na sequência, a tentar comprovar que, mesmo que o homem deva se ocupar de tal assunto, Hipócrates o tenha feito errado e tenha, de fato, falado completamente errado.[15]

Hoje, novamente, muitos se erguem contra o legado hipocrático, em seus termos éticos e profissionais, sem o estudo atento dos originais, sem a dedicação e a seriedade necessárias para não cometer injustiças e sem a adequada educação filosófica. Falta ainda a “dialética” solicitada por Galeno, falta o correto aprendizado da filosofia, a adoção de um estado de espírito rigoroso com o saber e o viver em busca da real sabedoria.

Carentes do pensamento filosófico e do conhecimento dos erros e acertos de nossos antepassados, muitos em nossos dias mergulham nas aventuras da cultura da morte a defender homicídio infantil, aborto e eutanásia, novamente dispostos a transformar o médico em um hábil executor. Eis o mal da inconsciência moral e histórica, a degradação de toda uma profissão e o extermínio de um precioso legado cultural. O médico, por sua empáfia, está prestes a jogar sua alma ao abismo e fazer vergonha a todos os vocacionados que nos precederam e que nos sucederão.

Galeno recorda ao longo da sua obra os escritos de Platão e Aristóteles como base para sua elegia de Hipócrates, assim como Aristóteles fazia em sua obra, reunindo a opinião dos sábios que o antecederam; uma antiga forma de estabelecer o status quaestionis, o estado da arte. Com a consciência de que devemos muito aos mortos e que ainda com eles dialogamos de forma constante, podemos caminhar evitando inúmeros erros. Nas palavras de Ortega y Gasset: Quase, quase poderia afirmar que o presente é mero pretexto para que haja um passado e um futuro, o lugar onde ambos logram ser o que são: passado e futuro.[16]

Galeno também ressalta a importância de que médicos sejam bem-educados, para evitar incorrer em injustiças como aquelas por ele criticadas.

Por mais que o aviso seja antiquíssimo, pois Cláudio Galeno (ou Élio Galeno) foi o mais proeminente dos médicos romanos dos séculos II e III da Era Cristã, muitos ainda criticam Hipócrates de ouvir falar, e quando leem sua obra, são de regra acometidos pelo juízo dos incautos. Um exemplo foi discutido na obra Arte Médica: De Hipócrates a Cristo, na qual fiz uma crítica à idéia de que a moralidade hipocrática na medicina seria extremamente paternalista.[17]

E quantas vezes ainda se busca o holofote e a fama enterrando-se a verdade, que é de regra dolorosa e humilhante? O duelo entre o politicamente correto e a verdade é muito mais antigo do que a maioria ousa imaginar.

É tão necessário hoje quanto o foi à época que sejamos treinados na dialética. Assim era chamada a Filosofia por alguns. Um excelente exercício dialético, realizado rotineiramente pelos profissionais da saúde, é o raciocínio clínico, evolvendo diagnóstico, terapêutica e prognóstico. As idas e vindas do raciocínio hipotético-dedutivo são um dos mais excelentes exercícios da dialética e, se bem conduzidos, podem gerar uma mente potente.

Uma vez apto a realizar a dialética, o profissional deve executar a arte demonstrativa. Com lógica rigorosa, o elenco de premissas e fatos deve ser apresentado ao ouvinte de forma que seja realmente convencido no bom sentido.

Um bom médico deve estar preparado não somente para raciocinar, mas também para demonstrar suas conclusões e hipóteses por meio de uma exposição adequada, seja dentro de um consultório, seja em uma disputa acadêmica. Tal exposição deve ser por meio de fatos da experiência amparados por uma lógica precisa.

Os alertas de Galeno, a título de conclusão dessa primeira parte de sua obra Método da Medicina, nos remetem à importância do estudo aprofundado das Humanidades Médicas ao longo da vida e nos levam à compreensão da vida profissional como uma vida que avança além do simples ofício da cura e que almeja a expressão de nobres ideais e valores. É forçoso admitir que o médico, ou qualquer outro profissional dedicado diretamente ao bem do próximo por meio do cuidado e da cura, muito ganhará em termos pessoais e muito bem adicional poderá oferecer se estiver realmente engajado naquilo que Sertillanges muito bem chama de A Vida Intelectual[18], isto é, no engajamento moral e técnico na sua profissão.

Assim como Galeno, ao ser convocado por Hiero a transmitir seus conhecimentos e apelar aos mais altos valores de sua profissão, espero que colegas médicos ainda hoje tenham a capacidade de escutar àqueles que nos chamam a defender a chama da antiga arte médica e tenham a noção de que são todos guardiões dessa mesma arte milenar, sempre em mudança, mas, ao mesmo tempo, zelosa tradutora dos mesmos ideais que moveram toda a família de Esculápio e Hipócrates ao longo das eras.

Bibliografia

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______. Arte Médica. De Hipócrates a Cristo. Brasília, DF: Monergismo, 2018.
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______. Romanos. São Paulo: Paulus, 2002.
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Código de Ética Médica: Resolução CFM no 2.217, de 27 de setembro de 2018, modificada pelas Resoluções CFM 2.222/2018 e 2.226/2019 / Conselho Federal de Medicina. Brasília: Conselho Federal de Medicina, 2019.
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ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião das Massas. Campinas: Vide Editorial, 2016.
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SERTILLANGES, Antonin-Dalmace. A Vida Intelectual. Seu espírito, suas condições, seus métodos. São Paulo: É Realizações, 2010.
VOEGELIN, Eric. Israel e a Revelação. Ordem e História Volume 1. São Paulo: Edições Loyola, 2009.


[1] 1. πειδ κα σύ με πολλάκις Ἱέρων φίλτατεκα λλοι τινς νν ταροι παρακαλοσι θεραπευτικνμέθοδον ατος γράψαιγ δ μάλιστα μν κα μν χαρίζεσθαι βουλόμενοςοχ κιστα δ κα τος μεθ᾿ μςνθρώπους φελσαι καθ᾿ σον οἷός τέ εμι προαιρούμενοςμως κνουν τε κα νεβαλλόμην κάστοτε διπολλς ατίαςμεινον εναί μοι δοκε κα νν ατς διελθενπρν ρξασθαι τς πραγματείαςχουσι γάρ τιχρήσιμον ες τ μέλλοντα ηθήσεσθαι.
κεφάλαιον μν ον πασν ατν στι τ κινδυνεσαι μάτην γράψαιμηδενς τν νν νθρώπων ς πος επενλήθειαν σπουδάζοντοςλλ χρήματά τε κα δυνάμεις πολιτικς κα πλήστους δονν πολαύσεις ζηλωκότωνς τοσοτον ς μαίνεσθαι νομίζειν ε τις ρα κα γένοιτο σοφίαν σκν ντιναονατν μν γρ τν πρώτην καντως σοφίανπιστήμην οσαν θείων τε κα νθρωπίνων πραγμάτωνοδ᾿ εναι νομίζουσι τ παράπαν·
GALENMethod of Medicine, Volume I: Books 1-4. Edited and translated by Ian Johnston, G. H. R. Horsley. Loeb Classical Library 516. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2011, p. 2-3.
[2] CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Código de Ética Médica: Resolução CFM no 2.217, de 27 de setembro de 2018 , modificada pelas Resoluções CFM 2.222/2018 e 2.226/2019 / Conselho Federal de Medicina. Brasília: Conselho Federal de Medicina, 2019.
[3] ANGOTTI NETO, Hélio. A tradição da medicina. Brasília, DF: Academia Monergista, 2015.
[4] ANGOTTI NETO, Hélio. Arte Médica. De Hipócrates a Cristo. Brasília, DF: Monergismo, 2018.
[5] Hippocrates, Heracleitus. Nature of Man. Regimen in Health. Humours. Aphorisms. Regimen 1-3. Dreams. Heracleitus: On the Universe. Translated by W. H. S. Jones. Loeb Classical Library 150. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1931, p. 368-369. 
[6] Hippocrates, Heracleitus. Nature of Man. Regimen in Health. Humours. Aphorisms. Regimen 1-3. Dreams. Heracleitus: On the Universe. Translated by W. H. S. Jones. Loeb Classical Library 150. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1931, p. 58-59. 
[7] Hippocrates. Affections. Diseases 1. Diseases 2. Translated by Paul Potter. Loeb Classical Library 472. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1988, p. 6-9. 
[8] HIPPOCRATES. Ancient Medicine. Airs, Waters, Places. Epidemics 1 and 3. The Oath. Precepts. Nutriment. Translated by W. H. S. Jones. Loeb Classical Library 147. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1923, p. 14-17.  

[9] VOEGELIN, Eric. Israel e a Revelação. Ordem e História Volume 1. São Paulo: Edições Loyola, 2009.
[10] BÍBLIA DE JERUSALÉM. Romanos 3,10-12. São Paulo: Paulus, 2002.
[11] ANGOTTI NETO, Hélio. A tradição da medicina. Brasília, DF: Monergismo, 2016, p. 33.
[12] Ibid., p. 32-33.
[13] Alusão às trinta moedas de prata obtidas por Judas ao trair Jesus e entrega-lo com um beijo àqueles que o executariam em uma cruz após violentas torturas. BÍBLIA DE JERUSALÉM. Mateus 27.3-10. São Paulo: Paulus, 2002.
[14] ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião das Massas. Campinas: Vide Editorial, 2016.
[15] τί πειρ διαβάλλειν  οτος τ χρηστ δι τ παρ τος πολλος εδοκιμεν, νν περβάλλεσθαι τος ληθέσιν, ε φιλόπονός τέ τις εης κα ληθείας ραστής; τί δ τ τν κροατν μαθίᾳ συμμάχ κέχρησαι κατ τς τν παλαιν βλασφημίας; μ τος μοτέχνους τ πατρί σου κριτς καθίσς ατρν, τολμηρότατε Θεσσαλέ· νικήσεις γρ π᾿ ατος κα καθ᾿ πποκράτους λέγων κα κατ Διοκλέους κα κατ Πραξαγόρου κα κατ πάντων τν λλων παλαιν, λλ᾿ νδρας παλαιούς, διαλεκτικούς, πιστημονικούς, ληθς κα ψευδς διακρίνειν σκηκότας, κόλουθον κα μαχόμενον ς χρ διορίζειν πισταμένους, ποδεικτικν μέθοδον κ παίδων μεμελετηκότας, τούτους ες τ συνέδριον εσάγαγε δικαστάς, π τούτων τόλμησον πποκράτει τι μέμψασθαι, τούτων κρινόντων πιχείρησόν τι τ μιαρ κα βαρβάρ σου φων πρς πποκράτην διελθεν, πρτον μν ς ο χρ φύσιν νθρώπου πολυπραγμονεν· πειτα δ ς ε κα τοτο συγχωρήσειέ τις, λλ᾿ τι γε κακς ατν ζήτησεν κενος κα ψευδς πεφήνατο σύμπαντα. GALENMethod of Medicine, Volume I: Books 1-4. Edited and translated by Ian Johnston, G. H. R. Horsley. Loeb Classical Library 516. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2011, p. 14-15.
[16] ORTEGA Y GASSET, José. Origem e Epílogo da Filosofia. Campinas: Vide Editorial, 2018, p. 15.
[17] ANGOTTI NETO, Hélio. Arte Médica. De Hipócrates a Cristo. Brasília, DF: Monergismo, 2018.
[18] SERTILLANGES, Antonin-Dalmace. A Vida Intelectual. Seu espírito, suas condições, seus métodos. São Paulo: É Realizações, 2010.