quarta-feira, 11 de abril de 2018

A CULPA NOSSA DE CADA DIA - PARTE 1

A CULPA NOSSA DE CADA DIA - PARTE 1
Um estudo fenomenológico da crise no Brasil com base nos Esquemas de Diferenciações de Karl Jaspers a respeito da culpa.

Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim; e o meu vigor se tornou em sequidão de estio.
Salmos 32.3,4.



1. Caminhar sem enxergar
O Brasil cambaleia. Andamos – ou rastejamos? - por tempo demais rumo à sombra que margeia o abismo, confiando em guias cegos enquanto tapávamos nossos olhos e sorríamos indolentes. Em nossa boca o pão fácil, para nossos olhos as belas imagens naturais do gigante eternamente adormecido e o espetáculo artificial das mídias de massa, em nosso sangue a anestesia dos tóxicos lícitos e ilícitos, em nossos ouvidos o discurso vazio da demagogia e a narração do jogo de futebol de domingo, reminiscências de uma glória esportiva perdida e agora degenerada, tão artificial quanto aquelas lutas-livres de nossa infância.
Assistimos dia após dia aos julgamentos e peripécias de nossas elites política, econômica e judiciária; atores de um grande teatro que nos custou o futuro de atual geração de jovens. Muitos afirmam, como já declamou tantas vezes Manuel Bandeira: Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei, lá tenho a mulher que eu quero, na cama que escolherei. Vou-me embora pra Pasárgada. 
Arrumam, por aí, suas malas e partem com famílias e dinheiro para o norte das Américas ou para nossa antiga pátria mãe, Portugal. Os que ficam para trás, muitas vezes murmurando, lamentam a má sorte, a violência e a desgraça de cada dia que desfila na televisão junto a comerciais de estatais e doses de sofística.
 No discurso, por todos os lados, alguns padrões se repetem.
Os inflamados da esquerda, em cujo coraçãozinho revolucionário está sempre aquela velha sede de sangue, aquela antiga vontade gnóstica de olhar na cara de Deus erguendo o punho para dizer que sabe melhor qual deve ser o destino alheio enquanto expurga a criação dos indesejáveis, gritam cada vez mais alto. Basta um empurrão, e lá estão eles esquentando as grelhas para o holocausto enquanto afiam suas facas e municiam suas armas. É simplesmente doentio e maligno. Como o mais patético histérico, gritam horrorizados com a violência da direita, com o terror dos militares (agora já esclerosados) enquanto espancam pessoas na rua – somente quando estão em franca maioria, veja bem - e destroem patrimônios públicos e privados. 
Os moderados da esquerda, que receiam condenar seus radicais violentos e seus salvadores da pátria, símbolos de uma democracia de aparências em busca da próxima tirania, e que lamentam ao perceber que algo profundo e significativo rompeu na imagem da esquerda em nosso país, tentam ganhar tempo. Mas sabem que o abismo está a um ou dois passos. Sabem que serão os mencheviques de amanhã ou os culpados pela sangria de depois de amanhã. Fazem alianças, brincam de faz-de-conta, fingem ser um pouco, mas só um pouquinho, liberais ou até mesmo conservadores. 
Os de centro, uma boa desculpa para permanecer alienado, trancado fora do mundo tempestuoso da política e da cultura brasileira, continuam placidamente sem fazer nenhuma diferença, a não ser dar eco para os malignos. Permanecem partidários da temperatura morna, cujo destino será ser vomitado da vida pública se ainda houver futuro. Restolho podre de um velho conservadorismo bem brasileiro, o conservadorismo do conchavo, dos esquemas, dos arranjos onde todos saem gargalhando enquanto a maioria que não se enquadra neste “todos” permanece embaixo, pisoteada e explorada.
Os de direita, otimistas com um afamado ressurgimento – um tolkenianoretorno do rei para terras tupiniquins? -, crentes na mudança cultural que poderá restabelecer um rumo ao país como se este fosse uma tábula rasa e toda a maldade acumulada pudesse ser dissipada em menos de meio século, estudam e promovem cursos e planos para fazer alguma diferença, ou somente para cumprir o dever de casa, que tantos outros ignoraram. O risco é ignorar a proximidade do abismo, assim como os moderados da esquerda, e achar que com um grande salto sairão da escuridão ao observar uma luz no Norte, ao longe. No meio do caminho está ainda a selva escura, e podem acabar tropeçando na entrada daquele local onde um solene aviso sobre abandonar as esperanças repousa pregado. A serpente ainda se contorce, e o veneno ainda está na presa.
Outros da direita enxergam claramente o abismo, e buscam antigas soluções, tocam cornetas enferrujadas e clamam por uma botina militar. Assumem de peito aberto o estado incipiente ou até mesmo demente de nossa democracia enquanto pedem o punho de ferro de generais, marechais e tantos outros “ais”. Lá vamos nós pelo mesmo caminho outra vez, caindo no engodo da dialética do poder entre dois processos revolucionários: o positivismo autoritário militar e o revolucionarismo radical autoritário da esquerda. Não haveria uma solução que não nos reduzisse a crianças guiadas pela mão de um pai bravo? Quando deixaremos de ser Pérsia, com seus Reis-deuses e nos tornaremos Atenas, dispostos a debater na Ágora?
Muitos caminhos, uns de sangue, outros de perigo, talvez nenhum deles de luz. Veritas filia temporis. Mas antes de apontar rumos, algo de podre caminha conosco. Talvez nossos próprios ossos, que assim ficaram enquanto negávamos consciência a nossas culpas. Sem arrependimento não há novo nascimento, como disse O Mestre.
Há uma culpa a ser reconhecida, há uma culpa a pagar. De certa forma todos somos devedores, todos somos responsáveis pela sangria cultural, econômica e literal que se abateu sobre nosso país. Enquanto nos calarmos, a podridão continuará entranhada, continuará nos roendo por dentro, prometendo falsas esperanças, oferecendo vãs filosofias, exibindo futuros enganosos.
Busco no relato de Karl Jaspers os instrumentos para pensar minha culpa, nossa culpa. O filósofo alemão também pensou sua culpa e a culpa de seu povo, o alemão. 
Por meio de palestras proferidas em 1946, logo após o terror do nazismo e dos campos de concentração, Jaspers abordava um tema que feria profundamente o povo alemão. O mundo ouvia falar dos crimes impossíveis cometidos pelo nazismo, ouvia falar do Julgamento de Nuremberg e discutia como pagar a dívida moral alemã, como compensar os crimes de um passado terrível. 
É certo que um dos vencedores da Grande Guerra (que coisa pequena, chamar uma guerra como a que foi travada de grande) massacrou ainda mais; porém os vencedores têm a chance de reescrever a história. O julgamento dos comunistas chega tarde, mas os fatos não mudaram, e cada coisa vem a seu tempo. Agora é tempo de escrever sobre a culpa alemã e a culpa brasileira. Daqui a pouco volto na culpa comunista, entrelaçada com nosso problema atual; recuso-me a cair na amnésia histórica, como foi denunciada por Alain Besançon em sua Infelicidade do Século.[1]
Também no Brasil o radicalismo político e cultural desperta militantes raivosos que matam e espancam à luz do dia, quebrando sua devida cota de vidros e - quem sabe? - cristais. A Sturmabteilungde Hitler, os jovens violentos da revolução cultural de Mao Dze Dong e os bolcheviques, nem tão jovens assim, também quebraram sua cota de vidros, cristais, costelas e crânios. Jaspers avisou em sua breve obra sobre a culpa que:
Em todo lugar, pessoas têm características parecidas. Em todo lugar existem minorias violentas, criminosas, vitalmente ativas, que à primeira oportunidade tomam o poder e procedem de modo brutal.[2]
O Brasil carrega a maldição de ter uma parcela pequena, porém organizada, fanática e violenta, de militantes nascidos do fogo da teologia da libertação com a fúria messiânica do populismo tupiniquim marxistóide. Matam, picham, espancam, quebram, queimam, depredam, roubam e oprimem de fato enquanto gritam seu estatuto de eternas e pobres vítimas do sistema; sistema este que ocuparam por tanto tempo e que aprenderam a manobrar tão bem.
Agora é a hora - antes tarde do que nunca - de avaliar nossa culpa. Como chegamos aqui. 
É hora de avaliar como pagaremos por nossa culpa, como nos arrependeremos e como renasceremos. Se tal renascimento será para trevas profundas, no fundo do abismo o qual margeamos com passos cambaleantes de bêbado, ou se será renascimento para o verde gramado do lado de fora da sombra, só Deus sabe. Todavia, independente da claridade por onde caminhamos, teremos uma parcela personalíssima de responsabilidade e culpa a prestar contas, cedo ou tarde.
LEIA A PARTE 2

[1]No livro Infelicidade do Século, Besançon critica o excesso de atenção que o nazismo ganhou enquanto o comunismo passou incólume pelo julgamento moral que se seguiu à Segunda Guerra Mundial.
[2]JASPERS, Karl. A questão da culpa. A Alemanha e o nazismo. São Paulo: Editora todavia, 2018, p. 91.

A ARTE MÉDICA - LANÇAMENTO

Prefácio do Livro ARTE MÉDICA


Refletir sobre o comportamento social, a vida em comunidade e as relações humanas nos leva por necessidade a lidar com conceitos como moral e ética. Tão semelhantes à primeira vista, são na verdade de todo distintos quando colocados à luz da filosofia.

Ética é palavra originária do grego ethos. Sua etimologia significa refúgio, morada, habitat. Segundo os filósofos, refere-se à índole, ao caráter; são os valores mais nobres conquistados com o aprendizado, adquiridos com a sabedoria.

A ética se porta muitas vezes como questionadora da moral, da justeza de regras impostas. A reflexão ética é essencial nesse campo, pois a moral nada mais é que o conjunto de costumes, regras, tabus e convenções estabelecidos pelas sociedades, passível de caducar de tempos em tempos.

Ao longo da história, por incompreensão das diferenças e também das similaridades entre esses dois conceitos, estabeleceu-se um abismo entre a ciência e a religiosidade. Construiu-se a falsa ideia de incompatibilidade, quando são complementares.

Hoje, mais que nunca, ética e moral devem caminhar juntas quando se menciona o humanismo na medicina: é mister valorizar a totalidade do indivíduo e não especificamente a doença que o acomete.

Cada vez mais se faz essencial enxergar o ser humano de maneira holística e integrada, e considerar o paciente em seu papel na sociedade, dificuldades, crenças, medos e fraquezas, tão fundamentais para a compreensão do processo do adoecimento.

Parece que, aos poucos, os profissionais de medicina e pacientes estão repensando esses conceitos. Constatam que nada substitui o tratamento humanizado, nada é mais importante que o médico que tem nome e rosto e que conhece o nome e o rosto do paciente.

É tempo de recuperar nossas raízes sem, é claro, abrir mão de toda a modernidade a que temos direito. O resgate da humanização deve pautar sempre a prática da medicina, com o principal objetivo de oferecer assistência digna e de qualidade à população.

Nunca em nossa literatura houve uma obra que ousasse tratar com profundidade do tema e mostrar os vieses e intersecções entre a medicina e a religião. Dr. Hélio Angotti Neto, conhecedor profundo do assunto, traz à luz a discussão de maneira didática e fundamentada, utilizando-se de um linguajar acessível a todos os públicos.

O livro que ora se apresenta deveria ser obra de cabeceira de médicos, professores, estudantes de medicina, e de todos os que lidam com seres humanos, para que possam refletir sobre o papel da tecnologia em sua vida e, em sentido fundamental, a respeito da importância da postura humanizada na prática diária da medicina nos princípios da religiosidade, ética e moral.

Parabéns ao dr. Hélio Angotti Neto pela grande contribuição que traz à medicina em um momento histórico tão peculiar, quando se luta para resgatar valores.

— Dr. Antônio Carlos Lopes
Diretor da Sociedade Brasileira de Clínica Médica

O CÁRCERE DA CONSCIÊNCIA E A PATRULHA DO ÓDIO

O CÁRCERE DA CONSCIÊNCIA E A PATRULHA DO ÓDIO

A resposta exagerada a um texto que acusou respostas exageradas


O texto “Prestando Atenção no que Pouco Importa” despertou vis paixões em milhares de leitores, e boas reflexões em outros milhares.[1]Como eu disse no texto original, muitas pedras[2]nas mãos, bolsos, sapatos e, até quem sabe, nas cuecas.
O assunto abordado foi a enorme repercussão que o brasileiro dá a coisas de magnitude inferior aos mais dramáticos e urgentes problemas que nossa nação já enfrentou. Eis os problemas listados:
- A corrupção de muitos colegas médicos;
- O comprometimento de nossa elite médica com ideais monstruosos, culminando com a tentativa de liberar o aborto e a eutanásia infantil na gestão anterior do Conselho Federal de Medicina;
- O envolvimento de grupos estudantis que teoricamente afirmam comprometimento com a vida humana, mas namoram a indigna Cultura da Morte;
- A imoral e desequilibrada predileção do brasileiro por assuntos menores diante de questões de suma importância, como a estratosférica violência assassina que domina o país – que vive uma guerra civil, vitimando principalmente as camadas mais frágeis da população - e a manipulação ideológica grosseira da alma de nossos jovens e crianças nas escolas.
Toquei numa terrível ferida, ao que parece. A verdade dói, sempre. Contudo, nos liberta. Só é uma pena que tantos prefiram viver algemados na mentira e, assim como aconteceu no Mito da Caverna de Platão, optam por agredir quem quer que queira lhes meter um pouco de juízo nos miolos moles.
Rapidamente vi a engrenagem da violência e do assédio moral girar e lançar destroços por todos os lados.
Os jovens das calças abaixadas – não conheço nenhum deles, tampouco suas famílias – foram acusados de maquiavelicamente estimular estupros e assassinatos de mulheres e de serem racistas brancos e ricos da elite. Não tenho a menor idéia de suas procedências ou de suas classes sociais, mas a patrulha do ódio cego seletivo, doravante chamada de POCS, tudo sabe, tudo vê e todos os pensamentos adivinha, como se fosse uma farsa invertida da onisciência divina. Os videntes que se cuidem, pois a POCS sonda corações e mentes, sonda o passado e as futuras intenções homicidas, racistas e “plurifóbicas” só de olhar fotos.
Fui chamado de leniente, racista, fascista (na verdade, de facista), corporativista[3]e muitos outros adjetivos que, por respeito à minha família e aos demais leitores, declino em repetir. Escutei até uma curiosa ameaça: “O seu nome está na rede, o senhor vai ver...” Lembro que escutei um longo uivo de lobo na noite escura e um som de correntes vindo de um sótão imaginário ao ler essa ominosa advertência.
Sim, meu nome já estava na rede e ficou ainda mais na rede. Graças à POCS, o que escrevo se disseminou ainda mais! Agradeço a todas as carinhosas mensagens, devidamente anotadas para eventuais consultas jurídicas e para lembrar-me da necessidade de falar cada vez mais, de continuar a expor tais erros, principalmente onde geram maior desconforto.

POCS – Patrulha do Ódio Cego Seletivo


Ao meu artigo obtive diversas formas de respostas.
Concordâncias totais ou parciais.
Discordâncias parciais ou quase totais, incluindo argumentos e posicionamentos racionais e suas devidas justificativas.
Discordâncias totais, mantendo o tom de respeito e civilidade.
Discordâncias agressivas com ameaças, ofensas e acusações absurdas. É sobre este último elemento que escrevo agora e nomeio de POCS.
Explico rapidamente o acrônimo.
P de Patrulha, por que seus membros estão à cata de algum fato, pessoa ou grupo que se encaixe em sua visão pré-determinada de mundo, ditada pelo politicamente correto e pela mentalidade revolucionária. São vigilantes das redes, ativistas das cátedras universitárias e justiceiros sociais. Quanto mais vigiam e punem (para parafrasear um de seus ídolos), mas autossatisfação sentem. É o ódio enobrecido pela ideologia que mascara a imoralidade de toda a situação, como diria Gabriel Liiceanu.[4]
O de Ódio, por ser o instrumento de trabalho utilizado e a motivação que aciona a máquina revolucionária, sempre à busca de vítimas que justifiquem o mito imposto. Esse tipo de ódio deve ser calculado com frieza e estratégia, para depois ser despejado na sociedade de maneira inflamada e perturbadora. Não é mais o perdão que cola a sociedade, é o ódio aos inimigos comuns.
C de Cego, por ser caracteristicamente desprovido de bom senso. Nota-se uma perturbada ausência do senso das proporções. Para crimes horríveis, genocídios e assassinatos cruéis, destinam a total ignorância. Para crimes simbólicos, atitudes chamadas às vezes de subconscientes ou inconscientes ou por nascer com o sexo, a cor ou a classe errada, prescrevem-se perseguições, destruições de carreiras, prisões, exílios e até extermínios. 
S de Seletivo, justamente pelo seu caráter de maniqueísmo catalisador do ódio. Busca-se um inimigo sobre o qual o ódio e a agressão possam ser extravasados numa catarse que preenche o justiceiro social de contentamento consigo mesmo, com sua pureza na violência. O fenômeno é antigo, e nada melhor para aplacar a própria consciência do que descarregar no próximo as culpas reais ou imaginadas de toda a sociedade. 
No fim o que importa para a POCS não é a ofensa ou crime em sua objetividade, é se o ofensor está do lado errado da luta revolucionária e merece ser execrado.

A Violência Simbólica e a Hermenêutica Revolucionária


Demonstrando com exemplos concretos o que eu tentava descrever no artigo anterior, a patrulha odienta arregimentou seu gado de manobra. Gado este composto por jovens que aprenderam a odiar ainda novos, movidos por senhores esclerosados e amargos que tantas vezes ocupam o lugar destinado a professores e pensadores. Jovens que enxergam com as tintas do ódio por onde passam e julgam ao próximo com a pior das intenções. São fariseus modernos que, de forma ainda pior que seus semelhantes de tempos antigos, se lambuzam com o ódio e a maldade, estimulando a violência moral e a perseguição.[5]
A patrulha viu na imagem fotografada um símbolo do machismo, do que denominam cultura do estupro e do desrespeito às mulheres. Estranho como uma foto descarrega tanta comoção, tanto ódio e tanta sede de destruição da reputação e da vida alheia, enquanto o uso do símbolo comunista, representando uma ideologia responsável pelo maior genocídio que a humanidade já viu em milhares de anos de história, é simplesmente ignorado.[6]Fotos de tiranos monstruosos e psicopatas como Lênin e Stálin são exibidas em reuniões políticas e eventos culturais como se fossem a coisa mais normal do mundo. Levantam o punho fechado, proclamando a revolução, como se tal símbolo não significasse tortura, expurgos, fome e extinções de grandes massas populacionais.
Se símbolos perigosos merecem censura e punição, por que alguns símbolos de uma evidência histórica cruel passam impunes e outros são tão perseguidos, mesmo que sejam meras sombras pálidas diante do mal alheio? Para a ideologia, o único mal condenável é aquele que pertence ao inimigo da hora. E todo o mal próprio é justiça pela causa. A ética se reduz ao partidarismo. 

Foto do psicopata Lênin ao lado da presidente removida do cargo, Dilma Roussef, em um congresso do Partido Comunista do Brasil. Retirada da página do Instituto Plínio Correia de Oliveira, Internet,http://ipco.org.br/ipco/o-perigo-vermelho/#.WO_PsojyvIU

A patrulha do ódio vocifera amaldiçoando e pedindo a cabeça dos jovens que, ao fazer um símbolo com as mãos que representa uma vagina e escreverem “pintos nervosos” - simbolizam a morte das mulheres, pelo menos de acordo com a hermenêutica revolucionária.[7]
Mas se realmente prezam a vida das mulheres, como ousaram ignorar a atitude anterior do Supremo Tribunal Federal? Nossos elevadíssimos juízes libertaram aborteiros responsáveis pela morte de uma jovem mãe. A pobre mulher, iludida pela solução teoricamente fácil do aborto, morreu por causa do procedimento ilegal realizado clandestinamente numa clínica da morte e, para que o crime não fosse ligado aos seus perpetradores, recebeu um tiro, foi esquartejada e carbonizada.[8]
Gritam contra a cultura do estupro, mas fingem não existir a norma governamental que libera o aborto para mulheres estupradas sem a necessidade de avaliação psicológica prévia cuidadosa e sem a necessidade de abrir o boletim de ocorrência, fazendo uma denúncia formal. Repito, um monstro estupra uma mulher e a solução é abortar, não há necessidade de se abrir um boletim de ocorrência e perseguir o maldito. O monstro continua à solta para fazer outras vítimas.[9]
É claro que não foi somente a POCS que respondeu. Muitos responderam concordando parcialmente ou totalmente, ponderando e argumentando, com sabedoria e educação. Muitos se revoltaram e ainda se revoltam ao ver o nome da medicina jogado na lama – confesso que também fico revoltado, como não ficaria? Muitos ainda desejam uma punição exemplar.
Alguns, a verdade seja dita, chegaram reproduzindo os dizeres tão manjados dos arregimentadores do ódio, mas ao conversarem comigo, mostraram a capacidade de parar, refletir e compreender, mesmo em discordância. 
Outros repetiam, com razão, a verdade de que o que é certo continua certo, mesmo que poucos o façam, e que aquilo que é errado continua errado, mesmo que ninguém o faça. Eu disse o contrário, alguma vez?
 O Mecanismo do Bode Expiatório

Espantalhos foram levantados. O antigo, cruel e implacável mecanismo do bode expiatório foi disparado. Os jovens serviram como catalisadores das reações acusatórias e encarnaram a culpa lançada pela patrulha do ódio cego destinado somente aos premiados inimigos da hora, selecionados pela ideologia e pela causa que merece atenção de acordo com as decisões daqueles que puxam as cordas. 
Não eram mais jovens. Viraram monstrengos, estupradores, assassinos. Foram rotulados da forma mais compatível com o que prega a patrulha: eram brancos, de classe alta, heterossexuais etc. 
A bem da verdade devo dizer que não os conheço, não sei se são brancos ou pardos, não sei a qual classe social eles pertencem e tampouco sei ou quero saber suas preferências sexuais, assuntos que só podem interessar a quem não tem o que fazer.
Não era mais a corrupção, a morte e a deseducação que assolavam o Brasil, era o símbolo que, sem duvida nenhuma – pelo menos no juízo dos raivosos leitores de imagens, símbolos e corações – revelava intenções malignas profundas e perigosas de sair a estuprar e matar ou de estimular pobres mentes influenciáveis a fazê-lo. 
Como eu disse antes, sabia muito bem quem eu iria cutucar. Como a serpente cuja cabeça foi esmagada, o corpo asqueroso dessa cosmovisão assassina e decadente ainda se revira, mudando de cor e de posição. Mesmo após a exposição de toda a malícia, o ódio revolucionário continua projetado, visto em cada ato daqueles que não concordam, concentrado naqueles que devem ser sacrificados para que ocorra a catarse.
O ódio será destilado. É destilado neste exato momento.
Punições exemplares e desproporcionais serão solicitadas. E ao fim, quando os bodes escolhidos para a imolação tiverem sua moral, suas mentes e suas vidas devassadas, restará à POCS o satisfatório sentimento de vitória. Foi cumprida a justiça ideológica. Os símbolos sutilmente impostos pelos intelectuais orgânicos foram concretizados na realidade, gerando a satisfação de concluir a profecia autorrealizável e a alegria abjeta de quem se compraz impunemente na violência e na destruição de reputações.

A Busca pelas Virtudes e a Educação das Emoções


E quanto aos jovens? A estimulação agressiva de suas culpas com acusações de intenções homicidas e cruéis os levará ao desequilíbrio emocional e psicológico, talvez eles até mesmo abracem a causa daqueles que os agrediram, numa curiosa reviravolta ao estilo da Síndrome de Estocolmo. Ou talvez tenham a força de caráter e a humildade suficientes para aprender a lição e jamais repetir a desnecessária e desrespeitosa exposição de suas pessoas sem que concordem com o mecanismo do bode expiatório. Talvez compreendam melhor a sociedade em que vivem. E talvez compreendam a fragilidade de seus futuros pacientes e a nobre vocação que desejaram seguir, tão fragilizada e vilipendiada, em parte graças a eles neste momento.
Simpatizo com as famílias dos jovens, que devem estar absolutamente horrorizadas com a atitude de seus filhos e ainda mais com o ódio sistêmico despertado Brasil afora. Sou marido e pai, tenho meu telhado de vidro, sei que educar não é fácil, e filhos possuem vontades próprias e cometem erros e acertos. 
Que eles paguem o que é devido. Tenho certeza de que os professores e o Conselho Regional de Medicina agirão com competência e responsabilidade ao julgar o caso. Espero que a lição seja aprendida.
Porém, confesso uma coisa. Como eu gostaria de ver a revolta e a punição proporcional ao erro dos perigos que ameaçam a medicina e, sobretudo, a vida de nossos pacientes!
Quem se revoltará contra médicos aborteiros que atuam na ilegalidade, matando mulheres e seus filhos? Quem se revoltará contra estudantes que defendem ideologias sanguinárias e vestem camisas do cruel porco fedorento Che Guevara, assassino de adolescentes, homossexuais e prisioneiros que cometeram o delito de discordar ou de pertencer à “classe” errada? Quem se revoltará contra os manipuladores que ousam conspurcar o título de professor enquanto arrombam a alma de seus pupilos, entregues inermes aos mais grotescos assédios ideológicos?
Sinceramente, não consigo prever justiça no momento. Vejo uma horda de ovelhas que engolem o discurso projetado pelo ódio e pela sanha de poder e controle de uma minoria realmente privilegiada, que estimula conflito por meio de frases de efeito entorpecedoras. 
Mesmo pessoas inteligentes e razoáveis estão caindo na manipulação simbólica e linguística das velhas raposas assanhadas. Lamento, mas o alvo da justa ira continua desfocado.
 Quem diria que a geração que nasceu do "é proibido proibir" seria a ferramenta ideal e intransigente do politicamente correto! A dialética é, de fato, um assunto muito interessante para o estudo e a compreensão da realidade.
Gostaria que lessem e meditassem sobre as palavras ditas por alguém muito mais experiente, inteligente e sábio do que este nem tão jovem que ousa virar o espelho na direção do leitor e de si mesmo:
"Numa alma bem estruturada, as emoções refletem naturalmente o senso das proporções e a realidade da situação. A afeição, a esperança, o temor, a ansiedade, o ódio são proporcionais aos seus objetos e, nesse sentido, são verdadeiros órgãos de percepção. Afiná-las para que cheguem a esse ponto é o objetivo de toda educação das emoções. Na sociedade histérica, porém, cada um só pode alcançar esse objetivo mediante um tremendo esforço de tomada de consciência e de auto-reeducação. O que deveria ser simplesmente o padrão da normalidade humana torna-se uma árdua conquista pessoal."[10]
A fúria acionada por gatilhos verbais e a incapacidade de analisar com calma, proporcionalidade e senso de hierarquização da conduta que se vê no Brasil é, por fim, o fruto de uma elite psicopática que convenceu um povo a entrar na louca histeria de seus sonhos imorais.[11]
Nas palavras do psiquiatra Andrew Lobaczewski:
A interpretação tradicional dessas grandes doenças históricas já ensinou aos historiadores a distinguir duas fases. A primeira é representada por um período de crise espiritual na sociedade, que a historiografia associa ao esgotamento dos valores morais, religiosos e ideativos, que até então alimentavam a sociedade em questão. O egoísmo aumenta entre os indivíduos e os grupos sociais, e as ligações entre a obrigação moral e as conexões sociais parecem se afrouxar. Assuntos sem importância, em seguida, dominam as mentes humanas em tal extensão que não há espaço sobrando para pensar sobre assuntos públicos ou para um sentimento de comprometimento com o futuro. Uma atrofia da hierarquia de valores no pensamento dos indivíduos e das sociedades é também uma indicação disso; algo que tem sido descrito tanto em monografias historiográficas quanto em artigos de psiquiatria. O governo do país é finalmente paralisado, impotente frente aos problemas que poderiam ser resolvidos sem grande dificuldade sob outras circunstâncias. Vamos associar tais períodos de crise com a fase familiar da histerização social
A próxima fase é marcada por tragédias sangrentas, revoluções, guerras e quedas de impérios. As deliberações dos historiadores ou dos moralistas sobre essas ocorrências sempre deixam atrás de si um certo sentimento de deficiência em relação à possibilidade de perceber certos fatores psicológicos discerníveis dentro da natureza dos fenômenos; a essência desses fatores permanece fora do escopo de suas experiências científicas.[12]
Olhemos o nosso Brasil e reflitamos. Perdemos nossa substância espiritual e moral. Ocupamo-nos cada vez mais com imbecilidades e coisas sem importância alguma. Tornamo-nos cegos aos maiores problemas de nossa combalida sociedade e concentramos esforços e pensamentos ao redor de símbolos artificiais e banalidades como o Reality Shows de quinta categoria, que mostram o que mais de medíocre e desinteressante existe na sociedade, estimulando os mais baixos sentimentos e a mais vã curiosidade. A liderança corrompida e corruptora assiste ao assassinato e à destruição maciça do povo brasileiro e permanece paralisada ao redor de projetos sem importância ou simplesmente da salvação pessoal em meio às denúncias de corrupção da operação Lava-Jato. O Brasil está histérico, e mesmo as pessoas que não se enquadram no perfil psicopático estão permitindo a tosca manipulação verbal dos piores elementos.
O brasileiro teve a sua consciência encarcerada.

A MORALIDADE CRISTÃ E NIETZSCHE


Nietzsche dizia que a moralidade cristã era a moralidade de escravos ou servos. Se servo for utilizado no sentido de servir ao próprio Deus, infinito, soberano e supremo acima de tudo e todos, com certeza o Nietzsche estava certo.
Alguém consegue imaginar como a fé e a moralidade cristã são pujantes, maravilhosas e intimidadoras? Imaginem pessoas, em sua maioria simples membros da classe mais baixa, dispostas a serem devoradas por leões famintos, dispostas a terem suas peles rasgadas e seus membros arrancados a mordidas vorazes para que servissem de grotesco espetáculo para a turba sanguinária.
Qual a razão dessa punição tão exemplar? Ousaram não se ajoelhar perante César, a suprema autoridade mundana.
Na perspectiva imanente, a moralidade cristã é absurdamente nobre e, ousaria dizer, aristocrática no mais supremo dos sentidos possíveis: a aristocracia do Espírito, relativa a pertencer à família do próprio Deus Pai.
Voltando a Nietzsche, ousaria dizer que ele tomou por cristã a moralidade medíocre da baixa burguesia de seu tempo. Enxergou na moralidade das convenções utilitárias e hedonistas uma fria, pálida e triste caricatura do que seria a verdadeira moralidade do Cristo.
Disse ele que "na verdade existiu somente um cristão, e ele morreu na cruz." Em parte ele está correto, ao perceber o clima sem esperança de seu tempo. Todavia, foi profundamente infeliz em sua constatação ao ignorar o sangue do martírio cristão e a nobreza de tantos exemplos daqueles que ousaram imitar a Cristo ao longo dos tempos.
Ouso imaginar que Nietzsche criticava de forma tão ácida a fé de seu tempo porque ele mesmo ansiava conhecer verdadeiros e corajosos cristãos, repletos da nobreza que não é desse mundo.
Onde estão nossos nobres mártires? Quem ousará tomar a cruz e caminhar? Que Deus dê coragem e nobreza ao nosso povo nesse momento de trevas niilistas e patrulha ideológica.

[1]Só na semana em que o artigo foi a público, foram mais de 70.000 visualizações (somente no blog www.nedicinaefilosofia.blogspot.com.br). Só não pode ser garantido que todos os que viram o artigo leram de fato, tampouco pode ser garantido que todos os que leram tenham refletido. Mas o “estrago” foi feito. Agradeço a todos os detratores e odientos que espalharam o artigo junto com agressivos xingamentos. Que pessoas de boa mente e bom coração possam ler o artigo e refletir de verdade sobre as mazelas de nossa sociedade que ameaçam a medicina e, sobretudo, o paciente.
[2]ANGOTTI NETO, Hélio. A Revolta Contra o que Pouco Importa. Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina, 10 de abril de 2017. Internethttp://medicinaefilosofia.blogspot.com.br/2017/04/a-revolta-contra-o-que-pouco-importa.html
[3]“Coorporativista”, na verdade, por um semialfabetizado. Provavelmente ele confundiu corporação com cooperação e se embananou todo. Eu sempre achei que a fúria e a maldade emburrecem as pessoas, e as evidência continuam mostrando que não estou longe da verdade nesta opinião.
[4]LIICEANU, Gabriel. Do Ódio. Campinas, SP: Vide Editorial, XXXX
[5]Sobre como o ódio pode ser capitalizado pela ideologia, há uma enxurrada de obras, mas a demonstração de como pode ser revestida de falsa nobreza e sentimento de autojustificação encontra-se muito bem escrita na obra: LIICEANU, Gabriel. Do Ódio. Campinas: Vide Editorial, 2015.
[6]Sugiro consultar os estudos disponíveis em: RUMMEL, Joseph. Freedom, Democracy, Peace; Power,
Democide, and War. 
University of Hawaii. Internethttps://www.hawaii.edu/powerkills/; um livro que ajuda a contabilizar os massacres é: COURTOIS, Stephane. O Livro Negro do Comunismo. São Paulo: Bertrand Brasil, 2015.
[7]Sobre como a mentalidade revolucionária pode distorcer tudo ao ponto da louca histeria projetiva do mal, recomendo a leitura atenciosa de: CARVALHO, Olavo de. A Mentalidade Revolucionária. Diário do Comércio, 16 de agosto de 2007. Internethttp://www.olavodecarvalho.org/semana/070813dc.html.
[8]Sobre o caso, assista ao vídeo: Encontrado o corpo da jovem Jandira Cruz que buscou aborto clandestino. Internethttps://www.youtube.com/watch?v=Z2T40ky2x7Y; e leiam o artigo: FANTTI, Bruna. Decisão do STF sobre aborto em Caxias provoca polêmica. O Dia, 01 de dezembro de 2016. Internet,http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2016-12-01/decisao-do-stf-sobre-aborto-em-caxias-provoca-polemica.html.
[9]CRUZ, Luiz Carlos Lodi da Cruz. Mais uma Norma Técnica do Aborto. Pró-Vida de Anápolis, 03 de janeiro de 2005. Internet,http://www.providaanapolis.org.br/index.php/todos-os-artigos/item/215-mais-uma-norma-t%C3%A9cnica-do-aborto.
[10]CARVALHO, Olavo de. Senso das proporções. Notas das Redes Sociais Reunidas, 21 de dezembro de 2016. Internethttps://olavodecarvalhofb.wordpress.com/2016/12/21/senso-das-proporcoes/
[11]LOBACZEWSKI, Andrew. Ponerologia. Psicopatas no Poder. Campinas: Vide Editorial, 2014.
[12]Ibid., p. 152.

sábado, 7 de abril de 2018

METACRÍTICA – ESTUDO DE UMA CRÍTICA “CRÍTICA” AO LIVRO A MORTE DA MEDICINA

A CRÍTICA DE UMA CRÍTICA "CRÍTICA"...

Li uma curiosa crítica – um tanto confusa, diga-se de passagem - no formato de comentário acerca de meu livro A Morte da Medicina no portal da Amazon brasileira, tecida por Lúcia Fernandes em 25 de dezembro de 2017. 

Deixo que o livro "A Morte da Medicina" fale por si só, na medida do possível, e que cada um tire suas conclusões. Contudo, gostaria de utilizar o texto público lá depositado como material útil para a análise do que rola de incoerência nas cabeças pensantes por aí. Deixo o texto original dentro de caixas para facilitar a análise e o acompanhamento do leitor.

Resolvi ler este livro pela indicação do Fernando Carbonieri, em sua postagem no site Academia Médica, o trecho em resumo do livro citava:

"O provocativo título tem tudo a ver com a desilusão que o autor sentiu ao entrar em contato com o infanticídio "em nome da ciência". Nesta obra do amigo e colaborador do Academia Médica Hélio Angotti Neto, podemos ver o como a ciência pode ser perigosa e destruidora. Pior ainda, podemos ver como conceitos inescrupulosos podem se camuflar em um conceito de ética ainda mais deturpado."

Erro meu de não ter pesquisado sobre o autor, não ter visto outros resumos antes de comprar o e-book, pois foi uma leitura um tanto decepcionante.

Acho muito correto o desejo da Lúcia em formar um preconceito em relação a meu livro lendo o que outros disseram e pesquisando sobre mim. Preconceito, em um sentido mais técnico, é uma forma de exercer a inteligência e o juízo provisório com base nas evidências indiretas disponíveis até o momento. [1]

Sobre mim, Lúcia com certeza encontrará informações que me localizarão em uma moldura mais à direita do radicalismo intelectual esquerdista de nossa combalida academia brasileira. É claro que, como qualquer moldura, só serve para conter espantalhos, meros recortes abstrativos de uma personalidade.

Por outro lado, não julgo a leitura de um livro pelas opiniões alheias ou por biografias do autor. Uma intelectualidade sadia preza - ou deveria prezar - que livros sejam lidos antes de serem julgados. Ou, como já dizia Hugo de São Vítor, pode-se aprender algo de útil e verdadeiro de qualquer pessoa. Posso extrair coisas boas e interessantes de uma grande quantidade de autores dos quais discordo e faço questão de ler. Sou cristão protestante e posso ler Marx, Mises, Camus, Dalai Lama, Maomé, Richard Dawkins, Lane Craig, Tomás de Aquino e Bento XVI assim como leio João Calvino e Lutero. Contudo, essa obrigação de recorrer aos originais realmente é exclusiva para aqueles que desejam atuar com seriedade no campo intelectual. Aos demais, que não possuem pretensões de universalização ou profundidade de pensamento, não vejo nada demais em negar a possibilidade de ler algo com o qual discorde ou de alguém com quem não simpatize.

Em resumo, o livro começa mesmo com a decepção pessoal do autor com um artigo publicado sobre o infanticídio na medicina, os primeiros capítulos contemplam uma tentativa de crítica "fundamentada" aos argumentos deste artigo, mas tal tentativa é deveras tendenciosa e diria um tanto preconceituosa. O fato de defender os fundamentos cristãos como norteadores da prática médica e sua opinião pessoal contra o aborto são o topo do iceberg (e não deveriam ser problemas em outros contextos). O autor utiliza-se de argumentos apelativos e falaciosos, o que é uma controvérsia pois muitas das críticas que ele direciona ao artigo científico de infanticídio é que os argumentos são rasos, eufemistas e falaciosos. Se de um lado temos um artigo criticado que "esconde" motivações ocultas da vontade pecadora do ser humano de matar bebês indefesos, temos um outro contraponto, um autor que enxerga pela ótica sensacionalista de assassinato de bebês e tudo caminha para o argumento da mãe "preguiçosa" não querer se esforçar para criar seu filho, a mãe egoísta que se esconde sob o amortecimento do rótulo de "saúde mental" e deseja que isso tire sua culpa de seu desejo de matar bebês, afirmando que não existem doenças mentais após a maternidade. De generalizações para generalizações, não teve muita diferença de qualidade entre a leitura criticada e a crítica em si. Inclusive demonstra um possível despreparo/preguiça do autor em se aprofundar em temas socioculturais, relativizando problemas reais em nossa sociedade. É engraçado até a questão monetária. No começo da leitura ele defende que há verbas para o setor primário e terciário no SUS (afinal são atividades distintas), mas já nos momentos finais do livro, o dinheiro direcionado para a saúde irá todo para os médicos "açougueiros" matarem as crianças indefesas ao invés de irem para causas mais "nobres".

A expressão irônica tentativa de crítica “fundamentada”, com esta última palavra entre parênteses, é típica e mostra a que veio Lúcia. Para ela, deixei o "Crítica" entre parênteses no título desta resposta.

Ela acerta em cheio ao ressaltar que defendo princípios cristãos para a prática médica, o que ela chama de topo do iceberg de minha tentativa tendenciosa e preconceituosa. Contudo, não menciona que princípios semelhantes são observados na tradição hipocrática, no islamismo e em diversas outras formas de se enxergar a vida humana, coincidentes em diversos pontos que marcaram a medicina ao longo dos séculos.

Somente Lúcia pode ser preconceituosa e excluir uma visão de mundo do debate? Se outra pessoa o fizer, é alvo de crítica, mas se lúcia me julga com sua ideologia biônica diversitária derivada de um iluminismo pretensioso de séculos passados, não há problema.

Sobre a chuva de críticas sem referência direta ao texto, convido que zelosos leitores leiam por si mesmos e tirem suas conclusões. Facilitaria o serviço se Lúcia colocasse o número da página em que viu as falácias que acusa. Seria instrutivo para mim pelo menos. 

É interessante também notar que ela me acusa de relativizar problemas em nossa sociedade, pois eu teria dito que “há verbas para o setor primário e terciário do SUS”. E a isso, Lúcia relaciona minha afirmação contra a ida de dinheiro para médicos açougueiros ao invés de irem para causas mais nobres. Falhei em perceber a crítica ali colocada. Ademais, não posso criticar o mau destino do dinheiro público?

O livro talvez seja um bom exemplo da ambivalência do ser humano. A arte de usar argumentos para puxar a sardinha para o seu lado quando é conveniente.

Assim como a Lúcia faz?

Mas não desconsidero que houve todo um esforço e dedicação do autor em suas citações filosóficas e morais cristãs, mas ele peca em seus recortes e coações tendenciosas.

É ético a condução de pensamento em que a metade ocidental é em sua maioria cristã e por isso a medicina precisa seguir a risca de preservar a vida a qualquer custo e quem não o faz é puramente assassino e não pode haver discussões sobre esse tema? Afinal é como um ladrão, pelo exemplo do livro, não tem conversa, é cadeia e pronto. Como se fosse uma lógica binária, tudo preto no branco, ação e reação, desconsiderando toda uma complexidade humana e a complexidade da vivência social.

Bom, essas e outras coisas você encontra neste livro.

Que bom que meu esforço tendencioso foi considerado. Na avaliação ganhei até duas estrelinhas ao invés de uma. Desceu uma lágrima de alegria aqui na maxila direita por causa da condescendência magnânima de Lúcia.

Quanto ao resto, deixe-me reformular uma das preciosas frases de Lúcia: é ética a condução de um pensamento em que a metade ocidental é não cristã em sua minoria e, por isso, a medicina não deve preservar a vida alheia, deixando inclusive de chamar de assassino aquele que mata alguém? Para Lúcia é ética sim. Antiético sou eu, que penso o contrário dela. É a intolerância dos tolerantes, como se diz por aí. Sou acusado de ter lógica binária, de ser simplista em meu pensamento, justamente por ela que reduz cosmovisões alheias a preconceitos opostos à sua maravilhosa visão pluralista e diversificada, acima de todos os meros mortais burros e incapazes de pensar criticamente. Uau.

Quanto ao assassino, realmente não tenho conversa com ele. 

Imagine a situação:

Pode “desassassinar” a criança por favor, minha filha? Ah, ele só matou aquele bebê, coitadinho, não vamos julgá-lo só porque ele julgou e condenou sua vítima à morte, não é mesmo? 

A Lúcia que me perdoe, mas algumas coisas como assassinato, escravidão e estupro não estão disponíveis para discussão séria e digna por boa parte das pessoas. Lamento se feri a visão descolada e nem tão pluralista assim da Lúcia, mas ela precisa aprender a respeitar quem não acha normal matar o próximo.

E, pessoalmente, considero inclusive que o autor não teve uma postura ética/respeitosa perante seus colegas de profissão, ao expor pejorativamente Dráuzio Varella como corporativista apenas por sugerir que o juramento de Hipócrates não condiz mais com a nossa realidade, assim como outras tantas críticas pesadas à outros profissionais dedicados em seu trabalho.

A coisa fica divertida aqui no final. O que critico em meu livro é a falta de cultura humanística a respeito do Juramento de Hipócrates pelo colega Dráuzio Varella, que é muito competente em diversas áreas e talentoso no que conhece a fundo, com certeza. 

É o próprio Dráuzio Varella que chama os colegas de papagaios repetidores de ritos antigos e corporativistas, baseado ele mesmo em uma interpretação própria e anacrônica do Juramento de Hipócrates. Vou repetir para que não haja dúvidas: é o próprio Dráuzio Varella quem chama incontáveis colegas de corporativistas, e Lúcia afirma que quem é desrespeitoso sou eu por chamar o Dráuzio de corporativista.

Essa acusação feita pela Lúcia de que sou desrespeitoso seguida desse erro grotesco de leitura me faz refletir acerca de nossos índices de analfabetismo funcional. E desrespeito e falta de ética é o que Lúcia faz ao pregar tais rótulos odiosos em mim após uma leitura porca do meu livro.

Caminho para o término dessa resenha citando o Dráuzio:

"O que faz da medicina uma profissão respeitável não são as noites em claro nem o conteúdo do que juramos uma vez na vida, muito menos a aparência sacerdotal, mas o compromisso diário com os doentes que nos procuram e com a promoção de medidas para melhorar a saúde das comunidades em que atuamos."

Como afirmo no livro, esse compromisso diário que é o aspecto sacerdotal do médico, e não o fato de passar noites em claro. O meu livro concorda com a essência do que Varella disse nesse trecho, e também critica a prática desprovida de bom senso de alguns que existem por aí.

Deixo um trecho do Juramento de Hipócrates para reflexão em "essência/potencial" sobre dano x compreensão da cultura e ideologia:

"Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém."

Posso causar dano a alguém se eu desconsiderar suas crenças pessoais e submetê-lo ao julgamento perante as minhas crenças? Os jesuítas que vieram catequizar os índios causaram algum dano? Augusto Comte causou dano aos outros seres com sua tentativa de ordem social? A vida tem o mesmo significado para todos? O que significa a vida?

Pela antropologia (a ciência que estuda o ser humano e suas peculiaridades) conhecemos uma gama de diferenças de pensamentos, culturas, atitudes, crenças, valores...

O Enigma de Kasper Hauser também inicia o pensamento nesse sentido, ao expor como seria o desenvolvimento de um ser humano privado do contato social em relação a construção do indivíduo em sociedade.

É danoso para uma pessoa que ela seja assassinada? Será que o pós-modernismo já envenenou tanto as almas despreparadas por aí que as pessoas se tornaram incapazes de perceber o assassinato como ato de maldade? 

É como Roger Scruton critica em seu livro Fools, Frauds and Firebrands, ao constatar que para algumas pessoas certas ideias valem mais do que pessoas, e que para algumas ideologias, a vida alheia daqueles que não se encaixam na utopia subjetiva é menos real do que o maravilhoso plano para um futuro que não se sabe nem como é.

Se diferentes moralidades são argumento contra a existência de parâmetros corretos de moralidade humana, um doido poderia até defender - e alguns realmente defendem! - a tirania e o massacre feito por nazistas e comunistas como algo passível de ser aceito. Aliás, é possível até que haja aqueles tiranos cuja moralidade exija o silêncio tanto de minha parte quanto das esquisitas acusações de Lúcia.

Sinto muito, Lúcia. Seu pluralismo, que prefere julgar livros antes de ler e que não aceita visões diferentes da sua própria visão chique e descolada, realmente não cola.

Colatina, 7 de abril de 2018.


Outros comentários na página de venda do livro disponíveis no dia 07 de abril de 2018...

Muito bom para acadêmicos e médicos entenderem o contexto da decadência de valores na Medicina. Por Pamela Simoa em 23 de agosto de 2015. 5 Estrelas.
O aborto e a eutanasia de fetos é o tema central da discussão da obra, a qual faz alusões relevantes de grandes mestres da literatura mundial sobre a morte. A modificação do juramento de Hipócrates também é discutida, afinal foi proposital?
Muito bom para acadêmicos e médicos entenderem o contexto da decadência de valores na Medicina contemporânea.

Leitura essencial em tempos de decadência moral. Por Cliente Amazon em 18 de novembro de 2016. 3 Estrelas.
Muito bom para quem se interessa por ética médica. O autor deixa de lado o politicamente correto e corre em busca de abordar os fatos como são. Hélio Agnotti Neto em A morte da medicina procura com todas as forças esclarecer que o direito a vida vem antes do direito sobre o corpo, abordando majoritariamente a questão do aborto, criticando veementemente uma pesquisa pró-abortista de Giubilini e Minerva, os quais propuseram algo chamado de "abortamento pós nascimento" (leia-se infanticídio se tirarmos os óculos do eufemismo). Leitura essencial em tempos de decadência moral como os nossos. Dou nota de 3 estrelas por ter esperado pela discussão de outros temas.

O Monstro dominou o Médico. Por little joao em 4 de dezembro de 2016. 5 Estrelas.
A definição mais clara deste livro é a realidade do aborto legalizado pelos abortistas de plantão no STF: Barroso, Fachin e Rosa Weber.
Não somente médicos adoram matar: juristas também. É o ser humano reduzido a uma massa de carne, PIOR do que um animal (vide os veganos, adoradores de bichos etc).

A Morte da medicina. Por Cezar em 11 de agosto de 2014. 5 Estrelas.
Leitura obrigatória para todo médico focado em saúde, pois a medicina brasileira está vivendo um momento único, espero que transformação. Este livro mostra o quanto a medicina pode ser usada para outros fins, que não gerar saúde, questionando a possibilidade destas distorções, que aparentemente pode estar passando despercebida pelos médicos, ser causa da população estar cada vez mais doente ... Como pode o Conselho Federal de medicina ter aceitado discutir sobre o aborto, pior ainda é emitir nota concordando com aborto! Estaria o Conselho Federal de Medicina infringindo o código de ética médica? Pois este código fala para lutarmos pela saúde?

Perfeito!Por Cláudia em 26 de agosto de 2017. 5 Estrelas.
Em linguagem acessível a todos, incluindo quem não tem conhecimento de Medicina e Filosofia.
Leitura indispensável para alertar as pessoas sobre os graves riscos que corremos nas mãos daqueles que julgam deter o poder e a sabedoria.
Indispensável aos médicos e futuros médicos.
Também aos pais de futuros país.
Indispensável a todos nós.

Muito bom! Por Cliente Amazon em 5 de janeiro de 2018. 5 Estrelas.
Muito importante leitura aos que de alguma forma buscam refletir sobre a temática do aborto. Sejam pró-escolha ou pró-vida, seria muito bom que lessem e meditassem no que o autor traz nesse livro. Claro que se for um pró-escolha, pode ser que se irrite um pouco.

Excelente obra. Por Leonardo Lopes em 11 de julho de 2014. 5 Estrelas. 
Grande análise critica das artimanhas que tentam infectar a medicina de uma cultura de morte... Excelentes reflexões sobre ética médica!

Atual.Por Cliente Kindle em 21 de agosto de 2017. 5 Estrelas.
Embora trata de um tema em discussão por milênios, os textos não deixam de refletir realidades muito atuais e contemporâneas.

Apagamento ético. Por Edson Luis Tonon em 30 de setembro de 2014. 1 Estrela.
Libelo monocórdico. Não deixa de ter razão, mas torna-se um pouco cansativo. Abandonei a leitura no 1/3. Esperava abordagem de outros pontos que envolvem a medicina e seu papel social, mas parece que ele resolveu limitar-se ao aborto.

Excelente. Por Cliente Amazon em 18 de janeiro de 2017. 5 Estrelas.
Ótimo Livro!
Argumentação Clara com uma ironia desconcertante, própria de grandes filósofos.
Leitura obrigatória para aqueles que querem discutir, bioética e aborto.

Essencial. Por Fabio em 8 de julho de 2017. 5 Estrelas.
Livro essencial, argumentos sólidos, escrita leve e poderosa. Um assombro à cultura da morte tão dominante nos meios "intelectuais" contemporâneos.



[1]Só para constar, insiro ao fim deste texto os outros comentários que ele afirma que deveria ter lido.