domingo, 9 de abril de 2017

OS DEZ MANDAMENTOS DA ESCRAVIDÃO MORAL

OS DEZ MANDAMENTO DA ESCRAVIDÃO MORAL


O USO DA BIOÉTICA PARA OBRIGAR O EXTERMÍNIO DA VIDA HUMANA


Em Genebra, na Suíça, entre os dias 7 e 9 de junho de 2016, um punhado de quinze filósofos e bioeticistas se reuniu para instituir um consenso de 10 pontos para aconselhar governos e instituições profissionais sobre como lidar com objeção de consciência.[1] Entre os nomes constam nomes já conhecidos, como Alberto Giubilini e Francesca Minerva, que publicaram o infame artigo sobre o Aborto Pós-Nascimento,[2] e Ingmar Perrson e Julian Savulescu, os famosos transumanistas que ambicionam um futuro distópico de maior controle sobre a consciência alheia. É claro que o controle, nesse futuro hipotético de super seres humanos adestrados e maleáveis, será regido pela tecnocracia da qual os iluminados bioeticistas fazem parte.[3]

Segundo tais estudiosos[4], eis os 10 mandamentos de como escravizar a consciência dos médicos:

1. As obrigações primárias dos profissionais da saúde são com seus pacientes e não com suas próprias consciências. Quando o bem-estar (ou o interesse, ou a saúde) do paciente está em jogo, as obrigações primárias dos profissionais da saúde normalmente deveriam ter prioridade sobre suas perspectivas morais ou religiosas.[5] 

Sentir-se obrigado com o paciente é uma forma de estar obrigado pela própria consciência, que nos motiva a nos preocuparmos com o paciente. Esse dualismo entre cuidar da própria consciência ou cuidar do paciente é um jogo de palavras que força sobre nossa percepção um dilema completamente equivocado e abstrato, muito distante da realidade concreta do laço terapêutico entre médicos e pacientes.

Outra imprecisão é o uso da palavra bem estar do paciente. Sem moralidade médica objetiva, que bem estar ou interesse deveria o médico prezar? A coisa toda é de uma imprecisão insuportável.

Como tantas vezes acontece em nossa academia, tudo parece um tenebroso jogo de figuras de linguagem que expressam muito mais sentimentos, espantalhos e alertas de perigo do que verdades reais e concretas.

2. Caso haja conflito entre a consciência do profissional e o desejo do paciente por um serviço médico, legalizado e profissionalmente sancionado, o profissional deve se assegurar de que o paciente receberá o cuidado o quanto antes. Quando ocorrer objeção de consciência, deverá encaminhar o paciente a outro profissional que esteja apto a realizar o procedimento. Em situações de emergência, quando o encaminhamento não for possível, ou quando representar um grande fardo para o paciente ou para o Sistema de saúde, os profissionais devem prover o serviço eles mesmos.[6]

Há de concordar que “grande fardo” é um termo um tanto subjetivo e, portanto, sujeito a abusos e distorções. E encaminhar o paciente a alguém que cometerá um ato imoral guarda em si um aspecto de imoralidade. Imagina um médico que se negue a tomar parte no suicídio assistido encaminhando o paciente ao seu executor, com nome e endereço! Se o Estado ou os iluminados tecnocratas desejam colaborar na morte de seus “súditos”, que providenciem uma lista de executores ou carrascos. O ofício é muito antigo, e é muito mais sincero evidenciar o desejo da elite em prover o extermínio daqueles que deveriam proteger do que corromper toda uma classe profissional destinada à defesa da vida e da dignidade humana.

3. Profissionais do cuidado com a saúde que desejarem fazer objeção de consciência quanto à disponibilização de tratamento médico deveriam explicar a lógica por trás de sua decisão.[7]

Fala-se como se um profissional que fizesse objeção de consciência não devesse explicar sempre sua lógica! Mesmo nas condutas mais simples e pouco controversas o médico sempre deve se explicar ao paciente. Elencar isso como objetivo pode passar a impressão falsa e infame de que pessoas que fazem objeção de consciência são irracionais ou não conseguiriam se explicar. É um insulto sutil.

4. No tocante à objeção de consciência, a situação no Reino Unido e em vários outros países ocidentais é indefensável. Praticantes da assistência à saúde podem negar conscientemente o acesso aos serviços seguros, legalmente disponíveis, socialmente aceitos e prescritos por médicos que são exigidos por seus pacientes por qualquer razão que seja. Isso se deve em parte ao ambiente público no qual o profissional escolhe atuar, onde não há cobrança sobre ele para que se demonstre a razoabilidade e a sinceridade da sua objeção de consciência, o que deveria ser cobrado do profissional.[8]

A acusação de que médicos e demais profissionais da saúde tomam decisões arbitrárias, irracionais e inexplicáveis é, na esmagadora maioria dos casos, completamente falsa. Os autores do manifesto falam como se profissionais da saúde fossem criaturas imbecis e arrogantes, que passam o seu tempo a enganar o próximo e criar desculpas esfarrapadas para não trabalhar. É lamentável que este seja o nível de ausência empática que serve de base para criticar o posicionamento favorável à defesa da vida humana. Ainda mais lamentável é que tal discurso seja feito no cerne da bioética que, teoricamente, foi criada para o diálogo empático.

5. Em tais países, as razões oferecidas por profissionais da saúde para objeção de consciência devem ser verificadas por tribunais, que poderiam atestar sua sinceridade, força e razoabilidade em relação a determinados serviços médicos.[9]

A solução proposta do tribunal da consciência é digna de um Estado Orwelliano, característico dos mais terríveis pesadelos distópicos. É um caminho aberto à perseguição ideológica e religiosa, um excelente instrumento para o controle tirânico do cidadão comum. Que grupos de pessoas instruídas proponham isso abertamente parece a mim um assustador sinal de como pessoas inteligentes e professores podem propor as mais estapafúrdias ideias.

6. Legisladores devem assegurar um número suficiente de profissionais sem objeção de consciência em cada região geográfica, para que os pacientes obtenham os serviços desejados em tempo adequado, mesmo que alguns profissionais apresentem objeção de consciência contras prestar tais serviços. Isso implica em que autoridades locais sejam autorizadas a contratar com base no fato de que certos profissionais não farão objeção de consciência.[10]

Se algum país optar por fazer uma lista de executores com o intuito de exterminar seus habitantes, paciência. Chamar isso de assistência médica ou medicina, por outro lado, é altamente questionável desde os tempos de Hipócrates. Outro ponto assustador é a varredura ideológica geográfica, identificando crenças na população e tabulando pessoas conforme sua concordância ou discordância ideológica com a política da elite governante. É um poderoso instrumento de controle das massas com um monstruoso potencial para causar danos.

7. Profissionais da saúde que se recusam a realizar certos atos por objeção de consciência devem ser obrigados a compensar a sociedade e ao sistema de saúde por sua falha em cumprir suas obrigações profissionais em prover serviços benéficos ao público.[11]

Não bastasse o tribunal de consciência proposto, ainda há a sugestão de trabalho comunitário forçado por alegar objeção de consciência, tratando o médico consciente como um tipo de contraventor ou criminoso. A dicotomia entre servir ao Estado ou servir aos ditames da própria consciência em busca da realização profissional também guarda potencial de forte autoritarismo.

8. Estudantes de medicina não devem ser liberados da aprendizagem de procedimentos básicos que considerem moralmente errados. Mesmo que venham a fazer objeção de consciência, ainda deverá ser obrigatório que façam os procedimentos que geraram a objeção em situações de emergência ou em situações nos quais o encaminhamento é impossível ou implica em um grande fardo sobre os pacientes ou o sistema de saúde.[12]

Obrigar alguém a fazer um ato que considera moralmente errado é uma antiga técnica de manipulação mental que leva à dissonância cognitiva. A participação em um ato imoral leva invariavelmente à racionalização do ato mediante a culpa sentida pelo indivíduo. Para proteger sua integridade psíquica, o recurso encontrado muitas vezes é alterar sua forma de enxergar o mundo e suprimir sua moralidade, adaptando-se à imposição externa.[13] A proposta apela para eventos que, se concretizados, realizarão uma verdadeira lavagem cerebral na população, dobrando todos perante o deus Estado.

9.Profissionais da saúde deverão ser educados a utilizar formas padronizadas de argumentos legais, éticos e profissionais para identificar e fundamentar suas objeções.[14]

À primeira vista, parece uma singela e resignada concessão. Mas impor uma linguagem vai muito além de fornecer meios para se justificar, é a mais útil forma de manipular a realidade subjetiva daquele que utiliza os símbolos verbais propostos. Toda a sequencia de obrigações nada mais é do que um perigoso instrumento de controle travestido de boas intenções bioéticas em relação às pobres pessoas que querem morrer ou abortar seus filhos e são cruelmente impedidas pelos médicos malvados que defendem essa coisa obsoleta chamada vida humana.

10. Profissionais de saúde também devem ser educados para que reflitam sobre a influência de erros cognitivos em suas objeções.[15]

O que esses iluminados querem dizer com a palavra educação e com a proposta de mostrar erros de pensamento é algo provavelmente mais assustador do que reconfortante. Todos esses dez mandamentos cheiram a nada mais do que uma tosca manipulação social e intelectual maquiada com a agradável tinta da tolerância sobre a frágil casca do bom mocismo.

Nossos iluminados engenheiros sociais da Bioética faturam pesado para descobrir novos meios pelos quais nos tornaremos seus escravos. Estou falando de centenas de milhares de dólares para pequenos grupos discutirem o que devemos ser e pensar.[16] Como já dizia Tom Koch, alguns vivem de deliberar sobre o trabalho e a virtude alheia,[17] produzindo pouca coisa de real valor, no fim das contas, se é que não induzem a perigosos erros. Acrescento um velho adágio às deliberações acadêmicas desses iluminados tecnocratas que brincam com os valores e com a liberdade: por que, ao invés de encherem a cabeça alheia de besteiras perigosas, não vão capinar um bom terreno para serem realmente úteis à humanidade?





[1] CONSENSUS STATEMENT ON CONSCIENTIOUS OBJECTION IN HEALTHCARE. Practical Ethics. Ethics in the News. University of Oxford. 29 de Agosto de 2016. Internet, http://blog.practicalethics.ox.ac.uk/2016/08/consensus-statement-on-conscientious-objection-in-healthcare/

[2] Como já tratei em meu livro: ANGOTTI-NETO, Helio. A Morte da Medicina. Campinas: Vide Editorial, 2014.

[3] Como já discutido em artigo publicado no Academia Médica: ANGOTTI NETO, Helio. O Transumanismo e a Revisão do Conceito de Distopia. Academia Médica. 13 de junho de 2016. Internet, https://academiamedica.com.br/distopia-revisitada/

[4] Angela Ballantyne (Otago University), Robert Card (State University of New York, Oswego and University of Rochester Medical Center), Steve Clarke (Charles Sturt University), Katrien Devolder (University of Oxford), Thomas Douglas (University of Oxford), Alberto Giubilini (University of Oxford), Jeanette Kennett (Macquarie University), Sharyn Milnes (Deakin University), Francesca Minerva (University of Ghent), Maurizio Mori (University of Turin), Christian Munthe (University of Gothenburg), Justin Oakley (Monash University), Ingmar Persson (University of Gothenburg), Julian Savulescu (University of Oxford), Dominic Wilkinson (University of Oxford).

[5] Healthcare practitioners’ primary obligations are towards their patients, not towards their own personal conscience. When the patient’s wellbeing (or best interest, or health) is at stake, healthcare practitioners’ professional obligations should normally take priority over their personal moral or religious views.

[6] In the event of a conflict between practitioners’ conscience and a patient’s desire for a legal, professionally sanctioned medical service, healthcare practitioners should always ensure that patients receive timely medical care. When they have a conscientious objection, they ought to refer their patients to another practitioner who is willing to perform the treatment. In emergency situations, when referral is not possible, or when it poses too great a burden on patients or on the healthcare system, health practitioners should perform the treatment themselves.

[7] Healthcare practitioners who wish to conscientiously object to providing medical treatment should be required to explain the rationale for their decision.

[8] The status quo regarding conscientious objection in healthcare in the UK and several other modern Western countries is indefensible. Healthcare practitioners can conscientiously refuse access to legally available, societally accepted, medically indicated and safe services requested by patients in practice for any reason. This is in part due to the cost-free environment in which practitioner choice of service occurs, and in which the practitioner bears no substantive burden of proof. The burden of proof to demonstrate the reasonability and the sincerity of the objection should be on the healthcare practitioners.

[9] Accordingly, in such countries, the reasons healthcare practitioners offer for their conscientious objection could be assessed by tribunals, which could test the sincerity, strength and the reasonability of healthcare practitioners’ moral objections to certain medical services.

[10] Policy makers should ensure that in any geographical region there is a sufficient number of non-conscientious objectors for patients to obtain the medical services they need in a timely manner even if some healthcare practitioners conscientiously object to providing that service. This implies that regional authorities, in order to be able to provide medical services in a timely manner, should be allowed to make hiring decisions on the basis of whether possible employees are willing to perform medical procedures to which other healthcare practitioners have a conscientious objection.

[11] Healthcare practitioners who are exempted from performing certain medical procedures on conscientious grounds should be required to compensate society and the health system for their failure to fulfil their professional obligations by providing public-benefitting services.

[12] Medical students should not be exempted from learning how to perform basic medical procedures they consider to be morally wrong. Even if they become conscientious objectors, they will still be required to perform the procedure to which they object in emergency situations or when referral is not possible or poses too great a burden on patients or on the healthcare system.

[13] BERNARDIN, Pascal. Maquiavel Pedagogo. Campinas, SP: Vide Editorial, 2013.

[14] Healthcare practitioners should be educated to use a framework of decision-making incorporating legal, ethical and professional arguments to identify the basis of their objection.

[15] Healthcare practitioners should also be educated to reflect on the influence of cognitive bias in their objections.

[16] Como pode ser checado no portal do “Centre for Applied Philosophy and Public Ethics: An Australian Research Council Special Research Centre.” Sob o título “Research Grants: Current National and International Competitive Research Grants Awarded To Centre Members.” Lá consta a verba de US$333.300,00 destinada ao estudo da consciência e da objeção de consciência nos cuidados com a saúde, cedida pela ARC Discovery Grant para os bioeticistas S. Clarke; J. Kennett e J. Savulescu, entre 2015 e 2017. Internet, http://www.cappe.edu.au/research/research-grants.htm e http://www.cappe.edu.au/research/conscience-and-conscientious-objection-in-health-care.htm

[17] KOCH, Tom. Thieves of Virtue: When Bioethics Stole Virtue.Cambridge, Massachussets; London, England: The MIT Press, 2012.

sábado, 8 de abril de 2017

A BIOÉTICA E O RETORNO AOS ERROS DO PASSADO

O CÃO E O VÔMITO, A PORCA E A LAMA


Criei o termo Disbioética para expor os tristes rumos tomados por muitos elementos da Bioética.

Criada originalmente para combater a crueldade no campo da saúde e da ciência, a Bioética hoje atua muitas vezes na promoção daquilo que combatia.

De volta estão as velhas idéias que atentaram frontalmente contra a dignidade humana: abortismo, cultura da morte, utilitarismo social, eugenia, instrumentalização da vida, ódio político e supressão da liberdade de consciência. Cá estão de volta as sedutoras palavras e os elaborados conceitos de um velho senhor de uma antiga senzala.

"Com eles aconteceu o que diz certo adágio verdadeiro: O cão voltou ao seu próprio vômito; e: A porca lavada voltou a revolver-se no lamaçal."

No primeiro volume de uma série chamada "Disbioética", dedicada a reunir artigos de crítica cultural e reflexões, abordarei a penetração da baixa politicagem dentro da Bioética e as tendências desumanas que se acumulam nessa área de estudo e pesquisa, além de seu perigoso potencial de engenharia social.

terça-feira, 4 de abril de 2017

O Fantástico Amontoado de Células

O Fantástico Amontoado de Células

 O abortismo à prova da inteligência humana e da realidade.


Uma das grandes afirmações dos abortistas é que o zigoto ou o embrião nada mais é do que um amontoado de células. Com isso, esperam que seja demonstrado o aspecto inumano “daquilo” que está dentro do útero materno, talvez com o intuito de dessensibilizar as mães e a população em geral para a realidade biológica da nova vida que se desenvolve.
A afirmação de que o zigoto, embrião ou feto não passam de amontoados de células é, no mínimo, ignorante e estúpida. Na maioria das vezes é pura mentira maliciosa.
Falar que algo não passa de um amontoado de qualquer coisa dá a entender que não há um estado organizado especial manifestado, não há unidade. Nada poderia ser mais distante da realidade do embrião ou do zigoto.
Qualquer biólogo honesto e minimamente inteligente terá que concordar que não há absolutamente nada de desorganizado num zigoto ou num embrião, quiçá num feto!
Desde antes dos momentos iniciais da vida humana, a complexidade e a organização estão presentes. No momento da união entre gametas, quando os cromossomos paternos e maternos se unem, a nova identidade genética surge e incontáveis processos bioquímicos se iniciam em uma fantástica ordem. E durante todas as fases do desenvolvimento, o novo ser humano já demonstra incríveis capacidades.
Na sétima semana após a concepção, por exemplo, o pequeno feto (ou embrião tardio) já reage a estímulos ao redor da boca, afastando a cabeça; uma clara demonstração de resposta neurológica. Na décima primeira semana, o feto já possui estrutura para a sensibilidade cutânea do rosto, das mãos e dos pés. Um pouco mais tarde, na vigésima segunda semana, o feto reage, inclusive, à música ambiente![1]
Convido o leitor a acompanhar o desenvolvimento humano passo a passo, de forma muito resumida e simplificada, para que entenda um pouco da maravilhosa complexidade dos eventos que se sucedem após o momento da concepção.[2]
1º dia: ovócito fertilizado. O zigoto já possui o código genético que carregará por toda a vida (exceto por eventuais mutações). Incontáveis processos bioquímicos de alta complexidade direcionam as primeiras divisões celulares, e milhares de substâncias são produzidas e interagem entre si e com o ambiente do útero materno.
2º ao 5º dia: ocorrem as fases de Mórula e de Blastocisto do zigoto, nas quais a divisão celular prossegue aumentando a complexidade funcional e estrutural do zigoto.
6º dia: ligação do blastocisto com a parte interna do útero materno, denominada endométrio.
7º ao 12º dia: implantação do embrião no endométrio, possuindo duas camadas de tecido e um pequeno saco vitelino.
17º dia: embrião com três camadas de tecido e com aumento crescente de complexidade e interação tecidual com a mãe.
19º dia: fase de gastrulação com formação do processo notocordal, responsável por coordenar as progressivas diferenciações teciduais que gerarão sistemas especializados do corpo humano e órgãos específicos.
23º dia: presença do Nó de Hensen e diversas outras estruturas como fosseta primitiva, notocorda, canal neuroentérico, placa neural, pregas neurais e ilhotas sanguíneas.
25º dia: surgem os primeiros somitos, o sulco neural profundo, a elevação das pregas neurais cefálicas e os tubos endocárdicos iniciais.
28º dia: início da fusão das pregas neurais, formação dos sulcos ópticos, presença dos dois primeiros arcos faríngeos, início dos batimentos cardíacos e dobramento do embrião.
29º dia: formação das vesículas ópticas e rompimento da membrana orofaríngea. Fechamento do neuróporo cranial.
30º dia: Fechamento do neuróporo caudal, formação do terceiro e quarto arcos faríngeos, aparecimento dos brotos dos membros superiores e broto da cauda e formação da vesícula óptica.
2º mês (4 a 8 semanas após a concepção): aparecem os brotos dos membros inferiores, desenvolvimento das estruturas primordiais do olho, início do desenvolvimento dos hemisférios cerebrais, desenvolvimento das mãos e dos pés e desenvolvimento das estruturas da face incluindo nariz, pálpebras e orelhas.
3º mês (8 a 12 semanas após a concepção): Aparece a sobrancelha, começa a produção de urina, a genitália já se diferencia, começa a deglutição do líquido amniótico, começa a sugar o polegar e a fazer movimentos de apreensão, as unhas se desenvolvem, boceja, a cabeça já assume forma mais diferenciada, apresenta resposta à estimulação da pele, o interior da boca já possui papilas gustativas e o intestino começa a se mover e a expelir mecônio.
4º mês: mãe começa a sentir os movimentos do feto, ocorre produção da bile, presença de folículos primordiais nos ovários e produção do sangue.
5º mês: distensão do abdome, aumento progressivo da complexidade cerebral e descida dos testículos.
6º mês: a pele fica enrugada e vermelha, cabelos finos que cobrem o corpo começam a escurecer, começa a detecção de odor e paladar, ocorre a secreção do surfactante (substância que ajuda o pulmão a trocar oxigênio por meio da expansão dos alvéolos na presença de ar ambiente após o parto).
7º mês: pálpebras começam a se abrir, movimentos respiratórios são comuns, aparecimento de sulcos e giros cerebrais.
8º mês: pele rosada e lisa, olhos respondem à luz com reflexo pupilar, testículos entram no escroto, unhas alcançam a ponta dos dedos das mãos.
9º mês: Unhas alcançam a ponta do dedo dos pés, cérebro começa a ser revestido pela mielina, um revestimento lipídico que ajudará na transmissão de eletricidade pelos axônios neuronais.
De toda essa jornada do pequeno ser humano dentro do útero de sua mãe, já se deve concluir obrigatoriamente que nunca poderia ser chamado de amontoado de células.
O pequeno ser humano, desde a concepção, é um indivíduo no sentido em que é distinto dos demais seres, mesmo que não seja independente – e quem o é totalmente? –, mantém a unidade de uma pluralidade de componentes cuja função torna-se mais que a mera soma de seus componentes em função isolada.[3]
Por outro lado, o que então seria um amontoado de células?
Um raspado da parte interna da bochecha, por exemplo, utilizado para pesquisas genéticas, é um amontoado de células. Removido do seu ambiente, perdem suas funções dentro de um organismo complexo. Em seu conjunto não formam um organismo, são apenas parte do organismo humano. Mesmo que as células extraídas da bochecha sejam mantidas vivas numa placa de cultura, não manterão sua organização original e perderão inevitavelmente sua função sistêmica.
Pegar um zigoto, um embrião ou um feto e utilizá-lo em pesquisas científicas, sabendo de sua especificidade humana, é algo moralmente questionável, pois ali está um organismo inteiro, concreto e complexo.
O zigoto é um ser vivo tão especial e possuidor de características tão únicas e maravilhosas que se tornou alvo dos anseios de pesquisa de muitos cientistas. Os proponentes da pesquisa em embriões prometem muitos achados ao preço de se relativizar o valor da vida humana e utilizar as teoricamente incríveis capacidades do início da vida humana como ferramentas para curar ou aliviar o sofrimento do próximo.
Alguém pode até erguer uma objeção dizendo que o zigoto depende do organismo da mãe para sobreviver, e que não pode ser considerado um ser vivo. Ora, se o critério for independência de outro organismo ou do ambiente, ninguém estará capacitado a ser algo além de amontoado de células, pois o ser humano nasce extremamente dependente e, se viver o suficiente, morrerá extremamente dependente também. E durante toda a nossa vida, a dependência de outros seres humanos é uma realidade.
Outros afirmariam que o zigoto ainda não é um ser humano, pois há um estágio de indeterminação no qual ele pode dividir-se gerando dois ou mais seres humanos – gêmeos monozigóticos, trigêmeos etc. - ao invés de um. Enxergar nesse argumento uma permissão para que se instrumentalize o zigoto ou o embrião a o invés de valorizar ainda mais sua dignidade é um oximoro. Simplesmente ressalta ainda mais o valor para tentar menosprezá-lo a seguir.
O embrião não é somente um amontoado de células. É um ser vivo, é um humano (ou mais de um)! Como diria Ben Shapiro, se você encontrar um pequeno agrupamento organizado de células em Marte, você declarará em alto e bom som que há vida em Marte, e não que há amontoados de células em Marte. Por que tanta indisposição em reconhecer no embrião humano algo mais que um amontoado de células?[4] Respondo: a causa vale mais que a verdade. Com pessoas que pensam e agem nesse tipo de modalidade sofística, em que a causa vale mais que a verdade, qualquer conversa produtiva é impossível. Para eles a sua própria conveniência vale mais que uma vida humana.
Toda a questão se resume enfim a definir o seguinte ponto: O embrião está vivo ou não? É vida humana ou não? A única resposta adequada é sim. Daqui em diante o que se discute é quem podemos matar e quando podemos matar. Daqui em diante, a conversa é sobre extermínio humano.




[1] Uma breve introdução às características fetais, em linguagem bem acessível e contendo informações científicas amplamente fundamentadas em bibliografia adequada, pode ser encontrada em BELLIENI, Carlo. Se não é um ser humano... O feto: um novo membro da família. São Paulo: Edições Loyola, 2008.
[2] CARLSON, Bruce M. Embriologia Humana e Biologia do Desenvolvimento. 5ª Edição. Rio de Janeiro e São Paulo: Elsevier Editora LTDA, 2014.
[3] BOURGUET, Vincent. O Ser em Gestação: Reflexões Bioéticas sobre o embrião Humano. São Paulo: Edições Loyola, 2002, p. 26.

Princípio XXII do Código de Ética Médica: DISTANÁSIA E ORTOTANÁSIA

Princípio XXII – Ortotanásia e Distanásia



XXII - Nas situações clínicas irreversíveis e terminais, o médico evitará a realização de procedimentos diagnósticos e terapêuticos desnecessários e propiciará aos pacientes sob sua atenção todos os cuidados paliativos apropriados.

Este princípio trata de dois conceitos importantes para a boa prática médica: Ortotanásia e Distanásia.

Ortotanásia é a morte conduzida adequadamente, sem a sobrecarga de procedimentos inúteis e dolorosos. Distanásia é a morte excessivamente sofrida, repleta de intervenções que nada contribuem para o prognóstico ou a qualidade de vida do paciente.

Um terceiro termo de elaboração mais recente seria Mistanásia, a morte sofrida por falta de condições econômicas e sociais. Se na Distanásia o risco é principalmente o de sofrer com excessos médicos, na Mistanásia o risco é sofrer com a falta de recursos médicos.

Embora tais expressões sejam de uso relativamente recente na ética médica, os cuidados com o paciente muito próximo da morte são discutidos pela medicina há milênios, inclusive com conceitos muitos próximos aos nossos. Na obra hipocrática, por exemplo, lê-se que:

Se deixados a si mesmos, os pacientes afundar-se-ão em sua condição dolorosa e partirão dessa vida após desistir de lutar. Mas aquele que tomou o paciente pela mão, mostrando as descobertas da arte enquanto respeita a natureza sem buscar alterá-la, irá afastar a depressão e a insegurança do momento.[1]

Desde as origens éticas, a medicina compreende que há um momento em que o melhor a ser feito pelo paciente é acompanhá-lo em seu momento de grande dúvida e sofrimento, para que tudo não se transforme em desespero. O médico deve ser o bom amigo que vai até ao limiar da vida. Mas qual é este limiar?

A medicina fala de estado terminal. Embora não seja simples caracterizar exatamente o que seja um estado terminal, visto que todos nós possuímos o estado terminal chamado vida, que inevitavelmente terminará com nossa morte, há algumas características básicas que devem ser observadas acerca do paciente terminal:

1 – deve portar doença incurável;

2 – não responde mais aos recursos médicos;

3 – está muito próximo da morte.

A importância de definir bem os termos jamais será ressaltada o  suficiente. O tema de como o médico deve agir diante da morte é delicado e já foi tratado de formas muito cruéis em nossa história.

No passado, e ainda hoje, acadêmicos defendem as mais terríveis ideias contra a vida humana e sua dignidade. Já se falou em “comedores inúteis”, morte compassiva, evitar sofrimento e promoção do bem comum para se justificar o massacre daqueles considerados indignos de viverem. Ao médico cabe valorizar a vida de seu paciente, sua dignidade e sua qualidade sem transformá-lo no alvo de um cálculo hedonista ou utilitarista. O médico que não compreende o paciente em sua integralidade, incluindo seus aspectos biográficos, espirituais, emocionais, psicológicos e físicos, realmente não poderá oferecer o consolo e o apoio tão necessário nos momentos finais de vida, correndo o risco de, inclusive, acrescentar ao sofrimento do paciente.

O profissional precisa de uma profunda compreensão dos estágios psicológicos e existenciais que o paciente enfrenta. Após o diagnóstico difícil de uma condição irreversível com desfecho fatal, há diversas atitudes que devem ser esperadas e adequadamente conduzidas.[2]

O paciente pode negar o diagnóstico feito. Pode procurar outra “opinião”. O médico assistente deve ser respeitoso, realista e estar aberto a indicar outros colegas, ciente de que o paciente precisa da realidade e que o médico assistente deve manter-se à disposição para permanecer auxiliando o paciente a atravessar esses estágios psicológicos.

O paciente, quando entende que o diagnóstico está correto, pode entrar em um estado de raiva, de revolta, projetando no médico os sentimentos de frustração advindos da doença. É necessário ter paciência e mostrar-se sempre disposto a ajudar, trazendo à tona a informação de que não há quem culpar pelos problemas presentes.

Quando a raiva esfria, o paciente pode tentar a negociação, buscando tratamentos miraculosos ou fazendo promessas, tentando enfim manipular a realidade para livrar-se de sua condição. Novamente ao médico cabe o realismo cordial, instruindo o paciente a não prejudicar-se com falsas expectativas ao mesmo tempo em que o estimula a viver sua vida de forma plena e fazer o que é possível para melhorar seu estado físico e psíquico.

Por fim, quando a consciência da aproximação da morte torna-se inevitável, muitos entram num estágio de depressão. Perdem as esperanças em qualquer projeto ou o gosto pelo viver. O médico deve estar ao lado do paciente para ajudá-lo a realmente aceitar sua condição de vida, movendo-o para o estágio final de aceitação.

No estágio de aceitação, o paciente compreende a realidade e aceita seu destino. Encontra-se capaz de colaborar com o médico em busca de qualidade para o restante de sua existência. Sofre, mas segue adiante ou repousa enfim tranquilo.

Esses estágios podem variar conforme a pessoa, mas costumam estarem sempre presentes em menor ou maior medida.

A essas etapas talvez o médico consiga somar um estágio mais elevado, aquele de sublimação, que incluiria a percepção de um significado existencial pessoal mesmo nos momentos de maior tormento, fornecendo uma esperança nova a alguém que se encontra à beira da morte. É a esperança num sentido para a vida, inclusive na morte.

O médico psiquiatra Viktor Frankl tratou com maestria acerca da busca pelo sentido existencial na obra de sua vida: a escola logoterápica de psicanálise.[3]

Mesmo que nenhuma medicação eficaz possa ser oferecida ao paciente, o médico deve ajudá-lo a compreender seu estado, a ter uma noção realista sem o pessimismo exagerado sobre o que pode ser feito para se viver com a felicidade que ainda é possível e conseguir - se o tempo assim permitir - dizer as coisas que realmente importam ao final de tudo.

O paciente deve ter a chance de saber o que lhe aguarda por meio do conhecimento de seu médico para que possa agradecer a quem de direito por tudo o que recebeu, para que possa pedir desculpas e desculpar-se por ofensas feitas ou recebidas e para que deixe bem claro que ama àqueles que fizeram diferença em sua vida. Isso é respeitar a biografia do paciente e sua condição de pessoa. É uma forma de terapia existencial que pode exigir muito do médico, até mesmo mais empenho intelectual e emocional do que uma difícil terapia clínica ou cirúrgica.[4]

É nesse contexto extremo e difícil que os cuidados paliativos ganham destaque e mostram-se cruciais para a relação médico-paciente e médico-família. Espera-se que as escolas médicas tenham espaço hoje para discutir abertamente tais questões, sem as vulgarizações e a ignorância que era tão comum até poucos anos atrás.

E durante os momentos finais, o médico assistente deve estar preparado para declarar o óbito de seu paciente ou a morte cerebral, facilitando os entraves burocráticos que podem atormentar a família no momento da perda de seu membro.[5]

Oferecer apoio num contexto de cuidados paliativos, mesmo quando um colega paliativista encontra-se por perto prestando apoio especializado, é um desafio para toda a equipe de saúde. O médico deve respeitar e valorizar a vida de seu paciente e seus familiares até ao último instante.



[1] HIPPOCRATES. Ancient Medicine. Airs, Waters, Places. Epidemics 1 and 3. The Oath. Precepts. Nutriment. Translated by W. H. S. Jones. Loeb Classical Library 147. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1923; PESSIM, Kaio Cezar Gomes; ANGOTTI NETO, Hélio. ‘A Relação Médico-Paciente na Obra Hipocrática: Medicina Antiga; Ares, Líquidos e Locais; Epidemia I e III; Preceitos’. In: ANGOTTI NETO, Hélio (org.). Mirabilia Medicinæ 7, 2016, p. 1-15.
[2] KÜBLER-ROSS, Elizabeth. Sobre a Morte e o Morrer. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1996.
[3] XAUSA, Izar Aparecida de Moraes. A Psicologia do Sentido da Vida. Campinas: VIDE Editorial, 2013.
[4] BYOCK, Ira. The Four Things That Matter Most. A Book About Living. New York: Atria Books, 2004.
[5] CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução CFM nº 1.480/97. Internet, http://www.portalmedico.org.br/resolucoes/CFM/1997/1480_1997.htm

sábado, 18 de março de 2017

O JARDIM DAS AFLIÇÕES, UMA ANÁLISE

O JARDIM DAS AFLIÇÕES

No I Seminário Capixaba de Filosofia!
"Idéias movem a história humana por meio dos símbolos, fornecendo o significado que serve de fundamento e material para fenômenos sociais, econômicos, estéticos, jurídicos, morais e transcendentais. Os intelectuais são aqueles que trabalham no campo da criação ou da aplicação dos símbolos, deixando um lastro de consequências muitas vezes assustadoras e massivas cujo nexo pode fugir à percepção dos incautos.
Em sua obra “O Jardim das Aflições”, Olavo de Carvalho segue os planos dialéticos sequenciais de análise propostos por Mário Ferreira dos Santos, partindo de uma obscura conferência no Museu de Arte de São Paulo para descobrir nexos e conflitos simbólicos que perpassam os milênios e movem milhões de vidas num verdadeiro choque de concepções de mundo.
Caminhando entre múltiplas tensões existenciais, a análise feita por Olavo de Carvalho em sua obra “O Jardim das Aflições” segue um processo de ampliação em espiral para, no ápice de extensão e indução, contrair novamente numa análise poderosamente concreta da situação inicial, capaz de explicar e até mesmo prever muitos desenvolvimentos posteriores.
O Jardim das Aflições é um chamado à responsabilidade intelectual que mostra o quão ampla é a rede de conexões entre idéias, eventos contemporâneos e símbolos definidores de nossa civilização; mostra também, nas palavras de Bruno Tolentino, uma “lição de trevas”, exibindo a deformação cultural ativa como projeto de intervenção na sociedade."

Espero apresentar algo que faça um pouco de justiça à obra e ao autor, Olavo de Carvalho.

sexta-feira, 10 de março de 2017

DICAS DE LEITURA PARA ESTUDANTES DE MEDICINA, DE WILLIAM OSLER

LITERATURA COTIDIANA PARA ESTUDANTES DE MEDICINA


Uma educação liberal pode ser obtida a um custo muito baixo em termos de tempo e dinheiro. O dia será plenos de tarefas e, para fazer bom uso de teus talentos, não repousa satisfeito com teu treinamento profissional (técnico). Tenta, no entanto, obter a educação; se não a de um acadêmico, pelo menos a de um cavalheiro. Antes de dormir lê por meia hora. E na manhã tem um livro aberto sobre teu criado mudo. Tu ficarás surpreso ao descobrir o quanto pode ser alcançado ao longo de um ano. Elaborei uma lista de dez livros com os quais tu deverás estabelecer uma grande amizade. Há muitos outros. Se estudados com cuidado em teus dias de estudante, essas obras auxiliarão na educação do íntimo à qual me refiro. 

I - O Velho e o Novo Testamentos
II - Shakespeare
III - Montaigne
IV - Vidas, de Plutarco
V - Marco Aurélio
VI - Epiteto
VII - Religio Medici (sir Thomas Browne)
VIII - Dom Quixote
IX - Emerson
X - Série Breakfast-Table, de  Oliver Wendell Holmes


Colaboração de Enzo Dalfior Nunes e Rafael Gonçalves Mendes