terça-feira, 18 de julho de 2017

SEFAM Módulo IV - FILOSOFIA DA MEDICINA E RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE

FILOSOFIA DA MEDICINA E RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE

Módulo IV


Período: 25 de julho a 16 de dezembro de 2017 – Terças-Feiras

Local: Biblioteca do UNESC e Hospital Maternidade São José

Horário: 18:00 – 21:00


Justificativa
Promover a formação integral do aluno de medicina, abordando os aspectos humanísticos, técnicos e científicos necessários para um profissional realmente ativo na sociedade, capaz de criticar positivamente e agir de forma efetiva.

Objetivos
Aprofundar os conhecimentos nos aspectos humanísticos da medicina e contextualizar na prática o estudo da Filosofia da Medicina, da Relação Médico-Paciente e do Raciocínio Clínico.

Disponibilidade de Vagas
15 alunos do Curso de Medicina do UNESC.
Critério de seleção será baseado nos seguintes critérios por ordem de importância (os posteriores servirão como desempate para os anteriores):
- Alunos que participaram do “Curso de Bioética” e do “Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina” em 2017-1;
-  Coeficiente de rendimento somado aos seguintes quesitos: Módulos do SEFAM concluídos = 0,2 por cada um; Iniciação Científica = 0,2 por cada uma; Trabalho Publicado em Revista Indexada – 0,2 cada um;
- Período mais avançado.

- O aluno deverá ser capaz de plena leitura na língua inglesa.

CRONOGRAMA DE ATIVIDADES
25 de julho - Aula 1 – Modelos de Relação Médico-Paciente e Medicina Centrada na Pessoa – Biblioteca UNESC
Modelo estatal, modelo hipocrático, modelo contratualista liberal, modelo utilitarista. Princípios da Medicina Centrada no Paciente. Apresentação da bibliografia básica. Organização do Módulo. Ficha de Entrevista Clínica e Exame Clínico com Avaliação Bioética. Orientação para problematização dos casos. Desenvolvimento do Raciocínio Clínico Integral. Perfis Psiquiátricos e Psicopatológicos do Paciente. Estágios do paciente de acordo com Elisabeth Kubler-Ross.

01 de agosto - Aula 2 – Práticas de Saúde e Atividade Hospitalar (0,5) - HMSJ
Anamnese, Exame Físico, Análise de Prontuário e Exames Complementares e Entrevista Bioética. Apresentação dos Casos Clínicos e Problematização.

8 de agosto - Aula 3 – Tradição Hipocrática da Medicina e Ética Baseada em Virtudes – Biblioteca UNESC
O Juramento de Hipócrates e a Obra Hipocrática. Princípios, Virtudes e Valores. Como desenvolver as virtudes. O papel da ética baseada em Virtudes na Profissão Médica. Autoridade Médica, Confiabilidade e Virtuosidade. Esferas Morais e Desenvolvimento da Personalidade.

15 de agosto - Aula 4 – Práticas de Saúde e Atividade Hospitalar (0,5) - HMSJ
Discussão dos Casos Anteriores. Anamnese, Exame Físico, Análise de Prontuário e Exames Complementares e Entrevista Bioética. Apresentação dos Casos Clínicos e Problematização.

29 de agosto - Aula 5 – Literatura, Cinema, Arte e Medicina – Biblioteca UNESC
Os clássicos da literatura e a saúde humana. Análise de pinturas e contexto médico. Cinema, Bioética e Medicina. Narrativas Médicas e Padrões expressivos dos pacientes. Elementos da Entrevista Psiquiátrica. Fenomenologia e Empatia Clínica.

12 de setembro - Aula 6 – Práticas de Saúde e Atividade Hospitalar (0,5) - HMSJ
Discussão dos Casos Anteriores. Anamnese, Exame Físico, Análise de Prontuário e Exames Complementares e Entrevista Bioética. Apresentação dos Casos Clínicos e Problematização.

19 de setembro - Aula 7 – Seminários de Filosofia da Medicina – Apresentações – Biblioteca UNESC
Três apresentações de quarenta minutos cada uma com vinte minutos para debate e arguição. Cada apresentação tem o peso de 3 na pontuação final do aluno. Cosmovisões Médicas. Causação Médica e Realismo. Paciente enquanto Corpo e Pessoa.

26 de setembro - Aula 8 – Práticas de Saúde e Atividade Hospitalar (0,5) - HMSJ
Discussão dos Casos Anteriores. Anamnese, Exame Físico, Análise de Prontuário e Exames Complementares e Entrevista Bioética. Apresentação dos Casos Clínicos e Problematização.

3 de outubro - Aula 9 – Seminários de Filosofia da Medicina – Apresentações – Biblioteca UNESC
Três apresentações de quarenta minutos cada uma com vinte minutos para debate e arguição. Cada apresentação tem o peso de 3 na pontuação final do aluno. Doença e Mal-Estar, Saúde e Bem-Estar. Diagnóstico e Terapêutica. Pensamento Médico.

10 de outubro - Aula 10 – Práticas de Saúde e Atividade Hospitalar (0,5) - HMSJ
Discussão dos Casos Anteriores. Anamnese, Exame Físico, Análise de Prontuário e Exames Complementares e Entrevista Bioética. Apresentação dos Casos Clínicos e Problematização.

17 de outubro - Aula 11 – Seminários de Filosofia da Medicina – Apresentações – Biblioteca UNESC
Três apresentações de quarenta minutos cada uma com vinte minutos para debate e arguição. Cada apresentação tem o peso de 3 na pontuação final do aluno. Juízo Clínico e Tomada de Decisões. Explicações Médicas. Conhecimento Diagnóstico.

24 de outubro - Aula 12 – Práticas de Saúde e Atividade Hospitalar (0,5) - HMSJ
Discussão dos Casos Anteriores. Anamnese, Exame Físico, Análise de Prontuário e Exames Complementares e Entrevista Bioética. Apresentação dos Casos Clínicos e Problematização.

31 de outubro - Aula 13 – Seminários de Filosofia da Medicina – Apresentações – Bibliotreca UNESC
Três apresentações de quarenta minutos cada uma com vinte minutos para debate e arguição. Cada apresentação tem o peso de 3 na pontuação final do aluno. Conhecimento Terapêutico. Axiologia Médica e Valores. Origens da Bioética e Ética Normativa. 

7 de novembro - Aula 14 – Práticas de Saúde e Atividade Hospitalar (0,5) - HMSJ
Discussão dos Casos Anteriores. Anamnese, Exame Físico, Análise de Prontuário e Exames Complementares e Entrevista Bioética. Apresentação dos Casos Clínicos e Problematização.

14 de novembro - Aula 15 – Seminários de Filosofia da Medicina – Apresentações – Biblioteca UNESC
Três apresentações de quarenta minutos cada uma com vinte minutos para debate e arguição. Cada apresentação tem o peso de 3 na pontuação final do aluno. Principialismo e Futuro da Bioética. Preocupação Emocionalmente Afastada ou Cuidado Empático. Relações entre Médicos e Pacientes.

21 de novembro - Aula 16 – Práticas de Saúde e Atividade Hospitalar (0,5) - HMSJ
Discussão dos Casos Anteriores. Anamnese, Exame Físico, Análise de Prontuário e Exames Complementares e Entrevista Bioética. Apresentação dos Casos Clínicos e Problematização.

28 de novembro - Aula 17 – Avaliação Escrita – UNESC – Local a informar
Avaliação discursiva com peso 3 na nota final.

5 de dezembro - Aula 18 – Vista de Prova e Encerramento do Módulo – UNESC – Local a informar
Encerramento do Módulo, vista de prova e confraternização. Discussão sobre projetos de pesquisa e publicação. Orientação acadêmica personalizada.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

ANGOTTI NETO, Hélio. A Tradição da Medicina. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2016.

MARCUM, James A. An Introductory Philosophy of Medicine. Humanizing Modern Medicine. Philosophy and Medicine Volume 99. Springer, 2008.

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

BICKLEY, L. S. Bates propedêutica médica. 11ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016.

CRUZ, Jorge. Que Médico Queremos? Uma Abordagem a Partir de Edmund Pellegrino. Coimbra: Almedina, 2012.

DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais.  2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.

GOLDMAN, Lee et al. Cecil tratado de medicina interna. 23. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.

KASPER, D. L. et al. Harrison medicina interna. 17. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008.

LOPES, A. C. Tratado de clínica médica. 2. ed. São Paulo: Roca, 2009.

MACKINNON, Roger A; MICHELS, Robert; BUCKLEY, Peter J. A Entrevista Psiquiátrica na Prática Clínica. 2ª edição. Porto Alegre: Artmed, 2008.

OAKLEY, Barbara. Aprendendo a Aprender. Como Ter Sucesso em Matemática, Ciências e Qualquer Outra Matéria. São Paulo: Infopress, 2015.


PORTO, C. C. Semiologia médica. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2009. 


quinta-feira, 6 de julho de 2017

ATÉ QUANDO LUTAR PELA VIDA HUMANA?

ATÉ QUANDO LUTAR PELA VIDA HUMANA?

Dever de Matar 2




No artigo Dever de Matar, abordei perigosos aspectos observados no caso do pequeno Charlie Gard, um recém-nascido com uma grave doença retido no hospital contra a vontade dos pais para que morresse, conforme denominação da equipe médica, com dignidade e sem intervenções consideradas fúteis e potencialmente lesivas.

O nome das intervenções inúteis, lesivas e obstinadas em medicina é distanásia, uma falha técnica e moral, sem dúvida. Mas será que o conceito se aplica realmente à situação?

Um exemplo claro de distanásia é um paciente de idade avançada com câncer de pulmão metastático[1], já muito próximo à morte, no estádio mais avançado de sua doença, que apresenta uma comorbidade[2] como dificuldade urinária por hiperplasia prostática benigna, por exemplo. Diante da morte iminente, não cabe submeter o paciente a procedimentos cirúrgicos de ressecção da próstata, mas caberia a passagem de sonda para eliminar a urina e promover conforto. A cirurgia seria claramente um exagero.

No caso do bebê Charlie a situação é muito mais complexa do que o exemplo descrito. O procedimento é experimental e a possibilidade de vida é incerta. Como pensar essa situação?

Relato alguns elementos que apoiariam a compreensão de que estamos diante de um caso potencial de distanásia:

- A baixíssima probabilidade de sobrevivência;

- O aspecto completamente experimental do tratamento;

- O dano cerebral já presente, teoricamente incompatível com uma vida de boa qualidade segundo algumas informações porém ainda não definido;

- O excesso da intervenção já promovida.

- A possibilidade de que os pais estejam em fase de negação ou negociação da doença terminal de seu pequeno bebê.[3]

Contudo, quais os perigos em se chamar de distanásia a possibilidade de tentar o tratamento experimental no caso em questão?

A situação envolve sentimentos intensos e muitas vezes contraditórios por parte dos pais e, não duvido, por parte de alguns da própria equipe médica, que em algum grau podem se solidarizar com o sofrimento do bebê e imaginar o que seria uma vida extremamente limitada para o pequeno paciente na hipótese de sucesso limitado do tratamento experimental, acrescentando sofrimento para a família em níveis imprevisíveis ao longo de anos.

Tive a chance de acompanhar alguns pacientes até o momento do óbito e vi de perto o sofrimento de diversas famílias. Mesmo sendo oftalmologista[4], fui chamado a oferecer suporte em domicílio em casos graves com alterações oftalmológicas e já alerto: todo médico deve aprender a lidar com a morte e o sofrimento, pois cedo ou tarde irá se deparar com essa velha e indesejada companheira. Há quase sempre um intenso sofrimento por parte da família que vem ao lado do sentimento profundo de obrigação para com o doente e, quando o familiar querido falece, do sentimento de um triste dever cumprido, se tudo tiver corrido bem.

O sentimento dos pais do bebê Charlie, de não querer que algo deixe de ser feito, realmente pode disparar culpas desnecessárias e inadequadas em determinadas situações, mas é um sentimento que deve ser respeitado. A vida humana possui valor ontológico e precede qualquer outro direito como condição sine qua non, e a resposta preocupada daqueles que cuidam de pacientes graves ou em fase final de vida é algo coerente com esse valor apreendido da realidade. Se abandonarmos os valores fundamentais de nossa civilização, o respeito à dignidade da vida humana entre eles, a vida passará a ter valor puramente subjetivo e relativizado, abrindo caminho para as loucuras mais cruéis já presenciadas na história.

Ao mesmo tempo, deve-se compreender que expectativas irreais não justificam plenamente o emprego fútil de medidas médicas inúteis. Isso onera a família, cria anseios que jamais poderão ser supridos e aumenta o sofrimento de todos: pacientes, familiares e equipe médica.

Qual será o caso do pequeno Charlie Gard? Distanásia? Abandono do paciente por causa da Cultura da Morte? O que fazer?

Não acredito que haja resposta simples.

Tratar de forma insistente com baixíssimas chances de manter a vida guarda sim um elemento de obstinação. Todavia, nem toda obstinação é vã.

Por outro lado, o emprego da morte alheia como conceito corriqueiro, útil e ativo da prática médica guarda perigosas repercussões e restrições profissionais. Pode nos levar à instrumentalização da morte como meio eficaz de “tratamento” dos indesejados e como marca de uma profissão médica que passará a ser ainda mais temida e odiada por alguns, agora que tornou-se eficaz distribuidora da morte.

Lembro da situação já descrita na obra “A Morte da Medicina”, na qual crianças com espinha bífida foram sistematicamente submetidas ao Protocolo Groningen, na Holanda, cuja implantação o Conselho Federal de Medicina do Brasil chegou a sugerir em uma gestão anterior.[5] Mais de vinte casos de eutanásia infantil por doença “incurável” foram executados por meio da eutanásia com a concordância dos pais e com a indicação da equipe médica. Pouco tempo após o Dr. Verhagen ter publicado sua mórbida casuística[6], Rob de Jong, um neurocirurgião pediátrico, publicou o sucesso de uma inovadora cirurgia de grande porte e muita complexidade capaz de restituir potencial de vida útil a um bebê nascido com a trágica deformação.[7] Não consigo parar de pensar quantas crianças foram mortas em vão, e imagino como deve estar a consciência dos pais que foram convencidos de que não valia a pena lutar por seus filhos, que nada poderia ser feito. O rosto sorridente do paciente do Dr. De Jong é um potente alerta vermelho para os entusiastas da fácil solução final.

Imagem de público aceso, disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2092440/

A medicina, ao longo dos milênios, fez inúmeras descobertas sobre como salvar a vida, prolongá-la ou melhorá-la, além de descobrir recursos para prevenção de doenças. Desde as coisas simples como a antissepsia até as técnicas avançadas como transplantes de órgãos e implante de próteses foram descobertas e aplicadas com sucesso por médicos que sempre estiveram abertos a novas possibilidades de auxiliar o próximo.

Se há necessidade de evitar intervenções esdrúxulas, há também necessidade de se buscar novos caminhos.

Diante de um caso de doença grave e irreversível em pacientes de idade muito avançada, realmente o excesso de intervenção pode ser desaconselhado. E qualquer médico tem o direito, e às vezes o dever, de recusar tratamentos inúteis ou errados.

Mas a situação é bem mais complexa. Não se fala de um tratamento inútil, fala-se de um tratamento experimental que pode dar errado ou pode funcionar provocando algum tipo de melhora.

O tema em jogo não é o de uma equipe médica sendo obrigada a tratar um paciente empregando técnicas que acredita serem erradas. A questão em jogo é levar o pequeno paciente a médicos que podem empregar um tratamento inovador e incerto, mas que estão dispostos a tentar.

Não se fala de um tratamento contraindicado ou inútil, fala-se de um tratamento com possibilidade de funcionar, mesmo que mínima, e que seria indicado para outras crianças se fosse bem-sucedido, mudando completamente o prognóstico de outras pessoas e famílias num futuro próximo.

Não se fala em aumentar o sofrimento de pessoas muito idosas e já sem esperança de vida sem nada lhes acrescentar de vida, fala-se em tentar aumentar o potencial de vida de um bebê.

Quais serão as consequências de empregar a morte como opção válida para evitar tratamentos inovadores?

Deixar morrer ou matar é coisa simples, qualquer energúmeno consegue. Criar um tratamento diferente ou uma cirurgia inovadora é coisa dificílima, uma verdadeira obra de arte e ciência.

Não seria mais fácil para todos simplesmente lavar as mãos e repetir a velha frase quid est veritas?

E ainda há outro aspecto: o da imagem da medicina diante de tudo isso.

Que imagem essa família e as pessoas em todo o mundo guardarão desses médicos e dessa medicina coercitiva? Faço a pergunta com muito receio, pois acredito de coração que os colegas britânicos realmente consideram que fazem o melhor para o pequeno bebê. O próprio juiz que emitiu parecer sobre o caso afirmou fazê-lo com pesar. Mas acredito também que há um profundo equívoco nessa decisão imposta à família e na tomada da tutela do bebê à força pelo Estado.

Há elementos potencialmente lesivos para toda a sociedade nesse caso, há precedentes perigosos que podem mudar completamente a forma pela qual enxergamos os médicos e os serviços de saúde, se é que já não mudaram.

A pergunta que se faz ao final de tudo é quanto vale a vida humana? Dessa pergunta surgem muitas outras.

Deve-se calcular o preço da vida humana, ou quanto esforço fazemos para salvá-la, conforme sua capacidade de ser útil, de obter prazer ou de fornecê-lo? Podemos parar de lutar por novos tratamentos para aquelas condições terríveis que teoricamente nos levarão sempre à morte e ao sofrimento? Todo sofrimento deve ser ferozmente evitado?

Jeffrey Bishop, de forma semelhante ao médico Viktor Frankl, inventor da Logoterapia[8], questiona se a medicina não deveria pensar na vida humana como finalidade, dotada de um propósito iluminado pela consciência e desvelado pela biografia de cada ser vivo em comunidade.[9]

O propósito dos pais é o de proteger seu filho. Devem fazê-lo dotados das melhores informações possíveis em um ambiente de compreensão e amparo.

O propósito dos médicos é beneficiar o paciente e, quando possível, salvar e resguardar a vida, considerando os já tradicionais aspectos físicos, mentais, sociais e espirituais. Nessa equação cabe a observação de Viktor Frankl e Jeffrey Bishop sobre a valorização dos aspectos existenciais.

Até mesmo o pequeno Charlie já pode ter um propósito em seu contexto. Ao que indica, muitos enxergaram na luta dessa família e na vida do bebê um símbolo do valor pela luta contra a morte e a doença, um pequenino e ao mesmo tempo grande símbolo de esperança, perseverança e amor.

Como já afirmei, há elementos de obstinação neste caso, porém o emprego da autoridade tecnocrática dos médicos e do Estado contra a autoridade familiar, além da proibição ativa do tratamento, pode nos levar a consequências de espectro muito mais amplo do que o previsto.

Estamos diante de atitudes e valores que fundamentam nossa civilização e caracterizam a profissão médica e os cuidados com a saúde em geral. Qual o modelo médico que desejamos seguir? Onde nossas escolhas nos levarão? Quem deve ter a guarda do pequeno Charlie? Deve ser seu responsável a sua família que o ama, que o carregou no ventre e que perde noites de sono ao seu lado, sofrendo? Ou deve ser responsável a fria tecnocracia estatal, que enxerga o pequeno Charlie como um problema num sistema de saúde?

Peço desculpas se encho a cabeça dos leitores com perguntas, mas diante de uma decisão irreversível que pode levar à morte, só Deus sabe o estrago que pode ser feito na vida dessa sofrida família, na carreira dos médicos de forma geral e em nossa civilização.



[1] Um câncer que já se espalhou pelo organismo e, de regra, é incurável.
[2] Uma outra doença não diretamente relacionada com a doença principal.
[3] KUBLER-ROSS, Elizabeth. Sobre a Morte e o Morrer. Ão Paulo: WMF Editora Martins Fontes, 2008.
[4] O fato de eu trabalhar com doenças relacionadas à Órbita e à Neuro-Oftalmologia, incluindo tumores oculares e de cabeça e pescoço, acaba por aumentar a chance de lidar com esses casos mais exigentes.
[5] CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Conselhos de Medicina se posicionam a favor da autonomia da mulher em caso de interrupção da gestação. Quinta, 21 de março de 2013. Internet, http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=23661
[6] VERHAGEN, Eduard; SAUER, Pieter J.J. ‘The Groningen Protocol — Euthanasia in Severely Ill Newborns’. New England Journal of Medicine, 352, 2005, p. 959-962.
[7] ANGOTTI NETO, Hélio. A Morte da Medicina. Campinas: Vide Editorial, 2014; JONG, T. H. Rob de. Deliberate termination of life of newborns with spina bifida, a critical reappraisal. Child’s Nervous System, 24, 2008, p.13–28.
[8] XAUSA, Izar Aparecida de Moraes. A Psicologia do Sentido da Vida. A primeira obra sobre logoterapia publicada no Brasil. 2ª edição. Campinas, SP: Vide Editorial, 2013.
[9] BISHOP, Jeffrey. The Anticipatory Corpse. Medicine, Power, and the Care of the Dying. Notre Dame, Indiana: University of Notre Dame Press, 2011.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

ENTREVISTA: O que é formar um médico integralmente?

O QUE É FORMAR UM MÉDICO INTEGRALMENTE?

ENTREVISTA CEDIDA AO NÚCLEO ACADÊMICO DO SINDICATO DOS MÉDICOS DO RIO GRANDE DO SUL

 

Entrevistador: O senhor defende que os médicos precisam buscar uma formação humanista, além da técnica e científica. O que exatamente o senhor deseja propor com esta abordagem?

A reconquista dos instrumentos intelectuais e para a formação do caráter que foram abandonados pela concepção pedagógica presente. O médico precisa do aporte científico e dos instrumentos de aprendizagem ativa e medicina baseada em evidências para atualizar-se, mas precisa também da formação humanística antiga que o capacitará a agir em sociedade, compreender a realidade e pensar de forma aguçada e verdadeiramente crítica. Não há atalhos neste quesito, formação humanística não é bom mocismo, é captar e integrar em seu ser o conhecimento acumulado de mais de dois mil anos de história e pensamento.

Entrevistador: Por que é importante integrar o lado humanista na formação do médico?

Por que a ciência não esgota e jamais esgotará o ser humano. Cada paciente é uma vida única e oferece um desafio inédito. Há coisas em nossas práticas que são gerais, porém, sem a riqueza moral e intelectual adequadas, falharemos em aplicar os conhecimentos científicos à realidade concreta ou em obter sucesso no tratamento. Do que adianta passar o tratamento certo se o paciente não confia em você? De que adianta saber medicina baseada em evidências se te falta o conhecimento literário e hermenêutico de interpretação dialética dos textos para enxergar nas entrelinhas o que não está escrito? O médico que reduz seu conhecimento à medicina compreendida como empreendimento científico somente também negligencia seu papel de agente de influência na sociedade, e serve cegamente a interesses alheios que muitas vezes priorizam qualquer outra coisa, menos a saúde do paciente.

Entrevistador: O senhor fala em médico integral? O que é este conceito?

É o médico que une o melhor da ciência, da técnica, da virtude e das humanidades. É um profissional que seja capaz de realizar um procedimento de qualidade, com a indicação adequada, na hora certa e com o estabelecimento de uma relação médico-paciente sólida sustentada na confiança do paciente e na honra e excelência do médico.

Entrevistador: Por que é preciso pensar a Medicina em um contexto maior do que normalmente se pensa nas escolas?

Por que lidar com o ser humano é uma das tarefas mais complexas que se pode executar. Lidar com a vida, a morte, a doença e a saúde são atividades que abrangem os cumes e os vales mais sombrios da experiência humana. Lidamos dia a dia com os anseios mais profundos e os maiores tormentos da humanidade e perdemos a capacidade de formar pessoas integralmente. Se não há formação de caráter e formação cultural adequadas, teremos médicos superficiais e desarticulados, incapazes de lidar com as complexas situações de seus pacientes e incapazes de agir eficazmente em sociedade para promover a tão desejada saúde integral, utopia muito mencionada, porém pouco pensada de fato.

Uma das coisas que mais me preocupa em termos de educação médica em humanidades é a vulgarização do termo e a utilização dessa busca por uma formação integral para inserir nos currículos a mais vulgar manipulação ideológica, censurando o legado cultural verdadeiro de nossa civilização e oferecendo as mais vis e baixas formulações pseudointelectuais no lugar do conteúdo de verdade. Felizmente, os alunos de medicina costumam ser inteligentes demais para cair nessa cilada. O problema é que muitos acreditam que humanidades se resumem à vulgaridade ideológica e se concentram somente no aspecto científico da medicina, suprimindo a possibilidade de buscar uma verdadeira formação humanística. Mesmo que discordem, engolem a mentira que foi contada e acreditam que as humanidades nada mais são do que loucura e enganação. 

Entrevistador: Qual é o papel do médico na sociedade?

O médico é o guardião da saúde humana e da vida de seu paciente. É o ombro amigo que consola quem está prestes a partir e aqueles que estão prestes a perder um parente amado e que ficarão para trás, enlutados. O médico é aquele que observa a sociedade com olhos atentos e mente penetrante, apto a diagnosticar problemas individuais e coletivos e propor uma terapia ao contemplar o prognóstico. O médico é aquele compromissado com a beneficência de seu paciente mediante o uso da prudência, da inteligência e de todas as suas virtudes. O médico é aquele que busca a excelência em sua arte em prol de seu paciente. Nosso papel é o de guardião dos mais frágeis entre nós, é responder ao pedido de socorro.

Entrevistador: Como o senhor vê as políticas públicas para a saúde?

Muito boas no papel, péssimas na prática. Leis e dinheiro não mudam uma população, o bandido sempre encontra a ocasião. Precisamos de mudanças na cultura, no caráter e na inteligência. O Brasil está entre os países mais violentos, mais corruptos e mais burros do mundo! Esses são problemas de "saúde" gravíssimos, e precisamos realmente repensar nosso pais. Como um país desse tamanho e com essa riqueza, repleto de gente trabalhadora e esforçada, pode estar entre os últimos colocados nos testes de conhecimento a nível internacional? Como um país de gente que era tão pacífica pode ter se transformado em um campeão de assassinatos? Creio que políticas públicas são necessárias e, em geral, são bem formuladas. Mas não temos uma elite com o caráter e a vontade para realmente fazer acontecer um Brasil de verdade. Temos espoliadores que buscam nutrir-se do sistema mesmo que para isto tenham que destruir seu hospedeiro.

Entrevistador: O senhor vê um movimento para diminuir o prestígio da categoria médica?

Médicos bons e médicos ruins sempre existiram, desde os tempos hipocráticos, ao longo da Idade Média e ainda hoje. Mas é a primeira vez que se observa um governo sistematicamente infiltrar-se em conselhos profissionais, montar propagandas claramente ofensivas contra toda uma classe profissional e utilizar o discurso de guerra de classes e ódio para a premeditada destruição daquilo que consideram uma elite concorrente. O fato de que tudo tenha vindo à tona no momento em que médicos ao lado de muitos outros profissionais da saúde foram às ruas em 2013 para reclamar melhores condições é extremamente sugestivo. Na política há pouco espaço para o acaso. Assistimos à votação do Ato Médico, na qual médicos foram acusados de criar a doença para enriquecer, observamos as propagandas acusando médicos de racistas com a falsa interpretação de dados do SUS e até mesmo uma presidente agindo de forma leviana ao acusar a classe médica de tratar mal os pacientes brasileiros. Uma grande e esforçada maioria, incluindo alguns exemplos heroicos de dedicação, pagou pelo erro de poucos e pela maldade institucionalizada de um governo indecente.

Entrevistador: Gestão e liderança tem sido exigido dos médicos. Estes conceitos são importantes? São tão importantes quanto a formação política e filosófica?

Sem dúvida a gestão e a liderança são importantíssimos. Na formação humanística clássica, por exemplo, partia-se do estudo do indivíduo (Ética e Psicologia, chamada de estudo da alma) e dos discursos (Gramática, Lógica, Dialética e Retórica) e alcançava-se o estudo da sociedade como um todo (Política). Contudo, no meio do caminho estava o estudo das relações de trabalho e das relações familiares, chamado de economia (Oiko = comunidade; Nomos = regras). O médico é o responsável pela equipe, e deve aprender a agir como tal, assim como deve aprender e desenvolver o caráter e a nobreza de um verdadeiro líder, demandando respeito por meio do exemplo acima de tudo.

Conforme disse o filósofo britânico Roger Scruton: 

"Da mesma forma, as pessoas vão obter educação somente se elas a desejarem por seu próprio fim, mas conseguirão bem mais do que isso. Elas vão adquirir a habilidade de se comunicar, de persuadir, de atrair e de dominar. Em qualquer arranjo social, tais capacidades serão vantagens, mas a educação nunca pode ser buscada somente como meios para elas, mesmo se são sua consequência natural." (SCRUTON, Roger. O Que É Conservadorismo. São Paulo: É Realizações, 2015.)

A educação em humanidades deve ser desafiadora, deve ser interessante e prazerosa. Buscada em si para o desenvolvimento do caráter, da inteligência e pelo prazer intelectual e emocional que proporciona, automaticamente capacitará o médico ao desenvolvimento da liderança.

Entrevistador: Qual conselho o senhor daria para a categoria médica? E para os acadêmicos?

Aos colegas permanecer firme no antigo mandamento: Amar o próximo como amam a si mesmos. Exercer o dom da empatia com competência e com compaixão.
Aos acadêmicos, que sejam bons médicos agora! Sejam excelentes em suas áreas. Dediquem-se verdadeiramente aos seus pacientes. Não tenham pressa em terminar seus estudos formais e entendam que não há desculpas depois para a falta de conhecimentos. Aquilo que se conquista e se integra à personalidade é um tesouro que ninguém pode remover. Cresçam e amadureçam o quanto antes, em todos os sentidos. Busquem ser médicos na verdadeira acepção da palavra.

Hélio Angotti Neto

03 de julho, Colatina – ES.

domingo, 2 de julho de 2017

O DEVER DE MATAR

O DEVER DE MATAR

O pesadelo do ser humano submisso à tecnocracia utilitarista




A cada dia a Cultura da Morte penetra mais fundo na Medicina, fazendo com que a antiga arte traia sua vocação hipocrática e cristã. Uma das ferramentas da Cultura da Morte é a Disbioética, uma forma deturpada de estudar e disseminar práticas imorais que infecta e envenena a discussão acadêmica espalhando-se como um vírus letal nas mentes da elite universitária. E duas das grandes bandeiras da Disbioética são a Eutanásia e o Suicídio Assistido.

Subjacente a essas práticas mórbidas estão diversas idéias inegavelmente tenebrosas.

Uma dessas idéias, apontada por Jeffrey Bishop, médico e filósofo da Saint Louis University, é a de que o foco na qualidade de vida desviou perigosamente o foco anterior da medicina em conservar a vida humana, permitindo hoje a instrumentalização da morte e a ação totalitária do médico sobre a vida do paciente.[1]

Numa linguagem muito semelhante àquela utilizada por médicos nazistas do começo do século XX que encarnaram a epítome da medicina desumanizada e submissa a um Estado assassino, fala-se hoje novamente em morte digna, vida indigna e interrupção misericordiosa da vida para expressar o anseio em encerrar brevemente a existência ou até mesmo evitar o parto daqueles humanos indesejados.

Muitos defendem a possibilidade de matar pacientes, cometer suicídio com a ajuda de médicos e até mesmo matar o próprio filho como direitos dos pacientes, ousando chamá-los inclusive de Direitos Humanos, numa linguagem realmente torpe.

É óbvio, ou deveria ser, que um direito de alguém exige um dever de outro. Se eu tenho direito a algo, alguém tem a obrigação de executar um ato que concretize meu direito. Daí a conclusão inevitável de que a atual grande discussão em Bioética é justamente a limitação da objeção de consciência e a possível escravidão moral e espiritual da classe médica, que será obrigada a matar.

Quando o assassinato for legalizado, a sociedade provavelmente cairá em uma progressiva dessensibilização moral, como já acontece com a Holanda. Após a legalização e a formalização do suicídio assistido, o perfil da casuística de mortes está mudando radicalmente. 

Relativamente são exterminados menos pacientes com câncer e mais pacientes com distúrbios psiquiátricos, uma indicação eticamente muito mais controversa para a permissão do suicídio assistido. Hoje também já se observam as clínicas da morte, que entregam o produto letal de forma rápida e sem empecilhos desconfortáveis, denotando alta eficácia em matar a custos reduzidos, sem muitas perguntas.[2] O próximo passo é a liberação da eutanásia para pessoas saudáveis acima de 75 anos.[3] Ser velho voltou a ser uma boa razão para ser morto, como já fora defendido por iluminados utilitaristas do passado recente, que defendiam medidas muito “humanas” como a câmara de gás para pessoas que não fossem capazes de se adequar à sociedade, incluindo idosos sem capacidade laboral.[4]

Relatos como o reproduzido a seguir denotam o quanto tudo está fugindo do controle:

Durante o acampamento de verão de minha paróquia no interior de Quebec, três anciões receberam o diagnóstico de câncer no hospital local, um estabelecimento interiorano a uma hora de viagem de carro do centro urbano de Ottawa e ainda mais distante da super-secular Montreal. Porém, após a informação do diagnóstico, a primeira questão perguntada para cada uma dessas pessoas foi 'você quer fazer eutanásia?' É isso o que o sistema canadense de eutanásia alcançou em apenas poucos meses: colocou a eutanásia no topo das opções do cardápio proposto para pessoas gravemente doentes.[5]

Como os novos médicos serão ensinados nesse contexto de vulgarização da morte? Serão eles instruídos a oferecer a eutanásia como qualquer outra opção ou até mesmo como a primeira opção? Serão eles pressionados para corte de gastos monetários e emocionais com a eliminação dos "casos difíceis"? Respeitarão aqueles médicos que ousarem alegar objeção de consciência?

Se, para o paciente, toda essa conversa pode soar assustadora, para o médico que honra a vida humana e a protege isso pode significar o fim de sua carreira ou a corrupção definitiva de sua vocação, pois agora o risco é que sejam realmente forçados a matar.

Num regresso aos tempos pré-hipocráticos, é o médico quem novamente irá administrar venenos, abandonando seu ancestral juramento sagrado de proteção da vida humana, equiparando-se novamente aos mortais feiticeiros e assassinos da antiguidade, desprezando a profissão que por tantos séculos angariou a admiração e o respeito de tantos povos.[6]

E todo esse descalabro assumiu recentemente uma face ainda mais assustadora, embora em nada imprevisível, como se vê no caso do bebê Charlie Gard, do Reino Unido. Nesse macabro caso, os pais do bebê, que sofre de uma doença rara e quase sempre letal - a Síndrome de Depleção Mitocondrial -, precisam implorar pela oportunidade de removerem seu filho do hospital estatal inglês e levá-lo a um médico particular de outro país para tentar um tratamento alternativo e caríssimo.[7]


Não é o caso de gastar o dinheiro do contribuinte inglês num tratamento milionário para salvar, talvez, uma única vida. Os médicos, a serviço do Estado e não do paciente, proibiram a remoção do bebê do hospital e decretaram que o melhor a ser feito era deixar que morresse sem tentar o caro tratamento em outro país.

Podemos ter, nesse caso do pequeno Charlie e sua família desautorizada pelo Estado a tentar salvá-lo, um vislumbre de nosso sombrio presente e nosso nada promissor futuro. A vida do bebê não está mais sob a tutela de seus pais que o amam profundamente, está nas mãos da tecnocracia estatal que julgou não valer a pena lutar por sua vida, tão insignificante como a vida de qualquer incapacitado é para os cálculos utilitaristas dos burocratas que enxergam números e não pessoas.[8]

Fomos avisados há décadas sobre esse mal que emergia na alma da medicina e da sociedade contemporânea, mas permanecemos surdos ao ressurgimento da Cultura da Morte.[9] O ser humano tornou-se um objeto de cálculos utilitaristas, um frio produto cujo preço deve ser avaliado para, no fim, ser considerado digno ou não de viver.[10]

Talvez a pergunta que todos devamos fazer seja a seguinte: desde quando viramos objetos de uma tecnocracia impessoal que decide o quanto vale nossa vida ou qual a sua “qualidade”?

Você quer um Estado que decida que está na hora de você morrer? Para mim, um dos piores pesadelos distópicos possíveis é viver numa sociedade em que a elite tecnocrática de um Estado tirano encontrou meios formais para livrar-se daqueles os quais julga inúteis.

Até quando você será útil?

Hélio Angotti Neto
Colatina, 02 de julho de 2017.




[1] BISHOP, Jeffrey. The Anticipatory Corpse. Medicine, Power, and the Care of the Dying. Notre Dame, Indiana: University of Notre Dame Press, 2011.
[2] KOOPMAN, Jacob J. E.  ‘Developments in the Practice of Physician-Assisted Death Since Its Legalization in the Netherlands’. Dignitas 23, no. 2, Summer 2016, p. 9-14. Internet, https://cbhd.org/content/developments-practice-physician-assisted-death-its-legalization-netherlands
[3] FREIRE, Emma Elliott. Netherlands Considers Euthanasia For Healthy People, Doctors Say Things Are ‘Getting Out Of Hand’. The proposed 'Completed Life Bill' would allow any person over age 75 to receive euthanasia. Even if they are perfectly healthy. The Federalist. Internet, http://thefederalist.com/2017/06/30/netherlands-considers-euthanasia-healthy/?utm_source=The+Federalist+List&utm_campaign=e8d13aa942-RSS_The_Federalist_Daily_Updates_w_Transom&utm_medium=email&utm_term=0_cfcb868ceb-e8d13aa942-52858105
[4] "The notion that persons should be safe from extermination as long as they do not commit willful murder, or levy war against the Crown, or kidnap, or throw vitriol, is not only to limit social responsibility unnecessarily, and to privilege the large range of intolerable misconduct that lies outside them, but to divert attention from the essential justification for extermination, which is always incorrigible social incompatibility and nothing else." Fonte: SHAW, George Bernard. Plays Political: The Apple Cart, On the Rocks, Geneva. Penguin Classics: 1990.
"We should find ourselves committed to killing a great many people whom we now leave living, and to leave living a great many people whom we at present kill. We should have to get rid of all ideas about capital punishment … A part of eugenic politics would finally land us in an extensive use of the lethal chamber. A great many people would have to be put out of existence simply because it wastes other people's time to look after them." Fonte: SHAW, George Bernard. Lecture to the Eugenics Education Society. The Daily Express, 4 de março, 1910.
"The moment we face it frankly we are driven to the conclusion that the community has a right to put a price on the right to live in it … If people are fit to live, let them live under decent human conditions. If they are not fit to live, kill them in a decent human way. Is it any wonder that some of us are driven to prescribe the lethal chamber as the solution for the hard cases which are at present made the excuse for dragging all the other cases down to their level, and the only solution that will create a sense of full social responsibility in modern populations?" Fonte: SHAW, George Bernard. Prefaces. London: Constable and Company, 1934, p. 296.
[5] GRANT, Edward R. Cracks in the wall: confronting the legalization of physician-assisted suicide and euthanasia. DIGNITAS, 2016, Volume 23(3), p.1, 4-6.
[6] ANGOTTI NETO, Hélio. A tradição da medicina. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2016.
[7] HAWKEN, Abe. Terminally ill baby Charlie Gard's parents 'utterly distraught' after losing final appeal in European court - meaning their son's life support WILL be switched off. Mail Online. Internet, http://www.dailymail.co.uk/news/article-4644268/Charlie-Gard-s-parents-lose-final-appeal.html#ixzz4ljCBPbrP 
[8] WALSH, Matt. Tradução e adaptação: Equipe do site Christo Nihil Praeponere. Bebê é sentenciado à morte por Tribunal Europeu dos “Direitos Humanos”. Descubra o que está por trás da sentença de morte do pequeno Charlie Gard, o bebê cuja vida e família foram simplesmente “atropeladas” pela decisão irrecorrível de um tribunal. Internet, https://padrepauloricardo.org/blog/bebe-e-sentenciado-a-morte-por-tribunal-europeu-dos-direitos-humanos
[9] Em obra a ser traduzida em breve pela Editora Monergismo: KOOP, C. Everett; SCHAEFFER, Francis A. Whatever Happened to the Human Race? Wheaton, Illinois: Crossway, 1983.
[10] WEIKART, Richard. The Death of Humanity and the Case for Life. New Jersey, Regnery Faith, 2016.