domingo, 14 de julho de 2019

A CORRUPÇÃO DO CURRÍCULO MÉDICO

Estive em maio de 2019 em um evento realizado no Conselho Federal de Medicina, em Brasília. Lá tive a oportunidade de comentar acerca dos problemas de cobertura vacinal que o Brasil enfrenta e das possíveis medidas de educação que poderiam ser feitas para ajudar o cidadão brasileiro por meio do Sistema Único de Saúde.

Conversa vai, conversa vem, e eis que uma das pessoas que assistia a tudo da plateia fala a respeito da importância de educar da forma correta – ou ensinar, a depender de quem fala. Disse algo sobre a perversão do currículo.

Ao retrucar, comentei que realmente se via uma grande perversão do currículo, ou corrupção do mesmo. Como um aluno que chega ao sétimo período de seu curso mal consegue palpar um abdome enquanto ao mesmo tempo foi obrigado a aprender vulgaridades ideológicas de certo elemento mais radical do espectro político brasileiro?

Isso é, de fato, um desserviço à população brasileira, que não poderá ter seu abdome palpado com proficiência em um letal caso de apendicite, mas poderá escutar algumas corruptelas e generalizações burras sobre Karl Marx. Afinal, quantos desses jovens irritados e manipulados por esclerosados ideólogos da velha guarda leram de verdade o que escreveu Karl Marx? Aliás, quantos desses esclerosados e rubros marxistas que abundam Brasil afora leram, de fato, o volumoso Das Kapital?

O ciclo de palestras e debate caminhava para o encerramento, mas um colega se levantou da plateia e, por uma questão de ordem, questionou acerca de o que eu queria dizer exatamente com a expressão currículo corrompido. “Quem são os corruptos? Dê nome aos bois!”, disse ele, renomado bioeticista.

É engraçado como críticas a atos e fatos são imediatamente personalizadas em nosso meio, é quase um cacoete mental e discursivo. Se critico a ideologia marxista e leninista como genocida, logo entendem por aí que tenho uma rixa pessoal com o elemento que acha ser marxista, mesmo sem ter lido duas páginas do infame panfleto O Manifesto Comunista.

Não que o colega curioso tenha lido pouco de Marx. Acredito – ou pelo menos espero - que tenha lido o suficiente, como todos no Brasil e mundo afora fariam bem em ler. Também deveriam todos ler Mises e Hayek, mas aí já é sonhar alto demais. A regra geral é estarmos em um oceano de especialistas em todos os assuntos que nunca estudaram de fato.

Voltemos ao assunto principal. Expliquei o óbvio: “Não falei de corruptos, mas sim de corrupção curricular”. E aqui vale a pena reproduzir um pouco do que penso ser esse efêmero produto da ignomínia educacional chamado de currículo corrompido ou pervertido.

O currículo corrompido é aquele incapaz de dialogar com a realidade. Simples assim.

Primeiro é preciso deixar bem claro que não há como negar a existência de uma realidade. Dizer que somos incapazes de apreender a realidade é uma afirmação contraditória, pois, como alguém ousa negar a possibilidade de apreender a realidade enquanto ao mesmo tempo tem a pretensão de afirmar ser ela indisponível à nossa apreensão e, portanto, ousar afirmar uma de suas características reais? Não faz sentido.

E essa realidade, na qual vivemos, possui elementos ontológicos inegáveis e elementos de construção social.

Alguns elementos ontológicos básicos são:

1 – Pessoas são limitadas e sofrem, adoecem e morrem;

2 – Quando fragilizadas, com sofrimento e limitações, podem solicitar ajuda;

3 – Há aqueles que, expostos ao pedido de socorro do próximo que sofre, oferecem ajuda (eis os profissionais da saúde e, entre eles, o médico).

Sobre esse arcabouço ontológico inegável, é óbvio que muitas construções sociais podem ser feitas, mas há um limite. 

Uma pessoa com melanoma maligno metastático avançado morrerá em breve. Seu velório será uma construção social, com toda a simbologia atrelada ao momento de dor e perda, mas a morte está lá, dolorosamente concreta, real. O cadáver não é, em si, uma construção, é um fato sobre o qual a cultura construirá por meio de seus signos.

Um currículo que não compreende sua destinação a intervir nessas realidades básicas descritas aqui, está desconectado da realidade.

Um aluno exposto a um currículo e que se encontra ao fim do curso incapaz de realizar uma manobra semiológica básica que diagnosticaria uma doença grave e prevalente, ou se encontra incapaz de realizar uma sutura simples em condições adequadas de antissepsia, é um aluno que sofreu a ação de um currículo corrompido. Pode ter aprendido muito Foucault, muito Karl Marx e até mesmo muito Zizek, Mészaros ou Dugin – o que duvido muito, considerando a pobreza mental de nossa intelectualidade esquerdista -, mas antes deveria ter aprendido semiologia, fisiopatologia clínica e farmacologia clínica. Faria bem em ter lido muito do Harrison, Novak, Nelson e Sabiston!

Quando observamos uma forte tendência à ideologização porca dos currículos, destinada a promover a formação de pequenos militantes portadores de bacharelado ao invés de eficazes interventores na saúde, seja individual, seja pública, temos um claro desvio de função curricular. Tal desvio leva à formação de um profissional fora do modelo estabelecido de médico, comprovadamente útil à sociedade e capaz de intervir em seus elementos ontológicos de forma eficaz conforme registros históricos milenares.

Quando o médico se torna agente político de um partido com ambições totalitárias – vide o passado recente do Brasil, clássico aplicador de um maroto leninismo mascarado com demagogia barata e moralismo burguês -, temos um currículo corrompido.

Antes de brincar de fabricar lacradores ideológicos radicais estupidificados, importa criar eficazes analistas da realidade de saúde do paciente, capazes de dialogar com o elemento ontológico e também com o elemento de construção social presentes na relação terapêutica com seu paciente.

Quanto aos elementos produtores e promotores de tais currículos corrompidos, resta saber se são corruptores ou corruptos, de fato. Na primeira opção, são perigosos manipuladores que intencionalmente distorcem a formação alheia, inventando um modelo de médico que só Deus sabe em que se tornará ao predominar na sociedade. Na segunda opção, caso sejam corruptos, foram aqueles que acreditaram na bondade de tal empreendimento de corrupção curricular e tornaram-se, eles mesmos, vítimas dessa deformação ideológica. Nenhuma das opções é lá muito lisonjeira.

Por fim, há que concordar que certas ideologias são menos compatíveis com a formação de um profissional destinado a salvar vidas e aliviar sofrimentos. Uma ideologia sangrenta e sociopática como a do comunismo, verdadeiro instrumento de massacre que dizimou vidas às centenas de milhões, não é capaz de criar um profissional médico adequado. A coerência cobrará seu preço intelectual e profissional cedo ou tarde. Contudo, o preço em vidas já é pago todos os dias há décadas e em extensa parte do mundo.

sábado, 25 de maio de 2019

NOMINALISMO, LUGAR DE FALA E BURRICE ABORTISTA

O IRRACIONALISMO ABORTISTA

Escutei uma sentença no mínimo curiosa, se não irracional. Em um evento médico dedicado a discutir a legalização do abortamento voluntário, doravante chamado de aborto, um colega obstetra lançou uma censura nos seguintes termos: “Quem é você para opinar? Eu mexo com isso todos os dias! Eu sei o que acontece.”

Sim, sou um simples oftalmologista que estuda humanidades médicas, filosofia da medicina e bioética há meros dezessete anos. Relativamente pouco tempo, porém, muito mais do que a maioria costuma estudar, há de convir.

Essa censura despertou em mim a reflexão de como a modernidade se afundou na burrice irracionalista de um nominalismo inconsequente. Antes que o leitor julgue que isso não passou de um estranho rótulo para confundir sua mente, ousarei explicar.

Para certo nominalismo inconsequente, fruto de uma puerilização da filosofia moderna, não existe realidade inteligível e classificável por meio de propriedades universais apreensíveis objetivamente pelo ser humano. Isso quer dizer que tudo o que vemos não passa de mera projeção subjetiva de nossas mentes, que inventam conceitos e classificam experiências por mera conveniência. Experiências estas incapazes de serem classificadas como reais de forma racional.

Hoje, esse subjetivismo nominalista, exacerbado ao ponto de ameaçar nos trancar em uma solitária cela mental, ao lado de vulgares determinismos sociais, permitiu a pessoas despreparadas que desclassificassem qualquer esforço racional de universalidade do conhecimento.

Ao invés de aplicar a boa e velha lógica aristotélica, opta-se por relativizar tudo, em um ambiente no qual a única certeza absoluta é a certeza de que tudo é relativo, menos essa louca e insustentável certeza.

Se sou oftalmologista, como poderia opinar acerca de uma questão como a do aborto? Estou para sempre preso em minhas circunstâncias, incapaz de lançar meu intelecto e meu ser rumo à empática e racional experiência de generalização. 

Para saber sobre aborto, não basta conhecer as experiências de vida comunicadas oralmente ou de forma escrita e ter estudado uma década ou mais sobre o assunto. É preciso ser ginecologista e obstetra, compreende?

Mas vou brincar um pouco mais com esses ridículos pressupostos condicionantes da razão humana. Quem é o colega do sexo masculino para falar do aborto? Ele não pode parir! Esta é outra pseudoargumentação, utilizada por muitas abortistas e aborteiras contra médicos do sexo masculino que ousam dar opinião sobre aborto. E, logo, em cada comunicação, vem aquela manjada história de que esse ou aquele é ou não é o meu ou o seu lugar de fala... Que canseira.

Mas quem é a médica obstetra para opinar se nunca tiver abortado ou tido filhos? Esta seria a próxima pergunta.

Mas vamos supor que a médica tenha tido filhos e tenha abortado. Quem é ela para opinar acerca da situação que não é a dela? Não foi ela quem viveu o que sua paciente vive.

Aliás, quem é a mulher que quer abortar para ousar conversar com qualquer outro ser que não ela mesma? Como ela pode sequer se dirigir a uma médica ou médico, ou a qualquer pessoa, aliás, já que a experiência dela é uma coisa, e a do outro ser é outra?

Se vocês acompanharam esta breve sequência imaginária, já perceberam que qualquer tentativa nominalista de desclassificar ou desconstruir a racionalidade do discurso acabará num esforço insano e autocontraditório que deixará a humanidade em completo estado de incomunicabilidade. Seremos todos balbuciantes partículas irracionais imersos em uma grande e louca miragem.

E não vou nem falar dos oncologistas e sua pretensão de cuidar de pessoas com câncer ou dos paliativistas. Se começarmos a cobrar lugares de falacomo tem ocorrido em certas discussões, teremos uma séria ameaça de extinção de toda uma classe profissional.

Dizer que o irracionalismo subjetivista de um exagero inconsequente do nominalismo é inaceitável e contraditório não quer dizer que eu esteja abolindo a importância da experiência subjetiva ou das circunstâncias. Como disse Ortega y Gasset, nós somos produto de uma concreta mistura entre nosso ser e nossas circunstâncias.

Analisamos a realidade de dentro dela, o que em nada desqualifica o fato de que olhamos para a realidade com todas as certezas e enganos que ela nos oferece. Logo, se algum abortista vier com essa conversa mole de lugar de fala e outros estúpidos argumenta ad igorantiam argumenta ad hominem, cabe a resposta do famoso filósofo brasileiro Olavo de Carvalho: cala a boca, burro!



domingo, 19 de maio de 2019

REGRAS DA EXPRESSÃO - LAVELLE

REGRAS DA EXPRESSÃO – LOUIS LAVELLE


“Não se deve rejeitar nem desprezar a aparência, que é também a manifestação ou a expressão. Pois há solidariedade entre a aparência e o que ela mostra.

“Exige-se que a aparência seja fiel, o que já nos obriga a uma disciplina estrita; pois no esforço que fazemos para torná-la fiel está a própria ideia que buscamos circunscrever, ou seja, formar. E é admirável que aqui a palavra “definição” não pareça designar nada mais que a proposição pela qual eu formulo o sentido da ideia por meio de palavras, mas que é também o ato pelo qual tomo posse dele e o crio dentro de mim. 

“Uma ideia tem necessidade de se realizar no exterior para poder sê-lo no interior, porque do contrário ela vacila e se extingue. Ela precisa tomar forma para ser, e é esta forma que a faz ser. Há que dizer precisamente que ela é informe quando não consegue dar-se uma forma.

“Mas é preciso que essa fidelidade pela qual se busca obter a conformidade, ou seja, a identidade entre a ideia e a forma, ou seja, essa fidelidade pela qual se busca dar um corpo à ideia que também lhe dá a existência e a vida, é preciso que ela se transforme para nós em beleza. Pois a exigência da beleza na forma é o testemunho na própria ideia desse valor secreto que a torna digna ao mesmo tempo de ser pensada, querida e amada.”

***

Orwell, em seu romance 1984, falava a respeito de só se poder realmente pensar sobre aquilo que se podia falar. Sua sociedade imaginária (muito semelhante a certas sociedades bem reais movidas por ideologias como o socialismo), controlava o pensamento de seus habitantes por meio do estrito controle da terminologia empregada e pela manipulação da história. Lavelle concordaria com George Orwell,, ao que tudo indica, pois reconhece que um pensamento sem forma permanece em grande parte como um potencial a ser despertado plenamente, como um prisioneiro no fundo da alegórica caverna de Platão, imerso em trevas olhando as sombras, embora apto a um dia sair ao ar livre e contemplar o sol.

E quem nunca passou pela sutil experiência de tentar explicar algo e terminar por saber ainda mais a respeito daquilo que explicou após terminar a exposição? Quem nunca aprendeu algo completamente novo ao enunciar em voz alta seus pensamentos a outrem? A forma expressiva, em harmonia com a ideia, forma um conjunto ainda mais rico na concretude de sua manifestação, embora abra mão do potencial prévio de expressão. Eis uma relação interessante entre a forma cristalizada e vazia e o conteúdo potencial informe e silencioso da ideia ainda não enunciada. Uma expressividade esteticamente bela e eficaz anuncia o conteúdo sem lhe tolher certo potencial de expansão e inovação.

***

“Não devemos buscar tornar-nos semelhantes a um espelho que achata as coisas e termina por nos cegar. É aquele que traz no espírito os maiores pensamentos que percebe o real com mais esplendor e relevo.”

domingo, 31 de março de 2019

O DEBATE SOBRE O ABORTO - UMA LEITURA OBRIGATÓRIA PARA NOSSOS DIAS.

Uma grande necessidade para esse debate nos dias atuais é compreender as regras da argumentação.
No entusiasmado debate do qual participei, alguns estratagemas erísticos se repetiram ad nauseam, entre eles:
1 - Argumentum ad Verecundiam - O trabalho X está publicado no periódico internacional Y... Quem disse foi a OMS...
2 - Argumentum ad Hominem - Meu lugar de fala... Você não é mulher e não pode falar sobre isso...
3 - Opções forçadas - Mas você quer prender 7 milhões de mulheres (???) ou legalizar o aborto?
4 - Rotulações odiosas - Mas o que vocês querem afinal? Voltar aos dias de repressão do patriarcado?
Para qualquer estudioso da Teoria da Argumentação, incluindo retórica e erística, está muito claro que tudo o que foi exposto acima é completamente irracional e inválido num debate sério, mas há que se compreender que não costumamos ter boa educação no Brasil.
Muitos lançam tais argumentos com a maior naturalidade, pois cresceram em um ambiente no qual toda essa manipulação discursiva psicológica é natural. Contudo, em um país com o mínimo de cultura e educação, a utilização de qualquer um desses estratagemas tão caros à discussão brasileira seria uma grave falha, capaz de desautorizar seu emissor.
Para aqueles que desejam compreender melhor como conversar (acredite, existe uma técnica para isso), recomendo começar o estudo pelo magnífico livro Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão, escrito por Schopenhauer e comentado pelo Olavo de Carvalho
Outra obra imprescindível para conhecer melhor os argumentos acerca do aborto é o livro A Ética do Aborto, do Kaczor, escrito de forma a incluir argumentos de ambos os lados com muito respeito e extrema competência. Pode ser encontrado neste link.


sábado, 23 de março de 2019

MINISTÉRIO DA SAÚDE - 2019 - UMA NOVA MISSÃO

MINISTÉRIO DA SAÚDE - 2019 - UMA NOVA MISSÃO



Desde o dia 16 de janeiro fui nomeado para uma nova missão: auxiliar na gestão da educação na saúde. Desde que assumi a Diretoria do Departamento de Gestão da Educação na Saúde (DEGES) sob o comando do Ministro Mandetta e da Secretária Mayra Pinheiro, a serviço do Presidente Jair Bolsonaro, tenho encontrado muitos desafios, mas o bom trabalho e a dedicação de muitos que aqui conheci tem tornado o trabalho muito gratificante. 

Sempre defendi o papel importante que a boa educação de nossos profissionais da saúde tem na vida do nosso povo, e esse será sempre nosso norte: fornecer meios para o constante aprimoramento daqueles que cuidam de nossas famílias.

Saiba um pouco mais sobre a SECRETARIA DE GESTÃO DA EDUCAÇÃO E DO TRABALHO NA SAÚDE, onde fica o DEGES.

"A Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES) é responsável por formular políticas públicas orientadoras da gestão, formação e qualificação dos trabalhadores e da regulação profissional na área da saúde no Brasil.

"Cabe à SGTES promover a integração dos setores de saúde e educação no sentido de fortalecer as instituições formadoras de profissionais atuantes na área, bem como integrar e aperfeiçoar a relação entre as gestões federal, estaduais e municipais do SUS, no que se refere aos planos de formação, qualificação e distribuição das ofertas de educação e trabalho na área de saúde."

quinta-feira, 7 de março de 2019

PERGUNTA E RESPOSTA - DICAS PARA O ESTUDO DA FILOSOFIA CLÁSSICA

Poderia me indicar algum livro para iniciação em filosofia greco-romana (basicamente Sócrates, Platão e Aristóteles), que não seja da Marilena Chauí e afins?


Recomendo começar pelo Apologia de Sócrates, na tradução de Carlos Alberto da Costa Nunes pela Editora da Universidade Federal do Pará. Seria uma amostra inicial da filosofia de Sócrates e Platão.

Daí, poderia prosseguir com a leitura dos seguintes livros introdutórios sobre Aristóteles:

-Aristóteles para Todos: Uma Introdução Simples para um Pensamento Complexo, de Mortimer Adler;

-Aristóteles em Nova Perspectiva: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos, de Olavo de Carvalho.

Sobre a origem da filosofia, recomendaria assistir e ler os primeiros episódios da série do Olavo de Carvalho: História Essencial da Filosofia:

-O Projeto Socrático– Aula 02;

-Sócrates e Platão– Aula 03;

-Aristóteles– Aula 04.

Depois disso, eu voltaria para os originais:

-Fédon, de Platão;

-A República, de Platão;

-Mênon, de Platão;

-Retórica, de Aristóteles;

-Política, de Aristóteles.

Por fim, eu releria Apologia de Sócrates.

Depois disso, o ideal seria prosseguir com os originais até completar toda a obra de Platão e de Aristóteles enquanto se lê algumas obras que ajudarão a montar o contexto da Grécia Antiga e o atual contexto das obras de Platão e Aristóteles, tais como Paidéia, de Werner Jaeger,Plato, de Paul Friedlander e os livros de História da Filosofia do Giovanni Reale e Frederick Copleston. Para aprofundar ainda mais, não há como escapar da leitura de clássicos da Grécia Antiga, e daí deve-se ler Homero e Sófocles enquanto se lê o primeiro volume deHistória da Literatura Ocidentaldo Otto Maria Carpeaux.

Seguir por esse caminho me ajudou muito. Recebi tesouros culturais que me servem até mesmo para a vida pessoal, para a prática da medicina e para todas as minhas atividades intelectuais.

BREVES REFLEXÕES

ENSINAR HUMANIDADES MÉDICAS É, NO FIM DAS CONTAS, TER COMO PROJETO DE VIDA TORNAR-SE UM MÉDICO DE EXCELÊNCIA PROFISSIONAL
Há que se diferenciar duas posturas que podem ser chamadas de filosóficas (uma delas, inadequadamente apontada como tal):
1 - A do humilde, que sabe o que sabe e sabe o que não sabe, e que sempre está disposto a aprender em todas as oportunidades, sem ignorar a qualidade do que já aprendeu;
2 - A do falso modesto, que afirma nada saber como desculpa para relativizar o conhecimento alheio enquanto posa de sábio e prudente, algo que no fim das contas nada mais é do que a mais pura arrogância disfarçada.
Como aprendi há muitos anos no início do Curso de Filosofia do Olavo de Carvalho, aprender algo é aprender algo que antes não se sabia. Saber algo é saber de algo que alguém não sabe e, portanto, arriscar a incompreensão por parte daqueles que não estudaram ou não viveram experiência semelhante.
Quem quer ensinar algo precisa saber sobre o que deseja ensinar. Não se transmite aquilo que não se tem. Portanto, na educação, o papel do professor/mediador é importantíssimo, mas, por outro lado, só se ensina a quem quer aprender de fato.
Nesse contexto, reflito sobre a possibilidade de ensinar Humanidades Médicas como algo ligado a um projeto de vida no qual o objetivo nada mais é do que o aprimoramento pessoal intrinsecamente ligado às virtudes da profissão em um âmbito de partilha de experiências e conhecimentos. Tal objetivo é o próprio projeto socrático da filosofia que encontrou sua máxima expressão e perfeição no advento do Cristo.
As Humanidades Médicas são um grande projeto de vida que nunca se completa, mas que encontra sua realização conforme seus modelos de excelência se espalham em meio às profissões de saúde.

segunda-feira, 4 de março de 2019

A MANIPULAÇÃO NA EDUCAÇÃO

EXCERTO DA OBRA DE ALFONSO LÓPEZ-QUINTÁS
A TOLERÂNCIA E A MANIPULAÇÃO


6. A MANIPULAÇÃO DOS EDUCADORES (p. 121-124)

Os tiranos procuram por todos os meios manter as pessoas num nível cultural baixo, para que seu poder de discernimento seja o menor possível, o que as torna facilmente manipuláveis. B. Hearing atribui essa atitude aos ditadores: “Em sociedades e Estados autoritários todos o processo de educação é orientado para obter cidadãos dóceis e fáceis de manipular, evitando-se ou reprimindo tudo o que possa suscitar um espírito crítico”.

Também nos regimes democráticos, aquele que deseja vencer sem convencer costuma conceber planos e métodos de ensino com os quais não se crie o poder do discernimento, a sensibilidade para os grandes valores, o entusiasmo criativo, o desejo de realizar tarefas relevantes. Sob o pretexto de “desdramatizar” os problemas, banaliza-se a vida humana. (...)

O manipulador cultural proclama seu interesse pela cultura, mas trata-se de uma cultura que tende a dominar, não a criar unidade. Daí o estímulo às ciências em detrimento das humanidades, e, pior ainda, o interesse por orientar a potência criadora do ser humano, sobretudo dos jovens, para modos infraculturais de atividade, infraculturais por não serem criativos.

Esse tipo de manipulação educativaopera em vinculação encoberta com a manipulação ideológica. Como se sabe, o escritor italiano Antonio Gramsci elaborou toda uma tática para atingir o poder político mediante o domínio cultural, que, por sua vez, será alcançado mediante um processo no qual as ideias e os sentimentos dos intelectuais são assumidos pelo povo e convertem-se numa fonte de energia revolucionária. “Quando se consegue”, diz ele, “introduzir uma nova moral adequada a uma nova concepção do mundo, termina-se por introduzir também essa concepção, isto é, determina-se uma reforma filosófica total.” (...)

Ensinar o povo a pensar com rigor é, efetivamente, elevada tarefa, que exige vivência profunda e que as questões básicas sejam apresentadas com força imaginativa, de modo que as pessoas igualmente se compenetrem dessas questões e as compreendam por dentro. Ora, esse trabalho não deve ser realizado com a finalidade de adquirir poder e domínio sobre o povo, mas de conferir-lhe verdadeira liberdade interior. Jamais a educação deve transformar-se, sob nenhum pretexto, por mais elevado que pareça, em recurso estratégico para conseguir um objetivo. Deve ser impulsão da personalidade de cada ser humano, que é um fim em si mesmo e não um meio.

Nunca antes foi tão válida a seguinte observação de Gabriel Marcel, um dos pensadores contemporâneos mais preocupados com o destino da humanidade: “O que hoje provavelmente mais falta faz ao mundo são educadores. Do meu ponto de vista, esse problema dos educadores é o mais importante, e é nisso que a reflexão filosófica deve dar sua contribuição.”


É urgente aplicar ao trabalho formativo os resultados de uma atenta investigação filosófica, para evitar que o processo educacional seja colocado a serviço dos demagogos, como costuma acontecer, segundo B. Haering: “A educação é o mercado público em que encontramos as mais diferentes ideologias, bem como aqueles que depositam suas maiores esperanças em manipular os outros”. 

Alfonso López QUINTÁS.

A Tolerância e a Manipulação. Campinas, SP: É Realizações, 2018

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

LEITURAS DE 2018

Leituras de 2018


FILOSOFIA
1 - Filosofia Verde– Roger Scruton
2 – A República– Platão
3 – Cosmovisão: A História de um Conceito – David Naugle
4 – Filosofias da Afirmação e da Negação– Mário Ferreira dos Santos
5 – O Trabalho Intelectual– Jean Guitton
7 – Filosofia Concreta dos Valores – Mário Ferreira dos Santos
8 – Dao De Jing. O Livro do Tao – Lao Zi.
9 – Fools, Frauds and Firebrands. Thinkers of the New Left – Roger Scruton 
10 – As Leis– Platão
11 – A Arte de Viver– Epitecto
12 – Medical Philosophy. Conceptual Issues in Medicine – Mario Bunge
13 – Origem e Epílogo da Filosofia– José Ortega y Gasset
14 – Textos Básicos de Ética. De Platão a Foucault – Danilo Marcondes
15 – Fundamentals of Ethics – John Finnis
16 – As Armadilhas da Lingugem – Danilo Marcondes 

MEDICINA GERAL E CIÊNCIAS
1 - Manual Politicamente Incorreto da Ciência – Tom Bethell
2 – Sociologia da Medicina – Gilberto Freyre

BIOÉTICA E HUMANIDADES MÉDICAS
1 – Diretivas Antecipadas de Vontade – Rui Nunes
2 – A Short History of Ethics. A History of Moral Philosophy from the Homeric Age to the Twentieth Century – Alasdair MacIntyre 
3 – Contra o Aborto – Francisco Razzo
4 – Fundamentos da Logoterapia na Clínica Psiquiátrica e Psicoterapêutica – Roberto Rodrigues
5 – Por Que Ética É Mais Importante Que Religião. Dalai Lama e Franz Alt.
6 – Comentários ao Código de Ética Médica. Resolução CFM 1.931, de 17 de setembro de 2009 – Eduardo Dantas e Marcos Coltri
7 – Methods in Bioethics. The Way We Reason Now. – John D. Arras
8 – Arte Médica – Hélio Angotti Neto 
9 – Ética – Adolfo Sánchez Vázquez
10 – The Philosophy of Medicine Reborn: A Pellegrino Reader – Edmund D. Pellegrino
11 – Disbioética. Volume II: Novas Reflexões sobre os rumos de uma ética estranha. – Hélio Angotti Neto.
12 – Disbioética Volume III: O Extermínio do Amanhã – Hélio Angotti Neto 
13 – Para o Bem do Paciente. A Restauração da Beneficência nos Cuidados da Saúde – Edmund D. Pellegrino & David C. Thomasma.
14 – Bioética Global – Van Rensselaer Potter
15 – O que você precisa saber sobre o Aborto – George Mazza
                             
POLÍTICA E HISTÓRIA
1 - O Diabo na História: Comunismo, Fascismo e Algumas Lições do Século XX – Vladimir Tismaneanu
2 – O Tolo & seu Inimigo - Jeffrey Nyquist
3 – Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex
4 - Impressões da Idade Média – Ricardo da Costa
5 – Freud – Rousas John Rushdoony
6 – A questão da Culpa: A Alemanha e o nazismo – Karl Jaspers
7 – Os Histéricos no Poder – Olavo de Carvalho
8 – Churchill e a Ciência por trás do Discurso – Ricardo Sondermann
9 – A Ciência da Política: Uma Introdução – Adriano Gianturco
10 – Educação: Livre e Obrigatória – Murray N. Rothbard
11 – Do Partido das Sombras ao Governo Clandestino – David Horowitz e John Perazzo
12 – Guerra de Narrativas. A Crise Política e a Luta pelo Controle do Imaginário – Luciano Trigo.
13 – Direitos Máximos, Deveres Mínimos. O Festival de Privilégios que Assola o Brasil – Bruno Garschagen
14 – O Estado e a Revolução – Vladímir Ilitch Lênin
15 – Política para não ser Idiota – Mario Sergio Cortella & Renato Janine Ribeiro

TEOLOGIA
1 - A Sabedoria da Antiga Cosmologia – Wolfgang Smith
2 – O Nascimento do Rei: Um Livro sobre o Natal – Andrew Sandlin
3 – Cristianismo Público. Evangelho e Lei – Andrew Sandlin
4 – Em toda a extensão do Cosmos – Abraham Kuyper
5 – Cristianismo sem Cristo – Michael Horton
6 – A Presença Real e os Milagres Eucarísticos – Monsenhor de Ségur
7 – Bíblia – Novo Testamento: Os Quatro Evangelhos – Frederico Lourenço
8 – Movimento da Liberdade: os 500 anos da reforma – Michael Reeves
9 – Deus é contra os homossexuais? – Sam Alberry
10 – O Catecismo de Pierre Viret – Pierre Viret
11 – O quê e por quê? Uma introdução ao cristianismo – Douglas Jones
12 – A Desgraça do Ateísmo na Economia – P. Andrew Sandlin
13 – O Combate Central da Reforma. A Fé Confessante – Jean-Marc Berthoud
14 – Calvino, Genebra & a Propagação da Reforma na França do Século XVI – Jean-Marc Berthoud
15 – Guerra de Cosmovisões – Editor Gary Vaterlaus e vários autores.
16 – A Vida Segundo o Evangelho – Michael Horton
17 – A Filosofia Cristã da Alimentação – Peter Bringe
18 – A Arte de Profetizar – William Perkins
19 - Perspectivas Bíblicas sobre Negócios. Como a cosmovisão cristã molda nossos fundamentos econômicos. – Philip Clements et al.
20 – A Grande Batalha Escatológica – Leandro Lima
21 – Uma Religião sem Deus: Os Direitos Humanos e a Palavra de Deus – Jean-Marc Berthoud.
22 – Amnésia Cultural. Três ensaios sobre a teologia dos dois reinos – Brian Mattson
23 – Adoração Reformada. A Adoração Segundo as Escrituras. – Terry L. Johnson

LITERATURA
1 – A Hora da Estrela – Clarice Lispector
2 – Até que Tenhamos Rostos. A Releitura de um Mito – C. S. Lewis
3 – Uma Confissão – Liev Tolstói
4 – Notas da Xícara Maluca – N D Wilson
5 – Arte Poética – Horácio
6 – O que aprendi em Nárnia – Douglas Wilson
7 – A Descoberta do Outro – Gustavo Corção
8 – Com a Maturidade fica-se mais jovem – Herman Hesse
9 – Poética – Aristóteles 
10 – O Messias vem à Terra Média. Imagens do Tríplice Ofício de Cristo em O Senhor dos Anéis. – Philip Ryken
11 – A Literatura como Remédio – Dante Gallian
12 – Sobre a Estupidez – Robert Musil 

PSICOLOGIA, EDUCAÇÃO, LIDERANÇA E GESTÃO
1 – Estratégia. Harvard Business Essentials – Richard Luecke
2 – 12 Rules for Life – Jordan Peterson
3 – Inevitável. As 12 forças tecnológicas que mudarão nosso mundo – Kevin Kelly
4 – Gerenciando Mudança e Transição. Harvard Business Essentials – Mike Beer
5 – Treine o seu Cérebro para Provas – Augusto Cury
6 – A Neurobiologia do Aprendizado na Prática. Ana Paula Rabello Chaves
7 – Evasivas Admiráveis. Como a Psicologia Subverte a Moralidade – Theodore Dalrymple
8 – 20 Regras de Ouro para Educar Filhos e Alunos – Augusto Cury
9 – Formação em Medicina no Brasil: Cenários de prática, graduação, residência médica, especialização e revalidação de diplomas – Conselho Federal de Medicina.
10 – De Magistro– Santo Agostinho e São Tomás de Aquino
11 – A Educação da Vontade– Jules Payot
12 – Ética e Vergonha na Cara! – Mario Sergio Cortella e Clóvis de Barros Filho
13 – Ensino Híbrido. Personalização e Tecnologia na Educação – Lilian Bacich, Adolfo Tanzi Neto e Fernando de Mello Trevisani.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O ESTADO COMO PARTE DA REVOLUÇÃO

O ESTADO COMO PARTE DA REVOLUÇÃO
Comentários sobre O Estado e a Revolução, de Vladímir Ilitch Lênin

LÊNIN, Vladímir Ilitch. O Estado e a Revolução. São Paulo, SP: Boitempo, 2017, 214p.

Lênin foi, sem dúvida, um dos grandes intérpretes e aplicadores da obra de Karl Marx e Friedrich Engels. Assim, pelo menos, creem vários dos grandes nomes dentro do próprio movimento revolucionário. Para György Lukács, “Lênin restabeleceu a pureza da doutrina marxiana”. Considerando a forma da revolução, uma das estrelas contemporâneas do movimento revolucionário, Slavoj Zizek, preconiza que “mais do que nunca, devemos voltar a Lênin (...) – a intervenção deve ser verdadeiramente política, não econômica”. 

Portanto, antes que algum desinformado venha com a conversa de que “deturparam” Karl Marx pela milionésima vez, vou deixar claro que Lênin aplicou de forma fiel o que Marx e Engels pregavam, e sua sangrenta prática política revolucionária ainda é louvada, ainda mexe com o ideário marxista contemporâneo e ainda oferece caminhos, como a própria comentarista da edição recente de O Estado e a Revoluçãoafirma: 

(...) mais do que nunca, e principalmente para as novas gerações, os clássicos do marxismo são necessários. E, se Lênin é um companheiro nesta caminhada, sua obra é um farol que nos ajuda na travessia – com sua coesão, sua fidelidade aos fundadores do materialismo dialético, sua consciência dos limites da ação, seu destemor diante de passos ousados, sua firmeza diante da tarefa de guiar os camaradas, sua denúncia dos que se venderam por um prato de lentilhas.[1]

Sim, toda a violência e a ânsia pelo extermínio continua em voga. Pode ser que o polido verniz da democracia burguesa ainda impeça que estudiosos marxistas hoje falem abertamente da forma como Lênin e Marx falavam no passado. Contudo, lá no fundo, muitos deles guardam a velha esperança de ver o sistema estatal cair em suas mãos definitivamente, para que possam promover a ditadura do proletariado que, sugestivamente, mistura soldados e proletários. Todavia, na prática histórica, sofreram tanto os burgueses quanto os proletários nas mãos armadas da elite revolucionária, ainda mais desigual, ainda mais tirana e ainda mais corrupta do que qualquer burguesia precedente.[2]

No seu pequeno livro, Lênin reúne algumas teses clássicas do pensamento revolucionário marxista: (1) O socialismo é um primeiro passo no qual o Estado é tomado pelos proletários, (2) o capitalismo é quem leva à sua própria destruição, (3) a burguesia deve ser suprimida por meio da violência armada e (4) após o socialismo instalado, virá uma era verdadeiramente comunista, na qual a regra será “de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades.”

Contrariando os socialistas que tentam redimir a imagem de Marx, Engels e Lênin, a linguagem é clara: a violência é o caminho. A derrubada da burguesia tem que ser violenta, enquanto o definhamento do Estado ocorrerá entre o socialismo e o tão sonhado comunismo.

Já dissemos, e mostraremos mais detalhadamente na exposição a seguir, que a doutrina de Marx e Engels sobre a inevitabilidade da revolução violenta refere-se ao Estado Burguês. Este não pode ser substituído pelo Estado proletário (pela ditadura do proletariado) pela via do “definhamento”, mas apenas, como regra geral, por meio da revolução violenta.[3]

A substituição do Estado Burguês pelo proletário é impossível sem a revolução violenta. A extinção do Estado proletário, ou seja, a extinção de todo o Estado, é impossível de outro modo senão por meio de seu definhamento.[4]

A visão leninista do Estado tem caráter pragmático, reconhecendo seus aspectos coercitivos e nocivos, como também fazem os liberais, em certa medida. Todavia, por outro lado, Lênin e seus descendentes revolucionários desejam instrumentalizar o Estado para a tomada e a manutenção do poder. Esse uso do Estado para suprimir violentamente outras classes não foi um experimento teórico, foi um experimento prático que realmente levou à morte mais de cem milhões de pessoas na União Soviética e na China Maoísta. 

O Estado é a organização especial do poder, é a organização da violência para a repressão de uma classe qualquer. (...) Os trabalhadores precisam do Estado apenas para reprimir a resistência dos espoliadores e dirigir essa repressão, trazê-la à vida; apenas o proletariado está e condições de fazer isso, como única classe revolucionária até o fim, única classe capaz de unir todos os trabalhadores e explorados na luta contra a burguesia, por seu completo afastamento.[5]

O anseio pela tomada do Estado é algo que permanece no movimento revolucionário desde suas origens. Em formulações posteriores como a de Antônio Gramsci, o foco pode sair um pouco da política – como era no caso de Lênin – e caminhar para a instrumentalização da cultura; contudo, o Estado ainda é a peça-chave.

O Brasil é um exemplo recente de tomada cultural de Igrejas, Escolas e Universidades para ascensão política posterior e uso do aparelho de Estado para fortalecimento próprio e desenvolvimento de um processo de feedbackpositivo entre meios culturais, políticos e econômicos para a criação da hegemonia. O Partido dos Trabalhadores teve a estratégia e a paciência de pôr em prática a Grande Marcha Para Dentro das Instituiçõese fazer uso descarado do Estado para enriquecer e se estabelecer por anos no poder. Para a sorte do povo brasileiro, o projeto de violência política não foi iniciado, mas o processo de vitimização própria como justificativa para agressão contra o outro emplacou totalmente, uma prescrição leninista que justificava o extermínio com base na busca de justiça pelo sofrimento de uma classe espoliada.

As classes espoliadas precisam do domínio político em nome do interesse da completa extinção de toda a espoliação, ou seja, do interesse da imensa maioria do povo contra a minoria insignificante dos escravistas contemporâneos, ou seja, os latifundiários e os capitalistas.[6]

Muito interessante é que no Brasil do Partido dos Trabalhadores, a elite política e seus asseclas que se intitulavam pertencentes à classe dos trabalhadores – mesmo que nunca tenham de fato trabalhado, na concepção real do termo – uniram-se justamente aos maiores empresários do país, montando a maior teia de corrupção e evasão de divisas públicas da nossa história e talvez da história mundial.

Em uma manobra que não guarda nada de imprevisibilidade, os que se diziam “espoliados” uniram-se aos muito fortes e instrumentalizaram os fracos para obliterar cada vez mais a classe do meio. Um clássico mecanismo de concentração de poder tirânico prescrita desde Platão e descrita de forma excelente por Bertrand de Jouvenel.[7]

Friedrich Engels, citado por Lênin, somente reforça o sentimento de autoritarismo necessário para o empreendimento da revolução:

Uma revolução e certamente a coisa mais autoritária que há; é o ato pelo qual uma parte da população impõe à outra parte sua vontade por meio de espingardas, baionetas e canhões, ou seja, por meio autoritários por excelência; e o partido vitorioso, se não quer ter combatido em vão, deve continuar esse domínio com o terror que as suas armas inspiram aos reacionários.[8]

A ideia leninista de que há duas fases, uma socialista e uma comunista, repete-se em outras obras suas como Socialismo, Doença Infantil do Comunismo. Mas o que se vê ao lançar os olhos sobre a história dos últimos dois séculos, é um socialismo que se implanta e invariavelmente estagna, pois, na prática, após mais de um século de sangrentos experimentos sociais, o comunismo continua servindo somente como ópio para os intelectuais e moedor de carne contra as massas.

Assim, na primeira fase da sociedade comunista (que se costuma chamar socialismo), o “direito burguês” não é abolido completamente, mas apenas em parte, na medida em que a revolução econômica foi realizada, isto é, apenas no que diz respeito aos meios de produção. O “direito burguês” atribui aos indivíduos a propriedade privada daqueles. O socialismo faz deles propriedade comum. É nisso – e somente nisso – que o direito burguês é abolido.[9]

O aparelhamento socialista promovido no Brasil dentro do Supremo Tribunal Federal e toda a ideologia de distorção jurídica em prol da revolução confirmam a docilidade ainda presente frente às teses leninistas. Mesmo que nominalmente a propriedade continue privada, a cada dia mais regulamentações e impostos deixam bem claro que o proprietário cada dia mais pode ser reconhecido como proprietário de alguma coisa somente por concessão e “extrema bondade” do Estado, seu senhor. Mesmo que tenhamos leis, a cada dia os revolucionários de toga distorcem e torturam o texto para que lhes saia das páginas de papel exatamente o que mandam seus corações, já tão escravos de sua patota ideológica.

Talvez seja este o impedimento para uma aliança entre liberais e socialistas, como tanto desejou Murray Rothbard, contra os conservadores.[10]Os socialistas – eternas encarnações infantis dos comunistas, conforme Lênin – sempre estarão dispostos a usar e abusar profundamente do Estado, assim como sempre estarão dispostos a aumenta-lo indefinidamente, enquanto a própria ideia de um Estado grande desperta repulsa intensa e imediata nos bons liberais.

A “morte gradual do Estado” somente ocorreria, no discurso leninista, após a completa instalação da ditadura do proletariado socialista. Até esse ponto ainda jamais alcançado, o papel central do Estado é destruir certos componentes da população. Portanto, qualquer tentativa de creditar os terríveis massacres feitos pelos regimes socialistas mundo afora a pessoas que “não fizeram o socialismo direito” somente poderá ser fruto da extrema ignorância irresponsável ou do mais profundo cinismo. “Esmagar” pessoas sempre foi a meta dos clássicos marxistas e leninistas.

O Estado morre na medida em que não há mais capitalistas, em que não há mais classes e, por isso, não há mais necessidade de esmagar nenhuma classe.[11]

E esse banho de sangue, no seu ápice extremo, finalmente levará ao paraíso terrestre, pois

O Estado poderá desaparecer completamente quando a sociedade tiver realizado o princípio “de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades”.[12]

Essa promessa de uma consumação escatológica dos tempos atuais para alcançar um estado de glória terrena é o que Eric Voegelin acusou de Imanentização do Eskathón.[13]É uma promessa de expectativa quase religiosa capaz de motivar as inversões da mentalidade revolucionária descritas pelo Filósofo brasileiro Olavo de Carvalho. Em prol de uma causa maravilhosa, o revolucionário em busca de concentração de poder julga a realidade sob três importantes inversões: 

1 - A inversão temporal, na qual se faz no presente aquilo que é considerado necessário para a concretização de um futuro certo; 

2 - A inversão moral, na qual se defende a realização de um ato cruel em prol de uma boa causa; 

3 - A inversão agente-objeto, na qual o praticante de determinado ato se vê como vítima da imperiosa necessidade histórica. 

E se você acha que os olhos sempre vigilantes do Big BrotherOrwelliano foram uma inovação stalinista, é porque não prestou atenção na antiga prescrição de onipresença estatal socialista. É curioso quando jovens socialistas dizem combater a opressão policialesca do Estado em prol da liberdade. Mal sabem eles que lutam pelo mais violento e opressor dos Estados. Ou, se sabem, são perigosos bandidos capazes de gerar grande mal e destruição na sociedade.

Até a chegada dessa fase superior do comunismo, os socialistas exigem a fiscalização rigorosa do trabalho e do consumo pela sociedade e pelo Estado, mas essa fiscalização deve começar pela expropriação dos capitalistas e ser exercida pelo Estado dos operários armados, não pelo Estado dos funcionários.[14]

Esse exercício do poder estatal pelos “operários armados” pode, inclusive, degenerar a condição de classe daqueles que ocupam o Estado em processo de definhamento. Lênin prevê a corrupção de alguns elementos revolucionários por causa do contato com a máquina burocrática do Estado arrancada das mãos da burguesia. É como se os revolucionários se tornassem aburguesados. 

(...) pessoas privilegiadas, desligadas das massas, colocadas acima das massas. Nisso reside a essência do burocratismo e, enquanto os capitalistas não forem expropriados, enquanto a burguesia não for derrubada, até esse momento é inevitável certa burocratização mesmo dos funcionários proletários.[15]

Em relação à tão querida democracia, palavra que incontáveis intelectuais usam com boca cheia e cérebro ausente, Lênin tece críticas formais ainda hoje reproduzidas com muita correção por bons cientistas políticos. Aliás, os anarcocapitalistas guardam, de forma semelhante, uma visão pragmática e pessimista da democracia, e têm sua boa cota de razão.[16]

A democracia é uma das formas, uma das variantes do Estado. Por consequência, como todo Estado, ela é o exercício organizado, sistemático, da coerção sobre os homens.[17]

A gradual transformação socialista da sociedade, inclusive, deve contar com a utilização daqueles mesmos que devem ser destruídos. Realidade também presente no Brasil, onde a burguesia docilmente oferece todas as armas que socialistas precisam para a oprimir e, por fim, destruir. 

(...) é totalmente impossível derrubar, de um dia para o outro, os capitalistas e os funcionários e substituí-los, no controle da produção e da repartição, no recenseamento do trabalho e dos produtos, pelos operários armados, pelo povo inteiro e armas.[18]

A progressiva estatização dos bens e a onipresença estatal foram elementos básicos na agenda política recente do Brasil, promovida pelo Partido dos Trabalhadores. Que muitos ainda tenham ousado chamar o Partido dos Trabalhadores de “direita”, só pode ser uma piada de mal gosto ou a completa ignorância política. Lênin já deixava claro em sua obra a necessidade de inchar a máquina estatal, exatamente como fez o partido no Brasil. Lênin só não previa ou deixava transparecer a pobreza generalizada e o grande risco que isso ofereceria a um país inteiro.

Contabilidade e controle – eis as principais condições necessárias para o funcionamento regular da primeira fase da sociedade comunista. Todos os cidadãos se transformam em empregados assalariados do Estado, personificado, por sua vez, pelos operários armados. Todos os cidadãos se tornam empregados e operários de um só “grupo econômico” nacional do Estado.[19]

Sobre a relação dos socialistas petistas brasileiros com tucanos – membros do PSDB –, é impossível não tecer uma analogia com a relação de amor e ódio entre radicais e moderados, mencheviques e bolcheviques, e até mesmo entre as incontáveis facções do movimento revolucionário. A tolerância com os membros mais radicais e a crítica contra aqueles que são moderados sempre foi vocação do movimento revolucionário, assim como a vontade dos moderados em serem vistos como puros de esquerda também sempre esteve presente. O resultado muitas vezes termina em banhos de sangue ou traições, mas esta é a natureza do mal: consumir a si mesmo até sua destruição. Lênin tece duras críticas aos demais revolucionários, que ousam vender sua ideologia à concepções burguesas como a vontade da maioria. O caminho do sucessor de Marx sempre foi a tomada violenta por uma elite revolucionária.

Kautsky passa do marxismo para os oportunistas, pois nele desaparece por completo justamente essa destruição da máquina de Estado, de todo inaceitável para os oportunistas, e deixa-lhes uma saída no sentido de interpretar a “conquista” como uma simples obtenção da maioria.[20]

Um verdadeiro revolucionário pode até atuar sob a democracia, mas a violência escatológica e imanente está lá. O sentimento de santidade pessoal, imaculada até mesmo pelos mais atrozes atos, permanece ainda hoje no imaginário dos tardios descendentes do marxismo e de seus ramos. Esses atos podem consistir de roubos bilionários que comprometem toda a qualidade de vida da massa populacional, facadas na barriga de concorrentes políticos – como a que aconteceu no 6 de setembro da Rua Halfeld, em Juiz de Fora, quando um radical de esquerda quase matou o presidente posteriormente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro – ou a emissão das mais descaradas mentiras em prol do projeto político.

Que os leitores atuais não se enganem. Lênin é um dos maiores estrategistas do movimento revolucionário mundial, ao lado de seu camarada Stálin. Sua obra é uma obra de alguém cruel, talvez até mesmo de um psicopata, mas não há como negar uma visão astuta de como agir em prol de sua utopia tirânica. Em especial, o seu livro que aqui é apresentado em alguns trechos, aborda uma questão bem contemporânea: como a elite socialista lida com o Estado, e por que não se espera tão cedo uma união efetiva entre socialistas e liberais.

Quanto ao estilo, Lênin possui uma escrita envolvente e empolgante, realmente capaz de impressionar, enganar e seduzir os mais tolos. Que tantos jovens que buscam a paz, como meta e como meio de ação, sintam-se inspirados por um monstro homicida como Lênin, ainda é assustador. Que tantos elementos famosos da sociedade brasileira e da Academia internacional comemorem a Revolução Russa, só pode ser um escárnio profundo contra as milhões de vítimas do sistema comunista de Marx, Engels, Lênin, Stálin e Mao. Que a leitura dos originais possa nos despertar do profundo sono em que nos encontramos para a dura realidade que encaramos dia após dia quando o assunto é elite política e ideologia.


Hélio Angotti Neto
10 de dezembro, Colatina - ES


[1]LÊNIN, Vladímir Ilitch. O Estado e a Revolução. São Paulo, SP: Boitempo, 2017, p. 195-196.
[2]VOLKOGONOV, Dmitri. Os Sete Chefes do Império Soviético. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
[3]LÊNIN, op. cit., p. 43-44.
[4]Ibid., p. 44.
[5]Ibid., p. 47.
[6]Ibid., p. 47.
[7]JOUVENEL, Bertrand de. Do Poder. História Natural de Seu Crescimento. São Paulo: Editora Peixoto Neto, 2010.
[8]ENGELS, Friedrich. Da Autoridade, p. 409-410.ApudLÊNIN, opcit., p. 86.
[9]LÊNIN,opcit., p. 119.
[10]ROTHBARD, Murray. Esquerda & Direita. Perspectivas para a Liberdade. Campinas: Vide Editorial, 2016.
[11]LÊNIN,opcit., p. 120.
[12]Ibid., p. 121-122.
[13]VOEGELIN, Eric. Modernity Without Restraint. The Political Religions, The New Science of Politics, and Science, Politics and Gnosticism. Columba: Missouri University Press, 2000.
[14]LÊNIN,opcit., p. 122.
[15]Ibid., p. 143.
[16]HOPPE, Hans-Hermann. Democracy. The God That Failed. New York: Routledge, 2001.
[17]LÊNIN,op. cit., p. 125.
[18]Ibid., p. 125.
[19]Ibid., p. 126.
[20]Ibid., p. 140.