quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Utopia Médica e Negação da Morte - Raízes Culturais do Transumanismo

Apresentação de Tema Livre no II Seminário de Humanidades Médicas do UNESC e II Seminário Capixaba de Humanidades Médicas, realizado em Colatina, ES, no CAMPUS I do Centro Universitário do Espírito Santo, dia 24 de outubro de 2014.



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

FILOSOFIA, CULTURA E BIOÉTICA


Todo esforço em Ética Médica e Bioética é, antes de tudo, um esforço em Filosofia Moral. É a busca pela compreensão do rico fenômeno que chamamos de moral, aspecto inegável da realidade humana.


Lembro de uma palestra proferida pelo médico e filósofo bioeticista Diego Gracia durante o Congresso Brasileiro de Bioética em 2013. Segundo o discípulo de Xavier Zubiri, o melhor escrito sobre ética era a obra de Aristóteles: Ética a Nicômaco. Alguns da platéia rudemente riram baixinho, outros comentaram de forma depreciativa daquele jeito brasileiro que traduz claramente a sequência: não li, não gostei, não quero ler e ignoro quem lê, é coisa retrógrada...

Sintoma da barbárie brasileira, sem dúvida. 

Como pensar e debater Bioética e Ética Médica sem os Diálogos Platônicos? Sem o questionamento da virtude e de como ensiná-la mostrado em Protágoras e Mênom? Sem o vislumbre do íntimo do ser humano e de seus questionamentos mais sublimes lidos no Fédon? Como pensar a Justiça sem ter lido o Górgias ou a República de Platão e seu contraponto aristotélico: A Política? Como não repetir o exemplo de Allasdair McIntyre (After Virtue) na sua busca pela ética das virtudes e retornar a Aristóteles e seu já citado Ética a Nicômaco?

Como evitar os estoicos, o Cristianismo e toda a progressão do pensamento humano em suas formulações mais sutis e sublimes, capazes de tocar a experiência humana em seus momentos mais impactantes: a vida, a morte, a saúde e a doença? Como evitar os escritos morais médicos ao longo de mais de dois mil anos e suas preciosas lições?

Como negar o papel inspirador da boa literatura e de obras que auxiliam o médico e o paciente a compreender o drama da existência humana? Como negar a riqueza de vida presente em A Montanha Mágica, A Mulher que Fugiu de Sodoma, A Morte de Ivan Illitch, A Queda, Sinto Muito, Admirável Mundo Novo e tantas outras obras?

Sim, o esforço da Filosofia Moral inclui a Alta Cultura. Diria até que são indissociáveis, e que a tentativa de pensar a ética sem o aporte cultural de qualidade legado por milênios de questionamentos e reflexões só poderá terminar na brutalidade sem sentido.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

VIRTUDES MÉDICAS: JUSTIÇA SEJA FEITA! PORÉM SEMPRE COM AMOR...

Publicado originalmente no Portal Academia Médica: http://academiamedica.com.br/justica-como-virtude-medico/



A virtude da Justiça busca dar a cada um o que lhe é devido. Não é muito necessário enfatizar como hoje a discussão do que é o justo a fazer se alastra pela sociedade causando debates intensos e agressivos como um incêndio subindo o morro sob forte ventania.

Fala-se do bem comum, do bem para o indivíduo e do bem para a profissão médica. Mediando essas tensões como horizonte orientador está a Justiça, mesmo que fragmentada e quase eclipsada pelo relativismo nosso de cada dia.

Na civilização cristã, um precioso adendo foi ressaltado no contexto da busca pela Justiça: a Caridade. Em si, a Caridade é uma virtude cristã aliada à compaixão e, ocasionalmente, ao perdão. Na profissão médica também funciona como a moduladora da Justiça: não cabe ao médico julgar seu paciente quanto ao merecimento de algum bem, parte-se do princípio que o médico faz o bem de forma indiscriminada a todos os que o procuram[1].

Manteve-se uma prática de caridade na profissão médica ao longo dos séculos e, inclusive, de crítica à falta de caridade por parte de médicos que traíram seus juramentos e compromissos. Espera-se do médico uma prática concreta de Justiça temperada pelo amor que a transmuta e faz com que seja transcendido o mero sentimento legalista[2].

É muito triste e decadente observar a profissão médica entrar na fase de degeneração conhecida como fase burocrática de uma profissão[3], na qual o médico cumpre apenas uma obrigação contratual, um papel social, um protocolo ou uma peça na engrenagem impessoal que lida com o ser humano de forma mecânica e fria[4].

Frente à sociedade, a virtude da Justiça leva o médico a pensar no próximo e em seu dever como membro de uma sociedade e da comunidade moral terapêutica.

É a Justiça, inegavelmente ligada ao princípio de não-maleficência, que permite ao médico quebrar o sigilo profissional se estiver diante de um caso no qual a vida de um terceiro está sob risco, como no caso de um indivíduo HIV positivo que se nega a informar e proteger o(a) cônjuge. Há uma certa “intromissão” do bem coletivo dentro da prática do bem individual, atestando que as divisões entre as duas modalidades são, por fim, abstrações. Úteis mas, ainda, abstrações.

É a Justiça que nos coloca diante de problemas que chocam nossa prática ou os anseios da sociedade com os valores que sustentam toda a profissão ou com as exigências de autoridades seculares que nos sãos superioras hierarquicamente; como é o caso da legalização do abortamento voluntário.

É o sentimento de Justiça que permite ao médico alegar objeção de consciência, acusado pela Justiça que transcende o aspecto legalista de regras mortas no papel, tantas vezes incapazes de traduzir a riqueza de experiências e dilemas que é a vida humana, inspiradora de tantas poesias e tragédias.

É a Justiça aliada à Prudência que equilibrará na melhor forma possível o infindável conflito entre o bem para o indivíduo e o bem para a sociedade. E o médico só poderá utilizar essas duas virtudes, e todas as outras por fim, se entregar-se realmente à sua vocação de amigo e bom samaritano: auxiliar o próximo.

Prof. Dr. Hélio Angotti Neto
Doutorado em Ciências Médicas pela FMUSP
Médico Oftalmologista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia
Coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina – SEFAM
Coordenador do Curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo – UNESC
Diretor Editorial da Mirabilia Medicinae, revista especializada em Humanidades Médicas




[1] Mesmo ao político petista corrupto e detrator de médicos, como já disse em outro lugar.
[2] PELLEGRINO, Edmund D.; THOMASMA, David C. The Virtues in Medical Practice. Oxford: Oxford University Press, 1993, p. 94-95.
[3] Diego Gracia, em seu livro que é referência obrigatória em Ética Médica e Bioética – Fundamentos de Bioética – divide as profissões clássicas em três fases: carismática, tradicional e burocrática. Alguém tem alguma dúvida sobre em qual fase nos encontramos? Cf. GRACIA-GUILLÉN, Diego. Fundamentos de Bioética. Madrid, Espanha: Editorial Triacastela, 2008.
[4] Talvez uma das grandes tentações do funcionarismo público.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

SUGESTÃO DE LEITURA
 

 Para Fundamentar a Bioética. Jorge José Ferrer e Juan Carlos Álvarez

Um livro introdutório ao estudo da fundamentação bioética, suas diversas escolas e teorias de decisão e justificação moral. Trata dos conceitos básicos e das escolas anglo-saxãs como a Principialista, a Baseada em Virtudes, a Utilitarista, a Naturalista, a Ética da Permissão de Engelhardt e a Casuísta; trata... também de algumas escolas que o autor denomina mediterrâneas, incluindo a Principialista Escalonada e Realista de Diego Gracia, com forte fundamentação em Xavier Zubiri e Pedro Laín Entralgo, a Personalista de Elio Sgreccia e a Secular italiana.

Uma dica que considero importante: ler a fundamentação ética da teoria de Diego Gracia sem conhecer a obra de Xavier Zubiri é um desafio, mesmo com a tentativa de facilitar a compreensão empreendida pelos autores desta obra introdutória. Obras auxiliares que ajudarão muito a compreender a fundamentação e o valor da obra de Diego Gracia são os originais de Xavier Zubiri (Trilogia Senciente) e Introdução ao Pensamento de Xavier Zubiri. Há um curso online que pode ser feito na Fundación Xavier Zubiri que também oferece uma fundamentação de qualidade para compreender Zubiri. Acredite, o esforço vale a pena!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A Indispensável Virtude Médica da Prudência – Phronesis

Artigo originalmente publicado no Portal Academia Médica

Edmund Pellegrino afirmava que:

Phronesis era o termo que Aristóteles utilizava para a virtude da Sabedoria Prática, a capacidade de intuição moral, a capacidade – em uma circunstância específica – de discernir qual escolha moral ou curso de ação conduzirá melhor ao bem do agente ou da atividade na qual o agente encontra-se comprometido. Phronesis é a virtude intelectual que nos predispõe a buscar a verdade em prol da ação, oposta à busca da verdade em prol dela mesma, o que constitui a sabedoria especulativa ou sophia.”[1]

A prudência é mediadora entre todas as demais virtudes na busca ativa de executar um bem[2]. Como balancear a beneficência com a autonomia? Utiliza-se a prudência. O quão justo, corajoso, humilde, compassivo e bondoso se deve ser? A prudência ajuda a tomar o “caminho do meio”, ajuda-nos a não desviar nem para a direita e nem para a esquerda.

Na Medicina a prudência irá auxiliar sobremaneira o raciocínio clínico e o plano terapêutico. É a prudência que equilibrará a compaixão subjetiva e a equanimidade objetiva. É a prudência que nos auxilia a contar uma notícia trágica, a comunicar a morte de um ente querido, a anunciar o fim das capacidades da medicina, de nossa inteligência e de nossa tecnologia. É ela que nos ajuda a dosar a quantidade e a temperatura da informação dada a cada momento.

Ao pesar o risco de uma terapia e seus benefícios contra o risco de se deixar uma doença seguir seu curso e ao se considerar o quanto de qualidade de vida será comprometida com determinado curso de ação, a prudência será a haste da balança.

Na tríade do erro médico, a imprudência arrasta os outros dois quesitos. Um médico imprudente tomará a conduta errada mesmo que tenha o conhecimento adequado e mesmo que queira ajudar o paciente. Um médico imprudente ousará ir além do limite permitido por seu conhecimento e seus estudos e práticas, prejudicando o paciente. Um médico imprudente, por fim, agira de forma negligente, deixando de utilizar seu conhecimento e sua técnica para realizar o bem a seu paciente[3].

Se há uma virtude que “tempera” todas as demais, esta virtude é sem dúvida nenhuma a prudência.





[1] PELLEGRINO, Edmund. The Virtues in Medical Practice. Oxford: Oxford University Press, 1993.

[2] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução do grego de António de Castro Caeiro. São Paulo: Editora Atlas S.A., 2009.

[3] CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. A Medicina para além das normas: Reflexões sobre o novo Código de Ética Médica. Nedy Neves (Org.). Brasília: Conselho Federal de Medicina, 2010.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

ARTIGO PUBLICADO: The Four Aristotelian Discourses in Medicine: Educational Tools for Physicians


The Four Aristotelian Discourses in Medicine: Educational Tools for Physicians
Os Quatro Discursos Aristotélicos na Medicina: Ferramentas Educacionais para Médicos
Hélio Angotti-Neto, Andreia Bosi, Angela Regina Binda da Silva de Jesus
Centro Universitário do Espírito Santo – UNESC, Brasil

The four Aristotelian discourses (Poetic, Rhetoric, Dialectic and Logic) encompass all human verbal communication, and their study in Medical Humanities is an important instrument for medical practice and education. The discourses differ according to their intention, form, credibility and precision, and they can be studied to develop several aspects, such as understanding the patient, empathy, personal development and communication skills. Their study can also stimulate clinical and philosophical thought in general. The study of Poetic includes Narrative Medicine, literature, cultural studies, case reports and arts. Rhetoric includes verbal and non-verbal communication for the purposes of convincing and instructing other people. Dialectic includes clinical investigation thought and research. Logic includes scientific discourse, discursive analysis and education. Aristotelian works remain valuable instruments to develop a complete physician.

Keywords: Medical Philosophy, Medical Education, Narrative Medicine, Logic, Clinical Reasoning.

Artigo completo em: 
http://www.biomedicalandbiopharmaceuticalresearch.com/images/Article2_11n2.pdf

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Mirabilia Medicinae 3 Online!



 Thematic Number
http://www.revistamirabilia.com/medicinae/issues/mirabilia-medicinae-3-2014-2
...
1. Editorial: II UNESC Seminar of Medical Humanities
Hélio ANGOTTI NETO (Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC)
http://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/medicinae/pdfs/med2014-02-01.pdf

2. Research integrity and the impact of conflicts of interests on society: An Analysis in the Light of the Theory of Recognition of Axel Honneth
Márcia Cássia CASSIMIRO; Agemir BAVARESCO; André Marcelo M. SOARES (Oswaldo Cruz Foundation/PUCR/UFRJ)
http://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/medicinae/pdfs/med2014-02-02.pdf

3. The Use of Eponyms in Medical Practice
Fleury Marinho da SILVA; Rodolfo Costa SYLVESTRE; José Guilherme Pinheiro PIRES (Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC)
http://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/medicinae/pdfs/med2014-02-03.pdf

4. Beliefs, Values and Social Representations of Normal Birth
Luciano Antonio RODRIGUES; Bruno Alves da SILVA; Priscila Margarete Araújo Beserra VALENTIM (Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC)
http://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/medicinae/pdfs/med2014-02-04.pdf

Articles

5. Humanizing the Biomedical Model, and the Quality-of-Care Crisis
James A. MARCUM (Baylor University)
http://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/medicinae/pdfs/med2014-02-05.pdf

6. Bioethics in the process of medicine's humanization: an interdisciplinary approach
Euler Renato WESTPHAL (Faculdades EST/UNIVILLE)
http://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/medicinae/pdfs/med2014-02-06.pdf

Review

7. Book Review: Angotti Neto and the case against Medicine as Ideology
Ivanaldo Oliveira dos SANTOS FILHO (Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN)
http://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/medicinae/pdfs/med2014-02-07.pdf

domingo, 28 de dezembro de 2014

MÉDICO, O GOLDENSTEIN DO PT


Emmanuel Goldenstein foi um personagem fictício criado na alegoria política de George Orwell, 1984[1]. No seu romance, que é referência obrigatória para se entender como funciona a política mundial depois da segunda guerra mundial, inclusive no Brasil[2], Emmanuel Goldenstein era uma figura utilizada pelo partido governante, o Socialismo Inglês (IngSoc), para despejar a culpa por todos os erros e problemas enfrentados pela população submissa ao regime tirânico. O perigoso Goldenstein seria o famoso líder de um grupo subversivo denominado “A Irmandade”.

Seria algo do tipo: Faltou água? Foram os seguidores do rebelde Goldenstein que sabotaram a Estação de Água ou que modificaram o clima. Faltou comida? As plantações foram sabotadas por lavradores preguiçosos que se uniram à causa de Goldenstein para minar o sucesso de Oceânia. Há inclusive a “Semana do Ódio” e os “dois minutos de ódio”, nos quais a imagem de Goldenstein é exibida para a catarse de uma coletividade ensandecida de raiva e frustração[3].

Estou falando do fenômeno conhecido pelo nome de Bode Expiatório, tão bem descrito pelo filósofo francês René Girard. Desde o início da civilização, os conflitos acumulados em sociedade tendem a buscar uma válvula de escape. Um bode expiatório que catalisasse o ódio coletivo era sempre a ferramenta ideal[4]. É claro que com o advento do Cristo essa ferramenta de aliviar tensões ficou obsoleta, desmanchada pela vítima que se tornara então o juiz de seus algozes e de toda a humanidade.

Mas uma ferramenta obsoleta ainda funciona bem, ainda mais num povo facilmente manipulado pelas estratégias políticas de baixo nível como as demonstradas pelo governo brasileiro.

E no contexto de se buscar um Bode Expiatório para desviar a atenção do que realmente importa, para desviar o ódio e a frustração dos problemas do cotidiano e para capitalizar tudo em lucro político, qual seria a vítima eleita? Sim, o médico.

Por vários anos a saúde no Brasil foi sucateada. Falta de plano de carreira, fechamento de milhares de leitos hospitalares, falta de investimento, incompetência na gestão de recursos (escassos) para a saúde e constante evasão de divisas por razões ideológicas ao invés de investir na saúde do próprio povo. Foi uma lambança.

Com a aproximação das eleições, uma convulsão social foge do controle da elite governante e explode nas ruas com demandas contrárias à política vigente, cobrando dos líderes coisas mais que óbvias como saúde, segurança e educação de qualidade – o de sempre – e gera terror nas elites dominantes ao se mostrar como apartidária (até mesmo hostil às diversas tentativas de penetração partidária) e, pasmem, conservadora!

Chega então o momento de buscar o bode ou nomear o Goldenstein da vez.

Na votação do famigerado Ato Médico, as diversas profissões da área da saúde são voltadas contra a classe médica e inflamadas por discursos de demagogos governistas que declararam em alto e bom som que o “médico inventa a doença para lucrar com o paciente”, e que o ato médico era uma “opressão médica contra as outras classes”, e outras imbecilidades extemporâneas da mesma estirpe.

O plano de carreira para médicos é descartado. Os médicos são taxados de ignorantes e mal educados. São acusados de ódio aos pobres e ojeriza ao interior do Brasil. É instalado o controverso e suspeitíssimo “Mais Médicos” logo após o “PROVAB”. Milhares de médicos estrangeiros que servem de atravessadores de dinheiro para o regime cubano são inseridos no Brasil ao custo do emprego de muitos médicos lotados no interior e nos centros urbanos de assistência à saúde[5].

E agora a peça mais recente da propaganda de ódio do governo petista do Brasil: os médicos são racistas e, por isso, atendem mal aos negros e deixam os mesmos morrerem numa frequência maior.

Numa série de propagandas exibindo estatísticas completamente fora de contexto, o Ministério da Saúde acusa os médicos de atenderem mal às pacientes negras, por menos tempo, de forma incompleta e, inclusive, permitindo um maior número de complicações médicas e mortes na população negra do que na branca. Tudo isso sem referência nenhuma à diferença entre a proporção de brancos, pardos e negros no sistema público de saúde, no complementar ou no privado e sem referências para uma análise detalhada dos dados que não seja um mero banco de dados de prevalência[6].

Alguns dos dizeres veiculados na mídia são os seguintes:

“60% da mortalidade materna no Brasil ocorre entre mulheres negras. Entre as mulheres brancas esse número é de 34%.”

“74,5% das mulheres brancas declaram fazer o pré-natal, enquanto 55,7% das mulheres pretas declaram fazer esse acompanhamento.”

“A diferença entre os níveis de mortalidade de crianças negras e brancas aumentou de 21% para 40% em 20 anos.”

“77,7% das mulheres brancas foram orientadas sobre a importância do aleitamento materno, enquanto 62,5% das mulheres negras tiveram essa orientação.”

“Uma mulher negra recebe menos tempo de atendimento que uma mulher branca.”

E talvez uma das mais calamitosas acusações, curiosamente removida após alguns protestos[7]:

“Em 2012, a taxa de mortalidade por doença falciforme entre pessoas pretas foi de 0,73 mortes (por 100.000 hab.) e de 0,28 (por 100.000 hab.) entre pardas; enquanto na população branca 0,08 (por 100.000 hab.)”

O ardil é tão baixo que qualquer um ao estudar o mínimo sobre a doença em questão – a Anemia Falciforme – descobrirá que é ligada a questões genéticas e é hereditária, e sua prevalência na população negra é bem maior do que na branca. Não morrem mais negros do que brancos porque os médicos deixam os negros morrerem; morrem mais negros do que brancos porque existem muito mais negros do que brancos portadores da doença! Seria quase o mesmo que dizer que os médicos discriminam os brancos porque estes sofrem mais com o câncer de pele (que sabidamente afeta pessoas de pele mais clara e com menor proteção aos raios solares), ou que os médicos discriminam as mulheres porque elas morrem de carcinoma de colo uterino (vejam bem, somente as mulheres possuem úteros). É cômico para não dizer trágico.

Uma rápida busca nos meios de pesquisa digitais informará que a prevalência, isto é, a frequência dos diagnósticos da doença falciforme na população brasileira encontra-se expressivamente concentrada na população que se declara negra ou, em menor escala, na população parda.

Só para ilustrar, um artigo reportou que na cidade de Uberaba foram estudados 47 casos presentes em adultos, e que a proporção era distribuída da seguinte forma: 78,7% em negros, 17% em pardos e 4,3% em brancos, preponderando o gênero feminino (59,6%)[8]. Daqui a pouco falarão que morrem mais mulheres de doença falciforme do que homens porque os médicos não gostam das mulheres.

Toda a campanha do governo pode ser interpretada considerando os seguintes atos:

1.      Procura-se exercer o recurso erístico – isto é, a trapaça intelectual - conhecido como rotulação odiosa, no qual se atribui a determinado indivíduo, classe ou grupo um adjetivo que invoca sentimentos ruins naqueles que escutam a rotulação (neste caso racista assassino)[9];

2.      Imputa-se crime de ódio racial à classe médica brasileira, pois se há uma afirmação de que um possível racismo gera dados estatísticos que demonstram uma pior qualidade de atendimento a determinada população, ao ponto em que se sugere maior mortalidade decorrente de tal racismo, há um terrível crime em curso;

3.      Usa-se de forma inadequada as estatísticas, procurando dar credibilidade científica a dados interpretados sob forte viés ideológico, atestando extrema incompetência de órgãos governamentais que deveriam prezar pela qualidade ao cuidar da saúde do brasileiro ou a simples e criminosa má-fé.

Logo, é difícil concluir outra coisa que não a seguinte: toda a campanha governista de combate ao “racismo no SUS” não passa de uma manobra política e ideológica de má qualidade, executada de forma incompetente e com o objetivo de difamar por meio de imputação de terrível crime a toda uma classe de profissionais brasileiros, desviando a atenção da população e atribuindo a culpa por seus problemas de saúde à classe médica e não ao governo, interessado em manter sua hegemonia.

Sem dúvida nenhuma é um produto deficiente de mentes corrompidas pelo maquiavelismo político.

Faltou ao Ministério da Saúde o conhecimento, a responsabilidade, a competência e a boa intenção em servir à população a verdade dos fatos. Lamentavelmente, é mais um exemplo de um período que talvez seja conhecido posteriormente por sua extrema concentração de corrupção e vileza, talvez a maior desde o descobrimento destas terras pelos portugueses há mais de 500 anos[10].





[1] ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

[2] Para uma breve resenha comparativa sugiro a leitura da um texto publicado no SEFAM: ANGOTTI NETO, Hélio. 1984: A Profecia Moderna de George Orwell. Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina. Disponível em: <http://www.medicinaefilosofia.blogspot.com.br/2014/09/1984-profecia-moderna-de-george-orwell.html>. Acesso em 28 dez. 2014.

[3] Uma clara alusão de George Orwell à prática soviética de destruir a reputação de seus inimigos e utilizá-los para capitalizar o ódio das massas. Semelhanças com o Partido dos Trabalhadores não são mera coincidência. Recomendo a leitura de: TUMA JÚNIOR, Romeu. Assassinato de Reputações: Um Crime de Estado. Rio de Janeiro: Topbooks, 2013.

[4] GIRARD, René. O Bode Expiatório. São Paulo: Editora Paulus, 2004.

[5] ANGOTTI NETO, Hélio. “POLÍTICAS DE INTERIORIZAÇÃO DO MÉDICO BRASILEIRO”. Ibérica – Revista Interdisciplinar de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos (ISSN 1980-5837) Vol. VII, Nº 21, 2013, p. 40-56. Disponível em: <http://www.sophiaweb.net/repositorio/iberica/iberica21/interiorizacao-medico-angotti.pdf>. Acesso em: 28 dez. 2014.

[6] Alguns locais onde a propaganda de ódio do governo é destilada podem ser vistos nos seguintes locais: SUS sem racismo: organização governamental no Facebook. Disponível em: <https://www.facebook.com/SUSnasRedes>. Acesso em: 28 dez. 2014.
Blog da Saúde – Ministério da Saúde. Disponível em: <http://www.blog.saude.gov.br/index.php/34777-campanha-mobiliza-a-populacao-contra-o-racismo-no-sus>. Acesso em: 28 dez. 2014.
Portal da Saúde – Ministério da Saúde. Disponível em: <http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/secretarias/sgep/doges-departamento-de-ouvidoria-geral-do-sus/ouvidoria-g-sus/noticias-ouvidoria-geral-do-sus/15854-campanha-mobiliza-a-populacao-contra-o-racismo-no-sus>. Acesso em: 28 dez. 2014.

[7] CARDOSO, Francisco. SUS SEM FASCISMO - GOVERNO UTILIZA TÁTICA NAZISTA DE PEGAR DADOS DESFAVORÁVEIS A ELE E JOGAR A CULPA EM UM GRUPO POPULACIONAL ATRAVÉS DA DETURPAÇÃO DE ESTATÍSTICAS. Disponível em: <http://www.perito.med.br/2014/12/sus-sem-fascismo-governo-utiliza-tatica.html>. Acesso em: 28 dez. 2014.
BRASIL, Felipe Moura. Campanha do SUS atribui a ‘racismo’ mortes por doença genética predominante em negros. Médicos reagem. Blog da Veja - Felipe Moura Brasil: Cultura e Irreverência. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil/2014/12/25/campanha-do-sus-atribui-a-racismo-mortes-por-doenca-genetica-predominante-em-negros-medicos-reagem/>. Acesso em: 28 dez. 2014.

[8] FELIX, A.A.; SOUZA, H.M.; RIBEIRO, S.B.F. Aspectos epidemiológicos e sociais da doença falciforme. Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia, 32(3), 2010, p. 203-208.

[9] Sugiro consultar a excelente obra comentada pelo filósofo Olavo de Carvalho: SCHOPENHAUER, Arthur. Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão, em 38 Estratagemas (Dialética Erística). Introdução, Notas e Comentários de Olavo de Carvalho. Rio de Janeiro: Topbooks, 2003.

[10] Uma irônica conclusão, que remete ao hábito governista de sempre gabar-se com a frase “nunca antes neste país...”. Poder-se-ia igualmente tecer o seguinte comentário: Nunca antes neste país houve tanta corrupção, tanta impunidade e tanta ausência de vergonha.

domingo, 21 de dezembro de 2014

A VIRTUDE MÉDICA DA COMPAIXÃO

Artigo originalmente publicado no site Academia Médica, disponível em: http://academiamedica.com.br/compaixao-como-uma-das-virtudes-medico/


Edmund Pellegrino lembra em seu livro sobre virtudes médicas que muitos criticam o médico contemporâneo justamente por sua falta de compaixão, por sua insensibilidade[1].

Diariamente, ao tratar um paciente com cordialidade (de cordis – coração), escuto algumas exclamações de surpresa. Hoje mesmo escutei algo que me deixou triste ao cumprimentar um paciente da rede pública: “Doutor, você dá a mão?”

Acredito sinceramente que a maioria dos médicos brasileiros trata bem seus pacientes, mas os maus exemplos gritam enquanto os bons exemplos sussurram. Além dessa característica típica em se julgar assimetricamente bons e maus exemplos, há o fato de que existe uma campanha maciça de difamação profissional movida pelo governo brasileiro, sempre à busca do bode expiatório da hora[2].

Mas voltemos à compaixão, palavra que significa “sofrer junto”. Para compreender melhor, podemos também apelar para as definições de palavras que não são sinônimas de compaixão.

Misericórdia e Piedade, por exemplo, denotam atos de caridade e graça de alguém em posição superior a alguém de posição inferior. Compaixão denota uma simetria maior entre o que sofre e o que acompanha o sofrimento. Há uma assimetria óbvia na relação médico-paciente, mas cabe ao médico trabalhar também para que a integridade de seu paciente seja preservada ou restituída o quanto antes. Na reconstrução dessa integridade, o médico precisa “sentir” o que o paciente sente.

Simpatia é mais abrangente, denotando participação em sentimentos positivos ou negativos, sem a especificidade da compaixão, muito mais característica do médico que vive uma situação de sofrimento ao lado do paciente.

Já a empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro, imaginando como seria uma determinada resposta frente a uma determinada situação. Também é mais abrangente que a compaixão, que é a compreensão participativa do sofrimento alheio. A empatia seria uma habilidade que possibilitaria uma compaixão adequada à prática médica.
A compaixão não é somente uma necessidade moral, mas também é uma necessidade intelectual da atividade médica.

Sem a adequada compreensão do sofrimento alheio, o diagnóstico pode ser comprometido, assim como o plano terapêutico. O médico pode “sofrer” de forma ineficaz, e julgar mal a situação de seu paciente.

O médico precisa sentir como o paciente sente, porém não pode ser emocionalmente envolvido a ponto de nublar sua capacidade de raciocínio clínico e sua objetividade, denotando a qualidade que Sir William Osler exaltava como Aequanimitas (autocontrole e constante “presença de espírito”)[3].

Também não há necessidade de que o médico sofra “na carne” o mal de seu paciente, ou teríamos uma inescapável falta de oncologistas! E nenhum homem poderia ser ginecologista. Viver de fato a doença oferece uma perspectiva única e proveitosa para o médico sábio o suficiente, mas não é pré-requisito.

Há sim a necessidade de que o médico exerça sua compaixão com a verdadeira postura de um amigo, compreendendo o sofrimento do paciente e comprometendo-se com a sua cura, com o alívio do mal que o acomete e com o tratamento respeitoso devido à pessoa querida.



[1] PELLEGRINO, Edmund D.; THOMASMA, David. The Virtues in Medical Practice. New York, Oxford: Oxford University Press, 1993.

[2] É pública e notória a difamação que o Partido dos Trabalhadores e seus aliados movem contra os médicos, rotulados de inimigos convenientemente no momento em que o governo é cobrado em relação à qualidade da saúde.

[3] OSLER, William. AEQUANIMITAS: With Other Addresses to Medical Students, Nurses and Practioners of Medicine. Philadelphia: P. Blakiston’s Son & Co., 1910.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Editorial da Mirabilia Medicinae, Volume 1


Humanidades Médicas: O Projeto de Edmund Pellegrino

"Para estudar a vida humana é necessário estudar o que é o “humano”. Nas Artes Liberais, nas Belas Artes e demais áreas das Humanidades (Literatura, História, Filosofia, Antropologia e Sociologia).

Mas para estudar as Humanidades Médicas é necessário adentrar na Filosofia da Medicina e saber quais seus aspectos específicos que geram uma Filosofia Moral específica. Só assim podemos compreender e aplicar de forma adequada as ferramentas filosóficas à reflexão em saúde. 

Nas sábias palavras de Gregório Marañón y Posadillo (1887-1960), “o médico que somente medicina sabe, nem sequer medicina sabe”. É com vistas a esta busca por um médico humanisticamente mais capacitado (e, acima de tudo, que beneficie mais o paciente) que a seção Mirabilia Medicinæ foi criada. Nosso intento é seguir a (longa) tradição de médicos humanistas, assumir um caráter interdisciplinar por essência e investigar, nos distintos domínios do conhecimento humano, aqueles fragmentos que podem colaborar no grande projeto de tornar a relação médico-paciente mais benéfica e mais rica, cultural e existencialmente, para ambos."

Para saber mais, acesse: http://www.revistamirabilia.com/medicinae/issues/mirabilia-medicinae-1-2013-2


domingo, 30 de novembro de 2014

GAZETA DO POVO: Sobre o Aborto pós-nascimento

Matéria sobre a desprezível proposta do aborto pós-nascimento publicada no Blog da Vida do jornalista Jônatas Dias Lima, que encomendou uma breve entrevista sobre o tema.

Veja a matéria do nobre Jônatas Dias Lima em:

http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=1517204&tit=Pratica-do-aborto-pos-nascimento-ganha-defensores-no-meio-academico


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Virtudes Médicas: Confiabilidade

Originalmente publicado no "Academia Médica" em: http://academiamedica.com.br/virtudes-medicas-confiabilidade/

Jean Hamburger, Médico francês e fundador da Nefrologia como especialidade médica.


Uma virtude central em toda relação humana sem dúvida nenhuma é a confiabilidade[1].

Alain Peyrefitte já apontava o valor que a confiança tem no caminhar de uma sociedade e qual o seu papel no desenvolvimento: sem confiança não há ambiente para nenhum tipo de progresso, somente há o caos[2].

Das relações de confiança que perduram nas diferentes sociedades, uma das mais emblemáticas e complexas, porém essencial, é a Relação Médico-Paciente. E parte dessa relação de confiança é a crença na disposição alheia em contar a verdade.

O paciente busca o médico confiando que, geralmente:

- O médico o informará se o problema de saúde estiver acima de sua capacidade de resolução ou auxílio;

- O médico informará tudo o que é importante saber acerca da condição de saúde;

- O médico informará as melhores opções possíveis ao paciente, explicando cada uma e aconselhando se preciso for;

- O médico não esconderá informações intencionalmente ou, se o fizer considerando o bem do paciente, o fará apenas de forma temporária.

Essa confiabilidade repousa sobre outras características também essenciais ao médico.

A principal dessas características é o espírito de benevolência junto com seu complemento indispensável: a não maleficência. O médico porta-se de forma confiável sabendo que isso se traduz num bem para seu paciente, e este bem envolve a comunicação da verdade e a atuação sincera como elementos para a manutenção da integridade do paciente, considerando acima de tudo a integridade como um elemento beneficente, e a autonomia do paciente como um dos componentes da sua integridade.

Outra característica é o autoconhecimento do médico, que deve verificar em sua consciência o que sabe, o quanto sabe e com que fim sabe algo. Sem a noção adequada do próprio conhecimento o médico age de forma imprudente (o contrário da grande virtude médica: a prudência ou phronesis).

O médico utiliza a confiabilidade em diversas situações. Comento acerca de duas situações.

Hoje em dia se fala muito acerca do Testamento Vital, no qual o paciente deixa um relato de como quer ser tratado próximo à sua morte. Cabe ao médico assistente fazer cumprir a vontade de seu paciente mesmo na ausência de sua consciência por motivo de agravo à saúde. O médico que recebeu a honrosa posição de protetor da vontade de seu paciente deve zelar com honra, veracidade e extrema confiabilidade no momento mais frágil da existência humana.

Uma situação mais comum na realidade do médico brasileiro é o momento de comunicar más notícias, como o diagnóstico de um câncer intratável ou a baixa expectativa de sobrevida num paciente grave internado na Unidade de Tratamento Intensivo.

Alguns defendem que o médico pode ocultar o diagnóstico ou o prognóstico para oferecer momentos mais proveitosos ao paciente, para que se desfrute do resto da vida sem o peso da consciência da morte. Tal postura de ocultação da verdade, porém, é uma armadilha.

Negar a realidade ao paciente autônomo é negar-lhe o conhecimento necessário acerca de sua vida para que ele programe de forma adequada suas prioridades. Se o diagnóstico e a informação do prognóstico demorarem muito, tempo precioso pode ser perdido, e danos irreversíveis podem ser acrescidos à situação já dramática do paciente.

Com isso não quero dizer que a informação deve ser dada de qualquer forma e imediatamente. Daí a necessidade de treinar os jovens médicos na arte de comunicar más notícias.

Jean Hamburger já avisava que certas palavras não devem ser utilizadas, e que um resquício de esperança, por menor que seja, nunca deve ser extirpado. Tais medidas temperam a confiabilidade do médico com tratos humanísticos e empáticos ao sofrimento do paciente[3].

Algumas dicas preciosas do nefrologista Jean Hamburger:

1 – O ponto primordial é a formação da relação com o paciente;

2 – Não basta se apoiar somente no instinto e no amor ao próximo (há formas adequadas de executar ações em saúde);

3 – Entender reações psicológicas do paciente;

4 – Utilizar auxílio, informação e conforto como instrumentos terapêuticos;

5 – Não utilizar palavras com forte conteúdo emotivo negativo como: morte, lepra, câncer, coma ou autópsia (ou fazê-lo de forma gradual e empática);

6 – Explicar tudo ao paciente e jamais, jamais mentir;

7 – A explicação de cada ato praticado reduz o desconforto e a dor;

8 – Jamais anunciar uma doença como absolutamente incurável ou intratável; permitir um mínimo de esperança.

O último conselho poderia ser questionado, mas o fato real é que inúmeras pesquisas acontecem todos os dias buscando soluções e alívio para doenças ainda incuráveis ou intratáveis, e a esperança de alguma novidade sempre existe.

Até mesmo as situações mais corriqueiras do cotidiano médico exigem confiabilidade.

Ao solicitar exames para diagnosticar determinada condição de saúde do paciente, o médico precisa ser claro e veraz em suas suspeitas, e informar ao paciente sobre as repercussões do diagnóstico. Ao realizar o diagnóstico, o médico precisa informar ao paciente o prognóstico de acordo com as diferentes formas de tratamento adotadas.

O paciente precisa acreditar que o médico é confiável e benevolente, ou jamais confiará no plano terapêutico prescrito. E é preciso lembrar que o médico é buscado em uma situação extrema, na qual o paciente se encontra frágil, assustado e disposto a entregar, muitas vezes, grande parcela de sua autonomia em mãos de outrem, em quem deposita grandes esperanças.

Cabe ao médico avaliar de forma verdadeira a esperança nele depositada e agir de acordo.

Interesses discretos ou ocultos não cabem numa Relação Médico-Paciente saudável. O médico precisa ser bem claro e confiável até mesmo em relações entre profissionais, como apresentações acadêmicas nos congressos, informando possíveis interações com laboratórios e verbas recebidas de fontes privadas ou públicas. A confiabilidade também é crucial nas passagens de plantão, nas quais a informação transmitida poderá auxiliar a salvar vidas e ganhar tempo.

Sem confiabilidade, a Medicina gerará somente desconfiança e hostilidade. Não está em jogo somente o nome do médico, mas toda a confiabilidade da sociedade na Medicina e a percepção dessa antiga profissão como empreendimento honrado.

 




[1] PELLEGRINO, Edmund D.; THOMASMA, David C. The Virtues in Medical Practice. New York, NY: Oxford University Press, 1993, p. 65-78.
[2] PEYREFITTE, Alain. La societe de confiance: Essai sur les origines et la nature du developpement. France: Editions O. Jacob, 1995.
[3] HAMBURGER, Jean. Conseils aux étudiants en médicine dans mon service. Paris: Flammarion; 1963.