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domingo, 26 de abril de 2020

EM TEMPOS DE BIOPOLÍTICA, GLOBALISMO E GEOPOLÍTICA

EM TEMPOS DE BIOPOLÍTICA, GLOBALISMO E GEOPOLÍTICA

A recente pandemia, conforme a Organização Mundial de Saúde decretou em 2020 por causa do Coronavírus, realmente trouxe fatos importantes que devem ser analisados e que impactarão sobre nossa realidade de forma significativa.
Pela primeira vez na história da humanidade, bilhões de pessoas acompanharam em tempo real o alastramento da doença, caso a caso. Todos fomos expostos a uma enorme carga de informação e especulações com enormes potenciais tanto positivos quanto negativos. 
Do lado positivo, sem dúvida, a possibilidade de acompanhar curvas epidêmicas e compará-las em todo o mundo, enriquecendo em muito a ciência epidemiológica. Do lado negativo, a enorme ansiedade que isso gera e todo o impacto social e econômico decorrente.
Quanto ao alastramento da doença, foi auxiliado pela intensa globalização, que abriu fronteiras e mercados por todos os lados, aprofundando laços de interdependência entre os países e o deslocamento de grandes massas humanas em pouquíssimo tempo.
Essa interdependência e essa fluidez de fronteiras geraram situações interessantes no contexto da pandemia. Uma delas é, por exemplo, a concentração da produção global de máscaras cirúrgicas na China, justamente onde se iniciou a pandemia.
Mundo afora, há diversos oligopólios globais, gerando especializações centradas em algumas nações. Na hipótese de fechamento de fronteiras, há um sério risco de desabastecimento do mercado interno de diversas nações dependentes. Para um mundo globalizado, eis que foi desenvolvida uma solução globalista.
Isso gera uma preocupação em relação à plena abertura dos mercados e uma nova tendência ao protecionismo, que pode ser interessante no caso de bens essenciais à subsistência e à segurança de todo um povo.
A dependência de uma nação, em termos estratégicos, da produção de outra nação significa algo muito claro: submissão, seja ao governo que produz o bem para exportação, seja ao grupo que lidera a produção, que pode apresentar caráter não governamental. De ambas as formas, há uma série de possíveis fragilidades, ainda mais em tempos de conflito e desconfiança, como aqueles presenciados durante a pandemia da Doença do Coronavírus (COVID-19).
Não se pode desprezar os ganhos da globalização. Informação rápida, facilidade na aquisição de mercadorias antes indisponíveis, flexibilização das fronteiras e aumento do sentimento cosmopolita por todo o globo. Mas há que se diferenciar duas situações.
A globalização propriamente dita do globalismo.
O globalismo é uma forma de administrar a realidade globalizada em termos políticos, econômicos e culturais. Sua grande ênfase é o poder concentrado em entidades supranacionais, é como controlar o próximo por cima de suas fronteiras. Há um elemento de substituição de uma elite governante de caráter nacional, muitas vezes alocada pelo próprio povo de uma nação, por uma elite tecnocrática que rompe questões como nacionalidade e patriotismo. 
Essa elite internacional atua em diversos países e funciona como um poderoso elemento geopolítico que não pode ser ignorado. 
Um exemplo seria o de um pequeno país no qual se instala um enorme complexo produtor pertencente a um dos membros dessa elite internacional. Uma vez dependente do comércio internacional, este pequeno país pode praticamente ser colocado em profunda recessão econômica e grave crise política caso tal complexo seja removido ou fechado.
A resposta dada à pandemia nesse delicado contexto de globalização permeada de globalismo, com seus mercados abertos em nível internacional, gerou uma consciência aguda acerca das limitações do modelo de caráter internacionalista.
Novamente muitos questionam as vantagens e desvantagens do nacionalismo, diferenciando a postura cautelosa e protetora da cultura e dos interesses nacionais – o nacionalismo propriamente dito – daquela postura agressiva de conquista e imposição cultural, denominada de imperialismo por autores como Yoram Hazony, autor da obra As Virtudes do Nacionalismo.
As repercussões desse grande tubo de ensaio em que se tornou a pandemia serão percebidas no campo das Relações Internacionais, da Economia, da Saúde, da Política e do Direito só para começar. As repercussões culturais ainda são incalculáveis.
Vivemos, na verdade, um cenário parcialmente previsto pelo Filósofo Olavo de Carvalho no início do século XXI, que recomendara ao então presidente do Brasil, Itamar Franco, a realização de um Congresso Mundial sobre o Nacionalismo. A sugestão então ignorada agora se faz urgente, como também é urgente a redefinição dos mercados e das fronteiras diante das atuais mutações políticas, científicas, econômicas e culturais.

segunda-feira, 4 de março de 2019

A MANIPULAÇÃO NA EDUCAÇÃO

EXCERTO DA OBRA DE ALFONSO LÓPEZ-QUINTÁS
A TOLERÂNCIA E A MANIPULAÇÃO


6. A MANIPULAÇÃO DOS EDUCADORES (p. 121-124)

Os tiranos procuram por todos os meios manter as pessoas num nível cultural baixo, para que seu poder de discernimento seja o menor possível, o que as torna facilmente manipuláveis. B. Hearing atribui essa atitude aos ditadores: “Em sociedades e Estados autoritários todos o processo de educação é orientado para obter cidadãos dóceis e fáceis de manipular, evitando-se ou reprimindo tudo o que possa suscitar um espírito crítico”.

Também nos regimes democráticos, aquele que deseja vencer sem convencer costuma conceber planos e métodos de ensino com os quais não se crie o poder do discernimento, a sensibilidade para os grandes valores, o entusiasmo criativo, o desejo de realizar tarefas relevantes. Sob o pretexto de “desdramatizar” os problemas, banaliza-se a vida humana. (...)

O manipulador cultural proclama seu interesse pela cultura, mas trata-se de uma cultura que tende a dominar, não a criar unidade. Daí o estímulo às ciências em detrimento das humanidades, e, pior ainda, o interesse por orientar a potência criadora do ser humano, sobretudo dos jovens, para modos infraculturais de atividade, infraculturais por não serem criativos.

Esse tipo de manipulação educativaopera em vinculação encoberta com a manipulação ideológica. Como se sabe, o escritor italiano Antonio Gramsci elaborou toda uma tática para atingir o poder político mediante o domínio cultural, que, por sua vez, será alcançado mediante um processo no qual as ideias e os sentimentos dos intelectuais são assumidos pelo povo e convertem-se numa fonte de energia revolucionária. “Quando se consegue”, diz ele, “introduzir uma nova moral adequada a uma nova concepção do mundo, termina-se por introduzir também essa concepção, isto é, determina-se uma reforma filosófica total.” (...)

Ensinar o povo a pensar com rigor é, efetivamente, elevada tarefa, que exige vivência profunda e que as questões básicas sejam apresentadas com força imaginativa, de modo que as pessoas igualmente se compenetrem dessas questões e as compreendam por dentro. Ora, esse trabalho não deve ser realizado com a finalidade de adquirir poder e domínio sobre o povo, mas de conferir-lhe verdadeira liberdade interior. Jamais a educação deve transformar-se, sob nenhum pretexto, por mais elevado que pareça, em recurso estratégico para conseguir um objetivo. Deve ser impulsão da personalidade de cada ser humano, que é um fim em si mesmo e não um meio.

Nunca antes foi tão válida a seguinte observação de Gabriel Marcel, um dos pensadores contemporâneos mais preocupados com o destino da humanidade: “O que hoje provavelmente mais falta faz ao mundo são educadores. Do meu ponto de vista, esse problema dos educadores é o mais importante, e é nisso que a reflexão filosófica deve dar sua contribuição.”


É urgente aplicar ao trabalho formativo os resultados de uma atenta investigação filosófica, para evitar que o processo educacional seja colocado a serviço dos demagogos, como costuma acontecer, segundo B. Haering: “A educação é o mercado público em que encontramos as mais diferentes ideologias, bem como aqueles que depositam suas maiores esperanças em manipular os outros”. 

Alfonso López QUINTÁS.

A Tolerância e a Manipulação. Campinas, SP: É Realizações, 2018

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O ESTADO COMO PARTE DA REVOLUÇÃO

O ESTADO COMO PARTE DA REVOLUÇÃO
Comentários sobre O Estado e a Revolução, de Vladímir Ilitch Lênin

LÊNIN, Vladímir Ilitch. O Estado e a Revolução. São Paulo, SP: Boitempo, 2017, 214p.

Lênin foi, sem dúvida, um dos grandes intérpretes e aplicadores da obra de Karl Marx e Friedrich Engels. Assim, pelo menos, creem vários dos grandes nomes dentro do próprio movimento revolucionário. Para György Lukács, “Lênin restabeleceu a pureza da doutrina marxiana”. Considerando a forma da revolução, uma das estrelas contemporâneas do movimento revolucionário, Slavoj Zizek, preconiza que “mais do que nunca, devemos voltar a Lênin (...) – a intervenção deve ser verdadeiramente política, não econômica”. 

Portanto, antes que algum desinformado venha com a conversa de que “deturparam” Karl Marx pela milionésima vez, vou deixar claro que Lênin aplicou de forma fiel o que Marx e Engels pregavam, e sua sangrenta prática política revolucionária ainda é louvada, ainda mexe com o ideário marxista contemporâneo e ainda oferece caminhos, como a própria comentarista da edição recente de O Estado e a Revoluçãoafirma: 

(...) mais do que nunca, e principalmente para as novas gerações, os clássicos do marxismo são necessários. E, se Lênin é um companheiro nesta caminhada, sua obra é um farol que nos ajuda na travessia – com sua coesão, sua fidelidade aos fundadores do materialismo dialético, sua consciência dos limites da ação, seu destemor diante de passos ousados, sua firmeza diante da tarefa de guiar os camaradas, sua denúncia dos que se venderam por um prato de lentilhas.[1]

Sim, toda a violência e a ânsia pelo extermínio continua em voga. Pode ser que o polido verniz da democracia burguesa ainda impeça que estudiosos marxistas hoje falem abertamente da forma como Lênin e Marx falavam no passado. Contudo, lá no fundo, muitos deles guardam a velha esperança de ver o sistema estatal cair em suas mãos definitivamente, para que possam promover a ditadura do proletariado que, sugestivamente, mistura soldados e proletários. Todavia, na prática histórica, sofreram tanto os burgueses quanto os proletários nas mãos armadas da elite revolucionária, ainda mais desigual, ainda mais tirana e ainda mais corrupta do que qualquer burguesia precedente.[2]

No seu pequeno livro, Lênin reúne algumas teses clássicas do pensamento revolucionário marxista: (1) O socialismo é um primeiro passo no qual o Estado é tomado pelos proletários, (2) o capitalismo é quem leva à sua própria destruição, (3) a burguesia deve ser suprimida por meio da violência armada e (4) após o socialismo instalado, virá uma era verdadeiramente comunista, na qual a regra será “de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades.”

Contrariando os socialistas que tentam redimir a imagem de Marx, Engels e Lênin, a linguagem é clara: a violência é o caminho. A derrubada da burguesia tem que ser violenta, enquanto o definhamento do Estado ocorrerá entre o socialismo e o tão sonhado comunismo.

Já dissemos, e mostraremos mais detalhadamente na exposição a seguir, que a doutrina de Marx e Engels sobre a inevitabilidade da revolução violenta refere-se ao Estado Burguês. Este não pode ser substituído pelo Estado proletário (pela ditadura do proletariado) pela via do “definhamento”, mas apenas, como regra geral, por meio da revolução violenta.[3]

A substituição do Estado Burguês pelo proletário é impossível sem a revolução violenta. A extinção do Estado proletário, ou seja, a extinção de todo o Estado, é impossível de outro modo senão por meio de seu definhamento.[4]

A visão leninista do Estado tem caráter pragmático, reconhecendo seus aspectos coercitivos e nocivos, como também fazem os liberais, em certa medida. Todavia, por outro lado, Lênin e seus descendentes revolucionários desejam instrumentalizar o Estado para a tomada e a manutenção do poder. Esse uso do Estado para suprimir violentamente outras classes não foi um experimento teórico, foi um experimento prático que realmente levou à morte mais de cem milhões de pessoas na União Soviética e na China Maoísta. 

O Estado é a organização especial do poder, é a organização da violência para a repressão de uma classe qualquer. (...) Os trabalhadores precisam do Estado apenas para reprimir a resistência dos espoliadores e dirigir essa repressão, trazê-la à vida; apenas o proletariado está e condições de fazer isso, como única classe revolucionária até o fim, única classe capaz de unir todos os trabalhadores e explorados na luta contra a burguesia, por seu completo afastamento.[5]

O anseio pela tomada do Estado é algo que permanece no movimento revolucionário desde suas origens. Em formulações posteriores como a de Antônio Gramsci, o foco pode sair um pouco da política – como era no caso de Lênin – e caminhar para a instrumentalização da cultura; contudo, o Estado ainda é a peça-chave.

O Brasil é um exemplo recente de tomada cultural de Igrejas, Escolas e Universidades para ascensão política posterior e uso do aparelho de Estado para fortalecimento próprio e desenvolvimento de um processo de feedbackpositivo entre meios culturais, políticos e econômicos para a criação da hegemonia. O Partido dos Trabalhadores teve a estratégia e a paciência de pôr em prática a Grande Marcha Para Dentro das Instituiçõese fazer uso descarado do Estado para enriquecer e se estabelecer por anos no poder. Para a sorte do povo brasileiro, o projeto de violência política não foi iniciado, mas o processo de vitimização própria como justificativa para agressão contra o outro emplacou totalmente, uma prescrição leninista que justificava o extermínio com base na busca de justiça pelo sofrimento de uma classe espoliada.

As classes espoliadas precisam do domínio político em nome do interesse da completa extinção de toda a espoliação, ou seja, do interesse da imensa maioria do povo contra a minoria insignificante dos escravistas contemporâneos, ou seja, os latifundiários e os capitalistas.[6]

Muito interessante é que no Brasil do Partido dos Trabalhadores, a elite política e seus asseclas que se intitulavam pertencentes à classe dos trabalhadores – mesmo que nunca tenham de fato trabalhado, na concepção real do termo – uniram-se justamente aos maiores empresários do país, montando a maior teia de corrupção e evasão de divisas públicas da nossa história e talvez da história mundial.

Em uma manobra que não guarda nada de imprevisibilidade, os que se diziam “espoliados” uniram-se aos muito fortes e instrumentalizaram os fracos para obliterar cada vez mais a classe do meio. Um clássico mecanismo de concentração de poder tirânico prescrita desde Platão e descrita de forma excelente por Bertrand de Jouvenel.[7]

Friedrich Engels, citado por Lênin, somente reforça o sentimento de autoritarismo necessário para o empreendimento da revolução:

Uma revolução e certamente a coisa mais autoritária que há; é o ato pelo qual uma parte da população impõe à outra parte sua vontade por meio de espingardas, baionetas e canhões, ou seja, por meio autoritários por excelência; e o partido vitorioso, se não quer ter combatido em vão, deve continuar esse domínio com o terror que as suas armas inspiram aos reacionários.[8]

A ideia leninista de que há duas fases, uma socialista e uma comunista, repete-se em outras obras suas como Socialismo, Doença Infantil do Comunismo. Mas o que se vê ao lançar os olhos sobre a história dos últimos dois séculos, é um socialismo que se implanta e invariavelmente estagna, pois, na prática, após mais de um século de sangrentos experimentos sociais, o comunismo continua servindo somente como ópio para os intelectuais e moedor de carne contra as massas.

Assim, na primeira fase da sociedade comunista (que se costuma chamar socialismo), o “direito burguês” não é abolido completamente, mas apenas em parte, na medida em que a revolução econômica foi realizada, isto é, apenas no que diz respeito aos meios de produção. O “direito burguês” atribui aos indivíduos a propriedade privada daqueles. O socialismo faz deles propriedade comum. É nisso – e somente nisso – que o direito burguês é abolido.[9]

O aparelhamento socialista promovido no Brasil dentro do Supremo Tribunal Federal e toda a ideologia de distorção jurídica em prol da revolução confirmam a docilidade ainda presente frente às teses leninistas. Mesmo que nominalmente a propriedade continue privada, a cada dia mais regulamentações e impostos deixam bem claro que o proprietário cada dia mais pode ser reconhecido como proprietário de alguma coisa somente por concessão e “extrema bondade” do Estado, seu senhor. Mesmo que tenhamos leis, a cada dia os revolucionários de toga distorcem e torturam o texto para que lhes saia das páginas de papel exatamente o que mandam seus corações, já tão escravos de sua patota ideológica.

Talvez seja este o impedimento para uma aliança entre liberais e socialistas, como tanto desejou Murray Rothbard, contra os conservadores.[10]Os socialistas – eternas encarnações infantis dos comunistas, conforme Lênin – sempre estarão dispostos a usar e abusar profundamente do Estado, assim como sempre estarão dispostos a aumenta-lo indefinidamente, enquanto a própria ideia de um Estado grande desperta repulsa intensa e imediata nos bons liberais.

A “morte gradual do Estado” somente ocorreria, no discurso leninista, após a completa instalação da ditadura do proletariado socialista. Até esse ponto ainda jamais alcançado, o papel central do Estado é destruir certos componentes da população. Portanto, qualquer tentativa de creditar os terríveis massacres feitos pelos regimes socialistas mundo afora a pessoas que “não fizeram o socialismo direito” somente poderá ser fruto da extrema ignorância irresponsável ou do mais profundo cinismo. “Esmagar” pessoas sempre foi a meta dos clássicos marxistas e leninistas.

O Estado morre na medida em que não há mais capitalistas, em que não há mais classes e, por isso, não há mais necessidade de esmagar nenhuma classe.[11]

E esse banho de sangue, no seu ápice extremo, finalmente levará ao paraíso terrestre, pois

O Estado poderá desaparecer completamente quando a sociedade tiver realizado o princípio “de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades”.[12]

Essa promessa de uma consumação escatológica dos tempos atuais para alcançar um estado de glória terrena é o que Eric Voegelin acusou de Imanentização do Eskathón.[13]É uma promessa de expectativa quase religiosa capaz de motivar as inversões da mentalidade revolucionária descritas pelo Filósofo brasileiro Olavo de Carvalho. Em prol de uma causa maravilhosa, o revolucionário em busca de concentração de poder julga a realidade sob três importantes inversões: 

1 - A inversão temporal, na qual se faz no presente aquilo que é considerado necessário para a concretização de um futuro certo; 

2 - A inversão moral, na qual se defende a realização de um ato cruel em prol de uma boa causa; 

3 - A inversão agente-objeto, na qual o praticante de determinado ato se vê como vítima da imperiosa necessidade histórica. 

E se você acha que os olhos sempre vigilantes do Big BrotherOrwelliano foram uma inovação stalinista, é porque não prestou atenção na antiga prescrição de onipresença estatal socialista. É curioso quando jovens socialistas dizem combater a opressão policialesca do Estado em prol da liberdade. Mal sabem eles que lutam pelo mais violento e opressor dos Estados. Ou, se sabem, são perigosos bandidos capazes de gerar grande mal e destruição na sociedade.

Até a chegada dessa fase superior do comunismo, os socialistas exigem a fiscalização rigorosa do trabalho e do consumo pela sociedade e pelo Estado, mas essa fiscalização deve começar pela expropriação dos capitalistas e ser exercida pelo Estado dos operários armados, não pelo Estado dos funcionários.[14]

Esse exercício do poder estatal pelos “operários armados” pode, inclusive, degenerar a condição de classe daqueles que ocupam o Estado em processo de definhamento. Lênin prevê a corrupção de alguns elementos revolucionários por causa do contato com a máquina burocrática do Estado arrancada das mãos da burguesia. É como se os revolucionários se tornassem aburguesados. 

(...) pessoas privilegiadas, desligadas das massas, colocadas acima das massas. Nisso reside a essência do burocratismo e, enquanto os capitalistas não forem expropriados, enquanto a burguesia não for derrubada, até esse momento é inevitável certa burocratização mesmo dos funcionários proletários.[15]

Em relação à tão querida democracia, palavra que incontáveis intelectuais usam com boca cheia e cérebro ausente, Lênin tece críticas formais ainda hoje reproduzidas com muita correção por bons cientistas políticos. Aliás, os anarcocapitalistas guardam, de forma semelhante, uma visão pragmática e pessimista da democracia, e têm sua boa cota de razão.[16]

A democracia é uma das formas, uma das variantes do Estado. Por consequência, como todo Estado, ela é o exercício organizado, sistemático, da coerção sobre os homens.[17]

A gradual transformação socialista da sociedade, inclusive, deve contar com a utilização daqueles mesmos que devem ser destruídos. Realidade também presente no Brasil, onde a burguesia docilmente oferece todas as armas que socialistas precisam para a oprimir e, por fim, destruir. 

(...) é totalmente impossível derrubar, de um dia para o outro, os capitalistas e os funcionários e substituí-los, no controle da produção e da repartição, no recenseamento do trabalho e dos produtos, pelos operários armados, pelo povo inteiro e armas.[18]

A progressiva estatização dos bens e a onipresença estatal foram elementos básicos na agenda política recente do Brasil, promovida pelo Partido dos Trabalhadores. Que muitos ainda tenham ousado chamar o Partido dos Trabalhadores de “direita”, só pode ser uma piada de mal gosto ou a completa ignorância política. Lênin já deixava claro em sua obra a necessidade de inchar a máquina estatal, exatamente como fez o partido no Brasil. Lênin só não previa ou deixava transparecer a pobreza generalizada e o grande risco que isso ofereceria a um país inteiro.

Contabilidade e controle – eis as principais condições necessárias para o funcionamento regular da primeira fase da sociedade comunista. Todos os cidadãos se transformam em empregados assalariados do Estado, personificado, por sua vez, pelos operários armados. Todos os cidadãos se tornam empregados e operários de um só “grupo econômico” nacional do Estado.[19]

Sobre a relação dos socialistas petistas brasileiros com tucanos – membros do PSDB –, é impossível não tecer uma analogia com a relação de amor e ódio entre radicais e moderados, mencheviques e bolcheviques, e até mesmo entre as incontáveis facções do movimento revolucionário. A tolerância com os membros mais radicais e a crítica contra aqueles que são moderados sempre foi vocação do movimento revolucionário, assim como a vontade dos moderados em serem vistos como puros de esquerda também sempre esteve presente. O resultado muitas vezes termina em banhos de sangue ou traições, mas esta é a natureza do mal: consumir a si mesmo até sua destruição. Lênin tece duras críticas aos demais revolucionários, que ousam vender sua ideologia à concepções burguesas como a vontade da maioria. O caminho do sucessor de Marx sempre foi a tomada violenta por uma elite revolucionária.

Kautsky passa do marxismo para os oportunistas, pois nele desaparece por completo justamente essa destruição da máquina de Estado, de todo inaceitável para os oportunistas, e deixa-lhes uma saída no sentido de interpretar a “conquista” como uma simples obtenção da maioria.[20]

Um verdadeiro revolucionário pode até atuar sob a democracia, mas a violência escatológica e imanente está lá. O sentimento de santidade pessoal, imaculada até mesmo pelos mais atrozes atos, permanece ainda hoje no imaginário dos tardios descendentes do marxismo e de seus ramos. Esses atos podem consistir de roubos bilionários que comprometem toda a qualidade de vida da massa populacional, facadas na barriga de concorrentes políticos – como a que aconteceu no 6 de setembro da Rua Halfeld, em Juiz de Fora, quando um radical de esquerda quase matou o presidente posteriormente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro – ou a emissão das mais descaradas mentiras em prol do projeto político.

Que os leitores atuais não se enganem. Lênin é um dos maiores estrategistas do movimento revolucionário mundial, ao lado de seu camarada Stálin. Sua obra é uma obra de alguém cruel, talvez até mesmo de um psicopata, mas não há como negar uma visão astuta de como agir em prol de sua utopia tirânica. Em especial, o seu livro que aqui é apresentado em alguns trechos, aborda uma questão bem contemporânea: como a elite socialista lida com o Estado, e por que não se espera tão cedo uma união efetiva entre socialistas e liberais.

Quanto ao estilo, Lênin possui uma escrita envolvente e empolgante, realmente capaz de impressionar, enganar e seduzir os mais tolos. Que tantos jovens que buscam a paz, como meta e como meio de ação, sintam-se inspirados por um monstro homicida como Lênin, ainda é assustador. Que tantos elementos famosos da sociedade brasileira e da Academia internacional comemorem a Revolução Russa, só pode ser um escárnio profundo contra as milhões de vítimas do sistema comunista de Marx, Engels, Lênin, Stálin e Mao. Que a leitura dos originais possa nos despertar do profundo sono em que nos encontramos para a dura realidade que encaramos dia após dia quando o assunto é elite política e ideologia.


Hélio Angotti Neto
10 de dezembro, Colatina - ES


[1]LÊNIN, Vladímir Ilitch. O Estado e a Revolução. São Paulo, SP: Boitempo, 2017, p. 195-196.
[2]VOLKOGONOV, Dmitri. Os Sete Chefes do Império Soviético. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
[3]LÊNIN, op. cit., p. 43-44.
[4]Ibid., p. 44.
[5]Ibid., p. 47.
[6]Ibid., p. 47.
[7]JOUVENEL, Bertrand de. Do Poder. História Natural de Seu Crescimento. São Paulo: Editora Peixoto Neto, 2010.
[8]ENGELS, Friedrich. Da Autoridade, p. 409-410.ApudLÊNIN, opcit., p. 86.
[9]LÊNIN,opcit., p. 119.
[10]ROTHBARD, Murray. Esquerda & Direita. Perspectivas para a Liberdade. Campinas: Vide Editorial, 2016.
[11]LÊNIN,opcit., p. 120.
[12]Ibid., p. 121-122.
[13]VOEGELIN, Eric. Modernity Without Restraint. The Political Religions, The New Science of Politics, and Science, Politics and Gnosticism. Columba: Missouri University Press, 2000.
[14]LÊNIN,opcit., p. 122.
[15]Ibid., p. 143.
[16]HOPPE, Hans-Hermann. Democracy. The God That Failed. New York: Routledge, 2001.
[17]LÊNIN,op. cit., p. 125.
[18]Ibid., p. 125.
[19]Ibid., p. 126.
[20]Ibid., p. 140.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

AINDA O PATERNALISMO HIPOCRÁTICO

Canso de escutar pessoas que nunca leram a obra hipocrática ou livros de seus contemporâneos falando sobre o terrível paternalismo hipocrático e a maravilhosa valorização da autonomia do paciente que se observa nos dias iluminados de nossa época contemporânea.

Deixo um breve trecho para reflexão:





"Mas o médico nascido livre se ocupa principalmente em visitar e tratar das enfermidades das pessoas livres e o faz investigando-as desde o começo e conforme o curso natural; conversa com o próprio paciente e com seus amigos, podendo assim tanto obter conhecimento a partir daqueles que padece da doença [e seus amigos] como transmitir a estes as devidas impressões na medida do possível. Ademais, ele não prescreve nada ao paciente enquanto não conquistar o consentimento deste, para só quando consegui-lo então, mantendo a docilidade do paciente por meio da persuasão, realmente tentar completar a tarefa de devolver-lhe a saúde."

PLATÃO. As Leis incluindo Epinomis. Baurú, SP: EDIPRO, 1999, Livro IV, p. 195.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Crítica e Autocrítica da Classe Médica

CRÍTICA E AUTOCRÍTICA DA CLASSE MÉDICA


Todos sabem que sou ferrenho crítico das tentativas de legalização do aborto no Brasil, assim como sou diretamente e explicitamente contrário à instrumentalização das tentativas de humanização em saúde pela ideologia política mais rasteira e oportunista.
Acredito que nosso dever é criticar, com certeza, e deixar nossa posição bem clara, cobrando uma posição adequada do próximo.
Critiquei e ainda critico abertamente a gestão anterior do Conselho Federal de Medicina pelo posicionamento tomado a favor da legalização do aborto até a décima segunda semana e a favor de estranhos dispositivos de eutanásia infantil ao estilo do Protocolo Groningen.[1]
Estamos agora cada vez mais pertos de uma audiência pública sobre a legalização do aborto proposta pelo PSOL e pela ANIS – Instituto de Bioética.[2]Ainda tenho a esperança, talvez ingênua, de que nosso Conselho mude a trajetória que nossa representação vinha demonstrando. Vamos aguardar os fatos para concluir melhor.
Como já afirmei em outros lugares, o Conselho Federal de Medicina representa a classe médica frente ao governo e é responsável pela fiscalização da profissão. Contudo, questiono quem eles representam de fato quando defendem o aborto – ou a escolha da mulher, de acordo com o viés ideológico e o jogo de palavras adotado. Não é o povo brasileiro, que em sua maioria é claramente pró-vida; ou pelo menos ainda é pró-vida enquanto os frutos da intensa engenharia social imposta por certas elites não venham à luz do dia. Também não é a classe médica como um todo que representam, pois a maioria dos médicos ainda é contra o aborto, assim como a maioria dos obstetras ainda realiza objeção de consciência.
Vou aguardar a audiência pública e torcer para estar errado. Torcer para que a nossa geração de médicos não seja justamente aquela que jogará a herança hipocrática e cristã que sustenta nossa civilização no lixo, e pague o preço por tamanha falta de responsabilidade.
Contudo, parto agora para um outro tema em paralelo.
Quando fiz críticas ao Conselho Federal de Medicina, muitos colegas também se enfureceram com a falta de posicionamento em favor da vida humana. Posicionamento este que deve ser embasado nas evidências que existem, sem conflitos de interesse das organizações abortistas, e em uma moralidade compatível com a tradição e o propósito de nossa profissão. Porém, outros levantaram pontos que julgo merecerem melhor análise.
Muitos outros colegas lançaram diversas acusações contra o gasto dos conselheiros em diárias, que é bem alto, de fato, e nunca foi escondido de ninguém. O que poucos param para refletir é que os conselheiros de regra são colegas já bem estabelecidos, que poderiam ganhar muito mais em suas práticas privadas e que abandonam consultórios e famílias para viajar Brasil afora debatendo temas éticos e promovendo educação continuada – eu mesmo já recebi um representante do Conselho Federal de Medicina no interior do Espírito Santo e participei de diversas atividades promovidas pelo meu conselho regional também no interior. Poucos param para refletir o desgaste sofrido por eles e o quanto abrem mão de ganhar com a medicina. 
Posso ser um crítico feroz de alguns posicionamentos, mas para ser justo, preciso reconhecer o sacrifício e a dedicação de nossos colegas que participam da atividade ética da carreira médica. 
Chego ao ponto específico dessa observação: a necessidade de quem critica em fazer algo além da mera crítica negativa e destrutiva, a necessidade de fugir dos velhos moldes da crítica social frankfurtiana (feita pela New Lefte pelos membros da antiga Escola de Frankfurt) que apela para o desmonte cultural sem ser propositiva de fato.[3]
Muitos reclamam sobre os posicionamentos passados do Conselho Federal de Medicina a favor do aborto e a atual indefinição da gestão presente. Mas o que fazem a respeito? 
Eu já dedico mais de quinze anos de minha vida ao estudo das questões éticas e da filosofia da medicina para tecer algo mais construtivo e mudar, nem que seja um pouco, a cultura ao meu redor. Já sei de dois colegas que se inscreveram para participar da Audiência Pública contra a proposta de legalizar o aborto até a 12ª semana, abrindo mão da convivência familiar e da renda de seus consultórios por alguns dias preciosos para ir a Brasília. Vocês ouvirão em breve o nome deles e das instituições que chancelaram sua participação. Sei também de diversos outros espalhados pelo Brasil que se aprofundam nos estudos humanísticos da medicina, pessoas bem-sucedidas e satisfeitas com sua carreira que se sentiram obrigados a aprofundar em conhecimentos mais amplos. Os nomes deles também surgirão com o devido tempo, é inevitável.
Muitos reclamam das atividades dos Conselhos, mas nunca participaram de uma destas atividades sequer! Fui convidado a participar como Delegado de meu Conselho Regional, um serviço voluntário, e lá vou eu ajudar no que for possível. 
Muitos reclamam da educação médica e de como o Conselho Federal de Medicina deveria se posicionar melhor. Só posso dizer que fui além. Estudei sobre Educação Médica, tornei-me professor e até fui convidado a ser Coordenador de Curso, e agora participo há dois anos como avaliador do Sistema de Avaliação das Escolas Médicas (SAEME), promovido e viabilizado pelo CFM e pela Associação Brasileira de Educação Médica.
Muitos reclamam das escolas médicas que abrem em cascata, uma após a outra. Julgam que não há critério no processo de abertura. Concordo com as críticas em grande parte. Mas fiz o que julguei ser o mais correto. Inscrevi-me como avaliador do Ministério da Educação e Cultura e fui aprovado como avaliador para abertura de novos cursos (deve sair em breve no Diário Oficial da União se tudo der certo). Estudei os critérios de avaliação de curso e vou fazer o melhor para ser justo em busca de real qualidade.
Muitos reclamam da ideologização das cadeiras médicas ligadas às ciências sociais. Concordo também com a crítica de aparelhamento ideológico completamente inadequado e até mesmo danoso para os propósitos da Medicina. Criei o Seminário de Filosofa Aplicada à Medicina, promovendo pesquisa e atividades de extensão junto aos alunos, oferecendo uma possibilidade diferente de visualizar a importância das Humanidades Médicas em sua vida profissional.
E você, colega médico, o que você faz?
Quantas horas de seu consultório e do convívio familiar você cedeu para dedicar-se de fato, de corpo e alma, ao trabalho de honrar sua profissão e melhorar o que você percebe que está errado? Qual o preço que você pagou e ainda paga?
Alguns podem dizer que não são professores, que nada podem fazer para mudar o panorama educacional. Mas poderiam muito bem receber alunos em suas práticas como estagiários voluntários e ensinar pelo exemplo, que pressuponho ser muito bom. Até hoje lembro-me com carinho dos mestres informais que tive, dos plantões que acompanhei fora da escola em busca de aumentar meu aprendizado.
Você reclama da educação médica, mas já participou de quantos eventos dedicados ao assunto? 
É preciso realmente sair da inércia, do pessimismo suicida que se tranca num pequeno paraíso de segurança provisória enquanto o mundo lá fora cai em chamas. Acredito que os médicos perceberam claramente que os bárbaros chegaram e que estão rompendo as muralhas, mas ainda não entenderam que não vai haver batalha se não houver quem lute. Ainda não entenderam que não se deve lutar para criticar ou atacar algo, tampouco alguém, mas para defender algo valioso que se encontra atrás de nós, protegido e sustentado por nossos ombros.
Discorda ou concorda? Independente da sua reposta, mãos à obra.


[3]Sobre a New Left, recomendo a obra: SCRUTON, Roger. Pensadores da Nova Esquerda. Coleção Abertura Cultural. São Paulo: É Realizações, 2014; SCRUTON, Roger. Fools, Frauds and Firebrands. Thinkers of the New Left. London: Bloomsbury, 2015.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

A CULPA NOSSA DE CADA DIA - PARTE 2

A CULPA NOSSA DE CADA DIA - Parte 2
Um estudo fenomenológico da crise no Brasil com base nos Esquemas de Diferenciações de Karl Jaspers a respeito da culpa.

Ai dos que chamam ao mal bem e ao bem, mal, que fazem das trevas luz e da luz, trevas, do amargo, doce e do doce, amargo. 
Isaías 5.20
2. A Culpa Criminal
O primeiro tipo de culpa é aquele baseado na lei dos homens. No cumprimento ou na desobediência de preceitos que permitem a sobrevivência da sociedade por meio de suas instituições. Essa culpa deve ser despertada por uma conduta que se encaixe em um processo formal, e deve ensejar uma penalidade, uma agressão contra aquele que ofendeu.
A culpa criminal deve ser satisfeita. Roubou, corrompeu, matou? Há que ser preso, removido da convivência dos homens de bem.
Hoje, homens de bem ficam trancados em casa, atrás de barras de ferro e cadeados, enquanto o criminoso passeia na rua ou dorme em palácios no cerrado brasileiro, debaixo de grandes e espessas placas de concreto ondulado erguidas pela visão seca e faraônica do arquiteto comunista, e stalinista, diga-se de passagem, Niemeyer. 
Os crimes precisam de ser averiguados, tipificados, preparados com muito zelo e blindados contra os mil e um recursos de bons advogados que dedicaram suas vidas a livrar os bandidos do colarinho branco, porém manchado. Mas não há problema em manchar ternos e camisas brancas, pois o auxílio-paletó serve para resolver isso mesmo.
Observamos, já há alguns poucos anos, um tipo de levante jurídico, de reação, eu diria, no qual intocáveis da elite são presos, e no qual dinheiro público retorna às contas públicas, de onde poderá novamente ser roubado por mais políticos corrompidos num ciclo cujo fim ultrapassa meu horizonte míope.
Observamos também um levante diferente, do tipo daqueles que querem reescrever a constituição ao seu modo, reinterpretando tudo como se toda letra não fosse mais do que uma louca alucinação lisérgica apreendida pelo relativismo de um Jacques Derrida. 
Cidadãos, se é que podem ser assim chamados quando na verdade se comportam mais como servos ou escravos do tirano magnânimo que cobra a alma em troca de esmolas, reclamam da prisão de um criminoso da estatura de um ex-presidente com nove dedos que agarra poder, dinheiro e pinga como se tivesse oito tentáculos. Gritam que outros bandidos existem e não foram presos. É difícil distinguir o mais corrupto na situação. Quem corrompe ou quem tenta justificar um erro com outro.
O crime em nosso país perde totalmente a objetividade para essa minoria violenta e cega. Só é crime se for cometido pelo outro, só é crime se não tiver sido cometido pela causa. Agora, que causa é esta de verdade, só Deus sabe.
O crime também perde o grau. Sofistas de plantão, daqueles que são cuspidos aos borbotões dos esgotos acadêmicos radicais de nossas federais, comparam crimes que lesam toda a pátria ou atentam frontalmente contra a vida humana com pequenos e medíocres “crimes” do cidadão comum. Quem somos nós para julgar o roubo de bilhões, a destruição de uma estatal estratégica para todo um país continental e as suspeitas mortes que ocorreram no longo governo da elite proletária que nunca trabalhou de verdade? Joguei papel no chão. Não posso falar mal do abortista, estuprador ou delinquente assassino traficante de drogas, não é mesmo?
Ah, mas prenderam o bandido dos oito braços - com um dedinho a menos - e dois tentáculos! Falta ainda a desconjuntada tartaruga no poste com o cachorro atrás, que ninguém sabe direito como foi parar lá em cima e o que estava fazendo. E falta muitos outros bandidos ainda. Garçom, traga o próximo por favor. O gosto do bom freguês é eclético.
Não importa a safra. Culpa criminal deve ser punida. Não importa o pedigree. Não se deve ter bandido de estimação. E não se deve perder o senso das proporções para que não se afunde em pura histeria, perdendo a percepção da gravidade dos grandes crimes contra todo um povo enquanto se perde tempo com nulidades.
Nossa elite não somente roubou o povo brasileiro. Nossa elite permite o assassinato de mais de sessenta mil vidas humanas todos os anos; uma multidão de anônimos massacrados. Nossa elite envia dinheiro para tiranias no estrangeiro que oprimem e matam seu próprio povo. Nossa elite faz pactos com sequestradores internacionais e terroristas que ganham dinheiro com tráfico de drogas. Mas perigoso de verdade é o sujeito que fura a fila, joga papel no chão, anda com a placa do carro ilegível, coloca saleiro em cima da mesa no restaurante ou resolve vender hotdogna calçada da praia com maionese suspeita, percebe?
A ausência de senso das proporções arma o cenário ideal no qual se torce o direito para que o crime compense no fim das contas. 
A etiquetagem do crime e a defesa do bandido que pertence à mesma patota é outra indecência que assola nosso povo. O “rouba, mas faz” dos lulistas e malufistas. 
Talvez nosso maior problema seja mesmo a violência, a brutalidade em que vive o cidadão comum nas ruas brasileiras. E este problema se mantém forte e sempre presente graças ao contexto cultural degenerado em que nos encontramos.
Enquanto nosso sábio lumpenproletariategresso das ciências sociais acusa políticos que assaltam o erário público; enquanto nossos burguesinhos filhinhos de papai e mamãe baby-boomersse deleitam criticando os últimos acontecimentos do Big Brother Brasilou comentando a última entrevista num condimentado programa acéfalo da televisão; milhares de Marias, Josés e tantos outros morrem, drogados, vitimados por balas perdidas ou bem endereçadas, desgraçando a vida de famílias inteiras.
A culpa criminal exige reparação proporcional, exige justiça. Doa a quem doer. É uma necessidade básica para criar a estabilidade e a confiança sem as quais é difícil imaginar o céu azul novamente.
Se há alguma coisa que torna insuportável a vida em um país e rouba o futuro da próxima geração é o profundo sentimento de injustiça, de impunidade.

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