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quinta-feira, 6 de julho de 2017

ATÉ QUANDO LUTAR PELA VIDA HUMANA?

ATÉ QUANDO LUTAR PELA VIDA HUMANA?

Dever de Matar 2




No artigo Dever de Matar, abordei perigosos aspectos observados no caso do pequeno Charlie Gard, um recém-nascido com uma grave doença retido no hospital contra a vontade dos pais para que morresse, conforme denominação da equipe médica, com dignidade e sem intervenções consideradas fúteis e potencialmente lesivas.

O nome das intervenções inúteis, lesivas e obstinadas em medicina é distanásia, uma falha técnica e moral, sem dúvida. Mas será que o conceito se aplica realmente à situação?

Um exemplo claro de distanásia é um paciente de idade avançada com câncer de pulmão metastático[1], já muito próximo à morte, no estádio mais avançado de sua doença, que apresenta uma comorbidade[2] como dificuldade urinária por hiperplasia prostática benigna, por exemplo. Diante da morte iminente, não cabe submeter o paciente a procedimentos cirúrgicos de ressecção da próstata, mas caberia a passagem de sonda para eliminar a urina e promover conforto. A cirurgia seria claramente um exagero.

No caso do bebê Charlie a situação é muito mais complexa do que o exemplo descrito. O procedimento é experimental e a possibilidade de vida é incerta. Como pensar essa situação?

Relato alguns elementos que apoiariam a compreensão de que estamos diante de um caso potencial de distanásia:

- A baixíssima probabilidade de sobrevivência;

- O aspecto completamente experimental do tratamento;

- O dano cerebral já presente, teoricamente incompatível com uma vida de boa qualidade segundo algumas informações porém ainda não definido;

- O excesso da intervenção já promovida.

- A possibilidade de que os pais estejam em fase de negação ou negociação da doença terminal de seu pequeno bebê.[3]

Contudo, quais os perigos em se chamar de distanásia a possibilidade de tentar o tratamento experimental no caso em questão?

A situação envolve sentimentos intensos e muitas vezes contraditórios por parte dos pais e, não duvido, por parte de alguns da própria equipe médica, que em algum grau podem se solidarizar com o sofrimento do bebê e imaginar o que seria uma vida extremamente limitada para o pequeno paciente na hipótese de sucesso limitado do tratamento experimental, acrescentando sofrimento para a família em níveis imprevisíveis ao longo de anos.

Tive a chance de acompanhar alguns pacientes até o momento do óbito e vi de perto o sofrimento de diversas famílias. Mesmo sendo oftalmologista[4], fui chamado a oferecer suporte em domicílio em casos graves com alterações oftalmológicas e já alerto: todo médico deve aprender a lidar com a morte e o sofrimento, pois cedo ou tarde irá se deparar com essa velha e indesejada companheira. Há quase sempre um intenso sofrimento por parte da família que vem ao lado do sentimento profundo de obrigação para com o doente e, quando o familiar querido falece, do sentimento de um triste dever cumprido, se tudo tiver corrido bem.

O sentimento dos pais do bebê Charlie, de não querer que algo deixe de ser feito, realmente pode disparar culpas desnecessárias e inadequadas em determinadas situações, mas é um sentimento que deve ser respeitado. A vida humana possui valor ontológico e precede qualquer outro direito como condição sine qua non, e a resposta preocupada daqueles que cuidam de pacientes graves ou em fase final de vida é algo coerente com esse valor apreendido da realidade. Se abandonarmos os valores fundamentais de nossa civilização, o respeito à dignidade da vida humana entre eles, a vida passará a ter valor puramente subjetivo e relativizado, abrindo caminho para as loucuras mais cruéis já presenciadas na história.

Ao mesmo tempo, deve-se compreender que expectativas irreais não justificam plenamente o emprego fútil de medidas médicas inúteis. Isso onera a família, cria anseios que jamais poderão ser supridos e aumenta o sofrimento de todos: pacientes, familiares e equipe médica.

Qual será o caso do pequeno Charlie Gard? Distanásia? Abandono do paciente por causa da Cultura da Morte? O que fazer?

Não acredito que haja resposta simples.

Tratar de forma insistente com baixíssimas chances de manter a vida guarda sim um elemento de obstinação. Todavia, nem toda obstinação é vã.

Por outro lado, o emprego da morte alheia como conceito corriqueiro, útil e ativo da prática médica guarda perigosas repercussões e restrições profissionais. Pode nos levar à instrumentalização da morte como meio eficaz de “tratamento” dos indesejados e como marca de uma profissão médica que passará a ser ainda mais temida e odiada por alguns, agora que tornou-se eficaz distribuidora da morte.

Lembro da situação já descrita na obra “A Morte da Medicina”, na qual crianças com espinha bífida foram sistematicamente submetidas ao Protocolo Groningen, na Holanda, cuja implantação o Conselho Federal de Medicina do Brasil chegou a sugerir em uma gestão anterior.[5] Mais de vinte casos de eutanásia infantil por doença “incurável” foram executados por meio da eutanásia com a concordância dos pais e com a indicação da equipe médica. Pouco tempo após o Dr. Verhagen ter publicado sua mórbida casuística[6], Rob de Jong, um neurocirurgião pediátrico, publicou o sucesso de uma inovadora cirurgia de grande porte e muita complexidade capaz de restituir potencial de vida útil a um bebê nascido com a trágica deformação.[7] Não consigo parar de pensar quantas crianças foram mortas em vão, e imagino como deve estar a consciência dos pais que foram convencidos de que não valia a pena lutar por seus filhos, que nada poderia ser feito. O rosto sorridente do paciente do Dr. De Jong é um potente alerta vermelho para os entusiastas da fácil solução final.

Imagem de público aceso, disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2092440/

A medicina, ao longo dos milênios, fez inúmeras descobertas sobre como salvar a vida, prolongá-la ou melhorá-la, além de descobrir recursos para prevenção de doenças. Desde as coisas simples como a antissepsia até as técnicas avançadas como transplantes de órgãos e implante de próteses foram descobertas e aplicadas com sucesso por médicos que sempre estiveram abertos a novas possibilidades de auxiliar o próximo.

Se há necessidade de evitar intervenções esdrúxulas, há também necessidade de se buscar novos caminhos.

Diante de um caso de doença grave e irreversível em pacientes de idade muito avançada, realmente o excesso de intervenção pode ser desaconselhado. E qualquer médico tem o direito, e às vezes o dever, de recusar tratamentos inúteis ou errados.

Mas a situação é bem mais complexa. Não se fala de um tratamento inútil, fala-se de um tratamento experimental que pode dar errado ou pode funcionar provocando algum tipo de melhora.

O tema em jogo não é o de uma equipe médica sendo obrigada a tratar um paciente empregando técnicas que acredita serem erradas. A questão em jogo é levar o pequeno paciente a médicos que podem empregar um tratamento inovador e incerto, mas que estão dispostos a tentar.

Não se fala de um tratamento contraindicado ou inútil, fala-se de um tratamento com possibilidade de funcionar, mesmo que mínima, e que seria indicado para outras crianças se fosse bem-sucedido, mudando completamente o prognóstico de outras pessoas e famílias num futuro próximo.

Não se fala em aumentar o sofrimento de pessoas muito idosas e já sem esperança de vida sem nada lhes acrescentar de vida, fala-se em tentar aumentar o potencial de vida de um bebê.

Quais serão as consequências de empregar a morte como opção válida para evitar tratamentos inovadores?

Deixar morrer ou matar é coisa simples, qualquer energúmeno consegue. Criar um tratamento diferente ou uma cirurgia inovadora é coisa dificílima, uma verdadeira obra de arte e ciência.

Não seria mais fácil para todos simplesmente lavar as mãos e repetir a velha frase quid est veritas?

E ainda há outro aspecto: o da imagem da medicina diante de tudo isso.

Que imagem essa família e as pessoas em todo o mundo guardarão desses médicos e dessa medicina coercitiva? Faço a pergunta com muito receio, pois acredito de coração que os colegas britânicos realmente consideram que fazem o melhor para o pequeno bebê. O próprio juiz que emitiu parecer sobre o caso afirmou fazê-lo com pesar. Mas acredito também que há um profundo equívoco nessa decisão imposta à família e na tomada da tutela do bebê à força pelo Estado.

Há elementos potencialmente lesivos para toda a sociedade nesse caso, há precedentes perigosos que podem mudar completamente a forma pela qual enxergamos os médicos e os serviços de saúde, se é que já não mudaram.

A pergunta que se faz ao final de tudo é quanto vale a vida humana? Dessa pergunta surgem muitas outras.

Deve-se calcular o preço da vida humana, ou quanto esforço fazemos para salvá-la, conforme sua capacidade de ser útil, de obter prazer ou de fornecê-lo? Podemos parar de lutar por novos tratamentos para aquelas condições terríveis que teoricamente nos levarão sempre à morte e ao sofrimento? Todo sofrimento deve ser ferozmente evitado?

Jeffrey Bishop, de forma semelhante ao médico Viktor Frankl, inventor da Logoterapia[8], questiona se a medicina não deveria pensar na vida humana como finalidade, dotada de um propósito iluminado pela consciência e desvelado pela biografia de cada ser vivo em comunidade.[9]

O propósito dos pais é o de proteger seu filho. Devem fazê-lo dotados das melhores informações possíveis em um ambiente de compreensão e amparo.

O propósito dos médicos é beneficiar o paciente e, quando possível, salvar e resguardar a vida, considerando os já tradicionais aspectos físicos, mentais, sociais e espirituais. Nessa equação cabe a observação de Viktor Frankl e Jeffrey Bishop sobre a valorização dos aspectos existenciais.

Até mesmo o pequeno Charlie já pode ter um propósito em seu contexto. Ao que indica, muitos enxergaram na luta dessa família e na vida do bebê um símbolo do valor pela luta contra a morte e a doença, um pequenino e ao mesmo tempo grande símbolo de esperança, perseverança e amor.

Como já afirmei, há elementos de obstinação neste caso, porém o emprego da autoridade tecnocrática dos médicos e do Estado contra a autoridade familiar, além da proibição ativa do tratamento, pode nos levar a consequências de espectro muito mais amplo do que o previsto.

Estamos diante de atitudes e valores que fundamentam nossa civilização e caracterizam a profissão médica e os cuidados com a saúde em geral. Qual o modelo médico que desejamos seguir? Onde nossas escolhas nos levarão? Quem deve ter a guarda do pequeno Charlie? Deve ser seu responsável a sua família que o ama, que o carregou no ventre e que perde noites de sono ao seu lado, sofrendo? Ou deve ser responsável a fria tecnocracia estatal, que enxerga o pequeno Charlie como um problema num sistema de saúde?

Peço desculpas se encho a cabeça dos leitores com perguntas, mas diante de uma decisão irreversível que pode levar à morte, só Deus sabe o estrago que pode ser feito na vida dessa sofrida família, na carreira dos médicos de forma geral e em nossa civilização.



[1] Um câncer que já se espalhou pelo organismo e, de regra, é incurável.
[2] Uma outra doença não diretamente relacionada com a doença principal.
[3] KUBLER-ROSS, Elizabeth. Sobre a Morte e o Morrer. Ão Paulo: WMF Editora Martins Fontes, 2008.
[4] O fato de eu trabalhar com doenças relacionadas à Órbita e à Neuro-Oftalmologia, incluindo tumores oculares e de cabeça e pescoço, acaba por aumentar a chance de lidar com esses casos mais exigentes.
[5] CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Conselhos de Medicina se posicionam a favor da autonomia da mulher em caso de interrupção da gestação. Quinta, 21 de março de 2013. Internet, http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=23661
[6] VERHAGEN, Eduard; SAUER, Pieter J.J. ‘The Groningen Protocol — Euthanasia in Severely Ill Newborns’. New England Journal of Medicine, 352, 2005, p. 959-962.
[7] ANGOTTI NETO, Hélio. A Morte da Medicina. Campinas: Vide Editorial, 2014; JONG, T. H. Rob de. Deliberate termination of life of newborns with spina bifida, a critical reappraisal. Child’s Nervous System, 24, 2008, p.13–28.
[8] XAUSA, Izar Aparecida de Moraes. A Psicologia do Sentido da Vida. A primeira obra sobre logoterapia publicada no Brasil. 2ª edição. Campinas, SP: Vide Editorial, 2013.
[9] BISHOP, Jeffrey. The Anticipatory Corpse. Medicine, Power, and the Care of the Dying. Notre Dame, Indiana: University of Notre Dame Press, 2011.

sábado, 14 de janeiro de 2017

A MEDIOCRIDADE MORAL DO HEDONISMO ABORTISTA



Um fato chamou minha atenção nestas últimas semanas: o Conselho Francês de Estado manteve a censura feita previamente a um vídeo pelo Conselho Francês de Radiodifusão.

O subversivo vídeo mostra crianças com Síndrome de Down sorrindo enquanto comunicam às mães, que descobriram que seus filhos nascerão com a trissomia do cromossomo 21 – nome científico desse problema -, que o mundo não acabou e que, apesar das dificuldades, a felicidade é possível.[1]

Apesar da solicitação de que o vídeo fosse novamente exibido na televisão francesa, feita por pessoas com Trissomia do 21 e suas famílias, o Conselho de Estado julgou que ver crianças com Down, inteligentes e sorrindo enquanto mostravam ao mundo que eram pessoas, consistia em algo profundamente ultrajante para aquelas mães que tinham legalmente exterminado seus filhos deficientes, e que as pobres matadoras da própria prole com a alteração genética não poderiam ser submetidas ao terrível sentimento de culpa potencialmente despertado pelos sorridentes e amabilíssimos jovens do vídeo, muito comovente e bem feito por sinal.[2]

Isso é um fato que salta aos olhos de quem vê. É um exemplo de uma série de eventos que se somam continuamente para compor o triste cenário da época contemporânea. Todos esses fatos apontam na direção de uma crise civilizacional.

Calma, não estou fazendo alarde e nem tecendo uma escabrosa teoria da conspiração. A pedra já foi cantada por tantos filósofos, historiadores e pensadores de estatura tão maior que a minha que nem ouso tentar algum ar de novidade. Nossa civilização está em crise, e afundamos rapidamente na lama do barbarismo, motivados pelo secularismo, pelo hedonismo, pelo relativismo e pela ação destruidora de pensadores anticristãos e antiocidentais.

Os bioeticistas iluminados que se prestam a fazer o desmonte cultural por meio da bioética – ou disbioética, como eu gosto de chamar - incutem na cabeça do povo que matar bebês e fetos é coisa boa ou, pelo menos, indiferente. Ainda mais, coisa de gente boa.

Mostre que você é legal, que você pode decidir, que você está “empoderado” (que termo ridículo!), que você manda no pedaço, ou melhor, no seu próprio corpo.

Vamos lá, exercite sua independência, sua autonomia, sua vontade de poder.

Basta expulsar um pequeno feto de dentro da barriga de sua mãe e tudo ficará bem. Basta destrinchar o corpo do feto que nem um frango na véspera do almoço de domingo e esmagar sua cabeça enquanto os miolos saem pelo canal vaginal que tudo dará certo.

Mas não fica bem e não dá certo.

Mulheres que abortam cometem suicídio, entram em depressão, aumentam o risco de infertilidade e, caso alguém acredite no que diz a religião, vão arder no inferno a não ser que um milagre aconteça em suas vidas (e às vezes acontecem sim). Aliás, antes que revoltados apareçam por todos os lados, por que alguém se revoltaria com o anúncio de almas indo para o inferno por matar inocentes já que não acreditam mesmo nessa história de céu e inferno?

Diante da engenharia social - enfiada ao custo de muita propaganda, de muitos documentários politicamente corretos, de atores e atrizes mandando abortar seus filhos - muitos se convencem de que isso pode e até deve ser feito. E fazem.

Mas há um mal objetivo em se sacrificar filhos. Há um elemento real que eu duvido que seja relativo. Destruir um ser humano inocente em seu maior momento de fragilidade – indefeso no útero materno – é de uma covardia maligna.

A consciência ataca então a mãe e, às vezes, até o pai e os demais familiares. A consciência pode atacar o próprio médico, se ainda nele subsistir alguma consciência.

E qual é a solução proposta pelos maravilhosos burocratas da moral alheia? Qual a solução imposta pela Intelligentsia progressista?

Proibamos imagens, histórias e filmes que lembrem às mães que assassinaram seres humanos, pessoas capazes um dia de felicidade, tanto de receber quanto de oferecer alegria e experiências de vida.

É o cúmulo da estupidificação humana e da destruição de nossas consciências.

Pecaste? Esquece que o fizeste. Retrocede, e peca mais!

É o evangelho caricatural, diabólico e invertido.

Impedir o arrependimento e impedir a reflexão.

Abaixo o desconforto, pois só podemos absorver o prazer.

Essa expectativa hedonista de livrar a pessoa do desconforto, mesmo que ao custo da vida alheia e da impossibilidade de ter empatia ou de imaginar o que é uma vida alheia, nos levará ao fim de nossa civilização.

Muitos já apontaram para a guerra cultural que se desenvolve por estas terras.

Benjamin Wiker, em sua magnífica obra “Darwinismo Moral: Como Nos Tornamos Hedonistas”[3], mostra que a guerra entre hedonistas e aqueles que assumem uma postura transcendental de vida é antiga, é pré-cristã.

A religião e a filosofia pareciam ter se livrado da onda hedonista e niilista, mas desde as catastróficas revoluções do século XX, ninguém mais está autorizado a ficar tranquilo achando que venceu a guerra.[4]

Mário Ferreira dos Santos, em uma de suas grandes obras, trata da invasão vertical dos bárbaros, de como os valores e a inteligência na civilização ocidental estão se desmanchando por uma destruição intencional vinda por meio da cultura, instalada dentro de cátedras, espalhadas por uma elite insensível que, assim como o sociopata, manipula a sensibilidade alheia sem sofrimento algum, sem consciência da monstruosidade que provoca.

Michel Henry fala da barbárie de nossos tempos; José Ortega y Gasset fala da massificação e do fim do sentimento de nobreza e dever; Olavo de Carvalho fala das inversões revolucionárias que embrutecem e tornam em coisas desejáveis as podridões mais cruéis; José Ingenieros fala do aspecto medíocre que tomou conta de nossas consciências, da incapacidade de o homem moderno ascender a um padrão elevado de caráter e conduta; Zygmut Baumman – para não dizer que deixei de citar a esquerda - fala do imediatismo e da falta de perenidade em nossa civilização - a liquidez - na qual tudo vale nada, e a toda hora se reconstrói após sucessivas perdas; Eugen Rosenstock-Huessy fala dos processos de crise da linguagem, nos quais os significados podem ser destruídos e uma língua artificial pode ser imposta à sociedade, impedindo a comunicação de verdades profundas e belas; Theodore Dalrymple, ou Antony Daniels, fala da destruição de tudo o que é belo, justo e bom em uma sociedade que ressalta somente seus piores aspectos, sua maior vileza; Mário Vargas Llosa fala da fútil civilização do espetáculo.

Eu poderia continuar citando dezenas, centenas de autores, de diversos espectros políticos e cosmovisões, que apontam para uma mesma situação: estamos decaindo.

O hedonismo e a elevação do prazer imediato subjetivista acima de fatos e seres concretos, por meio da relativização de nossos valores mais profundos e centrais, estão destruindo tudo.

Agora, estamos sacrificando nossos filhos e fingindo que nada está acontecendo. Em breve, todos nós seremos sacrificados, e ninguém se lembrará do quanto valemos. Pois, afinal de contas, será que sobrará algo de valioso em nós e legado por nós?

Será o prazeroso e anestésico fim...

Hélio Angotti Neto
26 de dezembro de 2016
Colatina - ES




[2] DEAR FUTURE MOM | March 21 - World Down Syndrome Day. Internet, https://www.youtube.com/watch?v=Ju-q4OnBtNU

[3] WIKER, Benjamin. Darwisnimo Moral: Como nos tornamos hedonistas. São Paulo: Paulus, 2012

[4] As guerras mundiais e as revoluções foram gestadas pela decadência cultural, como mostram muito bem Eric Voegelin e Modris Eksteins em “Hitler e os Alemães” e “Sagração da Primavera”, respectivamente. EKSTEINS, Modris. Rites of Spring: The Great War and The Birth of the Modern Age. Boston: Mariner Books, 2000; VOEGELIN, Eric. Hitler e os Alemães. São Paulo: É Realizações, 2008.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

MÁQUINA DE FAZER DINHEIRO

Máquina de Fazer Dinheiro

A Indústria Milionária do Aborto 


MÁQUINA DE FAZER DINHEIRO[1]

O aborto é uma máquina de fazer dinheiro. Comece com um bebê ainda no útero de sua mãe, acrescente um carniceiro abortista ávido por verdinhas e obtenha mais duas vítimas sem muito esforço: a mãe e seu filho abortado. Equação sangrenta e lucrativa, pelo menos para o abortista.

Não exagero. Ou você realmente acha que médicos – se podemos chamá-los assim – matam fetos e bebês por caridade de suas alminhas santas?

Tome por exemplo a megaempresa abortista Planned Parenthood (PP), fundada pela eugenista Margareth Sanger, de quem falarei mais adiante e cujo legado de eliminação racial ainda perdura. Veja alguns números:

- Realizou 323.999 abortos em 2014, isto é, ceifou 888 vidas por dia ou uma vida a cada 97 segundos. Um prodígio da carnificina.[2]

- Foi responsável por um terço dos abortos realizados nos Estados Unidos em 2011 (333.964 em 1,06 milhões de mortes).[3]

- De 2011 a 2014 fez 1.312.728 abortos e ofereceu mais 1,3 milhões de kits de contracepção de emergência (isto é, mais abortos farmacológicos).[4]

Verdade seja dita, o aborto é o holocausto contemporâneo dos indefesos.

Toda essa casuísta genocida é justificada, ou pelo menos amenizada, por meio de desculpas como aquela que afirma ser o aborto somente uma atividade minoritária entre os muitos serviços de saúde prestados pela PP. Pelo menos isso funciona como fator de alívio na cabeça de muitos abortistas.

Tais serviços de saúde incluiriam campanhas de prevenção contra o câncer de mama, acompanhamento pré-natal e referência para adoção. Porém, antes que uma lágrima comovida escorra do canto de algum olho de crocodilo, tenho que revelar que tais serviços têm caído de forma consistente nos últimos anos.[5]

A sangrenta realidade é que 94% do que a PP faz é abortar.[6]

Apesar de divulgarem a cifra mágica de 3% de serviços ligados ao aborto, uma análise da distorção estatística revela a marota manipulação de dados. Um pacote de serviço de pré-natal é contado, em cada visita, como um serviço isolado. Um atendimento com diversos procedimentos conta como um serviço isolado para cada procedimento. Nesse superfaturamento macabro, o principal serviço da PP – o aborto - é maquiado.[7]

A PP é tão boa em praticar a maldade que até ousam estipular uma cota de quantos bebês precisam morrer por ano.[8] Stálin, com suas cotas de deportados para Gulags na Sibéria, ficaria orgulhoso.

Apesar de a PP declarar-se como uma organização sem fins lucrativos, seu orçamento no biênio 2014-2015 foi de 1,3 bilhões de dólares.[9] Dessa montanha de dinheiro, 554 milhões de dólares saíram dos cofres públicos, sustentados por muitos cristãos a favor da vida.[10]

Como se não bastasse o lucro imoral obtido com a matança de milhões, a PP ainda foi capaz de faturar com a venda de pedaços de bebês e fetos. É um açougue de gente![11]

Mas se não deu tempo de abortar, sem problemas. Há como lucrar enquanto são crianças, como mostra a cumplicidade com a prostituição infantil. Abortemos as crianças das crianças.[12]

Com tanto dinheiro na jogada, é claro que os abortistas lutarão com unhas e dentes – ou melhor, curetas e aspiradores – para que a fonte jamais seque. Embora se declarem apartidários, promovem intenso lobby e injetam dinheiro na campanha de candidatos abortistas em todas as instâncias políticas.[13]

De volta ao legado racista e eugenista da senhora Sanger, tão celebrada por progressistas como Hillary Clinton, nota-se que 79% das instalações abortistas ficam nas periferias onde habitam afrodescendentes e latinos.[14] Minorias perfazem 64% dos abortos nos Estados Unidos e para cada criança branca abortada são abortadas cinco crianças negras.[15] Há inclusive uma disposição em aceitar doações especialmente destinadas ao aborto seletivo de determinados grupos étnicos.[16]

A próxima vez que você questionar sobre a razão de o aborto ser tão defendido por certos grupos de interesse, tenha em mente que, ao contrário de cuidar por meio da cura, do alívio e do consolo, matar é extremamente fácil, e muito lucrativo também.

Hélio Angotti Neto





[1] Artigo baseado no relatório do Family Research Council, de janeiro de 2016, disponível em: http://downloads.frc.org/EF/EF15F70.pdf
[2] “Planned Parenthood, 2014-2015 Annual Report,” Planned Parenthood Federation of America, accessed January 5, 2016, https://www.plannedparenthood.org/files/2114/5089/0863/2014-2015_PPFA_Annual_Report_.pdf
[3] “Induced Abortion in the United States,” Guttmacher Institute, July 2014, accessed July 24, 2015,
http://www.guttmacher.org/pubs/fb_induced_abortion.html; “Planned Parenthood, Care. No matter what, 2011-2012 Annual Report,” Planned Parenthood Federation of America, accessed January 5, 2016,
[4] “Planned Parenthood, Care. No matter what, Annual Report 2011-2012,” Planned Parenthood Federation of America, accessed January 5, 2016, http://www.plannedparenthood.org/files/4912/9620/1413/PPFA_AR_2012_121812_vF.pdf ; “Planned
Parenthood, Care. No matter what, Annual Report 2012-2013,” Planned Parenthood Federation of
“Planned Parenthood, Our Health. Our Decisions. Our Moment, Annual Report 2013-2014,” Planned
Parenthood Federation of America, accessed January 5, 2016, http://www.plannedparenthood.org/files/6714/1996/2641/20132014_Annual_Report_FINAL_WEB_VERSION.pdf ; “Planned Parenthood, 2014-2015 Annual Report,” Planned Parenthood Federation of America, accessed January 5, 2016, https://www.plannedparenthood.org/files/2114/5089/0863/2014-2015_PPFA_Annual_Report_.pdf ; Susan Wills, Esq. “New Studies Show All Emergency Contraceptives Can Cause Early Abortion,” Charlotte Lozier Institute, January 1, 2014, accessed July 24, 2015,
[5] “Planned Parenthood, 2011-2012 Annual Report,” p. 2-3; “Breast Health Initiative,” Planned Parenthood, accessed July 24, 2015, http://www.plannedparenthood.org/about-us/newsroom/breast-healthinitiative ; “Planned Parenthood and Mammograms,” Fact Check, October 18, 2012, accessed July 24, 2015, http://www.factcheck.org/2012/10/planned-parenthood-and-mammograms/ ; “Cecile Richards Lied About Mammograms, Finally Comes Clean,” Breitbart, accessed October 6, 2015, http://www.breitbart.com/big-government/2015/09/30/cecile-richards-lied-mammograms-finallycomes-clean/
[6] “Planned Parenthood, 2011-2012 Annual Report,” accessed July 24, 2015, p. 5.
[7] Abby Johnson, “Planned Parenthood Business Model All About Abortion,” LifeNews.com, April 5, 2011, accessed July 24, 2015, http://www.lifenews.com/2011/04/05/abby-johnson-planned-parenthoodbusiness-model-all-about-abortion/ ; Planned Parenthood, 2014-2015 Annual Report,” accessed January 5, 2016, p. 30.
[8] “Exposed: Former Planned Parenthood Director Says It Has Abortion Quotas,” LifeNews.com, accessed
[9] Planned Parenthood, 2014-2015 Annual Report,” accessed January 5, 2016, p. 34.
[10] Planned Parenthood, 2014-2015 Annual Report,” accessed January 5, 2016, p. 32-33.
[11] “Investigative Footage,” The Center for Medical Progress, accessed July 24, 2015, http://centerformedicalprogress.org/cmp/investigative-footage ; Abby Ohlheiser, “Congressional, state investigations into Planned Parenthood underway after undercover video goes viral,” The Washington Post, July 15, 2015, accessed July 24, 2015, http://www.washingtonpost.com/news/acts-of-faith/wp/2015/07/15/congressional-stateinvestigations-into-planned-parenthood-underway-after-undercover-video-goes-viral
[12] “Exposing Planned Parenthood’s Cover-up of Child Sex Trafficking,” Live Action, accessed July 24, 2015, http://liveaction.org/traffick
[13] “Planned Parenthood,” The Sunlight Foundation, Influence Explorer, accessed July 24, 2015,
[14] “Map Guide,” Protecting Black Life, accessed October 20, 2015, http://www.protectingblacklife.org/pp_targets/
[15] Susan A. Cohen, “Abortion and Women of Color: The Bigger Picture,” Guttmacher Policy Review 11, (Summer 2008): 3, accessed July 24, 2015, http://www.guttmacher.org/pubs/gpr/11/3/gpr110302.html
[16] The Planned Parenthood Racism Project, Live Action, accessed July 24, 2015, http://liveaction.org/theplanned-parenthood-racism-project/