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domingo, 19 de maio de 2019

REGRAS DA EXPRESSÃO - LAVELLE

REGRAS DA EXPRESSÃO – LOUIS LAVELLE


“Não se deve rejeitar nem desprezar a aparência, que é também a manifestação ou a expressão. Pois há solidariedade entre a aparência e o que ela mostra.

“Exige-se que a aparência seja fiel, o que já nos obriga a uma disciplina estrita; pois no esforço que fazemos para torná-la fiel está a própria ideia que buscamos circunscrever, ou seja, formar. E é admirável que aqui a palavra “definição” não pareça designar nada mais que a proposição pela qual eu formulo o sentido da ideia por meio de palavras, mas que é também o ato pelo qual tomo posse dele e o crio dentro de mim. 

“Uma ideia tem necessidade de se realizar no exterior para poder sê-lo no interior, porque do contrário ela vacila e se extingue. Ela precisa tomar forma para ser, e é esta forma que a faz ser. Há que dizer precisamente que ela é informe quando não consegue dar-se uma forma.

“Mas é preciso que essa fidelidade pela qual se busca obter a conformidade, ou seja, a identidade entre a ideia e a forma, ou seja, essa fidelidade pela qual se busca dar um corpo à ideia que também lhe dá a existência e a vida, é preciso que ela se transforme para nós em beleza. Pois a exigência da beleza na forma é o testemunho na própria ideia desse valor secreto que a torna digna ao mesmo tempo de ser pensada, querida e amada.”

***

Orwell, em seu romance 1984, falava a respeito de só se poder realmente pensar sobre aquilo que se podia falar. Sua sociedade imaginária (muito semelhante a certas sociedades bem reais movidas por ideologias como o socialismo), controlava o pensamento de seus habitantes por meio do estrito controle da terminologia empregada e pela manipulação da história. Lavelle concordaria com George Orwell,, ao que tudo indica, pois reconhece que um pensamento sem forma permanece em grande parte como um potencial a ser despertado plenamente, como um prisioneiro no fundo da alegórica caverna de Platão, imerso em trevas olhando as sombras, embora apto a um dia sair ao ar livre e contemplar o sol.

E quem nunca passou pela sutil experiência de tentar explicar algo e terminar por saber ainda mais a respeito daquilo que explicou após terminar a exposição? Quem nunca aprendeu algo completamente novo ao enunciar em voz alta seus pensamentos a outrem? A forma expressiva, em harmonia com a ideia, forma um conjunto ainda mais rico na concretude de sua manifestação, embora abra mão do potencial prévio de expressão. Eis uma relação interessante entre a forma cristalizada e vazia e o conteúdo potencial informe e silencioso da ideia ainda não enunciada. Uma expressividade esteticamente bela e eficaz anuncia o conteúdo sem lhe tolher certo potencial de expansão e inovação.

***

“Não devemos buscar tornar-nos semelhantes a um espelho que achata as coisas e termina por nos cegar. É aquele que traz no espírito os maiores pensamentos que percebe o real com mais esplendor e relevo.”

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

LEITURAS DE 2018

Leituras de 2018


FILOSOFIA
1 - Filosofia Verde– Roger Scruton
2 – A República– Platão
3 – Cosmovisão: A História de um Conceito – David Naugle
4 – Filosofias da Afirmação e da Negação– Mário Ferreira dos Santos
5 – O Trabalho Intelectual– Jean Guitton
7 – Filosofia Concreta dos Valores – Mário Ferreira dos Santos
8 – Dao De Jing. O Livro do Tao – Lao Zi.
9 – Fools, Frauds and Firebrands. Thinkers of the New Left – Roger Scruton 
10 – As Leis– Platão
11 – A Arte de Viver– Epitecto
12 – Medical Philosophy. Conceptual Issues in Medicine – Mario Bunge
13 – Origem e Epílogo da Filosofia– José Ortega y Gasset
14 – Textos Básicos de Ética. De Platão a Foucault – Danilo Marcondes
15 – Fundamentals of Ethics – John Finnis
16 – As Armadilhas da Lingugem – Danilo Marcondes 

MEDICINA GERAL E CIÊNCIAS
1 - Manual Politicamente Incorreto da Ciência – Tom Bethell
2 – Sociologia da Medicina – Gilberto Freyre

BIOÉTICA E HUMANIDADES MÉDICAS
1 – Diretivas Antecipadas de Vontade – Rui Nunes
2 – A Short History of Ethics. A History of Moral Philosophy from the Homeric Age to the Twentieth Century – Alasdair MacIntyre 
3 – Contra o Aborto – Francisco Razzo
4 – Fundamentos da Logoterapia na Clínica Psiquiátrica e Psicoterapêutica – Roberto Rodrigues
5 – Por Que Ética É Mais Importante Que Religião. Dalai Lama e Franz Alt.
6 – Comentários ao Código de Ética Médica. Resolução CFM 1.931, de 17 de setembro de 2009 – Eduardo Dantas e Marcos Coltri
7 – Methods in Bioethics. The Way We Reason Now. – John D. Arras
8 – Arte Médica – Hélio Angotti Neto 
9 – Ética – Adolfo Sánchez Vázquez
10 – The Philosophy of Medicine Reborn: A Pellegrino Reader – Edmund D. Pellegrino
11 – Disbioética. Volume II: Novas Reflexões sobre os rumos de uma ética estranha. – Hélio Angotti Neto.
12 – Disbioética Volume III: O Extermínio do Amanhã – Hélio Angotti Neto 
13 – Para o Bem do Paciente. A Restauração da Beneficência nos Cuidados da Saúde – Edmund D. Pellegrino & David C. Thomasma.
14 – Bioética Global – Van Rensselaer Potter
15 – O que você precisa saber sobre o Aborto – George Mazza
                             
POLÍTICA E HISTÓRIA
1 - O Diabo na História: Comunismo, Fascismo e Algumas Lições do Século XX – Vladimir Tismaneanu
2 – O Tolo & seu Inimigo - Jeffrey Nyquist
3 – Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex
4 - Impressões da Idade Média – Ricardo da Costa
5 – Freud – Rousas John Rushdoony
6 – A questão da Culpa: A Alemanha e o nazismo – Karl Jaspers
7 – Os Histéricos no Poder – Olavo de Carvalho
8 – Churchill e a Ciência por trás do Discurso – Ricardo Sondermann
9 – A Ciência da Política: Uma Introdução – Adriano Gianturco
10 – Educação: Livre e Obrigatória – Murray N. Rothbard
11 – Do Partido das Sombras ao Governo Clandestino – David Horowitz e John Perazzo
12 – Guerra de Narrativas. A Crise Política e a Luta pelo Controle do Imaginário – Luciano Trigo.
13 – Direitos Máximos, Deveres Mínimos. O Festival de Privilégios que Assola o Brasil – Bruno Garschagen
14 – O Estado e a Revolução – Vladímir Ilitch Lênin
15 – Política para não ser Idiota – Mario Sergio Cortella & Renato Janine Ribeiro

TEOLOGIA
1 - A Sabedoria da Antiga Cosmologia – Wolfgang Smith
2 – O Nascimento do Rei: Um Livro sobre o Natal – Andrew Sandlin
3 – Cristianismo Público. Evangelho e Lei – Andrew Sandlin
4 – Em toda a extensão do Cosmos – Abraham Kuyper
5 – Cristianismo sem Cristo – Michael Horton
6 – A Presença Real e os Milagres Eucarísticos – Monsenhor de Ségur
7 – Bíblia – Novo Testamento: Os Quatro Evangelhos – Frederico Lourenço
8 – Movimento da Liberdade: os 500 anos da reforma – Michael Reeves
9 – Deus é contra os homossexuais? – Sam Alberry
10 – O Catecismo de Pierre Viret – Pierre Viret
11 – O quê e por quê? Uma introdução ao cristianismo – Douglas Jones
12 – A Desgraça do Ateísmo na Economia – P. Andrew Sandlin
13 – O Combate Central da Reforma. A Fé Confessante – Jean-Marc Berthoud
14 – Calvino, Genebra & a Propagação da Reforma na França do Século XVI – Jean-Marc Berthoud
15 – Guerra de Cosmovisões – Editor Gary Vaterlaus e vários autores.
16 – A Vida Segundo o Evangelho – Michael Horton
17 – A Filosofia Cristã da Alimentação – Peter Bringe
18 – A Arte de Profetizar – William Perkins
19 - Perspectivas Bíblicas sobre Negócios. Como a cosmovisão cristã molda nossos fundamentos econômicos. – Philip Clements et al.
20 – A Grande Batalha Escatológica – Leandro Lima
21 – Uma Religião sem Deus: Os Direitos Humanos e a Palavra de Deus – Jean-Marc Berthoud.
22 – Amnésia Cultural. Três ensaios sobre a teologia dos dois reinos – Brian Mattson
23 – Adoração Reformada. A Adoração Segundo as Escrituras. – Terry L. Johnson

LITERATURA
1 – A Hora da Estrela – Clarice Lispector
2 – Até que Tenhamos Rostos. A Releitura de um Mito – C. S. Lewis
3 – Uma Confissão – Liev Tolstói
4 – Notas da Xícara Maluca – N D Wilson
5 – Arte Poética – Horácio
6 – O que aprendi em Nárnia – Douglas Wilson
7 – A Descoberta do Outro – Gustavo Corção
8 – Com a Maturidade fica-se mais jovem – Herman Hesse
9 – Poética – Aristóteles 
10 – O Messias vem à Terra Média. Imagens do Tríplice Ofício de Cristo em O Senhor dos Anéis. – Philip Ryken
11 – A Literatura como Remédio – Dante Gallian
12 – Sobre a Estupidez – Robert Musil 

PSICOLOGIA, EDUCAÇÃO, LIDERANÇA E GESTÃO
1 – Estratégia. Harvard Business Essentials – Richard Luecke
2 – 12 Rules for Life – Jordan Peterson
3 – Inevitável. As 12 forças tecnológicas que mudarão nosso mundo – Kevin Kelly
4 – Gerenciando Mudança e Transição. Harvard Business Essentials – Mike Beer
5 – Treine o seu Cérebro para Provas – Augusto Cury
6 – A Neurobiologia do Aprendizado na Prática. Ana Paula Rabello Chaves
7 – Evasivas Admiráveis. Como a Psicologia Subverte a Moralidade – Theodore Dalrymple
8 – 20 Regras de Ouro para Educar Filhos e Alunos – Augusto Cury
9 – Formação em Medicina no Brasil: Cenários de prática, graduação, residência médica, especialização e revalidação de diplomas – Conselho Federal de Medicina.
10 – De Magistro– Santo Agostinho e São Tomás de Aquino
11 – A Educação da Vontade– Jules Payot
12 – Ética e Vergonha na Cara! – Mario Sergio Cortella e Clóvis de Barros Filho
13 – Ensino Híbrido. Personalização e Tecnologia na Educação – Lilian Bacich, Adolfo Tanzi Neto e Fernando de Mello Trevisani.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

A LITERATURA COMO REMÉDIO, de Dante Gallian

A LITERATURA COMO REMÉDIO
Os Clássicos e a Saúde da Alma

Entrei em contato com o Professor Dante Gallian em 2013, no Congresso Internacional de Humanidades Médicas realizado na Universidade Federal de São Paulo. O Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina acabara de começar, e lá eu apresentava meus primeiros resultados e minha fundamentação teórica, e aprendia um pouco da experiência de outros professores na nobre tentativa de humanização da saúde. Foi com alegria que recebi um exemplar de seu livro, que reconta sua trajetória e expõe seus ideais. Livro este que me foi presenteado por uma amiga em uma reunião justamente dedicada ao estudo em conjunto da Alta Cultura literária e da filosofia! Não poderia haver melhor presente.

O livro inicia com a reconstrução da história sobre como surgiu o Laboratório de Humanidades Médicas (LABHUM), e de como ideais se transformaram e se sistematizaram em pesquisas que, aos poucos, ganharam merecido reconhecimento internacional. O LABHUM, dedicado primariamente aos alunos de medicina da UNIFESP, gerou uma iniciativa denominada de Laboratório de Leitura (LabLei), que se estendeu para a comunidade e para o meio corporativo, e se ramificou, inclusive, em grupos de leitura domiciliar.

O uso humanístico da literatura para formar um ser humano integral é fundamentado no capítulo 2 do livro de Gallian: A Literatura como Remédio. O papel formativo da literatura é relembrado e enfatizado de forma ousada, ecoando uma antiga crítica ao tecnicismo cientificista e ao reducionismo da educação.

Curiosamente, entretanto, aquilo que hoje é visto como algo de importância relativa e complementar (espécie de verniz cultural ou erudição) foi, em todas as culturas humanas, das mais primitivas às mais sofisticadas, o elemento estruturador por excelência.[1]

As narrativas, componente do discurso poético tão bem descrito por Olavo de Carvalho em sua obra Aristóteles em Nova Perspectiva,[2]nos fornecem o “efeito pedagógico do exemplo”, conforme Jaeger,[3]e encarnam, muitas vezes, os mitos fundadores de toda uma civilização.[4]

Coerentemente com esta função de determinação da identidade e do ethosda comunidade, as narrativas desempenhavam também um papel essencial no processo de formação de seus indivíduos.[5]

Nesse contexto formativo, disponibilizar a leitura dos clássicos realmente assume um papel estruturador e terapêutico em uma sociedade amontoada de indivíduos cada vez mais solitários e culturalmente alienados, embora cada vez mais espremidos em grandes centros urbanos. As narrativas permitem a compreensão do próximo e a expressividade, promovendo o fenômeno de catarse, pois “desde os tempos homéricos, que ‘a arte tem um poder ilimitado de conversão espiritual’; um extraordinário poder humanizador”.[6]

Para isso, Gallian ressalta que o que se espera não é a leitura ressequida e sistematizada dos que se dizem críticos literários, mas uma leitura aberta, disposta a embarcar na viagem para a qual nos chama o autor de cada clássico, uma leitura pautada pelo que Samuel Taylor Coleridge chamava de Suspension of Disbelief.

No capítulo III, Gallian explica em detalhes o funcionamento do LabLei, incluindo o Itinerário de Discussão – que visita a obra escolhida em etapas – e uma síntese ao final de um ciclo denominada Histórias de Convivência, na qual o participante poderá realizar o “balanço, a síntese de toda a experiência laboratorial vivenciada”.[7]

Com excertos oferecidos pelos participantes, Gallian oferece ao leitor os resultados que podem ser esperados por aqueles que mergulham na leitura em grupo dos clássicos no capítulo final: (1) a experiência da leitura torna-se prazerosa – é despertada – e sofre importante potencialização e, com isso, aumenta-se o poder de compreensão do leitor; (2) o horizonte cultural e intelectual é amplificado, fomentando o desenvolvimento de habilidades; (3) questões essenciais da existência humana são confrontadas, o que gera repercussões na formação pessoal e na vivência ética em sociedade; (4) a humanização de si e a consequente abertura empática para o próximo; (5) e um efeito catártico e terapêutico.

Dante Gallian está de parabéns, pois compreendeu que a literatura tem seu valor para todos. Seu empreendimento cultural, iniciado em uma tradicionalíssima escola de medicina, encontra-se entre aquelas preciosas iniciativas que compreenderam que “em todas as profissões, um conhecimento da literatura geral é de grande importância para um amplo intercâmbio com a humanidade.”[8]

Hélio Angotti Neto

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 Hélio Angotti Neto é médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo com Residência Médica em Oftalmologia e Doutorado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atua como Professor e Coordenador do Curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo. É Presidente do Capítulo de História da Medicina da Sociedade Brasileira de Clínica Médica (Triênio 2017-2020), membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e Delegado do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo em Colatina (2018-2023). Foi Global Scholar do Center for Bioethics and Human Dignityda Trinity International Universityem 2016 (Illinois, USA) e é Diretor Editorial da Mirabilia Medicinae, publicação em Humanidades Médicas sediada no Institut d’Estudis Medievalsda Universidad Autónoma de Barcelona. Publicou os livros: A Morte da Medicina; A Tradição da Medicina; Disbioética Volume 1: Reflexões acerca de uma estranha ética; Disbioética Volume 2: Novas Reflexões Sobre uma Ética Estranha; Disbioética Volume 3: O Extermínio do Amanhã; Arte Médica: De Hipócrates a Cristo; além de diversos capítulos de livros e artigos em Oftalmologia, Bioética, Política e Humanidades Médicas. Criador e Coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina. É Presbítero da 3ª Igreja Presbiteriana de Colatina. Casado com Joana e pai de Arthur, Heitor e André.


[1]GALLIAN, Dante. A Literatura como Remédio. Os Clássicos e a Saúde da Alma. São Paulo, SP: Martin Claret, 2017, p. 59-60.
[2]CARVALHO, Olavo de. Aristóteles em Nova Perspectiva. Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Campinas, SP: Vide Editorial, 2014.
[3]GALLIAN, op. cit., p. 63.
[4]PETERSON, Jordan. Maps of Meaning. The Architecture of Belief. New York & London: Routledge, 1999.
[5]GALLIAN, op. cit., p. 61.
[6]Ibid., p. 64.
[7]Ibid., p. 134.
[8]YALE, Universidade de. A Educação Superior e o Resgate Intelectual. O Relatório de Yale de 1828. Campinas, SP: Vide Editorial, 2016.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

JEAN GUITTON - CITAÇÕES

O TRABALHO INTELECTUAL

Jean Guitton


"Escolhe para ti, como teu livro de cabeceira, o que foi escrito pelo teu adversário mais incisivo, como o foi Montaigne para Pascal, Sêneca para Montaigne. Bom é conservar perto de nós os seres insolentes que fazem despertar as partes fracas de nosso eu e que nos obrigam a procurar argumentos, alguém que vê preto onde nós vemos branco, para que assim avalie-se melhor o que se sabe ou se corrijam as nossas incertezas."

"Precisamos ler os romances para conhecermos o sentido de nossa vida e da vida dos que nos rodeiam, e que o embotamento do quotidiano nos esconde; precisamos lê-los para penetrar em meios sociais diferentes do nosso e para neles encontrarmos, para além da diferença dos costumes, a semelhança da natureza humana; para estudarmos, como se fosse num laboratório, os problemas fundamentais, que são os do pecado, do amor e do destino, e isso de forma concreta e sem as transposições da moral; enfim, para que enriqueçamos a nossa vida com a substância e a magia de outras existências."

Jean Guitton ― de "O Trabalho Intelectual: Conselhos para os que estudam e para os que escrevem"


terça-feira, 3 de outubro de 2017

RESENHA: BASES DA DIREITA E DA ESQUERDA

RESENHA: BASES DA DIREITA E DA ESQUERDA

O GRANDE DEBATE: Edmund Burke, Thomas Paine e o Nascimento da Esquerda e da Direita

Yuval Levin


Em seu livro “O Grande Debate: Edmund Burke, Thomas Paine e o Nascimento da Esquerda e da Direita”, recentemente traduzido para o português, Yuval Levin busca um elemento essencial do pensamento político contemporâneo, remexendo na história de um acalorado debate entre dois grandes políticos e pensadores: Burke e Paine.

Burke, um dos precursores do que hoje se denomina pensamento de direita, defendia a história de erros e acertos do passado contra o impulso revolucionário e destrutivo do presente. Posicionava-se ao lado de uma política de prudência, como Russel Kirk posteriormente a denominou, observando na história uma prescrição de lições contínuas e deveres necessários para a manutenção de uma sociedade adequada.

Paine, por outro lado, defendia a aplicação de princípios atemporais da razão à sociedade, buscando um regresso aos elementos que promoveriam a existência de um povo mais igualitário e justo, mesmo que ao custo da destruição do atual estado de coisas, evitando a inércia e o reacionarismo, para moldar uma nova sociedade capaz de encarnar melhor os ideais de justiça.

Embora ambos concordassem com os intuitos da Revolução Americana, de independência, o ponto de discórdia se deu na Revolução Francesa. Paine viu uma fantástica oportunidade para aplicar os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade, poderosas abstrações que poderiam reformular uma sociedade inteira e acabar com um estado corrompido prévio. Burke via com desgosto e preocupação essa reformulação racionalista do mundo, alertando contra o ato de desprezar as lições prudenciais do passado. Temia, o derramamento de sangue, que de fato ocorreu, parindo a modernidade.


Segundo Paine, “Temos o poder de reiniciar o mundo” e “ver o governo começar como se vivêssemos no início dos tempos”. Burke afirmava que um retorno ao início sem o devido cuidado seria um retorno ao barbarismo. A visão conservadora da natureza humana era muito pessimista – ou realista, conforme a origem de quem falava – para acreditar nesse paraíso primitivo defendido por Paine e outros pensadores iluministas como Rousseau.

Alinhado ao atual pensamento de viés liberal e socialista predominante, Paine afirmava que “Meu país é o mundo e minha religião é fazer o bem.” Já Burke prenunciava o conservadorismo atual defendendo uma posição mais local e menos universal, embora diversa, assim como Roger Scruton prescreve. “Para que amemos nosso país, ele deve ser digno de amor”, e “Nosso país não é meramente uma localidade. Ele consiste, em grande medida, na antiga ordem em que nascemos.” Concordem com Burke ou não, o Brasil tiraria preciosas lições para o sentimento geográfico e desmemoriado que temos de patriotismo.

Paine, otimista com a natureza humana, afirmava ao contrário de Hobbes que “O homem só é inimigo do homem por meio de um falso sistema de governo”. Paine declarava que “A humanidade teve muito pouco propósito se, neste período do mundo, precisa voltar 2 ou 3 mil anos em busca de lições e exemplos.” Com base em um novo entendimento da natureza e dos princípios da justiça e da sociedade, o mundo veria um renascimento. Ao estilo da new Left revolucionária de hoje, Paine revela dificuldade em distinguir entre destruição e construção durante a revolução.

Burke comentaria, escandalizado pelos frutos do pensamento racionalista aplicado à sociedade, que “Nunca antes um conjunto de homens literários se converteu em uma gangue de ladrões e assassinos; nunca antes um antro de vilões e bandidos assumiu o garbo e o tom de uma academia de filósofos”.

A visão de Paine era “assertiva, confiante, racionalista, tecnocrática e progressista”, defendendo que por meio do uso de sua razão, o homem poderia remodelar o mundo em busca de justiça. Um anseio muito contemporâneo presente entre socialistas e transumanistas de forma geral.

A visão de Burke, por outro lado, se mostrava “grata, protetora, cautelosa, moralista, gradualista e reformista”, compreendendo que o mundo só pode ser melhorado caso compreendamos nossas limitações e construamos sobre as fundações previamente estabelecidas.
Em suas conclusões, Levin resume:

“O objetivo utópico fundamental no âmago do pensamento de Paine – o objetivo de liberar o indivíduo das obrigações impostas a ele por seu tempo, seu lugar e suas relações com os outros – permanece essencial para a esquerda americana.” “Com o tempo, o objetivo utópico ganhou preferência, e uma visão do Estado como provedor direto das necessidades básicas e amplamente livre de restrições do liberalismo iluminista de Paine surgiu para defende-lo.”
A esquerda atual, segundo Levin, exibe coletivismo material ao lado de individualismo moral. Já o conservadorismo exibiria um certo coletivismo moral, no respeito às tradições e à história, ao lado do individualismo material.

Levin afirma que a esquerda atual começa a se desviar para a fria lógica do utilitarismo, e que faria bem em relembrar dos avisos de Thomas Paine em relação aos limites do podere e do papel do governo. Já a direita, tem se mostrado aberta demais ao “canto de sereia” do hiperindividualismo material e da falta de uma teorização adequada, podendo aproveitar o foco  burkeano no caráter social do homem.

Num país como o Brasil, no qual multidões usam palavras como porretes sem ao menos conhecer o real significado daquilo que buscam expressar, faz bem ler Yuval Levin, e compreender que Direita e Esquerda são polos de como nos relacionamos com nossos semelhantes, do passado, do presente e do futuro. Como lembra muito bem Edmund Burke, não respeitaremos os nossos descendentes se não respeitarmos nossos antepassados, mas, no ideal de Paine, não podemos desmerecer a urgência do presente.

Hélio Angotti Neto.
03 de outubro de 2017, Colatina – ES.


RESENHA: RAÍZES DA CULTURA OCIDENTAL

RESENHA: RAÍZES DA CULTURA OCIDENTAL

Herman Dooyeweerd



Em seu livro, Herman Dooyeweerd distingue as quatro fundações de nossa civilização, declarando-as como incompatíveis entre si. Afirma que tais fundações são pontos fundamentais de partida sobre o qual se apoiam todas as visões de mundo que caracterizam nossos tempos.

A primeira dessas fundações é a pagã, grega e romana. Baseada no dualismo entre o elemento vital e natural e o elemento cultural e histórico, gerou uma visão de matéria e forma que foi mesclada à fé cristã pelo catolicismo romano. Segundo Dooyeweerd, essa síntese católica comprometeu a visão original de Cristo de integralidade da Criação, sua Queda e sua Redenção.

A segunda fundação é justamente o cristianismo, baseado não numa abstração ou numa divisão entre forma e matéria, mas na concretude do ser humano centrado em seu coração ou alma, dentro de um cosmos descrito em termos de Criação, Queda e Redenção, afetando todos os aspectos existenciais ligados ao homem.

A terceira fundação é a tentativa de síntese entre as duas anteriores, movida pela Igreja Católica Apostólica Romana. A quarta é o secularismo, que absolutiza um dos polos da fundação pagã.

Um conceito importante para compreender o pensamento de Dooyeweerd é, sem dúvida, o de soberania das esferas. Para compreender a criação de Deus, o homem não pode absolutizar um de seus aspectos ou esferas. Não se pode compreender a realidade somente pelo seu viés histórico ou lógico. Embora cada um desses aspectos possua uma série de leis internas e uma soberania própria, todas as perspectivas da realidade manifestam-se de forma concreta e interligada. Aquele que deseja compreender melhor a criação, deve se esforçar por adquirir uma ampla visão de todas as esferas e de suas ligações analógicas (que Dooyeweerd chama de antecipações e retrocipações).

Absolutizar uma das esferas, como a econômica (a economia dita os rumos da humanidade, ao gosto dos marxistas), por exemplo, ou a sentimental (tudo é sentimento e o ser humano age por prazer – hedonismo), é um tipo de idolatria que diminui a inteligência humana e sua capacidade de interagir como mundo de forma eficaz. Um nome mais conhecido de tal ato de empobrecimento intelectual é reducionismo.

Diversos autores reconhecem hoje o problema desse reducionismo e os riscos de se arrancar o ser humano do contato com a transcendência complexa e concreta. Um dos autores brasileiros que repete a crítica da absolutização de esferas da realidade, como o tempo e a matéria (o historicismo e o positivismo), é Olavo de Carvalho em sua obra magistral “O Jardim das Aflições”.

Embora seja lembrado por suas críticas ao protestantismo ao falar em ambientes virtuais públicos, Olavo reconhece em suas aulas de filosofia dedicadas a seus alunos a importância de Herman Dooyeweerd e Abraham Kuyper, mesmo ao discordar em alguns pontos como, por exemplo, a crítica que faz a Dooyeweerd em relação à capacidade da absorção dialética empreendida pela Igreja Católica ao lidar com a cultura pagã.

Para Dooyeweerd, há um antagonismo (chamado de antinomia) essencial entre as visões de mundo cristã, secular e pagã, e qualquer sincretismo pode minar irremediavelmente a potência da cosmovisão cristã, distorcendo a forma pela qual enxergamos a realidade. Olavo de Carvalho, por outro lado, entende a visão cristã como superior a todas as outras e capaz de absorvê-las e enriquecer-se dialeticamente, ao invés de degenerar-se. Mesmo em discordância em relação a alguns aspectos, Olavo de Carvalho deixa claro em suas aulas no Curso Online de Filosofia que estudantes sérios deverão passar por Kuyper e Dooyeweerd.

No contexto da soberania das esferas, uma esfera inferior da realidade é considerada aberta quando permite a progressão para a próxima. Um exemplo seria a abertura da esfera relacionada às relações sociais, direcionada para a formação econômica de uma sociedade, a esfera imediatamente superior. Quando uma dessas esferas inferiores se fecha, torna-se uma fonte de reducionismo da qual o homem dependerá para interpretar e viver a realidade. Uma compreensão introdutória das esferas pode ser absorvida com a leitura da obra de Kalsbeek - Contornos da Filosofia Cristã -, uma excelente introdução à filosofia de Herman Dooyeweerd.

A esfera pística, relacionada à fé, é considerada por Dooyeweerd como a mais alta esfera. É justamente a fé que se encontra no limiar entre o temporal e o atemporal, entre a imanência e a transcendência. A depender da fé verdadeira, a concepção de mundo será aberta ou fechada à transcendência.

No capítulo Fé e Cultura, Dooyeweerd demonstra como a fé se utiliza de todas as esferas anteriores e como as transcende, exemplificando sua teoria filosófica.

Um dos pontos de sua crítica à formulação católica romana da fé é direcionada ao pensamento escolástico quando este identifica a fé com

a crença no conteúdo doutrinário católico-romano, alegando que a fé era o dom sobrenatural da graça ao intelecto, por meio do qual o intelecto aceitava as verdades supranaturais da salvação. Assim, a função da fé se tornou extensão sobrenatural da função lógica encontrada na natureza humana. A fé consistia numa aceitação puramente intelectual, mas por meio de uma luz superior que transcendia os limites da razão natural. A compreensão da natureza única da função da fé dentro do aspecto limite da realidade temporal havia desaparecido completamente dessa concepção escolástica.

Embora haja vertentes mais místicas de aproximação da fé no catolicismo romano de forma geral, assim como o há no meio protestante e, especialmente, no meio ortodoxo, a Ênfase escolástica realmente identifica a fé, ou procura abordá-la, dentro da concepção discursiva lógico-racional.

Os católicos romanos costumam culpar ao protestantismo pela secularização de nossa civilização alegando a quebra do poder, da autoridade e da união da Igreja. Dooyeweerd enxergaria o poder, como aos poucos se manifestou na história, e sua concentração cultural e religiosa dentro da instituição eclesiástica por meio da autoridade e do discurso lógico, como um perigoso precedente de reducionismo da esfera pística e precursor do secularismo exacerbado de nossos dias.

Absorvendo as duas críticas, tanto a protestante quanto a católica romana, é possível distinguir colaborações ou participações de ambos os lados na derrocada da cristandade e na ascensão do secularismo. O protestantismo quebrou a autoridade imanente deixando um vácuo na esfera do poder por causa da desunião entre os membros da Igreja. O catolicismo romano reduziu a fé a elementos discursivos racionais e rompeu a soberania das esferas fechando a esfera superior da fé a elementos inferiores institucionalizados. São dois polos de ação que poderiam ser descritos como exageros de ambas as partes, ambos potencialmente complicados e repletos de possíveis ganhos e falhas.

Assim como fazem muitos críticos do protestantismo, Dooyeweerd também traça um dos nexos causais responsáveis pela secularização à obra de Guilherme de Ockham, que separou a natureza da fé cristã ou graça.  Ockham influenciou sobremaneira Lutero, que renegou a natureza e, por meio dela, a Lei, para enfatizar a graça sobrenatural. Se a Igreja Católica Romana negava a divisão entre natureza e graça, considerando aquela como uma via de acesso inferior a esta, Lutero renega completamente um dos lados dessa visão dualista de mundo, embora ainda se mantivesse em seu interior ao enunciar a existência dualista da realidade. A influência mediada por Lutero ainda se faz sentir, de acordo com Dooyeweerd, em vários teólogos modernos, como Karl Barth.

Na vertente secularista, a natureza se separa completamente da graça e, cada vez mais, adquire autonomia e absolutização na visão de mundo. O indivíduo é elevado à estatura de princípio da sociedade por uns e, por outros, a matéria quantificável pela ciência o faz, criando vertentes individualistas e liberais ou positivistas. Por outro lado, a ênfase em elementos formais e não materiais pode agir no ambiente secular por meio do historicismo, tão em voga nos estudos históricos contemporâneos.

A evolução do pensamento destituído do aspecto transcendente progride, posteriormente ao racionalismo liberal e ao positivismo, para o que se denomina romantismo, exaltando o aspecto comunitário, geográfico e racial ao invés do indivíduo. Compreendemos as consequências dessa guinada para a exaltação do comunitarismo, do sangue e da terra ao verificarmos os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial.

Foi justamente essa visão que organiza e classifica seres humanos em raças, classes ou grupos julgando a realidade por meio de generalizações abstratas e características pretensamente representativas, descrita por Max Weber de Tipo-Ideal, que fundamenta as atuais ciências sociais.

Herman Dooyeweerd aprofunda conceitos importantes para a compreensão de sua teoria da soberania das esferas e de como a visão cristã antagoniza as visões pagãs e seculares. Busca os pressupostos metafísicos que qualificam a visão reformada frente à busca pela síntese executada pela Igreja Católica Romana e descreve desenvolvimentos históricos e acadêmicos que podem nos ajudar a compreender a ascensão do secularismo e como o mundo das idéias contribuiu para o fenômeno antirreligioso que hoje se nota.


O livro Raízes da Cultura Ocidental é uma leitura interessante para compreender um pouco mais sobre um dos momentos que marcou mais profundamente nossa história: a Reforma Protestante. É óbvio que Católicos Romanos discordarão das observações de Dooyeweerd, assim como protestantes reformados provavelmente discordarão da síntese católica entre a visão pagã de mundo e a visão cristã, mas vejo a leitura dessa pequena reunião de artigos como um aporte necessário para enriquecer a discussão.

Hélio Angotti Neto
03 de outubro de 2017, Colatina - ES

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

RESENHA: A CORRUPÇÃO DA INTELIGÊNCIA, DE FLÁVIO GORDON

RESENHA: A CORRUPÇÃO DA INTELIGÊNCIA

Em seu livro, Flávio Gordon revela como a prostituição do que se convenciona chamar de intelectualidade frente aos anseios políticos e hegemônicos causou a corrupção da inteligência brasileira.

O livro se insere naquela categoria típica de obra descritiva das sociedades que acabam de despertar para a filosofia ao perceberem a tragédia final que se avoluma sobre um povo: a crítica cultural.

Seguindo os passos da grande influência geradora da obra – o filósofo Olavo de Carvalho -, Flávio Gordon descreve de forma irônica e, ao mesmo tempo, erudita e aberta, o estado degenerado em que se encontra a inteligência brasileira, graças aos intelectuais.

O livro é escrito com uma invejável e ampla visão dos acontecimentos recentes da história de nosso país, e lança mão de numerosas citações diretamente colhidas dos fatos de conhecimento público, aparentemente desconexos, porém, claramente interligados por uma mente capaz de estabelecer os nexos causais adequados, como o faz o autor.

O uso dessas citações, “cruéis fantasias” concretamente reais, nos mostra o percurso dessa grande derrocada de nossa capacidade de enxergar, interpretar e agir na realidade de forma adequada. A inteligência do povo brasileiro, e de muitos estrangeiros, foi progressivamente destruída, deturpada, cegada e redirecionada pelos agentes políticos travestidos de professores e condutores da mente alheia.

O povo brasileiro aprendeu a amar as banalidades e a elevar o indigno, menosprezando e profanando o que lhe resta de bom, belo e justo. Essa degradação do que é nobre, para abrir espaço para a ascensão do que é medíocre e suscetível à manipulação daqueles que são imorais, já fora muito bem descrita por José Ortega y Gasset em seu clássico “A Rebelião das Massas” e por José Ingenieros em seu “O Homem Medíocre”, uma leitura estranhamente familiar para qualquer brasileiro que tenha sido testemunha dos desgovernos petistas nas últimas duas décadas.

Descreverei alguns dos temas abordados em cada capítulo do livro, alertando desde já ao leitor que este é um resumo extremamente incompleto e incapaz de sintetizar a riqueza de detalhes e referências do autor, e que não substitui de forma alguma a leitura integral do original. Aliás, “A Corrupção da Inteligência” é um livro essencial para a compreensão de nossos tempos e de nosso Brasil. É um registro histórico que, se sobrevivermos por mais algumas gerações, revelará aos nossos descendentes toda a miséria e degradação moral e intelectual vivida por nossas tristes gerações, habitantes de nosso triste trópico que já foi conhecido por ser uma dos mais belos, felizes e promissores lugares do mundo para se viver.

No capítulo 1, “Mentalidades afins”, Gordon contrasta a moralidade das elites com a do povo e contextualiza a formação da famigerada opinião pública, consenso do seleto grupo pervertido que compõe uma enorme parcela de nossa elite econômica, política e, por que não deixar logo bem claro, intelectual.

No capítulo 2, “A longa marcha sobre as instituições”, o autor mostra o aspecto quasi-religioso que as ideologias de massa assumiram, explicando como pessoas, aparentemente dotadas de inteligência, podem se submeter a projetos desastrosos e cruéis impostos por líderes ridículos. O papel de Antônio Gramsci fica bem claro, assim como sua influência na elite da esquerda brasileira, nos dois capítulos seguintes, “O mal-estar dos intelectuais” e “Gramsci no Brasil”.

O capítulo 5, “Dom Quixote e Sancho Pança”, trata da manipulação da linguagem e das percepções alheias pela classe falante e pela mídia. O uso indiscriminado de baixezas erísticas é denunciado, lembrando ao leitor o carnaval de rótulos odiosos e delírios de interpretações que rondam o debate político e cultural no Brasil, se é que podemos denominá-lo debate. Está mais para altercação.

O capítulo 6, “Imaginação moral, imaginação idílica, imaginação diabólica”, encerra a primeira parte do livro ao estilo temático dos capítulos penúltimos de “O Jardim das Aflições”. Amparado por grandes precedentes como Lionel Trilling, Karl Kraus, Hugo von Hofmannsthal, Marcel Proust, Russel Kirk, Oswaldo de Meira Penna, Edmund Burke, Eugen Rosenstock-Huessy, Gilbert K. Chesterton, T. S. Eliot, Northrop Frye, Leopold von Ranke, Roger Scruton, os clássicos da literatura mundial e os Evangelhos, Flávio Gordon tece sua crítica ao espírito solapado pela corrupção, destituído dos altos voos da transcendência, elemento expresso de forma imediata diante do indivíduo ou, no aspecto coletivo, expresso pelo mais precioso e rico legado da Alta Cultura. Neste capítulo, o autor já deixa bem claro que estamos diante de uma hecatombe de proporções civilizacionais, que nos deformou e nos isolou da rica realidade cultural que nos gerou.

Após estabelecer as bases literárias, antropológicas, históricas e filosóficas de sua crítica, Flávio Gordon inicia a segunda parte de seu livro, dedicada a analisar especialmente a situação brasileira, encaixando-a no panorama internacional. Embora temas nacionais tenham sido tocados na primeira parte, o estilo anterior era o de expansão progressiva. Na segunda parte, vemos uma contração que se aproxima cada vez mais do presente, a partir da fatídica metade do século XX.

No capítulo primeiro da segunda parte, “Uma história muito mal contada”, Gordon fornece detalhes de como a intelectualidade da vertente esquerda do espectro ideológico dedicou-se a beber da sedutora taça do poder e a manter sua hegemonia, aleijando e alijando intelectuais discordantes e, inevitavelmente, impossibilitando aquela que é uma das mais potentes máquinas de criar inteligências: a velha dialética aristotélica, baseada na síntese das teses e antíteses. Os intelectuais foram os maiores agentes e as maiores vítimas de sua estratégia.

O capítulo 2, “Comunismo e consciência: o momento Kronstadt”, aborda o fenômeno de devoção cega que solapa tantas mentes teoricamente dotadas de tudo o que seria necessário para caracterizar uma pessoa inteligente. Gordon também trata dos casos em que alguns intelectuais perfuraram o cerco à consciência e conseguiram se desvencilhar da escravidão ideológica, enxergando todo o mal e degeneração ao qual estavam presos.

O capítulo 3, “A doutrina Golbery e a hegemonia cultural da esquerda”, aborda a política de descompressão do General Golbery e a crescente influência que os destruidores culturais da Escola de Frankfurt e da New Left, de forma geral, tiveram na sociedade brasileira, principalmente nos meios universitários e na mídia.

O capítulo 4, “Aplausos com uma só mão”, mostra as discretas – e secretas – ligações de nossos intelectuais com agentes ideológicos estrangeiros. Um assunto pouquíssimo lembrado – ou ocultado? – em nossa academia. Mostra também como a experiência de um seleto grupo de elite com a ditadura militar foi fixado no imaginário cultural de nosso país e, até hoje, foi convertido numa monótona cacofonia instrumentalizada para a guerra política de ocupação e controle de espaços.

O livro encerra com uma demonstração narrativa, concreta e vívida, dos fatos que ilustram o estado de calamidade cultural em que nos encontramos.

Lembrando de grotescas manifestações de nossas universidades, Gordon descreve situações como as do homem que arrastava tijolos com o pênis, a mulher cachorro com focinheira que urina no poste, o jovem eletrocutado confundido com artista performático, o culto satânico sadomasoquista lésbico chamado de arte  e bancado com dinheiro público, o professor universitário que estimula o fuzilamento daqueles que discordam, o enaltecimento sistemático da bandidagem, o totalitarismo violento e “fascistóide” dos que pregam a liberdade e a “tolerância”, a manifestação visceral de certos protestos na forma de “vomitaços” e o uso do orifício anal como ápice da revolução cultural e política mundial.

Flávio Gordon vislumbra, a título de comparação, o que foi descrito pelo Cardeal John Newman como um clássico Scholar: um sujeito dotado de verdadeira cultura intelectual, cujos atributos são a liberdade, a equidade, a calma, a moderação e a sabedoria, ao invés de simples possuidores de saberes específicos. Diante do desolador cenário atual, lamenta a ausência dessa figura hoje quase mítica em nosso país e constata que a universidade brasileira está repleta de “gente furiosa contra os livros que já não sabe ler”, como diria Carpeaux.

Flávio Gordon encerra o livro constatando que “os pais, que outrora lamentavam perder os filhos para as drogas e as más companhias, agora os perdem para a universidade. ” Não é à toa que este último capítulo abre com a inscrição do pórtico do inferno dantesco: “Abandonai toda a esperança, ó vós que entrai”.

Hélio Angotti Neto

22 de setembro de 2017, Colatina – ES.