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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

NA CONTRAMÃO DA BIOÉTICA CONTEMPORÂNEA


Em um daqueles grupos de aplicativos de smartphone sobre Cuidados Paliativos com 580 membros, Luciana Dadalto, uma advogada estudiosa da bioética, lança a seguinte sentença sobre mim logo após um médico compartilhar um texto que eu escrevera há alguns meses sobre a normativa do Conselho Federal de Medicina que regulamenta o direito de recusa terapêutica do paciente e o de objeção de consciência do médico:
"Na contramão da bioética contemporânea. O Hélio é bioeticista hipocrático, que fundamenta todas as suas opiniões no paternalismo, além de ter um forte viés religioso."

Como ela referiu-se a mim em público, cabe uma breve exposição do que eu mesmo sei sobre minha pessoa e sobre minha obra no campo da bioética, aproveitando a pérola que foi essa concisa e concentrada sequência de pseudoargumentação erística que foi lançada.

Ponto 1 – Na contramão da bioética contemporânea
É preciso deixar bem claro, logo aqui no início, que não há “uma” bioética contemporânea. Há diversas linhagens, diversas metodologias e diversos entendimentos de cada linhagem e metodologia empregada. Há bioéticas secularistas e há bioéticas religiosas, só para se ter um exemplo.
Já tive a oportunidade de traçar raízes filosóficas de diversas linhagens contemporâneas da bioética em alguns de meus escritos. No caso das bioéticas de caráter cristão (há várias dentro desse grupo) há raízes que vão além do próprio Cristianismo e regridem aos tempos pitagóricos, segundo alguns historiadores como Ludwig Edelstein, que afirma ser justamente nos pitagóricos que os médicos hipocráticos, precursores dos médicos cristãos, foram fincar suas origens ideológicas.
No caso da bioética utilitarista, há raízes hedonistas de linhagem epicurista, raízes materialistas de origem em Demócrito e raízes evolucionistas de origem em Lucrécio, só para citar algumas fontes. Dessas fontes antiquíssimas também deriva o ideário que forneceu solo para o crescimento do Transumanismo, importante ramo da bioética que vê com otimismo a tecnologia e a capacidade de o ser humano transcender a si mesmo.
Há ligações por toda parte, raízes profundas que carreiam as mesmas ideias de sempre, travestidas de novas máscaras sob novas tecnologias, antigos anseios e crenças da humanidade que reemergem em diferentes momentos da história.
Eu não sei exatamente de qual bioética contemporânea Luciana Dadalto afirma que eu estou na contramão. O que posso afirmar é que estou contra elementos bioéticos que propalam a eutanásia, o suicídio assistido e o aborto, com certeza. Se essa é a essência do que Luciana afirma ser contemporâneo, podem dizer sim que estou na contramão. Ainda sou daqueles que considera ser papel de um executor ou torturador o de matar alguém, e não de um médico.
Agora, se bioética contemporânea for outra coisa, já fica difícil responder.
Aliás, eis um dos aspectos marcantes do hipocratismo na bioética: a defesa da vida humana. Sobre o tão mal falado paternalismo hipocrático, falo adiante.
Por fim, dizer que estou contra a bioética contemporânea equivaleria a lançar mão de um argumentum ad populum, no qual é considerado errado ou desacreditado quem avança contra o consenso ou a opinião “popular” do momento. Quantidade de apoiadores não é critério de verdade, de beleza, de justiça ou de utilidade, haja visto o que aconteceu com Sócrates e Cristo, a eleição de Hitler como Chanceler na Alemanha do século passado ou o apoio acadêmico às ideias assassinas do comunismo. Dizer que minha opinião está na contramão de seja lá o que for a “bioética contemporânea” é criar uma falsa oposição por meio de um pseudoargumento que nem ad populum pode chegar a ser, no fim das contas, já que a base de comparação do que seja popular está indefinida.

Ponto 2 – Bioeticista hipocrático
Se hipocrático remeter ao respeito pela vida humana e à dedicação em protegê-la, ficaria muito honrado em ser sim um médico hipocrático. Quanto ao termo bioeticista, depende de quem interpreta.
Explico. Sou médico com especialização em oftalmologia e sou Doutor em Ciências. Estudo Filosofia e Bioética há cerca de vinte anos. No sentido socrático, ouso sim afirmar que sou um filósofo. No sentido acadêmico, não sou filósofo e tampouco sou bioeticista.
Todavia, se bioeticista é quem age, medita e escreve sobre Humanidades Médicas e Bioética, poderiam dizer sim por aí que o sou. Minha reflexão deriva de duas décadas de convívio com médicos, pacientes e suas famílias. Vivo a relação médico-paciente e dela retiro as experiências concretas e reais que me ajudam a enraizar minha reflexão filosófica na realidade.
Se alguém desejasse perguntar a mim como gostaria de ser denominado, não hesitaria: sou um médico cristão e hipocrático. Eu vivo a ética médica a cada momento em que acolho um paciente e em que sou convidado a participar de uma nova vida.
O único problema na terminologia adotada para me rotular é justamente o grande espantalho hipocrático que criaram por aí. Do que Luciana acredita que hipocrático seja, não tenho ideia, mas do que vejo por aí na Academia noto uma quase que completa ignorância dos originais hipocráticos. Sobre as falsas acusações que pesam contra o hipocratismo na saúde já escrevi em diversos artigos e em diversos livros (série Disbioética, A Morte da Medicina, A Tradição da Medicina, Arte Médica e Bioética: Vida, Valor e Verdade) e recomendo ao leitor que, caso tenha interesse, procure lá para saber com detalhes o que penso.
Quase tudo o que li sobre Hipócrates no ambiente editorial da bioética foi escrito por pessoas que aparentemente nunca leram os principais textos hipocráticos em sua integralidade, ou que deixaram de fazer a contextualização adequada com outras obras do mesmo período ou com trechos da mesma obra. É uma forma de analfabetismo funcional que repete fórmulas falsas e desgastadas e repassa uma velha mentira adiante, criada em sua origem por alguém burro, preguiçoso ou de má-fé.
Portanto, quando alguém que se diz bioeticista fala algo de Hipócrates, recomendo muita cautela. Na dúvida, leia os originais e tire suas próprias conclusões. Eu li e posso dizer que a ética presente nos textos hipocráticos não possui um paternalismo forte e, pelo contrário, respeita aspectos éticos e morais ainda vigentes e ainda considerados excelentes.
Considerando o contexto no qual se usa a expressão “bioeticista hipocrático”, sugere-se a aplicação de um rótulo odioso, além do tradicional e injusto espantalho que ronda o nome de Hipócrates no meio acadêmico da bioética.

Ponto 3 – Fundamenta todas as suas opiniões no paternalismo
Sobre onde fundamento minhas opiniões, sugiro novamente o acesso a minha obra escrita. Deixo bem clara a minha fundamentação na visão que Edmund Pellegrino tem do Bem do Paciente e também utilizo aportes filosóficos diversos, além dos cristãos. Está tudo lá.
Neste ponto discordo do juízo emitido sobre minha pessoa. O paternalismo não é uma virtude, um valor ou um princípio no qual alguém possa basear sua conduta ética em saúde, é uma forma pragmática de classificar uma ação em relação à autonomia do paciente e em relação à capacidade decisória deste e de seu médico. Luciana faria bem em meditar sobre minha obra se quiser afirmar de forma tão grandiosa que eu fundamento todas as minhas opiniões no paternalismo. Se leu, receio não ter ela compreendido o que escrevi, e acho sinceramente que sou melhor juiz acerca de minhas próprias opiniões e seus fundamentos do que ela.
De forma análoga, dizer que fundamento todas as minhas opiniões no paternalismo é algo tão estúpido quanto alguém afirmar da Luciana que ela fundamenta todas as opiniões dela com base no lucro e no mercado das ações movidas contra médicos. Isso poderia ser classificado como uma forma extremamente deturpada de ampliação indevida, isto é, tomar o todo por uma pequena parte que, além de tudo, foi distorcida e mal utilizada. No fim, é um fenômeno que julga o todo concreto da realidade por meio de abstrações falsas ou incompletas, algo típico da burrice modernista que tanto critiquei em minha breve história da ética no livro Bioética: Vida, Valor e Verdade.

Ponto 4 – Ter forte viés religioso
Sim, tenho viés cristão. Outros terão um viés ateu, outros islâmico, budista, Hare Krishna ou agnóstico. Uns mais coerentes, outros menos. Da perspectiva filosófica, todos temos uma religião, algo que nos liga a um sentido, mesmo que tal sentido seja a afirmação de que o sentido mesmo não existe, como ocorre no niilismo. É impossível não subscrever uma cosmovisão, uma forma de religião que pauta nossa perspectiva de mundo, de compreensão da realidade.
A visão secularista utilitarista da bioética é tão religiosa neste sentido quanto a visão ortodoxa, a católica ou a de alguns dos ramos do protestantismo cristão.
A questão não é ter forte viés religioso ou não, a questão é ser coerente e admitir que todos possuem uma série de pressupostos implícitos. Grande parte do esforço dialético e lógico da reflexão filosófica moral é justamente escavar tais pressupostos e trazê-los à tona para a melhor compreensão do que se afirma.
Logo, tenho um viés religioso, como todos têm, mesmo que não o admitam.
A conduta que considero idiota no sentido técnico (pesquise a etimologia de idiotes e compreenda as suas implicações) é a de que se tem uma visão imparcial, isto é, não comprometida com uma visão de mundo específica, enquanto se julga a perspectiva alheia como um pobre e prejudicado recorte da realidade. Diante da realidade, todas as nossas visões são abstrações mais ou menos completas, mais ou menos verdadeiras.
Se Luciana afirmou que tenho viés religioso como constatação simples, ela está certíssima. Se houve tentativa de menosprezar minha perspectiva ao rotular minha posição como religiosa, desqualificando minha opinião no grupo de discussão, lamento muito por ela e pelo preconceito burro que tal uso da expressão replica.
Reafirmo que tenho sim um viés religioso, pois busco continuamente me religar ao sentido da realidade. Só gostaria que o viés fosse realmente forte, pois sou muito menos forte em termos de convicção religiosa do que gostaria de ser, e a caminhada adiante em busca de virtude ainda é longa, para não dizer infinita.
O possível uso do rótulo “religioso” para desqualificar minha opinião equivaleria ao manjadíssimo argumentum ad hominem, no qual se tenta destruir um argumento com base nas características pessoais de quem o lançou.
Luciana Dadalto fez uma proeza, nisto acredito que todos poderíamos concordar. Ela foi capaz de condensar vários estratagemas erísticos nas poucas linhas de um aplicativo de mensagens. Para quem quiser saber mais sobre erística, recomendo a obra de Schopenhauer: Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão, um verdadeiro manual da trapaça discursiva por meio da manipulação psicológica. Não afirmaria que tal proeza seja fruto, porém, do uso de uma inteligência prodigiosa, pois quase toda a Academia brasileira recorre a esses recursos maliciosos de forma quase automática.
Infelizmente, isso é um típico exemplo do que é expressiva parte da Academia brasileira: uma cacofonia de insultos cínicos e golpes maliciosos de linguagem ao invés de argumentação sólida e evidências reais. E, infelizmente, não estou nem um pouco surpreso com a referência dispensada à minha pessoa, tampouco esperava algo melhor do que isso.

30 de dezembro de 2019

sábado, 18 de fevereiro de 2017

COMO DEBATER COM QUEM LHE QUER MAL

COMO CONVERSAR COM QUEM LHE QUER MAL

 

Em poucos temas os artifícios erísticos – ou a trapaça intelectual - tornam-se tão comuns quanto no caso do abortamento e de sua legalização, uma pauta muito querida e fanaticamente perseguida pela esquerda radical. Justamente por isso, estudar os meios de argumentação e detecção de más intenções num debate torna-se algo obrigatório para qualquer um que deseja entrar na discussão desse tema.
Uma das grandes fontes para compreender a conflituosa situação no debate ligado ao tema é Ben Shapiro.
Ben Shapiro é temido por sua capacidade de se engajar no combate discursivo. Assistir a ele é quase garantia de ficar impressionado com a forma pela qual ele destrói um a um todos os argumentos de seus adversários. É uma versão jovem e menos experiente do que assistimos no Brasil quando o filósofo Olavo de Carvalho resolve destrinchar alguém por meio de um debate.
Se muitos temem o filósofo William Lane Craig por sua lógica implacável e sua capacidade de analisar e destruir falácias, Ben Shapiro, com sua velocidade em destruir o adversário, não fica para trás. A forma pela qual ele vira os artifícios erísticos contra seus oponentes mal-intencionados é algo que dá gosto de ver.
Considerando a qualidade deplorável do ambiente político e acadêmico no Brasil, aprender a identificar e se defender da trapaça intelectual é importantíssimo. A obra de Schopenhauer comentada pelo filósofo Olavo de Carvalho – Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão - já se tornou um clássico indispensável no tema, que deve ser apreciado em conjunto com outras obras fundamentais como A Nova Retórica de Chaim Perelman e Lógica Informal de Douglas Walton.
Aos referenciais básicos acima citados, pode-se acrescentar um livreto disponibilizado por Ben Shapiro (How to Debate Leftists and Destroy Them: 11 Rules for Winning the Argument), assim como seus inúmeros vídeos disponibilizados gratuitamente na Internet. São exemplos extremamente úteis - e divertidos - da arte de argumentar e da discussão combativa, lembrando que, aqui no Brasil, todos os espectros políticos usam e abusam de recursos indevidos na hora de pensar e discutir.
Destacarei alguns trechos que nos oferecem uma visão geral da pequena obra citada. Ben Shapiro demonstra que aquilo que acontece na esfera política não é bonito, tampouco é cordial. É batalha encarniçada e sangrenta, é vida ou morte. Não há espaço para amadorismos. Se ao assistir a Ben Shapiro rapidamente lançar argumentos, alguém julga que há somente um raciocínio rápido, engana-se. Há raciocínio rápido ao lado de muito preparo, muita estratégia. Conheça um pouco do combate das palavras:
Tudo o que importa é a vitória. Esta é a mensagem que parece ter sido perdida entre os conservadores, que estão constantemente centrados na virtude de sua mensagem, na honestidade intelectual de sua causa e na frustração de observar que ninguém está ligando para essas coisas. É porque conservadores não pensam em como vencer que eles não param de perder.
O problema de muitos conservadores e liberais à direita e ao centro é que simplesmente acreditam discutir com pessoas honestas, e perdem tempo achando que estão num debate intelectual ou moral quando na verdade estão em pleno campo de batalha. Muitos creem compartilhar dos mesmos princípios de seus debatedores, quando na verdade não existem princípios do outro lado e não se têm debatedores, mas sim, detratores e distratores.
Não é de se estranhar que a esquerda busca evitar o debate político a qualquer custo. Por que ligar? Membros da esquerda não estão interessados em debater sobre política. Eles não estão interessados em discutir o que é importante para o país. Estão interessados em debater a tua pessoa. Querem te castigar como o ser humano malvado que tu és justamente por discordar deles. É isso o que faz os esquerdistas serem esquerdistas: um imerecido senso de superioridade sobre o próximo. E se puderem instilar esse senso de superioridade moral em outras pessoas ao fazer de ti o bandido, eles o farão.
A rotulação odiosa, as acusações infundadas e as indignidades lançadas por radicais em discussões são tão ultrajantes que chegam a desconcertar qualquer pessoa bem-intencionada e um pouco ingênua que seja. Se o diálogo não é uma dialética saudável, e sim, uma agressiva luta de posições, não espere clemência ou honestidade, e não demonstre fraqueza.
As pessoas na esquerda são ensinadas desde criancinhas sobre como eles são melhores do que os conservadores – isso faz com que se sintam bem ao odiar conservadores. E esse ódio é justificável porque, afinal de contas, todos os conservadores são intolerantes.
O foco de atenção na discussão com alguém intelectualmente desonesto geralmente ocorre em acusações feitas à pessoa em si, e não à suas idéias. É o famoso argumentum ad hominem. Considerar-se monopolista das boas intenções e realizar a redução totalizante do adversário também condiz com importante elemento da mentalidade revolucionária que, em posse de uma santidade autoproclamada, julga o universo e crê ser capaz de reestruturar a realidade, numa verdadeira revolta gnóstica como tantos bons pensadores já acusaram.
Numa discussão sobre o aborto, não espere falar de fatos, espere ser chamado de autoritário, fascista, nazista, opressor, misógino, machista, direitista, conservador (não seria isto um elogio?) e outras coisas mais para as quais fomos treinados a sentir arrepios quando escutamos.
O senso de auto justificação moral dos estudantes universitários não deriva de suas conquistas – deriva da crença que tu és uma pessoa má. Tu és um racista e sexista; eles não são.
Com a falsa impressão da pureza dos próprios sentimentos, que tantas vezes desculpam as piores maldades, e com o desconhecimento na natureza humana, o “outro lado” torna-se merecedor de toda repreensão e artifício indevido. Não é de se espantar que existam tantos paredões, gulags, campos de concentração, guilhotinas e extermínios das formas mais excêntricas imagináveis nos regimes revolucionários.
Diante desse inimigo carente de autoconsciência e de caráter, como agir? Shapiro fornece algumas importantes regras.
Regra #1: Rumo à linha de fogo. Esta é uma regra que aprendi de meu mentor Andrew Breitbart. Ele era um tático muito sagaz que entendeu a luta como realmente é: compreendeu que política é guerra por outros meios, e que deves tratar a política como tal. Andrew costumava falar que deves abraçar a guerra, caminhar rumo à linha de fogo. Explicaria que serás alvejado por estilingues e flechas ultrajantes, não importa em que direção caminhes.
Não há calmaria. A paz não existe. Não importa o quão legal e educado sejas, eles virão atrás de ti.
Como Aristóteles já ensinou, não se pode debater com quem não compartilha dos mesmos pressupostos. Uma pessoa que deseja debater, frente àquele que deseja somente agredir e humilhar, estará fadada à derrota numa disputa que não iniciou. Frente a alguém que se coloca como hostil inimigo, qualquer demonstração de fraqueza ou condescendência atrairá somente agressão. As regras de um bom debate são rigorosíssimas e, verdade seja dita, são raríssimos aqueles capazes de segui-las no Brasil.
Antes de a conversa começar, saiba bem as intenções e o modus operandi do seu interlocutor.
Regra #2: Bate Primeiro. Não leves o primeiro golpe. Bate primeiro. Bate forte. Bata onde marcas ponto.
Isso requer pesquisa. Precisas conhecer teu oponente. Tens que saber o que ele dirá, quais são suas táticas favoritas e quais serão suas posições típicas. Precisas conhecer o oponente de dentro para fora.
Não subestime um oponente, não entre despreparado numa altercação. Essa regra não é nova, com certeza, pois já era claramente enunciada por Sun Tzu para o general que desejava vencer a guerra. O problema é que muitos não percebem quando os outros movem uma verdadeira guerra, e ficam atônitos diante da agressividade inesperada quando planejavam somente uma conversa honesta.
Regra #3: Enquadra teu oponente. (...) o guia de conduta inteiro da esquerda consiste num único truque: caracterizar a oposição.
Esse truque é extremamente utilizado no Brasil. A esquerda define a si mesma como protetora dos pobres, oprimidos e desvalidos – embora mantenha laços com as maiores fortunas do planeta Terra. Ao mesmo tempo, é a esquerda que define o que é a direita e quem deve ser chamado de direitista. O resultado: uma totalização maligna de qualquer oposição que empobrece o cenário cultural e político do Brasil, virando uns contra os outros. Você é contra o aborto? Você deve ser inimigo dos pobres e oprimidos então... o raciocínio envolvido é ridículo, mas convence os de pensamento mais frágil.
A resposta adequada à acusação de que bates na tua mulher não é explicar que não bates nela e, na verdade, és um ardoroso feminista. A resposta é mostrar que lançar falsas acusações sem evidências faz de teu oponente um lixo.
A esquerda não tem um manual de regras. Eles têm uma encenação. Uma encenação somente: És um mané. Eles têm somente uma ação: dizer que és malvado! Tira isso deles, e eles não terão mais nada.
Num debate, não se pode permitir que o lado oposto domine as definições dos termos e situações básicas do contexto. É partir da derrota. Desmascare a mentira de forma direta.
Regra #4: Enquadra o debate.
Eles são tolerantes, plurais, guerreiros pela justiça social; se te opões a eles, por contraste, és intolerante, xenófobo e favorável à injustiça social.
O trágico (ou morbidamente cômico) é que as mesmas pessoas que lançam essas acusações tantas vezes tomem parte em depredações, agressões físicas e violências verbais. São, de regra, incapazes de agir com o mínimo de tolerância que se deve esperar num ambiente civilizado. Veja o exemplo do que fizeram com o Professor Rodrigo Jungmann em 2016.[1]
É preciso remover a máscara e as falsas acusações e mostrar a realidade como ela é, definindo o contexto da discussão, enquadrando o debate.
Regra #5: Identifica as inconsistências nos argumentos da esquerda. Os argumentos da esquerda estão repletos de inconsistências.
Inconsistências internas que são inerentes à visão de mundo em geral da esquerda. Isso porque poucas pessoas na esquerda admitirão sua agenda verdadeira, que é bem extremista.
No caso do aborto, a esquerda diz que é a favor da escolha, mas ignora a falta de escolha do bebê.
Para se mostrar um santo e revelar como o oponente é diabólico, esquerdistas e demais mal-intencionados precisam recorrer a frequentes abstrações, recortes da realidade. A exposição da pobreza existencial de tais recortes falsamente moralistas é um passo necessário para qualquer conversa.
Regra #6: Força esquerdistas a responderem a questões. Esta é, na verdade, um corolário da Regra #4. Esquerdistas somente se sentem confortáveis quando te forçam a responder suas questões. Se eles têm que responder questões, começarão a coçar suas cabeças. As questões que eles gostam de perguntar são sobre teu caráter. As questões que eles não gostam de responder são todas.
Um recurso erístico já bem conhecido é lançar pergunta atrás de pergunta sem deixar tempo para que seu oponente responda adequadamente. A melhor e talvez única forma de responder a este tipo de agressão é parar em uma pergunta de cada vez, devolvendo outra pergunta e batendo o pé até que o oponente a responda. Quem cai no ardil de tentar responder muitas questões maliciosas acaba não respondendo nada e fazendo papel de bobo.
Já disseram que todos os sábios do mundo não são suficientes para responder a todos os questionamentos de um idiota. Isto é a mais pura verdade.
Regra #7: Não te distraias. Poderás notar que, enquanto argumentas com alguém da esquerda, ele começará a gritar sobre George W. Bush.
Esse recurso erístico é conhecido como Mutatio Controversiae. Quando a coisa começa a esquentar para o lado do sujeito, ele subitamente tenta mudar de assunto. A reação deve ser sempre a insistência no ponto que gerou a tentativa de mudar de assunto, pois ali estará uma fragilidade que amedrontou o oponente.
Regra #8: Não tens que defender as pessoas que estão do teu lado. Apenas porque alguém está do teu lado, não quer dizer que tens que defender tudo o que essa pessoa diz.
No Brasil, muitos discutem como se tudo fosse uma grande partida de futebol. Nenhum dos lados é perfeito. A direita costuma admitir isso, a esquerda dificilmente admite, e quando o faz, alerta que o “traidor” da causa é na verdade “de direita”.
Regra #9: Se não sabes de alguma coisa, admita!
Não vale a pena ficar rodeando um ponto no qual você não está capacitado. E será justamente aí que alguém mal-intencionado tentará cercá-lo. Se não souber de algo, bola para frente. E faça seu dever de casa: estude!

Regra #10: Deixa o outro lado obter vitórias sem sentido.
Qualquer um pode dizer algo certo de vez em quando. No Brasil, muitos esquerdistas criticam a mídia, dizendo que não se pode confiar no quarto poder, embora a mídia, de regra, somente faça bajulação da esquerda. Nisso a direita pode concordar com a esquerda: a falta de confiança que pode ser depositada na mídia. Não vale a pena brigar somente por brigar.
Regra #11: Linguagem Corporal importa.
Não se pode negligenciar o impacto de uma boa apresentação e de uma conduta tranquila.
Outras regras importantes incluiriam a platéia. Se você ousar debater num ambiente já preparado para sua destruição, nenhum argumento importará. As pessoas estarão ali somente para agredir.
Essas regras podem parecer agressivas, mas o fato é que a esquerda radical e abortista ganhou terreno com base na agressividade covarde e na destruição da reputação alheia, e que a destruição cultural que sofremos há décadas nos impossibilitou de participar de um debate qualificado.
Embora as regras sejam de um combativo conservador norte-americano, sua validade para o brasileiro é impressionante.





segunda-feira, 18 de julho de 2016

Tudo é bom motivo para matar um bebezinho...

Eugenia, Deficiência e Agenda Política Abortista Internacional


FELIPE DANA/ASSOCIATED PRESS
Luiza, who has her head measured at the Mestre Vitalino Hospital in Caruaru, Pernambuco state, Brazil, was born in October with a head just 11.4 inches in diameter, more than an inch below the range doctors define as healthy. Figura copiada de "The Huffington Post", Internet, http://www.huffingtonpost.com/entry/zika-virus-us-abortion-disability_us_56b2601be4b04f9b57d83192 

Na edição de maio de 2016 do American Journal of Bioethics, foi publicado um artigo para somar-se à hoste dos artigos abortistas à cata de justificativas para matar o próximo indefeso.[1]

Segundo o editorial, escrito a convite, o Brasil sofre forte tendência para o recrudescimento da legislação contra a legalização do aborto, justamente neste momento no qual o vírus Zika tem causado graves problemas em neonatos. O artigo também recorda aos leitores que o Brasil possui poucos recursos para auxiliar as famílias atingidas pelas mais graves complicações do vírus, que têm que cuidar de bebês com microcefalia. Por fim, avisam que leis contra o aborto podem reduzir a disponibilidade de tecido fetal para realizar pesquisas científicas em busca de novos tratamentos.

Páginas de notícia no Brasil informam que o número de casos de microcefalia confirmados ultrapassa mil e seiscentos numa avaliação feita em julho de 2016.[2] Os comentários numa página informativa são reveladores do nível moral de alguns leitores pró-aborto:

“Deveriam ter sido abortados. É um crime trazer para o mundo um ser que ficara preso a um corpo mal formado. Insensatos, insensíveis, irresponsáveis e hipócritas.”

“Se os pais assim o quiserem, deveria ser permitido.”

“Qual a expectativa de vida de um bebê desses?”

“Nenhuma cara, o jeito é esperar ele morrer mesmo infelizmente, microcefalia não há solução.”

“Corrigindo o bebe pode viver sim, mas vai ter uma vida totalmente dependente de outra pessoa.”

“Espero do fundo do meu coração que esse número venha triplicar e os brasileiros parem de fazer filhos kk.”


Há todo um questionamento em relação à mentalidade utilitarista e hedonista que motiva a indisposição de cuidar de crianças imperfeitas ou, como diriam os nazistas, de “comedores inúteis”. Essa mentalidade que destina parcelas inadequadas da população ao extermínio por sucção e desmembramento ou, em outras épocas, por câmaras de gás, fornos crematórios e fuzilamento, sempre esteve presente em nossa história, representando a antítese de nossos valores fundacionais ligados à religião cristã e à percepção da Dignidade Humana. Remeto o leitor à obra de Benjamin Wiker para mais informações sobre esse duelo de cosmovisões que já dura mais de dois mil anos.[3]

Contudo, gostaria de chamar atenção sobre outros aspectos.

Primeiro: seria terrivelmente impreciso afirmar que há um recrudescimento das leis anti-abortistas no Brasil. Nosso país sempre foi maciçamente contrário à legalização do aborto voluntário e, recentemente, seguindo a agenda internacional de controle de natalidade e morticínio de fetos, criou dispositivos facilitadores para o abortamento indiscriminado, como aquele chamado de “Atenção Humanizada ao Aborto”.[4] O que há, realmente, é a maior consciência das constantes e insistentes tentativas de engenharia social da agenda cultural de esquerda no país e uma resposta de segmentos religiosos e de grupos que apoiam a vida do bebê e os valores mais prezados pela população comum.

O que há no Brasil é o aumento da crítica feita às violentas iniciativas abortistas, que sempre se caracterizaram por muita maquiagem politicamente correta e por termos eufemísticos como “pró-escolha”, “direito de decidir” e “direitos reprodutivos”, criados há décadas por abortistas que lucravam pesado com a morte alheia. Não sou eu que afirmo isto, é o próprio rei do aborto, Bernard Nathanson, criador de muitos desses termos especialmente desenvolvidos para comover e confundir a população desprevenida contra manipulação psicológica e auxiliar na aprovação de leis abortistas. Nathanson, posteriormente, se arrependeu de seus crimes e passou a defender a vida dos fetos e bebês.[5]

Segundo: há muitos recursos no Brasil! Somos um dos países mais ricos do mundo - e com maior carga tributária. O problema é a altíssima carga parasitária de nossa elite política corrompida até à medula. O dinheiro público simplesmente “desaparece” nos bolsos de nossa elite de esquerda aliada aos megaempresários que topam entrar na dança da malandragem institucionalizada. Porém, considerando o mercado milionário do aborto e o rótulo progressista que o acompanha, os olhos da (des)”Intelligentsia”[6] tupiniquim brilham.

E terceiro: praticar um ato moralmente errado, ou até mesmo questionável, justificado por um bem potencial, como os possíveis avanços em tratamentos com o uso de pedaços de bebês abortados para pesquisa, não é eticamente aceitável fora de um parâmetro maquiavélico e diabólico no qual o mais forte decide usar o mais frágil por meio do extermínio.

Muitos apelam aos possíveis tratamentos; contudo, não lembram de que há outras possíveis ferramentas para o desenvolvimento de novos tratamentos, como a pesquisa de células-tronco de adultos. Poucos lembram também de que ainda há muita expectativa e poucos resultados concretos, ou sequer cogitam as complicações do uso de células-tronco fetais, como o desenvolvimento de câncer no receptor. E isso sem falar no assustador mercado clandestino de pedaços de bebês e fetos, praticado pela megaempresa abortista Planned Parenthood.[7]

O artigo publicado no famoso periódico de bioética afirma que até o Papa concordou em fazer anticoncepção em situações como a do vírus Zika se espalhando. Dizem que evitar gravidez não é mal absoluto. Isto não passa de um truque de palavras. É uma mutatio controversiae, uma mudança de assunto.[8] O artigo defende o aborto, não a anticoncepção. E a permissão de uma coisa (contracepção) é bem diferente da outra (aborto).

E, por fim, o artigo conclui fazendo um apelo para que homens e mulheres busquem respostas na opinião de pesquisadores biomédicos sem a interferência de uma “agenda política”.

Advogam a disponibilização do abortamento. Negar o direito à matança de uma prole deficiente seria, conforme os autores, ação moralmente inaceitável. Nisto, repetem o discurso orwelliano da Organização das Nações Unidas, onde matar fetos e bebês tornou-se um “direito humano”.[9]

Dentro da perspectiva hedonista e naturalista, considerar inaceitável que pais cuidem de crianças deficientes é uma atitude compreensível, assim como é completamente compreensível, na perspectiva caridosa e transcendental – que, aliás, fundou nossa civilização -, que pais cuidem de suas crianças em qualquer situação considerando-as dádivas de Deus (ou do destino, para quem não acredita em Deus), mesmo quando imperfeitas em diferentes graus do nosso, visto que todos nós temos imperfeições. É claro que ambas são compreensíveis, mas a primeira opção é moralmente muito inferior e relaciona-se aos hedonistas mais medíocres e menos caridosos.

Quanto ao manjado e boboca discurso da agenda política que move um discurso, não é nenhuma novidade. Esse artigo do American Journal of Bioethics repete um padrão já cansativo: pessoas com agendas progressistas escandalosamente politizadas projetam naqueles que discordam de suas “iluminadas” opiniões os desejos políticos inconfessáveis de uma imaginada agenda obscurantista.  Assim também foi feito por Alta Charo em um artigo publicado no famoso periódico New England Journal of Medicine, que cada vez mais parece um panfleto político, embora publique conteúdo científico de valor quando não se pronuncia sobre questões humanísticas.[10]

Nossos bioprogressistas, enterrados até ao pescoço em suas próprias agendas políticas, acusam a todos de falta de objetividade científica do alto de suas perspectivas intensamente subjetivas e desprovidas do mínimo de empatia necessário para mover um debate de qualidade.

Convido o leitor a visitar a página da National Advocates for Pregnant Women, organização política proponente do aborto na qual milita Mary Faith Marshall, uma das autoras do artigo que critico.[11] Lá qualquer um poderá conferir o grau de imparcialidade da autora que acusa outros de moverem “agendas”.

Diante do exemplo de tantas famílias brasileiras que, movidas pelo mais sincero sentimento de amor ao próximo, recusam-se a matar sua prole e cuidam de seus bebês por dias, semanas ou até mesmo anos, haja o que houver, mesmo na pobreza e na ausência de auxílio adequado do governo – sempre disposto a ajudar criminosos e sempre ignorando inocentes -, só podemos nos sentir humildes e admirados, e oferecer nossa compreensão e incondicional ajuda para que vivam e cumpram suas melhores virtudes.

E, no fim, devemos responder qual tipo de civilização desejamos legar aos nossos filhos e netos. Será uma civilização que eliminará seus fracos e exaltará seus fortes? Ou será uma civilização que exaltará suas virtudes e sua fortaleza ao cuidar dos mais fracos?

Prof. Dr. Hélio Angotti Neto é Coordenador do Curso de Medicina do UNESC, Diretor da Mirabilia Medicinæ (Revista internacional em Humanidades Médicas), Membro da Comissão de Ensino Médico do CRM-ES, Visiting Scholar da Global Bioethics Education Initiative do Center for Bioethics and Human Dignity, Membro do Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC e criador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina (SEFAM).







[1] HARRIS, Lisa H; SILVERMAN, Neil S; MARSHALL, Mary Faith. ‘The Paradigm of the Paradox: Women, Pregnant Women, and the Unequal Burdens of the Zika Virus Pandemic’. In: American Journal of Bioethics, Vol 16(5), 2016, p.1-4.

[2] GLOBO.COM Bem Estar. Brasil tem 1.687 casos confirmados de microcefalia, diz ministério. 13 de julho de 2016. Internet, http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2016/07/brasil-tem-1687-casos-confirmados-de-microcefalia-diz-ministerio.html

[3] WIKER, Benjamin. Hedonismo Moral: Como nos tornamos hedonistas. São Paulo: Paulus, 2011.

[4] MINISTÉRIO DA SAÚDE. Norma Técnica: Atenção Humanizada ao Abortamento. Série Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos vol 4. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2005. Internet, http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/atencao_humanizada.pdf

[5] NATHANSON, Bernard N. The Hand of God: A Journey from Death to Life by the Abortion Doctor Who Changed His Mind. Washington, DC: Regnery Publishing, Inc., 1996; NATHANSON, Bernard N. Aborting America:  A Doctor’s Personal Report on the Agonizing Issue of Abortion. Fort Collins, CO: Life Cycle Books, 1979.

[6] Do russo интеллигенция, refere-se a um grupo remunerado de pessoas envolvidas em trabalho intelectual complexo e criativo direcionado ao desenvolvimento e à disseminação de uma cultura específica, isto é, à engenharia social por meio da cultura.

[7] The Center for Medical Progress. PLANNED PARENTHOOD STILL #GUILTY OF SELLING BABY PARTS FOR PROFIT ONE YEAR AFTER VIDEOS #PPSELLSBABYPARTS. Internet, http://www.centerformedicalprogress.org/2016/07/planned-parenthood-still-guilty-of-selling-baby-parts-for-profit-one-year-after-videos-ppsellsbabyparts/

[8] SCHOPENHAUER, Arthur. Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão. Rio de Janeiro: Topbooks, 2003.

[9] LA GACETA. La ONU califica el aborto de derecho humano. Internet, http://gaceta.es/noticias/onu-reconoce-aborto-derecho-humano-12022016-1436

[10] CHARO, Alta. Fetal Tissue Fallout. New England Journal of Medicine, 373(10), September 3, 2015, p. 890-891. Remeto o leitor à crítica feita por mim no texto: Espantalhos, Nazistas e Coerência Ética. Internet, http://medicinaefilosofia.blogspot.com.br/2015/09/espantalhos-nazistas-e-coerenciaetica.html