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terça-feira, 21 de abril de 2020

OBEDEÇA OU MORRA

Liberdade e Opressão em tempos de Pandemia

Obedeça, obedeça, obedeça... ou, na visão de certos elementos preocupados com o bem do próximo, os princípios do SUS – Universalidade, Integralidade e Equidade – não valerão para você.

“(...) parte da minha área de atuação [é] a orientação que passarei para o gabinete de crise e, em especial, aos médicos que estiverem atendendo, é que se tiverem que escolher entre esses pacientes que seguem essas recomendações (de isolamento social) e outros pacientes que não seguem essas recomendações, que já foram autuados, que vão para as redes sociais convocar os outros para a rua, que vão para as redes sociais convocar que abram o comércio, que vão para as redes sociais convocar passeata, não importa em apoio de quem (...), se tiver que escolher entre um paciente como esse e um paciente que cumpre as regras, que está exercendo uma função essencial e por isso está se arriscando, sem nenhuma dúvida faça a escolha em favor desses que estão obedecendo. A gente perfeitamente consegue monitorar as pessoas pela rede social, montar um banco de dados.”
Se nós avançarmos para esse estágio, tenhamos um banco de dados à disposição para que o profissional de saúde faça essa escolha em favor daquele que foi acometido por uma fatalidade já que não procurou “o COVID”. Uma coisa é o COVID procurar o paciente, outra coisa é o paciente por ignorância ir ao encontro do COVID. Eu acho que essas pessoas que estão cavando a sua cova com sua própria ignorância não têm o direito de tirar a vida daqueles que estão fugindo do COVID”. (Marcelo Lessa, Promotor Público, em declaração para RJTV).

Seguindo essa curiosa linha de raciocínio, deveríamos negar atendimento a presidiários ou criminosos que chegam baleados em serviços de emergência? Deveríamos usar quais outras formas de classificar adultos, idosos e crianças? Capacidade de contribuir para a sociedade com trabalho? Notas escolares? Cor da pele ou dos olhos? Concordância política com o governante? Usuários regulares de vitaminas e suplementos alimentares?
Basta termos um sistema de vigilância poderoso o suficiente e o grande porrete do Estado estará a postos para te excluir ou te punir se você não tiver sido um bom menino. 
Por alguns momentos senti que estava em um romance de George Orwell, mas percebi que esta é a realidade em que vivemos. E pessoas que defendem essa postura são justamente aquelas que sequestraram a expressão democracia e acusam quem se lhes opõe de ditador!
Na realidade alternativa em que vivem, as coisas ocorrem como Orwell descreveria: Ódio é Amor, Mentira é Verdade, Opressão é Liberdade...

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

MEDICINA E HUMANIDADES - Entrevista para a Revista DOC

MEDICINA E HUMANIDADES – Entrevista para a Revista DOC

 

1 - Em qual das duas áreas você se formou primeiro: Medicina ou Filosofia? E por que a escolha por cada uma delas? Você se considera um médico dedicado à Filosofia ou um filósofo que pratica Medicina?

 Formei-me em Medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo. Depois fui residente em Oftalmologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, onde atuei também como preceptor e onde fiz meu Doutorado em Ciências – Oftalmologia.

Não tenho nenhum título formal em Filosofia, tampouco em Bioética. Sou filósofo no sentido em que busco a sabedoria na qualidade de indivíduo, cristão, pai de família e médico, buscando integrar conhecimento e consciência, conforme definiu o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho. Não tenho título de bacharel em filosofia, embora atue de forma acadêmica, escrevendo, editando e pesquisando, também nessa área.

O meu estudo no campo da filosofia e das humanidades em geral ocorreu e ainda ocorre de forma independente há cerca de quinze anos. Digo independente no sentido em que não busquei formalizar um título.

Sobre ser médico, cristão ou filósofo, nos termos que entendo, não vejo uma escolha ou predominância, vejo uma complementaridade. Minha fé constrói a forma pela qual entendo a realidade, a filosofia determina junto com minha fé a postura que adoto diante do real e a medicina é uma forma de aplicar o que sei e acredito em prol dessa mesma realidade. Em minha profissão encontrei uma compatibilidade de valores entre as perspectivas de minha vida.

A medicina eu escolhi como profissão. A filosofia eu escolhi por obrigação com a verdade e por identificação, motivado pela minha fé. É uma mistura antiga, essa a da filosofia com a medicina, legada a nós desde a Antiguidade Clássica.

2 - Quando você decidiu explorar a Filosofia na área médica? E como surgiu essa ideia?

Decidi explorar a filosofia na área médica quando ingressei no programa de residência médica. Diversas mudanças e novas responsabilidades em minha vida convidaram-me a adotar uma postura mais reflexiva. Quanto mais eu estudava sobre humanidades médicas, mais eu enxergava minha carência em conhecimentos humanísticos. O interesse pelos temas mais variados e a aplicabilidade deles na arte médica, ao lado da ciência, levaram-me a prosseguir no estudo e na pesquisa.

No começo estudei filosofia de forma geral e, aos poucos, as conexões surgiram, levando-me ao estudo da Filosofia da Medicina e da Bioética.

3 - Como se dá a relação entre Medicina e Filosofia? O que há em comum e de divergente nessas duas áreas?


A medicina, nas palavras de Edmund Pellegrino, é a mais científica das humanidades e a mais humana das ciências. É uma arte que utiliza a ciência para lidar com a realidade do paciente em busca do bem.

Um médico exercerá sua arte nas três esferas do conhecimento conforme o entendimento aristotélico: exercendo uma habilidade, dotado de conhecimento, em um contexto ético específico. Essa integração entre ação, conhecimento e moralidade é completamente compatível com a filosofia em sua formulação socrática.

A filosofia e, particularmente, as humanidades médicas, ajudam a compreender melhor o ser humano em toda a sua complexidade e a interferir de forma mais positiva na vida alheia.

Tanto a filosofia quanto a medicina ajudam a compreender o mundo em que vivemos e, em especial, o homem. A grande diferença entre uma e outra é o alcance. A boa filosofia é a base para todos os demais conhecimentos.

4 - Em seu blog, você fala sobre Humanidades Médicas. Como explicar esse conceito? E por que é possível dizer que a Filosofia é uma delas?

 O conceito de Humanidades Médicas só pode ser compreendido hoje em conjunto com a compreensão da divisão artificial entre arte ou humanidades e ciência. Em oposição à ciência, que seria o conhecimento experimental, matematizado e pretensamente mais objetivo, têm-se as humanidades, que compõem todo aquele conhecimento empírico e subjetivo que lida com o inédito e com a imprevisibilidade inerente a cada ser humano.

Hoje fala-se muito a respeito da bioética em saúde. Mas para falar de bioética com propriedade, é necessário compreender a Alta Cultura de uma civilização; seus fundamentos humanísticos, incluindo literatura, história, arte e, na base de tudo, a filosofia e a religião, que nos oferecem as ferramentas necessárias para uma reflexão integradora de todos os campos do conhecimento.

5 - Ao longo dos anos, as transformações sociais vêm provocando mudanças na Medicina, principalmente na relação médico-paciente, e têm sido alvo de discussões de pesquisadores da Bioética. Para você, quais mudanças, de fato, ocorreram e como as explica?

 Mudanças ocorreram, ocorrem a cada dia, e ocorrerão sempre.

Na antiguidade o médico se confundia com o feiticeiro e com o sacerdote. Curava e matava. Tudo começa a mudar com a medicina hipocrática, quando o médico se separa da esfera religiosa propriamente dita e almeja uma arte mais técnica e científica, conhecedora das causas e devotada ao reconhecimento da preciosidade da vida humana.


Com o advento do cristianismo, essa percepção do valor da vida humana torna-se hegemônica e se difunde pela civilização ocidental.

Com a medicina moderna, veio a concepção mecanicista do ser humano. Já na época contemporânea, onde temos os grandes milagres da técnica médica, surgiram problemas relacionados a falhas éticas em pesquisa e riscos de mutações civilizacionais irresponsáveis. Uma outra modificação bem presente, ao ponto de ser ignorada por muitos, é o conflito inerente de interesses quando o médico se encontra dividido entre diversas demandas, vindas do Estado e de instituições privadas que se colocam como intermediárias da relação médico-paciente, quebrando o vínculo tradicional de confiança que existe entre médico e paciente há milhares de anos.

Eu entendo que mudanças são constantes, porque a realidade não é estática. Porém, há um fundo de valores que permanecem, e que devem sempre serem atualizados e reconhecidos nos mais diversos contextos, para que a medicina continue promovendo o bem ao qual se propõe. Se o médico não atualizar de forma constante esses valores ao longo dos contextos que se alteram, o elo de confiança com o paciente será quebrado. Digo atualizar no sentido de tornar ato, tornar algo presente. Os valores estão aí, sempre estiveram, é necessário manifestá-los na relação médico-paciente.

6 - Como você caracterizaria a Medicina Hipocrática? Acredita que seus legados ainda estejam presentes atualmente?

A medicina hipocrática é aquela arte comprometida com a busca da causa dos problemas de saúde do ser humano por meio de uma explicação predominantemente natural e com a cura ou o alívio em relação à doença e com o consolo, o conforto e o respeito ao paciente.

Embora existam algumas técnicas ancestrais de investigação clínica e até mesmo alguns procedimentos terapêuticos que guardam grande semelhança com práticas utilizadas ainda hoje, as explicações científicas mudaram completamente. Contudo, há um elemento atemporal na antiquíssima medicina hipocrática que permanece tão valioso, atual e distintivo a ponto de ter gerado respeito entre os cristãos e muçulmanos que vieram séculos depois: o seu componente ético.

Vários elementos da ética hipocrática ainda se encontram presentes na medicina: a defesa da vida humana como pilar da benevolência e da não malevolência; o sigilo entre o médico e seu paciente; o reconhecimento da fragilidade de quem se encontra doente e a necessidade de proteger seu pudor e sua vulnerabilidade e muitos outros elementos. Procuro deixar claro os pontos de contato entre as diferentes culturas e épocas nas obras “A Tradição da Medicina” (já lançada, na qual abordo o Juramento de Hipócrates e as virtude médicas) e “A Arte Médica” (a ser lançada pela Editora Monergismo, na qual abordo a tradição hipocrática de forma geral, em seu conteúdo ético).

Os elementos hipocráticos ainda estão presentes, embora muitos menosprezem ou difamem a antiga ética. Do passado veio também uma infeliz e dolorosa lição sobre o que pode acontecer quando nos afastamos de tais ideais nobres, como quando aconteceu com os horrendos exemplos da medicina comunista e da medicina nazista, se é que podemos chamá-las pelo nome de medicina.

7 - Como o paternalismo médico pode ser explicado pela Filosofia e qual sua opinião sobre o tema?

Há várias explicações e significados possíveis para o termo paternalismo, o que torna arriscado qualquer discussão sobre o tema. De regra geral, pode-se falar acerca de um paternalismo forte e autoritário, ligado à figura daquele médico que não considera a opinião do paciente e mal lhe escuta direito. Por outro lado, há um paternalismo fraco, representado pela figura do médico benevolente que age em prol do paciente extremamente vulnerável e destituído de autonomia real. No primeiro caso, o paternalismo torna-se um ato imoral, destituído de empatia e respeito; no segundo, pode ser até mesmo uma conduta obrigatória e benevolente com o paciente e sua família. Inclusive, muitos pacientes exigem do médico uma postura paternalista fraca.

Há muitas nuances e diferentes formas de enxergar esta questão. Contudo, é incontornável o fato de que a doença causa, na maioria das pessoas, uma extrema fragilidade psíquica e um aumento da dependência em relação ao próximo. Na figura do médico muitos enxergarão a imagem paternal. Essa condição inerente à condição humana frágil e limitada somente reforça a enorme responsabilidade do médico e a grande necessidade de formar adequadamente o seu caráter ao trabalhar suas virtudes. Um dos grandes objetivos da relação terapêutica em prol do bem do paciente, inclusive, é restituir autonomia ao paciente, um elemento importante de sua integridade, como lembra Eric Cassel em sua obra de grande importância para as Humanidades Médicas (The Nature of Suffering – A Natureza do Sofrimento).

8 - Você é coordenador de Medicina da UNESC. A grade do curso tem algum conceito filosófico embutido? E qual é a importância de formar o aluno de Medicina com base nesses conceitos?

Há conceitos ou aspectos filosóficos em tudo o que fazemos, mesmo que não sejam percebidos. A educação médica não escapa desta observação. O próprio método de aprendizagem ativa se ampara em muitos pressupostos filosóficos e pedagógicos.

Quanto ao conteúdo na grade curricular, há algumas inserções que gradualmente foram estabelecidas, conforme a compatibilidade e a necessidade do Projeto Pedagógico do Curso. De forma geral, há um estímulo ao estudo de questões psicossociais, embora seja menosprezado por escolas médicas mundo afora, mesmo que estejam formalmente integrados às discussões. Há também módulos específicos que abordam elementos da formação profissional do médico, da filosofia da medicina, da bioética, dos direitos humanos e da cultura que são ministrados por mim com ajuda de colegas médicos e professores do direito.

Além da inserção curricular, é necessário criar um ambiente de pesquisa e promoção das humanidades e da ética médica. Um caminho encontrado por nós foi criar o Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina, com atividades de extensão, ensino e pesquisa em Humanidades Médicas, levando trabalhos a congressos e publicando livros e artigos. Por fim, exercendo um papel importantíssimo, surgiu a Liga de Humanidades Médicas, de iniciativa discente. Diferentes atores e diferentes processos ajudam a despertar a curiosidade e a enxergar a importância desses estudos.


Sobre a importância em se formar o médico em termos humanísticos, devo lembrar da famosa citação de José de Letamendi y Manjarrés: O médico que só sabe medicina, nem medicina sabe. A medicina é uma arte complexa, e a ciência claramente é insuficiente para preparar o futuro profissional. As humanidades médicas buscarão o que há de melhor na cultura por mais de dois mil anos acumulados para formar um indivíduo maduro e preparado para a verdadeira ação em sociedade; justamente o que os antigos gregos denominavam spoudaios e que hoje muitos chamariam de cidadãos ou elementos maduros da sociedade.

Fala-se muito em cidadania. De regra é apenas uma expressão vazia e sem conteúdo concreto para a maioria das pessoas, essa tal de cidadania; tornou-se um chavão. Um indivíduo preparado para compreender os profundos recessos da experiência humana, própria e alheia, dotado das melhores ferramentas de comunicação e empatia legadas por mais de dois mil anos de história e cultura, e preparado com os instrumentos da técnica filosófica que providenciarão firmeza de caráter e solidez à consciência, estará apto a assumir de forma responsável a responsabilidade de ser médico e cidadão. Isso é cidadania de verdade.

9 - Quais são os principais ensinamentos que a Filosofia pode fornecer ao médico? Você indicaria o estudo da área para seus colegas de profissão?

 A filosofia fornece autoconhecimento e humildade. O seu aspecto geral e o amplo leque de reflexões também prepararão o médico para a ação interdisciplinar e potencializarão a criatividade e a inteligência, possibilitando conexões entre conhecimentos e experiências que, de outra forma, permaneceriam dissociadas. A investigação séria, metódica e profunda sobre a realidade auxiliará na compreensão da vida alheia e de formas de promover a saúde e combater a doença e o sofrimento. O treino lógico e dialético promoverá um raciocínio clínico e ético eficaz e complexo, capaz de lidar com as grandes complexidades vividas dia após dia por médicos em seus consultórios, hospitais e postos de saúde.

Sem dúvida nenhuma, o estudo da filosofia de boa qualidade está indicado para qualquer pessoa que queira viver uma vida mais plena e consciente. Não digo a filosofia do bacharelado ou da licenciatura, que reúne um conteúdo específico de conhecimentos, mas sim, a filosofia como forma de viver (que pode estar associada à forma anterior), como prática de vida, conforme o projeto original de Sócrates, Platão e Aristóteles, assim como enxergam alguns grandes filósofos mais recentes como Olavo de Carvalho, Mário Ferreira dos Santos, Pierre Hadot, Louis Lavelle e Eric Voegelin, somente para citar alguns.

10 - No dia a dia, como você concilia o exercício da Filosofia e da Medicina? Fale um pouco de sua rotina, por favor.

A busca constante pela sabedoria a todo momento implica um exame constante da própria vida. Tal exame permite enxergar as mais diferentes situações de diferentes perspectivas, reconhecendo melhor a complexidade da realidade em que vivemos. Outra forma de conciliação entre medicina e filosofia é a crítica do próprio conhecimento, e a constante busca pela coerência entre o conhecimento, a crença e a ação.

Em todos os meus estudos e práticas, busco sempre estabelecer pontes, conexões, entre coisas aparentemente não relacionadas. Isso fornece a criatividade e a agilidade de pensamento para buscar novidades e estar sempre alerta às mudanças necessárias.

A filosofia aplicada diretamente à medicina também ajuda na empatia compassiva, na compreensão da realidade alheia e dos pontos de conexão desta conosco.

Quanto à rotina de práticas e estudos, recebo muitas perguntas sobre como conciliar e buscar tantos conhecimentos tão amplos e, aparentemente, diferentes.

Ser cristão atuante, marido, pai de dois filhos pequenos, médico, cirurgião, coordenador de curso, professor, pesquisador, editor e autor, entre outras coisas e ler sempre entre cinquenta e oitenta livros por ano nos últimos dez anos é um desafio e realmente gera um pouco de curiosidade.

A fórmula que funcionou para mim inclui diversos pontos.

Faço o que gosto e faço aquilo em que acredito. Nisto encontro motivação imensa para melhorar sempre e nuca retroceder.

Há técnicas para estudar. Procuro utilizá-las com as devidas adaptações. Consultas às obras de Barbara Oakley e Pierluigi Piazzi e aos cursos sobre métodos de estudo de Olavo de Carvalho fornecerão importantes dicas.


Sempre estudo algo que desperta meu interesse ou que é extremamente necessário para resolver um problema importante. Mesmo que sejam dez escassos minutos de estudo, todo dia tenho que ler e absorver algo.

Mantenho meu interesse por diversos assuntos ao mesmo tempo. Gosto de estudar oftalmologia, medicina geral, epidemiologia, medicina baseada em evidências, teologia, bioética, filosofia de forma geral, política, história e literatura. Às vezes leio diversos livros aos poucos, todos ao mesmo tempo; às vezes concentro minha atenção em uma leitura mais urgente. É incrível como as conexões vão aparecendo aos poucos e como há, de fato, um crescimento exponencial das relações culturais que passam a se mostrar nas mais diferentes áreas do saber.

Acordo cedo, leio um pouco, vou trabalhar, almoço quase sempre em casa – um dos luxos de se morar no interior -, trabalho novamente, retorno ao lar, estudo mais um pouco e produzo um pouco. No fim de semana, a rotina obviamente muda, com mais presença no lar junto à família e, no domingo, leituras mais centradas em filosofia e teologia e a convivência na Igreja, elemento importantíssimo.

Essa rotina funciona, entremeada com imprevistos e algumas viagens, graças à esposa maravilhosa que tenho. Seria impossível fazer o que faço sem o suporte amoroso e paciente da Joana. A família é protagonista para uma vida de estudos saudável.

Além disso, algumas dicas cotidianas: desligue a televisão, desista de novelas e outras banalidades, leia diretamente nas fontes de confiança as notícias de que você precisa para se manter atualizado (sem Fake News, não há tempo a perder). Aproveite o seu tempo compreendendo o quão é precioso cada momento.

William Osler, famoso médico anglófono, já preconizava leituras indispensáveis que deveriam habitar a cabeceira de um bom médico ou estudante de medicina. A boa leitura e a presença real junto ao paciente oferecem oportunidades valiosíssimas para amadurecer e crescer intelectualmente e em termos pessoais.


11 - Qual é a área da Filosofia mais chama sua atenção? E da Medicina?

 Pode responder todas as áreas? Se tivesse que decidir por uma, não conseguiria responder. Mas, da filosofia, estudo principalmente a metafísica, a filosofia política, a filosofia moral e a epistemologia. É difícil definir, pois a filosofia é essencialmente geral e interdisciplinar.

Já na medicina, gosto de oftalmologia - principalmente de órbita e neuro-oftalmologia -, ética médica, história da medicina, semiologia, medicina baseada em evidências e comunicação médica.

No geral, tudo o que diz respeito a Deus e ao ser humano interessa muito a mim.

12 - Há alguma influência da Filosofia na sua relação com os pacientes? É possível dizer que existe um atendimento diferenciado?

 Sim, há uma intensa influência de minha filosofia e de minha fé na relação com os pacientes. Muito dependerá de como o médico enxerga o mundo.

Um atendimento que enxergo como diferenciado seria: a)      Radicalmente realista e intuicionista, pois acredita poder tocar a realidade do paciente, sem negar o grau de subjetividade e de transcendência que às vezes nos escapa; b)      Moral e empático, pois age em meio à relação estabelecida entre pessoas com moralidade que estabelecem e demonstram valores em suas atitudes; c)      Comunicativo e compassivo, pois liga duas ou mais perspectivas em prol de um bem comum ao perceber o sofrimento; d)      Complexo e inédito, dentro de um contexto de infinitude que permeia toda a realidade.

Tais elementos derivam, de fato, de uma forma filosófica bem específica de enxergar o mundo. Contudo, devo lembrar que há certas formas de pensamento e perspectivas que também recebem o nome de filosofia que poderão acabar levando aqueles que as subscrevem à loucura, ao delírio, ao solipsismo e à degeneração maldosa.

13 - Você organizou em maio deste ano a primeira edição do Seminário Capixaba de Filosofia (SECAFI). Com que objetivo o evento foi criado? Quais foram os resultados?

 O Seminário Capixaba de Filosofia foi um evento multidisciplinar que envolveu médicos, advogados, historiadores, cientistas políticos, cientistas sociais, escritores e filósofos, entre outros, para analisar os frutos e principais características da obra filosófica do Olavo de Carvalho, sem o rancor ideológico demonstrado por tantos elementos de nossa sociedade que ousam falar do que não leram, ou, se leram, do que não entenderam.


O ambiente acadêmico das humanidades no Brasil transformou-se num lugar de hostilidade e ódio à sincera busca pela verdade, no qual pessoas são rotuladas e desprezadas por suas crenças políticas e o valor de suas obras é julgado pelo alinhamento de seu autor. Queríamos um ambiente no qual tudo o que interessava era o debate intelectual honesto, destituído dos preconceitos que embrutecem e emburrecem o ensino superior em tantos locais do Brasil.

O objetivo foi alcançado, eu acredito.

Abordamos aspectos políticos, filosóficos, literários e históricos da obra de Olavo. Tais elementos - gostem ou não aqueles que governam as cátedras dos estudos sociais brasileiros, impregnados pelo gramscismo - despertaram um diálogo realmente diversificado na sociedade brasileira, assim como levaram centenas (ou milhares?) de pessoas às prateleiras de livros filosóficos e clássicos da literatura. Foi graças ao persistente trabalho de um pensador isolado que hoje o mercado editorial brasileiro está realmente diversificado em termos políticos e filosóficos.

Em sua primeira edição o evento atraiu pessoas de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e de diversos cantos do Espírito Santo. Foi um evento puramente dedicado ao estudo filosófico, feito sem filiação partidária alguma e com nenhum, repito, nenhum patrocínio que não fosse o dinheiro pessoal dos organizadores, muito boa vontade e o dinheiro dos inscritos. Apesar disso, o salão ficou lotado.

Para um evento filosófico que não ofereceu créditos em cursos universitários ou certificação nenhuma, totalmente dependente do interesse alheio e independente do dinheiro de partidos políticos ou dos cofres públicos, foi um inesperado sucesso. As palestras foram disponibilizadas e, em breve, há a expectativa de lançarmos um livro com artigos especialmente selecionados.

14 - Quando a sua relação com a Filosofia e a Medicina ultrapassou as fronteiras do consultório e da universidade, chegando aos livros? Como surgiu a inspiração para escrever Disbioética e A tradição da Medicina? Há previsão de lançar mais livros?

Após dez anos de estudo, absorvendo cultura e meditando sobre a experiência cotidiana, criei o Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina, no UNESC. No segundo ano do seminário discutia com os alunos alguns artigos na área de bioética quando nos deparamos com um inusitado trabalho defendendo o conceito de abortamento pós-nascimento. Uma resposta a este artigo transformou-se no livro “A Morte da Medicina”. A busca pela cultura que sustenta a medicina ainda hoje, fornecendo elevados ideais éticos e profissionais, acabou por gerar “A Tradição da Medicina”, no qual abordo o Juramento de Hipócrates e a Ética Baseada em Virtudes. Por fim, os desvios e perigos representados por determinados movimentos no campo da bioética levaram-me a escrever o “Disbioética”, que ainda terá mais três volumes, no mínimo.


O volume dois da série Disbioética tratará sobre política e medicina. O terceiro será intitulado “O Extermínio do Amanhã”, e tratará do aborto. Por fim, o quarto volume abordará o tema da liberdade de consciência no campo da saúde.

Ainda há previsão também de lançar um volume sobre os aspectos éticos gerais das obras hipocráticas e suas interações com outras tradições culturais, como a da cultura cristã no ocidente, e reflexões sobre o Código de Ética Médica.

Ainda pretendo escrever sobre muitas outras questões, ressaltando também diversos médicos e filósofos do passado e do presente.

15 - De olho no futuro, qual a sua perspectiva para este universo onde Filosofia e Medicina caminham de mãos dadas?

Vejo um longo e árduo caminho para que se crie, ou se resgate, a Alta Cultura dentro da medicina. Embora estejamos em meio a relativas trevas nos dias de hoje, não temos a opção de desanimar. Nossos pacientes dependem da qualidade e da dignidade profissional da medicina em muitas situações de fragilidade e sofrimento.

E é justamente nas grandes crises que surge a filosofia. O momento atual de crise, se bem trabalhado, pode muito bem apontar o surgimento de uma nova consciência entre os médicos, pode apontar a necessidade de escutar a antiga frase de José de Letamendi y Manjarrés, e fazer com que compreendamos com clareza a antiga verdade de que o médico precisa saber muito mais do que somente a medicina para ser um bom profissional.

Com uma filosofia de qualidade, o médico refletirá melhor sobre os rumos tomados e decidirá com maior consciência. Com filosofia de qualidade o médico poderá voltar a participar de forma mais efetiva na sociedade, tanto culturalmente quanto politicamente.

Se não resgatarmos nossa identidade cultural e a aprimorarmos com base em uma sólida formação de caráter, conhecimentos e técnicas, a nobre profissão médica em seus mais elevados padrões estará com os dias contados.

Hélio Angotti Neto
21 de setembro de 2017
Colatina - ES


segunda-feira, 3 de julho de 2017

ENTREVISTA: O que é formar um médico integralmente?

O QUE É FORMAR UM MÉDICO INTEGRALMENTE?

ENTREVISTA CEDIDA AO NÚCLEO ACADÊMICO DO SINDICATO DOS MÉDICOS DO RIO GRANDE DO SUL

 

Entrevistador: O senhor defende que os médicos precisam buscar uma formação humanista, além da técnica e científica. O que exatamente o senhor deseja propor com esta abordagem?

A reconquista dos instrumentos intelectuais e para a formação do caráter que foram abandonados pela concepção pedagógica presente. O médico precisa do aporte científico e dos instrumentos de aprendizagem ativa e medicina baseada em evidências para atualizar-se, mas precisa também da formação humanística antiga que o capacitará a agir em sociedade, compreender a realidade e pensar de forma aguçada e verdadeiramente crítica. Não há atalhos neste quesito, formação humanística não é bom mocismo, é captar e integrar em seu ser o conhecimento acumulado de mais de dois mil anos de história e pensamento.

Entrevistador: Por que é importante integrar o lado humanista na formação do médico?

Por que a ciência não esgota e jamais esgotará o ser humano. Cada paciente é uma vida única e oferece um desafio inédito. Há coisas em nossas práticas que são gerais, porém, sem a riqueza moral e intelectual adequadas, falharemos em aplicar os conhecimentos científicos à realidade concreta ou em obter sucesso no tratamento. Do que adianta passar o tratamento certo se o paciente não confia em você? De que adianta saber medicina baseada em evidências se te falta o conhecimento literário e hermenêutico de interpretação dialética dos textos para enxergar nas entrelinhas o que não está escrito? O médico que reduz seu conhecimento à medicina compreendida como empreendimento científico somente também negligencia seu papel de agente de influência na sociedade, e serve cegamente a interesses alheios que muitas vezes priorizam qualquer outra coisa, menos a saúde do paciente.

Entrevistador: O senhor fala em médico integral? O que é este conceito?

É o médico que une o melhor da ciência, da técnica, da virtude e das humanidades. É um profissional que seja capaz de realizar um procedimento de qualidade, com a indicação adequada, na hora certa e com o estabelecimento de uma relação médico-paciente sólida sustentada na confiança do paciente e na honra e excelência do médico.

Entrevistador: Por que é preciso pensar a Medicina em um contexto maior do que normalmente se pensa nas escolas?

Por que lidar com o ser humano é uma das tarefas mais complexas que se pode executar. Lidar com a vida, a morte, a doença e a saúde são atividades que abrangem os cumes e os vales mais sombrios da experiência humana. Lidamos dia a dia com os anseios mais profundos e os maiores tormentos da humanidade e perdemos a capacidade de formar pessoas integralmente. Se não há formação de caráter e formação cultural adequadas, teremos médicos superficiais e desarticulados, incapazes de lidar com as complexas situações de seus pacientes e incapazes de agir eficazmente em sociedade para promover a tão desejada saúde integral, utopia muito mencionada, porém pouco pensada de fato.

Uma das coisas que mais me preocupa em termos de educação médica em humanidades é a vulgarização do termo e a utilização dessa busca por uma formação integral para inserir nos currículos a mais vulgar manipulação ideológica, censurando o legado cultural verdadeiro de nossa civilização e oferecendo as mais vis e baixas formulações pseudointelectuais no lugar do conteúdo de verdade. Felizmente, os alunos de medicina costumam ser inteligentes demais para cair nessa cilada. O problema é que muitos acreditam que humanidades se resumem à vulgaridade ideológica e se concentram somente no aspecto científico da medicina, suprimindo a possibilidade de buscar uma verdadeira formação humanística. Mesmo que discordem, engolem a mentira que foi contada e acreditam que as humanidades nada mais são do que loucura e enganação. 

Entrevistador: Qual é o papel do médico na sociedade?

O médico é o guardião da saúde humana e da vida de seu paciente. É o ombro amigo que consola quem está prestes a partir e aqueles que estão prestes a perder um parente amado e que ficarão para trás, enlutados. O médico é aquele que observa a sociedade com olhos atentos e mente penetrante, apto a diagnosticar problemas individuais e coletivos e propor uma terapia ao contemplar o prognóstico. O médico é aquele compromissado com a beneficência de seu paciente mediante o uso da prudência, da inteligência e de todas as suas virtudes. O médico é aquele que busca a excelência em sua arte em prol de seu paciente. Nosso papel é o de guardião dos mais frágeis entre nós, é responder ao pedido de socorro.

Entrevistador: Como o senhor vê as políticas públicas para a saúde?

Muito boas no papel, péssimas na prática. Leis e dinheiro não mudam uma população, o bandido sempre encontra a ocasião. Precisamos de mudanças na cultura, no caráter e na inteligência. O Brasil está entre os países mais violentos, mais corruptos e mais burros do mundo! Esses são problemas de "saúde" gravíssimos, e precisamos realmente repensar nosso pais. Como um país desse tamanho e com essa riqueza, repleto de gente trabalhadora e esforçada, pode estar entre os últimos colocados nos testes de conhecimento a nível internacional? Como um país de gente que era tão pacífica pode ter se transformado em um campeão de assassinatos? Creio que políticas públicas são necessárias e, em geral, são bem formuladas. Mas não temos uma elite com o caráter e a vontade para realmente fazer acontecer um Brasil de verdade. Temos espoliadores que buscam nutrir-se do sistema mesmo que para isto tenham que destruir seu hospedeiro.

Entrevistador: O senhor vê um movimento para diminuir o prestígio da categoria médica?

Médicos bons e médicos ruins sempre existiram, desde os tempos hipocráticos, ao longo da Idade Média e ainda hoje. Mas é a primeira vez que se observa um governo sistematicamente infiltrar-se em conselhos profissionais, montar propagandas claramente ofensivas contra toda uma classe profissional e utilizar o discurso de guerra de classes e ódio para a premeditada destruição daquilo que consideram uma elite concorrente. O fato de que tudo tenha vindo à tona no momento em que médicos ao lado de muitos outros profissionais da saúde foram às ruas em 2013 para reclamar melhores condições é extremamente sugestivo. Na política há pouco espaço para o acaso. Assistimos à votação do Ato Médico, na qual médicos foram acusados de criar a doença para enriquecer, observamos as propagandas acusando médicos de racistas com a falsa interpretação de dados do SUS e até mesmo uma presidente agindo de forma leviana ao acusar a classe médica de tratar mal os pacientes brasileiros. Uma grande e esforçada maioria, incluindo alguns exemplos heroicos de dedicação, pagou pelo erro de poucos e pela maldade institucionalizada de um governo indecente.

Entrevistador: Gestão e liderança tem sido exigido dos médicos. Estes conceitos são importantes? São tão importantes quanto a formação política e filosófica?

Sem dúvida a gestão e a liderança são importantíssimos. Na formação humanística clássica, por exemplo, partia-se do estudo do indivíduo (Ética e Psicologia, chamada de estudo da alma) e dos discursos (Gramática, Lógica, Dialética e Retórica) e alcançava-se o estudo da sociedade como um todo (Política). Contudo, no meio do caminho estava o estudo das relações de trabalho e das relações familiares, chamado de economia (Oiko = comunidade; Nomos = regras). O médico é o responsável pela equipe, e deve aprender a agir como tal, assim como deve aprender e desenvolver o caráter e a nobreza de um verdadeiro líder, demandando respeito por meio do exemplo acima de tudo.

Conforme disse o filósofo britânico Roger Scruton: 

"Da mesma forma, as pessoas vão obter educação somente se elas a desejarem por seu próprio fim, mas conseguirão bem mais do que isso. Elas vão adquirir a habilidade de se comunicar, de persuadir, de atrair e de dominar. Em qualquer arranjo social, tais capacidades serão vantagens, mas a educação nunca pode ser buscada somente como meios para elas, mesmo se são sua consequência natural." (SCRUTON, Roger. O Que É Conservadorismo. São Paulo: É Realizações, 2015.)

A educação em humanidades deve ser desafiadora, deve ser interessante e prazerosa. Buscada em si para o desenvolvimento do caráter, da inteligência e pelo prazer intelectual e emocional que proporciona, automaticamente capacitará o médico ao desenvolvimento da liderança.

Entrevistador: Qual conselho o senhor daria para a categoria médica? E para os acadêmicos?

Aos colegas permanecer firme no antigo mandamento: Amar o próximo como amam a si mesmos. Exercer o dom da empatia com competência e com compaixão.
Aos acadêmicos, que sejam bons médicos agora! Sejam excelentes em suas áreas. Dediquem-se verdadeiramente aos seus pacientes. Não tenham pressa em terminar seus estudos formais e entendam que não há desculpas depois para a falta de conhecimentos. Aquilo que se conquista e se integra à personalidade é um tesouro que ninguém pode remover. Cresçam e amadureçam o quanto antes, em todos os sentidos. Busquem ser médicos na verdadeira acepção da palavra.

Hélio Angotti Neto

03 de julho, Colatina – ES.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

O INACREDITÁVEL BRASIL

O INACREDITÁVEL BRASIL


Durante este mês, tive a valiosa oportunidade de conviver com professores e pesquisadores da Bioética aqui dos Estados Unidos e da Holanda, e também tive a oportunidade de ouvir um pouco acerca da sua cultura e de expôr um pouco do nosso Brasil atual.
Alguns detalhes de nossa história soaram estranhíssimos aos ouvidos estrangeiros.
Quando contei o passado de nossa presidente reeleita e afastada, de como ela chefiava uma organização guerrilheira que sequestrava, assaltava e matava, inclusive pais de família na frente de suas duas filhas pequenas (como é o caso do Capitão Chandler, norte-americano), eles acharam estranhíssimo, quase inacreditável.
Quando falei das mentiras, das suspeitas de assassinatos (Celso Daniel?), da manipulação, da aliança com terroristas internacionais, do ódio profundo aos Estados Unidos, da corrupção sistêmica e de toda engenharia social explícita realizada pelo molusco-mor (Lulla) e seus asseclas, eles acharam estranhíssimo, pura loucura.
Quando falei de nossos problemas com violência (70.000 mortes violentas ao ano - o índice dos EUA é de 17.000 com uma população maior que a do Brasil em cerca de 100 milhões de pessoas), dengue, Rio Doce contaminado e descaso das autoridades, H1N1, Zika, estradas inseguras (quase morri três dias antes ao lado de minha esposa num acidente de carro) etc., eles acharam estranhíssimo, puro caos social.
Quando falei de vítimas de assaltos, estupros e assassinatos que mal recebem a atenção caridosa de nosso governo enquanto algozes assassinos, estupradores e bandidos de todas as espécies (incluindo as piores) ganham bolsas e são bravamente defendidos por nossa elite e enquanto terroristas e assassinos cruéis de um passado sangrento (porém, ainda menos sangrento que os dias de hoje) recebem homenagens nomeando avenidas, escolas e postos de saúde no Brasil, eles acharam estranhíssimo, pura contradição e inversão de valores.
Eles têm seus problemas, é claro. Muitos, aliás. De alguma forma, vivem realidades semelhantes às do Brasil: universidades infiltradas por ideólogos, exaltação e instrumentalização da marginalidade à moda de Herbert Marcuse, emprego difuso do politicamente correto, governos corruptos etc. Apesar de tudo, ainda estão bem longe de alcançarem a profundidade no abismo em que o Brasil se encontra, já imerso em trevas.
Quando vejo a exaltação das virtudes, a busca sincera pelo diálogo com quem pensa diferente, a religiosidade explícita e sincera em todos os aspectos da vida, a abertura acadêmica (por mais que eles reclamem de problemas parecidos com os nossos) e a capacidade de moverem tempo e recursos em obras de caridade (por mais que eles tenham abraçado o discurso de que são muito individualistas), só posso perguntar: quem transformou meu país nesse tenebroso hospício chefiado pelo Dr. Mabuse? Quem soltou as bestas apocalípticas e prendeu os bons? Que futuro meus filhos terão neste país? Aliás, que futuro todos nós teremos? Teremos um futuro?
Os piores tempos. Os melhores tempos.


quinta-feira, 9 de junho de 2016

QUANDO A MEDICINA ENLOUQUECEU

Ensaios sobre a perda da identidade da Medicina e a necessidade de compreender o modelo hipocrático e cristão do ocidente


Copio a idéia deste título do livro When Medicine Went Mad, editado por Arthur Caplan[1], um grande bioeticista norte-americano. E se a Medicina pode enlouquecer, a conclusão é que há um padrão de sanidade a ser reconhecido.



Muitas vezes sou questionado sobre meu trabalho e minhas pesquisas. Por que se preocupar com o que médicos mortos há mais de mil ou dois mil anos disseram? Por que buscar os escritos desatualizados da tradição hipocrática e cristã?

É claro que os escritos antigos estão cientificamente desatualizados, mas guardam o aspecto eterno que repousa nos valores e na experiência humana. Remexo tanto no passado, e no presente, da Ética Médica e da Bioética porque trabalho com a essência da Medicina, com a nossa identidade enquanto profissionais da área da saúde.

Num antigo seminário promovido pela Associação dos Estudantes de Medicina em Vitória, no Espírito Santo, lembro-me de um colega que defendeu a possibilidade de a Medicina ser compatível com qualquer ideologia política que você tenha. O que defendi à época, e ainda defendo, é que essa idéia é errada e perigosa. Aliás, perigosíssima!

Enquanto os médicos não adquirirem a cultura e a bagagem humanística necessária, poderemos ser sempre alvos das piores monstruosidades e distorções da prática médica.

Basta uma pequena mudança de foco, um pequeno resultado de engenharia social, e pronto! O estrago está feito.

Se por algum momento o médico acreditar que seu principal objetivo não é beneficiar o paciente e sim, promover o progresso ou avanço da ciência, tudo estará perdido. Se por algum momento o médico acreditar que seu principal objetivo é promover um tipo de visão social coletivista e revolucionária, crimes inconfessáveis serão perpetuados.

Estes são os exemplos da medicina nazista e comunista. Adiante, oferecerei algumas passagens perturbadoras daqueles que viveram na carne o resultado da medicina que se esqueceu da própria identidade.

***

Após aceitar uma pequena idéia - a de que o principal dever do médico não é com seu paciente - tudo muda.

Sara Seiler Vigorito relata que, aparentemente, os médicos nazistas eram normais, tinham suas famílias, atendiam em hospitais e trabalhavam com diligência. A única exceção era a de que se dedicavam a um propósito alternativo.[2] Haviam de fato se desligado da tradição hipocrática e cristã da medicina.

O ser humano, uma vez destituído de sua posição de prioridade, virou simples mercadoria. Enquanto vivos, prisioneiros em campos de concentração nazistas eram utilizados como cobaias em experimentos desumanos. Uma vez sacrificados, seu cabelo serviria para fazer o estofo dos colchões, a gordura serviria para fazer o sabão (produzido pelos próprios prisioneiros e futuras fontes de “matéria prima”), a pele ofereceria tecido para produção de abajures e os dentes de ouro iriam para os cofres nazistas.[3]

Eva Kor e sua irmã sobreviveram aos horrores do campo de concentração nazista sob os cuidados do terrível Joseph Mengele.

Relatos especialmente assustadores nos alcançam daqueles que sobreviveram à experiência nos campos de estudos “científicos” em gêmeos, coordenados pelo médico Joseph Mengele, doutor em Antropologia, o mais famoso carniceiro entre os médicos nazistas. Eva Mozes Kor foi presa junto com sua irmã gêmea, e relata que gêmeos idênticos eram “preciosos” para Mengele.



Richard Baer, Josef Mengele e Rudolf Hoess

Havia de tudo. Desde vivissecções, passando por sutura corporal entre dois gêmeos para testar rejeição, até experimentos de injeção de microrganismos para testar eficiência de armas biológicas e a verificação de quanto sangue alguém poderia perder antes de morrer. E a sensação era a de que o ser humano se tornara um pedaço de carne.[4]



Gêmeos eram especialmente selecionados para as pesquisas de Mengele

Posso compreender por que Margaret Somerville afirma que a idéia mais perigosa do mundo é acreditar que o ser humano nada tem de especial.[5] E também confirmo minha percepção inicial de que a medicina não é compatível com qualquer ideologia. Eu diria que ela é frontalmente oposta a determinadas ideologias.[6]

***

O tão famoso mantra de Georgetown, presente na abertura do livro mais famoso nos círculos de estudo da Bioética, proclama que os grandes problemas éticos do presente e a evolução tecnológica promovem desafios que precisam de uma nova ética. Citam a medicina nazista como exemplo.[7] Eu ouso dizer diferente: foi a insensibilidade moral de uma geração de médicos que optaram por ignorar a moralidade cristã e hipocrática que fundamentou a nossa medicina que permitiu tais atrocidades.

Muitos poderiam alegar que os médicos foram forçados a fazer isso por causa de um governo tirânico. Porém, evidências fortes indicam que médicos destituídos da identidade profissional adequada não somente se voluntariaram para processos de eugenia e pesquisa desumana, eles lideraram o establishment acadêmico, ocupando um alto percentual de reitorias, publicando centenas de periódicos científicos e integrando as fileiras nazistas.[8]

Qual foi o grande erro? Os médicos esqueceram quem eles eram e quem eles deviam buscar ser. Acreditaram que a nova racionalidade e a nova moralidade deveriam ascender em detrimento da moralidade de escravos que imperava anteriormente, como já dizia Nietzsche ao se referir à moralidade cristã.

Hoje a Bioética novamente parece sonhar uma libertação da antiga moralidade. Projetos fantásticos de libertação moral nos empurram para futuros mais eficazes, de alta tecnologia, de aprimoramento, de contenção de desperdícios, de uma visão nova sobre o que é o ser humano. E ao que parece, ainda não aprendemos as velhas lições, positivas ou negativas.

Mas assim é o crescimento moral do ser humano: a cada nova vida, um novo desafio para reconquistar e encarnar tudo aquilo que provou ser bom ao longo de nossa história. A medicina tem sua identidade e, portanto, tem um modelo bem específico a ser seguido em termos éticos. É claro que cada tempo exige novos arranjos, pois as situações específicas sempre mudarão trazendo novidades. Todavia, as regras gerais e fundamentais permanecem, e sempre permaneceram ao longo das eras entre os mais diferentes povos capazes do esforço civilizacional.[9]


Prof. Dr. Hélio Angotti Neto é Coordenador do Curso de Medicina do UNESC, Diretor da Mirabilia Medicinæ (Revista internacional em Humanidades Médicas), Membro da Comissão de Ensino Médico do CRM-ES, Visiting Scholar da Global Bioethics Education Initiative do Center for Bioethics and Human Dignity em 2016, Membro do Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC e criador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina (SEFAM).





[1] CAPLAN, Arthur L. When Medicine Went Mad: Bioethics and the Holocaust. Totowa, New Jersey: Humana Press, 1999

[2] VIGORITO, Sara Seiler. A Profile of Nazi Medicine: The Nazi Doctor – His Methods and Goals. In: CAPLAN, Arthur L. When Medicine Went Mad: Bioethics and the Holocaust. Totowa, New Jersey: Humana Press, 1999, p. 9-13.

[3] KOR, Eva Mozes. Nazi Experiments as Viwed by a Survivor of Mengele’s Experiments. In: Ibid., p. 3-8.

[4] Ibid.

[5] SOMERVILLE, Margaret. Bird on an Ethics Wire: Battles about Values in the Culture Wars. Chicago: McGill-Queen’s University Press, 2015.

[6] Como já acredito que ficou claro em: ANGOTTI NETO, Hélio. A Morte da Medicina. Campinas: VIDE Editorial, 2014.

[7] BEAUCHAMP, Tom; CHILDRESS, James. Principles of Biomedical Ethics. 7th edition. Baltimore: Oxford University Press, 2012.

[8] PROCTOR, Robert N. Nazi Biomedical Policies. In: CAPLAN, Arthur L. When Medicine Went Mad: Bioethics and the Holocaust. Totowa, New Jersey: Humana Press, 1999, p.23-42.

[9] LEWIS, Clive Staple. A Abolição do Homem. Rio de Janeiro: Editora MArtins Fontes, 2012.