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domingo, 29 de janeiro de 2017

SUGESTÃO DE LEITURA: VIKTOR FRANKL

A BUSCA EXISTENCIAL DE VIKTOR FRANKL


Em seu livro “O Que Não Está Escrito Nos Meus Livros”, Viktor Frankl conta breves trechos de sua história repleta de grandes acontecimentos e conquistas. Suas memórias, ditadas ao fim de sua vida, na décima década, são breves, porém selecionadas por sua significação, trazendo eventos singelos e prosaicos ao lado de momentos aparentemente simples e desinteressantes, que revelam um ominoso sentimento de gratidão e significação diante da realidade.

Um capítulo que trata do ano anterior à deportação para um campo de concentração, narra eventos capazes de demonstrar de quem falamos.

O nazismo avançara sobre a Áustria. Todos sabiam o destino dos deportados. Todos sabiam que tudo era uma questão de tempo. Por enquanto os “úteis” ainda permaneciam prestando serviços, enquanto os “comedores inúteis” eram sistematicamente massacrados. O próprio Frankl permanecera um ano a mais sem deportação ao tratar um agente da Gestapo de sua agorafobia. Eis que o psiquiatra recebe um visto para palestrar no exterior, nos Estados Unidos. Era a chance de se salvar! Mas deixaria seus pais para trás, destinados ao extermínio. Chegando em casa, após um passeio em que meditava e pedia a Deus orientação sobre qual caminho seguir (um sinal dos céus), viu um pequeno pedaço de mármore sobre a mesa, retirado das ruínas de uma sinagoga destruída, onde se lia o começo de um mandamento: “honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os seus dias na terra”.

Frankl decidiu ficar, se casou, viu seu filho ser abortado pelas forças de ocupação, já que nenhum judeu poderia nascer a partir de certa data, e nem poderiam se casar. Essa destruição das crianças judias dentro do útero materno, incluindo seu filho, o levou a escrever a obra “The Unheard Cry for Meaning”, traduzida no Brasil pelo nome de “Um sentido para a vida: psicoterapia e humanismo”.


A história de Viktor Emil Frank é um relato de amor e busca de sentido existencial em confronto com uma época repleta de violência, irracionalismo e niilismo. É o testemunho dos males que geraram as maiores tragédias de nossa história.



sexta-feira, 4 de novembro de 2016

OS PERIGOS DA SUBMISSÃO MORAL À AUTORIDADE

BANALIDADE DO MAL, SUBMISSÃO MORAL E A PESQUISA DE STANLEY MILGRAM

https://academiamedica.com.br/da-submissao-imoral-autoridade/


Já tratei do comunismo e do nazismo na medicina, e de como tais ideologias sangrentas levaram à completa destruição do legado hipocrático e cristão. Já falei dos perigos do transumanismo e de como tal utopia poderá nos levar a um despotismo “esclarecido”. Já falei da necessidade de compreender a Medicina enquanto comunidade moral, detentora de valores próprios dignos de serem defendidos em prol da sociedade.
Em todos os casos de abuso, pensadores de grande capacidade estiveram à frente das mutações sociais tantas vezes desastrosas. Todavia, resta uma pergunta extremamente importante.
Por que muitas pessoas inteligentes e capazes, devotadas profissionalmente ao bem do próximo, pelo menos em tese, fizeram tanto mal após terem deixado se levar pelas mais loucas e estapafúrdias idéias?
Já sabemos que as mutações sociais genocidas e criminosas começaram na cabeça de pequenas elites intelectuais. Resta saber como é que tantos foram capazes de cair no canto da sereia totalitarista.
Tal pergunta não é novidade, e suscita uma resposta inquietante.
***
Stanley Milgram, um pesquisador da área das Ciências Sociais, também se perguntou como era possível que tantas pessoas teoricamente esclarecidas pudessem apoiar coisas tão monstruosas como o nazismo. Para responder, criou um experimento assustador, no qual suas cobaias participavam inadvertidamente de uma hipotética pesquisa imoral.
No vídeo abaixo você assiste um documentário legendado para portugues que o farrá entender um pouco mais do Experimento de Stanley Milgram. As conteúdo pode pertubar um pouco, mas os conhecimentos são muito válidos.
Na pesquisa, as cobaias dariam choques em indivíduos destacados para responder a um teste de memória. Ao lado da cobaia ficava o ator que fazia o papel de pesquisador, sempre reafirmando que estava tudo sob controle e que tudo fazia parte de um protocolo científico. Os choques eram dados após respostas inadequadas até cargas altíssimas. A cobaia que consentisse com o experimento, mesmo que protestando durante o mesmo, seguia aumentando a voltagem dos choques até níveis letais, apesar dos gritos de quem teoricamente estava levando uma descarga elétrica na outra sala, sempre sob o olhar do “pesquisador” que encarnava a autoridade científica.
Qual foi o resultado do experimento? A grande maioria das pessoas, professores universitários altamente instruídos entre elas, disparou cargas elétricas na “falsa cobaia” do outro lado, ultrapassando até mesmo o limite de risco mortal. [1]
A conclusão é inquietante. Quando estamos diante de uma autoridade que nos manda prosseguir, mesmo sabendo que há algo de profundamente errado, nossa tendência é seguir adiante, suprimindo nossa intuição moral e praticando atos cruéis.
Além dessa pesquisa, que mostra como somos obedientes ao ponto de tomar parte em genocídios e pesquisas antiéticas, outra pesquisa na mesma linha verificou como preferimos nos acomodar ao grupo ao invés de agir de forma independente. O experimento de Solomon Asch incluiu vários autores que participavam do experimento ao lado de uma única cobaia desavisada. Uma imagem era projetada e cada um emitia sua opinião. Tudo começava bem, mas em determinado ponto, os atores propositalmente respondiam de forma errada, porém coerentes entre si. A maior parte das cobaias negou o que estava diante de seus olhos e respondeu em conformidade com o grupo.[2]
Os mecanismos de conformismo grupal e de submissão à autoridade podem ser utilizados para bons fins, obviamente, mas abrem espaço para perigosas manipulações. Nesse sentido, uma das principais características propaladas pela Bioética vem bem a calhar.
Desde o seu surgimento, a Bioética se propôs a questionar, inclusive a si mesma. Nascida nos agitados e rebeldes anos das décadas de 60 e 70 do século XX, a Bioética se colocou a examinar o que estava estabelecido.
Quem acompanha meus textos sabe muito bem que considero deletério muito do questionamento feito contra a tradição hipocrática, que muitas vezes é infundado e irresponsável. Porém, não há como discordar de que o estímulo ao questionamento – do ponto de vista socrático, digamos assim – pode ser extremamente benéfico.
A Bioética, em termos técnicos e acadêmicos, está em franca expansão, cada vez mais recheada de estudiosos e trabalhos de qualidade diversificada. Dialeticamente falando, tornou-se ela mesma uma disciplina que servirá de autoridade e estimulará o conformismo grupal em seus membros.
Porém, tenho a esperança de que a Bioética jamais abandonará sua disposição inicial de estimular sempre a inteligência individual a olhar novamente a realidade, com olhos ávidos pelo conhecimento responsável, buscando novas perspectivas em antigas situações e em desafios inéditos.
A obediência em si à autoridade é neutra e pode ser muito bem direcionada e aproveitada, mas a obediência cega à autoridade científica ou política é pura irresponsabilidade. Que a Bioética seja um auxílio à remoção das escamas que cobrem nossos olhos.
Prof. Dr. Hélio Angotti Neto é Colunista do Academia Médica, Coordenador do Curso de Medicina do UNESC, Diretor da Mirabilia Medicinæ (Revista internacional em Humanidades Médicas), Membro da Comissão de Ensino Médico do CRM-ES, Visiting Scholar da Global Bioethics Education Initiative do Center for Bioethics and Human Dignity em 2016, Membro do Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC, Presidente da Comissão de Bioética do Hospital Maternidade São José/UNESC e criador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina (SEFAM).

[1] Milgram, Stanley (1963). “Behavioral Study of Obedience”. Journal of Abnormal and Social Psychology. 67 (4): 371–8. doi:10.1037/h0040525
[2] Asch, S.E. (1951). Effects of group pressure on the modification and distortion of judgments. In H. Guetzkow (Ed.), Groups, leadership and men (p. 177–190). Pittsburgh, PA: Carnegie Press

quarta-feira, 15 de junho de 2016

A MEDICINA COMUNISTA

A Medicina Comunista


O Horror e a Repressão de uma Medicina que se Transformou em Arma Estatal


O Estado - enquanto organização de pessoas que naturalmente tende à própria perpetuação e ao aumento do seu poder e de suas funções - pode transformar-se num perigoso elemento de totalitarismo numa sociedade. O Estado também pode instrumentalizar todas as instituições e grupos da sociedade para o propósito final de crescer cada vez mais, drenando tudo e todos.

Já a medicina, que detém grande autoridade científica e social, pode ser um eficaz instrumento de controle e manipulação da sociedade, para o bem ou para o mal. O médico tem o poder para remover alguém do trabalho, aposentá-lo, abrir seu corpo causando um dano controlado chamado cirurgia, declarar alguém morto e, talvez o mais assombroso, nomear uma doença e determinar parcialmente o futuro de um paciente. Talvez este último seja o mais sutil e poderoso elemento da profissão médica.

Quando estamos diante de uma doença claramente identificável, como um carcinoma basocelular na pele de um paciente, não há muito que duvidar. Pode chamá-lo por outro nome, pode tratá-lo de diferentes formas, mas a evolução e as repercussões físicas são bem objetivas e previsíveis. O problema começa quando estamos diante da doença psiquiátrica. Há, obviamente, um espaço muito maior para elementos subjetivos de comportamento que podem alterar radicalmente o prognóstico do paciente, e é justamente aí que um grande perigo pode surgir.

A mistura é explosiva. De um lado, um Estado ocupado por perigosos psicopatas[1], sedentos de poder e controle. Do outro, a medicina, capaz de gerar gigantesca influência na sociedade. Una tudo isso a um governo do tipo revolucionário e totalitário[2] e voilá! A máquina de moer carne humana está pronta. E qualquer um que se oponha poderá ser denominado louco ou doente. A racionalidade por trás de tudo isso é cruel: “nós temos a perfeição encarnada no sistema, qualquer um que avance contra nós é louco e perigoso.”

Nenhum regime encarnou tão bem o ideal do totalitarismo político e espiritual – no sentido de domínio sobre a mente do sujeito – do que o Comunismo em suas diversas encarnações.

Os maiores crimes contra a vida humana podem simplesmente ser cobertos pela desculpa de que pessoas precisam de tratamento psiquiátrico. Ainda hoje alguns manifestantes e oposicionistas dos regimes de esquerda (Rússia, China e tantos outros) desaparecem da sociedade quando adentram um hospital psiquiátrico para que sejam “tratados”. É uma solução muito cômoda, porque muitas explicações seriam necessárias se simplesmente matassem o indivíduo, certo?[3]

Conforme o que o próprio Nikita Khrushchev disse em 1959:

“Um crime é um desvio dos padrões geralmente reconhecidos de comportamento, frequentemente causado por problemas mentais. É possível que existam doenças, problemas mentais, entre certas pessoas da sociedade comunista? É evidente que sim. Se é assim, logo existirão ofensas características de pessoas com mentes anormais... Para aqueles que comecem a erigir oposição ao Comunismo de tal forma, nós podemos dizer que... claramente seu estado mental não é normal.”[4]
Não é surpresa o intenso trabalho vindo de terras socialistas e comunistas a leste investido na pesquisa dos processos psicológicos e psiquiátricos, muitos buscando a chave de como manipular o comportamento humano. O bom e velho Pavlov, e toda uma hoste de pesquisadores da psicologia social e da manipulação não me deixam mentir.

Aliado ao uso da medicina psiquiátrica para fins totalitários, basta misturar a manipulação da cultura conforme os ditames de Antônio Gramsci e de toda a Escola de Frankfurt[5] e teremos o caminho para a escravidão perfeitamente pavimentado.

E novamente voltamos ao problema da medicina que perdeu sua identidade. Uma vez que a proteção da vida e da integridade do paciente movida por um compromisso inegociável com a beneficência for trocada por qualquer outra coisa ou qualquer outra fidelidade, está encerrada a medicina tradicional hipocrática e cristã.

Ao invés de direcionar-se ao paciente como objetivo concreto e imediato da prática médica, o juramento médico soviético, por exemplo, se direcionava à abstrata humanidade e à sociedade, demonstrando o predomínio do utilitarismo social contra a beneficência direta ao ser humano. Ao invés de apelar para uma lei universal, apela-se à moralidade comunista – isso é assustador para qualquer um que tenha lido o mínimo de história soviética – e à obediência ao Estado. Sem dúvida nenhuma é o juramento que todos os Estados com tendência totalitarista gostariam de impor aos seus médicos.[6]

Voltando aos dias de hoje, longe no tempo e na geografia, não estranho nem um pouco a insistente atenção dada aos médicos e à educação – ou deseducação – pelos governos da esquerda radical no Brasil. O constante desmanche da autoridade médica, substituída é claro pela autoridade ideológica radical que ocupa o vácuo deixado, e o trabalho de hegemonia cultural sempre presente nas universidades e escolas, onde temos ideólogos manipuladores aliados aos piores índices educacionais internacionais, deixam bem claro a tendência entrópica de nossa elite.

A progressiva substituição do perfil médico brasileiro, saindo de uma classe profissional altamente científica e técnica, com padrões de qualidade reconhecidos internacionalmente, porém quase que completamente destituída de formação política, para uma classe subserviente ao Estado, menos qualificada e muito mais ideologizada, claramente remete a uma intensa medida de engenharia social. Pessoalmente, considero os dois modelos errados e distantes da identidade tradicional da medicina, que deve ansiar por excelência em termos científicos, técnicos e morais, incluindo a política.

Junto com a destruição da identidade médica, atos frontalmente contrários à vida humana - e à opinião majoritária do provo brasileiro, diga-se de passagem - são cotidianamente instituídos. Prega-se o abortamento voluntário e a eutanásia, por exemplo, e a vida humana deixa de ser sagrada.

Cartaz educativo sobre o aborto seguro na União Soviética.

Realmente sagrado deve ser o Estado - esse Leviatã insaciável - e a vontade de nossa elite política esquerdista, certo?

Não. Certo é o compromisso mais que milenar de nossa Medicina com a vida humana e com o ser humano concreto, de carne e osso, que todos os dias senta-se à frente de seu médico e pede auxílio, socorro e compreensão. Certo é defender a vida humana, pressuposto de qualquer atividade médica. Certo é defender nossa própria identidade moral contra os enxertos desumanos que ideologias monstruosas tentam empurrar à força sobre a sociedade.

A boa medicina, de raiz cultural hipocrática e cristã, tem sua própria escala de valores a ser defendida.



[1] LOBACEWSKI, Andrew. Ponerologia Política. Campinas: VIDE Editorial, 2015.

[2] Na concepção de Olavo de Carvalho, revolução é a concentração de poder mediante a promessa de um futuro melhor, justificando a inversão moral, isto é, desculpando atos imorais para se alcançar um distante fim desejável.

[3] VAN NOREN, Robert. Ending political abuse of psychiatry: where we are at and what needs to be done. BJPsych Bulletin (2016), 40, 30-33, doi: 10.1192/pb.bp.114.049494

[4] Ibid.; KNAPP, M. Mental Health Policy and Practice Across Europe: The Future Direction of Mental Health Care. McGraw-Hill, 2007.

[5] CARVALHO, Olavo de. A Nova Era e a Revolução Cultural. Campinas: VIDe Editorial, 2015.

[6] Association of American Physicians and Surgeons. Comparison between Oath of Hippocrates and Other Oaths. Internet, http://www.aapsonline.org/ethics/oathcomp.htm

quinta-feira, 9 de junho de 2016

QUANDO A MEDICINA ENLOUQUECEU

Ensaios sobre a perda da identidade da Medicina e a necessidade de compreender o modelo hipocrático e cristão do ocidente


Copio a idéia deste título do livro When Medicine Went Mad, editado por Arthur Caplan[1], um grande bioeticista norte-americano. E se a Medicina pode enlouquecer, a conclusão é que há um padrão de sanidade a ser reconhecido.



Muitas vezes sou questionado sobre meu trabalho e minhas pesquisas. Por que se preocupar com o que médicos mortos há mais de mil ou dois mil anos disseram? Por que buscar os escritos desatualizados da tradição hipocrática e cristã?

É claro que os escritos antigos estão cientificamente desatualizados, mas guardam o aspecto eterno que repousa nos valores e na experiência humana. Remexo tanto no passado, e no presente, da Ética Médica e da Bioética porque trabalho com a essência da Medicina, com a nossa identidade enquanto profissionais da área da saúde.

Num antigo seminário promovido pela Associação dos Estudantes de Medicina em Vitória, no Espírito Santo, lembro-me de um colega que defendeu a possibilidade de a Medicina ser compatível com qualquer ideologia política que você tenha. O que defendi à época, e ainda defendo, é que essa idéia é errada e perigosa. Aliás, perigosíssima!

Enquanto os médicos não adquirirem a cultura e a bagagem humanística necessária, poderemos ser sempre alvos das piores monstruosidades e distorções da prática médica.

Basta uma pequena mudança de foco, um pequeno resultado de engenharia social, e pronto! O estrago está feito.

Se por algum momento o médico acreditar que seu principal objetivo não é beneficiar o paciente e sim, promover o progresso ou avanço da ciência, tudo estará perdido. Se por algum momento o médico acreditar que seu principal objetivo é promover um tipo de visão social coletivista e revolucionária, crimes inconfessáveis serão perpetuados.

Estes são os exemplos da medicina nazista e comunista. Adiante, oferecerei algumas passagens perturbadoras daqueles que viveram na carne o resultado da medicina que se esqueceu da própria identidade.

***

Após aceitar uma pequena idéia - a de que o principal dever do médico não é com seu paciente - tudo muda.

Sara Seiler Vigorito relata que, aparentemente, os médicos nazistas eram normais, tinham suas famílias, atendiam em hospitais e trabalhavam com diligência. A única exceção era a de que se dedicavam a um propósito alternativo.[2] Haviam de fato se desligado da tradição hipocrática e cristã da medicina.

O ser humano, uma vez destituído de sua posição de prioridade, virou simples mercadoria. Enquanto vivos, prisioneiros em campos de concentração nazistas eram utilizados como cobaias em experimentos desumanos. Uma vez sacrificados, seu cabelo serviria para fazer o estofo dos colchões, a gordura serviria para fazer o sabão (produzido pelos próprios prisioneiros e futuras fontes de “matéria prima”), a pele ofereceria tecido para produção de abajures e os dentes de ouro iriam para os cofres nazistas.[3]

Eva Kor e sua irmã sobreviveram aos horrores do campo de concentração nazista sob os cuidados do terrível Joseph Mengele.

Relatos especialmente assustadores nos alcançam daqueles que sobreviveram à experiência nos campos de estudos “científicos” em gêmeos, coordenados pelo médico Joseph Mengele, doutor em Antropologia, o mais famoso carniceiro entre os médicos nazistas. Eva Mozes Kor foi presa junto com sua irmã gêmea, e relata que gêmeos idênticos eram “preciosos” para Mengele.



Richard Baer, Josef Mengele e Rudolf Hoess

Havia de tudo. Desde vivissecções, passando por sutura corporal entre dois gêmeos para testar rejeição, até experimentos de injeção de microrganismos para testar eficiência de armas biológicas e a verificação de quanto sangue alguém poderia perder antes de morrer. E a sensação era a de que o ser humano se tornara um pedaço de carne.[4]



Gêmeos eram especialmente selecionados para as pesquisas de Mengele

Posso compreender por que Margaret Somerville afirma que a idéia mais perigosa do mundo é acreditar que o ser humano nada tem de especial.[5] E também confirmo minha percepção inicial de que a medicina não é compatível com qualquer ideologia. Eu diria que ela é frontalmente oposta a determinadas ideologias.[6]

***

O tão famoso mantra de Georgetown, presente na abertura do livro mais famoso nos círculos de estudo da Bioética, proclama que os grandes problemas éticos do presente e a evolução tecnológica promovem desafios que precisam de uma nova ética. Citam a medicina nazista como exemplo.[7] Eu ouso dizer diferente: foi a insensibilidade moral de uma geração de médicos que optaram por ignorar a moralidade cristã e hipocrática que fundamentou a nossa medicina que permitiu tais atrocidades.

Muitos poderiam alegar que os médicos foram forçados a fazer isso por causa de um governo tirânico. Porém, evidências fortes indicam que médicos destituídos da identidade profissional adequada não somente se voluntariaram para processos de eugenia e pesquisa desumana, eles lideraram o establishment acadêmico, ocupando um alto percentual de reitorias, publicando centenas de periódicos científicos e integrando as fileiras nazistas.[8]

Qual foi o grande erro? Os médicos esqueceram quem eles eram e quem eles deviam buscar ser. Acreditaram que a nova racionalidade e a nova moralidade deveriam ascender em detrimento da moralidade de escravos que imperava anteriormente, como já dizia Nietzsche ao se referir à moralidade cristã.

Hoje a Bioética novamente parece sonhar uma libertação da antiga moralidade. Projetos fantásticos de libertação moral nos empurram para futuros mais eficazes, de alta tecnologia, de aprimoramento, de contenção de desperdícios, de uma visão nova sobre o que é o ser humano. E ao que parece, ainda não aprendemos as velhas lições, positivas ou negativas.

Mas assim é o crescimento moral do ser humano: a cada nova vida, um novo desafio para reconquistar e encarnar tudo aquilo que provou ser bom ao longo de nossa história. A medicina tem sua identidade e, portanto, tem um modelo bem específico a ser seguido em termos éticos. É claro que cada tempo exige novos arranjos, pois as situações específicas sempre mudarão trazendo novidades. Todavia, as regras gerais e fundamentais permanecem, e sempre permaneceram ao longo das eras entre os mais diferentes povos capazes do esforço civilizacional.[9]


Prof. Dr. Hélio Angotti Neto é Coordenador do Curso de Medicina do UNESC, Diretor da Mirabilia Medicinæ (Revista internacional em Humanidades Médicas), Membro da Comissão de Ensino Médico do CRM-ES, Visiting Scholar da Global Bioethics Education Initiative do Center for Bioethics and Human Dignity em 2016, Membro do Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC e criador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina (SEFAM).





[1] CAPLAN, Arthur L. When Medicine Went Mad: Bioethics and the Holocaust. Totowa, New Jersey: Humana Press, 1999

[2] VIGORITO, Sara Seiler. A Profile of Nazi Medicine: The Nazi Doctor – His Methods and Goals. In: CAPLAN, Arthur L. When Medicine Went Mad: Bioethics and the Holocaust. Totowa, New Jersey: Humana Press, 1999, p. 9-13.

[3] KOR, Eva Mozes. Nazi Experiments as Viwed by a Survivor of Mengele’s Experiments. In: Ibid., p. 3-8.

[4] Ibid.

[5] SOMERVILLE, Margaret. Bird on an Ethics Wire: Battles about Values in the Culture Wars. Chicago: McGill-Queen’s University Press, 2015.

[6] Como já acredito que ficou claro em: ANGOTTI NETO, Hélio. A Morte da Medicina. Campinas: VIDE Editorial, 2014.

[7] BEAUCHAMP, Tom; CHILDRESS, James. Principles of Biomedical Ethics. 7th edition. Baltimore: Oxford University Press, 2012.

[8] PROCTOR, Robert N. Nazi Biomedical Policies. In: CAPLAN, Arthur L. When Medicine Went Mad: Bioethics and the Holocaust. Totowa, New Jersey: Humana Press, 1999, p.23-42.

[9] LEWIS, Clive Staple. A Abolição do Homem. Rio de Janeiro: Editora MArtins Fontes, 2012.

segunda-feira, 28 de março de 2016

BIOÉTICA DA ELITE "ESCLARECIDA"

BIOÉTICA DA "ELITE ESCLARECIDA"

BIOÉTICA PARA O POVO, PELO POVO OU SOBRE O POVO? REFLEXÕES ACERCA DA BIOÉTICA COMO INSTRUMENTO DE ENGENHARIA SOCIAL


Em recente artigo publicado no Academia Médica, tratei acerca do aspecto de poder cultural ligado à Bioética. Neste, analiso algumas consequências e exemplos dessa realidade.

O discurso padrão nos informa que os jovens das décadas de 60 e 70, fomentados pela ideologia trazida pela famigerada Escola de Frankfurt, se ergueram contra as convenções, contra as tradições e contra o elitismo.

Nesse contexto surgiu a Bioética, justificada pelo anseio de democratizar o debate em saúde.

Segundo reza a lenda corrente na academia, deveríamos ter um debate de amplo acesso, diferente do debate enclausurado, elitista e opressor dos médicos, trancafiados em suas torres de marfim com seus códigos exclusivistas e seu Juramento antiquado e ineficaz para nos proteger de abusos horrendos.

O livro de Bioética mais lido no mundo inteiro, por exemplo, já começa anunciado placidamente, inexoravelmente, a derrota da moralidade hipocrática da medicina e a necessidade incontornável da adoção da nova Bioética. É o famigerado Mantra de Georgetown.[1]

Em todo esse cenário, parcialmente verdadeiro e, portanto, verossímil, há diversas mistificações e torções exageradas da realidade.

Não duvido que na raiz da Bioética estava o desejo saudável de transdisciplinaridade. Acredito sinceramente que os melhores bioeticistas ainda anseiam pelo contato com outras mentes e corações apaixonados pela vida humana, e querem realmente abrir o debate sincero em busca do melhor. Mas ao mesmo tempo vejo diversos estudiosos da Bioética que estão claramente dispostos a utilizá-la como arma de combate cultural, como instrumento de engenharia social e até mesmo de opressão contra discordantes.[2]

Quero convidar o leitor à reflexão acerca de quais usos tem sido atribuídos à Bioética em nossos dias.

Embora os médicos sejam acusados de paternalistas e elitistas, não é totalmente certo dizer que a ética denominada profissional é inadequada por não representar a sociedade. Médicos, enfermeiros, psicólogos e fisioterapeutas, entre tantos outros, são membros da sociedade e representam-na, acreditados como profissionais, em seus grêmios.

Mas é óbvio que, ao mesmo tempo, há que se buscar uma harmonia saudável entre os valores gerais da sociedade e os valores específicos de seus habitantes especializados em determinada área, neste caso a da saúde. É no mínimo suspeito ser instaurada uma medicina abortista num país cristão que é maciçamente contra o aborto, como está para acontecer no Brasil.

De certa forma, o debate democratizou, mas talvez não da forma que os mais otimistas esperavam.

Ao invés da participação da sociedade brasileira, muitas vezes observo a ingerência externa e a participação de agências e instituições internacionais totalmente contrárias aos valores brasileiros.[3]

É inegável que, hoje, profissionais de diversos ramos discutem assuntos arcanos onde antes médicos e enfermeiros dominavam. Porém, os assuntos ainda permanecem arcanos, dominados por “magos” diferentes.

Os temas especializados da Bioética ainda habitam o interior de suas torres de marfim e repetidamente revelam estar muito longe dos valores do público e de seu escrutínio.

Alguns bioeticistas, filósofos e formuladores de políticas públicas parecem repudiar o contato com a “plebe”. Plebe, esta, repleta daquilo que a Organização das Nações Unidas, por meio da UNESCO, chama de preconceitos familiares, isto é, religião e tradições herdadas.[4]

Descobri que a Bioética não era tão aberta quanto eu imaginava há algum tempo, quando encontrei o artigo que defendia chamar o assassinato de bebês pelo nome de Aborto Pós-Nascimento. Deparei-me com o artigo quase que aleatoriamente, ao passear pelo conteúdo do Journal of Medical Ethics. Levei-o ao Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina para discutir com os alunos e a reação foi quase que unânime: todos estavam chocados em saber como algo tão monstruoso quanto o homicídio infantil fora discutido de forma tão corriqueira, tão vã, no meio acadêmico especializado da Bioética.[5]

A reação na mídia também veio. Pessoas liam horrorizadas o que respeitáveis senhores e senhoras discutiam de cima de suas cátedras, com palavras elegantes e conceitos rigorosos. Era uma obscenidade, mas era uma obscenidade elegante e lógica, entenda bem.

Do outro lado, editores e pesquisadores reclamaram da violência verbal daqueles “populares” que leram o artigo e responderam horrorizados à proposta ali contida: matar bebês.

Eram os terríveis “reacionários incultos” que se erguiam escandalizados para censurar o debate iluminado dos acadêmicos.

De um lado havia o choque à sensibilidade moral de milhões de pessoas que mal podiam acreditar no que se propagava num respeitado periódico de ética médica e que reagiam com acusações verbais altamente agressivas; porém, do outro, estava uma elegante e erudita elite universitária que propunha, com termos mui chiques e técnicos – é tudo lógica, afinal – o extermínio de vidas humanas negando-lhes a condição de pessoa digna.

E isso chamou minha atenção.

Vive-se uma guerra cultural, isto não é novidade.

Mas o curioso é que de um lado está a elite política, a elite empresarial e a elite midiática com suas tropas de choque: artistas, professores, repórteres e cantores. Também desse lado está boa parte da elite universitária mundial. Uma privilegiada minoria, sem dúvida. Seus valores, de regra, são justamente o contrário do que o povo brasileiro maciçamente defende.

O povo é contra o aborto? Reúna atores e cantores para convencer a turba acéfala – ou assim devem achar ao querer manipular a massa de forma tão tosca – de que matar fetos e bebês é a coisa mais linda e progressista do universo.
O povo é religioso? Contrate milhares de professores para ensiná-los que esse negócio de religião é “coisa do capeta” ou, na melhor das hipóteses, é só uma superstição boba de gente burra.

O povo gosta de uma vida pacífica, ordeira e segura? Convença-os de que isso é coisa de burguês acomodado, e que o bom mesmo é exaltar a marginalidade, como Herbert Marcuse já ensinou quando percebeu que os proletários estavam enriquecendo e virando burgueses.

A atual elite que se diz progressista e seus aliados complacentes, interessados mesmo é na grana dos pagadores de impostos, estão aí para ensinar os jovens a rebelarem-se contra os valores de suas famílias, enquanto os domesticam e os preparam a entregar toda sua moral e sua cosmovisão aos iluminados que nunca os viram, ou, se os viram, pouco se importam com seu destino.

A Bioética, nesse contexto de elite praticante da ardilosa engenharia social, tocando ao som dos conselhos maquiavélicos de Gramsci, é mais uma arma do que um canal pelo qual a voz do povo pode se manifestar.

Se determinada escola de bioética convence as pessoas de certos interesses, de certas necessidades de mudanças sociais, a bioética é boa, é excelente, é maravilhosa. Se não, o povo é que é retrógrado e precisa de mais doses de bioética, intratecais, quem sabe?

Mas o que defendo é o seguinte: o povo deve ter acesso à ética médica e à bioética, e estas devem respeitar os valores do povo que as suporta, ao invés de ansiar por uma tosca e desrespeitosa engenharia social. Defender isso não é desestimular o debate, pelo contrário, é respeitar a bioética que respeita os valores do povo e colocar todos os conflitos às claras. O que vejo muitas vezes é a supressão daqueles que discordam de determinada elite.

Só para citar um breve exemplo, fui testemunha pessoal do bloqueio autoritário da participação de um filósofo num evento de Direitos Humanos por causa de seu espectro político de direita. Veja bem, debate só parece ser bom para essas mentes tacanhas quando os dois lados concordam.

E cabe lembrar, aqui no fim, que há muitas bioéticas, e várias respeitam os valores do povo brasileiro sim.

O que não suporto é a bioética ideológica da torre de marfim (ou de rubi, no caso do Brasil), que ao chocar o cidadão comum com seu sangrento pensamento de vanguarda, ataca a moralidade alheia com a pose de iluminada ditadora de parâmetros civilizacionais e guia confiável do povo, suprimindo outras visões e utilizando rótulos odiosos.

Não posso concordar com a utilização de jovens médicos como bucha de canhão e massa de manobra para o ataque aos valores da sociedade no contexto de guerra cultural em que vivemos.

Podem discordar dos valores que eu defendo, e é claro que muitos discordam. Mas que o façam conscientes de seus atos e de suas influências ideológicas, em respeito à própria integridade e à sanidade, e que não tenham a ousadia irresponsável de silenciar um dos lados e chamar isso de debate.



[1] BEAUCHAMP, Tom L.; CHILDRESS, James F. Principles of Biomedical Ethics, Seventh Edition. New York: Oxford University Press, 2013, p. 1.

[2] Exemplos bem conhecidos são os dos bioeticistas internacionalmente famosos, como Giani Vattimo e Julian Savulescu que defendem ser obrigatório para um médico realizar o aborto, independente de seus valores pessoais, e Udo Schüklenk, que escreve contra a objeção de consciência de médicos canadenses que não desejam praticar a eutanásia.

[3] A Organização Mundial da Saúde, claramente favorável ao projeto abortista em países “subdesenvolvidos” ou “em desenvolvimento”, distribui material educativo e pressiona diversos países com sua agenda ideológica específica.

[4] Como denunciado por Pascal Bernardin em seu livro Maquiavel Pedagogo. BERNARDIN, Pascal. Maquiavel Pedagogo. Campinas: Vide Editorial, 2010.

[5] GIUBILINI, Alberto; MINERVA, Francesca. After-birth abortion: why should the baby live? Journal of Medical Ethics, (2012). doi:10.1136/medethics-2011-100411 Internet, http://jme.bmj.com/content/early/2012/03/01/medethics-2011-100411.full.pdf+html