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sábado, 25 de maio de 2019

NOMINALISMO, LUGAR DE FALA E BURRICE ABORTISTA

O IRRACIONALISMO ABORTISTA

Escutei uma sentença no mínimo curiosa, se não irracional. Em um evento médico dedicado a discutir a legalização do abortamento voluntário, doravante chamado de aborto, um colega obstetra lançou uma censura nos seguintes termos: “Quem é você para opinar? Eu mexo com isso todos os dias! Eu sei o que acontece.”

Sim, sou um simples oftalmologista que estuda humanidades médicas, filosofia da medicina e bioética há meros dezessete anos. Relativamente pouco tempo, porém, muito mais do que a maioria costuma estudar, há de convir.

Essa censura despertou em mim a reflexão de como a modernidade se afundou na burrice irracionalista de um nominalismo inconsequente. Antes que o leitor julgue que isso não passou de um estranho rótulo para confundir sua mente, ousarei explicar.

Para certo nominalismo inconsequente, fruto de uma puerilização da filosofia moderna, não existe realidade inteligível e classificável por meio de propriedades universais apreensíveis objetivamente pelo ser humano. Isso quer dizer que tudo o que vemos não passa de mera projeção subjetiva de nossas mentes, que inventam conceitos e classificam experiências por mera conveniência. Experiências estas incapazes de serem classificadas como reais de forma racional.

Hoje, esse subjetivismo nominalista, exacerbado ao ponto de ameaçar nos trancar em uma solitária cela mental, ao lado de vulgares determinismos sociais, permitiu a pessoas despreparadas que desclassificassem qualquer esforço racional de universalidade do conhecimento.

Ao invés de aplicar a boa e velha lógica aristotélica, opta-se por relativizar tudo, em um ambiente no qual a única certeza absoluta é a certeza de que tudo é relativo, menos essa louca e insustentável certeza.

Se sou oftalmologista, como poderia opinar acerca de uma questão como a do aborto? Estou para sempre preso em minhas circunstâncias, incapaz de lançar meu intelecto e meu ser rumo à empática e racional experiência de generalização. 

Para saber sobre aborto, não basta conhecer as experiências de vida comunicadas oralmente ou de forma escrita e ter estudado uma década ou mais sobre o assunto. É preciso ser ginecologista e obstetra, compreende?

Mas vou brincar um pouco mais com esses ridículos pressupostos condicionantes da razão humana. Quem é o colega do sexo masculino para falar do aborto? Ele não pode parir! Esta é outra pseudoargumentação, utilizada por muitas abortistas e aborteiras contra médicos do sexo masculino que ousam dar opinião sobre aborto. E, logo, em cada comunicação, vem aquela manjada história de que esse ou aquele é ou não é o meu ou o seu lugar de fala... Que canseira.

Mas quem é a médica obstetra para opinar se nunca tiver abortado ou tido filhos? Esta seria a próxima pergunta.

Mas vamos supor que a médica tenha tido filhos e tenha abortado. Quem é ela para opinar acerca da situação que não é a dela? Não foi ela quem viveu o que sua paciente vive.

Aliás, quem é a mulher que quer abortar para ousar conversar com qualquer outro ser que não ela mesma? Como ela pode sequer se dirigir a uma médica ou médico, ou a qualquer pessoa, aliás, já que a experiência dela é uma coisa, e a do outro ser é outra?

Se vocês acompanharam esta breve sequência imaginária, já perceberam que qualquer tentativa nominalista de desclassificar ou desconstruir a racionalidade do discurso acabará num esforço insano e autocontraditório que deixará a humanidade em completo estado de incomunicabilidade. Seremos todos balbuciantes partículas irracionais imersos em uma grande e louca miragem.

E não vou nem falar dos oncologistas e sua pretensão de cuidar de pessoas com câncer ou dos paliativistas. Se começarmos a cobrar lugares de falacomo tem ocorrido em certas discussões, teremos uma séria ameaça de extinção de toda uma classe profissional.

Dizer que o irracionalismo subjetivista de um exagero inconsequente do nominalismo é inaceitável e contraditório não quer dizer que eu esteja abolindo a importância da experiência subjetiva ou das circunstâncias. Como disse Ortega y Gasset, nós somos produto de uma concreta mistura entre nosso ser e nossas circunstâncias.

Analisamos a realidade de dentro dela, o que em nada desqualifica o fato de que olhamos para a realidade com todas as certezas e enganos que ela nos oferece. Logo, se algum abortista vier com essa conversa mole de lugar de fala e outros estúpidos argumenta ad igorantiam argumenta ad hominem, cabe a resposta do famoso filósofo brasileiro Olavo de Carvalho: cala a boca, burro!



domingo, 31 de março de 2019

O DEBATE SOBRE O ABORTO - UMA LEITURA OBRIGATÓRIA PARA NOSSOS DIAS.

Uma grande necessidade para esse debate nos dias atuais é compreender as regras da argumentação.
No entusiasmado debate do qual participei, alguns estratagemas erísticos se repetiram ad nauseam, entre eles:
1 - Argumentum ad Verecundiam - O trabalho X está publicado no periódico internacional Y... Quem disse foi a OMS...
2 - Argumentum ad Hominem - Meu lugar de fala... Você não é mulher e não pode falar sobre isso...
3 - Opções forçadas - Mas você quer prender 7 milhões de mulheres (???) ou legalizar o aborto?
4 - Rotulações odiosas - Mas o que vocês querem afinal? Voltar aos dias de repressão do patriarcado?
Para qualquer estudioso da Teoria da Argumentação, incluindo retórica e erística, está muito claro que tudo o que foi exposto acima é completamente irracional e inválido num debate sério, mas há que se compreender que não costumamos ter boa educação no Brasil.
Muitos lançam tais argumentos com a maior naturalidade, pois cresceram em um ambiente no qual toda essa manipulação discursiva psicológica é natural. Contudo, em um país com o mínimo de cultura e educação, a utilização de qualquer um desses estratagemas tão caros à discussão brasileira seria uma grave falha, capaz de desautorizar seu emissor.
Para aqueles que desejam compreender melhor como conversar (acredite, existe uma técnica para isso), recomendo começar o estudo pelo magnífico livro Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão, escrito por Schopenhauer e comentado pelo Olavo de Carvalho
Outra obra imprescindível para conhecer melhor os argumentos acerca do aborto é o livro A Ética do Aborto, do Kaczor, escrito de forma a incluir argumentos de ambos os lados com muito respeito e extrema competência. Pode ser encontrado neste link.


quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Desmontando falácias abortistas - Parte 2: Caça ao Embrião

Desmontando falácias abortistas - Parte 2: Caça ao Embrião



Mentirinha: “Essa valorização do feto humano é um exagero. Chegamos ao absurdo de impedir a realização de grandes descobertas científicas que poderiam curar os mais terríveis males que assolam a humanidade por causa de uma preocupação sem sentido com embriões que poderiam ser utilizados para pesquisas com células-tronco embrionárias.”

Talvez uma das mais impressionantes formas de defender o extermínio humano por meio do aborto seja justamente colocá-lo ao lado do progresso científico que arroga para si o papel de redentor da humanidade acometida por terríveis males. Para os abortistas, o aborto se transforma em uma necessidade para que haja mais pesquisas “redentoras”.

É um apelo muito mais emocional do que racional a uma solução parcial para uma das coisas mais assustadoras na vida humana: o sentimento de finitude, muitas vezes acompanhado pelo medo do desconhecido e do sofrimento que a morte traz. Com o intuito de combater a morte, eis que surge novamente a nossa campeã, a maravilhosa ciência, parteira de tantos milagres humanos, e agora também utilizadora de embriões.

No passado não tão distante, esperava-se que, com a conclusão do Projeto Genoma, o ser humano pudesse ser reprogramado e a caixa de Pandora fosse escancarada para que cientistas alcançassem todos os mais loucos sonhos. Isso não se realizou. Descobrimos muitas outras caixas de Pandora como a epigenética, que mistura os hábitos e a cultura humana no caldo genético e a proteômica.[1]

Embarcando na marola que sobrou da onda de esperanças destroçadas, onda esta advinda da ambição pelo domínio do destino humano por meio da genética, ainda surgem aqueles que sonham com a manipulação do ser humano por meio da terapia com células-tronco.

Eis que lá vêm os abortistas em busca da mais nova desculpa para seus lucrativos abortos: utilizar as células-tronco embrionárias, muito mais poderosas do que as células-tronco adultas, para promover soluções ainda mais espetaculares.

No Brasil, o Supremo Tribunal Federal, em seu ativismo, legislou sobre a matéria, anunciando a legalidade de se pesquisar com embriões humanos, para o desgosto dos defensores da vida. Também não agradaram por completo os próprios abortistas, já que há clara orientação para não se produzir novos embriões destinados à pesquisa.

Isso tudo apesar de não haver evidências de que células-tronco embrionárias de fato possuam grandes vantagens sobre o uso de células-tronco adultas.[2]E ainda há relatos de que as células-tronco embrionárias sejam de difícil controle, já que podem causar câncer em seus receptores, dado o altíssimo potencial que encerram.[3]Por outro lado, há um grande investimento em uma nova técnica que permite a transformação de células adultas em células-tronco, são as Células-Tronco Humanas Pluripotentes Induzidas, repletas de possibilidades e com menores entraves morais.[4]Esta última técnica, que nos pouparia de grandes dúvidas acerca da moralidade em se destruir embriões humanos para pesquisar, surge em um contexto no qual a pesquisa em embriões não foi estimulada. A criatividade humana encontrou um caminho mais ético, enfim, recusando o atalho oferecido por incautos pesquisadores.

Surgem também nos dias de hoje as acusações feitas pelos abortistas de que os defensores da vida humana são retrógrados, inimigos da boa ciência que salva milhões de vidas, saudosos de uma vida medieval – como se medieval fosse algum tipo de xingamento horrendo.

Em periódicos de altíssima circulação, esfregam na cara dos defensores da vida humana que hoje milhões de pessoas de todas as idades se beneficiam das vacinas. Segundo os abortistas, é preciso ser coerente e honrar o fato de que grande parte dessas vacinas foram produzidas com a ajuda de células fetais obtidas em abortos. O que esses iluminados escritores de editoriais de revistas cientificas famosas não falam é que se pode recorrer a células fetais de abortos espontâneos e que não há compromisso ético algum em permanecer fazendo algo questionável moralmente só porque se obteve algo de positivo de uma prática antiética realizada no passado. De forma análoga, pode-se perceber o grau de estupidez dessa linha de raciocínio ao se propor o absurdo de prosseguir com as práticas nazistas de experimentos monstruosos em seres humanos só porque, no passado, de forma criminosa, algum nazista hipoteticamente descobriu algo que nos beneficiaria no presente. Não faz o menor sentido.[5]

Aliás, já que falamos em analogias e raciocínios estúpidos, cabe lembrar outro exemplo vergonhoso da argumentação abortista: o argumento do terrível prédio em chamas (ou seria o terrível argumento do prédio em chamas?).

Alguns abortistas utilizariam a seguinte situação hipotética: imagine que você está em um prédio, em meio a um terrível incêndio. Você tem a chance de salvar uma menina de cinco anos ou doze embriões congelados. Você ousaria salvar os embriões?

Michael Sandel, que propôs essa situação, utiliza isso contra a ideia de equivalência moral entre embriões e pessoas já paridas em seu livro Contra a Perfeição. Seu argumento é de que, como as pessoas de regra salvariam a menina, conclui-se que as pessoas de fato não acreditam que embriões são seres humanos.[6]Eis um verdadeiro exemplo de non sequitur.

A resposta é dada por Yuval Levin, que argumenta contra a conclusão de que embriões deveriam ser apenas material bruto para pesquisas. 

Ele reproduz a analogia da seguinte forma: imagine que você está em um prédio em chamas com sua esposa e um estranho. Se tiver que escolher, obviamente escolherá sua esposa para salvar em detrimento do estranho (ou, pelo menos, espera-se que a escolha). Ninguém poderia culpar o homem que salvou a sua esposa e não a um estranho. Disso não se concluiria de forma alguma que o estranho, que não foi salvo, era apenas material bruto para queimar ou destruir. Tampouco se concluiria que poderíamos sair por aí pegando estranhos para arrancar-lhe os órgãos para pesquisa, certo?[7]

Segundo Levin,

O problema, em outras palavras, está na aplicação da lógica de um prédio em chamas – a lógica da triagem e da emergência – para a vida cotidiana. Nosso mundo não é um prédio em chamas. Argumentar a favor disso, como foi sugerido no caso de pesquisas médicas moralmente controversas, seria negar a legitimidade de praticamente todos os limites éticos e morais sobre a ação, se tal ação fosse direcionada à resolução de uma emergência. E se nossa natureza humana ou condição mortal em si é a emergência, logo qualquer ação – qualquer meio – seria moralmente permissível para estender nossas vidas.[8]

Falando de embriões e de pesquisas antiéticas, o anúncio recente de que cientistas chineses comemoram a criação de dois bebês humanos editados geneticamente pela técnica CRISPR para que sejam imunes ao vírus do HIV desperta preocupação até mesmo em grandes entusiastas dos grandes avanços tecnológicos e do Transumanismo, como Julian Savulescu, que afirma com correção que 

Se for verdade, esta experiência é monstruosa. Os embriões eram saudáveis, sem doenças conhecidas. A edição genética em si é experimental e ainda está associada a mutações indesejadas, capazes de causar problemas genéticos em etapas iniciais e posteriores da vida, inclusive o desenvolvimento de câncer. (...) Esta experiência expõe crianças normais e saudáveis aos riscos da edição genética em troca de nenhum benefício necessário real. (...) contradiz décadas de consenso ético e diretrizes sobre a proteção dos participantes humanos em testes de pesquisa. [Os bebês resultantes dos testes de He, pesquisador chinês formado nos EUA] estão sendo usados como cobaias genéticas. Isso é uma roleta russa genética.[9]


O que se vê, na linha de argumentação abortista em prol do pretenso avanço da ciência, é o risco real e imediato de uma profunda desumanização do homem, instrumentalizando-o em prol de um avanço científico de forma irresponsável e, portanto, antiética. Em troca da imoralidade, oferecem-nos maravilhosas expectativas.

Desde quando se justifica praticar um ato com altíssimo risco de ser antiético em prol de um hipotético avanço do conhecimento humano? Pois a dúvida moral em si mesma, como obrigatoriamente acontece no caso de um ato irreversível como a edição genética ou um aborto, já aponta imediatamente a sua falha ética. 

Por fim, usar embriões humanos em pesquisas é a instrumentalização irreversível e antiética de alguns seres humanos em prol de outros, é a desvalorização da vida humana ao afirmar que ela nada ou pouco tem de especial, é dar a cara a tapa para a velha crítica posta por George Orwell em seu romance A Revolução dos Bichos: Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros...[10]




Hélio Angotti Neto é médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo com Residência Médica em Oftalmologia e Doutorado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atua como Professor e Coordenador do Curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo. É Presidente do Capítulo de História da Medicina da Sociedade Brasileira de Clínica Médica (Triênio 2017-2020), membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e Delegado do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo em Colatina (2018-2023). Foi Global Scholar do Center for Bioethics and Human Dignityda Trinity International Universityem 2016 (Illinois, USA) e é Diretor Editorial da Mirabilia Medicinae, publicação em Humanidades Médicas sediada no Institut d’Estudis Medievalsda Universidad Autónoma de Barcelona. Publicou os livros: A Morte da Medicina; A Tradição da Medicina; Disbioética Volume 1: Reflexões acerca de uma estranha ética; Disbioética Volume 2: Novas Reflexões Sobre uma Ética Estranha; Disbioética Volume 3: O Extermínio do Amanhã; Arte Médica: De Hipócrates a Cristo; além de diversos capítulos de livros e artigos em Oftalmologia, Bioética, Política e Humanidades Médicas. Criador e Coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina. É Presbítero da 3ª Igreja Presbiteriana de Colatina. Casado com Joana e pai de Arthur, Heitor e André.


[1]FANU, James Le. The Rise and Fall of Modern Medicine. New York: Basic Books, 2012.
[2]PEREIRA, Lygia da Veiga. Células-Tronco. Promessas e Realidades. São Paulo: Moderna, 2013.
[3]AMARIGLIO, Ninette; et al. ‘Donor-Derived Brain Tumor Following Neural Stem Cell Transplantation in an Ataxia Telangiectasia Patient’. InPLoS Medicine, 6(2), 2009.
[4]LEVIN, Yuval. ‘What Happened to Bioethics’. InThe New Atlantis. A Journal of Technology and Society, vol. 56, 2018, p. 92-98.
[5]Recomendo a leitura de meu artigo “Tudo é bom motivo para matar um bebezinho”, publicado em: ANGOTTI NETO, Hélio. Disbioética Volume II: Novas reflexões sobre os rumos de uma ética estranha. Brasília, DF: Monergismo, 2018.
[6]SANDEL, Michael J. Contra a Perfeição. Ética na era da engenharia genética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.
[7]LEVIN,op. cit., p. 93-94.
[8]Ibid., p. 94.
[9]LYI, Macarena Vidal. Cientistas chineses dizem ter criado os primeiros bebês geneticamente modificados. Os bebês, duas gêmeas, agora têm uma modificação que supostamente as protege contra o vírus da AIDS, segundo o geneticista He Jiankui. In:El PaísInternethttps://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/26/ciencia/1543224768_174686.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM&fbclid=IwAR3DrSoMs3k7l-JcWbIcKzL5Ci2ozAne5BJgnI_uSZFiVgLo7LF7obAq50s
[10]ORWELL, George. A Revolução dos Bichos. Um conto de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Desmontando falácias abortistas. Parte 1 – A Incrível História do Maravilhoso Amontoado de Células

A Incrível História do Maravilhoso Amontoado de Células



A Mentira: "O embrião é um amontado de células. Não é certo chamá-lo de ser humano, pois, conforme a ciência afirma, ainda não formou sistema nervoso central. Além do mais, quando se declara ausência de função cerebral em um paciente em estado grave, é o que se chama de morte encefálica. Portanto, não se considera vida um embrião que ainda nem tem sistema nervoso central".

Vamos começar desmontando um dos pacotes falaciosos mais utilizados, a mentira que eu gosto de denominar de “A Incrível História do Maravilhoso Amontoado de Células”.

Antes de começar, é preciso deixar bem claro que somente as pessoas mais ignorantes, mais incompetentes ou mais imbuídas de má-fé na argumentação ousariam afirmar que o embrião ou o feto não é um ser humano vivo. Os principais bioeticistas que defendem o aborto no mundo - como Tooley, Peter Singer, David Boonin e Mary Anne Warren - afirmam taxativamente que o feto é um ser biologicamente humano, mesmo que ousem negar o reconhecimento de seu statusmoral e da dignidade plena do ser humano.[1]

Contudo, como abortistas de regra não se prendem a distinções de qualidade em termos de argumentação ou ciência – e teremos tempo de ver estas perspectivas em breve – vamos descascar até mesmo essas pseudoargumentações mais rasas e estapafúrdias.

Imagine a seguinte situação hipotética, já enunciada pelo implacável debatedor Ben Shapiro: o simpático robô que vaga pela superfície de Marte coleta um material e envia à Terra evidências inegáveis de que, sobre o solo marciano, se encontram células bem primitivas e simples. Não haverá a menor dúvida. Gritariam a plenos pulmões e seria manchete das primeiras páginas que a vida foi encontrada em Marte! Com ponto de exclamação e tudo o mais.[2]

Voltemos à realidade e ao nosso pequenino planeta Terra.

Tanto a célula do zigoto quanto o grupamento de células que formam o embrião são absurdamente complexos. Tais células, desde o momento em que eram somente uma célula, possuem no seu núcleo um código genético que determinará em grande parte sua forma, e esse código é irrecusavelmente humano.

As reações bioquímicas que, desde o momento mais precoce, logo após a união entre o gameta masculino e o feminino, cada um contendo metade do código genético presente no núcleo – e o gameta feminino contendo o código genético das mitocôndrias –, são extremamente complexas e funcionais. Tudo acontece rumo ao desenvolvimento de um ser cada vez maior, mais interativo e com maior grau de independência – ou menor grau de dependência, a considerar da perspectiva.[3]

Se o embrião for um amontoado de células, todos nós, sem exceção, seremos também amontoados de células. E se amontoados de células podem ser destruídos, todos nós poderemos ser assassinados. É uma questão de lógica.

Amontoados de células, por exemplo, seriam cutículas empilhadas de diversos clientes de uma manicure ao fim do dia. Amontoados de células são hambúrgueres prestes a serem cozinhados no fast-foodda esquina. O embrião, por outro lado, é um ser vivo, organizado, executando funções bioquímicas orientadas ao desenvolvimento crescente de interação e autonomia relativa e parte de um complexo sistema composto por inúmeros seres vivos e elementos inorgânicos de apoio.

A única desculpa para chamar um embrião de amontoado de células talvez seja a existência de um amontoado de células a ocupar o lugar onde deveria existir um cérebro humano.

Sobre o critério de que um ser humano só pode ser assim chamado após desenvolver seu Sistema Nervoso Central, é preciso deixar bem claro que é de uma arbitrariedade absurda.

A primeira coisa que qualquer estudioso do desenvolvimento humano irá afirmar é que não há barreiras claras entre as etapas do desenvolvimento humano. Nós somos produto de um contínuo processo de mudança, repleto de evoluções e involuções. Nós somos uma complexa mistura de avanços e retrocessos, de potenciais revelados ao longo de uma vida.

Já há indícios de Sistema Nervoso Central antes das doze semanas, e seu desenvolvimento prossegue ao longo de toda a vida humana. Após nascer, há estupendas transformações no cérebro humano e na visão humana, por exemplo, por anos após o parto ter acontecido.[4]

O terceiro grande engodo é dizer que, já que podemos declarar morto um paciente com ausência de função cerebral, poderíamos igualmente declarar não vivo ou destituído de statusde pessoa um feto ou embrião no qual o Sistema Nervoso Central ainda não estivesse minimamente formado.

Essa analogia não passa de comparar alhos com bugalhos. Um paciente com diagnóstico de morte encefálica está com suas possibilidades de vida encerradas. Já um feto, mesmo que não tenha aquilo que certos abortistas teimam em denominar de Sistema Nervoso Central “desenvolvido”, está justamente no polo oposto, repleto de potencialidades de vida. Aquele está extinguindo suas funções vitais, este, por outro lado, as está iniciando.

Fazendo uma analogia econômica dessa primeira analogia porca entre aquele que morre e aquele que acaba de nascer, poderíamos dizer que tanto uma empresa decadente que logrou grande sucesso no passado e  que está fechando suas portas por ter declarado falência e não ter mais dinheiro para pagar suas contas, quanto outra empresa, que tem em caixa uma quantidade de dinheiro semelhante àquela primeira, mas que acaba de ser criada e está em processo de expansão, sem dívidas, têm o mesmo statuseconômico. Não faz o menor sentido.

O que nos mostra a ciência de boa qualidade e a filosofia é que o embrião e o feto são seres humanos extremamente complexos e repletos de potencial de vida. Qualquer outra coisa é mera especulação fantasiosa ou negação histérica da realidade.

Hélio Angotti Neto

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Hélio Angotti Neto é médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo com Residência Médica em Oftalmologia e Doutorado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atua como Professor e Coordenador do Curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo. É Presidente do Capítulo de História da Medicina da Sociedade Brasileira de Clínica Médica (Triênio 2017-2020), membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e Delegado do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo em Colatina (2018-2023). Foi Global Scholar do Center for Bioethics and Human Dignityda Trinity International Universityem 2016 (Illinois, USA) e é Diretor Editorial da Mirabilia Medicinae, publicação em Humanidades Médicas sediada no Institut d’Estudis Medievalsda Universidad Autónoma de Barcelona. Publicou os livros: A Morte da Medicina; A Tradição da Medicina; Disbioética Volume 1: Reflexões acerca de uma estranha ética; Disbioética Volume 2: Novas Reflexões Sobre uma Ética Estranha; Disbioética Volume 3: O Extermínio do Amanhã; Arte Médica: De Hipócrates a Cristo; além de diversos capítulos de livros e artigos em Oftalmologia, Bioética, Política e Humanidades Médicas. Criador e Coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina. É Presbítero da 3ª Igreja Presbiteriana de Colatina. Casado com Joana e pai de Arthur, Heitor e André.



[1]KACZOR, Christopher. A Ética do Aborto. Direitos das Mulheres, Vida Humana e a Questão da Justiça. São Paulo: Edições Loyola, 2014, p. 26.
[2]Vídeo disponível com tradução para o Português em: https://www.youtube.com/watch?v=NbXC30Zea18&-feature=youtu.be
[3]ANGOTTI NETO, Hélio. Disbioética. Volume III: O Extermínio do Amanhã. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2018, p. 107-112.
[4]Ibid., p. 49-53.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Dysbioethics Volume III

Volume III of Dysbioethics deals with a current theme in Brazil: before being brought to light, what is the being found in the womb of a woman? A human being or not? Is it right to abort him?

For many people, influenced by the ideals of the left, the response begins with "a heap of cells," then passes to "is not a human being" and ends with a loud and resounding "yes." For another part of the population, however, the answer is "I do not care". And for the majority of the population, still under the Christian culture, or adept of its main branches, the answer will always be "a human being; from conception to birth; it's wrong to murder him deliberately. "

Dr. Hélio Angotti Neto deals with all these issues and competently clarifies the situation from a medical point of view. He also deals with these important issues: Why is the issue important considering public policy? Is not this, after all, an intimate topic?; How one can deal with abortion advocates? What are the arguments of these people? Their goals really consist of what?

In addition, dr. Helio also gives us some very important rules for the public debate on this and any other issue of "polemical" character and makes us reflect on how we can dialogue with even those who wish evil for us.

The book also contains a very special appendix that deals with the decision of the Federal Supreme Court of Brazil on abortion, written by Eduardo Luiz Santos Cabette.

This subject is literally a case of life and death!

segunda-feira, 4 de junho de 2018

O Estranho Doutor que Gostava da Morte

O Estranho Doutor que Gostava da Morte


Há pessoas marcadas com gosto por coisas nada ortodoxas. Uma das mais estranhas e mórbidas ideias, sem dúvida nenhuma, é a obsessão com a morte. Não é um tema improvável, visto que todos temos tal evento como certeza em nossas vidas, mas é algo que normalmente não se pensa até o momento de sua aproximação, seja natural, seja por meio de doença.

Jack Kevorkian, conhecido também pelo nome de Doutor Morte, é uma dessas pessoas com uma estranha curiosidade pelo fim. Diria até mais, já que se dedicou a ser elemento ativo na morte alheia.

Filho de pais que escaparam do genocídio na Armênia, abandonou a fé cristã de sua família ainda menino. Na residência médica, já era obcecado com a morte, e se revoltava quando médicos utilizavam argumentos religiosos sobre a santidade da vida humana como base para negar a licença para matar. 

Tais argumentos e a própria lei não foram impedimento para Kevorkian, que desenvolveu sua máquina de matar, carinhosamente chamada de thanatron (palavra derivada de thanatos, que significa morte), e tornou-se um ativista da eutanásia durante os anos 90 do século XX. 


Sua primeira vítima foi Janet Adkins, portadora de Alzheimer com 54 anos de idade que o procurou em busca de um suicídio assistido. Kevorkian ligou-a em seu thanatron e a matou em 4 de junho de 1990. O doutor morte não examinou a paciente, não consultou o médico assistente da mesma e tentou a venóclise perfurando o membro da paciente por cinco vezes seguidas. 

Após tudo estar preparado, coube a Adkins pressionar o dispositivo e morrer. Seu médico assistente informara à época que provavelmente ela já não tinha plena consciência do que estava acontecendo, isto é, já não estava mentalmente competente.

Mais 130 pessoas tiveram suas mortes auxiliadas pelo estranho doutor, que foi enfim sentenciado a 25 anos de prisão.

Hoje, com a pressão para legalizar o papel do médico como entregador da morte por meio de abortos, suicídios e eutanásias, a vida de Kevorkian tem sido romantizada por alguns militantes da cultura da morte, quando na verdade o que ficou demonstrado é como a cultura da morte aliada à má técnica e à falta de ética profissional adequada se transforma numa perigosa máquina de extermínio e desespero.

A opção forçada entre morrer ligado de forma desumana em aparelhos ou recorrer ao suicídio ou à eutanásia é uma falsa colocação da questão, que reduz a equipe de saúde a uma condição bestializada e monstruosa na qual se deve decidir entre monstros que torturam o paciente ou monstros que matam. Quem se interessa por tanatologia deve perfurar a venda colocada à força em nossos olhos por essas narrativas enviesadas e enxergar as verdadeiras opções, como a medicina paliativa de boa qualidade, que sempre prezou a vida humana e a respeitou sem transformar o médico ou qualquer outro membro da equipe de saúde em um verdugo apto a matar.

Será que ainda não aprendemos as lições terríveis de nosso passado? Quantos ainda precisarão morrer para que o médico retorne à sua vocação original ou desista dessas utopias da morte?

Hélio Angotti Neto - Colatina, 04 de junho de 2018.

Bibliografia

BISHOP, Jeffrey P. The Anticipatory Corpse. Medicine, Power, and the Care of Dying. Notre Dame, Indiana: University of Notre Dame Press, 2011.
GORSUCH, Neil. The Future of Assisted Suicide and Euthanasia. Princeton & Oxford: Princeton University Press, 2006.
NICOL, Neal; WYHE, Harry. Between the Dying and the Dead: Dr. Jack Kevorkian’s Life and the Battle to Legalize Euthanasia. Madison: University of Wisconsin Press; Terrace Books, 2006.
WEIKART, Richard. The Death of Humanityand the Cas for Life. Washington, DC: Regnery Faith, 2016.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Uma típica mentira abortista

Uma típica mentira abortista.

Se proibir, aumenta?

Enquadrando a Discussão

Nas conversas entre aquelas pessoas a favor da vida humana e aquelas a favor do direito de decidir ou, em termos mais diretos, nas brigas entre os que são contra e os que são a favor do aborto, respectivamente, alguém do último grupo sempre costuma apelar para um dado curioso. Segundo a sabedoria abortista, proibir o aborto aumenta o número de casos. Se o aborto fosse legalizado, segundo eles, os casos de aborto tendem a diminuir.

Para muitos isso pode parecer contraditório. E, na maioria dos casos, é pura contradição mesmo!

Essa é mais uma das muitas mentiras a respeito do aborto que são veiculadas por iluminadas cabeças pensantes em meio à sociedade. Se continuarem pensando com essa qualidade, há de se questionar onde chegarão, senão na aniquilação da inteligência e da capacidade de apreender a realidade.

Abortistas de todos os tipos citam artigos produzidos por institutos claramente comprometidos com a causa abortista para defender a ideia de que os abortos são reduzidos com a legalização. Tais artigos, publicados em importantes revistas, são utilizados como porretes da autoridade científica para calar o adversário em um pretenso debate.

Vamos esclarecer algumas coisas desde já.

O que se chama debate, no Brasil, de regra é um reforço da mesma opinião previamente desejada, pertencente a uma elite progressista que se acha dona da verdade e considera o povo brasileiro retrógrado e incômodo. Como descreve Francisco Razzo em seu livro Contra o Aborto, o debate de regra é entre diversas opiniões a favor do aborto enquanto os contrários ao aborto são excluídos dos meios chiques da sociedade e da mídia de massas.[1] Melhor assim, para os detentores do futuro melhor de nosso país. Que esses evangélicos e católicos conservadores sumam de nossa frente ou, como diria certo professor universitário brasileiro, que sejam abordados em conversa na ponta de uma espingarda.[2]

Segundo ponto: os trabalhos que de regra são citados pertencem a Organizações Não Governamentais abortistas que recebem verbas milionárias de fundações internacionais abortistas e megaclínicas de aborto. O exemplo mais famoso é o Instituto Guttmacher, que publica nas badaladas revistas médicas como a Lancet, e recebe dinheiro da maior rede de clínicas abortistas do mundo, a Planned Parenthood, além de receber verbas da Bill and Melinda Gates Foundation. E tal instituto ainda tem a pachorra de afirmar que não há conflito de interesses em suas publicações. E, verdade seja dita, quando revistas como a Lancet ou o New England Journal of Medicine falam de política, é perceptível a agressiva agenda ideológica subscrita pelos autores e editores.

Terceiro ponto: há uma série de distorções estatísticas nesses trabalhos usados como fonte de autoridade científica. Mas, de regra, são citados por pessoas sem o menor preparo em Medicina Baseada em Evidências ou Bioestatística, funcionando como instrumentos de apelo à autoridade científica. Resumindo, esses artigos repletos de manipulação e conflitos de interesse são exemplos do uso burro de uma ciência deturpada por razões políticas e ideológicas.

E o que dizem os abortistas e os artigos? E qual é a realidade? Vamos aos fatos.


A distorção estatística e o caso dos Estado Unidos

De certa forma, os abortistas contam com a preguiça intelectual, a falta de competência em avaliar artigos ou a pressa do leitor. Esperam que alguém leia a conclusão que é lançada após páginas de expressões técnicas como Bayesiano e Teste de Kolmogorov-Smirnov e aceite tudo como a verdade divina descendo como maná dos céus. E na maioria das vezes é justamente isso que acontece.

Pessoas sem formação alguma na área de Medicina Baseada em Evidências se aventuram a ler conclusões ideológicas citadas em artigos distorcidos para fundamentarem suas crenças prévias.

Recentemente, um trabalho foi citado como prova de que liberar o aborto reduziria a prática.[3] Esse trabalho, relativamente recente, afirma que o número de abortos em países ricos, que em sua maioria legalizaram a prática, está caindo desde 1990, e que permanece alto em países em desenvolvimento, que ainda não legalizaram o aborto em sua maioria.[4] O que você entende? Que a legalização reduziu o número de abortos, certo? Vejamos com um olhar mais acurado.

Na década de noventa do século XX, a grande maioria dos países desenvolvidos já tinha legalizado o aborto há muitos anos. E as medidas do número de abortos realizados em países em desenvolvimento que não legalizaram a prática são expostas a diversos vieses e cálculos de correção dos dados que inflacionam a casuística formidavelmente.

Se queremos concluir sobre a legalização aumentar ou reduzir o número de abortos, o que devemos fazer? Voltar ao momento em que o aborto foi legalizado e acompanhar, ano a ano, a mudança no número de abortos. Isto significa checar os números antes e após a decisão do famoso caso Roe vs Wade, em 1973, nos Estados Unidos, por exemplo.

Antes da decisão, já se observava um aumento contínuo no número de abortos relatados, sem dúvida por causa da militância pró-aborto e das mudanças culturais dos anos sessenta, conforme relatado por Bernard Nathanson.[5] Foram reportados 390 casos de aborto para cerca de 4 milhões de nascimentos nos Estados Unidos em 1963. Ano a ano, o número de abortos aumentou, chegando em 1973 a 744.610 abortos em uma população de 3.136.965 nascidos vivos. O aborto ainda não fora liberado nos moldes pós Roe vs Wade, mas a pressão ideológica para sua liberação era intensa.

Neste momento os abortistas falarão que o número de abortos é muito maior, só que não é relatado. O que se conclui é que, uma vez legalizado, as mulheres procurarão um serviço dentro da legalidade no qual realizarão o procedimento sem o risco aumentado de uma intervenção clandestina, e o número real de abortamentos será revelado.

Em 1974, um ano após a decisão do tribunal no caso Roe vs Wade, o número de nascidos vivos foi de 3.159.958 e o número de abortos relatados foi de 898.570. Isso apontaria para um aumento de cerca de 150.000 casos teoricamente creditados aos casos não relatados, se admitíssemos uma estabilidade no número real de abortos realizados de 1973 para 1974.

Todavia, eis o que acontece com a casuística de abortos nos anos seguintes.[6]

Ano
Nascidos Vivos
Abortos
Taxa de abortos por nascimentos (abortos a cada 1000 nascimentos)
1975
3,144,198
1,034,170
328.9
1976
3,167,788
1,179,300
372.3
1977
3,326,632
1,316,700
395.8
1978
3,333,279
1,409,600
422.9
1979
3,494,398
1,497,670
428.6
1980
3,612,258
1,553,890
430.2
1981
3,629,238
1,577,340
434.6
1982
3,680,537
1,573,920
427.6
1983
3,638,933
1,575,000
432.8
1984
3,669,141
1,577,180
429.9

Há uma clara tendência de aumento contínuo nos casos de aborto com certa estabilização após alguns anos da liberação dos casos. Essa tendência não é exclusividade dos Estados Unidos, repetindo-se em diversas outras casuísticas, às vezes com um crescimento muito mais prolongado ao longo dos anos seguintes à legalização.

Como o trabalho previamente citado verificou a casuística após a década de noventa, temos um cenário completamente diferente do exposto inicialmente. A distância temporal entre a legalização e os dados observados insere fatores de confusão que tornam a tentativa de estabelecer nexos causais extremamente frágil. Deve ser lembrado também que foi no ano de 1990 que se registrou o pico no número de abortos nos Estados Unidos. Contabilizar a partir desse pico obviamente demonstrará uma queda no número de abortos.

E há um agravante raramente lembrado: muitos estados americanos tem falhado em reportar a casuística de abortos realizados, o que gera um número subestimado. Um dos mais recentes relatórios dos Estados Unidos, publicado em 2017, informa uma casuística subestimada de abortos no ano de 2014 de 652.639 abortos.[7]

Há ainda outras características a serem observadas no campo cultural e político dos Estados Unidos. A recente ascensão da direita conservadora, a militância cristã pró-vida fazendo frente à antiga militância pró-escolha da revolução cultural e as alterações jurídicas que removem verbas bilionárias da indústria abortista no governo de Donald Trump irão gerar um profundo impacto nos próximos anos, salvando milhões de vidas e reduzindo ainda mais o número de abortos.

Tudo isso nos autoriza a compreender que o número de abortos realizados após a legalização sobe de forma catastrófica para décadas após ter a chance de começar a reduzir, caso o ambiente cultural e político se altere significativamente.


Abortando mundo afora

Em outros países o aumento de abortos após a legalização também é observado. No reino Unido, a legalização ocorreu em 1967. No ano seguinte, o número de abortos contabilizados foi de 23.461, 72% maior do que o registro de dez anos antes, que era de 13.570 abortos. Dez anos após a legalização, o número de abortos registrados foi de 141.558, um aumento de 945% em relação ao registro de 1958. Em 2008, o registro apresentou o explosivo aumento de 1480%, gerando uma casuística de 202.158 abortos. A população do Reino Unido, nos mais de quarenta anos contabilizados na série histórica do aborto, subiu somente 10%. É o genocídio de um povo e, consequentemente, de seu legado humano e cultural.[8]

Na Suécia, onde a legalização ocorreu em 1938, o número de abortos subiu em cerca de 9.000%, indo de 220 casos registrados para mais de 38.000 casos em 2015.[9]

Na Espanha, quando o aborto foi parcialmente legalizado em 1985, foram contabilizados 6.344 abortos. Somente dois anos após a legalização, o número de abortos já alcançava 16.766, quase o triplo de casos. O crescimento no número de casos de aborto ocorreu de forma contínua até 1996, quando foram registrados 51.002 abortos, um número aproximadamente oito vezes maior do que o registrado no primeiro ano. Só para se ter uma idéia, em 2010, quando uma nova legislação ainda mais liberal foi aprovada na Espanha, ocorreram 113.031 abortos.[10]

Analisando o reverso da moeda, um caso ilustrativo é o do Chile, no qual a restrição do aborto reduziu o número de casos e, para o desespero da militância abortista e aborteira, sempre à busca das evidências glorificadoras do extermínio de fetos, apresentou uma redução na mortalidade materna. Tal exemplo revela claramente que, se alguém deseja proteger a vida das mulheres, o caminho não é se oferecer para matar seus filhos.[11]

Outro país que conseguiu reduzir o número de abortos com a proibição foi a Polônia. Em 1956, após a legalização, o número de abortos também começou a crescer de forma descontrolada por anos seguidos, alcançando a marca de cerca de 272.000 casos em 1962. Cinco anos após a restrição legal em 1990, no ano de 1995, o número de abortos caiu para 570.[12]

Dados mais recentes publicados na Dinamarca, onde o aborto é legalizado, mostram, por fim, uma perturbadora realidade. A mortalidade entre mulheres que cometem o aborto é até três vezes maior do que a mortalidade entre as mulheres que não abortam.[13] Sacrificar o próprio filho tem suas consequências, e é uma cicatriz que a mulher levará por toda a vida e marcará profundamente a cultura de todo um povo.

Hélio Angotti Neto
Colatina, 28 de dezembro de 2017.



[1] RAZZO, Francisco. Contra o Aborto. Rio de Janeiro & São Paulo: Editora Record, 2017.
[2] Como afirmou Mauro Iasi, professor universitário ganhador do Prêmio Stálin da Paz, isso mesmo, não ria, um prêmio da paz com o nome do assassino genocida e tirano Stálin: “tal pessoa é um ‘inimigo’ e deveríamos estar dispostos a lhe oferecer ‘um bom paredão’, o encontro com uma ‘boa espingarda’, uma ‘boa bala’, e por fim, ‘depois de uma boa pá, uma boa cova’. Afinal, ufana-se ele, ‘com a direita e o conservadorismo, nenhum diálogo, luta!’. BERLANZA, Lucas. Por que o “paredão” comunista pode e o golpe militar não pode? Instituto Liberal. Internet, https://www.institutoliberal.org.br/blog/por-que-o-paredao-comunista-pode-e-o-golpe-militar-nao-pode/
[3] Como descrito na série de artigos intitulada “O Extermínio do Amanhã”.
[4] Gilda Sedgh, Jonathan Bearak, Susheela Singh, Akinrinola Bankole, Anna Popinchalk, Bela Ganatra, Clémentine Rossier, Caitlin Gerdts,Özge Tunçalp, Brooke Ronald Johnson Jr, Heidi Bart Johnston, Leontine Alkema. ‘Abortion incidence between 1990 and 2014: global, regional, and subregional levels and trends’. Lancet, vol. 388, 2016, p. 258-267.
[5] NATHANSON, Bernard N. The Hand of God: A Journey from Death to Life by the Abortion Doctor Who Changed His Mind. Washington, DC: Regnery Publishing, Inc., 1996; NATHANSON, Bernard N. Aborting America:  A Doctor’s Personal Report on the Agonizing Issue of Abortion. Fort Collins, CO: Life Cycle Books, 1979.
[6] JOHNSTON, Robert. Historical abortion statistics, United States. Last updated 23 February 2017. Internet, http://www.johnstonsarchive.net/policy/abortion/ab-unitedstates.html
[7] Jatlaoui TC, Shah J, Mandel MG, et al. Abortion Surveillance — United States, 2014. MMWR Surveill Summ 2017;66(No. SS-24):1–48. DOI: http://dx.doi.org/10.15585/mmwr.ss6624a1
[8] JOHNSTON, Robert. Historical abortion statistics, England and Wales (UK). Last updated 22 October 2017. Internet, http://www.johnstonsarchive.net/policy/abortion/uk/ab-ukenglandwales.html
[9] Estudos sobre Aborto. Estudos Nacionais. Internet, http://estudosnacionais.com/numeros-na-suecia/
[10] JOHNSTON, Robert. Historical abortion statistics, Spain. Last updated 25 February 2017. Internet, http://johnstonsarchive.net/policy/abortion/ab-spain.html
[11] Koch E (2014) Epidemiología del aborto y su prevención en Chile [Epidemiology of abortion and its prevention in Chile]. Rev Chil Obstet Ginecol 7(5):351-360. Internet, http://www.revistasochog.cl/files/pdf/EDITORIAL50-e0.pdf ; Koch E, Thorp J, Bravo M, Gatica S, Romero CX, Aguilera H, Ahlers I (2012) Women's education level, maternal health facilities, abortion legislation and maternal deaths: a natural experiment in Chile from 1957 to 2007. PLoS ONE 7(5):e36613. DOI:10.1371/journal.pone.0036613. Internet, http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0036613
[12] JOHNSTON, Robert. Historical abortion statistics, Poland. Last updated 23 February 2017. Internet, http://johnstonsarchive.net/policy/abortion/ab-poland.html
[13] Gissler, M., et. al., “Pregnancy-associated deaths in Finland 1987-1994 — definition problems and benefits of record linkage,” Acta Obsetricia et Gynecolgica Scandinavica 76:651-657 (1997).