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sexta-feira, 26 de maio de 2023

O crime perdura porque compensa

Como é que em tempos de ciência avançada – ou pelo menos assim os pesquisadores que gastam suas vidas pesquisando e recebendo polpudas verbas gostam de anunciar e pensar, sempre colocando-se como protagonistas desse mesmo tempo iluminado – tantas falcatruas e distorções podem prosperar?

Temos informação, temos comunicação, temos métodos estatísticos, temos teorias e temos tecnologias fantásticas! O ideal de controle da natureza pela ciência moderna parece cada dia mais real e mais concreto, difundido e efetivo.

O que nem todos realmente percebem – ou se percebem, calam-se pelo receio de atrair descrença, pois a realidade é grotesca e esdrúxula demais – é que o mesmo poder da técnica e da ciência que controla a natureza também controla o ser humano, diretamente por meios coercivos ou indiretamente por meio da influência ideológica e econômica.

Os avançados instrumentos da técnica e da ciência são exatamente isso que propõem ser: instrumentos. Um instrumento altamente efetivo em mãos cruéis será altamente efetivo em causar o mal, e os maus jamais receiam em aumentar o próprio poder e se impor descaradamente sobre o próximo.

As técnicas utilizadas para mentir utilizando estatísticas e metodologias científicas na saúde são refinadas e muito bem elaboradas. Exigem intelectos e preparo avançados. Ouso dizer que a maioria dos médicos não está preparada para analisar criticamente e profundamente um artigo científico, mas que a totalidade ou quase totalidade daqueles médicos que trabalha para a indústria farmacêutica é extremamente bem preparada.

E como alerta o próprio Cristo, se nossos olhos forem trevas, que grandes trevas serão. O preparo científico e técnico utilizado para ocultar, mentir e distorcer gera um produto quase que impermeável à crítica da maioria dos médicos, por mais bem-intencionados que sejam.

O livro de Peter Gøtzsche traz uma série de denúncias e bastidores do jogo tantas vezes imundo da indústria farmacêutica, mas não é o único. Na verdade, há todo um mercado literário muito técnico e específico que explora as falcatruas da ciência. Um livro mais recente que enriquece a leitura de Gøtzsche foi escrito por Jon Jureidini e Leemon McHenry, e se chama “A Ilusão da Medicina Baseada em Evidências: expondo a crise de credibilidade na pesquisa clínica”. 

Jureidini é médico professor universitário de psiquiatria e pediatria na Austrália e trabalha com pesquisa. McHenry é um filósofo americano. Juntos eles ousam remexer no monstro sagrado da medicina contemporânea: a medicina baseada em evidências.

Prof. Dr. Jon Jureidini

Somos lembrados de fatos perturbadores. Medicamentos são lançados no mercado ainda com muitas dúvidas e, no fim das contas, todos nos tornamos cobaias de fase IV da pesquisa clínica, onde é feita a vigilância farmacêutica pós-comercialização. Não são tão raros os exemplos de medicamentos aprovados e vendidos aos milhões que geraram mortes e deformidades e tiveram que ser removidos do mercado ou ter suas indicações clínicas completamente revistas.

As próprias narrativas da sociedade são compradas e manipuladas, pois representantes de pacientes são muito bem pagos para explicar o sofrimento dos pacientes, pressionando justamente a prescrição deste ou daquele medicamento “milagroso”, e médicos especialistas tratados como referências de determinados assuntos – ou doenças – introduzem novos tratamentos em eventos patrocinados pela indústria que reúnem milhares de médicos ávidos por notícias; são os famosos Keynote Speakers da indústria.

Surfando na crista de uma onda de credibilidade conquistada por grandes descobertas que revolucionaram a saúde mundial, como o antibiótico, a imunização, os transplantes auxiliados pelo uso de imunossupressores e as cirurgias minimamente invasivas, hoje a indústria tem pleno sucesso em lucrar, mas muitas vezes falha completamente em gerar valor para a humanidade.[1]

Assim como ocorre no livro de Gøtzsche, Jureidini e McHenry trazem diversos exemplos de medicamentos que geraram grandes multas, mas lucros estrondosos. Paroxetina, por exemplo, da Glaxo Smith Kline já levou a uma multa de 3 bilhões de dólares por falhar em demonstrar eficácia e gerar sérias dúvidas acerca da segurança de seu uso, mas foi bem vendida graças em parte a um artigo encomendado pela própria indústria e escrito por um ghostwriter, um escritor fantasma especializado em redigir artigos científicos de forma agradável aos interesses da farmacêutica. É claro que o artigo é oficialmente assinado por um daqueles médicos especialistas famosos que dá palestras em congressos e recebe uma enormidade de incentivos, leia-se dinheiro, por sua “consultoria”.[2]

Técnicas semelhantes, incluindo uso de redatores fantasmas, dados distorcidos, interpretações estatísticas errôneas, ocultação de dados incluindo efeitos adversos graves e mortes e seleção indevida de desfechos clínicos, foram utilizadas em outras situações, segundo os autores, incluindo medicamentos como citalopram e escitalopram para depressão em adolescentes, rofecoxib para controle da dor em pacientes com artrite, gabapentina para condições psiquiátricas e dor, fenfluramina e fentermina para perder peso, estrogênio e progesterona para combater o envelhecimento, rosiglitazona para diabete não insulino-dependente e oxicodona para controle da dor.

Gøtzsche também exibe uma série de exemplos, que denomina de Hall da Vergonha das grandes empresas farmacêuticas. O problema não consiste nas pesadas multas pagas, mas sim, no fato de que o lucro supera em muito a penalidade. Logo, o crime compensa!

A Pfizer, por exemplo, pagou 2,3 bilhões de dólares em 2009 por fazer propaganda enganosa a respeito do antibiótico Zyvox, entre outras coisas. A Novartis pagou 423 milhões de dólares em 2010, por pagar propina para que médicos prescrevessem seus medicamentos. A Sanofi-Aventis pagou mais de 95 milhões de dólares para encerrar acusação de fraude em 2009. A Glaxo-Smith-Kline pagou 3 bilhões de dólares em 2011 por ocultar dados de segurança e pagar propinas a médicos. A AstraZeneca pagou 520 milhões de dólares e, 2010 para encerrar um caso de fraude por comercialização ilegal. A Johnson & Johnson foi multada em 1,1 bilhão de dólares em 2012. Por ocultar riscos de seu medicamento risperidona. A Merck pagou 670 milhões de dólares por fraude contra o Medicaid em 2007, incluindo propinas a médicos. Eli Lily pagou 1,4 bilhão de dólares em 2009 e Abbott pagou 1,5 bilhão de dólares em 2012. Os métodos criminosos são repetitivos, embora elaborados e muito organizados, e revelam que:

“O crime corporativo é comum e que os delitos são implacavelmente executados, com gritante desrespeito pelas mortes e outros danos sérios causados por eles. (...) o crime corporativo mata as pessoas e também envolve roubos expressivos do dinheiro dos contribuintes.”[3]

Os autores Jureidini e McHenry ressaltam o perigo em se permitir o controle dos dados de pesquisa e sua propriedade pelos grandes laboratórios, interessados diretamente no lucro gerado pelas pesquisas que permitem vender medicamentos após seus registros em agências reguladoras. Essa posse dos dados leva a situações em que os médicos pesquisadores devem se calar sobre os resultados que a indústria não deseja que sejam conhecidos. Chega-se a uma situação na qual o médico precisa decidir se honrará o pacto hipocrático de beneficiar o paciente e protegê-lo do mal, ou se honrará o pacto comercial com a indústria e se calará, permitindo muitas vezes por omissão a morte e o sofrimento de incontáveis pacientes.

Uma das soluções possíveis apontadas por Jureidini e McHenry é investir na pesquisa "independente" realizada pelas universidades, como se pudessem servir de controle comparativo para o trabalho realizado pela indústria farmacêutica.

Infelizmente, a Academia está longe de ser um poço de pureza, e foi cooptada há tempos por uma chuva de recursos da indústria farmacêutica, submetendo-se aos mesmos interesses tantas vezes obscuros daqueles que querem lucrar com a doença, prometendo a saúde e vendendo ilusões.

O poder de destruição do imbecil coletivo na saúde dentro das instituições universitárias é largamente subestimado.

Até mesmo prestigiadas revistas científicas, editadas por autoridades acadêmicas internacionalmente respeitadas, pisam na jaca dos conflitos de interesses.

Empresas fazem singelas ligações para os editores de revistas científicas dando aquele aviso camarada de que comprarão reimpressões do artigo enviado caso o mesmo seja publicado.[4]

Deixar de publicar os artigos da indústria, carinhosamente preparados com tanto esmero pelos escritores fantasmas e assinados por autoridades acadêmicas que vendem seus nomes como grifes famosas no topo dos trabalhos, pode gerar enorme impacto financeiro para uma revista. O Brittish Medical Journal, por exemplo, que é reconhecido como um “osso duro de roer” pela indústria[5], após dedicar uma edição inteira aos conflitos de interesse retratando em sua capa vários médicos vestidos como porcos gulosos em um banquete ao lado de representantes da indústria farmacêutica vestidos como lagartos, recebeu a ameaça de perder 75 mil libras em anúncios. Talvez essa fama “ruim” do Brittish Medical Journal ainda perdure, pois recentemente publicou um extenso comentário intitulado “O declínio da ciência no FDA se tornou incontrolável”, de autoria do Professor de Medicina David Ross, da George Washington University School of Medicine and Health Sciences.[6] Não é por acaso que esse periódico tenha apenas quatro por cento de sua renda derivada de reimpressões, enquanto outras revistas como o The Lancet cheguem a impressionantes 41% de toda a sua renda derivada de gulosas compras da indústria farmacêutica de seus próprios artigos publicados.[7] Afinal de contas, é sempre legal desovar um artigo impresso no consultório de um médico desavisado que nada ou pouco sabe de crítica científica.

Além de lucros multimilionários para revistas acadêmicas e seus editores, a publicação de um artigo especialmente desenhado e encomendado pela indústria farmacêutica ainda rende uma chuva de citações, aumentando o impacto da revista acadêmica e, portanto, inflacionando seu prestígio e retroalimentando a imagem de autoridade daqueles autores que emprestam seus nomes para figurar entre os pesquisadores de um laboratório.

A própria indústria arregimenta uma caterva de escritores fantasmas que se dedicam a publicar trabalhos em revistas secundárias citando profusamente os artigos publicados pela mesma indústria nos grandes periódicos.[8] Gotzsche cita um estudo de 2012 que revela dados interessantes: “o custo mediano e o maior das encomendas de reimpressão para o The Lancet era de 287.353 e de 1.551.794 libras, respectivamente.”[9] Até mesmo um dos editores da The Lancet, Richard Horton, reconheceu, talvez naquele momento de sinceridade que só pode ser inspirado por um arroubo quase suicida de consciência, que “os periódicos evoluíram para operações de lavagem de informação para a indústria farmacêutica.”[10]

Tudo isso culmina em um esquema bilionário no qual incontáveis médicos perfazem as fileiras de guerra da indústria farmacêutica, aceitando desde pequenos agrados – pois muitos se vendem por muito pouco, incluindo canetas elegantes, passagens para congresso e envelopinhos com poucos milhares de dólares – até polpudas verbas de consultoria. São editores de revistas, agentes de agências reguladoras, professores catedráticos, escritores fantasmas e prescritores vendidos que alimentam o ciclo extremamente lucrativo da Bigpharmaum verdadeiro sistema que tem seus próprios headhunters em constante vigilância sobre novos talentos promissores até mesmo dentro de cursos de graduação.

Se, apesar das multas multibilionárias pagas pela indústria, essas práticas perduram de forma sistemática, só há uma resposta plausível: o crime compensa. Só não compensa para a vida daqueles pacientes e suas famílias que ao invés de adquirirem um medicamento realmente efetivo, nada mais conseguiram do que uma amarga ilusão gloriosamente coberta pela nuvem de fumaça em que se transformou a Medicina Baseada em Evidências a serviço de interesses escusos.



[1] Jon Jureidini; Leemon B. McHenry. The Illusion of Evidence-Based Medicine: exposing the crisis of credibility in clinical research. South Australia: Wakefield Press, 2020, p. 13.

[2] Ibid., p. 14.

[3] Peter C. Gøtzsche. Op. cit., 2016, p. 21-40.

[4] Richard Smith. The Trouble with Medical Journals. London: Royal Society of Medicine, 2006.

[5] Kamran Abbasi. Editor’s choice: a tough nut to crack. Brittish Medical Journal. 2005; 330: 7485.

[6] David B. Ross. The decline of Science at the FDA has become unmanageable. Brittish Medical Journal 2023; 381: p. 1061.

[7] Peter C. Gøtzsche. Op. cit., p. 65.

[8] Ibid., p. 63.

[9] Handel AE; Patel SV; Pakpoor J; et al. Hight reprint orders in medical journals and pharmaceutical industry funding: case-control study. Brittish Medical Journal. 2012; 344: e4212.

[10] Richard Horton. The dawn of McScience. New York Rev Books. 2004; 51: p. 7-9.




quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

LEGADO CULTURAL E VALORES PROFISSIONAIS NO LIVRO I DE MÉTODO DA MEDICINA, DE GALENO

TRANSMISSÃO DE CONHECIMENTOS E VIRTUDES


1. Desde que tu, querido Hiero, convocaste-me muitas vezes, e agora, também ciente de que outros colegas estão a me chamar para que escreva a eles um método da medicina, e desde que desejei em especial obrigar-me a vós todos e, ademais, também optei por ajudar os que viriam depois de nós, o tanto quanto eu fosse capaz, porém hesitando e atrasando por várias vezes por muitas razões, parece-me melhor aclarar tais razões agora, antes que eu comece o tratado, pelo que tais razões têm alguma relevância sobre o que será dito.

A principal razão de todas é o risco de escrever em vão, já que poder-se-ia dizer que ninguém hoje deseja a verdade. Ao invés disso, pessoas buscam dinheiro, poder político e o insaciável desfrute dos prazeres em tal extensão que seria considerada loucura a busca por excelência em qualquer área. Pensam que a verdadeira forma primeira da sabedoria, que é o conhecimento das coisas divinas e humanas, sequer existe.[1]

Em seu Livro I da obra Método da Medicina, Galeno reclamava dos médicos que transformam a arte médica em um pretexto para adular os ricos e, assim, tornarem-se superficiais por degradar sua arte. Hesitava escrever, pois levava em conta como tais médicos guerreavam para obter destaque e honrarias na sociedade e como ele mesmo poderia ser alvo de duras críticas. Usava o médico Téssalo (Thessalus) como exemplo de suas críticas, pois este tentara criar fama para si mesmo menosprezando e rebaixando a herança hipocrática, já famosa entre os romanos e transmitida pelos livros da escola hipocrática, utilizados como fonte de aprendizagem entre muitos. Galeno iniciava a escrita de sua obra Método da Medicina ciente da malícia que despertaria e do cenário decadente que o cercava, e sabia muito bem que atrairia os invejosos olhares de rivais.

Os aspectos éticos da introdução e do Livro I de sua obra exibem uma série de valores caros à medicina. O primeiro é o sentimento de ser o guardião e transmissor do conhecimento médico para as próximas gerações. Galeno sente-se obrigado a transmitir seus conhecimentos.

No Preâmbulo do Código de Ética Médica brasileiro, já se observa que o papel do médico envolve o ensino, e que tal ensino está comprometido com uma postura moral adequada à importância dos conhecimentos a serem difundidos:

I - O presente Código de Ética Médica contém as normas que devem ser seguidas pelos médicos no exercício de sua profissão, inclusive nas atividades relativas a ensino, pesquisa e administração de serviços de saúde, bem como em quaisquer outras que utilizem o conhecimento advindo do estudo da medicina.[2]

Hipócrates e Galeno compreenderam bem o valor do legado em suas mãos e a necessidade de transmiti-lo com responsabilidade. No Juramento de Hipócrates está o compromisso em transmitir a Arte para aqueles dedicados à “lei dos médicos”, como se observa no seguinte trecho:

(...) compartilhar os preceitos, ensinamentos orais e todas as demais instruções com os meus filhos, os filhos daquele que me ensinou, os discípulos que assumiram compromisso por escrito e prestaram juramento conforme a lei médica, e com ninguém mais;[3]

Cuidavam para que a educação chegasse aos comprometidos com os altos valores professados, incluindo também formas de instrução direcionadas ao público em geral. Era compromisso do médico hipocrático educar as massas e os pares.[4]

Prova disso se encontra registrado nos antigos escritos pré-cristãos da escola hipocrática:

LXVIII. Primeiramente, agora devo escrever para a grande maioria dos homens sobre os meios para ajudar no uso da comida comum e da bebida, os exercícios que são absolutamente necessários, a caminhada e as viagens por mar requeridas para coletar os meios de subsistência. Escrevo para as pessoas que fazem uso do regime de forma irregular, sofrendo o calor contrariamente ao que é benéfico e o frio contrariamente ao que lhes é útil.[5]

Na obra Da Dieta Salutar, o autor hipocrático escreve sobre a necessidade de o paciente se educar para o cuidado de sua própria saúde:

IX. Um homem sábio deve considerar que a saúde é a maior das bênçãos humanas, e aprender por si mesmo como obter benefício em suas doenças. [6]

Em Afecções, de igual forma,

1. Qualquer homem inteligente deve possuir o conhecimento essencial para ajudar a si mesmo quando doente, considerando a saúde como do mais alto valor para os seres humanos. Deve também ser capaz de entender e julgar o que dizem os médicos e o que administram em seu corpo, sendo versados em tais assuntos em grau adequado ao leigo. [7]

Demonstrando um elemento do ato médico ainda hoje muito ressaltado, os hipocráticos inclusive exortavam os aprendizes a uma comunicação eficaz com os pacientes.

É particularmente necessário, na minha opinião, para o que discute esta arte, falar de coisas familiares às pessoas comuns. Pois o assunto de discussão é somente e simplesmente os sofrimentos dessas mesmas pessoas comuns. Para que aprendam sozinhos como os seus próprios sofrimentos surgem e cessam, e as razões pelas quais eles pioram ou melhoram, não é uma tarefa fácil para pessoas comuns. Porém, quando estas coisas são reveladas e demostradas por outros, tornam-se de mais simples compreensão.[8]

Após ressaltar o papel de guardião e transmissor dos conhecimentos da Arte e reconhecer a necessidade de cumprir seu papel de educador, mesmo que sob a possibilidade de sofrer alguns reveses, Galeno coloca uma crítica que também guarda um forte elemento de contemporaneidade, visto que se baseia nas vicissitudes do próprio ser humano.

No início de sua obra, ao dizer em tom de desabafo que pessoas buscam dinheiro, poder político e o insaciável desfrute dos prazeres em tal extensão que seria considerada loucura a busca por excelência em qualquer área, Galeno já tece a crítica que acompanha a humanidade desde os tempos mais remotos, como bem apontou Eric Voegelin em sua obra magna Ordem e História, ao descrever a revolta de um egípcio antigo contra a decadência moral e a desordem da sociedade em que vivia.

Com quem posso falar hoje?
Os colegas são maus; 
Os amigos de hoje não amam.

Com quem posso falar hoje?
Os rostos desapareceram:
Cada homem baixa o olhar diante de seus companheiros.

Com quem posso falar hoje?
Um homem deve despertar a ira por seu caráter ruim, Mas ele faz todos rirem, apesar da perversidade de seu pecado.

Com quem posso falar hoje?
Não há justos;
A terra é deixada para aqueles que agem mal.

Com quem posso falar hoje?
O pecado que aflige a terra,
Ele não tem fim.[9]

Versos semelhantes, sem dúvida, aos da antiga sabedoria judaica, presente nos primórdios da cristandade, como visto na Carta aos Romanos:

(...) conforme está escrito:

Não há homem justo,
Não há um sequer,
Não há quem entenda,
Não há quem busque a Deus.
Todos se transviaram,
Todos juntos se corromperam;
Não há quem faça o bem, 
Não há um sequer.[10]

A consciência do estado frágil de nossas consciências levava os antigos profissionais a destinarem grande importância ao preparo moral dos candidatos para o exercício da Medicina, representado no momento de grande simbolismo que era o Juramento de ingresso à família de Esculápio, como se observa no seguinte trecho: com pureza e santidade conservarei minha vida e minha arte.[11]

E tal pureza também preconizava a responsabilidade em transmitir os conhecimentos específicos somente àqueles dedicados à mesma comunidade moral, aos discípulos que assumiram compromisso escrito e prestaram juramento conforme a lei médica, e com ninguém mais.[12]

Deve ser um esforço contínuo, aquele o de evocar o lado moral da profissão e estimular as novas gerações a assumirem o nobre e elevado compromisso de se dedicarem de corpo e alma ao cuidado com o próximo dentro dos preceitos da ciência, da boa técnica e da ética. Galeno não se furtou a tal compromisso, e mesmo diante da mediocridade e malícia de seus tempos – e de todos os tempos, por que não dizer? –, ousou por no papel o que lhe ia no coração. Pensou nos seus herdeiros de profissão, incluindo Hiero, mesmo sabendo que atrairia sobre si a oposição de muitos.

Hoje, precisamos daqueles que também ousam por no papel o que de bom lhes vai no coração, ignorando o coro dos maus médicos, daqueles que venderiam sua profissão por trinta moedas de prata[13] ou por quinze minutos de fama.

Ao médico também cabe a busca e o conhecimento das coisas dos sábios, da filosofia primeira, que perscruta as coisas divinas e as coisas dos homens, mesmo que, ainda hoje, se ergam aqueles que afirmam do subterrâneo de suas inconsciências a inexistência dos valores ou da verdade. O tempo passa, mas a burrice, a mediocridade e a malícia são forças perenes, de fato; signos da constante entropia de nossa realidade. Os fracos e extremamente maleáveis, carentes da chama profissional que oferta coragem e caráter para assumir uma vida fundamentada em altos valores, unem-se à mediocridade da turba que insiste em anunciar a relatividade do valor de tudo que distingue um indivíduo da massa que o cerca. 

Nada pode ser tão deletério a uma classe profissional como a mediocridade daqueles que cuidam do próximo por meio daquilo que Ortega y Gasset muito bem denominou de A rebelião das massas[14],uma desistência de agir de forma nobre para assumir a postura de um “senhorzinho satisfeito” em sua eterna busca por direitos à revelia da ordem social.

Prevendo o que viria, Galeno sabia que seria alvo de críticas, talvez tão infundadas quanto aquelas que ele presenciava serem jogadas contra o velho Hipócrates.

Por que, meu caro, tentas desacreditar aquelas coisas que são boas com o objetivo de ser bem visto pela multidão, quando é possível ser excelente nas que são verdadeiras, se fores diligente e amares a verdade? Por que fazes uso da ignorância de seus ouvintes como sua aliada no escracho dos antigos? Não apontes os amigos de ofício de teu pai como juízes dos doutores, ó incauto Téssalo. Mediante tais homens, de fato triunfarás ao falar contra Hipócrates, Diócles, Praxágoras e todos os outros antigos. Traga, ao invés disso, ao posto de juízes, os homens de antigamente – homens treinados na dialética e capazes de conhecimento, que eram experientes em discernir a verdade da mentira, que sabiam como diferenciar consequência e contradição como deviam, e homens que prestaram atenção cuidadosa ao método demonstrativo desde a infância. Ousa encontrar alguma falta em Hipócrates diante deles. Tenta, com sua grosseira e bárbara voz, avançar contra Hipócrates quando aqueles homens estiverem a julgar. Primeiro, a tentar comprovar que o homem não deva se ocupar sobre a natureza do homem e, na sequência, a tentar comprovar que, mesmo que o homem deva se ocupar de tal assunto, Hipócrates o tenha feito errado e tenha, de fato, falado completamente errado.[15]

Hoje, novamente, muitos se erguem contra o legado hipocrático, em seus termos éticos e profissionais, sem o estudo atento dos originais, sem a dedicação e a seriedade necessárias para não cometer injustiças e sem a adequada educação filosófica. Falta ainda a “dialética” solicitada por Galeno, falta o correto aprendizado da filosofia, a adoção de um estado de espírito rigoroso com o saber e o viver em busca da real sabedoria.

Carentes do pensamento filosófico e do conhecimento dos erros e acertos de nossos antepassados, muitos em nossos dias mergulham nas aventuras da cultura da morte a defender homicídio infantil, aborto e eutanásia, novamente dispostos a transformar o médico em um hábil executor. Eis o mal da inconsciência moral e histórica, a degradação de toda uma profissão e o extermínio de um precioso legado cultural. O médico, por sua empáfia, está prestes a jogar sua alma ao abismo e fazer vergonha a todos os vocacionados que nos precederam e que nos sucederão.

Galeno recorda ao longo da sua obra os escritos de Platão e Aristóteles como base para sua elegia de Hipócrates, assim como Aristóteles fazia em sua obra, reunindo a opinião dos sábios que o antecederam; uma antiga forma de estabelecer o status quaestionis, o estado da arte. Com a consciência de que devemos muito aos mortos e que ainda com eles dialogamos de forma constante, podemos caminhar evitando inúmeros erros. Nas palavras de Ortega y Gasset: Quase, quase poderia afirmar que o presente é mero pretexto para que haja um passado e um futuro, o lugar onde ambos logram ser o que são: passado e futuro.[16]

Galeno também ressalta a importância de que médicos sejam bem-educados, para evitar incorrer em injustiças como aquelas por ele criticadas.

Por mais que o aviso seja antiquíssimo, pois Cláudio Galeno (ou Élio Galeno) foi o mais proeminente dos médicos romanos dos séculos II e III da Era Cristã, muitos ainda criticam Hipócrates de ouvir falar, e quando leem sua obra, são de regra acometidos pelo juízo dos incautos. Um exemplo foi discutido na obra Arte Médica: De Hipócrates a Cristo, na qual fiz uma crítica à idéia de que a moralidade hipocrática na medicina seria extremamente paternalista.[17]

E quantas vezes ainda se busca o holofote e a fama enterrando-se a verdade, que é de regra dolorosa e humilhante? O duelo entre o politicamente correto e a verdade é muito mais antigo do que a maioria ousa imaginar.

É tão necessário hoje quanto o foi à época que sejamos treinados na dialética. Assim era chamada a Filosofia por alguns. Um excelente exercício dialético, realizado rotineiramente pelos profissionais da saúde, é o raciocínio clínico, evolvendo diagnóstico, terapêutica e prognóstico. As idas e vindas do raciocínio hipotético-dedutivo são um dos mais excelentes exercícios da dialética e, se bem conduzidos, podem gerar uma mente potente.

Uma vez apto a realizar a dialética, o profissional deve executar a arte demonstrativa. Com lógica rigorosa, o elenco de premissas e fatos deve ser apresentado ao ouvinte de forma que seja realmente convencido no bom sentido.

Um bom médico deve estar preparado não somente para raciocinar, mas também para demonstrar suas conclusões e hipóteses por meio de uma exposição adequada, seja dentro de um consultório, seja em uma disputa acadêmica. Tal exposição deve ser por meio de fatos da experiência amparados por uma lógica precisa.

Os alertas de Galeno, a título de conclusão dessa primeira parte de sua obra Método da Medicina, nos remetem à importância do estudo aprofundado das Humanidades Médicas ao longo da vida e nos levam à compreensão da vida profissional como uma vida que avança além do simples ofício da cura e que almeja a expressão de nobres ideais e valores. É forçoso admitir que o médico, ou qualquer outro profissional dedicado diretamente ao bem do próximo por meio do cuidado e da cura, muito ganhará em termos pessoais e muito bem adicional poderá oferecer se estiver realmente engajado naquilo que Sertillanges muito bem chama de A Vida Intelectual[18], isto é, no engajamento moral e técnico na sua profissão.

Assim como Galeno, ao ser convocado por Hiero a transmitir seus conhecimentos e apelar aos mais altos valores de sua profissão, espero que colegas médicos ainda hoje tenham a capacidade de escutar àqueles que nos chamam a defender a chama da antiga arte médica e tenham a noção de que são todos guardiões dessa mesma arte milenar, sempre em mudança, mas, ao mesmo tempo, zelosa tradutora dos mesmos ideais que moveram toda a família de Esculápio e Hipócrates ao longo das eras.

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VOEGELIN, Eric. Israel e a Revelação. Ordem e História Volume 1. São Paulo: Edições Loyola, 2009.


[1] 1. πειδ κα σύ με πολλάκις Ἱέρων φίλτατεκα λλοι τινς νν ταροι παρακαλοσι θεραπευτικνμέθοδον ατος γράψαιγ δ μάλιστα μν κα μν χαρίζεσθαι βουλόμενοςοχ κιστα δ κα τος μεθ᾿ μςνθρώπους φελσαι καθ᾿ σον οἷός τέ εμι προαιρούμενοςμως κνουν τε κα νεβαλλόμην κάστοτε διπολλς ατίαςμεινον εναί μοι δοκε κα νν ατς διελθενπρν ρξασθαι τς πραγματείαςχουσι γάρ τιχρήσιμον ες τ μέλλοντα ηθήσεσθαι.
κεφάλαιον μν ον πασν ατν στι τ κινδυνεσαι μάτην γράψαιμηδενς τν νν νθρώπων ς πος επενλήθειαν σπουδάζοντοςλλ χρήματά τε κα δυνάμεις πολιτικς κα πλήστους δονν πολαύσεις ζηλωκότωνς τοσοτον ς μαίνεσθαι νομίζειν ε τις ρα κα γένοιτο σοφίαν σκν ντιναονατν μν γρ τν πρώτην καντως σοφίανπιστήμην οσαν θείων τε κα νθρωπίνων πραγμάτωνοδ᾿ εναι νομίζουσι τ παράπαν·
GALENMethod of Medicine, Volume I: Books 1-4. Edited and translated by Ian Johnston, G. H. R. Horsley. Loeb Classical Library 516. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2011, p. 2-3.
[2] CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Código de Ética Médica: Resolução CFM no 2.217, de 27 de setembro de 2018 , modificada pelas Resoluções CFM 2.222/2018 e 2.226/2019 / Conselho Federal de Medicina. Brasília: Conselho Federal de Medicina, 2019.
[3] ANGOTTI NETO, Hélio. A tradição da medicina. Brasília, DF: Academia Monergista, 2015.
[4] ANGOTTI NETO, Hélio. Arte Médica. De Hipócrates a Cristo. Brasília, DF: Monergismo, 2018.
[5] Hippocrates, Heracleitus. Nature of Man. Regimen in Health. Humours. Aphorisms. Regimen 1-3. Dreams. Heracleitus: On the Universe. Translated by W. H. S. Jones. Loeb Classical Library 150. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1931, p. 368-369. 
[6] Hippocrates, Heracleitus. Nature of Man. Regimen in Health. Humours. Aphorisms. Regimen 1-3. Dreams. Heracleitus: On the Universe. Translated by W. H. S. Jones. Loeb Classical Library 150. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1931, p. 58-59. 
[7] Hippocrates. Affections. Diseases 1. Diseases 2. Translated by Paul Potter. Loeb Classical Library 472. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1988, p. 6-9. 
[8] HIPPOCRATES. Ancient Medicine. Airs, Waters, Places. Epidemics 1 and 3. The Oath. Precepts. Nutriment. Translated by W. H. S. Jones. Loeb Classical Library 147. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1923, p. 14-17.  

[9] VOEGELIN, Eric. Israel e a Revelação. Ordem e História Volume 1. São Paulo: Edições Loyola, 2009.
[10] BÍBLIA DE JERUSALÉM. Romanos 3,10-12. São Paulo: Paulus, 2002.
[11] ANGOTTI NETO, Hélio. A tradição da medicina. Brasília, DF: Monergismo, 2016, p. 33.
[12] Ibid., p. 32-33.
[13] Alusão às trinta moedas de prata obtidas por Judas ao trair Jesus e entrega-lo com um beijo àqueles que o executariam em uma cruz após violentas torturas. BÍBLIA DE JERUSALÉM. Mateus 27.3-10. São Paulo: Paulus, 2002.
[14] ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião das Massas. Campinas: Vide Editorial, 2016.
[15] τί πειρ διαβάλλειν  οτος τ χρηστ δι τ παρ τος πολλος εδοκιμεν, νν περβάλλεσθαι τος ληθέσιν, ε φιλόπονός τέ τις εης κα ληθείας ραστής; τί δ τ τν κροατν μαθίᾳ συμμάχ κέχρησαι κατ τς τν παλαιν βλασφημίας; μ τος μοτέχνους τ πατρί σου κριτς καθίσς ατρν, τολμηρότατε Θεσσαλέ· νικήσεις γρ π᾿ ατος κα καθ᾿ πποκράτους λέγων κα κατ Διοκλέους κα κατ Πραξαγόρου κα κατ πάντων τν λλων παλαιν, λλ᾿ νδρας παλαιούς, διαλεκτικούς, πιστημονικούς, ληθς κα ψευδς διακρίνειν σκηκότας, κόλουθον κα μαχόμενον ς χρ διορίζειν πισταμένους, ποδεικτικν μέθοδον κ παίδων μεμελετηκότας, τούτους ες τ συνέδριον εσάγαγε δικαστάς, π τούτων τόλμησον πποκράτει τι μέμψασθαι, τούτων κρινόντων πιχείρησόν τι τ μιαρ κα βαρβάρ σου φων πρς πποκράτην διελθεν, πρτον μν ς ο χρ φύσιν νθρώπου πολυπραγμονεν· πειτα δ ς ε κα τοτο συγχωρήσειέ τις, λλ᾿ τι γε κακς ατν ζήτησεν κενος κα ψευδς πεφήνατο σύμπαντα. GALENMethod of Medicine, Volume I: Books 1-4. Edited and translated by Ian Johnston, G. H. R. Horsley. Loeb Classical Library 516. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2011, p. 14-15.
[16] ORTEGA Y GASSET, José. Origem e Epílogo da Filosofia. Campinas: Vide Editorial, 2018, p. 15.
[17] ANGOTTI NETO, Hélio. Arte Médica. De Hipócrates a Cristo. Brasília, DF: Monergismo, 2018.
[18] SERTILLANGES, Antonin-Dalmace. A Vida Intelectual. Seu espírito, suas condições, seus métodos. São Paulo: É Realizações, 2010.