Mostrando postagens com marcador Ladeira Escorregadia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ladeira Escorregadia. Mostrar todas as postagens

domingo, 2 de julho de 2017

O DEVER DE MATAR

O DEVER DE MATAR

O pesadelo do ser humano submisso à tecnocracia utilitarista




A cada dia a Cultura da Morte penetra mais fundo na Medicina, fazendo com que a antiga arte traia sua vocação hipocrática e cristã. Uma das ferramentas da Cultura da Morte é a Disbioética, uma forma deturpada de estudar e disseminar práticas imorais que infecta e envenena a discussão acadêmica espalhando-se como um vírus letal nas mentes da elite universitária. E duas das grandes bandeiras da Disbioética são a Eutanásia e o Suicídio Assistido.

Subjacente a essas práticas mórbidas estão diversas idéias inegavelmente tenebrosas.

Uma dessas idéias, apontada por Jeffrey Bishop, médico e filósofo da Saint Louis University, é a de que o foco na qualidade de vida desviou perigosamente o foco anterior da medicina em conservar a vida humana, permitindo hoje a instrumentalização da morte e a ação totalitária do médico sobre a vida do paciente.[1]

Numa linguagem muito semelhante àquela utilizada por médicos nazistas do começo do século XX que encarnaram a epítome da medicina desumanizada e submissa a um Estado assassino, fala-se hoje novamente em morte digna, vida indigna e interrupção misericordiosa da vida para expressar o anseio em encerrar brevemente a existência ou até mesmo evitar o parto daqueles humanos indesejados.

Muitos defendem a possibilidade de matar pacientes, cometer suicídio com a ajuda de médicos e até mesmo matar o próprio filho como direitos dos pacientes, ousando chamá-los inclusive de Direitos Humanos, numa linguagem realmente torpe.

É óbvio, ou deveria ser, que um direito de alguém exige um dever de outro. Se eu tenho direito a algo, alguém tem a obrigação de executar um ato que concretize meu direito. Daí a conclusão inevitável de que a atual grande discussão em Bioética é justamente a limitação da objeção de consciência e a possível escravidão moral e espiritual da classe médica, que será obrigada a matar.

Quando o assassinato for legalizado, a sociedade provavelmente cairá em uma progressiva dessensibilização moral, como já acontece com a Holanda. Após a legalização e a formalização do suicídio assistido, o perfil da casuística de mortes está mudando radicalmente. 

Relativamente são exterminados menos pacientes com câncer e mais pacientes com distúrbios psiquiátricos, uma indicação eticamente muito mais controversa para a permissão do suicídio assistido. Hoje também já se observam as clínicas da morte, que entregam o produto letal de forma rápida e sem empecilhos desconfortáveis, denotando alta eficácia em matar a custos reduzidos, sem muitas perguntas.[2] O próximo passo é a liberação da eutanásia para pessoas saudáveis acima de 75 anos.[3] Ser velho voltou a ser uma boa razão para ser morto, como já fora defendido por iluminados utilitaristas do passado recente, que defendiam medidas muito “humanas” como a câmara de gás para pessoas que não fossem capazes de se adequar à sociedade, incluindo idosos sem capacidade laboral.[4]

Relatos como o reproduzido a seguir denotam o quanto tudo está fugindo do controle:

Durante o acampamento de verão de minha paróquia no interior de Quebec, três anciões receberam o diagnóstico de câncer no hospital local, um estabelecimento interiorano a uma hora de viagem de carro do centro urbano de Ottawa e ainda mais distante da super-secular Montreal. Porém, após a informação do diagnóstico, a primeira questão perguntada para cada uma dessas pessoas foi 'você quer fazer eutanásia?' É isso o que o sistema canadense de eutanásia alcançou em apenas poucos meses: colocou a eutanásia no topo das opções do cardápio proposto para pessoas gravemente doentes.[5]

Como os novos médicos serão ensinados nesse contexto de vulgarização da morte? Serão eles instruídos a oferecer a eutanásia como qualquer outra opção ou até mesmo como a primeira opção? Serão eles pressionados para corte de gastos monetários e emocionais com a eliminação dos "casos difíceis"? Respeitarão aqueles médicos que ousarem alegar objeção de consciência?

Se, para o paciente, toda essa conversa pode soar assustadora, para o médico que honra a vida humana e a protege isso pode significar o fim de sua carreira ou a corrupção definitiva de sua vocação, pois agora o risco é que sejam realmente forçados a matar.

Num regresso aos tempos pré-hipocráticos, é o médico quem novamente irá administrar venenos, abandonando seu ancestral juramento sagrado de proteção da vida humana, equiparando-se novamente aos mortais feiticeiros e assassinos da antiguidade, desprezando a profissão que por tantos séculos angariou a admiração e o respeito de tantos povos.[6]

E todo esse descalabro assumiu recentemente uma face ainda mais assustadora, embora em nada imprevisível, como se vê no caso do bebê Charlie Gard, do Reino Unido. Nesse macabro caso, os pais do bebê, que sofre de uma doença rara e quase sempre letal - a Síndrome de Depleção Mitocondrial -, precisam implorar pela oportunidade de removerem seu filho do hospital estatal inglês e levá-lo a um médico particular de outro país para tentar um tratamento alternativo e caríssimo.[7]


Não é o caso de gastar o dinheiro do contribuinte inglês num tratamento milionário para salvar, talvez, uma única vida. Os médicos, a serviço do Estado e não do paciente, proibiram a remoção do bebê do hospital e decretaram que o melhor a ser feito era deixar que morresse sem tentar o caro tratamento em outro país.

Podemos ter, nesse caso do pequeno Charlie e sua família desautorizada pelo Estado a tentar salvá-lo, um vislumbre de nosso sombrio presente e nosso nada promissor futuro. A vida do bebê não está mais sob a tutela de seus pais que o amam profundamente, está nas mãos da tecnocracia estatal que julgou não valer a pena lutar por sua vida, tão insignificante como a vida de qualquer incapacitado é para os cálculos utilitaristas dos burocratas que enxergam números e não pessoas.[8]

Fomos avisados há décadas sobre esse mal que emergia na alma da medicina e da sociedade contemporânea, mas permanecemos surdos ao ressurgimento da Cultura da Morte.[9] O ser humano tornou-se um objeto de cálculos utilitaristas, um frio produto cujo preço deve ser avaliado para, no fim, ser considerado digno ou não de viver.[10]

Talvez a pergunta que todos devamos fazer seja a seguinte: desde quando viramos objetos de uma tecnocracia impessoal que decide o quanto vale nossa vida ou qual a sua “qualidade”?

Você quer um Estado que decida que está na hora de você morrer? Para mim, um dos piores pesadelos distópicos possíveis é viver numa sociedade em que a elite tecnocrática de um Estado tirano encontrou meios formais para livrar-se daqueles os quais julga inúteis.

Até quando você será útil?

Hélio Angotti Neto
Colatina, 02 de julho de 2017.




[1] BISHOP, Jeffrey. The Anticipatory Corpse. Medicine, Power, and the Care of the Dying. Notre Dame, Indiana: University of Notre Dame Press, 2011.
[2] KOOPMAN, Jacob J. E.  ‘Developments in the Practice of Physician-Assisted Death Since Its Legalization in the Netherlands’. Dignitas 23, no. 2, Summer 2016, p. 9-14. Internet, https://cbhd.org/content/developments-practice-physician-assisted-death-its-legalization-netherlands
[3] FREIRE, Emma Elliott. Netherlands Considers Euthanasia For Healthy People, Doctors Say Things Are ‘Getting Out Of Hand’. The proposed 'Completed Life Bill' would allow any person over age 75 to receive euthanasia. Even if they are perfectly healthy. The Federalist. Internet, http://thefederalist.com/2017/06/30/netherlands-considers-euthanasia-healthy/?utm_source=The+Federalist+List&utm_campaign=e8d13aa942-RSS_The_Federalist_Daily_Updates_w_Transom&utm_medium=email&utm_term=0_cfcb868ceb-e8d13aa942-52858105
[4] "The notion that persons should be safe from extermination as long as they do not commit willful murder, or levy war against the Crown, or kidnap, or throw vitriol, is not only to limit social responsibility unnecessarily, and to privilege the large range of intolerable misconduct that lies outside them, but to divert attention from the essential justification for extermination, which is always incorrigible social incompatibility and nothing else." Fonte: SHAW, George Bernard. Plays Political: The Apple Cart, On the Rocks, Geneva. Penguin Classics: 1990.
"We should find ourselves committed to killing a great many people whom we now leave living, and to leave living a great many people whom we at present kill. We should have to get rid of all ideas about capital punishment … A part of eugenic politics would finally land us in an extensive use of the lethal chamber. A great many people would have to be put out of existence simply because it wastes other people's time to look after them." Fonte: SHAW, George Bernard. Lecture to the Eugenics Education Society. The Daily Express, 4 de março, 1910.
"The moment we face it frankly we are driven to the conclusion that the community has a right to put a price on the right to live in it … If people are fit to live, let them live under decent human conditions. If they are not fit to live, kill them in a decent human way. Is it any wonder that some of us are driven to prescribe the lethal chamber as the solution for the hard cases which are at present made the excuse for dragging all the other cases down to their level, and the only solution that will create a sense of full social responsibility in modern populations?" Fonte: SHAW, George Bernard. Prefaces. London: Constable and Company, 1934, p. 296.
[5] GRANT, Edward R. Cracks in the wall: confronting the legalization of physician-assisted suicide and euthanasia. DIGNITAS, 2016, Volume 23(3), p.1, 4-6.
[6] ANGOTTI NETO, Hélio. A tradição da medicina. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2016.
[7] HAWKEN, Abe. Terminally ill baby Charlie Gard's parents 'utterly distraught' after losing final appeal in European court - meaning their son's life support WILL be switched off. Mail Online. Internet, http://www.dailymail.co.uk/news/article-4644268/Charlie-Gard-s-parents-lose-final-appeal.html#ixzz4ljCBPbrP 
[8] WALSH, Matt. Tradução e adaptação: Equipe do site Christo Nihil Praeponere. Bebê é sentenciado à morte por Tribunal Europeu dos “Direitos Humanos”. Descubra o que está por trás da sentença de morte do pequeno Charlie Gard, o bebê cuja vida e família foram simplesmente “atropeladas” pela decisão irrecorrível de um tribunal. Internet, https://padrepauloricardo.org/blog/bebe-e-sentenciado-a-morte-por-tribunal-europeu-dos-direitos-humanos
[9] Em obra a ser traduzida em breve pela Editora Monergismo: KOOP, C. Everett; SCHAEFFER, Francis A. Whatever Happened to the Human Race? Wheaton, Illinois: Crossway, 1983.
[10] WEIKART, Richard. The Death of Humanity and the Case for Life. New Jersey, Regnery Faith, 2016.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A DISBIOÉTICA CONTRA A VIDA HUMANA

DISBIOÉTICA CONTRA A VIDA HUMANA

Quando matar vira tratamento




No periódico DIGNITAS, do Center for Bioethics and Human Dignity (Volume 23/3), Edward Grant, professor do renomado Centro Pellegrino de Bioética Clínica da Universidade de Georgetown, relata o avanço da eutanásia e do suicídio assistido sobre diversos países. 

Sua preocupação é que matar o paciente torne-se, inevitavelmente, numa das formas elencadas mais fáceis, baratas e frequentes de lidar com pacientes graves.

Em seu artigo, reproduz o relato do autor George Weigel:

George Weigel, do Centro de Políticas Públicas e Ética de Washington

"Durante o acampamento de verão de minha paróquia no interior de Quebec, três anciões receberam o diagnóstico de câncer no hospital local, um estabelecimento interiorano a uma hora de viagem de carro do centro urbano de Ottawa e ainda mais distante da super secular Montreal. Porém, após a informação do diagnóstico, a primeira questão perguntada para cada uma dessas pessoas foi 'você quer fazer eutanásia?' É isso o que o sistema canadense de eutanásia alcançou em apenas poucos meses: colocou a eutanásia no topo das opções do cardápio proposto para pessoas gravemente doentes." (destaques do próprio autor)

Grant se questiona sobre como os novos médicos serão ensinados nesse contexto. Serão eles instruídos a oferecer a eutanásia como qualquer outra opção ou até mesmo como a primeira opção? Serão eles pressionados para corte de gastos monetários e emocionais com a eliminação dos "casos difíceis"? Respeitarão aqueles que alegam objeção de consciência?

Edward Grant, Professor da Universidade de Georgetown

GRANT, Edward R. Cracks in the wall: confronting the legalization of physician-assisted suicide and euthanasia. DIGNITAS, 2016, Volume 23(3), p.1, 4-6.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Espantalhos, Nazistas e Coerência Ética

Espantalhos, Nazistas e Coerência Ética



Alguns seres humanos têm a capacidade de nos surpreender ao tornarem realidades as mais estapafúrdias hipóteses.

Explico melhor...

No livro A Morte da Medicina eu joguei com a hipótese da perda de dignidade do feto e do bebê, e perguntei se caso não houvesse problema em matar um feto ou bebê por não o considerar pessoa, por que então haveria problema em vender suas partes ou degustá-lo como fina iguaria? Confesso que foi um gracejo na época, uma conductio ad absurdum de valor retórico, talvez.

E assisti surpreso a uma série de vídeos nos quais uma das maiores empresas abortistas do mundo, a Planned Parenthood, fundada pela excêntrica eugenista estadunidense Margareth Sanger, negociava pedaços de bebês e fetos, inclusive enquanto um “espécime” ainda com o coração batendo era dilacerado.

O que era hipótese grotesca e chocante virava realidade da noite para o dia.

Mas quando acho que posso tomar fôlego, eis que um novo fato surpreende. Em um dos melhores periódicos médicos do mundo é publicado um comentário no mínimo curioso, demonstrando certa indignação com a indignação alheia, reclamando dos incoerentes defensores da dignidade da vida humana[1]. Mas fico surpreso porque o artigo inteiro nada mais é do que uma série de proposições falaciosas ao redor de um grande espantalho[2] inventado pela autora Alta Charo, importante bioeticista da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos.

A autora começa reclamando sobre as grandes “vias de esperança” (avenues of hope) que poderão ser destruídas pelo ativismo de grupos politiqueiros. Segundo ela:

“(…) essas vias de esperança [para pacientes atuais e futuros por causa da pesquisa com tecido fetal] são ameaçadas [por meio do corte de verbas federais para a Planned Parenthood] por uma luta política pura – um aluta que, neste caso, não vai afetar de forma alguma o número de fetos abortados ou trazidos a termo, objetivo alegado pelos ativistas envolvidos.”

"(...) those avenues of hope [for current and future patients because of fetal tissue researching] are being threatened [by the Federal defunding of Planned Parenthood] by a purely political fight – one that, in this case, will in no way actually affect the number of fetuses that are aborted or brought to term, the alleged goal of the activists involved.”

Há vários erros no raciocínio exposto.

Declarar que tudo não passa de uma briga política é cometer um dos grandes crimes filosóficos dos quais se tem notícia: reducionismo. Reduzir à politicagem uma questão que toca no valor da vida humana e na dignidade da vida e nos limites de definição do que é digno, correto ou errado fazer é, no mínimo, uma barbaridade. É ignorar, ou preferir não reconhecer, que há sim elementos políticos na discussão, mas que esta discussão é algo muito mais sério, amplo e profundo do que a política, é uma questão que aborda diretamente a cosmovisão de toda uma nação, senão de uma civilização. É uma questão essencial para a definição de quem são afinal os norte-americanos.

Alta Charo também parece melindrada sobre bagunçar esperanças alheias em grandes descobertas num futuro hipotético. Mas, desde que Hans Jonas publicou sua obra chamando a atenção da comunidade mundial de bioeticistas sobre o princípio da Responsabilidade e do Temor[3] - sendo acusado por muitos incautos de conservador justamente por não advogar o progresso científico acima do bem do indivíduo concreto e real de nosso tempo -, analistas prudentes perceberam que nenhuma esperança em algo hipotético e, portanto, opcional, no futuro, pode justificar uma falha ética no presente. Logo, não há razões para melindres a respeito de expectativas futuras se houver razões para melindres a respeito de falhas éticas graves no presente.

E verdade seja dita: o que mais se tem quando se fala em Células Tronco Embrionários é esperança.

Dizer também que o número de abortos não diminuirá por meio do ativismo político e social de defensores da vida de fetos e bebês também não é uma proposição muito adequada. Há que se ter um pouco mais de cautela, pois numa situação relativamente nova no conhecimento geral e pouco pesquisada e analisada, não se sabe se a disponibilização de um mercado de pedaços de bebês e fetos não geraria um grande aumento do número de abortos. Da mesma forma, não se pode afirmar que a proibição da destinação de verbas federais à Planned Parenthood não geraria uma redução no número de abortos. Quem sabe? Eu não sei, e creio sinceramente que Alta Charo também não pode afirmar saber.

A seguir ela diz que:

“Ao ver de perto a pesquisa em tecido fetal, observa-se o dever de usar esse precioso tecido na esperança de encontrar formas de prevenir ou tratar doenças devastadoras. Virtualmente qualquer pessoa neste país se beneficiou da pesquisa com tecido fetal. Todas as crianças que foram poupadas dos riscos e sofrimentos da catapora, rubéola ou pólio podem agradecer aos ganhadores do Prêmio Nobel e outros cientistas que usaram tal tecido para produzirem a vacina que nos protege.”

“A closer look at the ethics of fetal research, however, reveals a duty to use this precious resource in the hope of finding new preventive and therapeutic interventions for devastating diseases. Virtually every person in this country has benefited from research using fetal tissue. Every child who’s been spared the risks and misery of chickenpox, rubella, or polio can thank the Nobel Prize recipients and other scientists who used such tissue in research yielding the vaccines that protect us.”

Realmente o número de pessoas que se beneficiou com o uso de tecido fetal é incontável em quase um século de vacinas. Mas do fato que se pode utilizar tecido fetal para beneficiar o próximo não se depreende que tal tecido tenha que ser colhido de ações eticamente questionáveis. Por que não colher apenas tecido fetal decorrente de situações eticamente inquestionáveis como aquelas em que ocorre aborto espontâneo ou traumático acidental? Por que não investir em meios de pesquisa mais avançados para proliferar o tecido obtido por meios menos controversos e fornecer material suficiente para pesquisa sem incorrer em questões existenciais que podem comprometer os valores de todo um povo?

Ou por que não investir em novos tecidos e novas técnicas capazes de evitar problemas éticos?

Acomodar-se, cobrar coerência e continuidade em relação a determinada linha de pesquisa e ridicularizar um dos lados da questão não parece ser realmente o melhor caminho. E se eu quiser fazer o meu espantalho também, parece algo bem reacionário dentro de um contexto progressista, se é que vocês me entendem...

Há também a cobrança de uma coerência por parte dos defensores enragé da vida:

“Críticos apontam para os abortos por trás da pesquisa, afirmam que são antiéticos, e argumentam que a sociedade não pode endossá-los ou até mesmo beneficiar-se deles, sob o risco de encorajar mais abortos ou tornar a sociedade cúmplice com o que eles veem como um ato imoral. No entanto, eles têm se utilizado sobremaneira das vacinas e tratamentos derivados da pesquisa com tecido fetal, e não dão indicação de que irão abrir mão de benefícios obtidos. Justiça e reciprocidade sugerem que eles têm o dever de apoiar o trabalho, ou ao menos, não o atrapalhar. ”.

“Critics point to the underlying abortions, assert that they are evil, and argue that society ought not implicitly endorse them or even indirectly benefit from them, lest it encourage more abortion or make society complicit with what they view as an immoral act. Yet they have overwhelmingly partaken of the vaccines and treatments derived from fetal tissue research and give no indication that they will forswear further benefits. Fairness and reciprocity alone would suggest they have a duty to support the work, or at least not to thwart it.”

Alta Charo cobra um determinado tipo de coerência no mínimo questionável. Exemplifico com uma analogia.

Suponhamos que a medicina nazista, utilizando judeus, prisioneiros de guerra ou crianças com retardo mental, tenha produzido um avançado medicamento no passado que salvou muitas vidas arianas e não arianas até os dias de hoje. Utilizar tal medicação e reconhecer seu benefício não quer dizer que, automaticamente, há que se assumir um compromisso em seguir fazendo pesquisa e medicina nos moldes nazistas, ou utilizando judeus, crianças deficientes ou prisioneiros.

É muito mais coerente cobrar que, ao ser descoberta uma ameaça à ética, tal ameaça seja imediatamente avaliada e que chances de perpetuar um erro sejam suspensas até que se saiba melhor qual caminho tomar. Parar com a “venda” de fetos ou suspender temporariamente o aporte de novos espécimes para pesquisa não implicará imediatamente no fim das pesquisas com os tecidos fetais já colhidos, ou até mesmo na coleta de novos tecidos à medida em que novos abortos espontâneos ou sob condições mais seguras do ponto de vista ético continuem acontecendo.

A autora prossegue menosprezando a perspectiva alheia e declara que:

“(...) parece óbvio que as necessidades de pacientes de hoje e do futuro superam o que só podem ser gestos simbólicos ou políticos de preocupação. ”

“(...) it seems clear that the needs of current and future patients outweigh what can only be symbolic or political gestures of concern.”

Só parece óbvio, mas não é. Nesse esquema lógico, uma premissa não bate. Há uma falta de empatia mortal ao debate intelectual. O pressuposto de que se está ao lado da verdade e do bem, e que o próximo é um hipócrita interesseiro ou um simplório incapaz de sentimentos genuínos e profundos não parece contribuir para o ambiente respeitável de diálogo e compreensão que a Bioética exige.

Dra. Charo também observa uma ironia, que descreve como o fato de que:

“reduzir o acesso à contracepção [ao deixar de custear com verbas do governo a Planned Parenthood, que também atua na distribuição de anticoncepcionais] é o caminho mais certo para aumentar o número de abortos.”
“reducing access to contraception is the surest way to increase the number of abortions.”

Mas antes de ser uma ironia há uma possibilidade em jogo. Pode muito bem ser possível que outras organizações sem entraves éticos como a Planned Parenthood tomem para si o papel de orientar acerca da contracepção. Pode ser que novos serviços surjam. Pode ser que o número de abortos até diminua, afinal de contas, quem faz o aborto e o defende pode, de uma hora para outra, não estar lá. Não é possível afirmar que tirar verbas do contribuinte norte americano da megaempresa abortista aumentará de fato o número de abortos. Isso seria brincar de prever o futuro sem muita fundamentação em exemplos históricos.

Por fim, o artigo encerra com um tom fortemente retórico e emocional, tentando exibir a feiura moral daqueles que discordam:

“Esse ataque representa uma traição Às pessoas cuja vida poderia ser salva pela pesquisa, e uma violação do dever mais fundamental da medicina e da política de saúde, o dever de cuidar.”

“This attack represents a betrayal of the people whose lives could be saved by the research and a violation of that most fundamental duty of medicine and health policy, the duty of care.”

Se o ataque é uma traição a pessoas do futuro, porque a venda de órgãos de fetos e bebês não seria uma traição aos seres humanos do presente? Se o dever fundamental da medicina e das políticas de saúde é cuidar do próximo, onde está o cuidado com as vidas interrompidas, ou com a sua dignidade?

A preocupação da doutora Charo é plenamente compreensível e respeitável dentro de uma perspectiva progressista e cientificista. O mínimo que se espera de alguém de sua importância como figura pública, bioeticista e educadora, é um esforço genuíno para compreender que a postura daqueles que ela chama de traidores e politiqueiros também é respeitável dentro de suas próprias perspectivas.

Criar espantalhos ou menosprezar problemas éticos nessa altura do campeonato não ajudará em nada ao debate bioético de qualidade.

Hélio Angotti Neto
Dean of UNESC Medical School
Seminar of Philosophy Applied on Medicine
www.medicinaefilosofia.blogspot.com.br






[1] CHARO, Alta. Fetal Tissue Fallout. New England Journal of Medicine, 373(10), September 3, 2015, p. 890-891.
[2] Evocar um espantalho numa discussão, debate ou argumentação é criar uma versão estereotipada de seu “adversário” e passar a atacar a própria criação ao invés de abordar a pessoa real com quem se relaciona.
[3] JONAS, Hans. Princípio Responsabilidade – Ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro, RJ: Editora Contraponto, 2006.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

SEFAM IV - Aula 04: A Medicina e a Morte

SEFAM Módulo IV: A Medicina e a Morte: Aspectos Culturais, Filosóficos, Sociais e Bioéticos.

Na terceira aula do SEFAM, o grupo mostrou interesse no estudo da Tanatologia. Conforme pactuado entre os participantes, os temas são parcialmente direcionados de acordo com a curiosidade e o contexto das discussões, e o papel do médico frente à morte será o assunto abordado semana que vem, dia 26 de agosto de 2015, das 18:30 às 21:30 na sala de vídeo da Biblioteca do CAMPUS I do UNESC.

O encontro do dia 19 foi adiado, pois estarei no I Seminário UFES de Paleopatologia apresentando em conjunto com o grande professor Ricardo da Costa a respeito da Lepra na Idade Média.



Roteiro de Estudo

- Retratos da morte no século XXI.

- Etapas psicológicas da morte

- A condução médica da morte

- Ars moriendi

- Visões sobre o morrer

- Visão médica sobre a morte

- A medicina como a mensageira da morte

- Choque de princípios na condução da morte

- O suicídio e a Medicina

- A eutanásia e a Medicina

- O preparo para a morte

- Sofrimento e morte

- Protocolo Groningen


segunda-feira, 15 de junho de 2015

SUGESTÃO DE LEITURA: O PRINCÍPIO DE HUMANIDADE PARTE I

O Princípio de Humanidade. Parte I: O que está acontecendo?


Por sugestão do Professor Eduardo Cabette, iniciei a leitura do livro "O Princípio de Humanidade", de Jean-Claude Gillebaud.

Considerando a importância do escrito e os múltiplos insights que este oferece ao leitor atento que esteja inserido na área de estudo conhecida por Bioética, farei uma reflexão passo a passo da leitura, destacando pontos de grande valor ao lado de algumas reflexões próprias e convidando aquele que me lê para que leia também o livro.

O capítulo 1 abre a obra com a grande pergunta: O que nos acontece?

O autor matou a grande charada da pergunta. Embora não tenha sido o primeiro a desvendar a esfinge, já que C. S. Lewis – entre outros - já alertava que a última derrota sofrida pela humanidade seria a derrubada da própria natureza do ser humano, Gillebaud contextualiza a resposta com preciosas evidências do trágico século XX e acerta na mosca, a humanidade do homem está sob ameaça de extinção.

Neste momento de grande mutação que vivemos, de globalização de mercados, avanços na genética e tecnologia abundante virtualizando a realidade do ser humano, adquirimos cada vez mais a capacidade de recriar a natureza e, enfim, recriar o criador de tais avanços.

O autor lembra do evento marcante do século passado que nos legou uma preciosa lição: o extermínio de seres humanos de forma sistemática por ideologias totalitárias. Sejam comunistas, sejam nazistas, o pressuposto que nutria sua sanha assassina basicamente era um: O ser humano perdera sua dignidade ou seu estatuto de humanidade. Não merecia deferência, tornara-se objeto, combustível para nutrir o avanço de grandes e idolatrados leviatãs eternamente sedentos do sangue dos vivos.

Gillebaud lembra que o nazismo é citado à exaustão como exemplo da tragédia humana do século XX. Alain Besançon também lembra da hipermnésia no que diz respeito ao nazismo, embora ofereça uma crítica ao esquecimento da citação de crimes comunistas no seu breve, mas importantíssimo livro, “A Infelicidade do Século”.

Mesmo que muitos torçam o nariz para a memória dos crimes nazistas ou comunistas e sua repetida menção, é elemento de nossa identidade civilizacional. Tal memória do mal é símbolo do quão fundo descemos, de nossos pecados culturais que nos jogaram dentro do abismo mais profundo da perda da noção do que é a Dignidade Humana. O esquecimento de tais fatos – reforço: FATOS – constitui o triste retrato do que somos e de onde viemos. 

Ao lado das glórias da Cristandade, do Imago Dei que eleva o dignificado ser humano às alturas divinas, apesar de suas mazelas, está a tenebrosa perda da humanidade, da dignidade, está o esquecimento de quem somos.

Hoje intelectuais internacionalmente reconhecidos como Steven Pinker e a professora Ruth Macklin desprezam a noção de dignidade humana. Compreendo a ambos. Se esquecemos o ápice humano na longa tradição cultural do ocidente – e do oriente, por que não? – não há razão forte para enxergar no ser humano mais do que um amontoado de átomos que se chocam, grudam e desgrudam conforme o acaso, sem fim, sem inteligência, sem propósito, nada mais.

Viktor Frankl acusara tudo isso. Ele, um judeu prisioneiro dos campos de concentração, sobrevivente, psiquiatra, psicólogo e filósofo, afirmou com muita razão que a culpa dos terríveis genocídios era daqueles intelectuais que não poucas vezes foram laureados com prêmios e reconhecimento internacional.

Hoje lemos um desses intelectuais - ceticistas, relativistas e cretinos - e suspiramos, encantados com sua prosa, sua sagacidade que vira e revira a realidade. Amanhã as palavras se concretizarão em atos,e destruirão os que antes suspiravam.

O problema está identificado. É a destruição de um princípio do qual muitos outros derivam: O Princípio de Humanidade. Esta é a ameaça.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Utopia Médica e Negação da Morte - Raízes Culturais do Transumanismo

Apresentação de Tema Livre no II Seminário de Humanidades Médicas do UNESC e II Seminário Capixaba de Humanidades Médicas, realizado em Colatina, ES, no CAMPUS I do Centro Universitário do Espírito Santo, dia 24 de outubro de 2014.



domingo, 30 de novembro de 2014

GAZETA DO POVO: Sobre o Aborto pós-nascimento

Matéria sobre a desprezível proposta do aborto pós-nascimento publicada no Blog da Vida do jornalista Jônatas Dias Lima, que encomendou uma breve entrevista sobre o tema.

Veja a matéria do nobre Jônatas Dias Lima em:

http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=1517204&tit=Pratica-do-aborto-pos-nascimento-ganha-defensores-no-meio-academico