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segunda-feira, 4 de junho de 2018

O Estranho Doutor que Gostava da Morte

O Estranho Doutor que Gostava da Morte


Há pessoas marcadas com gosto por coisas nada ortodoxas. Uma das mais estranhas e mórbidas ideias, sem dúvida nenhuma, é a obsessão com a morte. Não é um tema improvável, visto que todos temos tal evento como certeza em nossas vidas, mas é algo que normalmente não se pensa até o momento de sua aproximação, seja natural, seja por meio de doença.

Jack Kevorkian, conhecido também pelo nome de Doutor Morte, é uma dessas pessoas com uma estranha curiosidade pelo fim. Diria até mais, já que se dedicou a ser elemento ativo na morte alheia.

Filho de pais que escaparam do genocídio na Armênia, abandonou a fé cristã de sua família ainda menino. Na residência médica, já era obcecado com a morte, e se revoltava quando médicos utilizavam argumentos religiosos sobre a santidade da vida humana como base para negar a licença para matar. 

Tais argumentos e a própria lei não foram impedimento para Kevorkian, que desenvolveu sua máquina de matar, carinhosamente chamada de thanatron (palavra derivada de thanatos, que significa morte), e tornou-se um ativista da eutanásia durante os anos 90 do século XX. 


Sua primeira vítima foi Janet Adkins, portadora de Alzheimer com 54 anos de idade que o procurou em busca de um suicídio assistido. Kevorkian ligou-a em seu thanatron e a matou em 4 de junho de 1990. O doutor morte não examinou a paciente, não consultou o médico assistente da mesma e tentou a venóclise perfurando o membro da paciente por cinco vezes seguidas. 

Após tudo estar preparado, coube a Adkins pressionar o dispositivo e morrer. Seu médico assistente informara à época que provavelmente ela já não tinha plena consciência do que estava acontecendo, isto é, já não estava mentalmente competente.

Mais 130 pessoas tiveram suas mortes auxiliadas pelo estranho doutor, que foi enfim sentenciado a 25 anos de prisão.

Hoje, com a pressão para legalizar o papel do médico como entregador da morte por meio de abortos, suicídios e eutanásias, a vida de Kevorkian tem sido romantizada por alguns militantes da cultura da morte, quando na verdade o que ficou demonstrado é como a cultura da morte aliada à má técnica e à falta de ética profissional adequada se transforma numa perigosa máquina de extermínio e desespero.

A opção forçada entre morrer ligado de forma desumana em aparelhos ou recorrer ao suicídio ou à eutanásia é uma falsa colocação da questão, que reduz a equipe de saúde a uma condição bestializada e monstruosa na qual se deve decidir entre monstros que torturam o paciente ou monstros que matam. Quem se interessa por tanatologia deve perfurar a venda colocada à força em nossos olhos por essas narrativas enviesadas e enxergar as verdadeiras opções, como a medicina paliativa de boa qualidade, que sempre prezou a vida humana e a respeitou sem transformar o médico ou qualquer outro membro da equipe de saúde em um verdugo apto a matar.

Será que ainda não aprendemos as lições terríveis de nosso passado? Quantos ainda precisarão morrer para que o médico retorne à sua vocação original ou desista dessas utopias da morte?

Hélio Angotti Neto - Colatina, 04 de junho de 2018.

Bibliografia

BISHOP, Jeffrey P. The Anticipatory Corpse. Medicine, Power, and the Care of Dying. Notre Dame, Indiana: University of Notre Dame Press, 2011.
GORSUCH, Neil. The Future of Assisted Suicide and Euthanasia. Princeton & Oxford: Princeton University Press, 2006.
NICOL, Neal; WYHE, Harry. Between the Dying and the Dead: Dr. Jack Kevorkian’s Life and the Battle to Legalize Euthanasia. Madison: University of Wisconsin Press; Terrace Books, 2006.
WEIKART, Richard. The Death of Humanityand the Cas for Life. Washington, DC: Regnery Faith, 2016.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

ATÉ QUANDO LUTAR PELA VIDA HUMANA?

ATÉ QUANDO LUTAR PELA VIDA HUMANA?

Dever de Matar 2




No artigo Dever de Matar, abordei perigosos aspectos observados no caso do pequeno Charlie Gard, um recém-nascido com uma grave doença retido no hospital contra a vontade dos pais para que morresse, conforme denominação da equipe médica, com dignidade e sem intervenções consideradas fúteis e potencialmente lesivas.

O nome das intervenções inúteis, lesivas e obstinadas em medicina é distanásia, uma falha técnica e moral, sem dúvida. Mas será que o conceito se aplica realmente à situação?

Um exemplo claro de distanásia é um paciente de idade avançada com câncer de pulmão metastático[1], já muito próximo à morte, no estádio mais avançado de sua doença, que apresenta uma comorbidade[2] como dificuldade urinária por hiperplasia prostática benigna, por exemplo. Diante da morte iminente, não cabe submeter o paciente a procedimentos cirúrgicos de ressecção da próstata, mas caberia a passagem de sonda para eliminar a urina e promover conforto. A cirurgia seria claramente um exagero.

No caso do bebê Charlie a situação é muito mais complexa do que o exemplo descrito. O procedimento é experimental e a possibilidade de vida é incerta. Como pensar essa situação?

Relato alguns elementos que apoiariam a compreensão de que estamos diante de um caso potencial de distanásia:

- A baixíssima probabilidade de sobrevivência;

- O aspecto completamente experimental do tratamento;

- O dano cerebral já presente, teoricamente incompatível com uma vida de boa qualidade segundo algumas informações porém ainda não definido;

- O excesso da intervenção já promovida.

- A possibilidade de que os pais estejam em fase de negação ou negociação da doença terminal de seu pequeno bebê.[3]

Contudo, quais os perigos em se chamar de distanásia a possibilidade de tentar o tratamento experimental no caso em questão?

A situação envolve sentimentos intensos e muitas vezes contraditórios por parte dos pais e, não duvido, por parte de alguns da própria equipe médica, que em algum grau podem se solidarizar com o sofrimento do bebê e imaginar o que seria uma vida extremamente limitada para o pequeno paciente na hipótese de sucesso limitado do tratamento experimental, acrescentando sofrimento para a família em níveis imprevisíveis ao longo de anos.

Tive a chance de acompanhar alguns pacientes até o momento do óbito e vi de perto o sofrimento de diversas famílias. Mesmo sendo oftalmologista[4], fui chamado a oferecer suporte em domicílio em casos graves com alterações oftalmológicas e já alerto: todo médico deve aprender a lidar com a morte e o sofrimento, pois cedo ou tarde irá se deparar com essa velha e indesejada companheira. Há quase sempre um intenso sofrimento por parte da família que vem ao lado do sentimento profundo de obrigação para com o doente e, quando o familiar querido falece, do sentimento de um triste dever cumprido, se tudo tiver corrido bem.

O sentimento dos pais do bebê Charlie, de não querer que algo deixe de ser feito, realmente pode disparar culpas desnecessárias e inadequadas em determinadas situações, mas é um sentimento que deve ser respeitado. A vida humana possui valor ontológico e precede qualquer outro direito como condição sine qua non, e a resposta preocupada daqueles que cuidam de pacientes graves ou em fase final de vida é algo coerente com esse valor apreendido da realidade. Se abandonarmos os valores fundamentais de nossa civilização, o respeito à dignidade da vida humana entre eles, a vida passará a ter valor puramente subjetivo e relativizado, abrindo caminho para as loucuras mais cruéis já presenciadas na história.

Ao mesmo tempo, deve-se compreender que expectativas irreais não justificam plenamente o emprego fútil de medidas médicas inúteis. Isso onera a família, cria anseios que jamais poderão ser supridos e aumenta o sofrimento de todos: pacientes, familiares e equipe médica.

Qual será o caso do pequeno Charlie Gard? Distanásia? Abandono do paciente por causa da Cultura da Morte? O que fazer?

Não acredito que haja resposta simples.

Tratar de forma insistente com baixíssimas chances de manter a vida guarda sim um elemento de obstinação. Todavia, nem toda obstinação é vã.

Por outro lado, o emprego da morte alheia como conceito corriqueiro, útil e ativo da prática médica guarda perigosas repercussões e restrições profissionais. Pode nos levar à instrumentalização da morte como meio eficaz de “tratamento” dos indesejados e como marca de uma profissão médica que passará a ser ainda mais temida e odiada por alguns, agora que tornou-se eficaz distribuidora da morte.

Lembro da situação já descrita na obra “A Morte da Medicina”, na qual crianças com espinha bífida foram sistematicamente submetidas ao Protocolo Groningen, na Holanda, cuja implantação o Conselho Federal de Medicina do Brasil chegou a sugerir em uma gestão anterior.[5] Mais de vinte casos de eutanásia infantil por doença “incurável” foram executados por meio da eutanásia com a concordância dos pais e com a indicação da equipe médica. Pouco tempo após o Dr. Verhagen ter publicado sua mórbida casuística[6], Rob de Jong, um neurocirurgião pediátrico, publicou o sucesso de uma inovadora cirurgia de grande porte e muita complexidade capaz de restituir potencial de vida útil a um bebê nascido com a trágica deformação.[7] Não consigo parar de pensar quantas crianças foram mortas em vão, e imagino como deve estar a consciência dos pais que foram convencidos de que não valia a pena lutar por seus filhos, que nada poderia ser feito. O rosto sorridente do paciente do Dr. De Jong é um potente alerta vermelho para os entusiastas da fácil solução final.

Imagem de público aceso, disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2092440/

A medicina, ao longo dos milênios, fez inúmeras descobertas sobre como salvar a vida, prolongá-la ou melhorá-la, além de descobrir recursos para prevenção de doenças. Desde as coisas simples como a antissepsia até as técnicas avançadas como transplantes de órgãos e implante de próteses foram descobertas e aplicadas com sucesso por médicos que sempre estiveram abertos a novas possibilidades de auxiliar o próximo.

Se há necessidade de evitar intervenções esdrúxulas, há também necessidade de se buscar novos caminhos.

Diante de um caso de doença grave e irreversível em pacientes de idade muito avançada, realmente o excesso de intervenção pode ser desaconselhado. E qualquer médico tem o direito, e às vezes o dever, de recusar tratamentos inúteis ou errados.

Mas a situação é bem mais complexa. Não se fala de um tratamento inútil, fala-se de um tratamento experimental que pode dar errado ou pode funcionar provocando algum tipo de melhora.

O tema em jogo não é o de uma equipe médica sendo obrigada a tratar um paciente empregando técnicas que acredita serem erradas. A questão em jogo é levar o pequeno paciente a médicos que podem empregar um tratamento inovador e incerto, mas que estão dispostos a tentar.

Não se fala de um tratamento contraindicado ou inútil, fala-se de um tratamento com possibilidade de funcionar, mesmo que mínima, e que seria indicado para outras crianças se fosse bem-sucedido, mudando completamente o prognóstico de outras pessoas e famílias num futuro próximo.

Não se fala em aumentar o sofrimento de pessoas muito idosas e já sem esperança de vida sem nada lhes acrescentar de vida, fala-se em tentar aumentar o potencial de vida de um bebê.

Quais serão as consequências de empregar a morte como opção válida para evitar tratamentos inovadores?

Deixar morrer ou matar é coisa simples, qualquer energúmeno consegue. Criar um tratamento diferente ou uma cirurgia inovadora é coisa dificílima, uma verdadeira obra de arte e ciência.

Não seria mais fácil para todos simplesmente lavar as mãos e repetir a velha frase quid est veritas?

E ainda há outro aspecto: o da imagem da medicina diante de tudo isso.

Que imagem essa família e as pessoas em todo o mundo guardarão desses médicos e dessa medicina coercitiva? Faço a pergunta com muito receio, pois acredito de coração que os colegas britânicos realmente consideram que fazem o melhor para o pequeno bebê. O próprio juiz que emitiu parecer sobre o caso afirmou fazê-lo com pesar. Mas acredito também que há um profundo equívoco nessa decisão imposta à família e na tomada da tutela do bebê à força pelo Estado.

Há elementos potencialmente lesivos para toda a sociedade nesse caso, há precedentes perigosos que podem mudar completamente a forma pela qual enxergamos os médicos e os serviços de saúde, se é que já não mudaram.

A pergunta que se faz ao final de tudo é quanto vale a vida humana? Dessa pergunta surgem muitas outras.

Deve-se calcular o preço da vida humana, ou quanto esforço fazemos para salvá-la, conforme sua capacidade de ser útil, de obter prazer ou de fornecê-lo? Podemos parar de lutar por novos tratamentos para aquelas condições terríveis que teoricamente nos levarão sempre à morte e ao sofrimento? Todo sofrimento deve ser ferozmente evitado?

Jeffrey Bishop, de forma semelhante ao médico Viktor Frankl, inventor da Logoterapia[8], questiona se a medicina não deveria pensar na vida humana como finalidade, dotada de um propósito iluminado pela consciência e desvelado pela biografia de cada ser vivo em comunidade.[9]

O propósito dos pais é o de proteger seu filho. Devem fazê-lo dotados das melhores informações possíveis em um ambiente de compreensão e amparo.

O propósito dos médicos é beneficiar o paciente e, quando possível, salvar e resguardar a vida, considerando os já tradicionais aspectos físicos, mentais, sociais e espirituais. Nessa equação cabe a observação de Viktor Frankl e Jeffrey Bishop sobre a valorização dos aspectos existenciais.

Até mesmo o pequeno Charlie já pode ter um propósito em seu contexto. Ao que indica, muitos enxergaram na luta dessa família e na vida do bebê um símbolo do valor pela luta contra a morte e a doença, um pequenino e ao mesmo tempo grande símbolo de esperança, perseverança e amor.

Como já afirmei, há elementos de obstinação neste caso, porém o emprego da autoridade tecnocrática dos médicos e do Estado contra a autoridade familiar, além da proibição ativa do tratamento, pode nos levar a consequências de espectro muito mais amplo do que o previsto.

Estamos diante de atitudes e valores que fundamentam nossa civilização e caracterizam a profissão médica e os cuidados com a saúde em geral. Qual o modelo médico que desejamos seguir? Onde nossas escolhas nos levarão? Quem deve ter a guarda do pequeno Charlie? Deve ser seu responsável a sua família que o ama, que o carregou no ventre e que perde noites de sono ao seu lado, sofrendo? Ou deve ser responsável a fria tecnocracia estatal, que enxerga o pequeno Charlie como um problema num sistema de saúde?

Peço desculpas se encho a cabeça dos leitores com perguntas, mas diante de uma decisão irreversível que pode levar à morte, só Deus sabe o estrago que pode ser feito na vida dessa sofrida família, na carreira dos médicos de forma geral e em nossa civilização.



[1] Um câncer que já se espalhou pelo organismo e, de regra, é incurável.
[2] Uma outra doença não diretamente relacionada com a doença principal.
[3] KUBLER-ROSS, Elizabeth. Sobre a Morte e o Morrer. Ão Paulo: WMF Editora Martins Fontes, 2008.
[4] O fato de eu trabalhar com doenças relacionadas à Órbita e à Neuro-Oftalmologia, incluindo tumores oculares e de cabeça e pescoço, acaba por aumentar a chance de lidar com esses casos mais exigentes.
[5] CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Conselhos de Medicina se posicionam a favor da autonomia da mulher em caso de interrupção da gestação. Quinta, 21 de março de 2013. Internet, http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=23661
[6] VERHAGEN, Eduard; SAUER, Pieter J.J. ‘The Groningen Protocol — Euthanasia in Severely Ill Newborns’. New England Journal of Medicine, 352, 2005, p. 959-962.
[7] ANGOTTI NETO, Hélio. A Morte da Medicina. Campinas: Vide Editorial, 2014; JONG, T. H. Rob de. Deliberate termination of life of newborns with spina bifida, a critical reappraisal. Child’s Nervous System, 24, 2008, p.13–28.
[8] XAUSA, Izar Aparecida de Moraes. A Psicologia do Sentido da Vida. A primeira obra sobre logoterapia publicada no Brasil. 2ª edição. Campinas, SP: Vide Editorial, 2013.
[9] BISHOP, Jeffrey. The Anticipatory Corpse. Medicine, Power, and the Care of the Dying. Notre Dame, Indiana: University of Notre Dame Press, 2011.

domingo, 29 de janeiro de 2017

SUGESTÃO DE LEITURA: VIKTOR FRANKL

A BUSCA EXISTENCIAL DE VIKTOR FRANKL


Em seu livro “O Que Não Está Escrito Nos Meus Livros”, Viktor Frankl conta breves trechos de sua história repleta de grandes acontecimentos e conquistas. Suas memórias, ditadas ao fim de sua vida, na décima década, são breves, porém selecionadas por sua significação, trazendo eventos singelos e prosaicos ao lado de momentos aparentemente simples e desinteressantes, que revelam um ominoso sentimento de gratidão e significação diante da realidade.

Um capítulo que trata do ano anterior à deportação para um campo de concentração, narra eventos capazes de demonstrar de quem falamos.

O nazismo avançara sobre a Áustria. Todos sabiam o destino dos deportados. Todos sabiam que tudo era uma questão de tempo. Por enquanto os “úteis” ainda permaneciam prestando serviços, enquanto os “comedores inúteis” eram sistematicamente massacrados. O próprio Frankl permanecera um ano a mais sem deportação ao tratar um agente da Gestapo de sua agorafobia. Eis que o psiquiatra recebe um visto para palestrar no exterior, nos Estados Unidos. Era a chance de se salvar! Mas deixaria seus pais para trás, destinados ao extermínio. Chegando em casa, após um passeio em que meditava e pedia a Deus orientação sobre qual caminho seguir (um sinal dos céus), viu um pequeno pedaço de mármore sobre a mesa, retirado das ruínas de uma sinagoga destruída, onde se lia o começo de um mandamento: “honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os seus dias na terra”.

Frankl decidiu ficar, se casou, viu seu filho ser abortado pelas forças de ocupação, já que nenhum judeu poderia nascer a partir de certa data, e nem poderiam se casar. Essa destruição das crianças judias dentro do útero materno, incluindo seu filho, o levou a escrever a obra “The Unheard Cry for Meaning”, traduzida no Brasil pelo nome de “Um sentido para a vida: psicoterapia e humanismo”.


A história de Viktor Emil Frank é um relato de amor e busca de sentido existencial em confronto com uma época repleta de violência, irracionalismo e niilismo. É o testemunho dos males que geraram as maiores tragédias de nossa história.



sábado, 2 de abril de 2016

COMPREENDER A MORTE PARA VIVER A VIDA

Compreender a Morte para Viver a Vida


Nós não gostamos de falar sobre a morte. Gostamos ainda menos de falar acerca da morte de nossos amigos e familiares e abominamos completamente a tomada de consciência de nossa própria finitude.

Nossa cultura contemporânea nos estimula a pensar e agir como se fôssemos imortais neste mundo, eternamente na busca de novos prazeres, negando frustrações e limitações.

Numa aula sobre tanatologia para ingressantes no Curso de Medicina, escutei deboches quando perguntei sobre como as pessoas gostariam de morrer. É uma postura defensiva clássica - debochar daquilo que se teme – que pode nos fazer perder tempo em reconhecer as questões realmente preciosas da vida. Quem debochou foram alunos novos; muitos ainda não perderam seus entes mais amados e, talvez, nenhum deles ainda tenha visto bem de perto o dia de seu fim. E sem a clara percepção de nossa finitude, como valorizar adequadamente nossos momentos de vida?

Em uma viagem recente à Universidade de Baylor, em Waco no Texas, para palestrar num evento de Humanidades Médicas, recebi preciosas dicas de leitura do professor William Hoy. Um autor recomendado com especial entusiasmo foi o Médico Paliativista Ira Byock, autor do livro “The Four Things That Matter Most: A Book About Living”.



No livro, Ira Byock utiliza vários exemplos daquele que é o grande momento de perda, dor e fragilidade – a morte – para ensinar acerca de como viver bem. Ele trata das quatro coisas mais valiosas para se dizer quando nos despedimos de alguém[1], e também nos alerta sobre o fato de que não precisamos esperar o momento de dizer adeus para falar sobre isso.



O valor de se acumular narrativas, advindas da realidade vivida ou da literatura de boa qualidade, é inestimável para a formação moral e existencial do médico. E Ira Byock se encaixa entre os vários médicos e escritores que produzem obras realmente marcantes sobre a vida e a morte humana.

São histórias verdadeiras de grande sofrimento e de grande superação.

Outros livros que trazem narrativas, fictícias ou reais, preciosas para a compreensão do fenômeno da vida humana são:

- Sinto Muito, de Nuno Lobo Antunes;

- A Morte de Ivan Illich, de Liev Tolstói;

- Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl;

- Mortais, de Atul Gawande.

A única ressalva é que este último, mais aclamado, percorre uma série de relatos de pessoas que enfrentaram o fim de suas vidas com coragem e dignidade, auxiliadas por médicos que procuraram dar a elas o máximo de conforto e respeito, e em seus últimos capítulos fornece uma estranha, descontextualizada e incoerente defesa do suicídio assistido e da eutanásia.

Por outro lado, o livro de Byock, desconhecido pela maioria dos brasileiros, mantém a coerência de um médico que respeita e valoriza a vida até seus últimos momentos, e que vai além da busca pelo alívio físico para trabalhar o próprio sentido da vida nos mais tensos momentos existenciais, fornecendo ao paciente a chance de alcançar algo que vai além da aceitação da própria finitude: a sublimação.

Para Saber Mais:

- Breve comentário sobre as Quatro Coisas:

- Conversa sobre as Quatro Coisas que mais importam:

 Prof. Dr. Hélio Angotti Neto é Coordenador do Curso de Medicina do UNESC, Diretor da Mirabilia Medicinæ (Revista internacional em Humanidades Médicas), Membro da Comissão de Ensino Médico do CRM-ES, Médico Oftalmologista pela Secretaria de Saúde do ES, Membro do Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC e criador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina (SEFAM).








[1] As quatro coisas importantes para se dizer são: Perdoe-me, Te Desculpo, Obrigado e Te Amo. Quem viveu o mínimo para tornar-se adulto provavelmente gostaria de ter dito algo parecido àqueles que se foram. BYOCK, Ira. The Four Things That Matter Most: A Book About Living. New York: ATRIA Books, 2014.

sábado, 26 de setembro de 2015

Prof. Dr. Ricardo da Costa. Palestrante do Seminário de Humanidades Médicas

A Morte em São Tomás de Aquino
Prof. Dr. Ricardo da Costa



Graduado em Bacharelado e Licenciatura em História (1993), mestre e doutor em História Social pela UFF (1997 e 2000), com dois Pós-Doutorados em História Medieval e Filosofia Medieval pela UIC (Universitat Internacional de Catalunya, Barcelona, 2003 e 2005). 

Professor Associado IV do Departamento de Teoria da Arte e Música da UFES. 

Professor Efetivo do Programa de Doctorado Internacional Transferencias Interculturales e Históricas en la Europa Medieval Mediterránea da Facultad de Filosofía y Letras da Universitat d Alacant (UA-Espanha) e dos Programas de Pós-Graduação em Filosofia (PPGFil) e Artes (PPGA) da UFES. 

Acadèmic Corresponent da Reial Acadèmia de Bones Lletres de Barcelona, Espanha (15-12-2005). 

Membro de CAPIRE - Colectivo para el análisis pluridisciplinar de la Iconografía religiosa europea da Universidad Complutense de Madrid (UCM). 

Líder do Grupo de Pesquisa do CNPq "Arte, Filosofia e Literatura na Idade Média". 

Membro de IVITRA (Institut Virtual Internacional de Traducció), da Universitat d'Alacant (Espanha), do Grupo de Trabalho "Filosofia na Idade Média" da ANPOF e do "Principium" (Núcleo de Estudo e Pesquisa em Filosofia Medieval, UEPB). 

Trabalhos disponíveis em seu site - www.ricardocosta.com. 

Traduziu a novela "Curial e Guelfa" (séc. XV) e "Lo Somni" (1399), de Bernat Metge (1340-1413), sob encomenda para a Universitat d'Alicant (Espanha), publicada pela Universidade de Santa Bárbara (California). 

Apresentará uma visão histórica de como o medievo enxergava a morte e a dignidade da vida humana.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Pérolas da Medicina: Lisa Rosenbaum

"Os médicos que eu mais admiro não são caracterizados pelo quanto sabem, mas sim, por uma sofisticada intuição sobre como compartilhar melhor o que sabem. Algumas vezes eles dizem ao paciente o que fazer; algumas vezes eles oferecem uma escolha. Algumas vezes, quando discutem o tratamento, podem cobrir todos os sete princípios do consentimento informado. Outras vezes, vendo o terror e a incerteza no rosto de seus pacientes, poderão oferecer recomendações e dizer: 'Eu não sei como tudo irá acabar, mas eu prometo que estarei aqui com você todo o caminho'. "


Dra. Lisa Rosenbaum, Cardiologista
Correspondente Nacional do New England Journal of Medicine
"The Paternalism Preference - Choosing Unshared Decision Making"
Perspective, August 13, 2015. The New England Journal of Medicine

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

SEFAM IV - Aula 04: A Medicina e a Morte

SEFAM Módulo IV: A Medicina e a Morte: Aspectos Culturais, Filosóficos, Sociais e Bioéticos.

Na terceira aula do SEFAM, o grupo mostrou interesse no estudo da Tanatologia. Conforme pactuado entre os participantes, os temas são parcialmente direcionados de acordo com a curiosidade e o contexto das discussões, e o papel do médico frente à morte será o assunto abordado semana que vem, dia 26 de agosto de 2015, das 18:30 às 21:30 na sala de vídeo da Biblioteca do CAMPUS I do UNESC.

O encontro do dia 19 foi adiado, pois estarei no I Seminário UFES de Paleopatologia apresentando em conjunto com o grande professor Ricardo da Costa a respeito da Lepra na Idade Média.



Roteiro de Estudo

- Retratos da morte no século XXI.

- Etapas psicológicas da morte

- A condução médica da morte

- Ars moriendi

- Visões sobre o morrer

- Visão médica sobre a morte

- A medicina como a mensageira da morte

- Choque de princípios na condução da morte

- O suicídio e a Medicina

- A eutanásia e a Medicina

- O preparo para a morte

- Sofrimento e morte

- Protocolo Groningen


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

CURSO PRESENCIAL GRATUITO: BIOÉTICA EM QUESTÃO


O curso tratará de questões fundamentais na área de Bioética, enfatizando o pensamento dialético na resolução e na reflexão de questões polêmicas em nossa sociedade envolvendo a vida, a morte, a saúde e a doença. É dedicado a todos aqueles que se interessam em refletir sobre a realidade vivida e que se dedicam aos cuidados com a saúde humana, como médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, educadores físicos etc. Também é de interesse para advogados que se dedicam à área do Biodireito, filósofos, historiadores e estudiosos das Humanidades em geral.

CRONOGRAMA DE ATIVIDADES

 

17 de março de 2015. 18:00 às 22:00
Ética Médica – Uma breve História do Legado Hipocrático – 4 horas
Prescrições Morais do Juramento de Hipócrates. A Tradição Hipocrática e as questões controversas da Ética Médica. Oponentes da Ética Hipocrática: a crítica de Tom Koch. A Dignidade Humana. O Valor da Vida. A Beneficência como parâmetro máximo. As críticas anti-hipocráticas de Robert Veatch.
Artigo para Estudo: The Hippocratic Oath and Contemporary Medicine: Dialectic Between Past Ideals and Present Reality? (Fabrice Joterrand – Rice University, Houston, Texas, USA – Journal of Medicine and Philosophy, 30, 2005, p. 107-128)

 
07 de abril de 2015. 18:00 – 22:00
Bioética, sua história e seus fundamentos – 4 horas
O surgimento da Bioética e a Ética do Bote Salva-Vidas. A Bioética Global e a Bioética Clínica. A evolução da Bioética e suas Escolas de Pensamento. A Declaração Universal da Bioética. O Principialismo, o Utilitarismo, o Personalismo, a Ética Baseada em Virtudes, a Bioética Feminista e a Ética do Cuidar. Ferramentas para a prática da bioética e a deliberação moral.
Artigo para Estudo: Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos. (Tradução e revisão final sob a responsabilidade da Cátedra UNESCO de Bioética da Universidade de Brasília e da Sociedade Brasileira de Bioética. Tradução: Ana Tapajós e Mauro Machado do Prado. Revisão: Volnei Garrafa)

 
21 de abril de 2015. 18:00 – 22:00
A Vida e a Dignidade Humana.  Clonagem, Eugenia e Transumanismo – 4 horas
Aborto e Homicídio Infantil. Aborto como problema de saúde pública. A história do aborto no ocidente. Aborto no Brasil. O Início da Vida Humana. Pessoa ou não pessoa? Potencialidade e Atualidade no aborto. Clonagem e liberdade. Aprimorar em relação a quem? Quem aprimorar? Questões d eBiodireito e Biopolítica na Clonagem Humana. Responsabilidade e Temor diante das possibilidades de Clonagem. Eugenia nos Estados Unidos, na Alemanha Nazista e na contemporaneidade. Transumanismo e Identidade Humana.
Artigo para Estudo: Moral Transhumanism: The Next Step (MICHAEL N. TENNISON)
 

12 de maio de 2015. 18:00 – 22:00
Eutanásia e o Controle da Morte Humana – 4 horas
Eutanásia, Distanásia e Ortotanásia. Protocolo Groningen. Morte Cerebral. Transplante e Ética Médica. O Direito de Morrer. Cadáver ou Ser Humano? A Dignidade do Corpo?
Artigos para Estudo: After-birth abortion: why should the baby live? (GIUBILINI E MINERVA); Abordagem crítica filosófica, científica e pragmática ao abortamento pós-nascimento (Angotti & Cols.); Brain Death, Paternalism, and the Language of “Death” (Michael Nair-Collins).

 
02 de junho de 2015. 18:00 – 22:00
Pesquisa, Avanço Tecnológico e Ética Médica – 4 horas
Regras para pesquisa no Brasil. Declarações Mundiais sobre Direitos Humanos e Pesquisas Científicas. Princípios e Conflitos em Pesquisa.
Artigo para Estudo: Philosophical Reflections on Experimenting with Human Subjects (Hans Jonas)

 
Participação no Fórum de Discussões pela Internet – 16 horas

 Ao fim do curso será disponibilizada uma avaliação de seleção para aluno de Iniciação Científica, com base em conhecimentos adquiridos durante o curso e em Inglês.


Carga Horária Total: 40 horas

10 Vagas para Acadêmicos de Medicina

2 Vagas para Outros membros da Comunidade Acadêmica ou da Comunidade Externa

Observação: O Curso Presencial é Gratuito.

Local: Sala de Reuniões da Coordenação do Curso de Medicina – Bloco A – CAMPUS I do Centro Universitário do Espírito Santo
Pré-Inscrição: Envie E-Mail para Hélio Angotti Neto
 
Organização: Prof. Dr. Hélio Angotti Neto

APOIO

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Utopia Médica e Negação da Morte - Raízes Culturais do Transumanismo

Apresentação de Tema Livre no II Seminário de Humanidades Médicas do UNESC e II Seminário Capixaba de Humanidades Médicas, realizado em Colatina, ES, no CAMPUS I do Centro Universitário do Espírito Santo, dia 24 de outubro de 2014.



terça-feira, 7 de outubro de 2014

A Linguagem do Viver e do Morrer na Cartilha de Direitos e Liberdades do Canadá (Tradução)


 

A Linguagem do Viver e do Morrer na Cartilha de Direitos e Liberdades
Em 14 de outubro de 2014 a Suprema Corte do Canadá terá o trabalho nada invejável de escolher entre duas linguagens éticas bem diferentes. Qual é a linguagem na qual as promessas e proteções contidas na Cartilha de Direitos e Liberdades são melhores compreendidas?

Desde sua assinatura em 1984, a fina escrita da Cartilha tem permanecido não testada. Em “Carter, et al. Versus Advogado Geral do Canadá, et al.”, serão os Juízes chamados a decidir o significado da garantia que consta na Cartilha (seção 7) sobre “vida, liberdade e segurança da pessoa”? E, também, serão eles questionados sobre quais ações chegam ao nível de discriminação proibida (seção 15)? Peticionários e advogados canadenses arguirão com base em diferentes fundamentações éticas que são tão diferentes quanto o Inglês é do Francês. Um dos fundamentos é libertário em sua pressuposição de que a principal meta do governo e, logicamente, da sociedade, é incrementar, jamais impedir, a escolha dos indivíduos. O outro insiste que a linguagem da lei é, em seu cerne, comunal e protetor. Em mais de 20 anos como consultor, conselheiro, pesquisador e escritor nestas questões, tenho visto essas éticas divergirem até se tornarem linguagens totalmente distintas.

Fim da Vida e Finalizando a Vida
Em relatórios judiciais, por exemplo, libertários falam sobre “ajudar a morrer”, “morte assistida” ou “morte assistida por médico” como simples questões de cuidado e conforto requeridas para e por aqueles cuja morte é iminente. Tudo o que está sendo pedido é permissão para que o médico ajude nesse momento inevitável para que haja conforto.

Argumentando de forma similar pelo cuidado, advogados de justiça do Canadá insistirão que nada disso é sobre escolhas no “fim da vida”, mas sim, sobre “finalizar a vida” daqueles que, de outra forma, poderiam viver por semanas, meses ou anos. Cuidado diz respeito a controle da dor, reabilitação e serviços sociais, não diz respeito a terminação da vida autoconsciente por meio da remoção de mecanismos artificiais de sustentação da vida ou por meio da introdução de medicações para interrupção dos batimentos cardíacos. Isso é apenas matar com outro nome – os holandeses chamam isso “terminação” assistida ou dirigida por médicos – e isso é proibido, de forma justa, na lei canadense.

Autonomia
Para libertários, a questão é sobre a autonomia como direito absoluto, e a independência é uma das principais virtudes. Não cabe à sociedade questionar decisões individuais, julgamentos ou preferências. Se a pessoa com limitações crônicas cognitivas, físicas ou sensoriais deseja morrer... é nosso dever como sociedade escutar seu pleito, reconhecê-lo e depois agir de acordo, se necessário. Mas o que está em demanda, ressaltam os oponentes, não é o direito da ação individual. A demanda, ao invés disso, é para que a sociedade aceite a determinação de que algumas vidas não são dignas de serem vividas. Eles então solicitam que os canadenses apoiem tal julgamento por meio da participação de médicos canadenses pagos pelos serviços de saúde locais sustentados pelo Ato de Saúde do Canadá por meio de dólares federais. Individual? Dificilmente.

Pressuposta nessas posições está a crença libertária de que apenas o indivíduo possa julgar sua qualidade de vida. Se alguns a consideram insuportável, então a “terminação” é uma coisa humana a ser feita. Uma variante é o argumento da dignidade. Em seu depoimento, por exemplo, Glória Carter argumentou que sua condição, ELA, resultaria na falência inevitável do controle vesical e intestinal. Isto consistiria numa indignidade que ela não desejaria suportar. E quem, perguntam os libertários, colocaria em cheque o direito dela em julgar a própria qualidade de vida?

Oponentes insistem que qualidade de vida é um conceito que criamos juntos, não é uma condição que suportamos sozinhos. Dignidade está em como vivemos nossas vidas, não nos limites excêntricos da vida que podemos viver. O artista Bill Reid disse que enquanto sua Doença de Parkinson impôs o uso de fraldas ele considerou o fato uma inconveniência menor, não alguma coisa que justificasse sua morte. Num famoso artigo, Harriet McBryde Johnson disse ao filósofo de Princeton, Peter Singer, que somente por ela usar uma cadeira de rodas não significa que ela não gostaria de ir à praia. Que ele não pudesse conceber tais prazeres na vida dela, vivendo numa cadeira de rodas, era problema e limitação dele, não dela. “Dignidade” e “Qualidade de Vida” são buscados por meio do cuidado, da reabilitação e do suporte, McBryde insistiu, não por meio da “Terminação”.
Como insistem os comunicados da justiça canadense, duas décadas de ciências sociais mostraram que, com o passar do tempo, aqueles que enfrentaram condições ou doenças crônicas mudaram suas mentes acerca de coisas como dignidade, vida e qualidade de vida. Enquanto a maioria atravessaria um período inicial de depressão e até mesmo de risco de suicídio por desespero, com o tempo, a maioria descobriria que a vida valia a pena ser vivida. Aprendemos a nos acomodarmos, a redescobrir a dignidade e a alegria de viver em vidas que, embora sejam diferentes, permanecem válidas. Aceitar a terminação da vida durante o período de desespero é negar aos frágeis o direito de ter o tempo necessário para fazer o que deve ser obrigatório: aconselhar, controlar a dor, reabilitar e prestar serviços sociais.

 É justo dizer que as deficiências e os ativistas sociais insistem que suportemos não o indivíduo isolado, mas a pessoa na comunidade. Todos nós precisamos de ajuda, ainda mais quando deparamos com uma crise de saúde. É neste momento em que a garantia da Cartilha de “vida, liberdade e segurança da pessoa” exige proteção e suporte dos frágeis, jamais um rápido consentimento à depressão e ao medo do desconhecido. Os libertários não negam a necessidade de apoio. Eles somente entendem tal coisa de forma diferente.

 
Tom Koch é eticista médico, escritor e geriatra que trabalhou como consultor em casos de terminação da vida dirigida ou assistida por médico. Seu último livro se chama “Thieves of Virtue: When Bioethics stole Medicine” (Ladrões de Virtude: quando a Bioética roubou a Medicina).
Publicado originalmente em inglês no Huffington Post em 05 de Outubro de 2014. Tradução feita e publicada com autorização do autor.