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sábado, 10 de junho de 2017

ACONTECEU O V SEMINÁRIO UNESC DE HUMANIDADES MÉDICAS!

V SEMINÁRIO UNESC DE HUMANIDADES MÉDICAS

MEDICINA: HISTÓRIAS DE VIDA



Nos dias 9 e 10 de junho de 2017 aconteceu o V Seminário de Humanidades Médicas do UNESC, um evento pioneiro criado em 2013 para o debate de diversos temas incluindo: Bioética, Filosofia da Medicina, História da Medicina, Relação Médico-Paciente, Ética Médica e Literatura em Saúde. Esta edição foi denominada “Medicina: Histórias de Vida”, e foi dividida em três blocos: (a) Humanização em Saúde, abordando as histórias de vida dos pacientes; (b) Profissionalismo e Ética, abordando as histórias de vida dos profissionais da área da saúde; e (c) Bioética – O Debate do Aborto, com diferentes visões sobre a vida de médicos, mães e da futura geração. 


O evento foi coordenado pelo Prof. Dr. Hélio Angotti Neto e pela Profa. Ms. Renylena Schmidt Lopes, com a organização da Liga Acadêmica de Humanidades Médicas, do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina, da Diretoria Acadêmica do UNESC e da Coordenação do Curso de Medicina.


O apoio acadêmico e estrutural para que mais essa edição do evento se concretizasse foi oferecido pelo Centro Universitário do Espírito Santo, em Colatina, com o apoio acadêmico da Revista Mirabilia, sediada no Instituto de Estudos Medievais da Universidade Autônoma de Barcelona, na qual serão publicados artigos derivados das apresentações a critério dos palestrantes do evento e editores da revista.


Colaboraram de forma magnífica para a realização do evento os palestrantes, muitos deles de fora da cidade e até mesmo do estado do Espírito Santo, que vieram ao Seminário dispostos a compartilhar importantes lições.

Por fim, os alunos do curso de Medicina e Direito do Centro Universitário do Espírito Santo, além de diversos membros da comunidade capixaba, profissionais de diversas áreas, prestigiaram o evento e participaram ativamente dos debates e das discussões.

BLOCO I – Humanização em Saúde


A abertura do evento foi feita pelo Diretor Acadêmico do UNESC, Prof. Neacil Broseghini[1], em nome da Reitoria do UNESC. Destacou a necessidade das Humanidades Médicas para a busca da medicina integral, visando ao cuidado desde o nascimento até à morte da pessoa.

Hélio Angotti Neto[2], Coordenador do SEFAM e do Curso de Medicina do UNESC, ressaltou a importância das Humanidades Médicas no currículo médico, sem desvalorizar a aprendizagem científica e técnica que tão bem pode fazer ao paciente fragilizado.


O médico de família e comunidade, Edgar Gatti[3], falou da Medicina Centrada na Pessoa. O método clínico centrado na pessoa foi esquematizado hodiernamente por Ian McWhinney e Moira Stewart, com importante foco na atenção ao paciente e na solidariedade. Os seis passos da metodologia incluem (1) a exploração da enfermidade da perspectiva médica e da perspectiva do paciente, (2) o entendimento da pessoa e de seu contexto, (3) o projeto terapêutico compartilhado por decisões conjuntas, (4) a incorporação da prevenção e da promoção de saúde, (5) a intensificação da relação entre profissional da saúde e paciente e (6) o realismo necessário para obter bons resultados no contexto geral em que se encontra.

O médico geriatra e paliativista Heitor Spagnol dos Santos[4], professor e tutor do UNESC, explicou como abordar os aspectos sociais e espirituais do paciente em fase final de vida. Por meio de instrumentos e técnicas adequadas num contexto de compaixão, o profissional pode auxiliar o paciente a refletir sobre questões existenciais, a resgatar seus relacionamentos e a encontrar significado para seu sofrimento, evitando ou aliviando o que pode ser chamado de “Dor Total”.


 Trazendo a inspiradora história de Zilda Arns, que se dedicou a promover a saúde e beneficiar a milhões de crianças por meio de medidas educativas e eficientes como a introdução do soro caseiro, a médica dermatologista Patrícia Duarte Deps[5] e a médica pediatra Norma Suely de Oliveira[6] mostraram como a boa vontade e o amor podem interferir positivamente na sociedade e como todos nós somos convidados a deixar um legado para melhorar o que recebemos.


Para encerrar o bloco I do Seminário de Humanidades Médicas, o médico oncologista Marco Antônio Cortelazzo[7] trouxe importantes informações sobre a Ortotanásia e sua diferenciação da eutanásia e da Distanásia. Tratou da aplicação dos princípios bioéticos na prática médica e de conceitos centrais ao pensamento ético em saúde como o princípio do duplo efeito de Tomás de Aquino.


Bloco II – Profissionalismo e Ética


O segundo bloco, realizado na tarde do dia 9 de junho de 2017, abordou as histórias de vida dos médicos e de como agir de forma ética e profissional.

George da Silva Carvalho[8] falou do mercado de trabalho no Brasil e de seus desafios para o egresso do curso de medicina. Abordou também as diferentes formas de vínculo empregatício e tributação sobre profissionais, trazendo conhecimentos de grande utilidade para o planejamento da carreira e para o amadurecimento dos futuros médicos.

Carlos Magno Pretti Dalapicola[9], presidente do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo, expôs as principais causas de processo ético profissional e orientou sobre como prevenir-se contra erros médicos. Sua apresentação ressaltou a importância do estudo e da prática ética da medicina, com forte ênfase no aspecto humanístico do profissional da saúde. Também demonstrou as obrigações do médico em relação com seu Conselho Profissional.



Para encerrar o segundo bloco, diversos membros do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo participaram de um Julgamento Ético Profissional Simulado, no qual os participantes tiveram a oportunidade de analisar um caso baseado em fatos reais e refletirem sobre as consequências da má prática médica e das possíveis penalidades às quais está sujeito o médico. Foi ressaltada a importância do exame clínico meticuloso e completo, além do vínculo de confiança estabelecido com o médico assistente.


Sem dúvida foi um dia repleto de muitas oportunidades de crescimento profissional, no qual a participação ativa dos participantes em muito enriqueceu o evento.

Bloco III – Bioética – O Debate do Aborto



O terceiro dia trouxe um rico e controverso debate sobre um dos temas que mais polarizam opiniões na Bioética contemporânea e que toca em princípios básicos para a definição de uma civilização: o papel do abortamento na sociedade.

Cleverson Gomes do Carmo Júnior[10] fez sua apresentação inicial ressaltando a valorização da autonomia da mulher na questão do abortamento. Definiu importantes conceitos técnicos a serem utilizados na discussão e ressaltou a preocupação e o cuidado com a vida da gestante.

Leonardo Serafini Penitente[11] questionou a atuação do Supremo Tribunal Federal do Brasil na questão do abortamento e enfatizou os problemas éticos derivados de sua possível liberação, incluindo as contradições legais daí decorrentes.

Hélio Angotti Neto abordou aspectos estatísticos, históricos e culturais relacionados à questão do abortamento, contrastando alguns dados com informações previamente apresentadas e alertando sobre a futura discussão do fim da objeção de consciência por parte do profissional de saúde.

Após as réplicas entre os debatedores, foi realizado um momento de perguntas e respostas. Temas de grande relevância foram discutidos, incluindo a engenharia social, a fragilidade da mulher na sociedade, que não oferece muitas vezes o amparo necessário, e os valores de uma sociedade em derrocada.


Ao término da manhã foi encerrado o V Seminário de Humanidades Médicas do UNESC. Foi realizado um riquíssimo debate acadêmico e os palestrantes cumpriram com a obrigação implícita no melhor conceito do que deve ser a Academia: um espaço aberto à sincera busca pela verdade e pelo bem, mesmo em meio a discordâncias.

Foram dois dias de interação entre diferentes cursos universitários, entre alunos, professores e membros da comunidade de diversas cidades e perfis. Saímos todos com a certeza de que ganhamos conhecimento e aprofundamos nossas perspectivas acerca de assuntos de importância crucial para o bem de nossa sociedade.

Em 2018, o Seminário de Humanidades Médicas regressará em sua sexta edição, na expectativa de reencontrarmos amigos novos e antigos, e de continuarmos no caminho da crescimento da intelectualidade e do caráter.










[1] Neacil Broseghini é enfermeiro com mestrado em administração de empresas e é Diretor Acadêmico do Centro Universitário do Espírito Santo (UNESC).
[2] Hélio Angotti Neto é médico oftalmologista pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) com doutorado em ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). É coordenador do curso de medicina do UNESC.
[3] Edgar Gatti é médico de família e comunidade com pós-graduação em medicina do trabalho e é preceptor da residência médica em Saúde da Família e Comunidade do UNESC e do Internato Médico do UNESC.
[4] Hetor Spagnol dos Santos é médico geriatra com pós-graduação em Cuidados Paliativos. É professor e tutor do método de Aprendizagem Baseada em Problemas do UNESC.
[5] Patrícia Duarte Deps é médica dermatologista pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) com mestrado em doenças infecciosas pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e doutorado em medicina pela UNIFESP. Fez pós-doutorado em Medicina Tropical pela London High School of Hygiene & Tropical Medicine. É professora do Departamento de Medicina Social da UFES.
[6] Norma Suely de Oliveira é médica pediatra com mestrado em doenças infecciosas pela UFES e doutorado em pediatria pela UNIFESP. Atua como professora do Departamento de Pediatria da UFES e chefe da Unidade de Terapia Intensiva e da Unidade Semi-Intensiva neonatais e pediátricas do Hospital Universitário Cassiano Antônio de Morais (HUCAM).
[7] Marco Antônio Cortelazzo é médico cirurgião oncologista com mestrado e doutorado em oncologia pela FMUSP. Realizou pós-graduação em Bioética também pela FMUSP e atua na qualidade de professor da UNIFEBE.
[8] George da Silva Carvalho é médico formado pela UFES com Residência em cirurgia pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro e em Cirurgia Plástica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É professor do UNESC.
[9] Carlos Magno Pretti Dalapícola é médico com especialização em Medicina do Trabalho e é o atual Presidente do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo.
[10] Cleverson Gomes do Carmo Júnior é médico ginecologista e obstetra com especialização em mastologia pela UFES. Atua no Pré-Natal de Alto Risco da Prefeitura de Vitória, Espírito Santo, e é chefe da Unidade Materno Infantil do HUCAM, na UFES.
[11] Leonardo Serafini Penitente é advogado criminalista com mestrado em Direito Penal pela Universidade Federal do Pernambuco. Atua como professor da Universidade de Vila Velha.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Humanidades Médicas e a Reconquista da Educação Liberal

Humanidades Médicas e a Reconquista da Educação Liberal

“O novo bárbaro, atrasado em sua época, arcaico e primitivo em comparação com a terrível atualidade dos seus problemas. Esse novo bárbaro é principalmente o profissional, mais sábio que nunca, porém mais inculto também – o engenheiro, o médico, o advogado, o cientista”.
Ortega y Gasset em A Missão da Universidade


Um colegiado de professores que ensinam as artes liberais recebe a incumbência de justificar o ensino de línguas mortas e de clássicos da literatura em 1828, na Universidade de Yale. Em seu relatório, os professores mostram o que é educação superior, qual a verdadeira missão das artes liberais e sua importância.

Em seu relatório mostram que cabe à Universidade oferecer muito mais que conhecimentos. É necessário treinar a capacidade comunicativa e o exercício da inteligência e da imaginação, amplificadas pelo aprofundamento nos clássicos de nossa civilização.

O papel daquele conhecido à época como tutor, responsável por um grupo pequeno de alunos a quem trata como verdadeiros afilhados, é ressaltado como parte fundamental do verdadeiro esforço formativo. Os antigos tutores eram o que hoje se conhece pelo nome de Mentores. Embora o sentimento seja semelhante, assim como os propósitos, há um elemento radicalmente diferente entre a aprendizagem com mentores no Brasil e a aprendizagem universitária norte-americana, por exemplo. Muitos professores universitários nos Estados Unidos ainda vivem próximos – no mesmo local, para ser mais exato – que seus alunos, e agem como membros da família, apoiando e cobrando resultados. No Brasil não é incomum a figura dos inalcançáveis iluminados, distantes do convívio, desaparecidos atrás dos muros de títulos, diplomas e publicações que os isolam da realidade e do convívio nem sempre pacífico entre as mentes que buscam o conhecimento.

O relatório lembra a respeito do profissional que negligenciou uma formação geral em artes liberais, que:

Caso se destaque em sua profissão, sua ignorância de outros temas e as imperfeições de sua educação estarão ainda mais expostas à observação pública. Por outro lado, aquele que não só é eminente na vida profissional, mas também possui uma mente ricamente abastecida de conhecimentos gerais, tem uma elevação e uma dignidade de caráter que lhe confere uma influência poderosa na sociedade, e uma esfera muitíssimo ampla de utilidade. Sua situação permite-lhe difundir a luz da ciência em meio a todas as classes da comunidade.[1]

Há uma intensa crítica aos que pensam ser o ensino superior destinado a criar o substrato que nutrirá os postos de emprego. Médicos, advogados e teólogos são convocados a desenvolverem seu caráter e sua inteligência antes de mergulhar nos profundos mares da especialização.

Uma educação liberal presta-se a ocupar a mente, na medida em que tem o poder de abrir e alargar; uma educação de formação profissional exige um entendimento já cultivado pelo estudo e preparado pela prática para esforços metódicos e perseverantes.[2]

No Brasil, adolescentes caem direto na Medicina, por exemplo, com um preparo prévio que os padronizou para um teste – o vestibular ou o ENEM. Seu conhecimento literário baseia-se em pobres resumos de apostilas superficiais. Sua vivência resume-se ao convívio de familiares e amigos da mesma idade, longe dos desafios de uma sociedade complexa na grande maioria das vezes. Suas opiniões, de regra, reproduzem as doutrinas e as figuras de linguagem destiladas pela elite midiática e intelectual numa marmita pop. O amadurecimento nem sempre vem rápido, e os jovens estudantes de medicina encontram-se, de repente, frente a pacientes que sofrem, morrem e assustam.
Ter um preparo humanístico não somente capacitaria o jovem a desfrutar mais de sua profissão e da sociedade, mas também prepararia para que fosse um guardião do que há de melhor em uma determinada cultura.

Diminua-se o valor de uma educação acadêmica, e a difusão de conhecimento entre as pessoas cessaria, o nível geral de valor intelectual e moral cairia, e nossa liberdade civil e religiosa seria colocada em risco por causa da desqualificação última de nossos cidadãos para o exercício do privilégio da democracia.[3]

Qualquer comparação fácil com o Brasil de hoje não é mera coincidência. Nossas escolas de regra entendem que devem educar para a profissão, mas raramente se colocam como educadoras para a vida. O analfabetismo funcional que abunda no ensino superior brasileiro não é coincidência.

Verdade seja dita, a educação liberal é para uma elite moral e intelectual[4], enquanto que uma visão puramente profissionalizante da educação prepara o perfeito escravo, incapaz de participar do diálogo universal que atravessa eras e nações.

O ensino das Humanidades Médicas, nesse contexto, é uma tentativa tardia, porém ainda possível, de reconquistar o legado cultural que nos foi negado. É a chance de tornar-se um profissional ou um cidadão mais íntegro.


Hélio Angotti Neto
Médico Oftalmologista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia, Coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina, Coordenador do Curso de Medicina do UNESC, Colunista do Academia Médica, Autor do Livro “A Morte da Medicina”. Global Scholar em 2016 no Center for Bioethics and Human Dignity.




[1] A Educação Superior e o Resgate Intelectual: O Relatório de Yale de 1828. Campinas, SP: Vide Editorial, 2016, p. 58.
[2] Ibid., p.102.
[3] Ibid., p. 161-162.
[4] O fato de que brasileiros em geral entendem a palavra “elite” ligada a dinheiro só reforça a degeneração cultural e moral que sofremos.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O CORAÇÃO DE UM VERDADEIRO MÉDICO

Eis a palestra originalmente proferida no Retiro Anual de Humanidades Médicas da Baylor University em fevereiro de 2016. O conteúdo foi encurtado para quarenta minutos de duração (na forma original tinha mais de duas horas), porém a mensagem essencial permaneceu.

Foi proferida no dia 29 de julho de 2016 no IV Seminário de Humanidades Médicas do UNESC, organizado pela Liga Acadêmica de Humanidades Médicas sediada em Coaltina - ES.





terça-feira, 9 de agosto de 2016

IV SEMINÁRIO DE HUMANIDADES MÉDICAS - LIGA ACADÊMICA DE HUMANIDADES MÉDICAS (LIAHM)



Ter, 09 de Agosto de 2016 14:30

Nos dias 04, 05 e 06 de Agosto médicos, acadêmicos do curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo-UNESC, da Universidade Vila Velha-UVV, da Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG e da Universidade Presidente Antônio Carlos-UNIPAC, Campus Juiz de Fora estiveram reunidos no Auditório do UNESC, Campus Colatina, para juntos chegarem à resposta acerca de qual médico a sociedade precisa.

O IV Seminário de Humanidades Médicas, cuja temática remete à pergunta: De que Médico a sociedade precisa?, contou com várias atividades. Na quinta-feira (4), foi realizada uma Oficina de Formação Política, sobre filosofia, da política e saúde. O objetivo do curso não foi ministrar Ciências Políticas, mas sim estratégias e ferramentas políticas aplicadas ao contexto da saúde brasileira, incluindo análises e estudos dirigidos.

Na sexta-feira (5), foi realizado um Simpósio-Satélite dentro do Seminário, com a temática: Educação Médica na visão do Estudante. Na abertura, os participantes acompanharam um vídeo acerca de aplicativos e seu uso no ensino médico. Em seguida, acompanharam virtualmente a realidade de estudantes da UFAM-Universidade Federal do Amazonas, UFVJM-Universidade Federal do Vale do Jequitinhonha e Mucuri e FMP- Faculdade de Medicina de Petropólis, com relação aos métodos de ensino, dificuldades e benefícios que encontram em suas instituições.

No decorrer do simpósio, os temas foram os mais diversos. O primeiro workshop remeteu aos métodos de estudos aplicados à Medicina. O tema foi ministrado pelo acadêmico Rafael Ageu, coordenador de um grupo (GEDAAM-Grupo de Estudos em Didática Aplicada ao Aprendizado em Medicina), na Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG.

No período da tarde, a abertura oficial levou os participantes a um passeio pela história da Medicina, pelo Brasil e pelo mundo. Foram apresentados depoimentos de médicos, estudantes e pacientes, que opinaram acerca de qual médico precisamos hoje?


Em seguida, compondo a mesa de abertura; Hélio Angotti Neto, coordenador do Curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo; junto com Edgar Gatti, diretor e delegado do SIMES-Sindicato dos Médicos do Espírito Santo e o coordenador da Comissão de Ensino Médico do Conselho Federal de Medicina (CFM), Lúcio Flávio Gonzaga Silva; compuseram a mesa de honra do evento, proferindo algumas palavras para os participantes.

Na sequência, a conferência ministrada pelo conselheiro federal Lúcio Flávio trouxe à tona a discussão: A medicina na intersecção entre tecnologia e humanidades. Estamos vivendo uma era de incertezas na classe médica. Com a revolução da informação e da tecnologia “vestível”, as possibilidades do cuidado com a saúde são as mais variadas possíveis. Já vivemos em um mundo onde as pessoas já vem à consulta com a hipótese diagnóstica pronta, pois antes de procurarem um médico, já questionaram ao “Dr. Google” acerca de seus sintomas. Sabemos que adequar-se à tecnologia é inevitável, e fundamental na era em que vivemos, a ressalva se faz presente quando essa adequação se torna fator preditivo para o abandono dos aspectos humanos. E isso é preconizado em nosso Código de Ética, em seus princípios fundamentais.

A última palestra da sexta-feira, teve como tema: O coração de um verdadeiro médico. Ministrada por Hélio Angotti Neto,criador do SEFAM-Seminário de Filosofia Aplicado à Medicina, diretor Editorial da revista internacional  em Humanidades Médicas Mirabilia Medicinae, sediada no Institut d’Estudis Medievals da Universidade Autônoma de Barcelona, médico (UFES), residência em Oftalmologia e doutorado em Ciências Médicas (USP); Visiting Scholar em 2016 da Global Bioethics Education Initiative do Center for Bioethics and Human Dignity, no qual apresentou essa palestra. Durante esse tempo nos perguntamos: como formar um bom médico? Como educar para ser uma boa pessoa, e consequentemente um bom médico? Não seria pretensioso ousar educar para o certo, para a virtude? A virtude seria uma qualidade moral particular. Uma disposição estável de praticar o bem; revela mais do que uma simples característica ou uma aptidão para uma determinada ação boa, trata-se de uma verdadeira inclinação. São todos os hábitos constantes que levam o homem para o bem, quer como indivíduo, quer como espécie, quer pessoalmente, quer coletivamente. Diante desse fato, aprendemos que ser médico vai além de um registro frente ao conselho que rege a profissão, o verdadeiro coração de um médico abarca virtudes (confiabilidade, compaixão, prudência, justiça, temperança, integridade e dignidade).


Para finalizar o evento, foram discutidas questões que assolam a carreira médica: falta de respeito com o profissional, entraves como a falta de recursos, gestão ineficiente, corrupção, judicialização da saúde, lei do ato médico.

 Com informações da Liga Acadêmica de Humanidades Médicas.
Link da postagem original: 

http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=26331%3A2016-08-09-17-57-11&catid=3 

sexta-feira, 15 de abril de 2016

ASCENSÃO E QUEDA DA MEDICINA MODERNA

THE RISE AND FALL OF MODERN MEDICINE

Uma aula baseada no livre The Rise and Fall of Modern Medicine, de James Le Fanu.
Segunda-Feira, no curso online oferecido pelo portal Katedra em http://katedra.com.br/?product=sefam-modulo-1-ciencia-cultura-e-saude
Quarta-Feira, 27 de abril, na Biblioteca do Centro Universitário do Espírito Santo.
Temas: Vitórias e avanços da medicina moderna. A ascensão da Medicina Moderna. O fim do otimismo e a estagnação. A Queda: descrédito e erros da medicina moderna. Consequências da queda.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Projetos para 2016

2016 promete muito para o Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina.

Prosseguiremos com a iniciativa cultural em Humanidades Médicas. Com a ajuda da Liga Acadêmica de Humanidades Médicas de Colatina (LIAHM) promoveremos o IV Seminário UNESC de Humanidades Médicas, trazendo diversos convidados para Colatina e criando um proveitoso espaço para o debate em saúde.

A parceria com os acadêmicos que criaram a LIAHM promete excelentes frutos, e diversos projetos de humanização ocorrerão por iniciativa dos alunos nos locais de atendimento à saúde ligados ao UNESC.
A edição da Mirabilia Medicinae continua, com a previsão de um volume para junho e outro para dezembro de 2016. Um dos volumes será dedicado aos trabalhos apresentados no Seminário de Humanidades Médicas.
Recomeçamos o ciclo bianual do SEFAM no UNESC. Em dois anos teremos os quatro módulos, um por semestre, gratuitos, oferecidos aos interessados em Humanidades Médicas, Ética Médica, Bioética e Filosofia da Medicina.

O primeiro módulo será principalmente sobre Humanidades Médicas, e se chama: Ciência, Filosofia e Saúde. O segundo será Narrativa e Retórica Médica. O terceiro será Bioética em Questões. O último, no segundo semestre de 2017, será Filosofia da Medicina. Todos juntos promoverão a passagem do aluno pelo estudo e pela prática do discurso nas quatro formas: Poética, Retórica, Dialética e Lógica, conforme o artigo publicado no seguinte link: http://www.biomedicalandbiopharmaceuticalresearch.com/images/Article2_11n2.pdf 

Está previsto para 2016 o lançamento do livro "A Tradição da Medicina", com uma análise discursiva e simbólica do Juramento de Hipócrates e outros materiais sobre a formação em Virtudes para o médico e a criação e fundamentação do SEFAM. O livro deverá ser lançado pela VIDE Editorial, que lançou o livro "A Morte da Medicina".

Novos alunos do SEFAM se preparam para iniciar suas pesquisas em Humanidades. Após completarem a segunda edição do Seminário, preparam um estudo sobre a Ética Hipocrática, que auxiliará na formação do imaginário médico contemporâneo e nos lembrará de quem somos. Todos estaremos trabalhando no resgate da cultura médica, sem a qual qualquer tentativa de crítica cultural ou aprimoramento moral profissional será quase impossível.


E, por fim, dois honrosos convites foram feitos para apresentações nos Estados Unidos. Em fevereiro, na Baylor University, tratarei da formação moral do médico na cidade de Waco, no Texas, no retiro anual de Humanidades Médicas (mais informações no jornal: http://www.baylor.edu/medical_humanities/doc.php/254888.pdf )


E no mês de junho, participarei como convidado da Iniciativa Global em Bioética do Center for Bioethics and Human Dignity, numa série de eventos sobre Bioética Cristã. Em Illinois, na Trinity International University, terei a chance de apresentar o trabalho sobre o Juramento de Hipócrates que deu sustentação ao livro A Tradição da Medicina.


Só posso agradecer àqueles que colaboraram para o sucesso do SEFAM e de nossos estudos e pesquisas. Um feliz 2016 para todos, cheio de grandes desafios e sucessos, se Deus quiser!

Prof. Dr. Hélio Angotti Neto
Coordenador do SEFAM
www.medicinaefilosofia.blogspot.com.br

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Programação da Oficina de Formação Política

Oficina de Formação Política - III Seminário de Humanidades Médicas do UNESC e I Seminário de Humanidades Médicas da UFES



sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Profa. Márcia de Cássia Cassimiro: palestrante do Seminário de Humanidades Médicas

Dignidade humana e conflito de interesses nos ensaios clínicos na obra "O Fiel Jardineiro”




Capes Split PhD Scholarships Program, 2015 (Bolsista Capes no Programa de Doutorado Sanduíche na Europa). Doutoranda em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Área de concentração: ética e Filosofia Política, Linha de pesquisa: fundamentação da Ética. 

Membro dos seguintes grupos de pesquisas: Filosofia e Interdisciplinaridade, e Filosofia Sistemática: dialética e Filosofia do Direito, ambos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Pesquisadora Visitante do Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa (2015). Mestre em Saúde Coletiva, pelo Instituto de Estudos em Saúde Coletiva, da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ/IESC (2010). 

Servidora Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz-RJ), lotada na Vice Diretoria de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Instituto Oswaldo Cruz-IOC/FIOCRUZ. 

Docente e Coordenadora da Disciplina Bioética, em diversos Programas de Pós-Graduação Stricto sensu e do Curso Técnico de Nível Médio em Biotecnologia (CTB/IOC/Fiocruz). 

Membro do Grupo de Trabalho (GT) Biobanco da Fiocruz (Portaria n° 1228/2014-PR, de 07.11.2014). 

De maio a novembro de 2011, com bolsa concedida pela UNESCO cursou o VI Curso de Ética de la Investigación en Seres Humanos, do Programa de Educación Permanente en Bioética, da Redbioética UNESCO. 

Áreas de Interesse: Bioética; Integridade Científica; Política científica; Ética em Pesquisa com Seres Humanos. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Entrevista

A Importância das Humanidades Médicas na Formação do Médico

Entrevista cedida a Davi Vieira, do Grupo de Estudos em Humanidades Médicas John Locke, da PUC-SP.



GELocke: Em primeiro lugar, nós do GELocke gostaríamos de agradecê-lo por aceitar nosso convite para esta entrevista. Como surgiu o seu interesse pelas Humanidades Médicas, e o que o fez criar o Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina?
Obrigado pelo convite!
O interesse nas Humanidades Médicas surgiu por uma confluência de diversos fatores.
Primeiro, começava a travar na época um contato mais próximo com meus pacientes, durante a residência, e assumia responsabilidades maiores pelo próximo, o que sempre estimula a maior reflexão.
À época, também conheci a obra filosófica de Olavo de Carvalho, que despertou o interesse pela área de Humanidades e me levou ao estudo de diversos outros filósofos e campos do saber, incluindo história, ética, psicologia, teologia e literatura.
Fortalecer minha fé também permitiu questionar com profundidade o sentido de minha profissão e o quão importante e valoroso era buscar o significado de tudo o que fazia, para mim e para o paciente que necessita de auxílio.
No decorrer dos estudos humanísticos, que se iniciaram aproximadamente em 2004, tive a oportunidade de ler Platão, Aristóteles, Hipócrates, Louis Lavelle, Diego Gracia, Xavier Zubiri, Eric Voegelin, Mário Ferreira dos Santos, Agostinho, João Calvino, Tomás de Aquino, José Ortega y Gasset, Pedro Lain Entralgo, Julián Marías, Viktor Frankl e vários outros.
Conforme estudava e vivia a prática médica, também percebi a falta que os estudos humanísticos de qualidade faziam à medicina. Quando muito, o acadêmico (inclusive eu em minha graduação) recebia o que agora denomino “marmita sociológica pop pseudointelectual”, uma vulgarização do que deveria ser o conhecimento humanístico, uma peça ideológica muito longe da verdadeira reflexão filosófica.
Em 2012, na qualidade de professor de medicina, resolvi fazer minha parte para mudar o cenário e montei o SEFAM (Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina). Meu objetivo era partilhar o que aprendera e prosseguir na busca de conhecimentos humanísticos úteis aos médicos e aos pacientes. Desde então sonho em formar novos estudiosos, novos médicos com bagagem cultural suficiente para trilharem seus próprios caminhos e enriquecerem a cultura médica em novas direções sem perderem suas raízes milenares.
Foi no SEFAM que comecei também a aprofundar os estudos na obra de Edmund Pellegrino - o pai da Ética Médica contemporânea, quase que completamente desconhecido no Brasil – e dos originais hipocráticos, iniciando uma de minhas linhas de pesquisa.
Como metodologia para o SEFAM, utilizei a Teoria Aristotélica dos Quatro Discursos elaborada por Olavo de Carvalho, iniciando com a formação cultural geral e literária, avançando pela retórica e pelas regras de argumentação, para enfim exercitar a dialética e a lógica, afinando o discurso e o pensamento durante dois ou mais anos. O SEFAM também trata de diversos outros assuntos, e é um pouco imprevisível na medida em que abordamos temas de interesse dos participantes. Podemos começar falando de metafísica aristotélica e terminar em economia, política e saúde, por exemplo.
Desde o começo, a grande preocupação era agregar pessoas verdadeiramente interessadas em crescer, refletir e aprender. Jamais foram enfatizados títulos, notas ou certificados. Felizmente tais pessoas motivadas apareceram e, embora poucas, tenho certeza que brilharão no futuro e, se Deus quiser, serão muito melhores do que consegui ser.
Hoje o SEFAM caminha bem, com um livro publicado (A Morte da Medicina), um trabalho premiado em Congresso Brasileiro e diversos outros apresentados em congressos de nível nacional e internacional, artigos acadêmicos publicados em revistas nacionais e internacionais, um segundo livro em edição e mais dois em elaboração, três iniciações científicas concluídas e dois convites para palestrar nos Estados Unidos e aumentar o intercâmbio cultural. Também estamos na terceira edição do Seminário UNESC de Humanidades Médicas e este ano ajudamos a organizar o I Seminário UFES de Humanidades Médicas. Com menos de quatro anos de existência o SEFAM foi muito mais longe do que eu pensava. E o melhor de tudo: estamos perto de concluir o ciclo de uma segunda turma do SEFAM!

GELocke: Qual é a importância das Humanidades na formação do médico?
A Medicina é uma maravilhosa Arte. Como toda arte, produz algo único, assim como é único cada ser humano e cada situação que vive. Mas a Medicina também utiliza a ciência e a tecnologia, amparada pela evidência estatística. Essa combinação só é eficaz se somarmos a experiência e prudência de um agente humano. Nenhum desses componentes pode faltar.
O médico precisa da ciência e da tecnologia para tratar com eficiência. E precisa das humanidades para ser ele mesmo um agente terapêutico, para gerar o famoso efeito placebo do médico. Precisa também das humanidades para se comunicar de forma eficaz e para sentir na pele o que o paciente sente, ter a tão necessária empatia que vem com a experiência de vida e com o caráter virtuoso.
É curioso notar que, ao longo da história, quando o médico mais cuidou de seu lado humanístico e, entenda-se, da ética profissional, de seu próprio caráter e de sua excelência, ele gerou maior confiança e satisfação em seus pacientes.
Por outro lado, mesmo dotada de incríveis aparatos tecnológicos e estatísticas extremamente complexas unidas à metodologia de pesquisa, a medicina contemporânea falha em satisfazer o paciente.
Medica-se! Porém não se “cuida” do paciente e, às vezes, nem de si mesmo.
As Humanidades Médicas complementam a Arte Médica. Dão profundidade, experiência, riqueza de emoções, compreensão e comunicação ao médico. E acima de tudo, potencializam o bem que pode ser feito ao paciente em necessidade.
E é claro que estudar humanidades é algo divertido, um fim em si mesmo. Como não apreciar a leitura dos clássicos? Como não se surpreender com os efeitos terapêuticos da música de qualidade em nosso espírito? Como não encher os olhos e a mente com a boa pintura? Como não meditar na profundeza das Escrituras e dos textos filosóficos?

GELocke: O nosso grupo tem como patrono o filósofo inglês John Locke. O que pensa a respeito de Locke e da tradição liberal britânica?
O pouco que sei disso deriva principalmente da obra de Roger Scruton, e de alguns volumes de história da filosofia (Giovanni Reale, Frederick Copleston, Olavo de Carvalho e Julián Marías). Julgo que ainda não estudei o suficiente para opinar a respeito de John Locke (não li seus livros) e da tradição liberal britânica com qualidade, embora a princípio não concorde com a idéia de não termos idéias inatas e considere que o liberalismo funciona muito bem somente quando se tem valores culturais bem estabelecidos e de boa qualidade.

GELocke: Recentemente, realizamos nosso primeiro evento, o I Ciclo de Palestras "Bioética".  Qual é a importância da Bioética, e quais são os tópicos que mais despertam o seu interesse na área?
Em primeiro lugar é importante ressaltar que não podemos falar da Bioética, mas de muitas bioéticas, com muitas ênfases e muitas perspectivas. Temos escolas de pensamento utilitaristas, escolas baseadas em princípios ou virtudes, escolas secularistas ou religiosas, escolas liberais ou marxistas, escolas feministas etc.
A Ética Médica é uma forma de bioética especializada. Mas também gostaria de lembrar que o termo bioética ganhou destaque há menos de meio século, enquanto que a Ética Médica já é discutida há mais de dois milênios.
Os temas que despertam meu interesse em bioética incluem o valor da vida humana e sua dignidade, o aborto e a eutanásia, a história da ética médica e da medicina ao longo dos séculos, a filosofia da medicina e a teologia aplicadas a questões éticas e a interface entre política, cultura e saúde. Por gostar de Medicina Baseada em Evidências e fazer parte de um Comitê de Ética em Pesquisa, acabo lidando também com Filosofia da Ciência, Metodologia Científica e Ética em Pesquisa, assuntos extremamente interessantes e importantes.

GELocke: Para maior aprofundamento nos tópicos relacionados à Bioética, quais leituras o senhor sugere?
Há enciclopédias, manuais e tratados de grande abrangência, e há livros sobre temas específicos. Depende muito do que se busca.
O primeiro conselho que posso dar é ir às fontes. Ler artigos é necessário, mas sem bagagem cultural e muitos livros, nada feito.
Quer saber como Edmund Pellegrino abordou a ética em saúde? Leia os livros de Pellegrino e tire suas conclusões.
Quer tecer críticas a respeito do principialismo? Leia os Princípios de Ética Biomédica e assista aos cursos online da Georgetown University (principalmente as aulas do Beauchamp).
Quer saber o que os religiosos pensam a respeito da Bioética? Leia Fundamentos da Bioética Cristã Ortodoxa (Tristram Engelhardt), Ética Cristã (Norman Geisler), a série publicada pela Editora Cultura Cristã e os dois volumes do Manual de Bioética (Elio Sgreccia). Isso só para falar dos Cristãos, sem tocar na Bioética judaica, islâmica ou oriental.
Quer entender a Ética Médica tradicional? Leia Hipócrates, Galeno, William Osler, Thomas Percival e outros antigos, medievais, modernos e contemporâneos de destaque.
Quer descobrir a fantástica trajetória da bioética e da Ética Médica? Leia Diego Gracia e Albert Jonsen.
E se alguém deseja abordar um problema, pesquise opiniões, artigos e livros de várias perspectivas, contrárias e favoráveis. Deixe correr um pouco de tempo enquanto acumula diferentes experiências e conhecimentos. In tempus veritas. Abstenha-se de emitir opiniões por um tempo enquanto ganha profundidade. Mantenha-se informado: a realidade e a experiência concreta das pessoas envolvidas é crucial. Para sair o meu primeiro artigo de bioética e meu primeiro livro foram quase dez anos de estudo sobre um tema; e ainda acho que poderia ter estudado mais.
Edmund Pellegrino dava outra dica importante. Não há como estudar Bioética sem estudar as Humanidades Médicas. E não há como estudar Humanidades sem apelar à Filosofia. E como compreender o ser humano sem compreender sua fé, seus valores, sua cosmovisão? Como consolar sem saber qual o sentido da existência de seu paciente? O bom médico que pretende refletir sobre a vida humana e a bioética apelará inclusive para a sabedoria dos textos sagrados e da Teologia.
Não há atalho. Há somente a perspectiva de uma vida de busca e intensos estudos.

GELocke: Nesse mesmo evento, uma das palestras tratou da teologia asclepíade em Hipócrates. Qual é a relevância de Hipócrates na história da medicina, e como seus ensinamentos ecoam na medicina contemporânea?
Hipócrates foi uma figura de grande carisma que nomeou toda uma escola incluindo uma linhagem de médicos que herdaram concepções religiosas de Pitágoras. Na extensa obra assinada com seu nome são demonstrados os fundamentos morais da Medicina - que considera o ser humano digno – e a busca pela virtude pessoal. Há um compromisso pessoal com a busca por uma vida compatível com tão nobre missão. É com a escola hipocrática e sua descendência também que o médico surge como profissional (professando valores), destacado do ofício religioso propriamente dito, porém sem tornar-se destituído do sentimento religioso.
A ética hipocrática é tão rica e possui elementos tão universais que foi inclusive absorvida pela cristandade primitiva e medieval.
Obviamente é necessária uma contextualização de qualquer ética prévia. Os tempos mudam sempre, com suas tecnologias e ciências, mas seu elemento de universalidade e seu conteúdo humanístico persiste, e permite ao estudioso ler Hipócrates e obter insights valorosos para a prática médica contemporânea.
GELocke: Muitíssimo obrigado, professor!

Novamente agradeço o convite. Sucesso a todos vocês, e não desistam de lutar por uma Medicina cada vez mais completa, mais científica e mais humana!