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sábado, 9 de janeiro de 2021

O Médico na Gestão

Muitas vezes me perguntam se cabe ao médico atuar na gestão privada ou pública. Recentemente fui convidado a pronunciar-me sobre essa possibilidade em um congresso da Associação dos Estudantes de Medicina do Espírito Santo e considerei pertinente escrever algo sobre isso que complementasse minha participação no evento.



Em minha época de graduando e residente, normalmente não víamos os gestores com bons olhos. Há um preconceito básico contra os médicos que se “desviam” do caminho da medicina para realizar atividades ligadas à gestão. Hoje, ocupando um cargo de Secretário Nacional no Ministério da Saúde, depois de passar pela residência na Universidade de São Paulo, onde também passei pelo Doutorado, e depois de atuar como médico na assistência tanto no âmbito público quanto no privado e como Coordenador de Curso de Medicina (o que já é um cargo de gestão em educação), posso dizer que adquiri uma visão um pouco mais madura a respeito dessa questão. Não há como negar que a dedicação de duas décadas aos estudos das Humanidades Médicas também foi crucial para a formulação de uma visão mais complexa.

O primeiro aspecto a ressaltar é que o médico tem um compromisso ético de agir como tal em qualquer âmbito no qual os conhecimentos médicos sejam utilizados. O que inclui sua atuação na assistência, na docência, na pesquisa ou na gestão. E, desde a antiguidade, o médico tem sim o papel de atuar na esfera pública, cuidando da saúde no âmbito político, sendo ouvido por autoridades responsáveis pelas grandes decisões ou tomando também parte nas grandes decisões.

Um exemplo histórico, retirado da obra de Platão, é a constatação de que atenienses se reuniam para deliberar sobre questões de saúde pública e recorriam à sabedoria profissional dos médicos.

ΣΩ. λλ᾿ ἐάν τε πνης ἐάν τε πλοσιος   παραινν, οδν διοσει θηναοις, ταν περ τν ν τ πλει βουλεωνται, πς ν γιανοιεν, λλ ζητοσιν ατρν εναι τν σμβουλον.

soc. Se seu mentor é rico ou pobre nenhuma diferença faz para os atenienses quando deliberam acerca da saúde dos cidadãos. Tudo o que eles exigem de seu conselheiro é que ele seja um médico.[1]

O médico permanece atrelado às exigências profissionais mesmo quando atua publicamente e isso não é, portanto, nenhuma novidade.

Aliás, o fato de ser um doutor – ou um douto, em linguagem mais antiga – por acumular uma grande amplitude de conhecimentos, dá ao médico grande autoridade frente ao público, e com essa autoridade, uma enorme responsabilidade.

Tal responsabilidade não deve ser negligenciada, e o médico precisa buscar o conhecimento e a técnica adequada para lidar com as grandes questões que afetam sua comunidade e sua civilização. Daí a importância da Filosofia e das Humanidades Médicas, que incluem as Artes Liberais: Gramática, Retórica e Lógica. 

Nas palavras de Sir Roger Scruton:

(...) as pessoas vão obter educação somente se elas a desejarem por seu próprio fim, mas conseguirão bem mais do que isso. Elas vão adquirir a habilidade de se comunicar, de persuadir, de atrair e de dominar. 

Em qualquer arranjo social, tais capacidades serão vantagens, mas a educação nunca pode ser buscada somente como meio para elas, mesmo se são sua consequência natural.[2]

Essa detenção de conhecimentos, técnicas, moral profissional e elevada capacidade de impacto social facilitam o caminho para postos de liderança. Negligenciada essa vocação de liderança e essa responsabilidade, o que se segue é a possibilidade de ser utilizado como massa de manobra para interesses diversos que não aqueles ligados à saúde ou ao estatuto moral da profissão.

Um médico que negligencia esse chamado à responsabilidade da vida pública e que se recusa a adquirir o preparo humanístico adequado é como um daqueles prisioneiros acorrentados no fundo da caverna descrita por Platão em seu Livro VII de A República. Só que no caso do médico que não imergiu nos estudos humanísticos, o prisioneiro continua sentado e virado para o fundo da caverna, mesmo que alguém se ofereça para lhe soltar as correntes. 

A pior escravidão é, de fato, aquela que surge pela falta de desejo da liberdade ou do apego doentio a uma condição sub-humana.

E o contexto recente da medicina no Brasil desvela claramente as consequências trágicas do abandono do legado cultural e moral de grande parte da classe profissional. Há uma perda difusa de credibilidade, perda da união profissional, várias tentativas de rotulação odiosa por parte de certas autoridades, desvalorização do trabalho médico, perda de liderança em postos de atendimento ou gestão, ausência de formação humanística de qualidade nas escolas e ausência de formação política adequada.

Diante desse cenário preocupante, o que se deve fazer?

Confio pouco em soluções maravilhosas, panaceias que resolverão o problema de todos, e duvido que impor um currículo básico seja suficiente. Aliás, no ambiente altamente ideologizado e medíocre em termos culturais cultivado por alguns que almejam ensinar Humanidades Médicas – ou fazer proselitismo político barato, em grande parte dos casos –, ouso afirmar que certas iniciativas serão até mesmo deletérias, servindo apenas para treinar militância acéfala ou causar ojeriza pelos estudos das humanidades. 

Contudo, um caminho mais ou menos seguro é estudar de forma interessada e autônoma a ciência política, a estratégia e as humanidades em geral, absorvendo o legado cultural milenar de nossa civilização, isto é, buscando o que muito apropriadamente é chamado de Alta Cultura. Com base nesse estudo sério e profundo, pode-se traçar planos de ação no âmbito da política e da gestão, compreendendo como a gestão pública e a gestão privada impactam a vida em sociedade como um todo. E todo esse estudo de nada valerá se não ocorrer um esforço contínuo de aprimoramento do caráter. Somente assim um profissional médico estará apto realmente a ocupar um cargo público: sendo uma boa pessoa e um bom médico.

Se o conhecimento é consolidado na solidão e no silêncio, o caráter, por outro lado, é forjado no calor da batalha. Não é à toa que se aprende tanto no internato e na residência médica, quando se está imerso na dura e crua realidade assistencial.

O médico tem uma oportunidade preciosíssima de se tornar um bom gestor, pois vivencia realidades múltiplas que lhe dão acesso a experiências cruciais na formação humanística e profissional. Desde a assistência em unidades básicas de saúde em bairros e em alas hospitalares até estar presente na formulação de grandes políticas de saúde pública, o médico tem a oportunidade de adquirir uma perspectiva realmente ampla sem se esquecer do cotidiano e do específico.

Resumindo o que chamo de ciclo virtuoso da ação pública, o que se tem é a aquisição ampliada de conhecimento e experiência de vida que leva ao aumento da responsabilidade. O aumento da responsabilidade, quando assumido com nobreza, gera a confiança em meio à sociedade. Essa confiança gera autoridade e deferência por parte do público. A autoridade inevitavelmente gera maior impacto social por parte do profissional, que adquire grande capacidade de influenciar os rumos da sociedade. E, por fim, esse impacto gera maior necessidade de conhecimento para qualificar os próprios atos e decisões, o que reinicia o ciclo de aumento de responsabilidade.

E o que seria esse estudo das humanidades capaz de ajudar na construção de um bom gestor médico? Como realizar esse estudo, indo além dos conteúdos específicos de administração? Essa é a proposta do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina, abordada em outros escritos diversos.[3]

Utilizado de forma adequada, o papel de gestor pode salvar incontáveis vidas, auxiliar nas necessidades de famílias e de todo um país e promover constante aperfeiçoamento da profissão na busca pela excelência. Eis um dos mais complexos papéis que o profissional médico pode almejar e também um daqueles de maior impacto na sociedade. 

O reconhecimento dessa possível missão deve ser devidamente tratado desde a graduação para que se evite uma geração de profissionais destituídos das competências da liderança e da nobre vocação de atuar com o bem público e individual em mente.

 

Hélio Angotti Neto

Brasília, 09 de janeiro de 2021.

 



[1] PLATO. Charmides. Alcibiades I and II. Hipparchus. The Lovers. Theages. Minos. Epinomis. Loeb Classical Library 201. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1927, p. 110-11.

[2] SCRUTON, Sir Roger. O que é Conservadorismo. São Paulo: É Realizações, 2015.

[3] ANGOTTI NETO, Hélio. A Tradição da Medicina. Brasília: Academia Monergista, 2012; ANGOTTI NETO, Hélio. Bioética: Vida, Valor e Verdade. Brasília: Editora Monergismo, 2019.

domingo, 6 de dezembro de 2020

Reflexão Pessoal de Natal - 2020

 REFLEXÃO DE NATAL – 2020

 


O ano de 2020 encerra com um cenário que eu jamais poderia imaginar. Em meio à crise mundial causada pelo novo coronavírus, estou justamente no Ministério da Saúde, dividindo o peso com uma grande equipe em busca de aliviar a dor e buscar soluções para todo o mal trazido pela doença. Nunca imaginei um desafio assim, mas agradeço antes de tudo a Deus por ter a chance de empenhar meus esforços para ajudar.

Contudo, a reflexão que agora gostaria de compartilhar não é sobre os grandes exemplos e tragédias dessa enorme crise, mas uma outra tragédia que acomete tantas famílias, muitas vezes em silêncio e muitas vezes ignorada. Tragédia que possui um profundo sentido existencial, que nos coloca em uma situação da qual não se escapa, tampouco se previne. A tragédia é um nome dramático para o que alguns chamam de destino, outros de providência, e Salomão tão bem explica como a vida debaixo do sol enquanto Jó lamenta e clama diante do próprio Deus seu sofrimento, sua tragédia pessoal.

Essa tragédia é o fato inescapável de que todos somos limitados, todos temos falhas e precisamos da compaixão alheia. E esse fato torna-se ainda mais agudo quando me deparo com a situação daqueles que possuem doenças raras ou doenças graves ainda sem tratamento, que lhes causam importantes deficiências e tornam impossível a completa adaptação em sociedade.

O lugar de trabalho no qual me encontro também trata justamente desse assunto: pessoas com doenças raras.

E falar de doenças raras é falar do sofrimento, da dependência, da esperança misturada ao desespero, da pressa e, acima de tudo, da compaixão e do amor. 

Há muitas formas de doenças raras, acometendo diferentes órgãos, diferentes funções, mas todas elas carregam uma lição de sóbria alegria e muita dor.

Há aqueles que nascem e, em meio ao choro de sua família, partem após poucos ou até mesmo nenhum suspiro. Há aqueles que vivem vidas longas, repletas de sacrifícios por sua parte e por parte de seus familiares. Cada pessoa com uma dessas condições, assim como cada pessoa existente, é única e é especial, com certeza, mas essas que possuem doenças raras ou deficiências muito graves por diversas vezes nos mostram uma experiência concentrada, que clama aos céus.

Em meio a todo o sofrimento e ao medo causado pela doença epidêmica que o mundo enfrenta em 2020, as tragédias pessoais por outras razões não pararam. Incontáveis histórias que somente a mente de Deus pode compreender, em suas mais plenas cargas existenciais, ocorrem todos os dias.

Não seria justo ignorar essas vidas, tampouco o seria ignorar outros fatos, além do sofrimento e das necessidades, que acompanham essas existências carregadas de tragédias e lições.

Uma dessas lições que presenciei foi como famílias encontram uma força que não é deste mundo para seguir em frente, para lutar, para sonhar e para cuidar. Presenciei situações de desespero que trazem à tona forças que mal sabíamos existir e que sustentam a caminhada mesmo nos mais difíceis momentos. Fé, carinho e sentimento de missão alimentados por um Amor que transcende tudo o que somos e sabemos.

Cada pessoa com uma doença rara ou com uma grave deficiência é uma oportunidade única de manifestar esse Amor, de caminhar com um propósito nobre, de superar suas próprias condições e viver o impossível, de abarcar no peito alegrias e tristezas quase infinitas que não caberiam de outra forma. “Nossos raros”, como são chamadas muitas vezes as pessoas com doenças graves e raras, tantas vezes crianças e bebês, simplesmente não cabem em nosso coração, mas podem evocar algo muito maior e melhor do que nós somos.

E cada um desses pequenos ou grandes que convive com uma grave doença abre nossos olhos para uma situação também trágica em nossas vidas: todos nós somos tão pequenos e tão indefesos diante do destino à frente, diante de nossas finitudes! Todos, em maior ou menor grau, dependemos tanto do próximo! Quem somos nós para julgarmos o valor da vida ou ousarmos afirmar que somos independentes? Nossas vidas são como um sopro, uma sombra que passa, nas palavras do salmista.

É no Natal que em especial nos lembramos da vinda e da vida do Único que não é imperfeito e que nada nos deve. Lembramo-nos com especial atenção d’Ele que em nada dependeu de nós, d’Ele que por nós se sacrificou por puro Amor, inesgotável, perfeito e divino. 

Todos nós carregamos nosso trágico destino à frente, repletos de falhas, imperfeições, deficiências. Em certa medida, todos possuímos uma doença grave que cedo ou tarde cobra o seu preço, seu sofrimento, sua dor. Contudo, temos quem cuide de nós pela eternidade. Alguém que se mostrou, que nasceu como nós nascemos e que optou por sacrificar-se por nós.

Neste Natal, lembro de que cada pessoa com uma grave doença, cada um com uma grande necessidade de suporte, também é uma oportunidade existencial única que graciosamente nos permite cuidar do próximo e exprimir um reflexo daquele Amor infinito que se derramou sobre todos nós, do qual somos todos devedores. Cada uma dessas vidas raras é uma oportunidade para compreendermos um pouco mais do mistério da vida e para amarmos o próximo como Cristo nos ama apesar de nossas fraquezas.

E que nós possamos nos lembrar com gratidão de que o bem feito a um desses “pequeninos” não será esquecido, pelo contrário, ecoará aos céus por toda a eternidade, pois neles também sofre e ama nosso Criador.

Um Feliz Natal e que Deus nos proteja e nos capacite a cuidar daqueles que mais precisam de nosso amor, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

 

Hélio Angotti Neto, Brasília, 06 de dezembro de 2020.

domingo, 26 de abril de 2020

EM TEMPOS DE BIOPOLÍTICA, GLOBALISMO E GEOPOLÍTICA

EM TEMPOS DE BIOPOLÍTICA, GLOBALISMO E GEOPOLÍTICA

A recente pandemia, conforme a Organização Mundial de Saúde decretou em 2020 por causa do Coronavírus, realmente trouxe fatos importantes que devem ser analisados e que impactarão sobre nossa realidade de forma significativa.
Pela primeira vez na história da humanidade, bilhões de pessoas acompanharam em tempo real o alastramento da doença, caso a caso. Todos fomos expostos a uma enorme carga de informação e especulações com enormes potenciais tanto positivos quanto negativos. 
Do lado positivo, sem dúvida, a possibilidade de acompanhar curvas epidêmicas e compará-las em todo o mundo, enriquecendo em muito a ciência epidemiológica. Do lado negativo, a enorme ansiedade que isso gera e todo o impacto social e econômico decorrente.
Quanto ao alastramento da doença, foi auxiliado pela intensa globalização, que abriu fronteiras e mercados por todos os lados, aprofundando laços de interdependência entre os países e o deslocamento de grandes massas humanas em pouquíssimo tempo.
Essa interdependência e essa fluidez de fronteiras geraram situações interessantes no contexto da pandemia. Uma delas é, por exemplo, a concentração da produção global de máscaras cirúrgicas na China, justamente onde se iniciou a pandemia.
Mundo afora, há diversos oligopólios globais, gerando especializações centradas em algumas nações. Na hipótese de fechamento de fronteiras, há um sério risco de desabastecimento do mercado interno de diversas nações dependentes. Para um mundo globalizado, eis que foi desenvolvida uma solução globalista.
Isso gera uma preocupação em relação à plena abertura dos mercados e uma nova tendência ao protecionismo, que pode ser interessante no caso de bens essenciais à subsistência e à segurança de todo um povo.
A dependência de uma nação, em termos estratégicos, da produção de outra nação significa algo muito claro: submissão, seja ao governo que produz o bem para exportação, seja ao grupo que lidera a produção, que pode apresentar caráter não governamental. De ambas as formas, há uma série de possíveis fragilidades, ainda mais em tempos de conflito e desconfiança, como aqueles presenciados durante a pandemia da Doença do Coronavírus (COVID-19).
Não se pode desprezar os ganhos da globalização. Informação rápida, facilidade na aquisição de mercadorias antes indisponíveis, flexibilização das fronteiras e aumento do sentimento cosmopolita por todo o globo. Mas há que se diferenciar duas situações.
A globalização propriamente dita do globalismo.
O globalismo é uma forma de administrar a realidade globalizada em termos políticos, econômicos e culturais. Sua grande ênfase é o poder concentrado em entidades supranacionais, é como controlar o próximo por cima de suas fronteiras. Há um elemento de substituição de uma elite governante de caráter nacional, muitas vezes alocada pelo próprio povo de uma nação, por uma elite tecnocrática que rompe questões como nacionalidade e patriotismo. 
Essa elite internacional atua em diversos países e funciona como um poderoso elemento geopolítico que não pode ser ignorado. 
Um exemplo seria o de um pequeno país no qual se instala um enorme complexo produtor pertencente a um dos membros dessa elite internacional. Uma vez dependente do comércio internacional, este pequeno país pode praticamente ser colocado em profunda recessão econômica e grave crise política caso tal complexo seja removido ou fechado.
A resposta dada à pandemia nesse delicado contexto de globalização permeada de globalismo, com seus mercados abertos em nível internacional, gerou uma consciência aguda acerca das limitações do modelo de caráter internacionalista.
Novamente muitos questionam as vantagens e desvantagens do nacionalismo, diferenciando a postura cautelosa e protetora da cultura e dos interesses nacionais – o nacionalismo propriamente dito – daquela postura agressiva de conquista e imposição cultural, denominada de imperialismo por autores como Yoram Hazony, autor da obra As Virtudes do Nacionalismo.
As repercussões desse grande tubo de ensaio em que se tornou a pandemia serão percebidas no campo das Relações Internacionais, da Economia, da Saúde, da Política e do Direito só para começar. As repercussões culturais ainda são incalculáveis.
Vivemos, na verdade, um cenário parcialmente previsto pelo Filósofo Olavo de Carvalho no início do século XXI, que recomendara ao então presidente do Brasil, Itamar Franco, a realização de um Congresso Mundial sobre o Nacionalismo. A sugestão então ignorada agora se faz urgente, como também é urgente a redefinição dos mercados e das fronteiras diante das atuais mutações políticas, científicas, econômicas e culturais.

terça-feira, 21 de abril de 2020

OBEDEÇA OU MORRA

Liberdade e Opressão em tempos de Pandemia

Obedeça, obedeça, obedeça... ou, na visão de certos elementos preocupados com o bem do próximo, os princípios do SUS – Universalidade, Integralidade e Equidade – não valerão para você.

“(...) parte da minha área de atuação [é] a orientação que passarei para o gabinete de crise e, em especial, aos médicos que estiverem atendendo, é que se tiverem que escolher entre esses pacientes que seguem essas recomendações (de isolamento social) e outros pacientes que não seguem essas recomendações, que já foram autuados, que vão para as redes sociais convocar os outros para a rua, que vão para as redes sociais convocar que abram o comércio, que vão para as redes sociais convocar passeata, não importa em apoio de quem (...), se tiver que escolher entre um paciente como esse e um paciente que cumpre as regras, que está exercendo uma função essencial e por isso está se arriscando, sem nenhuma dúvida faça a escolha em favor desses que estão obedecendo. A gente perfeitamente consegue monitorar as pessoas pela rede social, montar um banco de dados.”
Se nós avançarmos para esse estágio, tenhamos um banco de dados à disposição para que o profissional de saúde faça essa escolha em favor daquele que foi acometido por uma fatalidade já que não procurou “o COVID”. Uma coisa é o COVID procurar o paciente, outra coisa é o paciente por ignorância ir ao encontro do COVID. Eu acho que essas pessoas que estão cavando a sua cova com sua própria ignorância não têm o direito de tirar a vida daqueles que estão fugindo do COVID”. (Marcelo Lessa, Promotor Público, em declaração para RJTV).

Seguindo essa curiosa linha de raciocínio, deveríamos negar atendimento a presidiários ou criminosos que chegam baleados em serviços de emergência? Deveríamos usar quais outras formas de classificar adultos, idosos e crianças? Capacidade de contribuir para a sociedade com trabalho? Notas escolares? Cor da pele ou dos olhos? Concordância política com o governante? Usuários regulares de vitaminas e suplementos alimentares?
Basta termos um sistema de vigilância poderoso o suficiente e o grande porrete do Estado estará a postos para te excluir ou te punir se você não tiver sido um bom menino. 
Por alguns momentos senti que estava em um romance de George Orwell, mas percebi que esta é a realidade em que vivemos. E pessoas que defendem essa postura são justamente aquelas que sequestraram a expressão democracia e acusam quem se lhes opõe de ditador!
Na realidade alternativa em que vivem, as coisas ocorrem como Orwell descreveria: Ódio é Amor, Mentira é Verdade, Opressão é Liberdade...

terça-feira, 24 de março de 2020

DIGA-ME COMO REAGES E TE DIREI QUEM ÉS

Seria muito melhor se esse novo Coronavírus jamais tivesse existido, com certeza. Mas da complexidade da realidade, muitas coisas se apreendem de cada situação. Lições de vida são algumas delas, proporcionadas por momentos alegres ou, no caso de uma epidemia como a atual, tensos, mas reveladores.
Nesses momentos de grande tensão, medo e dificuldade, algo de menos controlado e mais instintivo parece vir à tona em todos nós. Pela resposta das pessoas nessas horas, podemos conhecer bem mais a respeito delas ou de nós mesmos. A resposta individual à epidemia do novo coronavírus não seria um caso diferente. Alguns podem dizer que a reação política e social está exagerada ou até mesmo histérica, outros diriam que estão subestimando o problema, mas a resposta individual dada à presente situação é algo bem concreto e imediatamente verificável.
Há aqueles que reagem com calma e coragem, e fazem o possível para ajudar. No caso de profissionais da saúde, surgiram muitos pedidos, vindos de diversas partes do país, de estudantes da saúde e profissionais – alguns até acima de 70 anos de idade – para que pudessem ajudar de alguma forma, qualquer forma. São pessoas que se sentiram profundamente incomodadas pela situação e sabem que podem ajudar, que podem ser úteis. Essa é a essência da nobreza da qual tanto falou José Ortega y Gasset, o oposto da mediocridade característica do que o filósofo espanhol chamava de homem-massa.
Para Ortega, o homem-massa é justamente aquele que odeia qualquer um que ouse se levantar acima dos demais, qualquer um que ouse demonstrar valor e caráter. O homem-massa é o “senhorzinho que só busca a própria satisfação” e torna-se insensível ao próximo e aos mais altos ideais de dever e responsabilidade que formam a história de um povo.
Em contextos como o que vivemos, todos têm sua colaboração de dever, responsabilidade e honra a oferecer. Seja ficando em casa, com paciência, mesmo que sem sintomas, sabendo que pode transmitir a doença a alguém mais frágil, seja trabalhando como profissional da saúde, no front dessa guerra silenciosa.
Na esfera política e social, que muito influencia a saúde, surgiram também ofertas de ajuda mesmo de alguns que nunca se mostraram lá muito amistosos em relação ao atual governo. Compreendem que somos pessoas e tratamos de pessoas. O melhor em cada um que veio à tona foi capaz de superar desavenças em tempos diferentes.
Mas nem tudo são rosas.
Há outras formas de resposta que de regra surgem nessas horas e que mostram um contraste tão evidente como o da noite em relação ao dia.
Há quem se aproveite da situação de tensão para capitalizar tudo em termos políticos, para aproveitar a tensão e alimentar o caos com objetivo de desestruturar o próximo, de plantar a discórdia para semear o ódio e o medo. Há quem tente lucrar durante a crise não por meio da coragem e da criatividade, mas da mesquinhez e do oportunismo político, para tentar ganhar na crise o que não ganhara em tempos mais tranquilos, por exemplo.
Pode ser que tais elementos o façam por não acreditar em algo chamado Justiça, ou que justiça para eles seja ajudar os amigos e detonar os “inimigos”, como afirmara Polemarco diante de Sócrates no antigo diálogo filosófico A República.
Por fim, há aqueles que, chamados a agir com calma e a ajudar o próximo, temem desesperadamente o risco. Profissionais de saúde e estudantes que, mesmo munidos de equipamentos de segurança e fora dos grupos de risco de maior de letalidade da doença, se apavoram e declaram que não irão à frente assistencial.
Tal medo é compreensível. Aliás, só é corajoso aquele que venceu o próprio medo, como tantos discursaram de forma correta ao longo da história.
Mas é preciso salientar algumas perspectivas básicas no presente cenário quando tantos falam em questões como heroísmo, segurança e profissionalismo.
Uns falam de heroísmo, outros dizem que o discurso que profissional da saúde precisa ser herói é uma desculpa para exigir condições inadequadas de trabalho e para que profissionais se exponham ao risco de forma despreparada e se submetam a condições ruins e desnecessárias de trabalho. 
Estupidez é uma coisa, heroísmo é outra. E ser prudente não é ser covarde. Heróis podem e devem ser prudentes, mas são heróis pelos valores encarnados e pelo sacrifício realizado em prol do próximo. 
Médicos que não se enxergam como heróis ou sacerdotes não são profissionais na concepção mais tradicional da palavra. Somente por almejar ser herói ou santo é que o médico foi respeitado desde os tempos hipocráticos, utilizando o mandato social recebido para agir além do mínimo que se exigiria para qualquer um. Quando nos afastamos disso, caímos na perigosa e morna mediocridade.
Mesmo fora dos tempos de epidemia, muitos profissionais da saúde seguem dando exemplos de como ser herói sob diversos aspectos. 
Um médico cirurgião não pode negar cirurgia a um paciente com hepatite C ou soropositivo pra HIV, por exemplo. Ele sabe que assume um risco quando entra em campo operatório. Mas para isso ele será treinado e receberá os devidos meios para agir com a máxima redução do risco.
Há risco e necessidade de certo heroísmo cada vez que um médico intensivista ou infectologista e toda a equipe de saúde composta por fisioterapeutas, enfermeiros e nutricionistas entram em uma área de isolamento na unidade de terapia intensiva, pois mesmo fora de epidemias, há doenças altamente contagiosas e muito perigosas a serem combatidas.
Quantos médicos, enfermeiros e diversos outros profissionais da saúde rotineiramente fazem muito mais do que entregar um serviço? Há exemplos do que chamaríamos de ação supererrogatória por todos os lados. Palavra utilizada no campo dos estudos éticos que denota justamente fazer mais do que o mínimo necessário, fazer algo de valor que supera a obrigação 
Almejar cumprir o antigo Juramento de Hipócrates, que preconiza respeitar a vida e de guardar a si mesmo e a Arte Médica com pureza e santidade pode parecer anacrônico para alguns. Eu, por outro lado, diria que tais valores representados entre profissionais da saúde há milênios são atemporais e jamais desvanecerão enquanto durarem os sentimentos profissionais de beneficência e excelência.
Há quem diga que heróis ou santos são reflexos de uma sociedade doentia, que caso estivesse saudável jamais necessitaria dos mesmos. O fato é que todos somos fracos, doentes e limitados por natureza e em diferentes graus, e que somente naqueles momentos em que nos elevamos um pouco acima de nossas mais cotidianas misérias é que vislumbramos algo superior a nós mesmos, algo pelo qual valha a pena fazer algum tipo de sacrifício. São esses momentos e a resposta que lhes é dada que direcionam a história de um povo, e que podem ser capazes de realmente formar uma história digna de ser legada à próxima geração e definir de fato o que é o Brasil.
Hoje temos um povo que ousou sair da mediocridade, ousou mudar de rumo. Pessoas falam novamente de heroísmo, valores, família, sacrifício e honra. Palavras consideradas fora de moda ou inúteis para alguns e que há relativamente pouco tempo eram politicamente incorretas. No entanto, são símbolos das coisas que realmente refletem o bem que nos transcende, e que sem dúvida merecerão ser recordadas nos livros de história para nossos filhos.
Que Deus ajude nosso país a ter cada vez mais pessoas que realmente desejam tornar-se heroicas e tomar para si a corajosa missão de fazer algo além do mínimo necessário. Pessoas que, na crise, ao invés do oportunismo egoísta ou da indiferença, estendam a mão para oferecer auxílio.
Hélio Angotti Neto
24 de março de 2020, Brasília - DF.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Desmontando falácias abortistas - Parte 2: Caça ao Embrião

Desmontando falácias abortistas - Parte 2: Caça ao Embrião



Mentirinha: “Essa valorização do feto humano é um exagero. Chegamos ao absurdo de impedir a realização de grandes descobertas científicas que poderiam curar os mais terríveis males que assolam a humanidade por causa de uma preocupação sem sentido com embriões que poderiam ser utilizados para pesquisas com células-tronco embrionárias.”

Talvez uma das mais impressionantes formas de defender o extermínio humano por meio do aborto seja justamente colocá-lo ao lado do progresso científico que arroga para si o papel de redentor da humanidade acometida por terríveis males. Para os abortistas, o aborto se transforma em uma necessidade para que haja mais pesquisas “redentoras”.

É um apelo muito mais emocional do que racional a uma solução parcial para uma das coisas mais assustadoras na vida humana: o sentimento de finitude, muitas vezes acompanhado pelo medo do desconhecido e do sofrimento que a morte traz. Com o intuito de combater a morte, eis que surge novamente a nossa campeã, a maravilhosa ciência, parteira de tantos milagres humanos, e agora também utilizadora de embriões.

No passado não tão distante, esperava-se que, com a conclusão do Projeto Genoma, o ser humano pudesse ser reprogramado e a caixa de Pandora fosse escancarada para que cientistas alcançassem todos os mais loucos sonhos. Isso não se realizou. Descobrimos muitas outras caixas de Pandora como a epigenética, que mistura os hábitos e a cultura humana no caldo genético e a proteômica.[1]

Embarcando na marola que sobrou da onda de esperanças destroçadas, onda esta advinda da ambição pelo domínio do destino humano por meio da genética, ainda surgem aqueles que sonham com a manipulação do ser humano por meio da terapia com células-tronco.

Eis que lá vêm os abortistas em busca da mais nova desculpa para seus lucrativos abortos: utilizar as células-tronco embrionárias, muito mais poderosas do que as células-tronco adultas, para promover soluções ainda mais espetaculares.

No Brasil, o Supremo Tribunal Federal, em seu ativismo, legislou sobre a matéria, anunciando a legalidade de se pesquisar com embriões humanos, para o desgosto dos defensores da vida. Também não agradaram por completo os próprios abortistas, já que há clara orientação para não se produzir novos embriões destinados à pesquisa.

Isso tudo apesar de não haver evidências de que células-tronco embrionárias de fato possuam grandes vantagens sobre o uso de células-tronco adultas.[2]E ainda há relatos de que as células-tronco embrionárias sejam de difícil controle, já que podem causar câncer em seus receptores, dado o altíssimo potencial que encerram.[3]Por outro lado, há um grande investimento em uma nova técnica que permite a transformação de células adultas em células-tronco, são as Células-Tronco Humanas Pluripotentes Induzidas, repletas de possibilidades e com menores entraves morais.[4]Esta última técnica, que nos pouparia de grandes dúvidas acerca da moralidade em se destruir embriões humanos para pesquisar, surge em um contexto no qual a pesquisa em embriões não foi estimulada. A criatividade humana encontrou um caminho mais ético, enfim, recusando o atalho oferecido por incautos pesquisadores.

Surgem também nos dias de hoje as acusações feitas pelos abortistas de que os defensores da vida humana são retrógrados, inimigos da boa ciência que salva milhões de vidas, saudosos de uma vida medieval – como se medieval fosse algum tipo de xingamento horrendo.

Em periódicos de altíssima circulação, esfregam na cara dos defensores da vida humana que hoje milhões de pessoas de todas as idades se beneficiam das vacinas. Segundo os abortistas, é preciso ser coerente e honrar o fato de que grande parte dessas vacinas foram produzidas com a ajuda de células fetais obtidas em abortos. O que esses iluminados escritores de editoriais de revistas cientificas famosas não falam é que se pode recorrer a células fetais de abortos espontâneos e que não há compromisso ético algum em permanecer fazendo algo questionável moralmente só porque se obteve algo de positivo de uma prática antiética realizada no passado. De forma análoga, pode-se perceber o grau de estupidez dessa linha de raciocínio ao se propor o absurdo de prosseguir com as práticas nazistas de experimentos monstruosos em seres humanos só porque, no passado, de forma criminosa, algum nazista hipoteticamente descobriu algo que nos beneficiaria no presente. Não faz o menor sentido.[5]

Aliás, já que falamos em analogias e raciocínios estúpidos, cabe lembrar outro exemplo vergonhoso da argumentação abortista: o argumento do terrível prédio em chamas (ou seria o terrível argumento do prédio em chamas?).

Alguns abortistas utilizariam a seguinte situação hipotética: imagine que você está em um prédio, em meio a um terrível incêndio. Você tem a chance de salvar uma menina de cinco anos ou doze embriões congelados. Você ousaria salvar os embriões?

Michael Sandel, que propôs essa situação, utiliza isso contra a ideia de equivalência moral entre embriões e pessoas já paridas em seu livro Contra a Perfeição. Seu argumento é de que, como as pessoas de regra salvariam a menina, conclui-se que as pessoas de fato não acreditam que embriões são seres humanos.[6]Eis um verdadeiro exemplo de non sequitur.

A resposta é dada por Yuval Levin, que argumenta contra a conclusão de que embriões deveriam ser apenas material bruto para pesquisas. 

Ele reproduz a analogia da seguinte forma: imagine que você está em um prédio em chamas com sua esposa e um estranho. Se tiver que escolher, obviamente escolherá sua esposa para salvar em detrimento do estranho (ou, pelo menos, espera-se que a escolha). Ninguém poderia culpar o homem que salvou a sua esposa e não a um estranho. Disso não se concluiria de forma alguma que o estranho, que não foi salvo, era apenas material bruto para queimar ou destruir. Tampouco se concluiria que poderíamos sair por aí pegando estranhos para arrancar-lhe os órgãos para pesquisa, certo?[7]

Segundo Levin,

O problema, em outras palavras, está na aplicação da lógica de um prédio em chamas – a lógica da triagem e da emergência – para a vida cotidiana. Nosso mundo não é um prédio em chamas. Argumentar a favor disso, como foi sugerido no caso de pesquisas médicas moralmente controversas, seria negar a legitimidade de praticamente todos os limites éticos e morais sobre a ação, se tal ação fosse direcionada à resolução de uma emergência. E se nossa natureza humana ou condição mortal em si é a emergência, logo qualquer ação – qualquer meio – seria moralmente permissível para estender nossas vidas.[8]

Falando de embriões e de pesquisas antiéticas, o anúncio recente de que cientistas chineses comemoram a criação de dois bebês humanos editados geneticamente pela técnica CRISPR para que sejam imunes ao vírus do HIV desperta preocupação até mesmo em grandes entusiastas dos grandes avanços tecnológicos e do Transumanismo, como Julian Savulescu, que afirma com correção que 

Se for verdade, esta experiência é monstruosa. Os embriões eram saudáveis, sem doenças conhecidas. A edição genética em si é experimental e ainda está associada a mutações indesejadas, capazes de causar problemas genéticos em etapas iniciais e posteriores da vida, inclusive o desenvolvimento de câncer. (...) Esta experiência expõe crianças normais e saudáveis aos riscos da edição genética em troca de nenhum benefício necessário real. (...) contradiz décadas de consenso ético e diretrizes sobre a proteção dos participantes humanos em testes de pesquisa. [Os bebês resultantes dos testes de He, pesquisador chinês formado nos EUA] estão sendo usados como cobaias genéticas. Isso é uma roleta russa genética.[9]


O que se vê, na linha de argumentação abortista em prol do pretenso avanço da ciência, é o risco real e imediato de uma profunda desumanização do homem, instrumentalizando-o em prol de um avanço científico de forma irresponsável e, portanto, antiética. Em troca da imoralidade, oferecem-nos maravilhosas expectativas.

Desde quando se justifica praticar um ato com altíssimo risco de ser antiético em prol de um hipotético avanço do conhecimento humano? Pois a dúvida moral em si mesma, como obrigatoriamente acontece no caso de um ato irreversível como a edição genética ou um aborto, já aponta imediatamente a sua falha ética. 

Por fim, usar embriões humanos em pesquisas é a instrumentalização irreversível e antiética de alguns seres humanos em prol de outros, é a desvalorização da vida humana ao afirmar que ela nada ou pouco tem de especial, é dar a cara a tapa para a velha crítica posta por George Orwell em seu romance A Revolução dos Bichos: Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros...[10]




Hélio Angotti Neto é médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo com Residência Médica em Oftalmologia e Doutorado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atua como Professor e Coordenador do Curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo. É Presidente do Capítulo de História da Medicina da Sociedade Brasileira de Clínica Médica (Triênio 2017-2020), membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e Delegado do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo em Colatina (2018-2023). Foi Global Scholar do Center for Bioethics and Human Dignityda Trinity International Universityem 2016 (Illinois, USA) e é Diretor Editorial da Mirabilia Medicinae, publicação em Humanidades Médicas sediada no Institut d’Estudis Medievalsda Universidad Autónoma de Barcelona. Publicou os livros: A Morte da Medicina; A Tradição da Medicina; Disbioética Volume 1: Reflexões acerca de uma estranha ética; Disbioética Volume 2: Novas Reflexões Sobre uma Ética Estranha; Disbioética Volume 3: O Extermínio do Amanhã; Arte Médica: De Hipócrates a Cristo; além de diversos capítulos de livros e artigos em Oftalmologia, Bioética, Política e Humanidades Médicas. Criador e Coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina. É Presbítero da 3ª Igreja Presbiteriana de Colatina. Casado com Joana e pai de Arthur, Heitor e André.


[1]FANU, James Le. The Rise and Fall of Modern Medicine. New York: Basic Books, 2012.
[2]PEREIRA, Lygia da Veiga. Células-Tronco. Promessas e Realidades. São Paulo: Moderna, 2013.
[3]AMARIGLIO, Ninette; et al. ‘Donor-Derived Brain Tumor Following Neural Stem Cell Transplantation in an Ataxia Telangiectasia Patient’. InPLoS Medicine, 6(2), 2009.
[4]LEVIN, Yuval. ‘What Happened to Bioethics’. InThe New Atlantis. A Journal of Technology and Society, vol. 56, 2018, p. 92-98.
[5]Recomendo a leitura de meu artigo “Tudo é bom motivo para matar um bebezinho”, publicado em: ANGOTTI NETO, Hélio. Disbioética Volume II: Novas reflexões sobre os rumos de uma ética estranha. Brasília, DF: Monergismo, 2018.
[6]SANDEL, Michael J. Contra a Perfeição. Ética na era da engenharia genética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.
[7]LEVIN,op. cit., p. 93-94.
[8]Ibid., p. 94.
[9]LYI, Macarena Vidal. Cientistas chineses dizem ter criado os primeiros bebês geneticamente modificados. Os bebês, duas gêmeas, agora têm uma modificação que supostamente as protege contra o vírus da AIDS, segundo o geneticista He Jiankui. In:El PaísInternethttps://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/26/ciencia/1543224768_174686.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM&fbclid=IwAR3DrSoMs3k7l-JcWbIcKzL5Ci2ozAne5BJgnI_uSZFiVgLo7LF7obAq50s
[10]ORWELL, George. A Revolução dos Bichos. Um conto de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Was Hippocratic Medicine Authoritarian?

Was Hippocratic Medicine Authoritarian?
Author: Hélio Angotti Neto
KEYWORDS: Hippocrates, Medical Ethics, History of Medicine, Paternalism, Authoritarianism, Physician-Patient Relationship.


I. Introduction
Hippocratic Medicine became a taboo in our times. The Hippocratic tradition, rich and complex as it can be, receive accusations of irresponsibility toward social issues. In addition, physicians that worked or, allegedly, work under such an inspiration are seen as paternalists and authoritarians by many authors, professors, and even common folk. This article searches for an answer for the following questions: (1) Did the Hippocratic physicians of old were really paternalists in the strong sense of the term (all knowing and authoritarians, undermining the autonomy of the patient and their families)? (2) If not, how they practiced medicine considering their patients, their families and their colleagues?

II. Hippocrates and the authoritarian origins of medicine
The contemporary vision of Hippocratic ethical tradition is one of authoritarianism, paternalism, forceful beneficence and disrespectful stance, with an arrogance that cannot stand the autonomy of the patient. To some critics, the ancient model remained until very recently, perpetuating paternalism in some kind similar to a Dark Age of medical ethics, now enlightened by modern bioethics.
In a publication of the Regional Medical Council of São Paulo (Siqueira 2005, p.14) we can read:
(…) traditional medical ethics, as conceived in the Hippocratic model, has a strong paternalist appeal (…). Only in the sixties, medical ethical codes started to acknowledge the infirm as an autonomous agent.
Even in the probably most important book of bioethics in the world (Beauchamp & Childress 2013, p.1), they present the Hippocratic tradition as:
(…) not well equipped to address problems such as informed consent, privacy, access to health care, communal and public health responsibilities, and research involving humans subjects as these appeared in the modern context, and its paternalistic orientation  provoked resistance from advocates of patient’s rights.
The judgement of what was good for the patient, according to many critics, was an exclusivity of the physician, who reduced the patient to a complete vulnerable and dependent state (Cascais 2006, p. 1011). Only the physician retained the scientific knowledge; therefore, only he decided, without any concern for the patient’s will or participation (Ligiera 2005, p. 410-427).
This conception of an inadequate old medicine when someone evokes Hippocrates is commonplace in contemporary Academy. In the New England Journal of Medicine (Kapp 1999, p. 821), one can read that:
Gone are the days of medical paternalism, when arrogant health care professionals misused their power to force particular treatments on dependent patients who blindly trusted them.
This excerpt, from one of the most important medical journals in the world, is given as common knowledge, without any original text to justify it, and is referred directly by other authors (Silva & Nunes 2015, p.475) as proof for what they say in other article, as shown in the following excerpt:
Authority and responsibility, once an exclusive domain of the physician in medicine, are now shared with the patient, who is given, as a mentally and emotionally capable individual, the freedom to choose from several options. The risks and benefits related to those options should be explained in advance.
What, perhaps, was something accepted in the Academy with some valid justification is now reproduced inside the Academy itself without none, except for the repetition of many precious opinions.
Even if the justification for this authoritarian image of traditional medicine was adequate, the reproduction of such conclusion without adequate sources can turn common knowledge into prejudice. We fear that such can be the case with the Hippocratic moral tradition in medicine.
Resuming all the accusations:
(1)  Traditional Hippocratic physicians took for themselves all the authority and responsibility over the patient, disregarding patient’s autonomy to choose;
(2)  Physicians were arrogant and imposed their treatments on their patients;
(3)  Patients blindly trusted their physicians.
Searching in the Hippocratic originals, we will see if we can consider valid each one of these accusations. 
If the answer is positive - the accusations are valid and, therefore, just -, academic literature concerning Hippocrates is mostly right, and, perhaps, the accusations of romantic idealization directed to some defenders of Hippocratic tradition is adequate.
If the answer is negative, and the original texts of Hippocrates and philosophers of his time could deny the accusations, we can assume that a great historic injustice has been committed against traditional Hippocratic medicine. 
In addition, to assume that traditional Hippocratic medicine is not textually and systematically authoritarian is not the same as assuming that no physician was authoritarian, and vice-versa.
Considering the word “paternalist”, I will prefer, instead, the use of “authoritarian”, for the previous word carries a strong emotional rejection and can arise many wrong prejudices that will only confuse the exposition, and risk an incorrect interpretation, disregarding the many subtleties of the concept, varying from a strong to an weak form. The word “paternalism”, probably since the publication of the “Authoritarian Personality” (Adorno et al. 1950), became something almost as terrible as Nazi or sexist, and it could rightly be interpreted as a Hateful Labeling, a traditional eristic stratagem, according to Schopenhauer (2003). To use authoritarian, we want to approach paternalism in the strongest sense possible, as we seen in many accusations nowadays. 

III. The answer of the Hippocratic corpus and other classic texts
Accusation (1): Traditional Hippocratic physicians took for themselves all the authority and responsibility over the patient, disregarding patient’s autonomy to choose.
Many excerpts from the Hippocratic tradition completely deny this accusation.
I. Life is short, the Art long, opportunity fleeting, experiment treacherous, and judgment difficult. The physician must be ready, not only to do his duty himself, but also to secure the co-operation of the patient, of the attendants and of externals (Hippocrates & Heracleitus 1931).[1]
The first aphorism explicitly shows that the physician must search for the co-operation of other people, including the patient and his family. The good was not a duty only for the physician. It was something that should be accomplished by everyone surrounding the patient, and the patient himself.
LXIX. Such is my advice to the great mass of mankind, who of necessity live a haphazard life without the chance of neglecting everything to concentrate on taking care of their health. (Hippocrates & Heracleitus 1931).[2]
This passage shows that the Hippocratic writings were primarily educational instruments. Some of the Hippocratic authors expected that their writings could reach many hands and educate the “great mass of humanity”. To share knowledge hardly is compatible with an authoritarian accumulation of responsibility and power. Neither is compatible the understanding that the patient should co-operate: “The physician is the servant of the art. The patient must co-operate with the physician in combating the disease” (Hippocrates 1923a).[3]
This excerpt from Epidemics Ialso emphasizes the importance that the patient has in the therapeutic act, sharing responsibility with the Hippocratic doctor:“Do not hesitate to inquire of laymen, if thereby there seems likely to result any improvement in treatment” (Hippocrates 1923a).[4]
In the work Precepts, teamwork is remembered in the following situation:
VIII. So much for such recommendations. For remission and aggravation of a disease require respectively less or more medical assistance. A physician does not violate etiquette even if, being in difficulties on occasion over a patient and in the dark through inexperience, he should urge the calling in of others, in order to learn by consultation the truth about the case, and in order that there may be fellow-workers to afford abundant help. For when a diseased condition is stubborn and the evil grows, in the perplexity of the moment most things go wrong (Hippocrates 1923a).[5]
This clear prescription of humility and teamwork for the physician do not resemble an authoritarian, all-knowing, professional. In fact, it shows only a physician truly devoted to the patient’s good, ready to call for help if needed, be such help from other physicians, from the patient, or from their families. A very “contemporary” demand on medicine, indeed.
The disposition to educate the patient is clearly demonstrated. Why teach someone if not to expect an active role of the patient in the therapeutic act?
IX. A wise man should consider that health is the greatest of human blessings, and learn how by his own thought to derive benefit in his illnesses. (Hippocrates & Heracleitus 1931).[6]
The physician was rightly acknowledged as an authority in healthcare matters. The wise man urged everyone to heed physicians’ counsels. In the following passage, Plato shows that choosing to whom one should listen is a common happening:
7. Socrates. Come then, what used we to say about this? If a man is an athlete and makes that his business, does he pay attention to every man’s praise and blame and opinion or to those of one man only who is a physician or a trainer?
Crito. To those of one man only (Plato 1914).[7]
To choose a physician is not an imposition. It appears to be the most reasonable thing to do. However, the possibility of acting in an irrational way is not excluded. It is the patient who chooses, it is him who invites the physician to enter his house, under the vow of silence.
soc. And whether their mentor be poor or rich will make no difference to the Athenians when they deliberate for the health of the citizens; all that they require of their counsellor is that he be a physician (Plato 1927).[8]
The excerpt above, from Alcibiades I, shows that the ruling citizens of the Poliscalled physicians to listen to their counsels. Again, the physician act as an invited counselor, as the one who shows the way to achieve better health. The possibility of denying what the physician counsels is present, thus, the initiative of the patient or collectivity is present somehow.

Accusation (2): Physicians were arrogant and imposed their treatments on their patients.
One image comes to mind when I read some commentaries from nowadays bioethicists: an imposing and almost violent doctor forcing bad tasting medicine down the throats of helpless patients. This is a strong image, but false, at least when we appeal to ancient descriptions of medical-patient relationships. 
Someone can argue that the selection of Hippocratic works only is not sufficient, and more testimonies are necessary. However, even when those descriptions come from other sources than the Hippocratic writings, the aspects that were observed in Hippocratic texts are still present. In the work of Plato we can read:
str. Suppose a physician who has right knowledge of his profession does not persuade, but forces, his patient, whether man, woman, or child, to do the better thing, though it be contrary to the written precepts, what will such violence be called? The last name in the world to call it would be “unscientific and baneful error,” as the phrase is, would it not? And the patient so forced might rightly say anything else rather than that he had been treated in a baneful or unscientific way by the physicians who used force upon him.
y. soc. Very true (Plato 1925b).[9]
It may be surprising for some to see the expression violence linked to the disrespectful act against patient’s autonomy at that ancient period, but it is described as such in the work The statesmanfrom Plato. To describe this act of imposing treatment as violence presupposes the choice of the therapy by the patient before it starts as a parameter, it presupposes patient’s agreement. 

Accusation (3): Patients blindly trusted their physicians.
Patients appear to have a very active role in the medical-patient relationship, deciding if they would allow or not the physician to do his work, and even sometimes, distrusting the physician and denying treatment, which is something very far from  a blind-trusting patient. In the famous dialogue Gorgias, Plato describes a physician requiring help to persuade a patient.
Gorg. Ah yes, if you knew all, Socrates,—how it comprises in itself practically all powers at once! And I will tell you a striking proof of this: many and many a time have I gone with my brother or other doctors to visit one of their patients, and found him unwilling either to take medicine or submit to the surgeon’s knife or cautery; and when the doctor failed to persuade him I succeeded, by no other art than that of rhetoric (Plato 1925a).[10]
This passage of Gorgias reveals that patients could deny their physicians prescriptions, and shows a physician very different from the imposing figure described sometimes. The physician appears to ask compliance from the patient, knowing that he is an invited person, and has only the authority that the patient gives to him.
XII. On entering bear in mind your manner of sitting, reserve, arrangement of dress, decisive utterance, brevity of speech, composure, bedside manners, care, replies to objections, calm self-control to meet the troubles that occur, rebuke of disturbance, readiness to do what has to be done. In addition to these things be careful of your first preparation. Failing this, make no further mistake in the matters wherefrom instructions are given for readiness (Hippocrates 1923b).[11]
In this Hippocratic text, the physician deals with the possibility of objection from the patient. Again, an image very different from the accusation of docile patients, blindly trusting in their doctors.

IV. Conclusions and Discussion
There are many other references to the relation between physicians and patients or laypeople present in the works of ancient Greece physicians and philosophers, but for now, we believe these samples can answer our main questions.
(1) Did the Hippocratic physicians of old were authoritarian? 
After revising many ancient texts close to the time of Hippocrates, one cannot affirm that physicians were authoritarian because they followed Hippocratic morality. Therefore, the contemporary references to the authoritarianism – or very strong paternalism - of Hippocratic medicine should be better analyzed, and the true historical root of the authority problem ought to be searched. This conclusion does not affirm that no physician of old was authoritarian. Even today, in times of patient autonomy rising over other principles of action, one may encounter an authoritarian physician who has nothing of Hippocratic per se
(2) If not, how they practiced medicine considering their patients, their families and their colleagues?
Considering these original texts - a small but representative sample -, one can conclude that Hippocratic physicians were generally used to: (a) expect some collaboration from the patients and their families; (b) divide responsibility with other physicians and even layman, according to the situation; (c) try to convince their patients of the adequate treatment; (d) educate layman using written texts and, probably, oral learning; and (e) depend on their patients consent.
This historic frame differs much from the authoritarian figure evoked by many contemporary bioethicists and researches. Although the majority of the Academy appears to disavow traditional Hippocratic ethics, some researchers judge better the essential aspects of this tradition, and reach more equilibrated conclusions.
The great humanist physician, Pedro Laín Entralgo, for example, recognizes in his classic work “La Medicina Hipocrática” that the objectives of the Hippocratic physician included education of the patient, among many others.
As an expert in medicine and in the knowledge of human nature, the Hippocratic physician feels himself obligated to teach the profane. Primarily, to allow that this one, enlightened by the physician, could live in a more salutary way when healthy and could better help the physician when diseased.
 Second, because the physician’s experience could be greater and deeper if his patients received certain information about diseases and their treatments. 
Finally, because the formation of the learned man, thepaideia, demands the learning from those who truly knew, and the physician is, among all, the most qualified knower of the man’s physiology. The Hippocratic writer wants to intervene in the education of his people, especially of those citizens who, because of their social status in the polis, had the duty to possess culture” (Lain-Entralgo 1970).[12]
Actual researches, like Fabrice Joterrand, also examine the Hippocratic tradition with less prejudice, concluding that the Hippocratic Oath, for example, is a particularistic vision of the universal aspects of medical morality, and that can be used, even today, with some caution (Joterrand 2005).
Beier and Ianotti conclude, in a much adequate way, after analyzing many Hippocratic writings, that:
The Hippocratism is considered, not a few times, strongly paternalist, in the medical-patient relationship. However, after the close study of many passages in some Hippocratic works, one must admit the possibility that such paternalism was not strong, but moderate” (Beier & Ianotti 2010).[13]
It may be that the modern physician’s authoritarian character perceived by many patients, scholars and even physicians themselves is a product of Illuminist ideology, with its mechanicism and naturalism, in which the physician assumes the cold and powerful role of a technocrat. However, this hypothesis is to be discussed in another opportunity.
Concluding, the Hippocratic medical tradition cannot be termed as authoritarian – or strongly paternalist -, as many scholars affirm today. The Bioethics discourse may be influenced by some ideological biasin its judgement of past moral traditions, and Academy must review the way it refers to Hippocratic tradition if it wants to remain true to history and written legacies from the past. We should at least acknowledge the complexity and richness of the Hippocratic tradition and its developments in western civilization, avoiding simple generalizations that can undermine our capacity to understand our cultural roots. 
In a remarkable conference at the UNESCO International Symposium “Forms and Dynamics of Exclusion”, in Paris, 1997, the Brazilian philosopher Olavo de Carvalho remembered us that:
To reengage the dialogue with the past is to reconquer de sense of human unity. To try to reintegrate into humankind this or that group that remains today among the excluded and discriminated without revoking before the discrimination against all humanity that preceded us would be an insanity (Carvalho 1997).[14]
If we do not understand our past and find the universal connections that link human experiences along the centuries, we would hardly be prepared to face our present and our future.

Bibliography
Adorno T. W., Frenkel-Brunswik E., Levinson D. J., Sanford R. N. 1950. The authoritarian personality. New York: Harper and Row.
Beauchamp T. L., Childress J. F. 2013.Principles of Biomedical Ethics, Seventh Edition. New York, Oxford: Oxford University Press.
Beier M., Ianotti G. C. 2010. Paternalism and the hippocratic oath. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil 10(Supl. 2): S383-S389.
Carvalho O. 1997. O Futuro do Pensamento Brasileiro: Estudos sobre o nosso lugar no mundo, 2a. edição. Rio de Janeiro: Faculdade da Cidade Editora. 
Cascais A. F. 2006. A experimentação humana e a crise da auto regulação da biomedicina. Análise SocialXLI(181): 1011-1031.
Kapp M. B. 1999. The Practice of Autonomy: patients, doctors, and medical decisions [book review]. New England Journal of Medicine340(10): 821-822.
Hippocrates. 1923a. Ancient Medicine. Airs, Waters, Places. Epidemics 1 and 3. The Oath. Precepts. Nutriment.  Loeb Classical Library 147. Cambridge, MA: Harvard University Press.
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Joterrand F. 2005.The Hippocratic Oath and Contemporary Medicine: Dialectic Between Past Ideals and Present Reality? Journal of Medicine and Philosophy30:107–128.
Lain-Entralgo P. 1970. La Medicina HipocráticaMadrid: Ediciones de la Revista del Occidente.
Ligiera W. R. 2005. Os princípios da bioética e os limites da atuação medica. Revista Ibero-Americana de Direito Público20: 410-427.
Schopenhauer A. 2003. Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão. Rio de Janeiro: Topbooks.
Siqueira J. E. 2005. Doente terminal. Cadernos de Bioética do CREMESP1.
Silva F. M., Nunes R. 2015. Caso belga de eutanásia em crianças: solução ou problema? Revista Bioética23(3): 475-484.

Hélio Angotti Neto is a Medical Doctor graduated at the Federal University of Espírito Santo, and has a Medical Residency in Ophthalmology and a PhD in Sciences from the Faculty of Medicine of the University of São Paulo. He acts as Professor and Coordinator of the Medicine Course of the University Center of Espírito Santo. He is President of the Chapter of History of Medicine of the Brazilian Society of Clinical Medicine (Triennium 2017-2020), member of the Brazilian Council of Ophthalmology and Delegate of the Regional Council of Medicine in the city of Colatina, at Espírito Santo, Brazil (2018-2023). He was a Global Scholar of the Center for Bioethics and Human Dignity of Trinity International University in 2016 (Illinois, USA) and is the Editorial Director of Mirabilia Medicinae, a publication in Medical Humanities hosted by the Institut d'Estudis Medievals of the Autonomous University of Barcelona. He published several books: The Death of Medicine; The Tradition of Medicine; Dysbioethics Volume 1: Reflections on a strange ethics; Dysbioethics Volume 2: New Reflections on a Strange Ethics; Dysbioethics Volume 3: The Extermination of Tomorrow; Medical Art: From Hippocrates to Christ; besides several chapters of books and articles in Ophthalmology, Bioethics, Politics and Medical Humanities. Creator and Coordinator of the Seminar of Philosophy Applied on Medicine. He is Presbyter of the 3rd Presbyterian Church of Colatina. Married to Joan and father to Arthur, Hector and Andrew.

[1]I. Ὁβίοςβραχύςἡδὲτέχνημακρήὁδὲ καιρὸςὀξύςἡδὲπεῖρασφαλερήἡδὲκρίσιςχαλεπήδεῖδὲοὐμόνονἑωυτὸνπαρέχειντὰδέονταποιέονταἀλλὰκαὶτὸννοσέοντα καὶτοὺςπαρεόνταςκαὶτὰἔξωθεν. Hippocrates, Heracleitus. Nature of Man. Regimen in Health. Humours. Aphorisms. Regimen 1-3. Dreams. Heracleitus: On the Universe. Translated by W. H. S. Jones. Loeb Classical Library 150. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1931, p. 98-99.
[2]LXIX. Ταῦταμὲνπαραινέωτῷπλήθειτῶνἀνθρώπωνὁκόσοισινἐξἀνάγκηςεἰκῆτὸνβίονδιατελεῖνἐστίμηδ᾿ὑπάρχειαὐτοῖσιτῶνἄλλωνἀμελήσασιτῆςὑγιείηςἐπιμελεῖσθαι·Hippocrates, Heracleitus. Nature of Man. Regimen in Health. Humours. Aphorisms. Regimen 1-3. Dreams. Heracleitus: On the Universe. Translated by W. H. S. Jones. Loeb Classical Library 150. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1931, p. 366-367.
[3]ἡτέχνηδιὰτριῶντὸνόσημακαὶὁνοσέωνκαὶὁἰητρός·ὁἰητρὸςὑπηρέτηςτῆςτέχνης·ὑπεναντιοῦσθαιτῷνοσήματιτὸννοσέοντα μετὰτοῦἰητροῦ.Hippocrates. Ancient Medicine. Airs, Waters, Places. Epidemics 1 and 3. The Oath. Precepts. Nutriment. Translated by W. H. S. Jones. Loeb Classical Library 147. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1923, p. 146-147.
[4]μὴὀκνεῖνδὲπαρὰ ἰδιωτέωνἱστορεῖνἤντιδοκῇσυνοίσεινἐςκαιρὸνθεραπείης.Hippocrates. Ancient Medicine. Airs, Waters, Places. Epidemics 1 and 3. The Oath. Precepts. Nutriment. Translated by W. H. S. Jones. Loeb Classical Library 147. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1923, p. 312-313.
[5]VIII. Περὶσημασίηςτοιαύτηςἅλιςἔστω·ἄνεσιςγὰρκαὶἐπίτασιςνοσέοντοςἐπινέμησινἰητρικὴνκέχρηνταιοὐκἀσχήμων δέοὐδ᾿ἤντιςἰητρὸςστενοχωρέωντῷπαρεόντι ἐπίτινινοσέοντικαὶἐπισκοτεόμενοςτῇἀπειρίῃκελεύῃκαὶἑτέρουςἐσάγεινεἵνεκατοῦἐκκοινολογίηςἱστορῆσαιτὰπερὶτὸννοσέοντακαὶσυνεργοὺςγενέσθαιἐςεὐπορίηνβοηθήσιοςἐνγὰρκακοπαθείηςπαρεδρίῃἐπιτείνοντοςτοῦπάθεοςδι᾿10ἀπορίηντὰπλεῖσταἐκκλίνουσιτῷπαρέοντι. Hippocrates. Ancient Medicine. Airs, Waters, Places. Epidemics 1 and 3. The Oath. Precepts. Nutriment. Translated by W. H. S. Jones. Loeb Classical Library 147. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1923, p. 312-313.
[6]IX. Ἄνδραδὲ χρήὅς ἐστισυνετόςλογισάμενονὅτιτοῖσινἀνθρώποισιπλείστουἄξιόνἐστινὑγιείηἐπίστασθαιἐκ τῆςἑωυτοῦγνώμηςἐντῇσινούσοισινὠφελεῖσθαι. Hippocrates, Heracleitus. Nature of Man. Regimen in Health. Humours. Aphorisms. Regimen 1-3. Dreams. Heracleitus: On the Universe. Translated by W. H. S. Jones. Loeb Classical Library 150. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1931, p. 58-59.
[7]7. ΣΩΚΡΑΤΗΣΦέρεδήπῶςαὖτὰτοιαῦτα Bἐλέγετογυμναζόμενοςἀνὴρκαὶτοῦτοπράττωνπότερονπαντὸςἀνδρὸςἐπαίνῳκαὶψόγῳκαὶδόξῃτὸννοῦνπροσέχειἢἑνὸςμόνουἐκείνουὃςἄντυγχάνῃἰατρὸςἢπαιδοτρίβηςὤν;
ΚΡΙΤΩΝἙνὸςμόνου.
Plato. Euthyphro. Apology. Crito. Phaedo. Phaedrus. Translated by Harold North Fowler. Loeb Classical Library 36. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1914, p. 162-165.
[8]ΣΩἈλλ᾿ἐάντεπένηςἐάντεπλούσιοςᾖὁπαραινῶνοὐδὲνδιοίσειἈθηναίοιςὅτανπερὶτῶν ἐντῇπόλειβουλεύωνταιπῶςἂνὑγιαίνοιενἀλλὰζητοῦσινἰατρὸνεἶναιτὸνσύμβουλον.Plato. Charmides. Alcibiades I and II. Hipparchus. The Lovers. Theages. Minos. Epinomis. Translated by W. R. M. Lamb. Loeb Classical Library 201. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1927, p. 110-111.
[9]ΞΕἌντιςἄραμὴπείθωντὸνἰατρευόμενονἔχωνδὲὀρθῶςτὴντέχνηνπαρὰτὰγεγραμμένατὸβέλτιονἀναγκάζῃδρᾶνπαῖδαἤτιναἄνδραἢκαὶγυναῖκατίτοὔνοματῆςβίαςἔσταιταύτηςἆρ᾿οὐπᾶνμᾶλλονἢτὸπαρὰτὴντέχνηνλεγόμενονἁμάρτημαCτὸνοσῶδεςκαὶπάνταὀρθῶςεἰπεῖνἔστιπρότεροντῷβιασθέντιπερὶτὸτοιοῦτονπλὴνὅτινοσώδηκαὶἄτεχναπέπονθενὑπὸτῶνβιασαμένωνἰατρῶν;
ΝΕΣΩἈληθέσταταλέγεις.
Plato. Statesman. Philebus. Ion. Translated by Harold North Fowler, W. R. M. Lamb. Loeb Classical Library 164. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1925, p. 140-141.
[10]ΓΟΡΓΕἰπάνταγεεἰδείηςΣώκρατεςὅτιὡςἔποςεἰπεῖνἁπάσαςτὰςδυνάμειςσυλλαβοῦσαὑφ᾿ Bαὑτῇἔχειμέγαδέσοιτεκμήριονἐρῶ·πολλάκιςγὰρἤδηἔγωγεμετὰτοῦἀδελφοῦκαὶμετὰτῶνἄλλωνἰατρῶνεἰσελθὼνπαράτινατῶνκαμνόντωνοὐχὶἐθέλονταφάρμακονπιεῖντεμεῖνκαῦσαιπαρασχεῖντῷἰατρῷοὐδυναμένουτοῦἰατροῦπεῖσαιἐγὼἔπεισαοὐκἄλλῃτέχνῃτῇῥητορικῇ. Plato. Lysis. Symposium. Gorgias. Translated by W. R. M. Lamb. Loeb Classical Library 166. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1925, p. 290-291.
[11]XII. Ἐνδὲτῇἐσόδῳμεμνῆσθαικαὶκαθέδρηςκαὶκαταστολῆςπεριστολῆςἀνακυριώσιοςβραχυλογίηςἀταρακτοποιησίηςπροσεδρίηςἐπιμελείηςἀντιλέξιοςπρὸςτὰἀπαντώμεναπρὸςτοὺςὄχλουςτοὺςἐπιγινομένουςεὐσταθείηςτῆςἐνἑωυτῷπρὸςτοὺςθορύβουςἐπιπλήξιοςπρὸςτὰςὑπουργίαςἑτοιμασίηςἐπὶτούτοισιμέμνησοπαρασκευῆςτῆςπρώτης·εἰδὲμήτὰκατ᾿ἄλλαἀδιάπτωτονἐξὧνπαραγγέλλεταιἐς ἑτοιμασίην.Hippocrates. Prognostic. Regimen in Acute Diseases. The Sacred Disease. The Art. Breaths. Law. Decorum. Physician (Ch. 1). Dentition. Translated by W. H. S. Jones. Loeb Classical Library 148. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1923, p. 294-295.
[12]Como experto en medicina y en el conocimiento de la naturaliza humana, el médico hipocrático se siente en el deber de enseñar al profano (idiotes, dèmótés). Ante todo, para que éste, así ilustrado, viva de un modo más salubre cuando está sano y colabore mejor con el médico cuando llegue a enfermar.
En segundo lugar, porque la experiência del médico podrá ser más amplia y profunda si sus pacientes han recibido cierta información acerca de las enfermedades y su tratamiento.
Y por fin, porque la formación del hombre culto, la paideia, exige aprender de los que real y verdaderamente saben, y el médico es, entre todos ellos, el más calificado conocedor de la physiología del hombre. El tratadista hipocrático quiere intervenir en la educación de su pueblo, y muy especialmente en la de los ciudadanos que por su situación social en la polis tienen el deber de la cultura.
Lain-Entralgo, P. La Medicina Hipocrática. Madrid, Sp: Ediciones de la Revista del Occidente, 1970, p. 367.
[13]Não poucas vezes, considera-se que o hipocratismo se assenta sobre um paternalismo forte na relação médico-paciente. Entretanto, o estudo atento de passagens diversas em alguns dos livros do CH, levam a possibilidade de se admitir que esse paternalismo não era forte, mas moderado. Beier M; Ianotti GC. Paternalism and the hippocratic oath. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, Recife, 10 (Supl. 2): S383-S389 dez, 2010.
[14]Reencontrar o diálogo com o passado é reconquistar o sentido da unidade da espécie humana, e seria loucura pretender reintegrar na humanidade este ou aquele grupo que estejam hoje entre os excluídos e os discriminados, sem antes revogar a discriminação de toda a humanidade que nos precedeu. “Les plus exclus des exclus: Le Silence des morts comme modèle des vivants defendus de parler”, Conferece at the UNESCO International Symposium “Forms and Dynamics of Exclusion, Paris, June 22-26, 1997. In: Olavo de Carvalho, O Futuro do Pensamento Brasileiro: Estudos sobre o nosso lugar no mundo, 2a. edição, Rio de Janeiro, Faculdade da Cidade Editora, 1997, pp. 82-111. Internethttp://www.olavodecarvalho.org/textos/mais_excluidos.htm#nota1