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terça-feira, 1 de maio de 2018

Crítica e Autocrítica da Classe Médica

CRÍTICA E AUTOCRÍTICA DA CLASSE MÉDICA


Todos sabem que sou ferrenho crítico das tentativas de legalização do aborto no Brasil, assim como sou diretamente e explicitamente contrário à instrumentalização das tentativas de humanização em saúde pela ideologia política mais rasteira e oportunista.
Acredito que nosso dever é criticar, com certeza, e deixar nossa posição bem clara, cobrando uma posição adequada do próximo.
Critiquei e ainda critico abertamente a gestão anterior do Conselho Federal de Medicina pelo posicionamento tomado a favor da legalização do aborto até a décima segunda semana e a favor de estranhos dispositivos de eutanásia infantil ao estilo do Protocolo Groningen.[1]
Estamos agora cada vez mais pertos de uma audiência pública sobre a legalização do aborto proposta pelo PSOL e pela ANIS – Instituto de Bioética.[2]Ainda tenho a esperança, talvez ingênua, de que nosso Conselho mude a trajetória que nossa representação vinha demonstrando. Vamos aguardar os fatos para concluir melhor.
Como já afirmei em outros lugares, o Conselho Federal de Medicina representa a classe médica frente ao governo e é responsável pela fiscalização da profissão. Contudo, questiono quem eles representam de fato quando defendem o aborto – ou a escolha da mulher, de acordo com o viés ideológico e o jogo de palavras adotado. Não é o povo brasileiro, que em sua maioria é claramente pró-vida; ou pelo menos ainda é pró-vida enquanto os frutos da intensa engenharia social imposta por certas elites não venham à luz do dia. Também não é a classe médica como um todo que representam, pois a maioria dos médicos ainda é contra o aborto, assim como a maioria dos obstetras ainda realiza objeção de consciência.
Vou aguardar a audiência pública e torcer para estar errado. Torcer para que a nossa geração de médicos não seja justamente aquela que jogará a herança hipocrática e cristã que sustenta nossa civilização no lixo, e pague o preço por tamanha falta de responsabilidade.
Contudo, parto agora para um outro tema em paralelo.
Quando fiz críticas ao Conselho Federal de Medicina, muitos colegas também se enfureceram com a falta de posicionamento em favor da vida humana. Posicionamento este que deve ser embasado nas evidências que existem, sem conflitos de interesse das organizações abortistas, e em uma moralidade compatível com a tradição e o propósito de nossa profissão. Porém, outros levantaram pontos que julgo merecerem melhor análise.
Muitos outros colegas lançaram diversas acusações contra o gasto dos conselheiros em diárias, que é bem alto, de fato, e nunca foi escondido de ninguém. O que poucos param para refletir é que os conselheiros de regra são colegas já bem estabelecidos, que poderiam ganhar muito mais em suas práticas privadas e que abandonam consultórios e famílias para viajar Brasil afora debatendo temas éticos e promovendo educação continuada – eu mesmo já recebi um representante do Conselho Federal de Medicina no interior do Espírito Santo e participei de diversas atividades promovidas pelo meu conselho regional também no interior. Poucos param para refletir o desgaste sofrido por eles e o quanto abrem mão de ganhar com a medicina. 
Posso ser um crítico feroz de alguns posicionamentos, mas para ser justo, preciso reconhecer o sacrifício e a dedicação de nossos colegas que participam da atividade ética da carreira médica. 
Chego ao ponto específico dessa observação: a necessidade de quem critica em fazer algo além da mera crítica negativa e destrutiva, a necessidade de fugir dos velhos moldes da crítica social frankfurtiana (feita pela New Lefte pelos membros da antiga Escola de Frankfurt) que apela para o desmonte cultural sem ser propositiva de fato.[3]
Muitos reclamam sobre os posicionamentos passados do Conselho Federal de Medicina a favor do aborto e a atual indefinição da gestão presente. Mas o que fazem a respeito? 
Eu já dedico mais de quinze anos de minha vida ao estudo das questões éticas e da filosofia da medicina para tecer algo mais construtivo e mudar, nem que seja um pouco, a cultura ao meu redor. Já sei de dois colegas que se inscreveram para participar da Audiência Pública contra a proposta de legalizar o aborto até a 12ª semana, abrindo mão da convivência familiar e da renda de seus consultórios por alguns dias preciosos para ir a Brasília. Vocês ouvirão em breve o nome deles e das instituições que chancelaram sua participação. Sei também de diversos outros espalhados pelo Brasil que se aprofundam nos estudos humanísticos da medicina, pessoas bem-sucedidas e satisfeitas com sua carreira que se sentiram obrigados a aprofundar em conhecimentos mais amplos. Os nomes deles também surgirão com o devido tempo, é inevitável.
Muitos reclamam das atividades dos Conselhos, mas nunca participaram de uma destas atividades sequer! Fui convidado a participar como Delegado de meu Conselho Regional, um serviço voluntário, e lá vou eu ajudar no que for possível. 
Muitos reclamam da educação médica e de como o Conselho Federal de Medicina deveria se posicionar melhor. Só posso dizer que fui além. Estudei sobre Educação Médica, tornei-me professor e até fui convidado a ser Coordenador de Curso, e agora participo há dois anos como avaliador do Sistema de Avaliação das Escolas Médicas (SAEME), promovido e viabilizado pelo CFM e pela Associação Brasileira de Educação Médica.
Muitos reclamam das escolas médicas que abrem em cascata, uma após a outra. Julgam que não há critério no processo de abertura. Concordo com as críticas em grande parte. Mas fiz o que julguei ser o mais correto. Inscrevi-me como avaliador do Ministério da Educação e Cultura e fui aprovado como avaliador para abertura de novos cursos (deve sair em breve no Diário Oficial da União se tudo der certo). Estudei os critérios de avaliação de curso e vou fazer o melhor para ser justo em busca de real qualidade.
Muitos reclamam da ideologização das cadeiras médicas ligadas às ciências sociais. Concordo também com a crítica de aparelhamento ideológico completamente inadequado e até mesmo danoso para os propósitos da Medicina. Criei o Seminário de Filosofa Aplicada à Medicina, promovendo pesquisa e atividades de extensão junto aos alunos, oferecendo uma possibilidade diferente de visualizar a importância das Humanidades Médicas em sua vida profissional.
E você, colega médico, o que você faz?
Quantas horas de seu consultório e do convívio familiar você cedeu para dedicar-se de fato, de corpo e alma, ao trabalho de honrar sua profissão e melhorar o que você percebe que está errado? Qual o preço que você pagou e ainda paga?
Alguns podem dizer que não são professores, que nada podem fazer para mudar o panorama educacional. Mas poderiam muito bem receber alunos em suas práticas como estagiários voluntários e ensinar pelo exemplo, que pressuponho ser muito bom. Até hoje lembro-me com carinho dos mestres informais que tive, dos plantões que acompanhei fora da escola em busca de aumentar meu aprendizado.
Você reclama da educação médica, mas já participou de quantos eventos dedicados ao assunto? 
É preciso realmente sair da inércia, do pessimismo suicida que se tranca num pequeno paraíso de segurança provisória enquanto o mundo lá fora cai em chamas. Acredito que os médicos perceberam claramente que os bárbaros chegaram e que estão rompendo as muralhas, mas ainda não entenderam que não vai haver batalha se não houver quem lute. Ainda não entenderam que não se deve lutar para criticar ou atacar algo, tampouco alguém, mas para defender algo valioso que se encontra atrás de nós, protegido e sustentado por nossos ombros.
Discorda ou concorda? Independente da sua reposta, mãos à obra.


[3]Sobre a New Left, recomendo a obra: SCRUTON, Roger. Pensadores da Nova Esquerda. Coleção Abertura Cultural. São Paulo: É Realizações, 2014; SCRUTON, Roger. Fools, Frauds and Firebrands. Thinkers of the New Left. London: Bloomsbury, 2015.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

A ARTE MÉDICA - LANÇAMENTO

Prefácio do Livro ARTE MÉDICA


Refletir sobre o comportamento social, a vida em comunidade e as relações humanas nos leva por necessidade a lidar com conceitos como moral e ética. Tão semelhantes à primeira vista, são na verdade de todo distintos quando colocados à luz da filosofia.

Ética é palavra originária do grego ethos. Sua etimologia significa refúgio, morada, habitat. Segundo os filósofos, refere-se à índole, ao caráter; são os valores mais nobres conquistados com o aprendizado, adquiridos com a sabedoria.

A ética se porta muitas vezes como questionadora da moral, da justeza de regras impostas. A reflexão ética é essencial nesse campo, pois a moral nada mais é que o conjunto de costumes, regras, tabus e convenções estabelecidos pelas sociedades, passível de caducar de tempos em tempos.

Ao longo da história, por incompreensão das diferenças e também das similaridades entre esses dois conceitos, estabeleceu-se um abismo entre a ciência e a religiosidade. Construiu-se a falsa ideia de incompatibilidade, quando são complementares.

Hoje, mais que nunca, ética e moral devem caminhar juntas quando se menciona o humanismo na medicina: é mister valorizar a totalidade do indivíduo e não especificamente a doença que o acomete.

Cada vez mais se faz essencial enxergar o ser humano de maneira holística e integrada, e considerar o paciente em seu papel na sociedade, dificuldades, crenças, medos e fraquezas, tão fundamentais para a compreensão do processo do adoecimento.

Parece que, aos poucos, os profissionais de medicina e pacientes estão repensando esses conceitos. Constatam que nada substitui o tratamento humanizado, nada é mais importante que o médico que tem nome e rosto e que conhece o nome e o rosto do paciente.

É tempo de recuperar nossas raízes sem, é claro, abrir mão de toda a modernidade a que temos direito. O resgate da humanização deve pautar sempre a prática da medicina, com o principal objetivo de oferecer assistência digna e de qualidade à população.

Nunca em nossa literatura houve uma obra que ousasse tratar com profundidade do tema e mostrar os vieses e intersecções entre a medicina e a religião. Dr. Hélio Angotti Neto, conhecedor profundo do assunto, traz à luz a discussão de maneira didática e fundamentada, utilizando-se de um linguajar acessível a todos os públicos.

O livro que ora se apresenta deveria ser obra de cabeceira de médicos, professores, estudantes de medicina, e de todos os que lidam com seres humanos, para que possam refletir sobre o papel da tecnologia em sua vida e, em sentido fundamental, a respeito da importância da postura humanizada na prática diária da medicina nos princípios da religiosidade, ética e moral.

Parabéns ao dr. Hélio Angotti Neto pela grande contribuição que traz à medicina em um momento histórico tão peculiar, quando se luta para resgatar valores.

— Dr. Antônio Carlos Lopes
Diretor da Sociedade Brasileira de Clínica Médica

domingo, 12 de novembro de 2017

A Medicina da Pessoa, de Danilo Perestrello

A MEDICINA DA PESSOA



Danilo Perestrello foi professor do Setor de Psicossomática da 1ª Cátedra de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil. Desenvolveu, desde 1958, na 1ª Disciplina de Clínica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, um trabalho que focalizou a atenção do médico novamente na pessoa de seu paciente, e não predominantemente em sua doença.


Sua obra, Medicina da Pessoa, é um testemunho de sua busca constante pela humanização da saúde e pela educação de um médico capaz de agir de forma integral.

Perestrello, um dos grandes precursores de todos os estudiosos de Humanidades Médicas no Brasil, alerta para a necessidade de se abrir a entrevista clínica, centrando a anamnese na pessoa e não na doença, como se faz ao fechar muito a entrevista ao redor de um sinal ou sintoma guia somente.

Que não seja ele mal interpretado, pois reforça claramente em sua obra que não se pode abrir mão dos avanços científicos e técnicos da medicina, assim como de uma anamnese bem dirigida no momento certo, sob o risco de transformar-se o médico num xamã. Contudo, afirma que o elemento humanístico deve ser reforçado, e o médico deve aprimorar em si a percepção e a capacidade de lidar com os elementos da medicina que a transformam em verdadeira arte: a indeterminação e sua perspectiva profundamente humana.

Uma anamnese aberta tem a grande vantagem de permitir ao médico a apreensão de uma possível somatização, manifestação orgânica de um evento psíquico e cultural. O médico, neste ponto em especial, realiza um verdadeiro papel psicanalítico, promovendo a catarse do paciente e transformando-se em terapia viva ao promover a cura por meio da palavra.

No encontro com o paciente, Perestrello enfatiza a escuta ativa e o amor (caridade)  que gerarão a simpatia (compaixão), sempre mantendo uma voz e uma postura serenas, transmitindo confiança e tranquilidade ao paciente.

Ao término do livro, Perestrello trata de seus esforços pedagógicos. Afirma que o professor precisa de experiência clínica, habilidades didáticas e profunda experiência da alma humana. Aconselha ao acadêmico uma vivência pessoal ao lado do paciente e dos mestres, que proverá a base para a correta absorção de livros e textos.

Os elementos de uma História da Pessoa, segundo Danilo Perestrello, são:

1 – Biografia resumida, como vivida pelo paciente.

Condições de nascimento, adolescência, desenvolvimento psicossexual, trabalho e relações profissionais, casamento e relações familiares, hábitos, crenças e ambientes sociais.

2 – Circunstâncias da vida nas quais sobreveio a enfermidade atual e condições nas quais sobrevieram enfermidades anteriores.

3 – Maneira como o paciente se relaciona com o médico atual e com médicos anteriores.


Tal enfoque profundamente pessoal permite, segundo o autor, uma visão do paciente como pessoa, e não somente como portador de uma doença.

Danilo Perestrello permanece como uma das referências de grande importância para a compreensão humanística e complexa da realidade do paciente e, em sua obra, conduz o leitor a uma perspectiva pouca visitada nos cursos de medicina de forma geral, ainda hoje. Sua obra, A Medicina da Pessoa, ainda é referência obrigatória nas Humanidades Médicas, e resgata uma longa tradição clínica que quase se perdeu no ocidente com o otimismo cientificista da era moderna.  

Hélio Angotti Neto, 12 de novembro de 2017. Coaltina - ES.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

ENTREVISTA: O que é formar um médico integralmente?

O QUE É FORMAR UM MÉDICO INTEGRALMENTE?

ENTREVISTA CEDIDA AO NÚCLEO ACADÊMICO DO SINDICATO DOS MÉDICOS DO RIO GRANDE DO SUL

 

Entrevistador: O senhor defende que os médicos precisam buscar uma formação humanista, além da técnica e científica. O que exatamente o senhor deseja propor com esta abordagem?

A reconquista dos instrumentos intelectuais e para a formação do caráter que foram abandonados pela concepção pedagógica presente. O médico precisa do aporte científico e dos instrumentos de aprendizagem ativa e medicina baseada em evidências para atualizar-se, mas precisa também da formação humanística antiga que o capacitará a agir em sociedade, compreender a realidade e pensar de forma aguçada e verdadeiramente crítica. Não há atalhos neste quesito, formação humanística não é bom mocismo, é captar e integrar em seu ser o conhecimento acumulado de mais de dois mil anos de história e pensamento.

Entrevistador: Por que é importante integrar o lado humanista na formação do médico?

Por que a ciência não esgota e jamais esgotará o ser humano. Cada paciente é uma vida única e oferece um desafio inédito. Há coisas em nossas práticas que são gerais, porém, sem a riqueza moral e intelectual adequadas, falharemos em aplicar os conhecimentos científicos à realidade concreta ou em obter sucesso no tratamento. Do que adianta passar o tratamento certo se o paciente não confia em você? De que adianta saber medicina baseada em evidências se te falta o conhecimento literário e hermenêutico de interpretação dialética dos textos para enxergar nas entrelinhas o que não está escrito? O médico que reduz seu conhecimento à medicina compreendida como empreendimento científico somente também negligencia seu papel de agente de influência na sociedade, e serve cegamente a interesses alheios que muitas vezes priorizam qualquer outra coisa, menos a saúde do paciente.

Entrevistador: O senhor fala em médico integral? O que é este conceito?

É o médico que une o melhor da ciência, da técnica, da virtude e das humanidades. É um profissional que seja capaz de realizar um procedimento de qualidade, com a indicação adequada, na hora certa e com o estabelecimento de uma relação médico-paciente sólida sustentada na confiança do paciente e na honra e excelência do médico.

Entrevistador: Por que é preciso pensar a Medicina em um contexto maior do que normalmente se pensa nas escolas?

Por que lidar com o ser humano é uma das tarefas mais complexas que se pode executar. Lidar com a vida, a morte, a doença e a saúde são atividades que abrangem os cumes e os vales mais sombrios da experiência humana. Lidamos dia a dia com os anseios mais profundos e os maiores tormentos da humanidade e perdemos a capacidade de formar pessoas integralmente. Se não há formação de caráter e formação cultural adequadas, teremos médicos superficiais e desarticulados, incapazes de lidar com as complexas situações de seus pacientes e incapazes de agir eficazmente em sociedade para promover a tão desejada saúde integral, utopia muito mencionada, porém pouco pensada de fato.

Uma das coisas que mais me preocupa em termos de educação médica em humanidades é a vulgarização do termo e a utilização dessa busca por uma formação integral para inserir nos currículos a mais vulgar manipulação ideológica, censurando o legado cultural verdadeiro de nossa civilização e oferecendo as mais vis e baixas formulações pseudointelectuais no lugar do conteúdo de verdade. Felizmente, os alunos de medicina costumam ser inteligentes demais para cair nessa cilada. O problema é que muitos acreditam que humanidades se resumem à vulgaridade ideológica e se concentram somente no aspecto científico da medicina, suprimindo a possibilidade de buscar uma verdadeira formação humanística. Mesmo que discordem, engolem a mentira que foi contada e acreditam que as humanidades nada mais são do que loucura e enganação. 

Entrevistador: Qual é o papel do médico na sociedade?

O médico é o guardião da saúde humana e da vida de seu paciente. É o ombro amigo que consola quem está prestes a partir e aqueles que estão prestes a perder um parente amado e que ficarão para trás, enlutados. O médico é aquele que observa a sociedade com olhos atentos e mente penetrante, apto a diagnosticar problemas individuais e coletivos e propor uma terapia ao contemplar o prognóstico. O médico é aquele compromissado com a beneficência de seu paciente mediante o uso da prudência, da inteligência e de todas as suas virtudes. O médico é aquele que busca a excelência em sua arte em prol de seu paciente. Nosso papel é o de guardião dos mais frágeis entre nós, é responder ao pedido de socorro.

Entrevistador: Como o senhor vê as políticas públicas para a saúde?

Muito boas no papel, péssimas na prática. Leis e dinheiro não mudam uma população, o bandido sempre encontra a ocasião. Precisamos de mudanças na cultura, no caráter e na inteligência. O Brasil está entre os países mais violentos, mais corruptos e mais burros do mundo! Esses são problemas de "saúde" gravíssimos, e precisamos realmente repensar nosso pais. Como um país desse tamanho e com essa riqueza, repleto de gente trabalhadora e esforçada, pode estar entre os últimos colocados nos testes de conhecimento a nível internacional? Como um país de gente que era tão pacífica pode ter se transformado em um campeão de assassinatos? Creio que políticas públicas são necessárias e, em geral, são bem formuladas. Mas não temos uma elite com o caráter e a vontade para realmente fazer acontecer um Brasil de verdade. Temos espoliadores que buscam nutrir-se do sistema mesmo que para isto tenham que destruir seu hospedeiro.

Entrevistador: O senhor vê um movimento para diminuir o prestígio da categoria médica?

Médicos bons e médicos ruins sempre existiram, desde os tempos hipocráticos, ao longo da Idade Média e ainda hoje. Mas é a primeira vez que se observa um governo sistematicamente infiltrar-se em conselhos profissionais, montar propagandas claramente ofensivas contra toda uma classe profissional e utilizar o discurso de guerra de classes e ódio para a premeditada destruição daquilo que consideram uma elite concorrente. O fato de que tudo tenha vindo à tona no momento em que médicos ao lado de muitos outros profissionais da saúde foram às ruas em 2013 para reclamar melhores condições é extremamente sugestivo. Na política há pouco espaço para o acaso. Assistimos à votação do Ato Médico, na qual médicos foram acusados de criar a doença para enriquecer, observamos as propagandas acusando médicos de racistas com a falsa interpretação de dados do SUS e até mesmo uma presidente agindo de forma leviana ao acusar a classe médica de tratar mal os pacientes brasileiros. Uma grande e esforçada maioria, incluindo alguns exemplos heroicos de dedicação, pagou pelo erro de poucos e pela maldade institucionalizada de um governo indecente.

Entrevistador: Gestão e liderança tem sido exigido dos médicos. Estes conceitos são importantes? São tão importantes quanto a formação política e filosófica?

Sem dúvida a gestão e a liderança são importantíssimos. Na formação humanística clássica, por exemplo, partia-se do estudo do indivíduo (Ética e Psicologia, chamada de estudo da alma) e dos discursos (Gramática, Lógica, Dialética e Retórica) e alcançava-se o estudo da sociedade como um todo (Política). Contudo, no meio do caminho estava o estudo das relações de trabalho e das relações familiares, chamado de economia (Oiko = comunidade; Nomos = regras). O médico é o responsável pela equipe, e deve aprender a agir como tal, assim como deve aprender e desenvolver o caráter e a nobreza de um verdadeiro líder, demandando respeito por meio do exemplo acima de tudo.

Conforme disse o filósofo britânico Roger Scruton: 

"Da mesma forma, as pessoas vão obter educação somente se elas a desejarem por seu próprio fim, mas conseguirão bem mais do que isso. Elas vão adquirir a habilidade de se comunicar, de persuadir, de atrair e de dominar. Em qualquer arranjo social, tais capacidades serão vantagens, mas a educação nunca pode ser buscada somente como meios para elas, mesmo se são sua consequência natural." (SCRUTON, Roger. O Que É Conservadorismo. São Paulo: É Realizações, 2015.)

A educação em humanidades deve ser desafiadora, deve ser interessante e prazerosa. Buscada em si para o desenvolvimento do caráter, da inteligência e pelo prazer intelectual e emocional que proporciona, automaticamente capacitará o médico ao desenvolvimento da liderança.

Entrevistador: Qual conselho o senhor daria para a categoria médica? E para os acadêmicos?

Aos colegas permanecer firme no antigo mandamento: Amar o próximo como amam a si mesmos. Exercer o dom da empatia com competência e com compaixão.
Aos acadêmicos, que sejam bons médicos agora! Sejam excelentes em suas áreas. Dediquem-se verdadeiramente aos seus pacientes. Não tenham pressa em terminar seus estudos formais e entendam que não há desculpas depois para a falta de conhecimentos. Aquilo que se conquista e se integra à personalidade é um tesouro que ninguém pode remover. Cresçam e amadureçam o quanto antes, em todos os sentidos. Busquem ser médicos na verdadeira acepção da palavra.

Hélio Angotti Neto

03 de julho, Colatina – ES.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

HUMANISMO E CONSERVAÇÃO

Humanismo e Conservação

Serão as Humanidades Médicas um empreendimento conservador?


Antes de tentar responder, é preciso refletir sobre os termos e conceitos a serem utilizados. Tal passo deveria ser básico para qualquer um que queira abrir a boca para opinar, algo a ser feito preferencialmente após longos estudos e muita reflexão.

A expressão humanismo é utilizada no sentido de práticas humanas de engajamento na sociedade por meio da cultura de alta qualidade. Daí se entende que existe uma cultura de alta qualidade, denominada Alta Cultura, e uma cultura de baixa qualidade, hoje chamada indiscriminadamente de cultura, sendo que provavelmente jamais seria chamada de cultura em outros tempos. 

O elemento gerador dessa Alta Cultura nas grandes civilizações, sem dúvida nenhuma, é a religião. Logo, falar de humanismo não significa falar de empreendimento humanístico secularizado, mas de empreendimento humanístico de caráter geral, incluindo a perspectiva religiosa, originadora dos grandes símbolos que alimentam as artes em geral.

Também é preciso entender o significado das palavras “Conservação”, “Conservador” e “Conservadorismo”. Talvez seja mais fácil compreender esses termos falando primeiro sobre aquilo que o conservadorismo não é.

Conservar não é nutrir um sentimento de apreço ufanista pelo passado distante, denegrindo tudo o que hoje existe. O nome disso é saudosismo utópico. O conservador entende que no passado existiram coisas terríveis, e que muito do que hoje temos é fantástico, belo e bom. Ignorar as conquistas do presente é inaceitável.

Conservar também não é nutrir um sentimento de que no futuro teremos um destino perfeito e paradisíaco aqui nesta terra, no qual todo o mal será exterminado pelo esforço humano. O nome disso é progressismo utópico. O conservadorismo tampouco é o inverso do progressismo, este papel cabe ao saudosismo utópico.

Conservar não é a oposição sistemática à mudança. O nome disso é reacionarismo, uma forma de estacionar no tempo e evitar progressos ou retrocessos. O Conservador entende que retroceder e avançar fazem parte da vida.

Conservar não é uma ideologia, é uma forma de sentimento, de apreço pelo que deu certo e pelo que é seguro, sem trancar-se à realidade sempre mutável e, ao mesmo tempo, imutável em certos aspectos.

As Humanidades Médicas são conservadoras no sentido de que buscam recuperar e utilizar o que há de melhor no legado cultural da humanidade sem abrir mão dos aprimoramentos de cada dia. O antigo homem, de milênios anteriores, ainda é em termos humanísticos o homem de hoje. Possui sentimentos e experiências semelhantes em moldes novos. E o profissional da saúde deve compreender a essência humana se deseja ajudar ao próximo.

Apreender o passado é compreender o próximo de outras eras e de outras culturas, é humanizar-se.

Embora muitos liguem o projeto de humanização com base no legado cultural clássico com a idéia de intolerância ou reacionarismo, devo alertar que essa é uma mentira deslavada, pura difamação dos incompetentes e ignorantes que prefeririam morrer a ter que ler mais de vinte livros num ano (o recomendável é mais de cinquenta livros para quem deseja estudar as Humanidades Médicas).

Outros dirão que esse projeto de Humanidades Médicas ligadas ao legado da Alta Cultura pertence ao estudioso da torre de marfim, que se tranca longe do público em meio a seus livros. Outra mentira sem vergonha. Aos livros soma-se a experiência com o próximo. Todo profissional “humanizado” é um comunicador, um ouvinte atento de histórias da vida alheia, um entusiasta apaixonado pela experiência chamada de vida humana.

Com base nesses conceitos, afirmo que não existem Humanidades Médicas sem o empenho conservador corretamente compreendido. Pena que, no Brasil e em boa parte do mundo, a “novafala orwelliana” tenha transformado o termo conservador em tudo aquilo que ele realmente não é.


O paciente idoso, sentindo-se incapaz e sofrido com a aproximação da morte, ganhará muito mais de um profissional experiente que tenha lido Rei Lear de Sheakespeare, O Velho e o Mar de Hemingway, A Morte de Ivan Illitch de Tolstói e A Montanha Mágica de Thomas Mann do que ganharia com um ouvinte de funk carioca e leitor assíduo de quadrinhos da Marvel. Nada contra os ícones da cultura pop, mas nem tudo é uma simples questão de gosto, é uma questão de qualidade real e aplicabilidade.

Literatura e Imaginação Empática

A imaginação permite olhar para o paciente que veio em busca de auxílio e enxergar o mundo através de seus olhos. O médico se coloca no lugar do paciente e, de repente, está com câncer, será pai, encontra-se curado de uma doença grave ou apresenta um transtorno psiquiátrico. A imaginação é, de fato, um prodígio. Ela ergue pontes entre diferentes pessoas. Une mundos e enriquece vidas.

O médico, o enfermeiro ou o assistente social são capazes, por meio da experiência, do diálogo e da imaginação, de entrar no mundo alheio e compreender valores e perspectivas diferentes da sua. Como alguém ousa debater Bioética e Humanidades Médicas sem ter uma boa experiência de vida e uma larga intimidade com a cultura?

O crítico literário canadense, Northrop Frye, oferece em sua coletânea de ensaios preciosas observações sobre como a literatura enriquece nossa imaginação e promove a participação positiva e qualificada na sociedade.


Uma das utilidades mais óbvias (de se estudar o mundo da imaginação), penso eu, é o incentivo à tolerância: na imaginação as nossas próprias crenças são simples possibilidades, e ainda enxergamos as crenças das possibilidades alheias. Fanáticos e preconceituosos raramente tentam tirar algum proveito da arte – estão obcecados demais por suas crenças e ações para enxergá-las como talvez simples possibilidades.

O que produz a tolerância é o poder do distanciamento imaginativo, que nos permite tirar as coisas do alcance da ação e da crença. [1]

O médico que mergulha nas Humanidades vê muitas vidas nas páginas dos livros, nos lares e nos leitos das enfermarias hospitalares. Atende a um rico burguês ou a um presidiário escoltado com dedicação e excelência. Sabe que está lá para servir, não para julgar. Consegue imaginar-se na pele de um santo ou de um pecador, pois sabe que guarda elementos de ambos em sua alma, nutrida pela vida e pela Alta Cultura.

As construções da imaginação contam-nos coisas sobre a vida humana que não poderíamos saber de nenhum outro jeito.[2]

Hoje, no Brasil, as cadeiras relacionadas às humanidades parecem remar contra a maré milenar da Alta Cultura, censurando opiniões divergentes, apelando para o autoritarismo acadêmico e para a espiral do silêncio, proibindo certos nomes e obras, transformando o discurso erudito numa monótona cacofonia de poucos tons. Pessoas são divididas em classes ou grupos abstratos enquanto suas identidades, sua individualidade, são desacreditadas por sociólogos do Gulag.

Nos consultórios, postos de saúde e hospitais estão pacientes sofridos, ameaçados em sua integridade, gritando por socorro àqueles que verão um indivíduo, jamais um número numa pauta ou um objeto numa casuística. Pessoas sofridas não querem ser, de regra, burgueses, proletários ou revolucionários, eles querem ser a Dona Maria, o Seu João ou o Arthurzinho.

Como compreender uma individualidade sem imergir em incontáveis individualidades, pensamentos e emoções? Tais experiências são providas pela boa formação humanística, incluindo a boa literatura.

E, tantas vezes, fica a comunicação impedida ou restrita, pois a carência cultural omite significados, emudece sofrimentos. O médico precisa compensar a dificuldade de comunicação de seu paciente por meio do próprio crescimento cultural e imaginativo.

Ninguém é capaz de manifestar liberdade de expressão a menos que saiba usar a linguagem, e este conhecimento não é uma dádiva: precisa ser aprendido e trabalhado.

Não se pode cultivar o discurso para além de certo ponto a menos que se tenha algo a dizer, e o fundamento do que temos a dizer é a nossa visão da sociedade.[3]

A propaganda enganosa que tenta convencer o jovem de que liberdade é abandonar a “cultura ocidental” nada mais é do que oferecer as correntes espirituais que subjugarão a juventude, a imaginação e a verdadeira liberdade de seus corações. As Humanidades Médicas bem aplicadas oferecerão os recursos culturais mais elaborados de todas as eras com o intuito de permitir a livre e qualificada ação da imaginação.

Mas a tentação de ceder ao discurso mesmerizante dos ideólogos é grande.

Há em todos nós algo que quer se deixar levar ao encontro de uma turba, onde podemos todos dizer a mesma coisa sem precisar pensar no assunto, porque ali somos todos iguais, exceto aqueles que podemos odiar ou perseguir. A cada vez que usamos as palavras, estamos enfrentando essa tendência ou cedendo a ela. Ao enfrentá-la, tomamos partido da genuína e permanente civilização humana.[4]

A verdadeira liberdade das Humanidades Médicas é poder falar como um pobre nordestino do agreste, Fabiano em Vidas Secas de Graciliano Ramos, ou como Mário, médico de A Mulher que Fugiu de Sodoma de José Geraldo Vieira. É poder ser irônico e sutil como Machado de Assis, divertido e culto como Monteiro Lobato ou hiperbólico e veemente como Nelson Rodrigues.

Só quem busca e mergulha na alta cultura pode realmente pensar com qualidade e compreender o próximo com a verdadeira empatia compassiva, tão necessária para a medicina e para a convivência em sociedade, hoje e sempre.

E como buscar a Alta Cultura sem recorrer aos blocos fundamentais, já prescritos há eras? O próprio William Osler já recomendava a mesma leitura aos seus alunos de medicina, assim como recomenda também Northrop Frye:

Se não conhecemos a Bíblia e as histórias centrais da literatura grega e romana, por mais que leiamos livros e frequentemos o teatro, o nosso conhecimento da literatura não cresce, assim como não cresce o nosso conhecimento da matemática se não aprendemos a tabuada da multiplicação. Esbarramos aqui num problema educacional – o que se deve ler e quando.[5]

O Aspecto Conservador das Humanidades Médicas

Utilizarei alguns trechos do conservador Roger Scruton para tratar do aspecto conservador das Humanidades Médicas.


Na natureza tudo tende ao caos, à desorganização. Contudo, há a possibilidade de inserir um elemento regenerador na realidade.

A entropia está sempre crescendo e qualquer organismo, qualquer sistema ou qualquer ordem espontânea irá no longo prazo sofrer a dissolução. No entanto, mesmo se isso for verdade, tal fato não torna o conservadorismo fútil como prática política, assim como não se torna fútil a medicina simplesmente porque no longo prazo todos morreremos, como Keynes sabidamente colocava a questão. Ao invés disso, devemos reconhecer o conciso resumo da filosofia de Lorde Salisbury e aceitarmos que “procrastinar é viver”. O conservadorismo é a política da procrastinação, cujo propósito é manter a existência, por tanto tempo quanto seja possível, da vida e da saúde de um organismo social.

Além do mais, a termodinâmica também nos ensina que a entropia pode indefinidamente ser resistida no nível local, injetando nova energia e excluindo a dissolução (o caos).

Enquanto o socialismo e o liberalismo são inerentemente globais em seus objetivos, o conservadorismo é essencialmente local: uma defesa de um capital social recôndito contra as forças da mudança anárquica.[6]

Fala-se muito em multiculturalismo no ambiente das humanidades e jovens estudantes são treinados dia após dia a exercerem uma crítica destrutiva contra a civilização ocidental e a cultura da própria sociedade como se isso fosse sinal de grande inteligência e capacidade de independência. Como papagaios, destinam as mesmas críticas a autores que nunca foram lidos ou a textos que mal foram compreendidos. É como se todos fossem pequenos Nietzsches com analfabetismo funcional.

Como entender a perspectiva do próximo se alguém não é capaz de entender nem mesmo a civilização em que vive? Se alguém não entende sua comunidade e seu passado, como deseja entender o paciente à sua frente? Como ambiciona entender seus antecedentes, sua biografia? Ou até mesmo o próprio passado?

Essa reconstrução cordial do passado e da cultura é elemento essencial ao esforço de humanização não só em saúde, mas em todas as áreas da sociedade.

Criticar a própria sociedade com bons olhos somente para o que vem de fora é como comparar um Shopping ocidental com uma belíssima mesquita oriental. Por que não comparar o elemento religioso da cultura oriental com uma majestosa catedral gótica em sua plena glória? 

Sobre a postura diante do próximo, a tradição conservadora também tem muito a oferecer em termos de cordialidade e compreensão.

O entendimento conservador da ação política é formulado, portanto, como uma regra em termos de confiança ao invés de empreendimento, de conversação ao invés de comando, de amizade ao invés de solidariedade.[7]

Nesse contexto, como não visualizar uma relação médico-paciente saudável?

Também é típica do conservador uma atitude cautelosa diante da realidade e do inesperado, tão bem demonstrada pelo pensador Hans Jonas em sua obra Princípio Responsabilidade. Há que se temer a capacidade humana diante de certas perspectivas e utilizar de prudência ao avançar.[8]

Um grande avanço social hoje apregoado, se avanço for tomado por modificação somente, é a tentativa de liberar a eutanásia e o abortamento voluntário.

É claro que tais práticas são antiquíssimas, e poder-se-ia muito bem acusá-las de retrógradas ao invés de alardear sua pretensa vanguarda.

Quando o assunto é bioética, modificações no cuidado com a saúde podem anteceder ou sinalizar grandes mutações civilizacionais, como alerta o conservador Sir Roger:

Abolir a lei contra eutanásia poderá trazer benefícios àqueles que sofrem com doenças dolorosas e incuráveis, assim como poderá trazer benefícios aos que cuidam desses pacientes. Mas também irá mudar nossa percepção coletiva acerca da morte. Isso irá diminuir o espanto com o qual é visto o extermínio deliberado do ser humano; irá instilar um hábito calculista onde antes somente os absolutos guiavam nossas condutas; e, de forma geral, isso fará com que seja mais fácil lidar com a morte e que também seja mais fácil providenciá-la.[9]

Ter essa cautela acerca das possíveis mutações de grande porte na cultura de nossa civilização e ter a imaginação necessária para compreender onde isso pode nos levar é algo oferecido pelas Humanidades Médicas.

Excelente literatura está disponível para nos alertar, ou fazer-nos sonhar, a respeito das incríveis possibilidades do ser humano. Do Admirável Mundo Novo de Huxley ao terrível 1984 de Orwell, a riqueza imaginativa ofertada parece inesgotável.

Assim como a eutanásia, muita coisa do que nossa civilização representará depende das escolhas feitas sobre como valorizamos a vida de nossos filhos atuais ou futuros.

Logo, quando as pessoas pressionam para que haja uma reforma na lei concernente ao aborto, de forma a legalizar o abortamento nas três primeiras semanas da gravidez, nenhuma tentativa para alcançar um entendimento consensual acerca de nossos deveres em relação às crianças nos úteros foi feita; nenhuma tentativa foi realizada para verificar qual o impacto da legalização do abortamento durante os três primeiros meses sobre nossas atitudes concernentes a abortamentos posteriores na gravidez; nenhuma tentativa foi feita de verificar as mudanças de longo prazo nas atitudes das pessoas em relação às crianças, atitudes essas induzidas pela prática de livrar-se das mesmas crianças de forma tão fácil antes mesmo de ter a chance de olhá-las nos olhos. Todas as questões profundas, difíceis e importantes foram deixadas de lado.[10]

A falta da consciência dessas delicadas questões pode culminar num dos problemas mais graves para os atuais cuidados médicos: a falta de respeito e valorização em relação ao ser humano.

Para respeitar verdadeiramente, é preciso compreender com compaixão. Para compreender, é necessária imaginação. Para imaginar, é preciso ter experiência de vida e cultura de altíssima qualidade. Para ganhar essa cultura, um dos requisitos primários é o diálogo entre gerações distantes, é a compreensão do passado e de nossa biografia, de muitas biografias.

A crença essencial ao conservadorismo moderno é a crença no contrato Burkeano entre os vivos, os mortos e os ainda não nascidos. E, como Burke afirma, somente aqueles que podem ouvir os mortos são capazes de proteger os não nascidos. A teoria complexa de tradição de Eliot fornece sentido e forma a essa idéia. Pois ele deixa claro que o mais importante legado que as futuras gerações podem herdar de nós é o cultural. A cultura é o depositário de uma experiência que é ao mesmo tempo local e que permeia todos os locais, presente e atemporal, é a experiência de uma comunidade santificada pelo tempo. Só passaremos isso adiante se nós também herdarmos essa cultura. Para isso, deveremos escutar as vozes dos mortos e apreender seu sentido (...)[11]

Considerando esses aspectos, posso afirmar que o projeto adequado de humanização da medicina e das demais áreas da saúde precisa de uma perspectiva conservadora no melhor sentido da expressão.


Hélio Angotti Neto, 15 de junho de 2017.



[1] FRYE, Northrop. A Imaginação Educada. Campinas, SP: Vide Editorial, 2017, p. 68.
[2] Ibidem.
[3] Ibidem, p. 128.
[4] Ibidem, p. 132.
[5] Ibidem, p. 61.
[6] SCRUTON, Roger. A Political Philosophy. Arguments for Conservatism. London; New Delhi; New York; Sydney: Bloomsbury, 2006, p. ix.
[7] Confiança está associada com Burke, Moser e Gierke; conversação com Oakeshott; amizade com Aristóteles. Ibidem, p. 34.
[8] JONAS, Hans. O princípio responsabilidade. Ensaios de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio & Contraponto, 2011.
[9] SCRUTON, Roger. A Political Philosophy. Arguments for Conservatism. London; New Delhi; New York; Sydney: Bloomsbury, 2006, p. 68.
[10] Ibidem, p. 69.
[11] Ibidem, p. 207.