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sexta-feira, 26 de maio de 2023

O crime perdura porque compensa

Como é que em tempos de ciência avançada – ou pelo menos assim os pesquisadores que gastam suas vidas pesquisando e recebendo polpudas verbas gostam de anunciar e pensar, sempre colocando-se como protagonistas desse mesmo tempo iluminado – tantas falcatruas e distorções podem prosperar?

Temos informação, temos comunicação, temos métodos estatísticos, temos teorias e temos tecnologias fantásticas! O ideal de controle da natureza pela ciência moderna parece cada dia mais real e mais concreto, difundido e efetivo.

O que nem todos realmente percebem – ou se percebem, calam-se pelo receio de atrair descrença, pois a realidade é grotesca e esdrúxula demais – é que o mesmo poder da técnica e da ciência que controla a natureza também controla o ser humano, diretamente por meios coercivos ou indiretamente por meio da influência ideológica e econômica.

Os avançados instrumentos da técnica e da ciência são exatamente isso que propõem ser: instrumentos. Um instrumento altamente efetivo em mãos cruéis será altamente efetivo em causar o mal, e os maus jamais receiam em aumentar o próprio poder e se impor descaradamente sobre o próximo.

As técnicas utilizadas para mentir utilizando estatísticas e metodologias científicas na saúde são refinadas e muito bem elaboradas. Exigem intelectos e preparo avançados. Ouso dizer que a maioria dos médicos não está preparada para analisar criticamente e profundamente um artigo científico, mas que a totalidade ou quase totalidade daqueles médicos que trabalha para a indústria farmacêutica é extremamente bem preparada.

E como alerta o próprio Cristo, se nossos olhos forem trevas, que grandes trevas serão. O preparo científico e técnico utilizado para ocultar, mentir e distorcer gera um produto quase que impermeável à crítica da maioria dos médicos, por mais bem-intencionados que sejam.

O livro de Peter Gøtzsche traz uma série de denúncias e bastidores do jogo tantas vezes imundo da indústria farmacêutica, mas não é o único. Na verdade, há todo um mercado literário muito técnico e específico que explora as falcatruas da ciência. Um livro mais recente que enriquece a leitura de Gøtzsche foi escrito por Jon Jureidini e Leemon McHenry, e se chama “A Ilusão da Medicina Baseada em Evidências: expondo a crise de credibilidade na pesquisa clínica”. 

Jureidini é médico professor universitário de psiquiatria e pediatria na Austrália e trabalha com pesquisa. McHenry é um filósofo americano. Juntos eles ousam remexer no monstro sagrado da medicina contemporânea: a medicina baseada em evidências.

Prof. Dr. Jon Jureidini

Somos lembrados de fatos perturbadores. Medicamentos são lançados no mercado ainda com muitas dúvidas e, no fim das contas, todos nos tornamos cobaias de fase IV da pesquisa clínica, onde é feita a vigilância farmacêutica pós-comercialização. Não são tão raros os exemplos de medicamentos aprovados e vendidos aos milhões que geraram mortes e deformidades e tiveram que ser removidos do mercado ou ter suas indicações clínicas completamente revistas.

As próprias narrativas da sociedade são compradas e manipuladas, pois representantes de pacientes são muito bem pagos para explicar o sofrimento dos pacientes, pressionando justamente a prescrição deste ou daquele medicamento “milagroso”, e médicos especialistas tratados como referências de determinados assuntos – ou doenças – introduzem novos tratamentos em eventos patrocinados pela indústria que reúnem milhares de médicos ávidos por notícias; são os famosos Keynote Speakers da indústria.

Surfando na crista de uma onda de credibilidade conquistada por grandes descobertas que revolucionaram a saúde mundial, como o antibiótico, a imunização, os transplantes auxiliados pelo uso de imunossupressores e as cirurgias minimamente invasivas, hoje a indústria tem pleno sucesso em lucrar, mas muitas vezes falha completamente em gerar valor para a humanidade.[1]

Assim como ocorre no livro de Gøtzsche, Jureidini e McHenry trazem diversos exemplos de medicamentos que geraram grandes multas, mas lucros estrondosos. Paroxetina, por exemplo, da Glaxo Smith Kline já levou a uma multa de 3 bilhões de dólares por falhar em demonstrar eficácia e gerar sérias dúvidas acerca da segurança de seu uso, mas foi bem vendida graças em parte a um artigo encomendado pela própria indústria e escrito por um ghostwriter, um escritor fantasma especializado em redigir artigos científicos de forma agradável aos interesses da farmacêutica. É claro que o artigo é oficialmente assinado por um daqueles médicos especialistas famosos que dá palestras em congressos e recebe uma enormidade de incentivos, leia-se dinheiro, por sua “consultoria”.[2]

Técnicas semelhantes, incluindo uso de redatores fantasmas, dados distorcidos, interpretações estatísticas errôneas, ocultação de dados incluindo efeitos adversos graves e mortes e seleção indevida de desfechos clínicos, foram utilizadas em outras situações, segundo os autores, incluindo medicamentos como citalopram e escitalopram para depressão em adolescentes, rofecoxib para controle da dor em pacientes com artrite, gabapentina para condições psiquiátricas e dor, fenfluramina e fentermina para perder peso, estrogênio e progesterona para combater o envelhecimento, rosiglitazona para diabete não insulino-dependente e oxicodona para controle da dor.

Gøtzsche também exibe uma série de exemplos, que denomina de Hall da Vergonha das grandes empresas farmacêuticas. O problema não consiste nas pesadas multas pagas, mas sim, no fato de que o lucro supera em muito a penalidade. Logo, o crime compensa!

A Pfizer, por exemplo, pagou 2,3 bilhões de dólares em 2009 por fazer propaganda enganosa a respeito do antibiótico Zyvox, entre outras coisas. A Novartis pagou 423 milhões de dólares em 2010, por pagar propina para que médicos prescrevessem seus medicamentos. A Sanofi-Aventis pagou mais de 95 milhões de dólares para encerrar acusação de fraude em 2009. A Glaxo-Smith-Kline pagou 3 bilhões de dólares em 2011 por ocultar dados de segurança e pagar propinas a médicos. A AstraZeneca pagou 520 milhões de dólares e, 2010 para encerrar um caso de fraude por comercialização ilegal. A Johnson & Johnson foi multada em 1,1 bilhão de dólares em 2012. Por ocultar riscos de seu medicamento risperidona. A Merck pagou 670 milhões de dólares por fraude contra o Medicaid em 2007, incluindo propinas a médicos. Eli Lily pagou 1,4 bilhão de dólares em 2009 e Abbott pagou 1,5 bilhão de dólares em 2012. Os métodos criminosos são repetitivos, embora elaborados e muito organizados, e revelam que:

“O crime corporativo é comum e que os delitos são implacavelmente executados, com gritante desrespeito pelas mortes e outros danos sérios causados por eles. (...) o crime corporativo mata as pessoas e também envolve roubos expressivos do dinheiro dos contribuintes.”[3]

Os autores Jureidini e McHenry ressaltam o perigo em se permitir o controle dos dados de pesquisa e sua propriedade pelos grandes laboratórios, interessados diretamente no lucro gerado pelas pesquisas que permitem vender medicamentos após seus registros em agências reguladoras. Essa posse dos dados leva a situações em que os médicos pesquisadores devem se calar sobre os resultados que a indústria não deseja que sejam conhecidos. Chega-se a uma situação na qual o médico precisa decidir se honrará o pacto hipocrático de beneficiar o paciente e protegê-lo do mal, ou se honrará o pacto comercial com a indústria e se calará, permitindo muitas vezes por omissão a morte e o sofrimento de incontáveis pacientes.

Uma das soluções possíveis apontadas por Jureidini e McHenry é investir na pesquisa "independente" realizada pelas universidades, como se pudessem servir de controle comparativo para o trabalho realizado pela indústria farmacêutica.

Infelizmente, a Academia está longe de ser um poço de pureza, e foi cooptada há tempos por uma chuva de recursos da indústria farmacêutica, submetendo-se aos mesmos interesses tantas vezes obscuros daqueles que querem lucrar com a doença, prometendo a saúde e vendendo ilusões.

O poder de destruição do imbecil coletivo na saúde dentro das instituições universitárias é largamente subestimado.

Até mesmo prestigiadas revistas científicas, editadas por autoridades acadêmicas internacionalmente respeitadas, pisam na jaca dos conflitos de interesses.

Empresas fazem singelas ligações para os editores de revistas científicas dando aquele aviso camarada de que comprarão reimpressões do artigo enviado caso o mesmo seja publicado.[4]

Deixar de publicar os artigos da indústria, carinhosamente preparados com tanto esmero pelos escritores fantasmas e assinados por autoridades acadêmicas que vendem seus nomes como grifes famosas no topo dos trabalhos, pode gerar enorme impacto financeiro para uma revista. O Brittish Medical Journal, por exemplo, que é reconhecido como um “osso duro de roer” pela indústria[5], após dedicar uma edição inteira aos conflitos de interesse retratando em sua capa vários médicos vestidos como porcos gulosos em um banquete ao lado de representantes da indústria farmacêutica vestidos como lagartos, recebeu a ameaça de perder 75 mil libras em anúncios. Talvez essa fama “ruim” do Brittish Medical Journal ainda perdure, pois recentemente publicou um extenso comentário intitulado “O declínio da ciência no FDA se tornou incontrolável”, de autoria do Professor de Medicina David Ross, da George Washington University School of Medicine and Health Sciences.[6] Não é por acaso que esse periódico tenha apenas quatro por cento de sua renda derivada de reimpressões, enquanto outras revistas como o The Lancet cheguem a impressionantes 41% de toda a sua renda derivada de gulosas compras da indústria farmacêutica de seus próprios artigos publicados.[7] Afinal de contas, é sempre legal desovar um artigo impresso no consultório de um médico desavisado que nada ou pouco sabe de crítica científica.

Além de lucros multimilionários para revistas acadêmicas e seus editores, a publicação de um artigo especialmente desenhado e encomendado pela indústria farmacêutica ainda rende uma chuva de citações, aumentando o impacto da revista acadêmica e, portanto, inflacionando seu prestígio e retroalimentando a imagem de autoridade daqueles autores que emprestam seus nomes para figurar entre os pesquisadores de um laboratório.

A própria indústria arregimenta uma caterva de escritores fantasmas que se dedicam a publicar trabalhos em revistas secundárias citando profusamente os artigos publicados pela mesma indústria nos grandes periódicos.[8] Gotzsche cita um estudo de 2012 que revela dados interessantes: “o custo mediano e o maior das encomendas de reimpressão para o The Lancet era de 287.353 e de 1.551.794 libras, respectivamente.”[9] Até mesmo um dos editores da The Lancet, Richard Horton, reconheceu, talvez naquele momento de sinceridade que só pode ser inspirado por um arroubo quase suicida de consciência, que “os periódicos evoluíram para operações de lavagem de informação para a indústria farmacêutica.”[10]

Tudo isso culmina em um esquema bilionário no qual incontáveis médicos perfazem as fileiras de guerra da indústria farmacêutica, aceitando desde pequenos agrados – pois muitos se vendem por muito pouco, incluindo canetas elegantes, passagens para congresso e envelopinhos com poucos milhares de dólares – até polpudas verbas de consultoria. São editores de revistas, agentes de agências reguladoras, professores catedráticos, escritores fantasmas e prescritores vendidos que alimentam o ciclo extremamente lucrativo da Bigpharmaum verdadeiro sistema que tem seus próprios headhunters em constante vigilância sobre novos talentos promissores até mesmo dentro de cursos de graduação.

Se, apesar das multas multibilionárias pagas pela indústria, essas práticas perduram de forma sistemática, só há uma resposta plausível: o crime compensa. Só não compensa para a vida daqueles pacientes e suas famílias que ao invés de adquirirem um medicamento realmente efetivo, nada mais conseguiram do que uma amarga ilusão gloriosamente coberta pela nuvem de fumaça em que se transformou a Medicina Baseada em Evidências a serviço de interesses escusos.



[1] Jon Jureidini; Leemon B. McHenry. The Illusion of Evidence-Based Medicine: exposing the crisis of credibility in clinical research. South Australia: Wakefield Press, 2020, p. 13.

[2] Ibid., p. 14.

[3] Peter C. Gøtzsche. Op. cit., 2016, p. 21-40.

[4] Richard Smith. The Trouble with Medical Journals. London: Royal Society of Medicine, 2006.

[5] Kamran Abbasi. Editor’s choice: a tough nut to crack. Brittish Medical Journal. 2005; 330: 7485.

[6] David B. Ross. The decline of Science at the FDA has become unmanageable. Brittish Medical Journal 2023; 381: p. 1061.

[7] Peter C. Gøtzsche. Op. cit., p. 65.

[8] Ibid., p. 63.

[9] Handel AE; Patel SV; Pakpoor J; et al. Hight reprint orders in medical journals and pharmaceutical industry funding: case-control study. Brittish Medical Journal. 2012; 344: e4212.

[10] Richard Horton. The dawn of McScience. New York Rev Books. 2004; 51: p. 7-9.




domingo, 22 de dezembro de 2019

Evidência como Intuição da Realidade e a Medicina

O Intuicionismo Realista como Pressuposto Epistemológico da Medicina

Na aula de número 499 do Curso Online de Filosofia do Professor Olavo de Carvalho, gravada em 20 de dezembro de 2019, o tema foi a diferença de interpretação do termo evidência e de como isso prejudicou nossa civilização e nossa inteligência. Tema este profundamente conectado ao caráter realista intuicionista da filosofia de Olavo de Carvalho, e um dos mais recorrentes em suas exposições,   iniciadas em maio de 2009.
Olavo de Carvalho. Em sua aula 499 do Curso Online de Filosofia abordou as diferentes interpretações da palavra evidência e como isso pode afetar a inteligência.
Evidência é um termo hoje utilizado em sua concepção anglo-americana, isto é, denota um indício a ser trabalhado em termos lógicos ou uma probabilidade obtida por análises estatísticas, caso se olhe no campo da medicina. Nada poderia ser mais diferente do que sua origem antiga na língua portuguesa.
Contudo, em nossa tradicional língua portuguesa, evidência é justamente aquele elemento objetivo da realidade que é apreendido de forma intuitiva, isto é, de forma imediata, diretamente da realidade e, portanto, constitui conhecimento inquestionável que precisa ser formulado em termos discursivos para sua correta transmissão. Para seu significado mais antigo, o fato de ser evidência não requer provas adicionais. A própria evidência é a prova fundamental que embasa todo e qualquer encadeamento lógico.
Quando meditamos acerca do significado de evidência conforme sua interpretação anglo-americana, é possível compreendermos de que estão a falar de indícios obtidos por meio da apreensão subjetiva e, portanto, é necessária a confirmação de tal evidência por meios lógicos e científicos. Isso caracteriza uma completa inversão da realidade e do uso tradicional da palavra evidência.
Na medicina, a evidência direta, intuída da realidade, como o reconhecimento de uma dor ocular como uma dor ocular na realidade, é o fundamento de qualquer ato diagnóstico, terapêutico ou prognóstico. Dessas evidências intuídas da realidade, pode-se passar à análise estatística, alcançando as probabilidades e prevendo as melhores decisões. Seria a união entre evidência baseada em medicina (EBM) e medicina baseada em evidências (MBE).
Essa descrença em nossa capacidade de intuir a realidade não somente destrói a coerência do ato profissional da medicina como também é reflexo de uma verdadeira idiotice promovida pela filosofia moderna e seu ceticismo irracionalista exagerado que até hoje nos rende tenebrosos frutos. Não se atormente com o uso da palavra “idiotice”, pois o faço de forma técnica no sentido de fechar-se em si mesmo, sem a possibilidade de compreender a realidade e o próximo mergulhado nela, distinto de si mesmo.
Olavo de Carvalho, em sua aula 499, lembra o famoso lema da fenomenologia husserliana: “Voltemos às coisas mesmas”. Essa é a proposta de uma filosofia intuicionista e realista, a única coerente no fim das contas, ainda mais quando se medita a partir da experiência cotidiana da medicina.
Essa apreensão ou intuição da realidade dá-se por meio do que os escolásticos denominavam Senso Comum, não no sentido de conhecimento das convenções, como hoje se expressa, mas no sentido de se possuir um sentido especial capaz de unificar as impressões da realidade obtidas por meio dos sentidos e compreender tais impressões como unidade imersa no real. É a visão que Xavier Zubiri resgata ao anunciar essa apreensão da realidade como elemento distintivo entre os homens e os animais não humanos.
Daí se depreende uma grande constatação: tudo o que é evidente só é perceptível para a consciência humana individual, por meio desse Senso Comum capaz de recuperar o Logos da realidade (sua inteligibilidade). É no ser humano que a percepção da unidade das coisas se dá. É na consciência do médico, durante uma consulta, que se apreende a unidade de tudo aquilo que faz o paciente sofrer e buscar ajuda. É na consciência do médico que a queixa do paciente se integra à sua história de vida e uma coerência maior é buscada.
Quando uma mesma coisa é apreendida por diversas pessoas e um relato é obtido acerca do que viram, o que se pode extrair em termos de discurso é uma abstração lógica capaz de reunir pontos em comum e consensos, mas que permanece longe da concretude inexplicável obtida pela rica apreensão imediata.
Isso nos leva a um paradoxo interessante e, por muitas vezes, perigoso. Só o indivíduo pode ter certeza absoluta de algo que presenciou. Logo, do ponto de vista objetivo, a apreensão individual é, tecnicamente, a mais fidedigna. Por outro lado, da perspectiva psicológica, maior a confiança que se presta a um relato quanto maior o número de pessoas que afirmam o mesmo. Isso gera uma situação recorrente na qual a verdade isolada pode sofrer diante de um falso consenso da maioria. Uma tensão inescapável, de certa forma, e que sempre se fará presente em nossa realidade.
A sede do conhecimento, portanto, reside na consciência do indivíduo. E só o indivíduo, em sua solidão, tem acesso à verdade absoluta.
A educação deveria ser justamente a transmissão da capacidade de acreditar na percepção individual, e não a desconfiança sistemática gerada pela falta de fé na possibilidade de se intuir a realidade e a verdade.
Em uma sociedade como a nossa, na qual toda a construção da inteligência arrisca se fundamentar na concepção de que toda a inteligência é frágil e incapaz de apreender a verdade, caminha-se para o colapso social gerado pela completa inépcia. Em palavras mais divertidas, poder-se-ia dizer que ninguém duvida da objetividade de uma nota de cem reais e sai por aí rasgando dinheiro ou gastando o que não se tem na conta bancária – pelo menos as pessoas mentalmente sãs não ousam fazê-lo. A partir do momento em que alguém realmente acreditar nessa falta de objetividade da realidade e viver de forma coerente com essa louca crença, estaremos em apuros.
Colocar a prova lógica acima da evidência imediata quando estas se contradizem assume um dos mais terríveis legados da cultura anglo-americana, que não passam de uma herança dos pensamentos cartesiano e kantiano. É o encerramento da consciência e da absorção da inteligibilidade da realidade.
Disto tudo, se depreende a necessidade de manter o ensino da medicina profundamente conectado na interação entre médico e paciente, fixado na conjeture das experiências humanas qualificadas por meio da ciência. Tal interação humana pode ser potencializada por uma adequada formação humanística de qualidade ou por uma educação de verdade.
Como afirma o francês Luc Ferry:
A educação é: cristão, judeu e grego. A educação é em primeiro lugar o amor, como querem os cristãos. Se uma criança não foi amada, ela terá muito menos capacidade, muito menos resiliência, a resiliência sendo a capacidade de se reestruturar frente aos incidentes da vida. Mas é preciso também transmitir a lei, que é o elemento judaico, a lei mosaica. É preciso ser capaz de dizer não a uma criança, e de dizer sim. Mas de tal modo que o seu sim seja sim e o seu não seja não. Não negociar com as crianças como se faz com um sindicato. E em terceiro lugar é preciso transmitir saber, as grandes obras. é o elemento grego, são os gregos que inventam os grandes gêneros literários para nós no Ocidente: a literatura, a filosofia, a cosmologia, a poesia, são os gregos que inventam isso. Assim, cristão, judeu e grego; o amor, a lei, as obras.[1]
Na medicina, a educação também é Cristo, Moisés e Sócrates. O amor – Cristo – se faz presente na caridosa compaixão que conecta o médico e o paciente, na capacidade de se comunicar de forma real. A lei – Moisés – se faz presente nos ditames éticos que norteiam ações terapêuticas. A ciência e a técnica – Sócrates e, de quebra, seu aprendiz Platão e Aristóteles – nos dão análises explicativas que permitem a melhor decisão com base nos padrões observáveis da natureza. Eis uma boa educação médica: valor, norma e ciência. E nada disso é possível se negarmos a nossa inerente capacidade de tocar a realidade e, dessa forma, a vida do próximo que vem nos solicitar socorro.


[1] FERRY, Luc. A revolução Transumanista. Barueri, SP: Manole, 2016, p. XXII-XXIII.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Desmontando falácias abortistas - Parte 2: Caça ao Embrião

Desmontando falácias abortistas - Parte 2: Caça ao Embrião



Mentirinha: “Essa valorização do feto humano é um exagero. Chegamos ao absurdo de impedir a realização de grandes descobertas científicas que poderiam curar os mais terríveis males que assolam a humanidade por causa de uma preocupação sem sentido com embriões que poderiam ser utilizados para pesquisas com células-tronco embrionárias.”

Talvez uma das mais impressionantes formas de defender o extermínio humano por meio do aborto seja justamente colocá-lo ao lado do progresso científico que arroga para si o papel de redentor da humanidade acometida por terríveis males. Para os abortistas, o aborto se transforma em uma necessidade para que haja mais pesquisas “redentoras”.

É um apelo muito mais emocional do que racional a uma solução parcial para uma das coisas mais assustadoras na vida humana: o sentimento de finitude, muitas vezes acompanhado pelo medo do desconhecido e do sofrimento que a morte traz. Com o intuito de combater a morte, eis que surge novamente a nossa campeã, a maravilhosa ciência, parteira de tantos milagres humanos, e agora também utilizadora de embriões.

No passado não tão distante, esperava-se que, com a conclusão do Projeto Genoma, o ser humano pudesse ser reprogramado e a caixa de Pandora fosse escancarada para que cientistas alcançassem todos os mais loucos sonhos. Isso não se realizou. Descobrimos muitas outras caixas de Pandora como a epigenética, que mistura os hábitos e a cultura humana no caldo genético e a proteômica.[1]

Embarcando na marola que sobrou da onda de esperanças destroçadas, onda esta advinda da ambição pelo domínio do destino humano por meio da genética, ainda surgem aqueles que sonham com a manipulação do ser humano por meio da terapia com células-tronco.

Eis que lá vêm os abortistas em busca da mais nova desculpa para seus lucrativos abortos: utilizar as células-tronco embrionárias, muito mais poderosas do que as células-tronco adultas, para promover soluções ainda mais espetaculares.

No Brasil, o Supremo Tribunal Federal, em seu ativismo, legislou sobre a matéria, anunciando a legalidade de se pesquisar com embriões humanos, para o desgosto dos defensores da vida. Também não agradaram por completo os próprios abortistas, já que há clara orientação para não se produzir novos embriões destinados à pesquisa.

Isso tudo apesar de não haver evidências de que células-tronco embrionárias de fato possuam grandes vantagens sobre o uso de células-tronco adultas.[2]E ainda há relatos de que as células-tronco embrionárias sejam de difícil controle, já que podem causar câncer em seus receptores, dado o altíssimo potencial que encerram.[3]Por outro lado, há um grande investimento em uma nova técnica que permite a transformação de células adultas em células-tronco, são as Células-Tronco Humanas Pluripotentes Induzidas, repletas de possibilidades e com menores entraves morais.[4]Esta última técnica, que nos pouparia de grandes dúvidas acerca da moralidade em se destruir embriões humanos para pesquisar, surge em um contexto no qual a pesquisa em embriões não foi estimulada. A criatividade humana encontrou um caminho mais ético, enfim, recusando o atalho oferecido por incautos pesquisadores.

Surgem também nos dias de hoje as acusações feitas pelos abortistas de que os defensores da vida humana são retrógrados, inimigos da boa ciência que salva milhões de vidas, saudosos de uma vida medieval – como se medieval fosse algum tipo de xingamento horrendo.

Em periódicos de altíssima circulação, esfregam na cara dos defensores da vida humana que hoje milhões de pessoas de todas as idades se beneficiam das vacinas. Segundo os abortistas, é preciso ser coerente e honrar o fato de que grande parte dessas vacinas foram produzidas com a ajuda de células fetais obtidas em abortos. O que esses iluminados escritores de editoriais de revistas cientificas famosas não falam é que se pode recorrer a células fetais de abortos espontâneos e que não há compromisso ético algum em permanecer fazendo algo questionável moralmente só porque se obteve algo de positivo de uma prática antiética realizada no passado. De forma análoga, pode-se perceber o grau de estupidez dessa linha de raciocínio ao se propor o absurdo de prosseguir com as práticas nazistas de experimentos monstruosos em seres humanos só porque, no passado, de forma criminosa, algum nazista hipoteticamente descobriu algo que nos beneficiaria no presente. Não faz o menor sentido.[5]

Aliás, já que falamos em analogias e raciocínios estúpidos, cabe lembrar outro exemplo vergonhoso da argumentação abortista: o argumento do terrível prédio em chamas (ou seria o terrível argumento do prédio em chamas?).

Alguns abortistas utilizariam a seguinte situação hipotética: imagine que você está em um prédio, em meio a um terrível incêndio. Você tem a chance de salvar uma menina de cinco anos ou doze embriões congelados. Você ousaria salvar os embriões?

Michael Sandel, que propôs essa situação, utiliza isso contra a ideia de equivalência moral entre embriões e pessoas já paridas em seu livro Contra a Perfeição. Seu argumento é de que, como as pessoas de regra salvariam a menina, conclui-se que as pessoas de fato não acreditam que embriões são seres humanos.[6]Eis um verdadeiro exemplo de non sequitur.

A resposta é dada por Yuval Levin, que argumenta contra a conclusão de que embriões deveriam ser apenas material bruto para pesquisas. 

Ele reproduz a analogia da seguinte forma: imagine que você está em um prédio em chamas com sua esposa e um estranho. Se tiver que escolher, obviamente escolherá sua esposa para salvar em detrimento do estranho (ou, pelo menos, espera-se que a escolha). Ninguém poderia culpar o homem que salvou a sua esposa e não a um estranho. Disso não se concluiria de forma alguma que o estranho, que não foi salvo, era apenas material bruto para queimar ou destruir. Tampouco se concluiria que poderíamos sair por aí pegando estranhos para arrancar-lhe os órgãos para pesquisa, certo?[7]

Segundo Levin,

O problema, em outras palavras, está na aplicação da lógica de um prédio em chamas – a lógica da triagem e da emergência – para a vida cotidiana. Nosso mundo não é um prédio em chamas. Argumentar a favor disso, como foi sugerido no caso de pesquisas médicas moralmente controversas, seria negar a legitimidade de praticamente todos os limites éticos e morais sobre a ação, se tal ação fosse direcionada à resolução de uma emergência. E se nossa natureza humana ou condição mortal em si é a emergência, logo qualquer ação – qualquer meio – seria moralmente permissível para estender nossas vidas.[8]

Falando de embriões e de pesquisas antiéticas, o anúncio recente de que cientistas chineses comemoram a criação de dois bebês humanos editados geneticamente pela técnica CRISPR para que sejam imunes ao vírus do HIV desperta preocupação até mesmo em grandes entusiastas dos grandes avanços tecnológicos e do Transumanismo, como Julian Savulescu, que afirma com correção que 

Se for verdade, esta experiência é monstruosa. Os embriões eram saudáveis, sem doenças conhecidas. A edição genética em si é experimental e ainda está associada a mutações indesejadas, capazes de causar problemas genéticos em etapas iniciais e posteriores da vida, inclusive o desenvolvimento de câncer. (...) Esta experiência expõe crianças normais e saudáveis aos riscos da edição genética em troca de nenhum benefício necessário real. (...) contradiz décadas de consenso ético e diretrizes sobre a proteção dos participantes humanos em testes de pesquisa. [Os bebês resultantes dos testes de He, pesquisador chinês formado nos EUA] estão sendo usados como cobaias genéticas. Isso é uma roleta russa genética.[9]


O que se vê, na linha de argumentação abortista em prol do pretenso avanço da ciência, é o risco real e imediato de uma profunda desumanização do homem, instrumentalizando-o em prol de um avanço científico de forma irresponsável e, portanto, antiética. Em troca da imoralidade, oferecem-nos maravilhosas expectativas.

Desde quando se justifica praticar um ato com altíssimo risco de ser antiético em prol de um hipotético avanço do conhecimento humano? Pois a dúvida moral em si mesma, como obrigatoriamente acontece no caso de um ato irreversível como a edição genética ou um aborto, já aponta imediatamente a sua falha ética. 

Por fim, usar embriões humanos em pesquisas é a instrumentalização irreversível e antiética de alguns seres humanos em prol de outros, é a desvalorização da vida humana ao afirmar que ela nada ou pouco tem de especial, é dar a cara a tapa para a velha crítica posta por George Orwell em seu romance A Revolução dos Bichos: Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros...[10]




Hélio Angotti Neto é médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo com Residência Médica em Oftalmologia e Doutorado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atua como Professor e Coordenador do Curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo. É Presidente do Capítulo de História da Medicina da Sociedade Brasileira de Clínica Médica (Triênio 2017-2020), membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e Delegado do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo em Colatina (2018-2023). Foi Global Scholar do Center for Bioethics and Human Dignityda Trinity International Universityem 2016 (Illinois, USA) e é Diretor Editorial da Mirabilia Medicinae, publicação em Humanidades Médicas sediada no Institut d’Estudis Medievalsda Universidad Autónoma de Barcelona. Publicou os livros: A Morte da Medicina; A Tradição da Medicina; Disbioética Volume 1: Reflexões acerca de uma estranha ética; Disbioética Volume 2: Novas Reflexões Sobre uma Ética Estranha; Disbioética Volume 3: O Extermínio do Amanhã; Arte Médica: De Hipócrates a Cristo; além de diversos capítulos de livros e artigos em Oftalmologia, Bioética, Política e Humanidades Médicas. Criador e Coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina. É Presbítero da 3ª Igreja Presbiteriana de Colatina. Casado com Joana e pai de Arthur, Heitor e André.


[1]FANU, James Le. The Rise and Fall of Modern Medicine. New York: Basic Books, 2012.
[2]PEREIRA, Lygia da Veiga. Células-Tronco. Promessas e Realidades. São Paulo: Moderna, 2013.
[3]AMARIGLIO, Ninette; et al. ‘Donor-Derived Brain Tumor Following Neural Stem Cell Transplantation in an Ataxia Telangiectasia Patient’. InPLoS Medicine, 6(2), 2009.
[4]LEVIN, Yuval. ‘What Happened to Bioethics’. InThe New Atlantis. A Journal of Technology and Society, vol. 56, 2018, p. 92-98.
[5]Recomendo a leitura de meu artigo “Tudo é bom motivo para matar um bebezinho”, publicado em: ANGOTTI NETO, Hélio. Disbioética Volume II: Novas reflexões sobre os rumos de uma ética estranha. Brasília, DF: Monergismo, 2018.
[6]SANDEL, Michael J. Contra a Perfeição. Ética na era da engenharia genética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.
[7]LEVIN,op. cit., p. 93-94.
[8]Ibid., p. 94.
[9]LYI, Macarena Vidal. Cientistas chineses dizem ter criado os primeiros bebês geneticamente modificados. Os bebês, duas gêmeas, agora têm uma modificação que supostamente as protege contra o vírus da AIDS, segundo o geneticista He Jiankui. In:El PaísInternethttps://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/26/ciencia/1543224768_174686.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM&fbclid=IwAR3DrSoMs3k7l-JcWbIcKzL5Ci2ozAne5BJgnI_uSZFiVgLo7LF7obAq50s
[10]ORWELL, George. A Revolução dos Bichos. Um conto de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

sábado, 7 de julho de 2018

O DESPREZO DO MÉDICO PELA FILOSOFIA

O DESPREZO DO MÉDICO PELA FILOSOFIA


Por que tantos médicos desprezam a filosofia?
Estava em uma aula daquelas de final de semestre, quando a maioria dos alunos aprovados já partira para suas casas. À frente restava apenas a prova de recuperação, na qual haveria matéria de todo o semestre, incluindo um conteúdo de minha responsabilidade sobre a história da filosofia moral e suas repercussões sobre a Ética Médica e sobre a Bioética.
Foi nesse momento que fui interpelado por uma aluna que, com muita sinceridade, disse que não via tanta importância em saber o nome e as ideias daqueles filósofos esquisitos de séculos atrás (ela não usou o termo esquisito, mas que muitos desses filósofos são esquisitos, são). 
Minha resposta foi a de que era mortalmente importante. Também respondi que o desconhecimento de nossa classe profissional acerca do mundo das ideias era uma das causas de nossa alienação e da destruição dos nossos valores mais profundos, destruição esta testemunhada dia após dia. Eis a expressão que eu utilizara: “não fomos jogados na latrina da sociedade à toa”.  
De fato, somos todos governados pelas ideias de filósofos há muito enterrados; a vida dos vivos é regida pelas ideias dos mortos. A inconsciência dessa realidade condena muitos a permanecerem na ignorância e na vida destituída de profundas reflexões, tão necessárias em tempos de crises, por mais dolorosas e assustadoras que sejam.
Contudo, a consciência dessa necessidade de mergulhar nos conhecimentos humanísticos não é tão imediata assim. 
Muitos médicos e alunos de medicina desprezam completamente o esforço filosófico porque consideram-no inútil ou irrelevante. Médicos costumam questionar o que a filosofia teria a oferecer a um empreendimento tão pragmático quanto a arte de curar e aliviar. 
Outros acusam a filosofia, ou pelo menos a sua forma acadêmica tal qual disseminada no Brasil e em diversos países, de ser uma forma de ideologização da medicina ou de outras profissões, ao tentar transformar tudo e todos em meros peões de um jogo político.
Ainda há os que acusam a filosofia de ser um empreendimento para ociosos, atraindo pessoas que não têm coisas melhores para fazer e ocupam a mente com tais nulidades.
Por fim, há aqueles detentores de maior cultura histórica e que acusarão a filosofia de ter parido grandes crimes, horrores e distorções, mesmo dentro de profissões específicas como a medicina. 
Cada ponto apresentado não deixa de ter um pouco de razão, e pretendo discutir todos. Pois, de cada um, pode-se tirar algo de bom, belo, justo e verdadeiro a respeito do empreendimento filosófico que sustenta toda a busca pelas humanidades médicas e fundamenta a discussão contemporânea em Bioética e Ética Médica.



A filosofia é inútil?
Talvez devêssemos começar definindo o que é filosofia e o que não é, ou quem é filósofo e quem não é, como diria Olavo de Carvalho. Contudo, prefiro deixar a definição de filosofia para o final, abordando antes diversas acusações contra a filosofia que nos ajudarão a delimitá-la melhor.
A primeira acusação é, sem dúvida, a de inutilidade. Muitos diriam que a filosofia não cura conjuntivite viral, tampouco opera um apêndice inflamado. Estão certos neste sentido. A filosofia é um empreendimento inútil, sob certa perspectiva. Ademais, essa acusação nem é tão recente assim; é uma das mais antigas afirmações, pelo menos ao analisar um de seus ramos principais, a metafísica.
Com a filosofia eu não prego um quadro na parede, construo uma casa ou posiciono um dreno de tórax no paciente grave. Porém, é junto com a filosofia que surgem as impressões artísticas e as vivências que inspirarão as obras de beleza que serão gravadas em quadros pendurados nos lares ou museus, ou inspirarão as memórias gravadas em livros que definirão e inspirarão os rumos de toda uma civilização.
A filosofia é uma perspectiva de vida ou uma forma de enxergar o mundo, neste último sentido.
É de concepções filosóficas sobre o que é uma boa vida em sociedade que surgem estilos arquitetônicos que ditarão como construir prédios, casas e monumentos.
É de concepções filosóficas que surgirão as formas pelas quais enxergamos o ser humano e compreendemos fenômenos que denominaremos saúde, doença, morte, vida ou cura.

A filosofia é irrelevante?
Entre os estudantes de medicina, é muito comum ouvir o questionamento quanto à relevância dos estudos filosóficos. Qual a importância da filosofia diante da óbvia necessidade e importância de se estudar anatomia humana?
Já o profissional inserido no mercado de trabalho encontra-se ocupado demais em ganhar o pão de cada dia para perder tempo com essa tal de filosofia.
Para quase todas as pessoas há uma concepção de que filosofar é complicar o óbvio, criar problemas onde não há, tornar complexo o que é simples. Diriam que é um tipo de verniz intelectual: bonito, mas não relevante.
É claro que o verniz tem sua relevância! Assim como a filosofia.
Uma boa prática filosófica qualificará as demais práticas humanas. É com filosofia de boa qualidade que se participa com eficiência e consciência dos meios culturais e políticos da sociedade. É com boa filosofia que se evita a transformação das coisas simples em coisas loucas, muitas vezes impulsionadas pela ideologia porca, chamada por alguns pelo mesmo nome do amor à sabedoria, mas tão distante na prática.
Um pensamento tosco pode levar o médico a renegar a vocação de sua profissão e abraçar a cultura da morte, por exemplo. A ausência de formação filosófica pode levar qualquer um à alienação política e cultural que, com o tempo, destruirá sua prática profissional enquanto implode toda a ordem social a seu redor. Sem os melhores instrumentos reflexivos, o pensamento e a ação serão superficiais e ineficazes, cabendo ao indivíduo o papel de marionete nas mãos dos piores e dos incompetentes.
A filosofia é extremamente relevante, eu diria, para todas as pessoas em todas as situações.

A medicina é ideologizada pela filosofia?
A filosofia seria um instrumento ideológico? Muitos ressentem do uso daquilo que chamam de filosofia ao observarem a ideologização tosca da medicina, cada vez mais invadida pelos discursos de guerra de classes, ódio social e radicalismos políticos, ao mesmo tempo em que se ameaça de morte a cosmovisão hipocrática e cristã que fundamentou dois mil anos de boa prática médica.
Temem a medicina fascista e socializada. E com razão!
Médicos já juraram seguir acima de tudo a Revolução (como na União Soviética) ou o Reich (na Alemanha nazista) e os resultados trágicos devem ser lembrados para sempre.
Nesse temor, enxergam o empreendimento filosófico como um perigoso cavalo de Tróia. Porém, se tomarmos filosofia pelo seu sentido socrático, só poderemos evitar a destruição ideológica das profissões ligadas à saúde justamente por meio de uma filosofia adequada, hoje mais necessária do que nunca para combater os sofismas que ameaçam a inteligência humana e seu acesso à realidade. 
A filosofia desenvolverá a capacidade de enxergar através da cortina de fumaça que nos cerca: jogos de palavras e toscas manipulações sedativas. Com a boa filosofia pode-se discernir com qualidade e competência o melhor caminho a seguir e os piores erros a evitar.
É uma filosofia política pujante que permitirá, por exemplo, ao médico e aos demais profissionais da saúde, realizarem seu verdadeiro potencial benéfico para a sociedade.

A filosofia é para aqueles que não têm o que fazer?
É verdade que é necessário um pouco de tempo ocioso para que haja filosofia. Quem não consegue tempo suficiente para uma rotina de estudos, meditação reflexiva, prática e expressão da filosofia não terá sucesso em filosofar.
Muitos usam isso como desculpa para não o fazer. Erram, pois, de regra, gastam enormes quantidades de tempo naquelas baboseiras que somente uma sociedade do espetáculo como a nossa consegue oferecer. Quer tempo para estudar? Desligue a televisão e busque informações somente em veículos confiáveis; é um bom começo. Restrinja o tempo nas redes sociais digitais. Leia. Medite. Escreva. E leia um pouco mais. 
Pessoalmente, creio que a filosofia é justamente para aquelas pessoas extremamente ocupadas. Pessoas para as quais cada minuto é precioso e demanda o máximo de atenção, esforço e carinho pelo que se faz. 
Os momentos de ócio dedicados ao pensamento elevado da filosofia devem ser entremeados pela ação prática e bem pensada no mundo, onde as lições obtidas na profunda reflexão solitária serão exercitadas e gerarão os frutos que comprovarão o acerto nos estudos e reforçarão o caráter do filósofo.
De regra, nosso problema não é falta de tempo ocioso. É como ocupamos nossa excessiva ociosidade contemporânea, é como hierarquizamos nossas atividades cotidianas.

A Filosofia é fonte de problemas.
Eis outra verdade parcial. Há filosofias capazes de destruir a vida humana ou um empreendimento profissional como a medicina.
Já falei um pouco do potencial destrutivo da filosofia ruim ao tratar de ideologia, mas algumas observações ainda cabem.
Uma boa medicina, analisada por meio de uma filosofia adequada, demandará uma cosmovisão bem específica, o que tem sido um dos principais objetivos dos diversos textos sobre a filosofia da medicina que tenho produzido: o esclarecimento da cosmovisão hipocrática e cristã da medicina para que o imaginário profissional seja reconstruído das cinzas que restaram do desmanche civilizacional contemporâneo de nossa cultura.
A medicina precisa de uma boa filosofia para sobreviver. Temos sempre a tendência de hipervalorizar nossos problemas contemporâneos, mas creio que o último século foi realmente o mais perigoso para a cosmovisão médica hipocrática e cristã, no qual visões perigosas atacaram de forma mais pertinaz e de diferentes perspectivas.
Hoje há filosofias comunitaristas, socialistas, egoístas, liberais e transumanistas contra a velha e mal falada visão hipocrática. Cada forma de ver o mundo oferece diferentes perspectivas sobre quem é o ser humano e, consequentemente, sobre qual é o papel da medicina. Nesse oceano de impropérios que nos cerca, uma boa filosofia é essencial para manter o leme rumo ao caminho certo. A filosofia pode ser a fonte de problemas ou a ferramenta ideal para os combater.

O contato com a realidade
Boa parte da filosofia moderna nega ao homem a capacidade de conhecer a realidade como ela é. O indivíduo teria acesso, segundo dita o mainstream da filosofa moderna, somente às suas impressões subjetivas. Por mais elegante que seja anunciar esse ceticismo gnosiológico nos tempos atuais, deve ficar claro que afirmar a incapacidade humana de conhecer a verdade é uma forma grosseira e simplória de pensamento. Também deve ficar claro que esse ceticismo subjetivista é incompatível com a boa medicina.
Imagine um médico que realmente fosse cético e subjetivista nesse sentido filosófico moderno ao estilo de Kant. Agora imagine esse médico auscultando uma bulha cardíaca. Ele estaria percebendo uma sensação própria que não quer realmente dizer que escuta essa bulha cardíaca em si. É um tipo de fenômeno que misteriosamente e inexplicavelmente está ligado a outra subjetividade – a do paciente – e que gera compreensões subjetivas capazes de gerar ações que auxiliarão o paciente. Ou pelo menos o médico em sua subjetividade acha que o diagnóstico de suas próprias sensações alcançou e beneficiou o paciente por meio de sabe-se lá qual providência que aprioristicamente alinhou as sensações subjetivas interpessoais.
É muito solipsismo e muita volta inútil para evitar cair na tão mal falada tese do realismo ingênuo (uma forma de espantalho, no fim das contas). 
Mas como explicar nossa experiência de forma coerente com nosso conhecimento e nossa prática? Como fugir desse idealismo desvairado e completamente incoerente com a boa e cotidiana prática da medicina? 
Defendo que podemos sim ter contato com a realidade e, inclusive, podemos tecer afirmações verdadeiras sobre a realidade em que vivemos. Um médico que realmente defenda postulados ceticistas exagerados ou niilistas não está filosoficamente capacitado para exercer uma boa prática profissional. Todavia, a qual cosmovisão um bom médico deveria aderir?
Afirmo que não há como negar o realismo, não há como fugir de fato da realidade e de nossa capacidade de conhecê-la. Qualquer negação plena dessa realidade ou de nossa capacidade é pura contradição pomposa, é pura pose pseudointelectual. Sobre nossa capacidade irrecusável de apreender a realidade e enunciar símbolos verbais ou escritos acerca dela escreverei ao tratar da Filosofia Concreta, dos Valores, da Ética e da antropologia metafisicamente, ontologicamente e epistemologicamente necessária.[1]
Todavia, antes de prosseguir, é hora de oferecer uma definição para a filosofia, que copio de meu professor, o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho: Filosofia é a busca pela unidade da consciência na unidade do conhecimento e da unidade do conhecimento na unidade de consciência. Acima de tudo, Filosofia é um método de vida e de contemplação amorosa da realidade, uma forma de se colocar na existência dotado de uma consciência desperta, imerso na inteligência do Logos. É realmente buscar a grande coerência da vida, a razão que anima a realidade e, consequentemente, nos anima. Uma vida destituída de verdadeira filosofia – não confunda com erudição filosófica - é uma vida que se animalizou e que se reduziu, que aceitou a condição de uma existência parcial e se negou a tocar na esfera do sentido transcendente.
 A resposta definitiva para o questionamento sobre ser a filosofia irrelevante para a medicina é um estrondoso e necessário não. A filosofia de má qualidade pode até ser deletéria para a medicina, mas irrelevante? Jamais. Já a boa filosofia, por outro lado, não somente é relevante, mas essencial para que não se perca o coração do que se reconhece como boa medicina há mais de dois mil anos, nos mais diversificados contextos da sociedade humana.





[1]O artigo sobre o uso da Filosofia Concreta de Mário Ferreira dos Santos contra o ceticismo gnosiológico moderno e contemporâneo é fruto de uma apresentação do II Seminário Capixaba de Filosofia (SECAFI), que ocorrerá em Vitória, no Espírito Santo, no dia 21 de julho de 2018, e que será publicado em breve.

quinta-feira, 8 de março de 2018

A LEI, de Hipócrates

A LEI , DE HIPÓCRATES

1. A medicina é a mais notável de todas as artes, mas no momento, por ignorância dos que a praticam e daqueles que julgam tais pessoas de forma irrefletida, está em posição muito inferior a todas as demais artes. A causa do erro de julgamento parece-me ser fundamentalmente a seguinte: a única penalidade em assuntos médicos, nas cidades, está limitada a nada além da má-reputação; e isso não afeta aqueles que estão a ela vinculados. Tais pessoas são muito parecidas com os figurantes que se apresentam nas tragédias: da mesma forma que têm postura, traje e máscara de ator, mas não são atores, há também muitos médicos de nome, mas poucos de fato.


2. Pois é necessário, a quem quer que pretenda reunir conhecimentos sólidos de medicina, alcançar o seguinte: disposição natural, ensino, lugar favorável, aprendizado desde a infância, dedicação ao trabalho, tempo. De todas as coisas necessárias, a primeira é a disposição natural; se a disposição natural se opõe, todas as (outras) coisas são vazias; quando a disposição natural leva ao melhor caminho, o ensino da arte acontece. Ela deve ser obtida com reflexão, desenvolvendo-se desde a infância em local favorável ao aprendizado; (deve-se), ainda, acrescentar a dedicação ao trabalho durante longo tempo, de modo que o aprendizado, (uma vez) implantado adequada e vigorosamente, produza frutos.

3. O aprendizado da medicina é semelhante à contemplação do crescimento dos frutos na terra: nossa disposição natural é como a terra; as doutrinas dos que ensinam, como as sementes; os aprendizados desde a infância, o cair delas, no tempo devido, na terra laborada; o lugar onde se dá aprendizado, como o alimento que vem do ar ambiente para o desenvolvimento delas; o amor ao trabalho, (como) o cuidado diário. O tempo fortifica todas essas coisas, para que sejam nutridas por completo.

4. Isso é o que devemos introduzir na arte da medicina para que, depois de termos adquirido completo conhecimento dela, durante as idas e vindas pelas cidades, sejamos considerados médicos não somente de nome, mas de fato. A inexperiência, mau tesouro e mau espólio para aqueles que a têm, em sono ou vigília, não compartilha da alegria e da tranqüilidade, e alimenta a covardia e o atrevimento. Pois a covardia assinala a falta de capacidade; o atrevimento, a falta de perícia. São duas coisas (distintas), portanto, a ciência e a opinião: uma produz saber e a outra, ignorância.


5. As coisas sagradas são reveladas aos homens sagrados; às pessoas comuns (isso) não é permitido, antes de serem iniciadas nos mistérios da ciência. 




ΝΟΜΟΣ

I. Ἰητρικὴ τεχνέων μὲν πασέων ἐστὶν ἐπιφανεστάτη· διὰ δὲ ἀμαθίην τῶν τε χρεωμένων αὐτῇ, καὶ τῶν εἰκῆ τοὺς τοιούσδε κρινόντων, πολύ τι πασέων ἤδη τῶν τεχνέων ἀπολείπεται. ἡ δὲ τῶνδε ἁμαρτὰς μάλιστά μοι δοκεῖ ἔχειν αἰτίην τοιήνδε· πρόστιμον γὰρ ἰητρικῆς μούνης ἐν τῇσι πόλεσιν οὐδὲν ὥρισται, πλὴν ἀδοξίης· αὕτη δὲ οὐ τιτρώσκει τοὺς ἐξ αὐτῆς συγκειμένους. ὁμοιότατοι γάρ εἰσιν οἱ τοιοίδε τοῖσι παρεισαγομένοισι προσώποισιν ἐν τῇσι τραγῳδίῃσιν· ὡς γὰρ ἐκεῖνοι σχῆμα μὲν καὶ στολὴν καὶ πρόσωπον ὑποκριτοῦ ἔχουσιν, οὐκ εἰσὶν δὲ ὑποκριταί, οὕτω καὶ οἱ ἰητροί, φήμῃ μὲν πολλοί, ἔργῳ δὲ πάγχυ βαιοί.

II. Χρὴ γάρ, ὅστις μέλλει ἰητρικῆς σύνεσιν ἀτρεκέως ἁρμόζεσθαι, τῶνδέ μιν ἐπήβολον γενέσθαι· φύσιος· διδασκαλίης· τόπου εὐφυέος· παιδομαθίης· φιλοπονίης· χρόνου. πρῶτον μὲν οὖν πάντων δεῖ φύσιος· φύσιος γὰρ ἀντιπρησσούσης κενεὰ πάντα·  φύσιος δὲ ἐς τὸ ἄριστον ὁδηγεούσης, διδασκαλίη τέχνης γίνεται· ἣν μετὰ φρονήσιος δεῖ περιποιήσασθαι, παιδομαθέα γενόμενον ἐν τόπῳ ὁκοῖος εὐφυὴς πρὸς μάθησιν ἔσται·  ἔτι δὲ φιλοπονίην προσενέγκασθαι ἐς χρόνον πολύν, ὅκως ἡ μάθησις ἐμφυσιωθεῖσα δεξιῶς τε καὶ εὐαλδέως τοὺς καρποὺς ἐξενέγκηται.

III. Ὁκοίη γὰρ τῶν ἐν γῇ φυομένων θεωρίη, τοιήδε καὶ τῆς ἰητρικῆς ἡ μάθησις. ἡ μὲν γὰρ φύσις ἡμέων ὁκοῖον ἡ χώρη· τὰ δὲ δόγματα τῶν διδασκόντων ὁκοῖον τὰ σπέρματα· ἡ δὲ παιδομαθίη, τὸ καθ᾿ ὥρην αὐτὰ πεσεῖν ἐς τὴν ἄρουραν· ὁ δὲ τόπος ἐν ᾧ ἡ μάθησις, ὁκοῖον ἡ ἐκ τοῦ περιέχοντος ἠέρος τροφὴ γιγνομένη τοῖσι φυομένοισιν. ἡ δὲ φιλοπονίη, ἐργασίη· ὁ δὲ χρόνος ταῦτα ἐνισχύει πάντα, † ὡς τραφῆναι τελέως.

IV. Ταῦτα ὦν χρὴ † ἐς τὴν ἰητρικὴν τέχνην ἐσενεγκαμένους, καὶ ἀτρεκέως αὐτῆς γνῶσιν λαβόντας, οὕτως ἀνὰ τὰς πόλιας φοιτεῦντας, μὴ λόγῳ μοῦνον, ἀλλὰ καὶ ἔργῳ ἰητροὺς νομίζεσθαι. ἡ δὲ ἀπειρίη, κακὸς θησαυρὸς καὶ κακὸν κειμήλιον τοῖσιν ἔχουσιν αὐτήν, καὶ ὄναρ καὶ ὕπαρ, εὐθυμίης τε καὶ εὐφροσύνης ἄμοιρος, δειλίης τε καὶ θρασύτητος τιθήνη. δειλίη μὲν γὰρ ἀδυναμίην σημαίνει· θρασύτης δὲ ἀτεχνίην. δύο γάρ, ἐπιστήμη τε καὶ δόξα, ὧν τὸ μὲν ἐπίστασθαι ποιεῖ, τὸ δὲ ἀγνοεῖν.

V. Τὰ δὲ ἱερὰ ἐόντα πρήγματα ἱεροῖσιν ἀνθρώποισι δείκνυται· βεβήλοισι δὲ οὐ θέμις, πρὶν ἢ τελεσθῶσιν ὀργίοισιν ἐπιστήμης.



HippocratesPrognostic. Regimen in Acute Diseases. The Sacred Disease. The Art. Breaths. Law. Decorum. Physician (Ch. 1). Dentition. Translated by W. H. S. JonesLoeb Classical Library 148. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1923.
CAIRUS, Henrique F.; RIBEIRO Jr., Wilson A. Textos Hipocráticos. O Doente, o Médico e a Doença. Coleção História & Saúde. Clássicos & Fontes. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2005.