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sexta-feira, 15 de junho de 2018
O DESAFIO PARA A CARIDADE MÉDICA
Today many Christian physicians, nurse, administrators, and hospitals justify their compromising the virtue of Charity on grounds of exigency and survival. They thus give proof to the mordant observation of Machiavelli that a "man who wishes to act entirely up to his professions of virtue soon meets with what destroys him among so much that is evil". But is not the challenge of Christian ethics to do precisely what Machiavelli thought impossible?
Hoje, muitos médicos, enfermeiros, administradores e hospitais cristãos justificam o comprometimento da virtude da caridade por motivos de exigência e sobrevivência. Dão, assim, prova à mordaz observação de Maquiavel que "um homem que deseja agir inteiramente de acordo com suas profissões de virtude logo encontra o que o destrói entre tantas coisas que são más". Mas o desafio da ética cristã não é exatamente o que Maquiavel considerava impossível?
PELLEGRINO, Edmund D. The Philosophy of Medicine Reborn. A Pellegrino Reader.
sábado, 7 de outubro de 2017
EXCERTOS DE “O MÉDICO VIRTUOSO E A ÉTICA DA MEDICINA”
EXCERTOS DE “O MÉDICO VIRTUOSO E A
ÉTICA DA MEDICINA”
Considerais de qual nobre semente nascestes: Vós não
fostes criados para viverdes como bestas, mas para perseguirdes a virtude e o
conhecimento.
Dante, Inferno 26, 118-120
Edmund D. Pellegrino
Virtude
implica um traço do caráter, uma disposição interna, habituada a buscar a
perfeição moral, a viver a própria vida em acordo com a lei moral, a alcançar o
equilíbrio entre a nobre intenção e a justa ação.
Em
praticamente todas as perspectivas, uma pessoa virtuosa é aquela que podemos
confiar que agirá habitualmente de forma boa – com coragem, honestidade,
justeza, sabedoria e temperança. Ela está compromissada em ser uma boa pessoa e
a buscar a perfeição em sua vida privada, profissional e comunitária. É alguém
que agirá bem até mesmo quando não houver ninguém para aplaudir, simplesmente
porque agir de outra forma é violar o que é ser uma boa pessoa. Nenhuma
sociedade civilizada pode perseverar sem um número significativo de cidadãos
comprometidos com este conceito de virtude. Sem tais pessoas, nenhum sistema
geral de ética poderia transcender os perigos do interesse egoísta.
Contudo,
qualquer tentativa de se definir um médico virtuoso ou uma ética baseada em
virtudes para a medicina deve oferecer uma definição o que é o bem para o
paciente.
Esse
objetivo (o bem do paciente) é central a qualquer noção de virtude peculiar à
medicina como prática.
Todos
os códigos profissionais médicos são erigidos sobre um sistema tríplice de
obrigações relativas ao papel especial que médicos têm em sociedade. Em ordem
ascendente de sensibilidade ética são essas obrigações: prezar as leis da
terra, prezar os direitos e cumprir os deveres e, finalmente, praticar a
virtude.
O
médico virtuoso não age com base no que ele acha ser bom de forma irrazoável ou
sem crítica. Sua ação é ordenada em acordo com a “reta razão” que Aristóteles e
Tomás de Aquino consideraram essencial à virtude.
Uma
ética baseada em virtudes é inerentemente elitista, pois a adesão a ela demanda
mais da pessoa que aspira à virtuosidade do que a moralidade prevalente.
Não
importa o quanto uma sociedade caia. As pessoas virtuosas sempre serão faróis
que iluminarão o caminho de volta à sensibilidade moral. Médicos virtuosos são
os faróis que mostram o caminho de volta à credibilidade moral de toda a
profissão médica.
Precisamos
resgatar a coragem para falar sobre caráter, virtude e perfeição em viver uma
boa vida. Precisamos encorajar aqueles que desejam se dedicar a um padrão mais
elevado de altruísmo. Precisamos de coragem também para aceitar o óbvio abismo
que existe entre aqueles que enxergam e sentem os imperativos altruístas da
medicina e aqueles cegos a essa dimensão.
Esquecemos
de que os médicos, desde o início da profissão, dedicavam-se a diferentes
valores e virtudes. Basta lembrar que o Juramento de Hipócrates era o juramento
de médicos da escola pitagórica num tempo em que a maioria dos médicos gregos
se dedicava a uma ética de ofício (e não a uma ética profissional).
A
ilusão de que todos os médicos compartilham uma devoção comum a um grupo
elevado de princípios morais trouxe prejuízo à medicina por elevar as
expectativas a respeito do que alguns profissionais poderiam ou não cumprir.
PELLEGRINO,
Edmund D. “The Virtuous Physician and the Ethics of Medicine”. In: SHELP, Earl E. Virtue and Medicine: Exploration in the Character of Medicine
(Philosophy and Medicine Series 17). D. Reidel Publishing Company: 1985, p.
243-255.
Tradução
e Seleção: Hélio Angotti Neto
07
de outubro de 2017, Colatina - ES
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
COMEÇA O SEFAM 2017-1: BIOÉTICA E RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE
Seminário de
Filosofia Aplicada à Medicina
Bioética
em Questão: A Relação Médico-Paciente
A formação de um médico deve buscar sempre a
integração entre a ciência e as humanidades, configurando uma preparação para
todas as ações humanas necessárias ao auxílio do próximo.
Neste módulo prático e teórico, o objetivo é
discutir o preparo humanístico dos alunos e, na prática, inseri-los no contexto
de uma aproximação integral à saúde do paciente, utilizando preleções
direcionadas e reflexões sobre situações clínicas reais vividas pelos alunos
em ambientes ambulatoriais e hospitalares.
Serão discutidas e treinadas desde as ações mais
cotidianas no ambiente médico, como a prescrição de uma enfermaria ou a
entrevista clínica, até às mais elaboradas técnicas de comunicação com o
paciente e compreensão das esferas biopsicossociais.
Considerando o conteúdo teórico, serão discutidos os
temas relacionados à formação humanística e filosófica do médico. Um ponto de destaque neste módulo será a discussão da Filosofia da Medicina de Edmund Pellegrino.
As aulas serão de livre acesso para todos os interessados.
CRONOGRAMA
Para o Bem do Paciente 1, a
filosofia de Edmund Pellegrino
Lançamento de livro: A Tradição da Medicina
Para o Bem do Paciente 2, A Esfera
Moral e Social da Relação Médico-Paciente
Para o Bem do Paciente 3, os Limites do Modelo de Autonomia e do Modelo
Paternalista
Hospital Maternidade São José: Práticas na Relação Médico-Paciente
Para o bem do paciente 4, o modelo beneficente
Hospital Maternidade São José: Práticas na Relação Médico-Paciente
Encerramento das atividades.
BIOÉTICA
Uma
Introdução ao Estudo da Vida e da Moralidade
A Bioética é uma das mais fascinantes áreas interdisciplinares
da atualidade. Seu escopo inclui a pesquisa, as relações humanas, os avanços
tecnológicos em saúde, questões civilizacionais de extrema importância e toda a
experiência humana num enfoque voltado à saúde.
Este curso apresentará ao participante as principais
discussões e características dessa área que é tão complexa e necessária para a
discussão acadêmica e científica hoje em dia.
Introdução.
O que é Bioética? A história das pesquisas antiéticas e o surgimento da
Bioética no contexto da evolução tecnológica.
Bioética
e o início da vida. Aborto. Eugenia. Experiências em fetos e embriões.
Bioética
e o fim da vida. Eutanásia. Suicídio assistido. Suicídio. Distanásia.
Ortotanásia. Mistanásia. Contenção de despesas e limites assistenciais.
Bioética
e Pesquisa. Transumanismo. Informação genética e bioética. Manipulação
genética. Clonagem.
Bioética,
Ambientalismo e Política. Filosofia da Ciência.
Bioética
e as raízes da civilização. Grandes debates: Bioética e a objeção da
consciência.
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Educação Médica,
Filosofia da Ciência,
Hélio Angotti Neto,
Humanidades Médicas,
Saúde e Sociedade,
Virtudes da Medicina
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
A TRADIÇÃO DA MEDICINA
A Tradição da Medicina
Prefácio: Eduardo Cabette
Revisão: Rogério Portella
Edição e Capa: Felipe Sabino
Coleção: Academia Monergista
Já disponível pela Amazon! Em breve, na versão impressa.
Este livro esclarece de forma exemplar a ligação indelével entre medicina e moral. Trata-se de reconhecer que a arte médica não pode jamais se reduzir à técnica e que o bom médico não é apenas o que domina os conhecimentos científicos e técnicos, mas o conhecedor e praticante da arte do bom e do justo. Em uma das últimas passagens da obra, Angotti assim se manifesta, proporcionando como que um resumo da mensagem que pretende difundir:
O que o médico deve fazer diante de tudo o que foi exposto? O primeiro passo é praticar a boa medicina. Amar o paciente, ser caridoso, ter compaixão. O segundo passo é estudar profundamente, não só para tratar o paciente de forma técnica, mas também para se tornar um grande humanista. É necessário estudar medicina, filosofia, história, ciências sociais em geral etc. Na concepção do grande médico humanista José de Letamendi e Manjarrés: “O médico que só sabe medicina, nem medicina sabe”. Essa frase de Letamendi precisa ser apreendida pela classe médica.
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sexta-feira, 11 de novembro de 2016
Edmund Pellegrino: One of the Main Inspirations for our Efforts in Medical Humanities
Excerpts from the article by James Giordano: Foni
phronimos – An Interview with Edmund Pellegrino. Philosophy, Ethics, and
Humanities in Medicine 2010, 5:16
Concerning the importance of Medical Humanities.
“Medicine
is the most scientific of the humanities and the most humane of sciences. It
bridges the physical state of the human being with her psychological state, and
I daresay with her spiritual state – however we define that to be. That is not
just a person’s religion, but those transcendent aspects of what she is – and values
– beyond the merely material domains of being.”
“Biotechnology
cannot substitute for moral and ethical reflection. That is why I believe that
Aristotle, Aquinas or Augustine will not – and should not – fade from our view.”
What should we study?
“It is
important that the physician be well trained in liberal arts. (…) those arts
that free our minds from the tyranny of other minds. To do this requires
critical thinking. A differential diagnosis in medicine in an exercise of
dialectics.”
“The idea of prudence is classical; as is the
idea of dialectics. These ideas have origins in Aristotle’s posterior analytics.
So, the point is not that science is unimportant to the physician. Equal time
should be dedicated to the emphasis on how to think about, evaluate and make
prudent decisions because most clinical choices are made without the certainty
of having all the facts, without knowing what the future is going to hold, and
having to weight one thing against another and arrive at what at this moment
concretely represents the right thing and good decision for a particular
patient.”
Original Article available at: https://peh-med.biomedcentral.com/articles/10.1186/1747-5341-5-16
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
O CORAÇÃO DE UM VERDADEIRO MÉDICO
Eis a palestra originalmente proferida no Retiro Anual de Humanidades Médicas da Baylor University em fevereiro de 2016. O conteúdo foi encurtado para quarenta minutos de duração (na forma original tinha mais de duas horas), porém a mensagem essencial permaneceu.
Foi proferida no dia 29 de julho de 2016 no IV Seminário de Humanidades Médicas do UNESC, organizado pela Liga Acadêmica de Humanidades Médicas sediada em Coaltina - ES.
Foi proferida no dia 29 de julho de 2016 no IV Seminário de Humanidades Médicas do UNESC, organizado pela Liga Acadêmica de Humanidades Médicas sediada em Coaltina - ES.
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quinta-feira, 4 de agosto de 2016
BIBLIOGRAFIA EM BIOÉTICA - MAPEANDO O INÍCIO DA JORNADA
Muitos perguntam
quais livros são bons para começarem os estudos em Bioética.
A pergunta é
relevante. Para quem realmente quer entender de qualquer assunto com qualidade,
o levantamento bibliográfico prévio economizará anos de estudos pouco
direcionados e auxiliará a fundamentar um posicionamento ou entender melhor o
contexto de algum autor de grande importância na área.
Para começo de
conversa, já respondo que qualquer embasamento interdisciplinar demorará alguns
anos para acontecer com qualidade. Portanto, acumule paciência e comece a ler e
estudar sem o compromisso de terminar tão cedo.
Edmund Pellegrino, o
"Pai" da Ética Médica contemporânea.
Prepare-se também
para navegar em mares nunca antes navegados (por você, pelo menos)! Nas
palavras de Edmund Pellegrino, pai da ética médica contemporânea, é necessário saber Humanidades Médicas e Filosofia da Medicina se
alguém quiser conhecer a Bioética. Estamos falando de literatura, história,
filosofia (geral e especializada), retórica, lógica, política e muitas outras
áreas.
Diante
da necessidade de criar um referencial teórico mínimo aceitável, temos que
nos perguntar algumas coisas extremamente importantes.
1. Qual o tipo de leitura?
Qual o tipo de
livro que temos diante de nós? É um livro de conteúdo inspiracional e
formativo? Um livro que molda nosso caráter e nossa perspectiva de mundo e nos
inspira a melhorar? Ou é um livro de conteúdo informativo, que nos oferece
material para raciocinar e argumentar? Outra categoria que não tratarei seria a
do livro lúdico, que simplesmente nos diverte sem oferecer conteúdo útil ou
nobre.[1]
Uma leitura
formativa ou inspiracional pode ser repetida várias vezes durante uma vida,
cada vez oferecendo uma nova perspectiva, cada vez mostrando-se mais complexa
quanto mais complexos nós nos tornamos.
Já uma leitura
informativa, deve ser lida uma vez para que se tenha noção de onde buscar
informação relevante, e consultada novamente quando necessário.
2. Qual o foco?
Quando iniciamos
um curso formal de bioética ou humanidades médicas, o foco é adquirir o básico
de uma formação geral na área, pretensamente capaz de lançar o estudioso no
campo de pesquisa com o mínimo de ferramentas necessárias para a argumentação e
progressão nos estudos.
Embora a
aproximação sistemática tenha suas inegáveis vantagens, é difícil compará-la
com o ímpeto e a vitalidade de um estudo baseado em problemas, no qual
iniciamos nossas leituras com base em um tópico de extrema relevância para
nossas vidas, e que atrai intensamente nossa atenção.
Uma mistura
saudável entre ambas as ênfases é interessante. Quantos tesouros eu não
descobri ao ler materiais que não estavam diretamente relacionados a um problema
que eu pesquisava?
3. Por quanto tempo?
Esta resposta é
simples. Até o fim da vida.
Cada dia
aprende-se algo, cada dia nós revisamos nossas perspectivas, para reforçá-las
ou para colocá-las em cheque. Um estudioso dedicado saberá suportar anos de
dúvidas e buscas.
Se não há fibra
para aguentar a aporte de diferentes perspectivas e a vontade de harmonizá-las,
não se deve arriscar uma vida intelectual, ainda mais em Bioética.
Se não há força
de caráter para defender o que se mostrou verdadeiro e correto apesar das
circunstâncias e da pressão externa, não se tem moral para ingressar na vida
intelectual.
4. Quais as obras?
Esta é a pergunta
fácil de responder. Isto não faz com que a resposta deixe de ser inquietante.
Estamos diante de
um campo interdisciplinar que mistura humanidades e ciências. Portanto, a lista
é enorme e variadíssima!
Se alguém deseja
falar algo em Bioética, o mínimo que se espera é uma formação humanística de
qualidade, incluindo os clássicos da literatura e da filosofia mundial, ao lado
de uma formação científica atualizada.
Quando se trata
de Bioética, aborda-se o fenômeno da vida humana e de tudo que a motiva e
enriquece, fala-se das grandes religiões e do sentido da vida, lembra-se das
mais comoventes histórias da humanidade e busca-se a Alta Cultura. Exigir um
pouco menos do que isso já é destruir com a mediocrização todo um projeto de
estudo.
5. A Formação do Imaginário
Começarei pelas
grandes obras poéticas, conforme a classificação aristotélica formulada por
Olavo de Carvalho.[2] São estas as mais importantes obras
que fundamentam nosso imaginário e dão sustentação aos estudos mais complexos e
avançados.
Hans Jonas, um dos
defensores da Responsabilidade em Bioética.
Hans Jonas
aconselha em um de seus livros que, para pensar e agir com
responsabilidade em Bioética, era preciso muita imaginação.[3] E a imaginação bem formada requer a
fundação oferecida pelos clássicos da religião e da literatura, além do aporte
opcional de bons filmes.
A pedra
fundamental para qualquer um que vive na cultura ocidental, em acordo ou
discórdia, é a Bíblia. Não há nem discussão neste ponto. Para abrir a boca e
falar qualquer coisa, o mínimo do mínimo é ter conhecimento das histórias
fundamentais de nossa civilização.
Hoje, qualquer
adolescente imberbe crê ser capaz de criticar milhares de anos de sabedoria e
cultura acumulada. É preciso entender que essa ilusão é incapaz de sustentar
uma verdadeira vida de estudos.
Nietzsche, por
exemplo, foi um grande crítico da cultura ocidental e cristã. Porém, foi
profundo conhecedor daquilo que criticava. Outro exemplo é Rensselaer Van
Potter, autor do primeiro livro de Bioética do mundo, que afirmou ser um
naturalista mecanicista, mas que utilizou explicitamente alguns versículos
bíblicos das cartas apostólicas e dos salmos para argumentar em sua obra
fundamental. As Escrituras, ao lado dos gregos antigos e dos romanos, são
simplesmente as pedras que sustentam toda nossa cultura.
Na Bíblia estão
os dilemas existenciais que assolam ou elevam a humanidade. Guerras, milagres,
esperança, desespero, doença, cura, fé, salvação e perdição. Está tudo lá. A
emotividade dos Salmos, o existencialismo de Eclesiastes, o exemplo do
Cristo e as descrições fenomenológicas da intimidade angustiada do apóstolo.
Num campo onde se discute o certo e o errado, a Bíblia fornece instrumentos
narrativos que povoam o imaginário e potencializam a compreensão do ser humano.
Nesta hora
normalmente alguém se ergue quase ultrajado e diz: e as outras religiões, e o
pluralismo, e os ateus? De que adianta buscar pluralismo sem antes possuir
integralmente alguma das perspectivas? De que adianta buscar uma posição
crítica contra uma perspectiva a qual realmente não se conhece? Desenraizado de
uma Alta Cultura, só restará a superficialidade e a arrogância daquele que
ignora, só restará a impostura.
E nem preciso
comentar o valor da Teologia no campo da Bioética!
Autores
necessários para compreender parâmetros morais e perspectivas ocidentais
incluem Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino, este último dissertando sobre
virtudes e vícios. Recentemente, é impossível não recomendar obras de
intelectuais como Francis Schaeffer e de grandes lideranças religiosas como
João Paulo II e Bento XVI. Teólogos contemporâneos estão por todos os lados em
Bioética, desde o brasileiro Leocir Pessini ao americano Gilbert Meinlander,
importante membro da comissão presidencial de Bioética dos Estados Unidos.
Religião e Bioética definitivamente se misturam e se discutem.
Na literatura
clássica, temos os livros que marcaram nossa civilização. A poesia de Homero,
tragédias gregas escritas por Sófocles e diálogos escritos por Platão abordam
dúvidas existenciais, noções de justiça e convivência em sociedade. Romances
como “A Morte de Ivan Illitch”, de Tolstói, nos ensinam quais são as fases
psicológicas enfrentadas por alguém que se aproxima da morte, tomado por uma
grave doença. Romances mais modernos como “Admirável Mundo Novo”, de Aldous
Huxley, e “1984”, de George Orwell, nos mostram projeções de sociedades futuras
baseadas nos possíveis desenvolvimentos de tecnologias e ideologias da época.
Até mesmo um conto de terror, como “Frankestein”, de Mary Shelley, pode nos
educar quanto a visões tenebrosas do ímpeto prometeico frente ao
desenvolvimento científico e às altas expectativas de sucesso na manipulação da
natureza.
Viktor Frankl,
Psiquiatra Judeu sobrevivente de campos de concentração nazistas.
Nos relatos de
nossa época, encontramos também biografias e estudos perturbadores que
demonstram o caminho que podemos trilhar ao esquecer os nossos valores
civilizacionais. “Em Busca de Sentido”, escrito pelo médico Viktor Frankl,
mostra a existência dentro de um campo de concentração nazista, e contextualiza
os grandes crimes que marcaram o nascimento da Bioética contemporânea.
Para desenvolver
a empatia e a compreensão de nossos idosos, sempre envolvidos em debates
Bioéticos quando se fala sobre utilitarismo e valor da vida humana, sugiro “O
Velho e o Mar”, de Hemingway. E, por que não, “Rei Lear”, de Shakespeare?
Crônicas
interessantes e relatos de médicos nos momentos mais dramáticos da existência
humana são capazes de sensibilizar o mais árido coração. “Sinto Muito”, do
médico português Nuno Lobo Antunes, “Mortais” de Atul Gawande e “O Médico”, de
Rubem Alves, são bons exemplos.
6. A História
Fala-se muita
besteira a respeito de Hipócrates. Muitos acusam ou elogiam sem nunca ter lido
uma obra hipocrática sequer. Alguns acham realmente que a discussão ética
nasceu com a bioética – gosto de pensar que estes são poucos, mas tenho a forte
impressão de que são Legião!
Julgo que as
obras hipocráticas e galênicas são indispensáveis, todas elas.
Visões gerais do
passado e da validade dos fundadores da ética médica podem ser obtidas em
grandes historiadores modernos e contemporâneos como Ludwig Edelstein, Owsei
Temkin, Albert Jonsen, Allasdair McIntyre e Gary Ferngren. Em sua obra
Fundamentos de Bioética, Diego Gracia também apresenta um panorama histórico e
filosófico valioso.
Diego Gracia, discípulo
do filósofo espanhol Xavier Zubiri. Filósofo e Médico.
Aproveito também
para falar das línguas necessárias. O mínimo que se espera de um estudioso
brasileiro da Bioética é o conhecimento de inglês, português e espanhol, além
de uma boa disposição em aprender algo de grego e latim, se ousar passear pela
história. Ler em espanhol a obra de Diego Gracia - aprendiz de Xavier Zubiri,
médico da Real Academia Espanhola de Medicina e um dos maiores bioeticistas
vivos do mundo - é elemento obrigatório. O espanhol também possibilitará a
leitura de outros gigantes das Humanidades Médicas como Pedro Laín-Entralgo.
7. Os Fundamentos
Um
volume básico e geral é “Para Fundamentar a Bioética” de Ferrer, que mostra uma
visão bem geral deste amplo campo de estudo.
Na
área específica de Filosofia da Medicina, uma boa introdução é o livro escrito
pelo meu amigo James Marcum, da Baylor University: “Humanizing Modern Medicine: An Introductory philosophy of medicine”. Marcum aprendeu diretamente de dois
grandes intelectuais: Bernard Lonergan e Thomas Kuhn.
Além
da obra já citada de Diego Gracia, de grande valor para o estudo da história e
dos fundamentos da Bioética, cabe lembrar dos livros fundamentais de cada
escola de pensamento. “Fundamentos de Bioética” de Tristram Engelhardt e “Fundamentos
de Bioética Cristã Ortodoxa”, do mesmo autor, são obras básicas, assim como a
“bíblia” do Principialismo, “Princípios de Ética Biomédica”, de Beauchamp e
Childress. A escola baseada em Virtudes conta com as obras do pai da Ética
Médica contemporânea, o saudoso Edmund Pellegrino: “For the Patient’s Good”,
“The Virtues in Medical Practice” e “The Christian Virtues in Medical Practice”.
A escola personalista dos católicos é bem representada no Brasil pela obra em
dois volumes do Cardeal Elio Sgreccia, “Manual de Bioética”, e encontram-se
diversos outros livros escritos também por autores protestantes que lançam
fundamentos éticos nas questões ligadas à vida humana, como o livro Ética
Cristã de Norman Geisler e a série Bioética, publicada pela Editora Cultura Cristã.
Na
categoria curiosidade histórica, recomendo o livro “Bridge to the Future”, o
primeiro livro de Bioética do mundo - muito citado e pouco lido - escrito por
Van Renselaer Potter. Como foi lançado pela Loyola recentemente, deverá ser
lido por muitos daqueles que sempre o elogiaram de ouvir falar.
Uma
necessidade negligenciada por muitos, é beber nas melhores fontes de nossa Alta
Cultura. Lembro até hoje das palavras que ouvi do médico-filósofo Diego Gracia
num Congresso Brasileiro de Bioética: “o melhor livro de bioética do mundo foi
escrito há tempos, por Aristóteles. É Ética a Nicômaco.” Não diria que é o
melhor, mas que é indispensável. Como eu esperava, alguns riram de forma rude
do convidado estrangeiro, mostrando o pior lado do ódio que uma fração
expressiva de nosso povo nutre à inteligência e à cultura.
8. A Biopolítica
Bioética
e política estão ligadas profundamente. Não se trata de bioética sem as devidas
considerações políticas, jamais.
Fundamentos
do pensamento político incluem “A República”, de Platão; “Política”, de
Aristóteles; “Arte da Guerra”, de Sun Tzu; “O Príncipe”, de Maquiavel, ao lado
da crítica demolidora escrita por Olavo de Carvalho, de quem eu recomendo
também “A Nova era e a Revolução Cultural”, “Como Vencer um Debate sem Precisar
Ter Razão” (na verdade escrito por Schopenhauer e anotado por Olavo de
Carvalho), “O Mínimo que Você Precisa Saber Para Não Ser um Idiota”, “Os
Estados Unidos e a Nova Ordem Mundial” e toda a série de comentários políticos,
filosóficos e culturais publicada pela Vide. Do ponto de vista psiquiátrico e
estratégico, recomendo especialmente a obra de Andrew Lobacewski, “Ponerologia
Política”, e a obra de Heitor de Paola, “Eixo do Mal Latino-Americano”, esta
última mais estratégica do que psiquiátrica, embora também tenha sido escrita por um
especialista da área.
Algumas
obras que ajudam a contextualizar os conflitos ideológicos globais e entender
as bases do pensamento político, estratégico e econômico que interferem sem
parar na Bioética são: “Política da Prudência”, de Russel Kirk; “O Que é
Conservadorismo”, de Roger Scruton; “Rules for Radicals”, de Saul Alinski;
“Estratégia e Hegemonia Socialista”, de Ernesto Laclau, etc.
Um
autor que ainda é pouco conhecido na Academia brasileira é Eric Voegelin, que
trata de história e política com maestria, e que oferece uma nova forma de
avaliar e julgar a cultura e a política. Visões de grande interesse e
relevância incluem também os escritores romenos Vladimir Tismaneanu e Gabriel
Liiceanu, com seus relatos e estudos assustadores do potencial destrutivo do
ser humano e das suas distopias.
Na
política externa, tão importante quanto à política interna, para compreender o
Brasil, sugiro as obras e escritos de Paulo Roberto de Almeida, um diplomata na
linha tradicional de excelência do Itamaraty, da época anterior ao desmanche
feito pelo Partido dos Trabalhadores e que agora retorna com o devido
reconhecimento ao Instituto Rio Branco.
9. Estudo de acordo com problemas
E
enquanto se adquire a fundação que permitirá crescer em conhecimento, deve-se
estudar muito conteúdo relacionado ao seu interesse específico. Aborto,
Transumanismo, Eugenia, Clonagem, Ética Profissional e Corporativismo, Questões
de Autonomia do Paciente, Religião e Saúde, Saúde Pública e o que mais
interessar.
Comece
elaborando uma abrangente e extensa bibliografia, sabendo de cada obra o autor,
quando foi escrita, o principal tema tratado e as conclusões. E leia, mesmo que
pouco, todos os dias.
Uma
excelente para quem deseja encontrar uma bibliografia prévia dividida por
assuntos é o portal do Center for
Bioethics and Human Dignity, que oferece uma diversificada e valiosa lista
de fontes bibliográficas divididas por assuntos de interesse. Navegue em https://cbhd.org/category/bibliography e descubra por si mesmo!
E,
obviamente, nada substitui uma visita à biblioteca de um centro de estudos ou à
biblioteca privada de um grande estudioso.
Para
manter-se informado nos mais diversos temas, um recurso importante é o portal
de notícias bioéticas, www.bioethics.com, também organizado pelo Center for Bioethics and Human Dignity.
Creio ser um dos mais atualizados centros de notícias da área.
10. Periódicos
Além
de livros e portais especializados em Bioética, há que se buscar as fontes de
artigos de maior qualidade no mundo. Alguns dos melhores periódicos
seriam os seguintes: Hastings Report, Kennedy Isntitute of Ethics Journal,
American Journal of Bioethics e Journal of Medicine and Philosophy. Há muitos outros, específicos para
temas como Neuroética, Comitês de Ética em Pesquisa etc.
11. Meta-Estudo
Há
livros e cursos que tratam especialmente de como estudar e de como desenvolver
uma vida intelectual. Recomendo “A Vida Intelectual”, de Sertilanges; “Como Ler
Livros”, de Mortimer Adler; e cursos ministrados por Olavo de Carvalho
incluindo: “Como tornar-se um Leitor Inteligente”, “Introdução ao Método
Filosófico” e “As Bases da Auto-Educação”.
Em
relação ao volume de estudo, uma expectativa adequada seria a de ler pelo menos
uns cinquenta livros por ano. Algo bem razoável para atingir um padrão
minimamente adequado em cerca de dez anos de estudo.
E
antes que alguém comece a achar que a lista está muito grande, é necessário
saber que o volume de publicações em Bioética aumenta vertiginosamente a cada
ano. Portanto, mãos à obra!
Prof. Dr. Hélio Angotti Neto é Coordenador do Curso de Medicina do
UNESC, Diretor da Mirabilia Medicinæ
(Revista internacional em Humanidades Médicas), Membro da Comissão de Ensino
Médico do CRM-ES, Visiting Scholar da Global Bioethics Education Initiative do
Center for Bioethics and Human Dignity em 2016, Membro do Comitê de Ética em
Pesquisa do UNESC e criador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina
(SEFAM).
Mirabilia Medicinæ: http://www.revistamirabilia.com/medicinae
[1] SERTILLANGES,
Antonin-Dalmace. A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus
métodos. São Paulo: É Realizações, 2010.
[2] CARVALHO,
Olavo de. Aristóteles em Nova Perspectiva: Introdução à Teoria dos Quatro
Discursos. Campinas, SP: VIDE Editorial, 2014.
[3] JONAS,
Hans. Técnica, Medicina e Ética. Sobre a Prática do Princípio Responsabilidade.
São Paulo: Paulus, 2013.
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