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sábado, 9 de janeiro de 2021

O Médico na Gestão

Muitas vezes me perguntam se cabe ao médico atuar na gestão privada ou pública. Recentemente fui convidado a pronunciar-me sobre essa possibilidade em um congresso da Associação dos Estudantes de Medicina do Espírito Santo e considerei pertinente escrever algo sobre isso que complementasse minha participação no evento.



Em minha época de graduando e residente, normalmente não víamos os gestores com bons olhos. Há um preconceito básico contra os médicos que se “desviam” do caminho da medicina para realizar atividades ligadas à gestão. Hoje, ocupando um cargo de Secretário Nacional no Ministério da Saúde, depois de passar pela residência na Universidade de São Paulo, onde também passei pelo Doutorado, e depois de atuar como médico na assistência tanto no âmbito público quanto no privado e como Coordenador de Curso de Medicina (o que já é um cargo de gestão em educação), posso dizer que adquiri uma visão um pouco mais madura a respeito dessa questão. Não há como negar que a dedicação de duas décadas aos estudos das Humanidades Médicas também foi crucial para a formulação de uma visão mais complexa.

O primeiro aspecto a ressaltar é que o médico tem um compromisso ético de agir como tal em qualquer âmbito no qual os conhecimentos médicos sejam utilizados. O que inclui sua atuação na assistência, na docência, na pesquisa ou na gestão. E, desde a antiguidade, o médico tem sim o papel de atuar na esfera pública, cuidando da saúde no âmbito político, sendo ouvido por autoridades responsáveis pelas grandes decisões ou tomando também parte nas grandes decisões.

Um exemplo histórico, retirado da obra de Platão, é a constatação de que atenienses se reuniam para deliberar sobre questões de saúde pública e recorriam à sabedoria profissional dos médicos.

ΣΩ. λλ᾿ ἐάν τε πνης ἐάν τε πλοσιος   παραινν, οδν διοσει θηναοις, ταν περ τν ν τ πλει βουλεωνται, πς ν γιανοιεν, λλ ζητοσιν ατρν εναι τν σμβουλον.

soc. Se seu mentor é rico ou pobre nenhuma diferença faz para os atenienses quando deliberam acerca da saúde dos cidadãos. Tudo o que eles exigem de seu conselheiro é que ele seja um médico.[1]

O médico permanece atrelado às exigências profissionais mesmo quando atua publicamente e isso não é, portanto, nenhuma novidade.

Aliás, o fato de ser um doutor – ou um douto, em linguagem mais antiga – por acumular uma grande amplitude de conhecimentos, dá ao médico grande autoridade frente ao público, e com essa autoridade, uma enorme responsabilidade.

Tal responsabilidade não deve ser negligenciada, e o médico precisa buscar o conhecimento e a técnica adequada para lidar com as grandes questões que afetam sua comunidade e sua civilização. Daí a importância da Filosofia e das Humanidades Médicas, que incluem as Artes Liberais: Gramática, Retórica e Lógica. 

Nas palavras de Sir Roger Scruton:

(...) as pessoas vão obter educação somente se elas a desejarem por seu próprio fim, mas conseguirão bem mais do que isso. Elas vão adquirir a habilidade de se comunicar, de persuadir, de atrair e de dominar. 

Em qualquer arranjo social, tais capacidades serão vantagens, mas a educação nunca pode ser buscada somente como meio para elas, mesmo se são sua consequência natural.[2]

Essa detenção de conhecimentos, técnicas, moral profissional e elevada capacidade de impacto social facilitam o caminho para postos de liderança. Negligenciada essa vocação de liderança e essa responsabilidade, o que se segue é a possibilidade de ser utilizado como massa de manobra para interesses diversos que não aqueles ligados à saúde ou ao estatuto moral da profissão.

Um médico que negligencia esse chamado à responsabilidade da vida pública e que se recusa a adquirir o preparo humanístico adequado é como um daqueles prisioneiros acorrentados no fundo da caverna descrita por Platão em seu Livro VII de A República. Só que no caso do médico que não imergiu nos estudos humanísticos, o prisioneiro continua sentado e virado para o fundo da caverna, mesmo que alguém se ofereça para lhe soltar as correntes. 

A pior escravidão é, de fato, aquela que surge pela falta de desejo da liberdade ou do apego doentio a uma condição sub-humana.

E o contexto recente da medicina no Brasil desvela claramente as consequências trágicas do abandono do legado cultural e moral de grande parte da classe profissional. Há uma perda difusa de credibilidade, perda da união profissional, várias tentativas de rotulação odiosa por parte de certas autoridades, desvalorização do trabalho médico, perda de liderança em postos de atendimento ou gestão, ausência de formação humanística de qualidade nas escolas e ausência de formação política adequada.

Diante desse cenário preocupante, o que se deve fazer?

Confio pouco em soluções maravilhosas, panaceias que resolverão o problema de todos, e duvido que impor um currículo básico seja suficiente. Aliás, no ambiente altamente ideologizado e medíocre em termos culturais cultivado por alguns que almejam ensinar Humanidades Médicas – ou fazer proselitismo político barato, em grande parte dos casos –, ouso afirmar que certas iniciativas serão até mesmo deletérias, servindo apenas para treinar militância acéfala ou causar ojeriza pelos estudos das humanidades. 

Contudo, um caminho mais ou menos seguro é estudar de forma interessada e autônoma a ciência política, a estratégia e as humanidades em geral, absorvendo o legado cultural milenar de nossa civilização, isto é, buscando o que muito apropriadamente é chamado de Alta Cultura. Com base nesse estudo sério e profundo, pode-se traçar planos de ação no âmbito da política e da gestão, compreendendo como a gestão pública e a gestão privada impactam a vida em sociedade como um todo. E todo esse estudo de nada valerá se não ocorrer um esforço contínuo de aprimoramento do caráter. Somente assim um profissional médico estará apto realmente a ocupar um cargo público: sendo uma boa pessoa e um bom médico.

Se o conhecimento é consolidado na solidão e no silêncio, o caráter, por outro lado, é forjado no calor da batalha. Não é à toa que se aprende tanto no internato e na residência médica, quando se está imerso na dura e crua realidade assistencial.

O médico tem uma oportunidade preciosíssima de se tornar um bom gestor, pois vivencia realidades múltiplas que lhe dão acesso a experiências cruciais na formação humanística e profissional. Desde a assistência em unidades básicas de saúde em bairros e em alas hospitalares até estar presente na formulação de grandes políticas de saúde pública, o médico tem a oportunidade de adquirir uma perspectiva realmente ampla sem se esquecer do cotidiano e do específico.

Resumindo o que chamo de ciclo virtuoso da ação pública, o que se tem é a aquisição ampliada de conhecimento e experiência de vida que leva ao aumento da responsabilidade. O aumento da responsabilidade, quando assumido com nobreza, gera a confiança em meio à sociedade. Essa confiança gera autoridade e deferência por parte do público. A autoridade inevitavelmente gera maior impacto social por parte do profissional, que adquire grande capacidade de influenciar os rumos da sociedade. E, por fim, esse impacto gera maior necessidade de conhecimento para qualificar os próprios atos e decisões, o que reinicia o ciclo de aumento de responsabilidade.

E o que seria esse estudo das humanidades capaz de ajudar na construção de um bom gestor médico? Como realizar esse estudo, indo além dos conteúdos específicos de administração? Essa é a proposta do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina, abordada em outros escritos diversos.[3]

Utilizado de forma adequada, o papel de gestor pode salvar incontáveis vidas, auxiliar nas necessidades de famílias e de todo um país e promover constante aperfeiçoamento da profissão na busca pela excelência. Eis um dos mais complexos papéis que o profissional médico pode almejar e também um daqueles de maior impacto na sociedade. 

O reconhecimento dessa possível missão deve ser devidamente tratado desde a graduação para que se evite uma geração de profissionais destituídos das competências da liderança e da nobre vocação de atuar com o bem público e individual em mente.

 

Hélio Angotti Neto

Brasília, 09 de janeiro de 2021.

 



[1] PLATO. Charmides. Alcibiades I and II. Hipparchus. The Lovers. Theages. Minos. Epinomis. Loeb Classical Library 201. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1927, p. 110-11.

[2] SCRUTON, Sir Roger. O que é Conservadorismo. São Paulo: É Realizações, 2015.

[3] ANGOTTI NETO, Hélio. A Tradição da Medicina. Brasília: Academia Monergista, 2012; ANGOTTI NETO, Hélio. Bioética: Vida, Valor e Verdade. Brasília: Editora Monergismo, 2019.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O ESTADO COMO PARTE DA REVOLUÇÃO

O ESTADO COMO PARTE DA REVOLUÇÃO
Comentários sobre O Estado e a Revolução, de Vladímir Ilitch Lênin

LÊNIN, Vladímir Ilitch. O Estado e a Revolução. São Paulo, SP: Boitempo, 2017, 214p.

Lênin foi, sem dúvida, um dos grandes intérpretes e aplicadores da obra de Karl Marx e Friedrich Engels. Assim, pelo menos, creem vários dos grandes nomes dentro do próprio movimento revolucionário. Para György Lukács, “Lênin restabeleceu a pureza da doutrina marxiana”. Considerando a forma da revolução, uma das estrelas contemporâneas do movimento revolucionário, Slavoj Zizek, preconiza que “mais do que nunca, devemos voltar a Lênin (...) – a intervenção deve ser verdadeiramente política, não econômica”. 

Portanto, antes que algum desinformado venha com a conversa de que “deturparam” Karl Marx pela milionésima vez, vou deixar claro que Lênin aplicou de forma fiel o que Marx e Engels pregavam, e sua sangrenta prática política revolucionária ainda é louvada, ainda mexe com o ideário marxista contemporâneo e ainda oferece caminhos, como a própria comentarista da edição recente de O Estado e a Revoluçãoafirma: 

(...) mais do que nunca, e principalmente para as novas gerações, os clássicos do marxismo são necessários. E, se Lênin é um companheiro nesta caminhada, sua obra é um farol que nos ajuda na travessia – com sua coesão, sua fidelidade aos fundadores do materialismo dialético, sua consciência dos limites da ação, seu destemor diante de passos ousados, sua firmeza diante da tarefa de guiar os camaradas, sua denúncia dos que se venderam por um prato de lentilhas.[1]

Sim, toda a violência e a ânsia pelo extermínio continua em voga. Pode ser que o polido verniz da democracia burguesa ainda impeça que estudiosos marxistas hoje falem abertamente da forma como Lênin e Marx falavam no passado. Contudo, lá no fundo, muitos deles guardam a velha esperança de ver o sistema estatal cair em suas mãos definitivamente, para que possam promover a ditadura do proletariado que, sugestivamente, mistura soldados e proletários. Todavia, na prática histórica, sofreram tanto os burgueses quanto os proletários nas mãos armadas da elite revolucionária, ainda mais desigual, ainda mais tirana e ainda mais corrupta do que qualquer burguesia precedente.[2]

No seu pequeno livro, Lênin reúne algumas teses clássicas do pensamento revolucionário marxista: (1) O socialismo é um primeiro passo no qual o Estado é tomado pelos proletários, (2) o capitalismo é quem leva à sua própria destruição, (3) a burguesia deve ser suprimida por meio da violência armada e (4) após o socialismo instalado, virá uma era verdadeiramente comunista, na qual a regra será “de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades.”

Contrariando os socialistas que tentam redimir a imagem de Marx, Engels e Lênin, a linguagem é clara: a violência é o caminho. A derrubada da burguesia tem que ser violenta, enquanto o definhamento do Estado ocorrerá entre o socialismo e o tão sonhado comunismo.

Já dissemos, e mostraremos mais detalhadamente na exposição a seguir, que a doutrina de Marx e Engels sobre a inevitabilidade da revolução violenta refere-se ao Estado Burguês. Este não pode ser substituído pelo Estado proletário (pela ditadura do proletariado) pela via do “definhamento”, mas apenas, como regra geral, por meio da revolução violenta.[3]

A substituição do Estado Burguês pelo proletário é impossível sem a revolução violenta. A extinção do Estado proletário, ou seja, a extinção de todo o Estado, é impossível de outro modo senão por meio de seu definhamento.[4]

A visão leninista do Estado tem caráter pragmático, reconhecendo seus aspectos coercitivos e nocivos, como também fazem os liberais, em certa medida. Todavia, por outro lado, Lênin e seus descendentes revolucionários desejam instrumentalizar o Estado para a tomada e a manutenção do poder. Esse uso do Estado para suprimir violentamente outras classes não foi um experimento teórico, foi um experimento prático que realmente levou à morte mais de cem milhões de pessoas na União Soviética e na China Maoísta. 

O Estado é a organização especial do poder, é a organização da violência para a repressão de uma classe qualquer. (...) Os trabalhadores precisam do Estado apenas para reprimir a resistência dos espoliadores e dirigir essa repressão, trazê-la à vida; apenas o proletariado está e condições de fazer isso, como única classe revolucionária até o fim, única classe capaz de unir todos os trabalhadores e explorados na luta contra a burguesia, por seu completo afastamento.[5]

O anseio pela tomada do Estado é algo que permanece no movimento revolucionário desde suas origens. Em formulações posteriores como a de Antônio Gramsci, o foco pode sair um pouco da política – como era no caso de Lênin – e caminhar para a instrumentalização da cultura; contudo, o Estado ainda é a peça-chave.

O Brasil é um exemplo recente de tomada cultural de Igrejas, Escolas e Universidades para ascensão política posterior e uso do aparelho de Estado para fortalecimento próprio e desenvolvimento de um processo de feedbackpositivo entre meios culturais, políticos e econômicos para a criação da hegemonia. O Partido dos Trabalhadores teve a estratégia e a paciência de pôr em prática a Grande Marcha Para Dentro das Instituiçõese fazer uso descarado do Estado para enriquecer e se estabelecer por anos no poder. Para a sorte do povo brasileiro, o projeto de violência política não foi iniciado, mas o processo de vitimização própria como justificativa para agressão contra o outro emplacou totalmente, uma prescrição leninista que justificava o extermínio com base na busca de justiça pelo sofrimento de uma classe espoliada.

As classes espoliadas precisam do domínio político em nome do interesse da completa extinção de toda a espoliação, ou seja, do interesse da imensa maioria do povo contra a minoria insignificante dos escravistas contemporâneos, ou seja, os latifundiários e os capitalistas.[6]

Muito interessante é que no Brasil do Partido dos Trabalhadores, a elite política e seus asseclas que se intitulavam pertencentes à classe dos trabalhadores – mesmo que nunca tenham de fato trabalhado, na concepção real do termo – uniram-se justamente aos maiores empresários do país, montando a maior teia de corrupção e evasão de divisas públicas da nossa história e talvez da história mundial.

Em uma manobra que não guarda nada de imprevisibilidade, os que se diziam “espoliados” uniram-se aos muito fortes e instrumentalizaram os fracos para obliterar cada vez mais a classe do meio. Um clássico mecanismo de concentração de poder tirânico prescrita desde Platão e descrita de forma excelente por Bertrand de Jouvenel.[7]

Friedrich Engels, citado por Lênin, somente reforça o sentimento de autoritarismo necessário para o empreendimento da revolução:

Uma revolução e certamente a coisa mais autoritária que há; é o ato pelo qual uma parte da população impõe à outra parte sua vontade por meio de espingardas, baionetas e canhões, ou seja, por meio autoritários por excelência; e o partido vitorioso, se não quer ter combatido em vão, deve continuar esse domínio com o terror que as suas armas inspiram aos reacionários.[8]

A ideia leninista de que há duas fases, uma socialista e uma comunista, repete-se em outras obras suas como Socialismo, Doença Infantil do Comunismo. Mas o que se vê ao lançar os olhos sobre a história dos últimos dois séculos, é um socialismo que se implanta e invariavelmente estagna, pois, na prática, após mais de um século de sangrentos experimentos sociais, o comunismo continua servindo somente como ópio para os intelectuais e moedor de carne contra as massas.

Assim, na primeira fase da sociedade comunista (que se costuma chamar socialismo), o “direito burguês” não é abolido completamente, mas apenas em parte, na medida em que a revolução econômica foi realizada, isto é, apenas no que diz respeito aos meios de produção. O “direito burguês” atribui aos indivíduos a propriedade privada daqueles. O socialismo faz deles propriedade comum. É nisso – e somente nisso – que o direito burguês é abolido.[9]

O aparelhamento socialista promovido no Brasil dentro do Supremo Tribunal Federal e toda a ideologia de distorção jurídica em prol da revolução confirmam a docilidade ainda presente frente às teses leninistas. Mesmo que nominalmente a propriedade continue privada, a cada dia mais regulamentações e impostos deixam bem claro que o proprietário cada dia mais pode ser reconhecido como proprietário de alguma coisa somente por concessão e “extrema bondade” do Estado, seu senhor. Mesmo que tenhamos leis, a cada dia os revolucionários de toga distorcem e torturam o texto para que lhes saia das páginas de papel exatamente o que mandam seus corações, já tão escravos de sua patota ideológica.

Talvez seja este o impedimento para uma aliança entre liberais e socialistas, como tanto desejou Murray Rothbard, contra os conservadores.[10]Os socialistas – eternas encarnações infantis dos comunistas, conforme Lênin – sempre estarão dispostos a usar e abusar profundamente do Estado, assim como sempre estarão dispostos a aumenta-lo indefinidamente, enquanto a própria ideia de um Estado grande desperta repulsa intensa e imediata nos bons liberais.

A “morte gradual do Estado” somente ocorreria, no discurso leninista, após a completa instalação da ditadura do proletariado socialista. Até esse ponto ainda jamais alcançado, o papel central do Estado é destruir certos componentes da população. Portanto, qualquer tentativa de creditar os terríveis massacres feitos pelos regimes socialistas mundo afora a pessoas que “não fizeram o socialismo direito” somente poderá ser fruto da extrema ignorância irresponsável ou do mais profundo cinismo. “Esmagar” pessoas sempre foi a meta dos clássicos marxistas e leninistas.

O Estado morre na medida em que não há mais capitalistas, em que não há mais classes e, por isso, não há mais necessidade de esmagar nenhuma classe.[11]

E esse banho de sangue, no seu ápice extremo, finalmente levará ao paraíso terrestre, pois

O Estado poderá desaparecer completamente quando a sociedade tiver realizado o princípio “de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades”.[12]

Essa promessa de uma consumação escatológica dos tempos atuais para alcançar um estado de glória terrena é o que Eric Voegelin acusou de Imanentização do Eskathón.[13]É uma promessa de expectativa quase religiosa capaz de motivar as inversões da mentalidade revolucionária descritas pelo Filósofo brasileiro Olavo de Carvalho. Em prol de uma causa maravilhosa, o revolucionário em busca de concentração de poder julga a realidade sob três importantes inversões: 

1 - A inversão temporal, na qual se faz no presente aquilo que é considerado necessário para a concretização de um futuro certo; 

2 - A inversão moral, na qual se defende a realização de um ato cruel em prol de uma boa causa; 

3 - A inversão agente-objeto, na qual o praticante de determinado ato se vê como vítima da imperiosa necessidade histórica. 

E se você acha que os olhos sempre vigilantes do Big BrotherOrwelliano foram uma inovação stalinista, é porque não prestou atenção na antiga prescrição de onipresença estatal socialista. É curioso quando jovens socialistas dizem combater a opressão policialesca do Estado em prol da liberdade. Mal sabem eles que lutam pelo mais violento e opressor dos Estados. Ou, se sabem, são perigosos bandidos capazes de gerar grande mal e destruição na sociedade.

Até a chegada dessa fase superior do comunismo, os socialistas exigem a fiscalização rigorosa do trabalho e do consumo pela sociedade e pelo Estado, mas essa fiscalização deve começar pela expropriação dos capitalistas e ser exercida pelo Estado dos operários armados, não pelo Estado dos funcionários.[14]

Esse exercício do poder estatal pelos “operários armados” pode, inclusive, degenerar a condição de classe daqueles que ocupam o Estado em processo de definhamento. Lênin prevê a corrupção de alguns elementos revolucionários por causa do contato com a máquina burocrática do Estado arrancada das mãos da burguesia. É como se os revolucionários se tornassem aburguesados. 

(...) pessoas privilegiadas, desligadas das massas, colocadas acima das massas. Nisso reside a essência do burocratismo e, enquanto os capitalistas não forem expropriados, enquanto a burguesia não for derrubada, até esse momento é inevitável certa burocratização mesmo dos funcionários proletários.[15]

Em relação à tão querida democracia, palavra que incontáveis intelectuais usam com boca cheia e cérebro ausente, Lênin tece críticas formais ainda hoje reproduzidas com muita correção por bons cientistas políticos. Aliás, os anarcocapitalistas guardam, de forma semelhante, uma visão pragmática e pessimista da democracia, e têm sua boa cota de razão.[16]

A democracia é uma das formas, uma das variantes do Estado. Por consequência, como todo Estado, ela é o exercício organizado, sistemático, da coerção sobre os homens.[17]

A gradual transformação socialista da sociedade, inclusive, deve contar com a utilização daqueles mesmos que devem ser destruídos. Realidade também presente no Brasil, onde a burguesia docilmente oferece todas as armas que socialistas precisam para a oprimir e, por fim, destruir. 

(...) é totalmente impossível derrubar, de um dia para o outro, os capitalistas e os funcionários e substituí-los, no controle da produção e da repartição, no recenseamento do trabalho e dos produtos, pelos operários armados, pelo povo inteiro e armas.[18]

A progressiva estatização dos bens e a onipresença estatal foram elementos básicos na agenda política recente do Brasil, promovida pelo Partido dos Trabalhadores. Que muitos ainda tenham ousado chamar o Partido dos Trabalhadores de “direita”, só pode ser uma piada de mal gosto ou a completa ignorância política. Lênin já deixava claro em sua obra a necessidade de inchar a máquina estatal, exatamente como fez o partido no Brasil. Lênin só não previa ou deixava transparecer a pobreza generalizada e o grande risco que isso ofereceria a um país inteiro.

Contabilidade e controle – eis as principais condições necessárias para o funcionamento regular da primeira fase da sociedade comunista. Todos os cidadãos se transformam em empregados assalariados do Estado, personificado, por sua vez, pelos operários armados. Todos os cidadãos se tornam empregados e operários de um só “grupo econômico” nacional do Estado.[19]

Sobre a relação dos socialistas petistas brasileiros com tucanos – membros do PSDB –, é impossível não tecer uma analogia com a relação de amor e ódio entre radicais e moderados, mencheviques e bolcheviques, e até mesmo entre as incontáveis facções do movimento revolucionário. A tolerância com os membros mais radicais e a crítica contra aqueles que são moderados sempre foi vocação do movimento revolucionário, assim como a vontade dos moderados em serem vistos como puros de esquerda também sempre esteve presente. O resultado muitas vezes termina em banhos de sangue ou traições, mas esta é a natureza do mal: consumir a si mesmo até sua destruição. Lênin tece duras críticas aos demais revolucionários, que ousam vender sua ideologia à concepções burguesas como a vontade da maioria. O caminho do sucessor de Marx sempre foi a tomada violenta por uma elite revolucionária.

Kautsky passa do marxismo para os oportunistas, pois nele desaparece por completo justamente essa destruição da máquina de Estado, de todo inaceitável para os oportunistas, e deixa-lhes uma saída no sentido de interpretar a “conquista” como uma simples obtenção da maioria.[20]

Um verdadeiro revolucionário pode até atuar sob a democracia, mas a violência escatológica e imanente está lá. O sentimento de santidade pessoal, imaculada até mesmo pelos mais atrozes atos, permanece ainda hoje no imaginário dos tardios descendentes do marxismo e de seus ramos. Esses atos podem consistir de roubos bilionários que comprometem toda a qualidade de vida da massa populacional, facadas na barriga de concorrentes políticos – como a que aconteceu no 6 de setembro da Rua Halfeld, em Juiz de Fora, quando um radical de esquerda quase matou o presidente posteriormente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro – ou a emissão das mais descaradas mentiras em prol do projeto político.

Que os leitores atuais não se enganem. Lênin é um dos maiores estrategistas do movimento revolucionário mundial, ao lado de seu camarada Stálin. Sua obra é uma obra de alguém cruel, talvez até mesmo de um psicopata, mas não há como negar uma visão astuta de como agir em prol de sua utopia tirânica. Em especial, o seu livro que aqui é apresentado em alguns trechos, aborda uma questão bem contemporânea: como a elite socialista lida com o Estado, e por que não se espera tão cedo uma união efetiva entre socialistas e liberais.

Quanto ao estilo, Lênin possui uma escrita envolvente e empolgante, realmente capaz de impressionar, enganar e seduzir os mais tolos. Que tantos jovens que buscam a paz, como meta e como meio de ação, sintam-se inspirados por um monstro homicida como Lênin, ainda é assustador. Que tantos elementos famosos da sociedade brasileira e da Academia internacional comemorem a Revolução Russa, só pode ser um escárnio profundo contra as milhões de vítimas do sistema comunista de Marx, Engels, Lênin, Stálin e Mao. Que a leitura dos originais possa nos despertar do profundo sono em que nos encontramos para a dura realidade que encaramos dia após dia quando o assunto é elite política e ideologia.


Hélio Angotti Neto
10 de dezembro, Colatina - ES


[1]LÊNIN, Vladímir Ilitch. O Estado e a Revolução. São Paulo, SP: Boitempo, 2017, p. 195-196.
[2]VOLKOGONOV, Dmitri. Os Sete Chefes do Império Soviético. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
[3]LÊNIN, op. cit., p. 43-44.
[4]Ibid., p. 44.
[5]Ibid., p. 47.
[6]Ibid., p. 47.
[7]JOUVENEL, Bertrand de. Do Poder. História Natural de Seu Crescimento. São Paulo: Editora Peixoto Neto, 2010.
[8]ENGELS, Friedrich. Da Autoridade, p. 409-410.ApudLÊNIN, opcit., p. 86.
[9]LÊNIN,opcit., p. 119.
[10]ROTHBARD, Murray. Esquerda & Direita. Perspectivas para a Liberdade. Campinas: Vide Editorial, 2016.
[11]LÊNIN,opcit., p. 120.
[12]Ibid., p. 121-122.
[13]VOEGELIN, Eric. Modernity Without Restraint. The Political Religions, The New Science of Politics, and Science, Politics and Gnosticism. Columba: Missouri University Press, 2000.
[14]LÊNIN,opcit., p. 122.
[15]Ibid., p. 143.
[16]HOPPE, Hans-Hermann. Democracy. The God That Failed. New York: Routledge, 2001.
[17]LÊNIN,op. cit., p. 125.
[18]Ibid., p. 125.
[19]Ibid., p. 126.
[20]Ibid., p. 140.

sábado, 4 de agosto de 2018

ASCENSÃO E QUEDA DA ESQUERDA BRASILEIRA

DIALÉTICA, CONTRADIÇÃO E BURRICE - ASCENSÃO E QUEDA DA ESQUERDA BRASILEIRA

Uma análise relativamente rápida nos mostra um cenário em rápida evolução cultural.

No passado, a esquerda entrou nas cátedras universitárias e nas demais posições de influência na sociedade. Executaram com primor a marcha Gramsciana para dentro das instituições. Intelectuais orgânicos dedicaram suas vidas ao estudo e à estratégia. Foram muito bem sucedidos e suas táticas mostraram-se muito bem sucedidas.

Porém, havia um elemento contraditório que, inevitavelmente se mostraria problemático. Como Olavo de Carvalho aponta de forma magistral, nossa esquerda subia amparada intelectualmente por dois grandes nomes: Gramsci e Raimundo Faoro. Marcharam para dentro das instituições para controlá-las com o discurso e a justificativa de quebrar o velho e tosco patrimonialismo.

Só que eles se transformaram justamente na epítome patrimonialista, fisiológica, autoritária e burra de nossos tempos! Do casulo não saiu a borboleta, saiu uma larva ainda mais asquerosa e pegajosa. Ao entrar nas instituições, eles se transformaram no estamento superior de nossa sociedade. Eles eram os atores descritos por Faoro!

Acostumados ao poder, tornaram-se lenientes. Inseridos nos cargos administrativos e de chefia, utilizaram a força e a burocracia para promoverem sua agenda ideológica, e deixaram os cérebros para trás. A queda da inteligência, tão inevitável quanto a transformação em nova elite, começara. O livro O Imbecil Coletivo, do grande diagnosticador e filósofo brasileiro, gritou a plenos pulmões o ridículo da nova esquerda tupiniquim. 

Agora, observo a esquerda cair de podre. Inseridos no poder, não restou inteligência, tampouco o verniz de civilidade, somente os trejeitos da malandragem cômica da brasilidade marota. Mesmo ocupando os postos culturais e a mídia de massa, sua feiura moral e mental se revela a quem quer que abra os olhos. 

Destituídos dos meios estratégicos e intelectuais que efetivamente os levaram ao poder, apelam para os fraquíssimos chavões e vulgaridades que abundam nos canais de televisão e jornalecos que serviriam melhor para embrulhar fezes caninas largadas nas ruas. 

O gás intelectual da esquerda acabou. A maioria da população assiste constrangida ao show de horrores de uma cultura demolida, de uma inteligência decaída. As causas tornam-se cada vez mais excêntricas, cada vez mais apelativas e chocantes: abortismo, pedofilia, bandidolatria etc. Talvez seja um último esperneio tentando maquiar o profundo ridículo no qual se encontram, um truco final apostando na burrice universal, na cegueira absoluta daqueles que desejam manipular. Como a serpente (ou galinha) que perde a cabeça, seu corpo ainda se contorce, e ainda controlam os meios, mesmo que seus propósitos sejam absurdos e a inteligência que os levou até lá esteja morta.

Tolos mesmerizados repetem figuras de linguagem relativistas desacreditadas desde os tempos gregos antes do Cristo como se fossem elegantes formulações da alta filosofia. Cegos guiados por cegos. 

A maioria da população hoje é conservadora em costumes e relativamente liberal em termos econômicos. A juventude, todavia, em boa parte envenenada pelo discurso odiento da esquerda, destilado nos cursos de humanas, pode ser tentada a seguir o caminho mais fácil, o caminho da arbitrariedade, da violência e da falsa superioridade, mas até mesmo eles já despertam.

O risco talvez seja acreditar que a solução para a esquerda seja a ascensão da direita, seu mover o pêndulo para o outro lado. É um pensamento fácil e abstrato. Grotesco, eu diria. A solução para o cenário atual é adquirir inteligência, agir com bondade e cuidar do próximo que está a seu lado. 

Sim, eu estou à direita do espectro político, com forte tendência ao conservadorismo cultural e ao liberalismo econômico. Sim, eu considero esta a posição mais digna, moral e inteligente que existe neste momento. Contudo, utilizar isso como rótulo ou refúgio é ceder à cruel dialética das abstratas figuras de linguagem e aos reducionismos que atentam diretamente contra a boa filosofia e a inteligência. A esquerda caiu na própria dialética. Que não se faça o mesmo dos outros lados.

Hélio Angotti Neto





terça-feira, 3 de outubro de 2017

RESENHA: BASES DA DIREITA E DA ESQUERDA

RESENHA: BASES DA DIREITA E DA ESQUERDA

O GRANDE DEBATE: Edmund Burke, Thomas Paine e o Nascimento da Esquerda e da Direita

Yuval Levin


Em seu livro “O Grande Debate: Edmund Burke, Thomas Paine e o Nascimento da Esquerda e da Direita”, recentemente traduzido para o português, Yuval Levin busca um elemento essencial do pensamento político contemporâneo, remexendo na história de um acalorado debate entre dois grandes políticos e pensadores: Burke e Paine.

Burke, um dos precursores do que hoje se denomina pensamento de direita, defendia a história de erros e acertos do passado contra o impulso revolucionário e destrutivo do presente. Posicionava-se ao lado de uma política de prudência, como Russel Kirk posteriormente a denominou, observando na história uma prescrição de lições contínuas e deveres necessários para a manutenção de uma sociedade adequada.

Paine, por outro lado, defendia a aplicação de princípios atemporais da razão à sociedade, buscando um regresso aos elementos que promoveriam a existência de um povo mais igualitário e justo, mesmo que ao custo da destruição do atual estado de coisas, evitando a inércia e o reacionarismo, para moldar uma nova sociedade capaz de encarnar melhor os ideais de justiça.

Embora ambos concordassem com os intuitos da Revolução Americana, de independência, o ponto de discórdia se deu na Revolução Francesa. Paine viu uma fantástica oportunidade para aplicar os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade, poderosas abstrações que poderiam reformular uma sociedade inteira e acabar com um estado corrompido prévio. Burke via com desgosto e preocupação essa reformulação racionalista do mundo, alertando contra o ato de desprezar as lições prudenciais do passado. Temia, o derramamento de sangue, que de fato ocorreu, parindo a modernidade.


Segundo Paine, “Temos o poder de reiniciar o mundo” e “ver o governo começar como se vivêssemos no início dos tempos”. Burke afirmava que um retorno ao início sem o devido cuidado seria um retorno ao barbarismo. A visão conservadora da natureza humana era muito pessimista – ou realista, conforme a origem de quem falava – para acreditar nesse paraíso primitivo defendido por Paine e outros pensadores iluministas como Rousseau.

Alinhado ao atual pensamento de viés liberal e socialista predominante, Paine afirmava que “Meu país é o mundo e minha religião é fazer o bem.” Já Burke prenunciava o conservadorismo atual defendendo uma posição mais local e menos universal, embora diversa, assim como Roger Scruton prescreve. “Para que amemos nosso país, ele deve ser digno de amor”, e “Nosso país não é meramente uma localidade. Ele consiste, em grande medida, na antiga ordem em que nascemos.” Concordem com Burke ou não, o Brasil tiraria preciosas lições para o sentimento geográfico e desmemoriado que temos de patriotismo.

Paine, otimista com a natureza humana, afirmava ao contrário de Hobbes que “O homem só é inimigo do homem por meio de um falso sistema de governo”. Paine declarava que “A humanidade teve muito pouco propósito se, neste período do mundo, precisa voltar 2 ou 3 mil anos em busca de lições e exemplos.” Com base em um novo entendimento da natureza e dos princípios da justiça e da sociedade, o mundo veria um renascimento. Ao estilo da new Left revolucionária de hoje, Paine revela dificuldade em distinguir entre destruição e construção durante a revolução.

Burke comentaria, escandalizado pelos frutos do pensamento racionalista aplicado à sociedade, que “Nunca antes um conjunto de homens literários se converteu em uma gangue de ladrões e assassinos; nunca antes um antro de vilões e bandidos assumiu o garbo e o tom de uma academia de filósofos”.

A visão de Paine era “assertiva, confiante, racionalista, tecnocrática e progressista”, defendendo que por meio do uso de sua razão, o homem poderia remodelar o mundo em busca de justiça. Um anseio muito contemporâneo presente entre socialistas e transumanistas de forma geral.

A visão de Burke, por outro lado, se mostrava “grata, protetora, cautelosa, moralista, gradualista e reformista”, compreendendo que o mundo só pode ser melhorado caso compreendamos nossas limitações e construamos sobre as fundações previamente estabelecidas.
Em suas conclusões, Levin resume:

“O objetivo utópico fundamental no âmago do pensamento de Paine – o objetivo de liberar o indivíduo das obrigações impostas a ele por seu tempo, seu lugar e suas relações com os outros – permanece essencial para a esquerda americana.” “Com o tempo, o objetivo utópico ganhou preferência, e uma visão do Estado como provedor direto das necessidades básicas e amplamente livre de restrições do liberalismo iluminista de Paine surgiu para defende-lo.”
A esquerda atual, segundo Levin, exibe coletivismo material ao lado de individualismo moral. Já o conservadorismo exibiria um certo coletivismo moral, no respeito às tradições e à história, ao lado do individualismo material.

Levin afirma que a esquerda atual começa a se desviar para a fria lógica do utilitarismo, e que faria bem em relembrar dos avisos de Thomas Paine em relação aos limites do podere e do papel do governo. Já a direita, tem se mostrado aberta demais ao “canto de sereia” do hiperindividualismo material e da falta de uma teorização adequada, podendo aproveitar o foco  burkeano no caráter social do homem.

Num país como o Brasil, no qual multidões usam palavras como porretes sem ao menos conhecer o real significado daquilo que buscam expressar, faz bem ler Yuval Levin, e compreender que Direita e Esquerda são polos de como nos relacionamos com nossos semelhantes, do passado, do presente e do futuro. Como lembra muito bem Edmund Burke, não respeitaremos os nossos descendentes se não respeitarmos nossos antepassados, mas, no ideal de Paine, não podemos desmerecer a urgência do presente.

Hélio Angotti Neto.
03 de outubro de 2017, Colatina – ES.