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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

NA CONTRAMÃO DA BIOÉTICA CONTEMPORÂNEA


Em um daqueles grupos de aplicativos de smartphone sobre Cuidados Paliativos com 580 membros, Luciana Dadalto, uma advogada estudiosa da bioética, lança a seguinte sentença sobre mim logo após um médico compartilhar um texto que eu escrevera há alguns meses sobre a normativa do Conselho Federal de Medicina que regulamenta o direito de recusa terapêutica do paciente e o de objeção de consciência do médico:
"Na contramão da bioética contemporânea. O Hélio é bioeticista hipocrático, que fundamenta todas as suas opiniões no paternalismo, além de ter um forte viés religioso."

Como ela referiu-se a mim em público, cabe uma breve exposição do que eu mesmo sei sobre minha pessoa e sobre minha obra no campo da bioética, aproveitando a pérola que foi essa concisa e concentrada sequência de pseudoargumentação erística que foi lançada.

Ponto 1 – Na contramão da bioética contemporânea
É preciso deixar bem claro, logo aqui no início, que não há “uma” bioética contemporânea. Há diversas linhagens, diversas metodologias e diversos entendimentos de cada linhagem e metodologia empregada. Há bioéticas secularistas e há bioéticas religiosas, só para se ter um exemplo.
Já tive a oportunidade de traçar raízes filosóficas de diversas linhagens contemporâneas da bioética em alguns de meus escritos. No caso das bioéticas de caráter cristão (há várias dentro desse grupo) há raízes que vão além do próprio Cristianismo e regridem aos tempos pitagóricos, segundo alguns historiadores como Ludwig Edelstein, que afirma ser justamente nos pitagóricos que os médicos hipocráticos, precursores dos médicos cristãos, foram fincar suas origens ideológicas.
No caso da bioética utilitarista, há raízes hedonistas de linhagem epicurista, raízes materialistas de origem em Demócrito e raízes evolucionistas de origem em Lucrécio, só para citar algumas fontes. Dessas fontes antiquíssimas também deriva o ideário que forneceu solo para o crescimento do Transumanismo, importante ramo da bioética que vê com otimismo a tecnologia e a capacidade de o ser humano transcender a si mesmo.
Há ligações por toda parte, raízes profundas que carreiam as mesmas ideias de sempre, travestidas de novas máscaras sob novas tecnologias, antigos anseios e crenças da humanidade que reemergem em diferentes momentos da história.
Eu não sei exatamente de qual bioética contemporânea Luciana Dadalto afirma que eu estou na contramão. O que posso afirmar é que estou contra elementos bioéticos que propalam a eutanásia, o suicídio assistido e o aborto, com certeza. Se essa é a essência do que Luciana afirma ser contemporâneo, podem dizer sim que estou na contramão. Ainda sou daqueles que considera ser papel de um executor ou torturador o de matar alguém, e não de um médico.
Agora, se bioética contemporânea for outra coisa, já fica difícil responder.
Aliás, eis um dos aspectos marcantes do hipocratismo na bioética: a defesa da vida humana. Sobre o tão mal falado paternalismo hipocrático, falo adiante.
Por fim, dizer que estou contra a bioética contemporânea equivaleria a lançar mão de um argumentum ad populum, no qual é considerado errado ou desacreditado quem avança contra o consenso ou a opinião “popular” do momento. Quantidade de apoiadores não é critério de verdade, de beleza, de justiça ou de utilidade, haja visto o que aconteceu com Sócrates e Cristo, a eleição de Hitler como Chanceler na Alemanha do século passado ou o apoio acadêmico às ideias assassinas do comunismo. Dizer que minha opinião está na contramão de seja lá o que for a “bioética contemporânea” é criar uma falsa oposição por meio de um pseudoargumento que nem ad populum pode chegar a ser, no fim das contas, já que a base de comparação do que seja popular está indefinida.

Ponto 2 – Bioeticista hipocrático
Se hipocrático remeter ao respeito pela vida humana e à dedicação em protegê-la, ficaria muito honrado em ser sim um médico hipocrático. Quanto ao termo bioeticista, depende de quem interpreta.
Explico. Sou médico com especialização em oftalmologia e sou Doutor em Ciências. Estudo Filosofia e Bioética há cerca de vinte anos. No sentido socrático, ouso sim afirmar que sou um filósofo. No sentido acadêmico, não sou filósofo e tampouco sou bioeticista.
Todavia, se bioeticista é quem age, medita e escreve sobre Humanidades Médicas e Bioética, poderiam dizer sim por aí que o sou. Minha reflexão deriva de duas décadas de convívio com médicos, pacientes e suas famílias. Vivo a relação médico-paciente e dela retiro as experiências concretas e reais que me ajudam a enraizar minha reflexão filosófica na realidade.
Se alguém desejasse perguntar a mim como gostaria de ser denominado, não hesitaria: sou um médico cristão e hipocrático. Eu vivo a ética médica a cada momento em que acolho um paciente e em que sou convidado a participar de uma nova vida.
O único problema na terminologia adotada para me rotular é justamente o grande espantalho hipocrático que criaram por aí. Do que Luciana acredita que hipocrático seja, não tenho ideia, mas do que vejo por aí na Academia noto uma quase que completa ignorância dos originais hipocráticos. Sobre as falsas acusações que pesam contra o hipocratismo na saúde já escrevi em diversos artigos e em diversos livros (série Disbioética, A Morte da Medicina, A Tradição da Medicina, Arte Médica e Bioética: Vida, Valor e Verdade) e recomendo ao leitor que, caso tenha interesse, procure lá para saber com detalhes o que penso.
Quase tudo o que li sobre Hipócrates no ambiente editorial da bioética foi escrito por pessoas que aparentemente nunca leram os principais textos hipocráticos em sua integralidade, ou que deixaram de fazer a contextualização adequada com outras obras do mesmo período ou com trechos da mesma obra. É uma forma de analfabetismo funcional que repete fórmulas falsas e desgastadas e repassa uma velha mentira adiante, criada em sua origem por alguém burro, preguiçoso ou de má-fé.
Portanto, quando alguém que se diz bioeticista fala algo de Hipócrates, recomendo muita cautela. Na dúvida, leia os originais e tire suas próprias conclusões. Eu li e posso dizer que a ética presente nos textos hipocráticos não possui um paternalismo forte e, pelo contrário, respeita aspectos éticos e morais ainda vigentes e ainda considerados excelentes.
Considerando o contexto no qual se usa a expressão “bioeticista hipocrático”, sugere-se a aplicação de um rótulo odioso, além do tradicional e injusto espantalho que ronda o nome de Hipócrates no meio acadêmico da bioética.

Ponto 3 – Fundamenta todas as suas opiniões no paternalismo
Sobre onde fundamento minhas opiniões, sugiro novamente o acesso a minha obra escrita. Deixo bem clara a minha fundamentação na visão que Edmund Pellegrino tem do Bem do Paciente e também utilizo aportes filosóficos diversos, além dos cristãos. Está tudo lá.
Neste ponto discordo do juízo emitido sobre minha pessoa. O paternalismo não é uma virtude, um valor ou um princípio no qual alguém possa basear sua conduta ética em saúde, é uma forma pragmática de classificar uma ação em relação à autonomia do paciente e em relação à capacidade decisória deste e de seu médico. Luciana faria bem em meditar sobre minha obra se quiser afirmar de forma tão grandiosa que eu fundamento todas as minhas opiniões no paternalismo. Se leu, receio não ter ela compreendido o que escrevi, e acho sinceramente que sou melhor juiz acerca de minhas próprias opiniões e seus fundamentos do que ela.
De forma análoga, dizer que fundamento todas as minhas opiniões no paternalismo é algo tão estúpido quanto alguém afirmar da Luciana que ela fundamenta todas as opiniões dela com base no lucro e no mercado das ações movidas contra médicos. Isso poderia ser classificado como uma forma extremamente deturpada de ampliação indevida, isto é, tomar o todo por uma pequena parte que, além de tudo, foi distorcida e mal utilizada. No fim, é um fenômeno que julga o todo concreto da realidade por meio de abstrações falsas ou incompletas, algo típico da burrice modernista que tanto critiquei em minha breve história da ética no livro Bioética: Vida, Valor e Verdade.

Ponto 4 – Ter forte viés religioso
Sim, tenho viés cristão. Outros terão um viés ateu, outros islâmico, budista, Hare Krishna ou agnóstico. Uns mais coerentes, outros menos. Da perspectiva filosófica, todos temos uma religião, algo que nos liga a um sentido, mesmo que tal sentido seja a afirmação de que o sentido mesmo não existe, como ocorre no niilismo. É impossível não subscrever uma cosmovisão, uma forma de religião que pauta nossa perspectiva de mundo, de compreensão da realidade.
A visão secularista utilitarista da bioética é tão religiosa neste sentido quanto a visão ortodoxa, a católica ou a de alguns dos ramos do protestantismo cristão.
A questão não é ter forte viés religioso ou não, a questão é ser coerente e admitir que todos possuem uma série de pressupostos implícitos. Grande parte do esforço dialético e lógico da reflexão filosófica moral é justamente escavar tais pressupostos e trazê-los à tona para a melhor compreensão do que se afirma.
Logo, tenho um viés religioso, como todos têm, mesmo que não o admitam.
A conduta que considero idiota no sentido técnico (pesquise a etimologia de idiotes e compreenda as suas implicações) é a de que se tem uma visão imparcial, isto é, não comprometida com uma visão de mundo específica, enquanto se julga a perspectiva alheia como um pobre e prejudicado recorte da realidade. Diante da realidade, todas as nossas visões são abstrações mais ou menos completas, mais ou menos verdadeiras.
Se Luciana afirmou que tenho viés religioso como constatação simples, ela está certíssima. Se houve tentativa de menosprezar minha perspectiva ao rotular minha posição como religiosa, desqualificando minha opinião no grupo de discussão, lamento muito por ela e pelo preconceito burro que tal uso da expressão replica.
Reafirmo que tenho sim um viés religioso, pois busco continuamente me religar ao sentido da realidade. Só gostaria que o viés fosse realmente forte, pois sou muito menos forte em termos de convicção religiosa do que gostaria de ser, e a caminhada adiante em busca de virtude ainda é longa, para não dizer infinita.
O possível uso do rótulo “religioso” para desqualificar minha opinião equivaleria ao manjadíssimo argumentum ad hominem, no qual se tenta destruir um argumento com base nas características pessoais de quem o lançou.
Luciana Dadalto fez uma proeza, nisto acredito que todos poderíamos concordar. Ela foi capaz de condensar vários estratagemas erísticos nas poucas linhas de um aplicativo de mensagens. Para quem quiser saber mais sobre erística, recomendo a obra de Schopenhauer: Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão, um verdadeiro manual da trapaça discursiva por meio da manipulação psicológica. Não afirmaria que tal proeza seja fruto, porém, do uso de uma inteligência prodigiosa, pois quase toda a Academia brasileira recorre a esses recursos maliciosos de forma quase automática.
Infelizmente, isso é um típico exemplo do que é expressiva parte da Academia brasileira: uma cacofonia de insultos cínicos e golpes maliciosos de linguagem ao invés de argumentação sólida e evidências reais. E, infelizmente, não estou nem um pouco surpreso com a referência dispensada à minha pessoa, tampouco esperava algo melhor do que isso.

30 de dezembro de 2019

segunda-feira, 4 de junho de 2018

O Estranho Doutor que Gostava da Morte

O Estranho Doutor que Gostava da Morte


Há pessoas marcadas com gosto por coisas nada ortodoxas. Uma das mais estranhas e mórbidas ideias, sem dúvida nenhuma, é a obsessão com a morte. Não é um tema improvável, visto que todos temos tal evento como certeza em nossas vidas, mas é algo que normalmente não se pensa até o momento de sua aproximação, seja natural, seja por meio de doença.

Jack Kevorkian, conhecido também pelo nome de Doutor Morte, é uma dessas pessoas com uma estranha curiosidade pelo fim. Diria até mais, já que se dedicou a ser elemento ativo na morte alheia.

Filho de pais que escaparam do genocídio na Armênia, abandonou a fé cristã de sua família ainda menino. Na residência médica, já era obcecado com a morte, e se revoltava quando médicos utilizavam argumentos religiosos sobre a santidade da vida humana como base para negar a licença para matar. 

Tais argumentos e a própria lei não foram impedimento para Kevorkian, que desenvolveu sua máquina de matar, carinhosamente chamada de thanatron (palavra derivada de thanatos, que significa morte), e tornou-se um ativista da eutanásia durante os anos 90 do século XX. 


Sua primeira vítima foi Janet Adkins, portadora de Alzheimer com 54 anos de idade que o procurou em busca de um suicídio assistido. Kevorkian ligou-a em seu thanatron e a matou em 4 de junho de 1990. O doutor morte não examinou a paciente, não consultou o médico assistente da mesma e tentou a venóclise perfurando o membro da paciente por cinco vezes seguidas. 

Após tudo estar preparado, coube a Adkins pressionar o dispositivo e morrer. Seu médico assistente informara à época que provavelmente ela já não tinha plena consciência do que estava acontecendo, isto é, já não estava mentalmente competente.

Mais 130 pessoas tiveram suas mortes auxiliadas pelo estranho doutor, que foi enfim sentenciado a 25 anos de prisão.

Hoje, com a pressão para legalizar o papel do médico como entregador da morte por meio de abortos, suicídios e eutanásias, a vida de Kevorkian tem sido romantizada por alguns militantes da cultura da morte, quando na verdade o que ficou demonstrado é como a cultura da morte aliada à má técnica e à falta de ética profissional adequada se transforma numa perigosa máquina de extermínio e desespero.

A opção forçada entre morrer ligado de forma desumana em aparelhos ou recorrer ao suicídio ou à eutanásia é uma falsa colocação da questão, que reduz a equipe de saúde a uma condição bestializada e monstruosa na qual se deve decidir entre monstros que torturam o paciente ou monstros que matam. Quem se interessa por tanatologia deve perfurar a venda colocada à força em nossos olhos por essas narrativas enviesadas e enxergar as verdadeiras opções, como a medicina paliativa de boa qualidade, que sempre prezou a vida humana e a respeitou sem transformar o médico ou qualquer outro membro da equipe de saúde em um verdugo apto a matar.

Será que ainda não aprendemos as lições terríveis de nosso passado? Quantos ainda precisarão morrer para que o médico retorne à sua vocação original ou desista dessas utopias da morte?

Hélio Angotti Neto - Colatina, 04 de junho de 2018.

Bibliografia

BISHOP, Jeffrey P. The Anticipatory Corpse. Medicine, Power, and the Care of Dying. Notre Dame, Indiana: University of Notre Dame Press, 2011.
GORSUCH, Neil. The Future of Assisted Suicide and Euthanasia. Princeton & Oxford: Princeton University Press, 2006.
NICOL, Neal; WYHE, Harry. Between the Dying and the Dead: Dr. Jack Kevorkian’s Life and the Battle to Legalize Euthanasia. Madison: University of Wisconsin Press; Terrace Books, 2006.
WEIKART, Richard. The Death of Humanityand the Cas for Life. Washington, DC: Regnery Faith, 2016.

sábado, 7 de abril de 2018

METACRÍTICA – ESTUDO DE UMA CRÍTICA “CRÍTICA” AO LIVRO A MORTE DA MEDICINA

A CRÍTICA DE UMA CRÍTICA "CRÍTICA"...

Li uma curiosa crítica – um tanto confusa, diga-se de passagem - no formato de comentário acerca de meu livro A Morte da Medicina no portal da Amazon brasileira, tecida por Lúcia Fernandes em 25 de dezembro de 2017. 

Deixo que o livro "A Morte da Medicina" fale por si só, na medida do possível, e que cada um tire suas conclusões. Contudo, gostaria de utilizar o texto público lá depositado como material útil para a análise do que rola de incoerência nas cabeças pensantes por aí. Deixo o texto original dentro de caixas para facilitar a análise e o acompanhamento do leitor.

Resolvi ler este livro pela indicação do Fernando Carbonieri, em sua postagem no site Academia Médica, o trecho em resumo do livro citava:

"O provocativo título tem tudo a ver com a desilusão que o autor sentiu ao entrar em contato com o infanticídio "em nome da ciência". Nesta obra do amigo e colaborador do Academia Médica Hélio Angotti Neto, podemos ver o como a ciência pode ser perigosa e destruidora. Pior ainda, podemos ver como conceitos inescrupulosos podem se camuflar em um conceito de ética ainda mais deturpado."

Erro meu de não ter pesquisado sobre o autor, não ter visto outros resumos antes de comprar o e-book, pois foi uma leitura um tanto decepcionante.

Acho muito correto o desejo da Lúcia em formar um preconceito em relação a meu livro lendo o que outros disseram e pesquisando sobre mim. Preconceito, em um sentido mais técnico, é uma forma de exercer a inteligência e o juízo provisório com base nas evidências indiretas disponíveis até o momento. [1]

Sobre mim, Lúcia com certeza encontrará informações que me localizarão em uma moldura mais à direita do radicalismo intelectual esquerdista de nossa combalida academia brasileira. É claro que, como qualquer moldura, só serve para conter espantalhos, meros recortes abstrativos de uma personalidade.

Por outro lado, não julgo a leitura de um livro pelas opiniões alheias ou por biografias do autor. Uma intelectualidade sadia preza - ou deveria prezar - que livros sejam lidos antes de serem julgados. Ou, como já dizia Hugo de São Vítor, pode-se aprender algo de útil e verdadeiro de qualquer pessoa. Posso extrair coisas boas e interessantes de uma grande quantidade de autores dos quais discordo e faço questão de ler. Sou cristão protestante e posso ler Marx, Mises, Camus, Dalai Lama, Maomé, Richard Dawkins, Lane Craig, Tomás de Aquino e Bento XVI assim como leio João Calvino e Lutero. Contudo, essa obrigação de recorrer aos originais realmente é exclusiva para aqueles que desejam atuar com seriedade no campo intelectual. Aos demais, que não possuem pretensões de universalização ou profundidade de pensamento, não vejo nada demais em negar a possibilidade de ler algo com o qual discorde ou de alguém com quem não simpatize.

Em resumo, o livro começa mesmo com a decepção pessoal do autor com um artigo publicado sobre o infanticídio na medicina, os primeiros capítulos contemplam uma tentativa de crítica "fundamentada" aos argumentos deste artigo, mas tal tentativa é deveras tendenciosa e diria um tanto preconceituosa. O fato de defender os fundamentos cristãos como norteadores da prática médica e sua opinião pessoal contra o aborto são o topo do iceberg (e não deveriam ser problemas em outros contextos). O autor utiliza-se de argumentos apelativos e falaciosos, o que é uma controvérsia pois muitas das críticas que ele direciona ao artigo científico de infanticídio é que os argumentos são rasos, eufemistas e falaciosos. Se de um lado temos um artigo criticado que "esconde" motivações ocultas da vontade pecadora do ser humano de matar bebês indefesos, temos um outro contraponto, um autor que enxerga pela ótica sensacionalista de assassinato de bebês e tudo caminha para o argumento da mãe "preguiçosa" não querer se esforçar para criar seu filho, a mãe egoísta que se esconde sob o amortecimento do rótulo de "saúde mental" e deseja que isso tire sua culpa de seu desejo de matar bebês, afirmando que não existem doenças mentais após a maternidade. De generalizações para generalizações, não teve muita diferença de qualidade entre a leitura criticada e a crítica em si. Inclusive demonstra um possível despreparo/preguiça do autor em se aprofundar em temas socioculturais, relativizando problemas reais em nossa sociedade. É engraçado até a questão monetária. No começo da leitura ele defende que há verbas para o setor primário e terciário no SUS (afinal são atividades distintas), mas já nos momentos finais do livro, o dinheiro direcionado para a saúde irá todo para os médicos "açougueiros" matarem as crianças indefesas ao invés de irem para causas mais "nobres".

A expressão irônica tentativa de crítica “fundamentada”, com esta última palavra entre parênteses, é típica e mostra a que veio Lúcia. Para ela, deixei o "Crítica" entre parênteses no título desta resposta.

Ela acerta em cheio ao ressaltar que defendo princípios cristãos para a prática médica, o que ela chama de topo do iceberg de minha tentativa tendenciosa e preconceituosa. Contudo, não menciona que princípios semelhantes são observados na tradição hipocrática, no islamismo e em diversas outras formas de se enxergar a vida humana, coincidentes em diversos pontos que marcaram a medicina ao longo dos séculos.

Somente Lúcia pode ser preconceituosa e excluir uma visão de mundo do debate? Se outra pessoa o fizer, é alvo de crítica, mas se lúcia me julga com sua ideologia biônica diversitária derivada de um iluminismo pretensioso de séculos passados, não há problema.

Sobre a chuva de críticas sem referência direta ao texto, convido que zelosos leitores leiam por si mesmos e tirem suas conclusões. Facilitaria o serviço se Lúcia colocasse o número da página em que viu as falácias que acusa. Seria instrutivo para mim pelo menos. 

É interessante também notar que ela me acusa de relativizar problemas em nossa sociedade, pois eu teria dito que “há verbas para o setor primário e terciário do SUS”. E a isso, Lúcia relaciona minha afirmação contra a ida de dinheiro para médicos açougueiros ao invés de irem para causas mais nobres. Falhei em perceber a crítica ali colocada. Ademais, não posso criticar o mau destino do dinheiro público?

O livro talvez seja um bom exemplo da ambivalência do ser humano. A arte de usar argumentos para puxar a sardinha para o seu lado quando é conveniente.

Assim como a Lúcia faz?

Mas não desconsidero que houve todo um esforço e dedicação do autor em suas citações filosóficas e morais cristãs, mas ele peca em seus recortes e coações tendenciosas.

É ético a condução de pensamento em que a metade ocidental é em sua maioria cristã e por isso a medicina precisa seguir a risca de preservar a vida a qualquer custo e quem não o faz é puramente assassino e não pode haver discussões sobre esse tema? Afinal é como um ladrão, pelo exemplo do livro, não tem conversa, é cadeia e pronto. Como se fosse uma lógica binária, tudo preto no branco, ação e reação, desconsiderando toda uma complexidade humana e a complexidade da vivência social.

Bom, essas e outras coisas você encontra neste livro.

Que bom que meu esforço tendencioso foi considerado. Na avaliação ganhei até duas estrelinhas ao invés de uma. Desceu uma lágrima de alegria aqui na maxila direita por causa da condescendência magnânima de Lúcia.

Quanto ao resto, deixe-me reformular uma das preciosas frases de Lúcia: é ética a condução de um pensamento em que a metade ocidental é não cristã em sua minoria e, por isso, a medicina não deve preservar a vida alheia, deixando inclusive de chamar de assassino aquele que mata alguém? Para Lúcia é ética sim. Antiético sou eu, que penso o contrário dela. É a intolerância dos tolerantes, como se diz por aí. Sou acusado de ter lógica binária, de ser simplista em meu pensamento, justamente por ela que reduz cosmovisões alheias a preconceitos opostos à sua maravilhosa visão pluralista e diversificada, acima de todos os meros mortais burros e incapazes de pensar criticamente. Uau.

Quanto ao assassino, realmente não tenho conversa com ele. 

Imagine a situação:

Pode “desassassinar” a criança por favor, minha filha? Ah, ele só matou aquele bebê, coitadinho, não vamos julgá-lo só porque ele julgou e condenou sua vítima à morte, não é mesmo? 

A Lúcia que me perdoe, mas algumas coisas como assassinato, escravidão e estupro não estão disponíveis para discussão séria e digna por boa parte das pessoas. Lamento se feri a visão descolada e nem tão pluralista assim da Lúcia, mas ela precisa aprender a respeitar quem não acha normal matar o próximo.

E, pessoalmente, considero inclusive que o autor não teve uma postura ética/respeitosa perante seus colegas de profissão, ao expor pejorativamente Dráuzio Varella como corporativista apenas por sugerir que o juramento de Hipócrates não condiz mais com a nossa realidade, assim como outras tantas críticas pesadas à outros profissionais dedicados em seu trabalho.

A coisa fica divertida aqui no final. O que critico em meu livro é a falta de cultura humanística a respeito do Juramento de Hipócrates pelo colega Dráuzio Varella, que é muito competente em diversas áreas e talentoso no que conhece a fundo, com certeza. 

É o próprio Dráuzio Varella que chama os colegas de papagaios repetidores de ritos antigos e corporativistas, baseado ele mesmo em uma interpretação própria e anacrônica do Juramento de Hipócrates. Vou repetir para que não haja dúvidas: é o próprio Dráuzio Varella quem chama incontáveis colegas de corporativistas, e Lúcia afirma que quem é desrespeitoso sou eu por chamar o Dráuzio de corporativista.

Essa acusação feita pela Lúcia de que sou desrespeitoso seguida desse erro grotesco de leitura me faz refletir acerca de nossos índices de analfabetismo funcional. E desrespeito e falta de ética é o que Lúcia faz ao pregar tais rótulos odiosos em mim após uma leitura porca do meu livro.

Caminho para o término dessa resenha citando o Dráuzio:

"O que faz da medicina uma profissão respeitável não são as noites em claro nem o conteúdo do que juramos uma vez na vida, muito menos a aparência sacerdotal, mas o compromisso diário com os doentes que nos procuram e com a promoção de medidas para melhorar a saúde das comunidades em que atuamos."

Como afirmo no livro, esse compromisso diário que é o aspecto sacerdotal do médico, e não o fato de passar noites em claro. O meu livro concorda com a essência do que Varella disse nesse trecho, e também critica a prática desprovida de bom senso de alguns que existem por aí.

Deixo um trecho do Juramento de Hipócrates para reflexão em "essência/potencial" sobre dano x compreensão da cultura e ideologia:

"Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém."

Posso causar dano a alguém se eu desconsiderar suas crenças pessoais e submetê-lo ao julgamento perante as minhas crenças? Os jesuítas que vieram catequizar os índios causaram algum dano? Augusto Comte causou dano aos outros seres com sua tentativa de ordem social? A vida tem o mesmo significado para todos? O que significa a vida?

Pela antropologia (a ciência que estuda o ser humano e suas peculiaridades) conhecemos uma gama de diferenças de pensamentos, culturas, atitudes, crenças, valores...

O Enigma de Kasper Hauser também inicia o pensamento nesse sentido, ao expor como seria o desenvolvimento de um ser humano privado do contato social em relação a construção do indivíduo em sociedade.

É danoso para uma pessoa que ela seja assassinada? Será que o pós-modernismo já envenenou tanto as almas despreparadas por aí que as pessoas se tornaram incapazes de perceber o assassinato como ato de maldade? 

É como Roger Scruton critica em seu livro Fools, Frauds and Firebrands, ao constatar que para algumas pessoas certas ideias valem mais do que pessoas, e que para algumas ideologias, a vida alheia daqueles que não se encaixam na utopia subjetiva é menos real do que o maravilhoso plano para um futuro que não se sabe nem como é.

Se diferentes moralidades são argumento contra a existência de parâmetros corretos de moralidade humana, um doido poderia até defender - e alguns realmente defendem! - a tirania e o massacre feito por nazistas e comunistas como algo passível de ser aceito. Aliás, é possível até que haja aqueles tiranos cuja moralidade exija o silêncio tanto de minha parte quanto das esquisitas acusações de Lúcia.

Sinto muito, Lúcia. Seu pluralismo, que prefere julgar livros antes de ler e que não aceita visões diferentes da sua própria visão chique e descolada, realmente não cola.

Colatina, 7 de abril de 2018.


Outros comentários na página de venda do livro disponíveis no dia 07 de abril de 2018...

Muito bom para acadêmicos e médicos entenderem o contexto da decadência de valores na Medicina. Por Pamela Simoa em 23 de agosto de 2015. 5 Estrelas.
O aborto e a eutanasia de fetos é o tema central da discussão da obra, a qual faz alusões relevantes de grandes mestres da literatura mundial sobre a morte. A modificação do juramento de Hipócrates também é discutida, afinal foi proposital?
Muito bom para acadêmicos e médicos entenderem o contexto da decadência de valores na Medicina contemporânea.

Leitura essencial em tempos de decadência moral. Por Cliente Amazon em 18 de novembro de 2016. 3 Estrelas.
Muito bom para quem se interessa por ética médica. O autor deixa de lado o politicamente correto e corre em busca de abordar os fatos como são. Hélio Agnotti Neto em A morte da medicina procura com todas as forças esclarecer que o direito a vida vem antes do direito sobre o corpo, abordando majoritariamente a questão do aborto, criticando veementemente uma pesquisa pró-abortista de Giubilini e Minerva, os quais propuseram algo chamado de "abortamento pós nascimento" (leia-se infanticídio se tirarmos os óculos do eufemismo). Leitura essencial em tempos de decadência moral como os nossos. Dou nota de 3 estrelas por ter esperado pela discussão de outros temas.

O Monstro dominou o Médico. Por little joao em 4 de dezembro de 2016. 5 Estrelas.
A definição mais clara deste livro é a realidade do aborto legalizado pelos abortistas de plantão no STF: Barroso, Fachin e Rosa Weber.
Não somente médicos adoram matar: juristas também. É o ser humano reduzido a uma massa de carne, PIOR do que um animal (vide os veganos, adoradores de bichos etc).

A Morte da medicina. Por Cezar em 11 de agosto de 2014. 5 Estrelas.
Leitura obrigatória para todo médico focado em saúde, pois a medicina brasileira está vivendo um momento único, espero que transformação. Este livro mostra o quanto a medicina pode ser usada para outros fins, que não gerar saúde, questionando a possibilidade destas distorções, que aparentemente pode estar passando despercebida pelos médicos, ser causa da população estar cada vez mais doente ... Como pode o Conselho Federal de medicina ter aceitado discutir sobre o aborto, pior ainda é emitir nota concordando com aborto! Estaria o Conselho Federal de Medicina infringindo o código de ética médica? Pois este código fala para lutarmos pela saúde?

Perfeito!Por Cláudia em 26 de agosto de 2017. 5 Estrelas.
Em linguagem acessível a todos, incluindo quem não tem conhecimento de Medicina e Filosofia.
Leitura indispensável para alertar as pessoas sobre os graves riscos que corremos nas mãos daqueles que julgam deter o poder e a sabedoria.
Indispensável aos médicos e futuros médicos.
Também aos pais de futuros país.
Indispensável a todos nós.

Muito bom! Por Cliente Amazon em 5 de janeiro de 2018. 5 Estrelas.
Muito importante leitura aos que de alguma forma buscam refletir sobre a temática do aborto. Sejam pró-escolha ou pró-vida, seria muito bom que lessem e meditassem no que o autor traz nesse livro. Claro que se for um pró-escolha, pode ser que se irrite um pouco.

Excelente obra. Por Leonardo Lopes em 11 de julho de 2014. 5 Estrelas. 
Grande análise critica das artimanhas que tentam infectar a medicina de uma cultura de morte... Excelentes reflexões sobre ética médica!

Atual.Por Cliente Kindle em 21 de agosto de 2017. 5 Estrelas.
Embora trata de um tema em discussão por milênios, os textos não deixam de refletir realidades muito atuais e contemporâneas.

Apagamento ético. Por Edson Luis Tonon em 30 de setembro de 2014. 1 Estrela.
Libelo monocórdico. Não deixa de ter razão, mas torna-se um pouco cansativo. Abandonei a leitura no 1/3. Esperava abordagem de outros pontos que envolvem a medicina e seu papel social, mas parece que ele resolveu limitar-se ao aborto.

Excelente. Por Cliente Amazon em 18 de janeiro de 2017. 5 Estrelas.
Ótimo Livro!
Argumentação Clara com uma ironia desconcertante, própria de grandes filósofos.
Leitura obrigatória para aqueles que querem discutir, bioética e aborto.

Essencial. Por Fabio em 8 de julho de 2017. 5 Estrelas.
Livro essencial, argumentos sólidos, escrita leve e poderosa. Um assombro à cultura da morte tão dominante nos meios "intelectuais" contemporâneos.



[1]Só para constar, insiro ao fim deste texto os outros comentários que ele afirma que deveria ter lido.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Uma típica mentira abortista

Uma típica mentira abortista.

Se proibir, aumenta?

Enquadrando a Discussão

Nas conversas entre aquelas pessoas a favor da vida humana e aquelas a favor do direito de decidir ou, em termos mais diretos, nas brigas entre os que são contra e os que são a favor do aborto, respectivamente, alguém do último grupo sempre costuma apelar para um dado curioso. Segundo a sabedoria abortista, proibir o aborto aumenta o número de casos. Se o aborto fosse legalizado, segundo eles, os casos de aborto tendem a diminuir.

Para muitos isso pode parecer contraditório. E, na maioria dos casos, é pura contradição mesmo!

Essa é mais uma das muitas mentiras a respeito do aborto que são veiculadas por iluminadas cabeças pensantes em meio à sociedade. Se continuarem pensando com essa qualidade, há de se questionar onde chegarão, senão na aniquilação da inteligência e da capacidade de apreender a realidade.

Abortistas de todos os tipos citam artigos produzidos por institutos claramente comprometidos com a causa abortista para defender a ideia de que os abortos são reduzidos com a legalização. Tais artigos, publicados em importantes revistas, são utilizados como porretes da autoridade científica para calar o adversário em um pretenso debate.

Vamos esclarecer algumas coisas desde já.

O que se chama debate, no Brasil, de regra é um reforço da mesma opinião previamente desejada, pertencente a uma elite progressista que se acha dona da verdade e considera o povo brasileiro retrógrado e incômodo. Como descreve Francisco Razzo em seu livro Contra o Aborto, o debate de regra é entre diversas opiniões a favor do aborto enquanto os contrários ao aborto são excluídos dos meios chiques da sociedade e da mídia de massas.[1] Melhor assim, para os detentores do futuro melhor de nosso país. Que esses evangélicos e católicos conservadores sumam de nossa frente ou, como diria certo professor universitário brasileiro, que sejam abordados em conversa na ponta de uma espingarda.[2]

Segundo ponto: os trabalhos que de regra são citados pertencem a Organizações Não Governamentais abortistas que recebem verbas milionárias de fundações internacionais abortistas e megaclínicas de aborto. O exemplo mais famoso é o Instituto Guttmacher, que publica nas badaladas revistas médicas como a Lancet, e recebe dinheiro da maior rede de clínicas abortistas do mundo, a Planned Parenthood, além de receber verbas da Bill and Melinda Gates Foundation. E tal instituto ainda tem a pachorra de afirmar que não há conflito de interesses em suas publicações. E, verdade seja dita, quando revistas como a Lancet ou o New England Journal of Medicine falam de política, é perceptível a agressiva agenda ideológica subscrita pelos autores e editores.

Terceiro ponto: há uma série de distorções estatísticas nesses trabalhos usados como fonte de autoridade científica. Mas, de regra, são citados por pessoas sem o menor preparo em Medicina Baseada em Evidências ou Bioestatística, funcionando como instrumentos de apelo à autoridade científica. Resumindo, esses artigos repletos de manipulação e conflitos de interesse são exemplos do uso burro de uma ciência deturpada por razões políticas e ideológicas.

E o que dizem os abortistas e os artigos? E qual é a realidade? Vamos aos fatos.


A distorção estatística e o caso dos Estado Unidos

De certa forma, os abortistas contam com a preguiça intelectual, a falta de competência em avaliar artigos ou a pressa do leitor. Esperam que alguém leia a conclusão que é lançada após páginas de expressões técnicas como Bayesiano e Teste de Kolmogorov-Smirnov e aceite tudo como a verdade divina descendo como maná dos céus. E na maioria das vezes é justamente isso que acontece.

Pessoas sem formação alguma na área de Medicina Baseada em Evidências se aventuram a ler conclusões ideológicas citadas em artigos distorcidos para fundamentarem suas crenças prévias.

Recentemente, um trabalho foi citado como prova de que liberar o aborto reduziria a prática.[3] Esse trabalho, relativamente recente, afirma que o número de abortos em países ricos, que em sua maioria legalizaram a prática, está caindo desde 1990, e que permanece alto em países em desenvolvimento, que ainda não legalizaram o aborto em sua maioria.[4] O que você entende? Que a legalização reduziu o número de abortos, certo? Vejamos com um olhar mais acurado.

Na década de noventa do século XX, a grande maioria dos países desenvolvidos já tinha legalizado o aborto há muitos anos. E as medidas do número de abortos realizados em países em desenvolvimento que não legalizaram a prática são expostas a diversos vieses e cálculos de correção dos dados que inflacionam a casuística formidavelmente.

Se queremos concluir sobre a legalização aumentar ou reduzir o número de abortos, o que devemos fazer? Voltar ao momento em que o aborto foi legalizado e acompanhar, ano a ano, a mudança no número de abortos. Isto significa checar os números antes e após a decisão do famoso caso Roe vs Wade, em 1973, nos Estados Unidos, por exemplo.

Antes da decisão, já se observava um aumento contínuo no número de abortos relatados, sem dúvida por causa da militância pró-aborto e das mudanças culturais dos anos sessenta, conforme relatado por Bernard Nathanson.[5] Foram reportados 390 casos de aborto para cerca de 4 milhões de nascimentos nos Estados Unidos em 1963. Ano a ano, o número de abortos aumentou, chegando em 1973 a 744.610 abortos em uma população de 3.136.965 nascidos vivos. O aborto ainda não fora liberado nos moldes pós Roe vs Wade, mas a pressão ideológica para sua liberação era intensa.

Neste momento os abortistas falarão que o número de abortos é muito maior, só que não é relatado. O que se conclui é que, uma vez legalizado, as mulheres procurarão um serviço dentro da legalidade no qual realizarão o procedimento sem o risco aumentado de uma intervenção clandestina, e o número real de abortamentos será revelado.

Em 1974, um ano após a decisão do tribunal no caso Roe vs Wade, o número de nascidos vivos foi de 3.159.958 e o número de abortos relatados foi de 898.570. Isso apontaria para um aumento de cerca de 150.000 casos teoricamente creditados aos casos não relatados, se admitíssemos uma estabilidade no número real de abortos realizados de 1973 para 1974.

Todavia, eis o que acontece com a casuística de abortos nos anos seguintes.[6]

Ano
Nascidos Vivos
Abortos
Taxa de abortos por nascimentos (abortos a cada 1000 nascimentos)
1975
3,144,198
1,034,170
328.9
1976
3,167,788
1,179,300
372.3
1977
3,326,632
1,316,700
395.8
1978
3,333,279
1,409,600
422.9
1979
3,494,398
1,497,670
428.6
1980
3,612,258
1,553,890
430.2
1981
3,629,238
1,577,340
434.6
1982
3,680,537
1,573,920
427.6
1983
3,638,933
1,575,000
432.8
1984
3,669,141
1,577,180
429.9

Há uma clara tendência de aumento contínuo nos casos de aborto com certa estabilização após alguns anos da liberação dos casos. Essa tendência não é exclusividade dos Estados Unidos, repetindo-se em diversas outras casuísticas, às vezes com um crescimento muito mais prolongado ao longo dos anos seguintes à legalização.

Como o trabalho previamente citado verificou a casuística após a década de noventa, temos um cenário completamente diferente do exposto inicialmente. A distância temporal entre a legalização e os dados observados insere fatores de confusão que tornam a tentativa de estabelecer nexos causais extremamente frágil. Deve ser lembrado também que foi no ano de 1990 que se registrou o pico no número de abortos nos Estados Unidos. Contabilizar a partir desse pico obviamente demonstrará uma queda no número de abortos.

E há um agravante raramente lembrado: muitos estados americanos tem falhado em reportar a casuística de abortos realizados, o que gera um número subestimado. Um dos mais recentes relatórios dos Estados Unidos, publicado em 2017, informa uma casuística subestimada de abortos no ano de 2014 de 652.639 abortos.[7]

Há ainda outras características a serem observadas no campo cultural e político dos Estados Unidos. A recente ascensão da direita conservadora, a militância cristã pró-vida fazendo frente à antiga militância pró-escolha da revolução cultural e as alterações jurídicas que removem verbas bilionárias da indústria abortista no governo de Donald Trump irão gerar um profundo impacto nos próximos anos, salvando milhões de vidas e reduzindo ainda mais o número de abortos.

Tudo isso nos autoriza a compreender que o número de abortos realizados após a legalização sobe de forma catastrófica para décadas após ter a chance de começar a reduzir, caso o ambiente cultural e político se altere significativamente.


Abortando mundo afora

Em outros países o aumento de abortos após a legalização também é observado. No reino Unido, a legalização ocorreu em 1967. No ano seguinte, o número de abortos contabilizados foi de 23.461, 72% maior do que o registro de dez anos antes, que era de 13.570 abortos. Dez anos após a legalização, o número de abortos registrados foi de 141.558, um aumento de 945% em relação ao registro de 1958. Em 2008, o registro apresentou o explosivo aumento de 1480%, gerando uma casuística de 202.158 abortos. A população do Reino Unido, nos mais de quarenta anos contabilizados na série histórica do aborto, subiu somente 10%. É o genocídio de um povo e, consequentemente, de seu legado humano e cultural.[8]

Na Suécia, onde a legalização ocorreu em 1938, o número de abortos subiu em cerca de 9.000%, indo de 220 casos registrados para mais de 38.000 casos em 2015.[9]

Na Espanha, quando o aborto foi parcialmente legalizado em 1985, foram contabilizados 6.344 abortos. Somente dois anos após a legalização, o número de abortos já alcançava 16.766, quase o triplo de casos. O crescimento no número de casos de aborto ocorreu de forma contínua até 1996, quando foram registrados 51.002 abortos, um número aproximadamente oito vezes maior do que o registrado no primeiro ano. Só para se ter uma idéia, em 2010, quando uma nova legislação ainda mais liberal foi aprovada na Espanha, ocorreram 113.031 abortos.[10]

Analisando o reverso da moeda, um caso ilustrativo é o do Chile, no qual a restrição do aborto reduziu o número de casos e, para o desespero da militância abortista e aborteira, sempre à busca das evidências glorificadoras do extermínio de fetos, apresentou uma redução na mortalidade materna. Tal exemplo revela claramente que, se alguém deseja proteger a vida das mulheres, o caminho não é se oferecer para matar seus filhos.[11]

Outro país que conseguiu reduzir o número de abortos com a proibição foi a Polônia. Em 1956, após a legalização, o número de abortos também começou a crescer de forma descontrolada por anos seguidos, alcançando a marca de cerca de 272.000 casos em 1962. Cinco anos após a restrição legal em 1990, no ano de 1995, o número de abortos caiu para 570.[12]

Dados mais recentes publicados na Dinamarca, onde o aborto é legalizado, mostram, por fim, uma perturbadora realidade. A mortalidade entre mulheres que cometem o aborto é até três vezes maior do que a mortalidade entre as mulheres que não abortam.[13] Sacrificar o próprio filho tem suas consequências, e é uma cicatriz que a mulher levará por toda a vida e marcará profundamente a cultura de todo um povo.

Hélio Angotti Neto
Colatina, 28 de dezembro de 2017.



[1] RAZZO, Francisco. Contra o Aborto. Rio de Janeiro & São Paulo: Editora Record, 2017.
[2] Como afirmou Mauro Iasi, professor universitário ganhador do Prêmio Stálin da Paz, isso mesmo, não ria, um prêmio da paz com o nome do assassino genocida e tirano Stálin: “tal pessoa é um ‘inimigo’ e deveríamos estar dispostos a lhe oferecer ‘um bom paredão’, o encontro com uma ‘boa espingarda’, uma ‘boa bala’, e por fim, ‘depois de uma boa pá, uma boa cova’. Afinal, ufana-se ele, ‘com a direita e o conservadorismo, nenhum diálogo, luta!’. BERLANZA, Lucas. Por que o “paredão” comunista pode e o golpe militar não pode? Instituto Liberal. Internet, https://www.institutoliberal.org.br/blog/por-que-o-paredao-comunista-pode-e-o-golpe-militar-nao-pode/
[3] Como descrito na série de artigos intitulada “O Extermínio do Amanhã”.
[4] Gilda Sedgh, Jonathan Bearak, Susheela Singh, Akinrinola Bankole, Anna Popinchalk, Bela Ganatra, Clémentine Rossier, Caitlin Gerdts,Özge Tunçalp, Brooke Ronald Johnson Jr, Heidi Bart Johnston, Leontine Alkema. ‘Abortion incidence between 1990 and 2014: global, regional, and subregional levels and trends’. Lancet, vol. 388, 2016, p. 258-267.
[5] NATHANSON, Bernard N. The Hand of God: A Journey from Death to Life by the Abortion Doctor Who Changed His Mind. Washington, DC: Regnery Publishing, Inc., 1996; NATHANSON, Bernard N. Aborting America:  A Doctor’s Personal Report on the Agonizing Issue of Abortion. Fort Collins, CO: Life Cycle Books, 1979.
[6] JOHNSTON, Robert. Historical abortion statistics, United States. Last updated 23 February 2017. Internet, http://www.johnstonsarchive.net/policy/abortion/ab-unitedstates.html
[7] Jatlaoui TC, Shah J, Mandel MG, et al. Abortion Surveillance — United States, 2014. MMWR Surveill Summ 2017;66(No. SS-24):1–48. DOI: http://dx.doi.org/10.15585/mmwr.ss6624a1
[8] JOHNSTON, Robert. Historical abortion statistics, England and Wales (UK). Last updated 22 October 2017. Internet, http://www.johnstonsarchive.net/policy/abortion/uk/ab-ukenglandwales.html
[9] Estudos sobre Aborto. Estudos Nacionais. Internet, http://estudosnacionais.com/numeros-na-suecia/
[10] JOHNSTON, Robert. Historical abortion statistics, Spain. Last updated 25 February 2017. Internet, http://johnstonsarchive.net/policy/abortion/ab-spain.html
[11] Koch E (2014) Epidemiología del aborto y su prevención en Chile [Epidemiology of abortion and its prevention in Chile]. Rev Chil Obstet Ginecol 7(5):351-360. Internet, http://www.revistasochog.cl/files/pdf/EDITORIAL50-e0.pdf ; Koch E, Thorp J, Bravo M, Gatica S, Romero CX, Aguilera H, Ahlers I (2012) Women's education level, maternal health facilities, abortion legislation and maternal deaths: a natural experiment in Chile from 1957 to 2007. PLoS ONE 7(5):e36613. DOI:10.1371/journal.pone.0036613. Internet, http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0036613
[12] JOHNSTON, Robert. Historical abortion statistics, Poland. Last updated 23 February 2017. Internet, http://johnstonsarchive.net/policy/abortion/ab-poland.html
[13] Gissler, M., et. al., “Pregnancy-associated deaths in Finland 1987-1994 — definition problems and benefits of record linkage,” Acta Obsetricia et Gynecolgica Scandinavica 76:651-657 (1997).