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terça-feira, 27 de novembro de 2018

A LITERATURA COMO REMÉDIO, de Dante Gallian

A LITERATURA COMO REMÉDIO
Os Clássicos e a Saúde da Alma

Entrei em contato com o Professor Dante Gallian em 2013, no Congresso Internacional de Humanidades Médicas realizado na Universidade Federal de São Paulo. O Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina acabara de começar, e lá eu apresentava meus primeiros resultados e minha fundamentação teórica, e aprendia um pouco da experiência de outros professores na nobre tentativa de humanização da saúde. Foi com alegria que recebi um exemplar de seu livro, que reconta sua trajetória e expõe seus ideais. Livro este que me foi presenteado por uma amiga em uma reunião justamente dedicada ao estudo em conjunto da Alta Cultura literária e da filosofia! Não poderia haver melhor presente.

O livro inicia com a reconstrução da história sobre como surgiu o Laboratório de Humanidades Médicas (LABHUM), e de como ideais se transformaram e se sistematizaram em pesquisas que, aos poucos, ganharam merecido reconhecimento internacional. O LABHUM, dedicado primariamente aos alunos de medicina da UNIFESP, gerou uma iniciativa denominada de Laboratório de Leitura (LabLei), que se estendeu para a comunidade e para o meio corporativo, e se ramificou, inclusive, em grupos de leitura domiciliar.

O uso humanístico da literatura para formar um ser humano integral é fundamentado no capítulo 2 do livro de Gallian: A Literatura como Remédio. O papel formativo da literatura é relembrado e enfatizado de forma ousada, ecoando uma antiga crítica ao tecnicismo cientificista e ao reducionismo da educação.

Curiosamente, entretanto, aquilo que hoje é visto como algo de importância relativa e complementar (espécie de verniz cultural ou erudição) foi, em todas as culturas humanas, das mais primitivas às mais sofisticadas, o elemento estruturador por excelência.[1]

As narrativas, componente do discurso poético tão bem descrito por Olavo de Carvalho em sua obra Aristóteles em Nova Perspectiva,[2]nos fornecem o “efeito pedagógico do exemplo”, conforme Jaeger,[3]e encarnam, muitas vezes, os mitos fundadores de toda uma civilização.[4]

Coerentemente com esta função de determinação da identidade e do ethosda comunidade, as narrativas desempenhavam também um papel essencial no processo de formação de seus indivíduos.[5]

Nesse contexto formativo, disponibilizar a leitura dos clássicos realmente assume um papel estruturador e terapêutico em uma sociedade amontoada de indivíduos cada vez mais solitários e culturalmente alienados, embora cada vez mais espremidos em grandes centros urbanos. As narrativas permitem a compreensão do próximo e a expressividade, promovendo o fenômeno de catarse, pois “desde os tempos homéricos, que ‘a arte tem um poder ilimitado de conversão espiritual’; um extraordinário poder humanizador”.[6]

Para isso, Gallian ressalta que o que se espera não é a leitura ressequida e sistematizada dos que se dizem críticos literários, mas uma leitura aberta, disposta a embarcar na viagem para a qual nos chama o autor de cada clássico, uma leitura pautada pelo que Samuel Taylor Coleridge chamava de Suspension of Disbelief.

No capítulo III, Gallian explica em detalhes o funcionamento do LabLei, incluindo o Itinerário de Discussão – que visita a obra escolhida em etapas – e uma síntese ao final de um ciclo denominada Histórias de Convivência, na qual o participante poderá realizar o “balanço, a síntese de toda a experiência laboratorial vivenciada”.[7]

Com excertos oferecidos pelos participantes, Gallian oferece ao leitor os resultados que podem ser esperados por aqueles que mergulham na leitura em grupo dos clássicos no capítulo final: (1) a experiência da leitura torna-se prazerosa – é despertada – e sofre importante potencialização e, com isso, aumenta-se o poder de compreensão do leitor; (2) o horizonte cultural e intelectual é amplificado, fomentando o desenvolvimento de habilidades; (3) questões essenciais da existência humana são confrontadas, o que gera repercussões na formação pessoal e na vivência ética em sociedade; (4) a humanização de si e a consequente abertura empática para o próximo; (5) e um efeito catártico e terapêutico.

Dante Gallian está de parabéns, pois compreendeu que a literatura tem seu valor para todos. Seu empreendimento cultural, iniciado em uma tradicionalíssima escola de medicina, encontra-se entre aquelas preciosas iniciativas que compreenderam que “em todas as profissões, um conhecimento da literatura geral é de grande importância para um amplo intercâmbio com a humanidade.”[8]

Hélio Angotti Neto

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 Hélio Angotti Neto é médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo com Residência Médica em Oftalmologia e Doutorado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atua como Professor e Coordenador do Curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo. É Presidente do Capítulo de História da Medicina da Sociedade Brasileira de Clínica Médica (Triênio 2017-2020), membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e Delegado do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo em Colatina (2018-2023). Foi Global Scholar do Center for Bioethics and Human Dignityda Trinity International Universityem 2016 (Illinois, USA) e é Diretor Editorial da Mirabilia Medicinae, publicação em Humanidades Médicas sediada no Institut d’Estudis Medievalsda Universidad Autónoma de Barcelona. Publicou os livros: A Morte da Medicina; A Tradição da Medicina; Disbioética Volume 1: Reflexões acerca de uma estranha ética; Disbioética Volume 2: Novas Reflexões Sobre uma Ética Estranha; Disbioética Volume 3: O Extermínio do Amanhã; Arte Médica: De Hipócrates a Cristo; além de diversos capítulos de livros e artigos em Oftalmologia, Bioética, Política e Humanidades Médicas. Criador e Coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina. É Presbítero da 3ª Igreja Presbiteriana de Colatina. Casado com Joana e pai de Arthur, Heitor e André.


[1]GALLIAN, Dante. A Literatura como Remédio. Os Clássicos e a Saúde da Alma. São Paulo, SP: Martin Claret, 2017, p. 59-60.
[2]CARVALHO, Olavo de. Aristóteles em Nova Perspectiva. Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Campinas, SP: Vide Editorial, 2014.
[3]GALLIAN, op. cit., p. 63.
[4]PETERSON, Jordan. Maps of Meaning. The Architecture of Belief. New York & London: Routledge, 1999.
[5]GALLIAN, op. cit., p. 61.
[6]Ibid., p. 64.
[7]Ibid., p. 134.
[8]YALE, Universidade de. A Educação Superior e o Resgate Intelectual. O Relatório de Yale de 1828. Campinas, SP: Vide Editorial, 2016.

sábado, 12 de novembro de 2016

MEDICINA, UM ESTILO DE VIDA

William Osler, um Estilo de Vida na Medicina


William Osler foi um dos mais famosos médicos modernos. Escreveu um consagrado livro sobre os princípios da Clínica Médica em seu tempo, mas as obras que permaneceram atuais foram justamente aquelas que trataram dos aspectos humanísticos e profissionais da medicina.

Em uma de suas famosas obras, "A Way of Life", Osler recomenda algumas atitudes valiosas para médicos e acadêmicos. 

A primeira recomendação é viver o presente, deixando os problemas e as preocupações do passado no passado e corrigindo o que for necessário e possível corrigir no agora. A medicina sempre foi uma arte pragmática.

Também aconselhou contra o pensamento fincado no futuro, que gera a perda de precioso tempo em ilusões e no faz-de-conta imaginando projetos que nunca são iniciados no presente. Osler recomenda tratar do presente, do que pode ser visto e feito agora, enquanto há tempo.

Sobre os modos, recomenda temperança, principalmente aos estudantes. Evitar excessos, como o abuso de tabaco e álcool, a libertinagem e a vida hedonista, que enfraquecem a dedicação profissional do estudante.

Nos estudos, aplicar-ase durante um tempo razoável, sem exageros, mas diariamente, com disciplina e profunda concentração. De forma muito compatível com achados recentes da neuro pedagogia, Osler adianta algumas dicas bem modernas como o uso da atenção focal e a delimitação das horas de estudo em constância.

Repetindo uma concepção antiga e que ainda deveria perdurar, Osler recomenda que o médico cuide de sua alma, além de seu intelecto. Que leia os clássicos imortais da literatura, entre eles o grande códice ocidental: a Bíblia. Lá estarão as histórias que moverão corações fiéis e descrentes, lá está a raiz de nossa cultura. O velho médico recomendava pelo menos cerca de vinte minutos, todos os dias - isso mesmo, sem exceção, só vinte minutos todos os dias - de leitura incluindo as Escrituras. 

Com o hábito, a nossa capacidade de concentração e estudo aumentará, e a mente se transformará numa potente ferramenta a nosso serviço e a serviço do paciente, colaborando para uma formação científica e humanística de qualidade. Dicas do bom e velho William Osler.

domingo, 16 de outubro de 2016

MEMÓRIAS DO SEFAM: NARRANDO VIDAS.

Lembro de um dia há alguns anos, ainda no primeiro ciclo bianual do SEFAM, no qual dois alunos vieram a convite numa de nossas reuniões. Foram chamados por uma veterana no programa.

Estávamos a discutir técnicas de narração e estilos literários, com o objetivo de que cada aluno fosse capaz de relatar uma experiência sua com um paciente. Os alunos que vieram sem o conhecimento prévio estranharam muito a atividade. Eu também estranharia. era aula de redação ou aula de medicina?

Mas os participantes de longa data foram capazes de escrever excelentes e emocionantes narrativas.

Algo que descobrimos durante o curso é a capacidade de catarse que a escrita ou a transmissão oral possuem. Conta-se uma história, vive-se novamente a experiência original com novas reflexões e amplifica-se as possibilidades intelectuais e emocionais geradas pela situação clínica inicial.

A escrita médica na forma de narrativa e a leitura de várias narrativas são poderosos instrumentos de enriquecimento do imaginário e de formação humanística. Vejo o vídeo "Por que Médicos Escrevem: encontrando humanidade na medicina" e reforço minha impressão inicial.



Todos deveríamos ter um diário de bordo, com histórias de nossas vidas e da vida de nossos pacientes.

Confira o documentário: https://www.kbprods.com/portfolio/why-doctors-write/

sábado, 2 de abril de 2016

COMPREENDER A MORTE PARA VIVER A VIDA

Compreender a Morte para Viver a Vida


Nós não gostamos de falar sobre a morte. Gostamos ainda menos de falar acerca da morte de nossos amigos e familiares e abominamos completamente a tomada de consciência de nossa própria finitude.

Nossa cultura contemporânea nos estimula a pensar e agir como se fôssemos imortais neste mundo, eternamente na busca de novos prazeres, negando frustrações e limitações.

Numa aula sobre tanatologia para ingressantes no Curso de Medicina, escutei deboches quando perguntei sobre como as pessoas gostariam de morrer. É uma postura defensiva clássica - debochar daquilo que se teme – que pode nos fazer perder tempo em reconhecer as questões realmente preciosas da vida. Quem debochou foram alunos novos; muitos ainda não perderam seus entes mais amados e, talvez, nenhum deles ainda tenha visto bem de perto o dia de seu fim. E sem a clara percepção de nossa finitude, como valorizar adequadamente nossos momentos de vida?

Em uma viagem recente à Universidade de Baylor, em Waco no Texas, para palestrar num evento de Humanidades Médicas, recebi preciosas dicas de leitura do professor William Hoy. Um autor recomendado com especial entusiasmo foi o Médico Paliativista Ira Byock, autor do livro “The Four Things That Matter Most: A Book About Living”.



No livro, Ira Byock utiliza vários exemplos daquele que é o grande momento de perda, dor e fragilidade – a morte – para ensinar acerca de como viver bem. Ele trata das quatro coisas mais valiosas para se dizer quando nos despedimos de alguém[1], e também nos alerta sobre o fato de que não precisamos esperar o momento de dizer adeus para falar sobre isso.



O valor de se acumular narrativas, advindas da realidade vivida ou da literatura de boa qualidade, é inestimável para a formação moral e existencial do médico. E Ira Byock se encaixa entre os vários médicos e escritores que produzem obras realmente marcantes sobre a vida e a morte humana.

São histórias verdadeiras de grande sofrimento e de grande superação.

Outros livros que trazem narrativas, fictícias ou reais, preciosas para a compreensão do fenômeno da vida humana são:

- Sinto Muito, de Nuno Lobo Antunes;

- A Morte de Ivan Illich, de Liev Tolstói;

- Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl;

- Mortais, de Atul Gawande.

A única ressalva é que este último, mais aclamado, percorre uma série de relatos de pessoas que enfrentaram o fim de suas vidas com coragem e dignidade, auxiliadas por médicos que procuraram dar a elas o máximo de conforto e respeito, e em seus últimos capítulos fornece uma estranha, descontextualizada e incoerente defesa do suicídio assistido e da eutanásia.

Por outro lado, o livro de Byock, desconhecido pela maioria dos brasileiros, mantém a coerência de um médico que respeita e valoriza a vida até seus últimos momentos, e que vai além da busca pelo alívio físico para trabalhar o próprio sentido da vida nos mais tensos momentos existenciais, fornecendo ao paciente a chance de alcançar algo que vai além da aceitação da própria finitude: a sublimação.

Para Saber Mais:

- Breve comentário sobre as Quatro Coisas:

- Conversa sobre as Quatro Coisas que mais importam:

 Prof. Dr. Hélio Angotti Neto é Coordenador do Curso de Medicina do UNESC, Diretor da Mirabilia Medicinæ (Revista internacional em Humanidades Médicas), Membro da Comissão de Ensino Médico do CRM-ES, Médico Oftalmologista pela Secretaria de Saúde do ES, Membro do Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC e criador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina (SEFAM).








[1] As quatro coisas importantes para se dizer são: Perdoe-me, Te Desculpo, Obrigado e Te Amo. Quem viveu o mínimo para tornar-se adulto provavelmente gostaria de ter dito algo parecido àqueles que se foram. BYOCK, Ira. The Four Things That Matter Most: A Book About Living. New York: ATRIA Books, 2014.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Sugestão de Leitura: O Médico, de Rubem Alves

O Médico, de Rubem Alves



Há dois dias li "O Médico", de Rubem Alves. 

O livro abre com capítulos repletos de lirismo ao redor da bela obra de Luke Fields. A mesma que adorna a página de abertura do SEFAM. O protótipo do bom médico, do médico humanista, do médico presente, reflexivo e prestativo. 

Rubem Alves segue o livro contando um pouco da inspiradora história de Albert Schweitzer, músico, filósofo e médico ganhador do prêmio Nobel da paz. 

Fala também sobre a sempre presente morte. Certeza dos nascidos e amiga incômoda de todo médico, de toda a vida.

Terminaria bem o livro, mas não segue na mesma toada de seu início.

Aqui sei que arrisco muito em futucar um buda dourado, um ícone "sagrado", como Rubem Alves.

Mas quando o lirismo descamba para uma romantização artificialmente embelezadora de maníacos cruéis como Lênin e Marx, quando velhas figuras de linguagem automatizadas pela ideologia de esquerda ("caminhando e cantando...") aos poucos substituem o lirismo profundo, íntimo e belo, o escrito progressivamente toma um ar de superficialidade, de ênfase forçada.

O lirismo de Rubem Alves também soa superficial ao criticar a religião e a teologia cristã, contra as quais o autor guardou, provavelmente, alguns ressentimentos de antigos desafetos. Transforma fenômenos complexos e sublimes em espantalhos.

Mas creio sinceramente que este livro não é amostra do que o autor tem de melhor. 

Mais, eu não digo, pois sei que já remexi demais o vespeiro. E antes que algum dardo inflamado dispare em minha direção, deixo duas excelentes opções de crônicas e relatos belíssimos sobre a arte de ser médico e de ser paciente, sem pretensões ideologizantes:

- Sinto Muito, de Nuno Lobo Antunes;



- A Morte de Ivan Illitch, de Leon Tolstói.


Boa leitura.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Precisamos mesmo de falar sobre quem fala do Olavo de Carvalho?

Da arte de difamar e menosprezar o melhor...


Foto de Matheus Bazzo Malgarise - Permissão de Josias Teófilo

Se há algo cansativo no ambiente letrado – ou pseudoletrado – do Brasil é a difamação contra os melhores.

Exemplo mais que repetido é o que se faz contra o filósofo (filósofo sim), professor e escritor Olavo de Carvalho.

O filósofo Olavo reúne uma plêiade caricatural e tenebrosa de ex-alunos e de acadêmicos diplomados que não param de prestar-lhe atenção a todos os movimentos, dispostos ao ataque no mais simples deslize ou mal-entendido. Os professores e grandes pesquisadores já o deixaram em paz há anos, após terem se escaldado na água fervente de sua crítica cultural em obras essenciais para o Brasil como O Imbecil Coletivo I e II e O Mínimo. Porém, agora é a vez dos miúdos, que atacam sem a cautela dos grandes, e com menos vergonha também.

Um texto que repete a fórmula foi publicado na revista Colombo pelo economista Joel Pinheiro, que destaca alguns trechos de sua escolha para representar seu material (http://www.cafecolombo.com.br/ideias/precisamos-falar-sobre-olavo-de-carvalho/). O autor direciona sua mira também aos alunos e amigos do filósofo brasileiro radicado na Virgínia.

Solicitado a traçar um perfil, Joel respondera que este seria crítico. Mas creio que o significado da palavra crítico não foi bem compreendido pelo editor. O perfil foi, ao que parece pelos trechos selecionados, uma difamação pura e simplesmente, e não somente contra Olavo de Carvalho, mas também contra os seus alunos, entre os quais felizmente tenho a pretensão de me incluir.

Alguns trechos foram destacados pelo próprio autor, divulgando sua publicação na revista. Ofereço um contraponto baseado numa simples e concreta realidade: estudo a obra do Olavo há doze anos e faço seu curso online desde o início. Li praticamente tudo o que ele publicou nesse período, conheço seus alunos pelos resultados mostrados e, alguns, diretamente por meio de laços acadêmicos, de respeito ou de amizade.

Sei o que sou e sei do que e de quem falo em meu contexto. Coisa que não posso afirmar do Joel, de quem pouco sei. Mas o assunto não é Joel. O assunto é Olavo e os alunos de Olavo.


“Diante de tal cenário [dominação da América Latina pelo comunismo], Olavo propõe uma solução clara e consistente: um golpe militar para extirpar a esquerda do poder. Embora já tenha clamado pelo golpe nas redes sociais, prefere instruir seus seguidores a agirem com discrição e arquitetarem a intervenção por trás dos panos, junto às Forças Armadas. Felizmente, ninguém que o leva a sério parece ter muita influência nos centros de poder. ”


Olavo nunca propôs golpe militar algum. Como todo bom filósofo deveria fazer, ele por diversas vezes listou pontos contrários e favoráveis a tal medida e, inclusive, reuniu ofensas contra si mesmo por parte de alguns alunos intervencionistas quando criticou a avidez com que alguns desejavam jogar nas costas dos militares o dever de “salvar” o Brasil.

A medida sempre defendida pelo filósofo foi a de criar uma nova elite cultural, sábia, responsável e profundamente amparada pelo estudo, pela produção de alta qualidade e pela maturidade.

Sobre extirpar algo do poder, há sim uma pretensão: extirpar o monopólio esquerdista do poder político e cultural. Se muitas críticas são feitas à esquerda, qualquer informado com o mínimo aceitável de dados para ousar escrever um perfil deveria saber que muitas outras críticas são tecidas aos liberais e conservadores brasileiros. E extirpar o monopólio esquerdista é algo tremendamente diferente de extirpar a presença da esquerda!

Conselhos foram dados sim para inúmeras pessoas sobre inúmeros assuntos. Um conselho confirmado pelo próprio Olavo de forma explícita era o de que liberais deveriam ter se aproximado dos militares. Quem deveria escutar não escutou, e o que temos é a esquerda se esforçando para influenciar, cooptar e usar os militares brasileiros enquanto os liberais não querem se “misturar”.


“Estou convencido de que, na atuação de Olavo, a forma é mais importante que o conteúdo, e chega mesmo a substituí-lo. Olavo vende com maestria a imagem de sábio e de bravo defensor do bem para jovens sedentos de certezas. E, com a confiança que nele depositam, leva-os pela mão a seu mundo mental particular. ”


Algo escrito nas entrelinhas não cheira bem. Se alguém acusa Olavo de vender uma imagem, está implicitamente deixando a pista de que ele nada é do que afirma ser ou vende. Então, em uma pequena frase, temos as acusações de que Olavo é imprudente, falsário (apenas aparência, sem conteúdo) e maligno, além de possivelmente ser um aproveitador de jovens sedentos de certezas.

É engraçado notar alguns nomes entre os jovens cheios de incertezas, citados como leitores, admiradores e seguidores pelo próprio Joel: Reinaldo Azevedo, Felipe Moura Brasil, Rodrigo Constantino, Bruno Garschagen, Flavio Morgenstern, Rodrigo Gurgel, Martim Vasques da Cunha, Lobão, Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e Padre Paulo Ricardo. É claro que a alcunha de jovens cheios de incertezas pode até ser lisonjeira para alguns desses experientes senhores repletos de cabelos brancos – ou carecas - e, em alguns casos, pais de família. Afinal, os pobres e imaturos citados são apenas escritores experientes, editores, economistas, cientistas políticos, críticos literários, músicos da “velha guarda” do rock brasileiro, políticos bem conhecidos e um sacerdote católico experiente com formação na Universidade Gregoriana do Vaticano.

Eu mesmo - pai de família, médico, presbítero, pesquisador, professor e gestor em educação médica – estaria incluído na lista de jovens inexperientes? Agradeço pelo jovem, e até mesmo pelo inexperiente, se isso significar alguém disposto a aprender com a experiência até o último suspiro.

Experiente, idoso e sábio mesmo deve ser o Joel, certo? Afinal, julga cientistas, escritores, sacerdotes e políticos com um ar repleto de nobre condescendência.

Em relação a ser fonte de certezas, após mais de meia década de aulas e uma década de leitura e pesquisa de seus livros e artigos, posso dizer que escutei muito mais a afirmação “não sei” do que respostas definitivas vindas do Olavo. E quando escutei respostas, provisórias ou definitivas, estas vieram classificadas conforme sua teoria aristotélica dos quatro discursos, graduadas de acordo com a credibilidade e o nível de certeza. Algo bem distante do perfil difamatório traçado na revista Colombo.

Foto de Matheus Bazzo Malgarise - Permissão de Josias Teófilo

Por fim, posso concordar que Olavo realmente conduziu muitos ao seu “mundo mental particular”, se por esse termo entende-se a explicitação de toda uma cosmovisão. Aliás, Olavo não possui mundo mental público! O Joel possui? Ou considera que o mundo particular mental de Joel é melhor do que o do Olavo? Não sei. Prefiro deixar para lá, dada a irrelevância de tal assunto “joelístico” para meu crescimento pessoal e considerando a amostra de seu mundo mental exposta na Revista Colombo. O fato é que toda a interação humana inclui o encontro entre mundos mentais, e que bom o Olavo disponibilizar o seu.


“O olavismo é um simulacro de religião que segrega seus adeptos do mundo. Uma “religião” que é parasitária do cristianismo por ele pregado, e em especial do catolicismo, mas que poderia facilmente se moldar a outros credos. Todos os possíveis pontos de contato com visões diferentes são neutralizados.”


Não vejo, entre os nomes de jovens inexperientes já citados, pessoas desligadas do mundo. Vejo cientistas políticos concluindo doutorados internacionais, colunistas de revistas de circulação nacional, críticos literários que participaram de bancas julgadoras em eventos internacionalmente reconhecidos e religiosos de grande repercussão.

E, pessoalmente, depois do estudo facilitado pela obra do Olavo, não posso afirmar que fiquei segregado. Pelo contrário. Participei de congressos nacionais e internacionais, fui reconhecido e premiado pelo meu trabalho, tornei-me diretor editorial de uma revista internacional, conheci acadêmicos, pesquisadores e professores do mundo inteiro, fui chamado a uma palestra nos Estados Unidos e fui escolhido para participar de uma iniciativa global em Bioética. Se isso é ser segregado do mundo, até canso em pensar o que seria ser “inserido” no mundo. Talvez o tecedor de perfis possa mostrar como é alguém superexposto, engajado e inserido para nossa iluminação, certo? Seria escrever um perfil difamatório na jovem revista Colombo o critério suficiente para o atestado de não alienação frente ao mundo? Ou na ainda jovem e interessante Dicta & Contradicta? A ausência de critérios nos leva a especular...

Sobre neutralização de perspectivas discordantes, tenho que discordar novamente. Vários de seus alunos discordam em pontos cruciais do que escutam, e nem por isso o diálogo e a aprendizagem são impedidos. Aliás, o ambiente filosófico criado raramente “neutraliza” alguém. Os poucos que foram retirados do curso (lembro de dois casos em mais de cinco anos em meio a milhares de alunos) demonstraram previamente uma falta de sinceridade e de caráter comprometedora. E os demais que saíram o fizeram por conta própria, muitas vezes tendo entrado com segundas intenções.

Eu mesmo, cristão protestante reformado, tenho minhas diferenças teológicas e discordâncias em relação ao que escuto, mas não vejo em que isso impossibilitaria uma produtiva relação de aprendizagem e amizade com o filósofo Olavo de Carvalho ou em que isso diminui o valor do conhecimento adquirido. Outros, como o genial Fábio Salgado de Carvalho, nutriram discussões metafísicas e metodológicas importantes e foram, inclusive, citados elogiosamente pelo professor, mesmo em discordância.

Sobre existir um fenômeno chamado olavismo, e tal fenômeno ser um simulacro de religião, pouco entendi. Faltaram na vulgar afirmação definições mais precisas para que alguém ouse entender melhor e tente responder (quem sabe não encontro no perfil completo quando chegar a Revista Colombo?). 

Se olavismo for estudar com Olavo de Carvalho, aí sim é algo real. Mas religião? Improvável. E se for uma deturpação alheia do que na realidade Olavo faz, não caberia ser citado de tal forma num perfil.


“Tudo em Olavo leva o aluno a se aferrar na autoridade e importância do mestre. Olavo destrói a autoestima de seus seguidores, substituindo-a pela devoção à sua pessoa. A dependência pessoal, a confiança exacerbada, a aniquilação do senso crítico em favor de uma visão supostamente mais profunda, o cultivo da admiração embasbacada. Em cada um deles, uma só conclusão: Olavo é o único canal seguro de contato com a realidade. E por isso a defesa tão aguerrida de seus seguidores. Se Olavo cair, isto é, se ficar patente que ele não é esse grande luminar do pensamento que lhes foi vendido, cairá o mundo dos discípulos.”


Joel confunde admiração e amizade pelo professor com devoção. Em relação à baixa autoestima, novamente incorre em terrível imprecisão. Depois que estudei com o Olavo, ganhei coragem para entrar no campo interdisciplinar de pesquisa e obtive todas as conquistas já descritas. Se ganhei algo, foi coragem, curiosidade e reconhecimento. E tudo foi feito sem nenhuma permissão ou orientação direta do Olavo, que à época mal sabia de minha existência; sou apenas um entre muitos alunos do curso online que nunca o viram pessoalmente, tampouco receberam orientação estratégica ou intelectual personalizada, mas que nutrem um cordial sentimento de amizade.

O desfile de mentiras sem fundamentação nos pequenos excertos selecionados pelo autor é grande, porém denota até certa criatividade ao imaginar um terrível guru opressor que instiga em seus “discípulos” (termo que gera particular aversão ao próprio Olavo): “a dependência pessoal, a confiança exacerbada, a aniquilação do senso crítico em favor de uma visão supostamente mais profunda, o cultivo da admiração embasbacada...”

Joel conclui que, para os alunos do Olavo, “Olavo é o único canal seguro de contato com a realidade”. Com a liberdade da expressão e autoridade de aluno, só posso responder uma coisa: mentirinha cabeluda, hein?

Sobre a pretensão de ser um “único canal seguro”, só posso afirmar que Olavo é ótimo em apresentar outros filósofos e escritores de peso para seus alunos e em ampliar formidavelmente o leque de influências. Onde mais alguém escutaria indicações elogiosas de filósofos, teólogos e escritores protestantes (Abraham Kuyper e Dooyeweerd), católicos (Tomás de Aquino, Bernard Lonergan e muitos, muitos outros), muçulmanos, seculares etc.

Se há alguém no Brasil que foi responsável por iniciar uma revolução editorial e refrescar com novos ares e múltiplas influências o embolorado ambiente intelectual brasileiro, esse alguém foi o Olavo.

Se, de acordo com Joel, Olavo cair, seja lá o que isso quer dizer, ficará comprovado o que o próprio Olavo afirma repetidamente: ele é apenas um ser humano, falho em diversos pontos, assim como eu ou até mesmo o tecedor de perfis, Joel Pinheiro. O mundo continua e, como já escutei em uma das aulas do Seminário de Filosofia, “um grande conforto é saber que se eu desaparecer de uma hora para outra, o mundo seguirá seu curso normalmente. ”

Sobre ser defendido de forma tão aguerrida por seus alunos e amigos – seguidores é uma palavra que beira um recurso erístico do tipo “rotulação odiosa” e nada acrescenta de útil ao perfil -, a razão é clara: ele ofereceu muito conhecimento de grande valor a muita gente. Pessoalmente, posso afirmar que o sentimento de gratidão e amizade pelo ensino e pelo incentivo recebido para o ingresso na vida intelectual geraram um profundo sentimento de respeito e uma vontade, aguerrida sim, de defendê-lo contra a injusta malícia alheia.

Isso não me torna um seguidor, um fanático ou qualquer outra coisa que caiba em perfis difamatórios, isso atesta que reconheço um benefício recebido.


“Quem quiser ler o resto, é só comprar a Revista Café Colombo. Não se decepcionará. ”


Fiz o que o editor da Revista Colombo provavelmente queria com a publicação do perfil, comprei um volume. Nada mais justo do que ler na íntegra o tal perfil e torcer para que seja muito melhor do que a seleção de trechos indicada pelo seu autor. Se algo de conteúdo aparecer, prometo escrever mais sobre o tema.

Espero ser a primeira e última vez que compro a Revista Colombo.

Primeira vez por um mórbido desejo de ver onde mais a difamação pode alcançar (talvez nutrido pela inclinação de estudar processos patológicos natural a um médico) e pelo sentimento de obrigação em defender a honra de um filósofo, pai de família, benfeitor e professor. Última vez pela constatação de que revistas que publicam perfis sensacionalistas e difamatórios não devem prosperar num ambiente decente. Mas, enfim, quem disse que nosso Brasil de hoje é decente?

Ah, antes que eu esqueça. Precisamos mesmo falar de quem fala do Olavo? Que canseira, não precisamos não!

Sei que o Joel é economista de estirpe liberal e é diplomado pela USP, e sei que escreveu um perfil difamatório sobre o Olavo. Mais não preciso e nem quero saber. Espero que, fora este ato difamatório, seja um bom moço e que alcance sucesso produzindo coisas melhores e mais dignas. E falemos de coisas mais importantes, certo?

Acredito que até mesmo o Olavo de Carvalho concordaria comigo e diria que é muito mais desafiador e intrigante escrever sobre filosofia, biografias de santos e/ou heróis e literatura de boa qualidade do que traçar perfis desta categoria sobre este ou aquele professor ou aluno.

Deixo somente uma recomendação final: se gostam de biografias e perfis de boa qualidade, prestem atenção a um projeto que promete muito: o documentário Jardim das Aflições. Será sobre a vida e obra do filósofo Olavo de Carvalho e está em produção nas mãos competentes de cineastas e entrevistadores profissionais. Possui uma qualidade quase que singular nesses nossos dias de Lei Rouanet: não utilizou verba pública! Algo que merece louvor até mesmo de um economista liberal como o Joel, não é mesmo?

***

Continuação do texto - após leitura do "perfil crítico" completo na Revista Colombo.

NADA DE NOVO, NADA DE ÚTIL
Escrevi há alguns meses um breve artigo sobre a maledicência contra Olavo de Carvalho.

Foi sobre um perfil difamatório publicado na Revista Colombo. A revista chegou e li o artigo na íntegra. Estava devendo a continuação da crítica.


Nada de novo e nada de útil encontrei após ler tudo. Só reforcei a constatação de que o jovem tecedor de perfis tem a capacidade de distorcer tudo com um olhar incrivelmente malicioso.

A capacidade de enxergar maldades é tão intensa no texto difamatório que eu imagino se, por exemplo, ao ler os quatro Evangelhos, o autor do escrito publicado na revista "cultural" não encontraria mil razões ocultas e malignas para até mesmo Cristo ter feito o que fez.

Por trás de cada atividade do Curso Online de Filosofia, Joel Pinheiro encontrou planos maquiavélicos e intenções escusas. Conseguiu distorcer todo o propósito (causa final) de tudo o que é ou foi feito no curso online, oferecendo explicações totalmente mediocrizantes, desprovidas de empatia ou de sincera busca bem intencionada pela verdade.

Depois é o Olavo quem é adepto da Teoria da Conspiração! (12 de agosto de 2016).

Prof. Dr. Hélio Angotti Neto
Coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A Dimensão Espiritual na Psicologia

A Dimensão Espiritual na Psicologia


"Foi (Viktor) Frankl quem reintroduziu a dimensão espiritual do homem na psicologia, ocasionando uma revisão fundamental da concepção do homem. O espírito não busca o prazer; busca o sentido. O espírito não busca a satisfação de suas necessidades; procura no mundo tarefas e objetivos que tenham sentido. E justamente neste ponto surge o mundo exterior com suas inúmeras possibilidades de sentido e seus valores subjetivos, que precisam ser concretizados. Unicamente uma imagem do homem, que inclua a dimensão espiritual, pode transcender o mundo interior do eu, regulado homeostaticamente, e reconhecer o homem como um ser que, além de seu equilíbrio interno de necessidades, tem a motivação singular e suprema de encontrar e realizar um sentido no mundo externo; este sentido pode significar-lhe tanto que, se necessário, consagraria até sua vida a ele. Pascal, o grande filósofo, já disse: 'O homem transcende infinitamente a si mesmo'."

Assistência Logoterapêutica
Elisabeth Lukas

sábado, 29 de agosto de 2015

Sugestão de Leitura: A Imagem Descartada, de C. S. Lewis.


Minha linha de pesquisa levou-me a pesquisar a Ética Médica ao longo dos milênios. Parte desse esforço inclui a necessidade de compreender como os antigos, os medievos e os modernos enxergaram o mundo. O que foi descartado, o que foi absorvido, o que foi destruído e o que foi criado de novo ou recriado.

No caminho para entender melhor a mente daqueles que fundaram nossa civilização, deparei-me com uma obra preciosa, recentemente traduzida e lançada pela É Realizações: A Imagem Descartada: Para Compreender a Visão Medieval do Mundo, escrita pelo fantástico C. S. Lewis, conhecido principalmente pelo seus livros infantis, secundariamente pela sua obra apologética e, por alguns poucos, pela sua obra de Alta Cultura e resgate das bases culturais de nossa civilização. 

Lá estão Boécio, PseuDionísio e Apuleio. Lá estão as descrições do Céu, os Seres Longevos, a Terra e seus habitantes. Lá está o "Modelo", como Lewis chamava.

As referências e alusões da obra são muito ricas e distantes para o leitor brasileiro, e aqueles que ousarem confrontar o lado mais complexo - e por que não dizer rico - da obra do criador das Crônicas de Nárnia, encontrarão um maravilhoso convite para entrar no mundo dos clássicos e na mente dos antigos.


segunda-feira, 15 de junho de 2015

SUGESTÃO DE LEITURA: O PRINCÍPIO DE HUMANIDADE PARTE I

O Princípio de Humanidade. Parte I: O que está acontecendo?


Por sugestão do Professor Eduardo Cabette, iniciei a leitura do livro "O Princípio de Humanidade", de Jean-Claude Gillebaud.

Considerando a importância do escrito e os múltiplos insights que este oferece ao leitor atento que esteja inserido na área de estudo conhecida por Bioética, farei uma reflexão passo a passo da leitura, destacando pontos de grande valor ao lado de algumas reflexões próprias e convidando aquele que me lê para que leia também o livro.

O capítulo 1 abre a obra com a grande pergunta: O que nos acontece?

O autor matou a grande charada da pergunta. Embora não tenha sido o primeiro a desvendar a esfinge, já que C. S. Lewis – entre outros - já alertava que a última derrota sofrida pela humanidade seria a derrubada da própria natureza do ser humano, Gillebaud contextualiza a resposta com preciosas evidências do trágico século XX e acerta na mosca, a humanidade do homem está sob ameaça de extinção.

Neste momento de grande mutação que vivemos, de globalização de mercados, avanços na genética e tecnologia abundante virtualizando a realidade do ser humano, adquirimos cada vez mais a capacidade de recriar a natureza e, enfim, recriar o criador de tais avanços.

O autor lembra do evento marcante do século passado que nos legou uma preciosa lição: o extermínio de seres humanos de forma sistemática por ideologias totalitárias. Sejam comunistas, sejam nazistas, o pressuposto que nutria sua sanha assassina basicamente era um: O ser humano perdera sua dignidade ou seu estatuto de humanidade. Não merecia deferência, tornara-se objeto, combustível para nutrir o avanço de grandes e idolatrados leviatãs eternamente sedentos do sangue dos vivos.

Gillebaud lembra que o nazismo é citado à exaustão como exemplo da tragédia humana do século XX. Alain Besançon também lembra da hipermnésia no que diz respeito ao nazismo, embora ofereça uma crítica ao esquecimento da citação de crimes comunistas no seu breve, mas importantíssimo livro, “A Infelicidade do Século”.

Mesmo que muitos torçam o nariz para a memória dos crimes nazistas ou comunistas e sua repetida menção, é elemento de nossa identidade civilizacional. Tal memória do mal é símbolo do quão fundo descemos, de nossos pecados culturais que nos jogaram dentro do abismo mais profundo da perda da noção do que é a Dignidade Humana. O esquecimento de tais fatos – reforço: FATOS – constitui o triste retrato do que somos e de onde viemos. 

Ao lado das glórias da Cristandade, do Imago Dei que eleva o dignificado ser humano às alturas divinas, apesar de suas mazelas, está a tenebrosa perda da humanidade, da dignidade, está o esquecimento de quem somos.

Hoje intelectuais internacionalmente reconhecidos como Steven Pinker e a professora Ruth Macklin desprezam a noção de dignidade humana. Compreendo a ambos. Se esquecemos o ápice humano na longa tradição cultural do ocidente – e do oriente, por que não? – não há razão forte para enxergar no ser humano mais do que um amontoado de átomos que se chocam, grudam e desgrudam conforme o acaso, sem fim, sem inteligência, sem propósito, nada mais.

Viktor Frankl acusara tudo isso. Ele, um judeu prisioneiro dos campos de concentração, sobrevivente, psiquiatra, psicólogo e filósofo, afirmou com muita razão que a culpa dos terríveis genocídios era daqueles intelectuais que não poucas vezes foram laureados com prêmios e reconhecimento internacional.

Hoje lemos um desses intelectuais - ceticistas, relativistas e cretinos - e suspiramos, encantados com sua prosa, sua sagacidade que vira e revira a realidade. Amanhã as palavras se concretizarão em atos,e destruirão os que antes suspiravam.

O problema está identificado. É a destruição de um princípio do qual muitos outros derivam: O Princípio de Humanidade. Esta é a ameaça.