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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

BIBLIOGRAFIA EM BIOÉTICA - MAPEANDO O INÍCIO DA JORNADA

Muitos perguntam quais livros são bons para começarem os estudos em Bioética.

A pergunta é relevante. Para quem realmente quer entender de qualquer assunto com qualidade, o levantamento bibliográfico prévio economizará anos de estudos pouco direcionados e auxiliará a fundamentar um posicionamento ou entender melhor o contexto de algum autor de grande importância na área.

Para começo de conversa, já respondo que qualquer embasamento interdisciplinar demorará alguns anos para acontecer com qualidade. Portanto, acumule paciência e comece a ler e estudar sem o compromisso de terminar tão cedo.

Edmund Pellegrino, o "Pai" da Ética Médica contemporânea.

Prepare-se também para navegar em mares nunca antes navegados (por você, pelo menos)! Nas palavras de Edmund Pellegrino, pai da ética médica contemporânea, é necessário saber Humanidades Médicas e Filosofia da Medicina se alguém quiser conhecer a Bioética. Estamos falando de literatura, história, filosofia (geral e especializada), retórica, lógica, política e muitas outras áreas.

Diante da necessidade de criar um referencial teórico mínimo aceitável, temos que nos perguntar algumas coisas extremamente importantes.

1. Qual o tipo de leitura?

Qual o tipo de livro que temos diante de nós? É um livro de conteúdo inspiracional e formativo? Um livro que molda nosso caráter e nossa perspectiva de mundo e nos inspira a melhorar? Ou é um livro de conteúdo informativo, que nos oferece material para raciocinar e argumentar? Outra categoria que não tratarei seria a do livro lúdico, que simplesmente nos diverte sem oferecer conteúdo útil ou nobre.[1]
Uma leitura formativa ou inspiracional pode ser repetida várias vezes durante uma vida, cada vez oferecendo uma nova perspectiva, cada vez mostrando-se mais complexa quanto mais complexos nós nos tornamos.

Já uma leitura informativa, deve ser lida uma vez para que se tenha noção de onde buscar informação relevante, e consultada novamente quando necessário.

2. Qual o foco?

Quando iniciamos um curso formal de bioética ou humanidades médicas, o foco é adquirir o básico de uma formação geral na área, pretensamente capaz de lançar o estudioso no campo de pesquisa com o mínimo de ferramentas necessárias para a argumentação e progressão nos estudos.

Embora a aproximação sistemática tenha suas inegáveis vantagens, é difícil compará-la com o ímpeto e a vitalidade de um estudo baseado em problemas, no qual iniciamos nossas leituras com base em um tópico de extrema relevância para nossas vidas, e que atrai intensamente nossa atenção.

Uma mistura saudável entre ambas as ênfases é interessante. Quantos tesouros eu não descobri ao ler materiais que não estavam diretamente relacionados a um problema que eu pesquisava?

3. Por quanto tempo?

Esta resposta é simples. Até o fim da vida.

Cada dia aprende-se algo, cada dia nós revisamos nossas perspectivas, para reforçá-las ou para colocá-las em cheque. Um estudioso dedicado saberá suportar anos de dúvidas e buscas.

Se não há fibra para aguentar a aporte de diferentes perspectivas e a vontade de harmonizá-las, não se deve arriscar uma vida intelectual, ainda mais em Bioética.

Se não há força de caráter para defender o que se mostrou verdadeiro e correto apesar das circunstâncias e da pressão externa, não se tem moral para ingressar na vida intelectual.

4. Quais as obras?

Esta é a pergunta fácil de responder. Isto não faz com que a resposta deixe de ser inquietante.

Estamos diante de um campo interdisciplinar que mistura humanidades e ciências. Portanto, a lista é enorme e variadíssima!

Se alguém deseja falar algo em Bioética, o mínimo que se espera é uma formação humanística de qualidade, incluindo os clássicos da literatura e da filosofia mundial, ao lado de uma formação científica atualizada.

Quando se trata de Bioética, aborda-se o fenômeno da vida humana e de tudo que a motiva e enriquece, fala-se das grandes religiões e do sentido da vida, lembra-se das mais comoventes histórias da humanidade e busca-se a Alta Cultura. Exigir um pouco menos do que isso já é destruir com a mediocrização todo um projeto de estudo.

5. A Formação do Imaginário

Começarei pelas grandes obras poéticas, conforme a classificação aristotélica formulada por Olavo de Carvalho.[2] São estas as mais importantes obras que fundamentam nosso imaginário e dão sustentação aos estudos mais complexos e avançados.

Hans Jonas, um dos defensores da Responsabilidade em Bioética.

Hans Jonas aconselha em um de seus livros que, para pensar e agir com responsabilidade em Bioética, era preciso muita imaginação.[3] E a imaginação bem formada requer a fundação oferecida pelos clássicos da religião e da literatura, além do aporte opcional de bons filmes.

A pedra fundamental para qualquer um que vive na cultura ocidental, em acordo ou discórdia, é a Bíblia. Não há nem discussão neste ponto. Para abrir a boca e falar qualquer coisa, o mínimo do mínimo é ter conhecimento das histórias fundamentais de nossa civilização.

Hoje, qualquer adolescente imberbe crê ser capaz de criticar milhares de anos de sabedoria e cultura acumulada. É preciso entender que essa ilusão é incapaz de sustentar uma verdadeira vida de estudos.

Nietzsche, por exemplo, foi um grande crítico da cultura ocidental e cristã. Porém, foi profundo conhecedor daquilo que criticava. Outro exemplo é Rensselaer Van Potter, autor do primeiro livro de Bioética do mundo, que afirmou ser um naturalista mecanicista, mas que utilizou explicitamente alguns versículos bíblicos das cartas apostólicas e dos salmos para argumentar em sua obra fundamental. As Escrituras, ao lado dos gregos antigos e dos romanos, são simplesmente as pedras que sustentam toda nossa cultura.

Na Bíblia estão os dilemas existenciais que assolam ou elevam a humanidade. Guerras, milagres, esperança, desespero, doença, cura, fé, salvação e perdição. Está tudo lá. A emotividade dos Salmos, o existencialismo de Eclesiastes, o exemplo do Cristo e as descrições fenomenológicas da intimidade angustiada do apóstolo. Num campo onde se discute o certo e o errado, a Bíblia fornece instrumentos narrativos que povoam o imaginário e potencializam a compreensão do ser humano.

Nesta hora normalmente alguém se ergue quase ultrajado e diz: e as outras religiões, e o pluralismo, e os ateus? De que adianta buscar pluralismo sem antes possuir integralmente alguma das perspectivas? De que adianta buscar uma posição crítica contra uma perspectiva a qual realmente não se conhece? Desenraizado de uma Alta Cultura, só restará a superficialidade e a arrogância daquele que ignora, só restará a impostura.

E nem preciso comentar o valor da Teologia no campo da Bioética!

Autores necessários para compreender parâmetros morais e perspectivas ocidentais incluem Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino, este último dissertando sobre virtudes e vícios. Recentemente, é impossível não recomendar obras de intelectuais como Francis Schaeffer e de grandes lideranças religiosas como João Paulo II e Bento XVI. Teólogos contemporâneos estão por todos os lados em Bioética, desde o brasileiro Leocir Pessini ao americano Gilbert Meinlander, importante membro da comissão presidencial de Bioética dos Estados Unidos. Religião e Bioética definitivamente se misturam e se discutem.

Na literatura clássica, temos os livros que marcaram nossa civilização. A poesia de Homero, tragédias gregas escritas por Sófocles e diálogos escritos por Platão abordam dúvidas existenciais, noções de justiça e convivência em sociedade. Romances como “A Morte de Ivan Illitch”, de Tolstói, nos ensinam quais são as fases psicológicas enfrentadas por alguém que se aproxima da morte, tomado por uma grave doença. Romances mais modernos como “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, e “1984”, de George Orwell, nos mostram projeções de sociedades futuras baseadas nos possíveis desenvolvimentos de tecnologias e ideologias da época. Até mesmo um conto de terror, como “Frankestein”, de Mary Shelley, pode nos educar quanto a visões tenebrosas do ímpeto prometeico frente ao desenvolvimento científico e às altas expectativas de sucesso na manipulação da natureza.

Viktor Frankl, Psiquiatra Judeu sobrevivente de campos de concentração nazistas.

Nos relatos de nossa época, encontramos também biografias e estudos perturbadores que demonstram o caminho que podemos trilhar ao esquecer os nossos valores civilizacionais. “Em Busca de Sentido”, escrito pelo médico Viktor Frankl, mostra a existência dentro de um campo de concentração nazista, e contextualiza os grandes crimes que marcaram o nascimento da Bioética contemporânea.

Para desenvolver a empatia e a compreensão de nossos idosos, sempre envolvidos em debates Bioéticos quando se fala sobre utilitarismo e valor da vida humana, sugiro “O Velho e o Mar”, de Hemingway. E, por que não, “Rei Lear”, de Shakespeare?

Crônicas interessantes e relatos de médicos nos momentos mais dramáticos da existência humana são capazes de sensibilizar o mais árido coração. “Sinto Muito”, do médico português Nuno Lobo Antunes, “Mortais” de Atul Gawande e “O Médico”, de Rubem Alves, são bons exemplos.

6. A História

Fala-se muita besteira a respeito de Hipócrates. Muitos acusam ou elogiam sem nunca ter lido uma obra hipocrática sequer. Alguns acham realmente que a discussão ética nasceu com a bioética – gosto de pensar que estes são poucos, mas tenho a forte impressão de que são Legião!

Julgo que as obras hipocráticas e galênicas são indispensáveis, todas elas.

Visões gerais do passado e da validade dos fundadores da ética médica podem ser obtidas em grandes historiadores modernos e contemporâneos como Ludwig Edelstein, Owsei Temkin, Albert Jonsen, Allasdair McIntyre e Gary Ferngren. Em sua obra Fundamentos de Bioética, Diego Gracia também apresenta um panorama histórico e filosófico valioso.

Diego Gracia, discípulo do filósofo espanhol Xavier Zubiri. Filósofo e Médico.

Aproveito também para falar das línguas necessárias. O mínimo que se espera de um estudioso brasileiro da Bioética é o conhecimento de inglês, português e espanhol, além de uma boa disposição em aprender algo de grego e latim, se ousar passear pela história. Ler em espanhol a obra de Diego Gracia - aprendiz de Xavier Zubiri, médico da Real Academia Espanhola de Medicina e um dos maiores bioeticistas vivos do mundo - é elemento obrigatório. O espanhol também possibilitará a leitura de outros gigantes das Humanidades Médicas como Pedro Laín-Entralgo.

7. Os Fundamentos

Um volume básico e geral é “Para Fundamentar a Bioética” de Ferrer, que mostra uma visão bem geral deste amplo campo de estudo.

Na área específica de Filosofia da Medicina, uma boa introdução é o livro escrito pelo meu amigo James Marcum, da Baylor University: “Humanizing Modern Medicine: An Introductory philosophy of medicine”. Marcum aprendeu diretamente de dois grandes intelectuais: Bernard Lonergan e Thomas Kuhn.

Além da obra já citada de Diego Gracia, de grande valor para o estudo da história e dos fundamentos da Bioética, cabe lembrar dos livros fundamentais de cada escola de pensamento. “Fundamentos de Bioética” de Tristram Engelhardt e “Fundamentos de Bioética Cristã Ortodoxa”, do mesmo autor, são obras básicas, assim como a “bíblia” do Principialismo, “Princípios de Ética Biomédica”, de Beauchamp e Childress. A escola baseada em Virtudes conta com as obras do pai da Ética Médica contemporânea, o saudoso Edmund Pellegrino: “For the Patient’s Good”, “The Virtues in Medical Practice” e “The Christian Virtues in Medical Practice”. A escola personalista dos católicos é bem representada no Brasil pela obra em dois volumes do Cardeal Elio Sgreccia, “Manual de Bioética”, e encontram-se diversos outros livros escritos também por autores protestantes que lançam fundamentos éticos nas questões ligadas à vida humana, como o livro Ética Cristã de Norman Geisler e a série Bioética, publicada pela Editora Cultura Cristã.

Na categoria curiosidade histórica, recomendo o livro “Bridge to the Future”, o primeiro livro de Bioética do mundo - muito citado e pouco lido - escrito por Van Renselaer Potter. Como foi lançado pela Loyola recentemente, deverá ser lido por muitos daqueles que sempre o elogiaram de ouvir falar.

Uma necessidade negligenciada por muitos, é beber nas melhores fontes de nossa Alta Cultura. Lembro até hoje das palavras que ouvi do médico-filósofo Diego Gracia num Congresso Brasileiro de Bioética: “o melhor livro de bioética do mundo foi escrito há tempos, por Aristóteles. É Ética a Nicômaco.” Não diria que é o melhor, mas que é indispensável. Como eu esperava, alguns riram de forma rude do convidado estrangeiro, mostrando o pior lado do ódio que uma fração expressiva de nosso povo nutre à inteligência e à cultura.

8. A Biopolítica

Bioética e política estão ligadas profundamente. Não se trata de bioética sem as devidas considerações políticas, jamais.

Fundamentos do pensamento político incluem “A República”, de Platão; “Política”, de Aristóteles; “Arte da Guerra”, de Sun Tzu; “O Príncipe”, de Maquiavel, ao lado da crítica demolidora escrita por Olavo de Carvalho, de quem eu recomendo também “A Nova era e a Revolução Cultural”, “Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão” (na verdade escrito por Schopenhauer e anotado por Olavo de Carvalho), “O Mínimo que Você Precisa Saber Para Não Ser um Idiota”, “Os Estados Unidos e a Nova Ordem Mundial” e toda a série de comentários políticos, filosóficos e culturais publicada pela Vide. Do ponto de vista psiquiátrico e estratégico, recomendo especialmente a obra de Andrew Lobacewski, “Ponerologia Política”, e a obra de Heitor de Paola, “Eixo do Mal Latino-Americano”, esta última mais estratégica do que psiquiátrica, embora também tenha sido escrita por um especialista da área.

Algumas obras que ajudam a contextualizar os conflitos ideológicos globais e entender as bases do pensamento político, estratégico e econômico que interferem sem parar na Bioética são: “Política da Prudência”, de Russel Kirk; “O Que é Conservadorismo”, de Roger Scruton; “Rules for Radicals”, de Saul Alinski; “Estratégia e Hegemonia Socialista”, de Ernesto Laclau, etc.

Um autor que ainda é pouco conhecido na Academia brasileira é Eric Voegelin, que trata de história e política com maestria, e que oferece uma nova forma de avaliar e julgar a cultura e a política. Visões de grande interesse e relevância incluem também os escritores romenos Vladimir Tismaneanu e Gabriel Liiceanu, com seus relatos e estudos assustadores do potencial destrutivo do ser humano e das suas distopias.

Na política externa, tão importante quanto à política interna, para compreender o Brasil, sugiro as obras e escritos de Paulo Roberto de Almeida, um diplomata na linha tradicional de excelência do Itamaraty, da época anterior ao desmanche feito pelo Partido dos Trabalhadores e que agora retorna com o devido reconhecimento ao Instituto Rio Branco.

9. Estudo de acordo com problemas

E enquanto se adquire a fundação que permitirá crescer em conhecimento, deve-se estudar muito conteúdo relacionado ao seu interesse específico. Aborto, Transumanismo, Eugenia, Clonagem, Ética Profissional e Corporativismo, Questões de Autonomia do Paciente, Religião e Saúde, Saúde Pública e o que mais interessar.

Comece elaborando uma abrangente e extensa bibliografia, sabendo de cada obra o autor, quando foi escrita, o principal tema tratado e as conclusões. E leia, mesmo que pouco, todos os dias.

Uma excelente para quem deseja encontrar uma bibliografia prévia dividida por assuntos é o portal do Center for Bioethics and Human Dignity, que oferece uma diversificada e valiosa lista de fontes bibliográficas divididas por assuntos de interesse. Navegue em https://cbhd.org/category/bibliography e descubra por si mesmo!

E, obviamente, nada substitui uma visita à biblioteca de um centro de estudos ou à biblioteca privada de um grande estudioso.

Para manter-se informado nos mais diversos temas, um recurso importante é o portal de notícias bioéticas, www.bioethics.com, também organizado pelo Center for Bioethics and Human Dignity. Creio ser um dos mais atualizados centros de notícias da área.

10. Periódicos

Além de livros e portais especializados em Bioética, há que se buscar as fontes de artigos de maior qualidade no mundo. Alguns dos melhores periódicos seriam os seguintes: Hastings Report, Kennedy Isntitute of Ethics Journal, American Journal of Bioethics e Journal of Medicine and Philosophy. Há muitos outros, específicos para temas como Neuroética, Comitês de Ética em Pesquisa etc.

11. Meta-Estudo

Há livros e cursos que tratam especialmente de como estudar e de como desenvolver uma vida intelectual. Recomendo “A Vida Intelectual”, de Sertilanges; “Como Ler Livros”, de Mortimer Adler; e cursos ministrados por Olavo de Carvalho incluindo: “Como tornar-se um Leitor Inteligente”, “Introdução ao Método Filosófico” e “As Bases da Auto-Educação”.

Em relação ao volume de estudo, uma expectativa adequada seria a de ler pelo menos uns cinquenta livros por ano. Algo bem razoável para atingir um padrão minimamente adequado em cerca de dez anos de estudo.

E antes que alguém comece a achar que a lista está muito grande, é necessário saber que o volume de publicações em Bioética aumenta vertiginosamente a cada ano. Portanto, mãos à obra!

Prof. Dr. Hélio Angotti Neto é Coordenador do Curso de Medicina do UNESC, Diretor da Mirabilia Medicinæ (Revista internacional em Humanidades Médicas), Membro da Comissão de Ensino Médico do CRM-ES, Visiting Scholar da Global Bioethics Education Initiative do Center for Bioethics and Human Dignity em 2016, Membro do Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC e criador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina (SEFAM).





[1] SERTILLANGES, Antonin-Dalmace. A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos. São Paulo: É Realizações, 2010.
[2] CARVALHO, Olavo de. Aristóteles em Nova Perspectiva: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Campinas, SP: VIDE Editorial, 2014.
[3] JONAS, Hans. Técnica, Medicina e Ética. Sobre a Prática do Princípio Responsabilidade. São Paulo: Paulus, 2013.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Entrevista

A Importância das Humanidades Médicas na Formação do Médico

Entrevista cedida a Davi Vieira, do Grupo de Estudos em Humanidades Médicas John Locke, da PUC-SP.



GELocke: Em primeiro lugar, nós do GELocke gostaríamos de agradecê-lo por aceitar nosso convite para esta entrevista. Como surgiu o seu interesse pelas Humanidades Médicas, e o que o fez criar o Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina?
Obrigado pelo convite!
O interesse nas Humanidades Médicas surgiu por uma confluência de diversos fatores.
Primeiro, começava a travar na época um contato mais próximo com meus pacientes, durante a residência, e assumia responsabilidades maiores pelo próximo, o que sempre estimula a maior reflexão.
À época, também conheci a obra filosófica de Olavo de Carvalho, que despertou o interesse pela área de Humanidades e me levou ao estudo de diversos outros filósofos e campos do saber, incluindo história, ética, psicologia, teologia e literatura.
Fortalecer minha fé também permitiu questionar com profundidade o sentido de minha profissão e o quão importante e valoroso era buscar o significado de tudo o que fazia, para mim e para o paciente que necessita de auxílio.
No decorrer dos estudos humanísticos, que se iniciaram aproximadamente em 2004, tive a oportunidade de ler Platão, Aristóteles, Hipócrates, Louis Lavelle, Diego Gracia, Xavier Zubiri, Eric Voegelin, Mário Ferreira dos Santos, Agostinho, João Calvino, Tomás de Aquino, José Ortega y Gasset, Pedro Lain Entralgo, Julián Marías, Viktor Frankl e vários outros.
Conforme estudava e vivia a prática médica, também percebi a falta que os estudos humanísticos de qualidade faziam à medicina. Quando muito, o acadêmico (inclusive eu em minha graduação) recebia o que agora denomino “marmita sociológica pop pseudointelectual”, uma vulgarização do que deveria ser o conhecimento humanístico, uma peça ideológica muito longe da verdadeira reflexão filosófica.
Em 2012, na qualidade de professor de medicina, resolvi fazer minha parte para mudar o cenário e montei o SEFAM (Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina). Meu objetivo era partilhar o que aprendera e prosseguir na busca de conhecimentos humanísticos úteis aos médicos e aos pacientes. Desde então sonho em formar novos estudiosos, novos médicos com bagagem cultural suficiente para trilharem seus próprios caminhos e enriquecerem a cultura médica em novas direções sem perderem suas raízes milenares.
Foi no SEFAM que comecei também a aprofundar os estudos na obra de Edmund Pellegrino - o pai da Ética Médica contemporânea, quase que completamente desconhecido no Brasil – e dos originais hipocráticos, iniciando uma de minhas linhas de pesquisa.
Como metodologia para o SEFAM, utilizei a Teoria Aristotélica dos Quatro Discursos elaborada por Olavo de Carvalho, iniciando com a formação cultural geral e literária, avançando pela retórica e pelas regras de argumentação, para enfim exercitar a dialética e a lógica, afinando o discurso e o pensamento durante dois ou mais anos. O SEFAM também trata de diversos outros assuntos, e é um pouco imprevisível na medida em que abordamos temas de interesse dos participantes. Podemos começar falando de metafísica aristotélica e terminar em economia, política e saúde, por exemplo.
Desde o começo, a grande preocupação era agregar pessoas verdadeiramente interessadas em crescer, refletir e aprender. Jamais foram enfatizados títulos, notas ou certificados. Felizmente tais pessoas motivadas apareceram e, embora poucas, tenho certeza que brilharão no futuro e, se Deus quiser, serão muito melhores do que consegui ser.
Hoje o SEFAM caminha bem, com um livro publicado (A Morte da Medicina), um trabalho premiado em Congresso Brasileiro e diversos outros apresentados em congressos de nível nacional e internacional, artigos acadêmicos publicados em revistas nacionais e internacionais, um segundo livro em edição e mais dois em elaboração, três iniciações científicas concluídas e dois convites para palestrar nos Estados Unidos e aumentar o intercâmbio cultural. Também estamos na terceira edição do Seminário UNESC de Humanidades Médicas e este ano ajudamos a organizar o I Seminário UFES de Humanidades Médicas. Com menos de quatro anos de existência o SEFAM foi muito mais longe do que eu pensava. E o melhor de tudo: estamos perto de concluir o ciclo de uma segunda turma do SEFAM!

GELocke: Qual é a importância das Humanidades na formação do médico?
A Medicina é uma maravilhosa Arte. Como toda arte, produz algo único, assim como é único cada ser humano e cada situação que vive. Mas a Medicina também utiliza a ciência e a tecnologia, amparada pela evidência estatística. Essa combinação só é eficaz se somarmos a experiência e prudência de um agente humano. Nenhum desses componentes pode faltar.
O médico precisa da ciência e da tecnologia para tratar com eficiência. E precisa das humanidades para ser ele mesmo um agente terapêutico, para gerar o famoso efeito placebo do médico. Precisa também das humanidades para se comunicar de forma eficaz e para sentir na pele o que o paciente sente, ter a tão necessária empatia que vem com a experiência de vida e com o caráter virtuoso.
É curioso notar que, ao longo da história, quando o médico mais cuidou de seu lado humanístico e, entenda-se, da ética profissional, de seu próprio caráter e de sua excelência, ele gerou maior confiança e satisfação em seus pacientes.
Por outro lado, mesmo dotada de incríveis aparatos tecnológicos e estatísticas extremamente complexas unidas à metodologia de pesquisa, a medicina contemporânea falha em satisfazer o paciente.
Medica-se! Porém não se “cuida” do paciente e, às vezes, nem de si mesmo.
As Humanidades Médicas complementam a Arte Médica. Dão profundidade, experiência, riqueza de emoções, compreensão e comunicação ao médico. E acima de tudo, potencializam o bem que pode ser feito ao paciente em necessidade.
E é claro que estudar humanidades é algo divertido, um fim em si mesmo. Como não apreciar a leitura dos clássicos? Como não se surpreender com os efeitos terapêuticos da música de qualidade em nosso espírito? Como não encher os olhos e a mente com a boa pintura? Como não meditar na profundeza das Escrituras e dos textos filosóficos?

GELocke: O nosso grupo tem como patrono o filósofo inglês John Locke. O que pensa a respeito de Locke e da tradição liberal britânica?
O pouco que sei disso deriva principalmente da obra de Roger Scruton, e de alguns volumes de história da filosofia (Giovanni Reale, Frederick Copleston, Olavo de Carvalho e Julián Marías). Julgo que ainda não estudei o suficiente para opinar a respeito de John Locke (não li seus livros) e da tradição liberal britânica com qualidade, embora a princípio não concorde com a idéia de não termos idéias inatas e considere que o liberalismo funciona muito bem somente quando se tem valores culturais bem estabelecidos e de boa qualidade.

GELocke: Recentemente, realizamos nosso primeiro evento, o I Ciclo de Palestras "Bioética".  Qual é a importância da Bioética, e quais são os tópicos que mais despertam o seu interesse na área?
Em primeiro lugar é importante ressaltar que não podemos falar da Bioética, mas de muitas bioéticas, com muitas ênfases e muitas perspectivas. Temos escolas de pensamento utilitaristas, escolas baseadas em princípios ou virtudes, escolas secularistas ou religiosas, escolas liberais ou marxistas, escolas feministas etc.
A Ética Médica é uma forma de bioética especializada. Mas também gostaria de lembrar que o termo bioética ganhou destaque há menos de meio século, enquanto que a Ética Médica já é discutida há mais de dois milênios.
Os temas que despertam meu interesse em bioética incluem o valor da vida humana e sua dignidade, o aborto e a eutanásia, a história da ética médica e da medicina ao longo dos séculos, a filosofia da medicina e a teologia aplicadas a questões éticas e a interface entre política, cultura e saúde. Por gostar de Medicina Baseada em Evidências e fazer parte de um Comitê de Ética em Pesquisa, acabo lidando também com Filosofia da Ciência, Metodologia Científica e Ética em Pesquisa, assuntos extremamente interessantes e importantes.

GELocke: Para maior aprofundamento nos tópicos relacionados à Bioética, quais leituras o senhor sugere?
Há enciclopédias, manuais e tratados de grande abrangência, e há livros sobre temas específicos. Depende muito do que se busca.
O primeiro conselho que posso dar é ir às fontes. Ler artigos é necessário, mas sem bagagem cultural e muitos livros, nada feito.
Quer saber como Edmund Pellegrino abordou a ética em saúde? Leia os livros de Pellegrino e tire suas conclusões.
Quer tecer críticas a respeito do principialismo? Leia os Princípios de Ética Biomédica e assista aos cursos online da Georgetown University (principalmente as aulas do Beauchamp).
Quer saber o que os religiosos pensam a respeito da Bioética? Leia Fundamentos da Bioética Cristã Ortodoxa (Tristram Engelhardt), Ética Cristã (Norman Geisler), a série publicada pela Editora Cultura Cristã e os dois volumes do Manual de Bioética (Elio Sgreccia). Isso só para falar dos Cristãos, sem tocar na Bioética judaica, islâmica ou oriental.
Quer entender a Ética Médica tradicional? Leia Hipócrates, Galeno, William Osler, Thomas Percival e outros antigos, medievais, modernos e contemporâneos de destaque.
Quer descobrir a fantástica trajetória da bioética e da Ética Médica? Leia Diego Gracia e Albert Jonsen.
E se alguém deseja abordar um problema, pesquise opiniões, artigos e livros de várias perspectivas, contrárias e favoráveis. Deixe correr um pouco de tempo enquanto acumula diferentes experiências e conhecimentos. In tempus veritas. Abstenha-se de emitir opiniões por um tempo enquanto ganha profundidade. Mantenha-se informado: a realidade e a experiência concreta das pessoas envolvidas é crucial. Para sair o meu primeiro artigo de bioética e meu primeiro livro foram quase dez anos de estudo sobre um tema; e ainda acho que poderia ter estudado mais.
Edmund Pellegrino dava outra dica importante. Não há como estudar Bioética sem estudar as Humanidades Médicas. E não há como estudar Humanidades sem apelar à Filosofia. E como compreender o ser humano sem compreender sua fé, seus valores, sua cosmovisão? Como consolar sem saber qual o sentido da existência de seu paciente? O bom médico que pretende refletir sobre a vida humana e a bioética apelará inclusive para a sabedoria dos textos sagrados e da Teologia.
Não há atalho. Há somente a perspectiva de uma vida de busca e intensos estudos.

GELocke: Nesse mesmo evento, uma das palestras tratou da teologia asclepíade em Hipócrates. Qual é a relevância de Hipócrates na história da medicina, e como seus ensinamentos ecoam na medicina contemporânea?
Hipócrates foi uma figura de grande carisma que nomeou toda uma escola incluindo uma linhagem de médicos que herdaram concepções religiosas de Pitágoras. Na extensa obra assinada com seu nome são demonstrados os fundamentos morais da Medicina - que considera o ser humano digno – e a busca pela virtude pessoal. Há um compromisso pessoal com a busca por uma vida compatível com tão nobre missão. É com a escola hipocrática e sua descendência também que o médico surge como profissional (professando valores), destacado do ofício religioso propriamente dito, porém sem tornar-se destituído do sentimento religioso.
A ética hipocrática é tão rica e possui elementos tão universais que foi inclusive absorvida pela cristandade primitiva e medieval.
Obviamente é necessária uma contextualização de qualquer ética prévia. Os tempos mudam sempre, com suas tecnologias e ciências, mas seu elemento de universalidade e seu conteúdo humanístico persiste, e permite ao estudioso ler Hipócrates e obter insights valorosos para a prática médica contemporânea.
GELocke: Muitíssimo obrigado, professor!

Novamente agradeço o convite. Sucesso a todos vocês, e não desistam de lutar por uma Medicina cada vez mais completa, mais científica e mais humana!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

FILOSOFIA, CULTURA E BIOÉTICA


Todo esforço em Ética Médica e Bioética é, antes de tudo, um esforço em Filosofia Moral. É a busca pela compreensão do rico fenômeno que chamamos de moral, aspecto inegável da realidade humana.


Lembro de uma palestra proferida pelo médico e filósofo bioeticista Diego Gracia durante o Congresso Brasileiro de Bioética em 2013. Segundo o discípulo de Xavier Zubiri, o melhor escrito sobre ética era a obra de Aristóteles: Ética a Nicômaco. Alguns da platéia rudemente riram baixinho, outros comentaram de forma depreciativa daquele jeito brasileiro que traduz claramente a sequência: não li, não gostei, não quero ler e ignoro quem lê, é coisa retrógrada...

Sintoma da barbárie brasileira, sem dúvida. 

Como pensar e debater Bioética e Ética Médica sem os Diálogos Platônicos? Sem o questionamento da virtude e de como ensiná-la mostrado em Protágoras e Mênom? Sem o vislumbre do íntimo do ser humano e de seus questionamentos mais sublimes lidos no Fédon? Como pensar a Justiça sem ter lido o Górgias ou a República de Platão e seu contraponto aristotélico: A Política? Como não repetir o exemplo de Allasdair McIntyre (After Virtue) na sua busca pela ética das virtudes e retornar a Aristóteles e seu já citado Ética a Nicômaco?

Como evitar os estoicos, o Cristianismo e toda a progressão do pensamento humano em suas formulações mais sutis e sublimes, capazes de tocar a experiência humana em seus momentos mais impactantes: a vida, a morte, a saúde e a doença? Como evitar os escritos morais médicos ao longo de mais de dois mil anos e suas preciosas lições?

Como negar o papel inspirador da boa literatura e de obras que auxiliam o médico e o paciente a compreender o drama da existência humana? Como negar a riqueza de vida presente em A Montanha Mágica, A Mulher que Fugiu de Sodoma, A Morte de Ivan Illitch, A Queda, Sinto Muito, Admirável Mundo Novo e tantas outras obras?

Sim, o esforço da Filosofia Moral inclui a Alta Cultura. Diria até que são indissociáveis, e que a tentativa de pensar a ética sem o aporte cultural de qualidade legado por milênios de questionamentos e reflexões só poderá terminar na brutalidade sem sentido.