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terça-feira, 21 de abril de 2020

OBEDEÇA OU MORRA

Liberdade e Opressão em tempos de Pandemia

Obedeça, obedeça, obedeça... ou, na visão de certos elementos preocupados com o bem do próximo, os princípios do SUS – Universalidade, Integralidade e Equidade – não valerão para você.

“(...) parte da minha área de atuação [é] a orientação que passarei para o gabinete de crise e, em especial, aos médicos que estiverem atendendo, é que se tiverem que escolher entre esses pacientes que seguem essas recomendações (de isolamento social) e outros pacientes que não seguem essas recomendações, que já foram autuados, que vão para as redes sociais convocar os outros para a rua, que vão para as redes sociais convocar que abram o comércio, que vão para as redes sociais convocar passeata, não importa em apoio de quem (...), se tiver que escolher entre um paciente como esse e um paciente que cumpre as regras, que está exercendo uma função essencial e por isso está se arriscando, sem nenhuma dúvida faça a escolha em favor desses que estão obedecendo. A gente perfeitamente consegue monitorar as pessoas pela rede social, montar um banco de dados.”
Se nós avançarmos para esse estágio, tenhamos um banco de dados à disposição para que o profissional de saúde faça essa escolha em favor daquele que foi acometido por uma fatalidade já que não procurou “o COVID”. Uma coisa é o COVID procurar o paciente, outra coisa é o paciente por ignorância ir ao encontro do COVID. Eu acho que essas pessoas que estão cavando a sua cova com sua própria ignorância não têm o direito de tirar a vida daqueles que estão fugindo do COVID”. (Marcelo Lessa, Promotor Público, em declaração para RJTV).

Seguindo essa curiosa linha de raciocínio, deveríamos negar atendimento a presidiários ou criminosos que chegam baleados em serviços de emergência? Deveríamos usar quais outras formas de classificar adultos, idosos e crianças? Capacidade de contribuir para a sociedade com trabalho? Notas escolares? Cor da pele ou dos olhos? Concordância política com o governante? Usuários regulares de vitaminas e suplementos alimentares?
Basta termos um sistema de vigilância poderoso o suficiente e o grande porrete do Estado estará a postos para te excluir ou te punir se você não tiver sido um bom menino. 
Por alguns momentos senti que estava em um romance de George Orwell, mas percebi que esta é a realidade em que vivemos. E pessoas que defendem essa postura são justamente aquelas que sequestraram a expressão democracia e acusam quem se lhes opõe de ditador!
Na realidade alternativa em que vivem, as coisas ocorrem como Orwell descreveria: Ódio é Amor, Mentira é Verdade, Opressão é Liberdade...

terça-feira, 24 de março de 2020

DIGA-ME COMO REAGES E TE DIREI QUEM ÉS

Seria muito melhor se esse novo Coronavírus jamais tivesse existido, com certeza. Mas da complexidade da realidade, muitas coisas se apreendem de cada situação. Lições de vida são algumas delas, proporcionadas por momentos alegres ou, no caso de uma epidemia como a atual, tensos, mas reveladores.
Nesses momentos de grande tensão, medo e dificuldade, algo de menos controlado e mais instintivo parece vir à tona em todos nós. Pela resposta das pessoas nessas horas, podemos conhecer bem mais a respeito delas ou de nós mesmos. A resposta individual à epidemia do novo coronavírus não seria um caso diferente. Alguns podem dizer que a reação política e social está exagerada ou até mesmo histérica, outros diriam que estão subestimando o problema, mas a resposta individual dada à presente situação é algo bem concreto e imediatamente verificável.
Há aqueles que reagem com calma e coragem, e fazem o possível para ajudar. No caso de profissionais da saúde, surgiram muitos pedidos, vindos de diversas partes do país, de estudantes da saúde e profissionais – alguns até acima de 70 anos de idade – para que pudessem ajudar de alguma forma, qualquer forma. São pessoas que se sentiram profundamente incomodadas pela situação e sabem que podem ajudar, que podem ser úteis. Essa é a essência da nobreza da qual tanto falou José Ortega y Gasset, o oposto da mediocridade característica do que o filósofo espanhol chamava de homem-massa.
Para Ortega, o homem-massa é justamente aquele que odeia qualquer um que ouse se levantar acima dos demais, qualquer um que ouse demonstrar valor e caráter. O homem-massa é o “senhorzinho que só busca a própria satisfação” e torna-se insensível ao próximo e aos mais altos ideais de dever e responsabilidade que formam a história de um povo.
Em contextos como o que vivemos, todos têm sua colaboração de dever, responsabilidade e honra a oferecer. Seja ficando em casa, com paciência, mesmo que sem sintomas, sabendo que pode transmitir a doença a alguém mais frágil, seja trabalhando como profissional da saúde, no front dessa guerra silenciosa.
Na esfera política e social, que muito influencia a saúde, surgiram também ofertas de ajuda mesmo de alguns que nunca se mostraram lá muito amistosos em relação ao atual governo. Compreendem que somos pessoas e tratamos de pessoas. O melhor em cada um que veio à tona foi capaz de superar desavenças em tempos diferentes.
Mas nem tudo são rosas.
Há outras formas de resposta que de regra surgem nessas horas e que mostram um contraste tão evidente como o da noite em relação ao dia.
Há quem se aproveite da situação de tensão para capitalizar tudo em termos políticos, para aproveitar a tensão e alimentar o caos com objetivo de desestruturar o próximo, de plantar a discórdia para semear o ódio e o medo. Há quem tente lucrar durante a crise não por meio da coragem e da criatividade, mas da mesquinhez e do oportunismo político, para tentar ganhar na crise o que não ganhara em tempos mais tranquilos, por exemplo.
Pode ser que tais elementos o façam por não acreditar em algo chamado Justiça, ou que justiça para eles seja ajudar os amigos e detonar os “inimigos”, como afirmara Polemarco diante de Sócrates no antigo diálogo filosófico A República.
Por fim, há aqueles que, chamados a agir com calma e a ajudar o próximo, temem desesperadamente o risco. Profissionais de saúde e estudantes que, mesmo munidos de equipamentos de segurança e fora dos grupos de risco de maior de letalidade da doença, se apavoram e declaram que não irão à frente assistencial.
Tal medo é compreensível. Aliás, só é corajoso aquele que venceu o próprio medo, como tantos discursaram de forma correta ao longo da história.
Mas é preciso salientar algumas perspectivas básicas no presente cenário quando tantos falam em questões como heroísmo, segurança e profissionalismo.
Uns falam de heroísmo, outros dizem que o discurso que profissional da saúde precisa ser herói é uma desculpa para exigir condições inadequadas de trabalho e para que profissionais se exponham ao risco de forma despreparada e se submetam a condições ruins e desnecessárias de trabalho. 
Estupidez é uma coisa, heroísmo é outra. E ser prudente não é ser covarde. Heróis podem e devem ser prudentes, mas são heróis pelos valores encarnados e pelo sacrifício realizado em prol do próximo. 
Médicos que não se enxergam como heróis ou sacerdotes não são profissionais na concepção mais tradicional da palavra. Somente por almejar ser herói ou santo é que o médico foi respeitado desde os tempos hipocráticos, utilizando o mandato social recebido para agir além do mínimo que se exigiria para qualquer um. Quando nos afastamos disso, caímos na perigosa e morna mediocridade.
Mesmo fora dos tempos de epidemia, muitos profissionais da saúde seguem dando exemplos de como ser herói sob diversos aspectos. 
Um médico cirurgião não pode negar cirurgia a um paciente com hepatite C ou soropositivo pra HIV, por exemplo. Ele sabe que assume um risco quando entra em campo operatório. Mas para isso ele será treinado e receberá os devidos meios para agir com a máxima redução do risco.
Há risco e necessidade de certo heroísmo cada vez que um médico intensivista ou infectologista e toda a equipe de saúde composta por fisioterapeutas, enfermeiros e nutricionistas entram em uma área de isolamento na unidade de terapia intensiva, pois mesmo fora de epidemias, há doenças altamente contagiosas e muito perigosas a serem combatidas.
Quantos médicos, enfermeiros e diversos outros profissionais da saúde rotineiramente fazem muito mais do que entregar um serviço? Há exemplos do que chamaríamos de ação supererrogatória por todos os lados. Palavra utilizada no campo dos estudos éticos que denota justamente fazer mais do que o mínimo necessário, fazer algo de valor que supera a obrigação 
Almejar cumprir o antigo Juramento de Hipócrates, que preconiza respeitar a vida e de guardar a si mesmo e a Arte Médica com pureza e santidade pode parecer anacrônico para alguns. Eu, por outro lado, diria que tais valores representados entre profissionais da saúde há milênios são atemporais e jamais desvanecerão enquanto durarem os sentimentos profissionais de beneficência e excelência.
Há quem diga que heróis ou santos são reflexos de uma sociedade doentia, que caso estivesse saudável jamais necessitaria dos mesmos. O fato é que todos somos fracos, doentes e limitados por natureza e em diferentes graus, e que somente naqueles momentos em que nos elevamos um pouco acima de nossas mais cotidianas misérias é que vislumbramos algo superior a nós mesmos, algo pelo qual valha a pena fazer algum tipo de sacrifício. São esses momentos e a resposta que lhes é dada que direcionam a história de um povo, e que podem ser capazes de realmente formar uma história digna de ser legada à próxima geração e definir de fato o que é o Brasil.
Hoje temos um povo que ousou sair da mediocridade, ousou mudar de rumo. Pessoas falam novamente de heroísmo, valores, família, sacrifício e honra. Palavras consideradas fora de moda ou inúteis para alguns e que há relativamente pouco tempo eram politicamente incorretas. No entanto, são símbolos das coisas que realmente refletem o bem que nos transcende, e que sem dúvida merecerão ser recordadas nos livros de história para nossos filhos.
Que Deus ajude nosso país a ter cada vez mais pessoas que realmente desejam tornar-se heroicas e tomar para si a corajosa missão de fazer algo além do mínimo necessário. Pessoas que, na crise, ao invés do oportunismo egoísta ou da indiferença, estendam a mão para oferecer auxílio.
Hélio Angotti Neto
24 de março de 2020, Brasília - DF.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

NA CONTRAMÃO DA BIOÉTICA CONTEMPORÂNEA


Em um daqueles grupos de aplicativos de smartphone sobre Cuidados Paliativos com 580 membros, Luciana Dadalto, uma advogada estudiosa da bioética, lança a seguinte sentença sobre mim logo após um médico compartilhar um texto que eu escrevera há alguns meses sobre a normativa do Conselho Federal de Medicina que regulamenta o direito de recusa terapêutica do paciente e o de objeção de consciência do médico:
"Na contramão da bioética contemporânea. O Hélio é bioeticista hipocrático, que fundamenta todas as suas opiniões no paternalismo, além de ter um forte viés religioso."

Como ela referiu-se a mim em público, cabe uma breve exposição do que eu mesmo sei sobre minha pessoa e sobre minha obra no campo da bioética, aproveitando a pérola que foi essa concisa e concentrada sequência de pseudoargumentação erística que foi lançada.

Ponto 1 – Na contramão da bioética contemporânea
É preciso deixar bem claro, logo aqui no início, que não há “uma” bioética contemporânea. Há diversas linhagens, diversas metodologias e diversos entendimentos de cada linhagem e metodologia empregada. Há bioéticas secularistas e há bioéticas religiosas, só para se ter um exemplo.
Já tive a oportunidade de traçar raízes filosóficas de diversas linhagens contemporâneas da bioética em alguns de meus escritos. No caso das bioéticas de caráter cristão (há várias dentro desse grupo) há raízes que vão além do próprio Cristianismo e regridem aos tempos pitagóricos, segundo alguns historiadores como Ludwig Edelstein, que afirma ser justamente nos pitagóricos que os médicos hipocráticos, precursores dos médicos cristãos, foram fincar suas origens ideológicas.
No caso da bioética utilitarista, há raízes hedonistas de linhagem epicurista, raízes materialistas de origem em Demócrito e raízes evolucionistas de origem em Lucrécio, só para citar algumas fontes. Dessas fontes antiquíssimas também deriva o ideário que forneceu solo para o crescimento do Transumanismo, importante ramo da bioética que vê com otimismo a tecnologia e a capacidade de o ser humano transcender a si mesmo.
Há ligações por toda parte, raízes profundas que carreiam as mesmas ideias de sempre, travestidas de novas máscaras sob novas tecnologias, antigos anseios e crenças da humanidade que reemergem em diferentes momentos da história.
Eu não sei exatamente de qual bioética contemporânea Luciana Dadalto afirma que eu estou na contramão. O que posso afirmar é que estou contra elementos bioéticos que propalam a eutanásia, o suicídio assistido e o aborto, com certeza. Se essa é a essência do que Luciana afirma ser contemporâneo, podem dizer sim que estou na contramão. Ainda sou daqueles que considera ser papel de um executor ou torturador o de matar alguém, e não de um médico.
Agora, se bioética contemporânea for outra coisa, já fica difícil responder.
Aliás, eis um dos aspectos marcantes do hipocratismo na bioética: a defesa da vida humana. Sobre o tão mal falado paternalismo hipocrático, falo adiante.
Por fim, dizer que estou contra a bioética contemporânea equivaleria a lançar mão de um argumentum ad populum, no qual é considerado errado ou desacreditado quem avança contra o consenso ou a opinião “popular” do momento. Quantidade de apoiadores não é critério de verdade, de beleza, de justiça ou de utilidade, haja visto o que aconteceu com Sócrates e Cristo, a eleição de Hitler como Chanceler na Alemanha do século passado ou o apoio acadêmico às ideias assassinas do comunismo. Dizer que minha opinião está na contramão de seja lá o que for a “bioética contemporânea” é criar uma falsa oposição por meio de um pseudoargumento que nem ad populum pode chegar a ser, no fim das contas, já que a base de comparação do que seja popular está indefinida.

Ponto 2 – Bioeticista hipocrático
Se hipocrático remeter ao respeito pela vida humana e à dedicação em protegê-la, ficaria muito honrado em ser sim um médico hipocrático. Quanto ao termo bioeticista, depende de quem interpreta.
Explico. Sou médico com especialização em oftalmologia e sou Doutor em Ciências. Estudo Filosofia e Bioética há cerca de vinte anos. No sentido socrático, ouso sim afirmar que sou um filósofo. No sentido acadêmico, não sou filósofo e tampouco sou bioeticista.
Todavia, se bioeticista é quem age, medita e escreve sobre Humanidades Médicas e Bioética, poderiam dizer sim por aí que o sou. Minha reflexão deriva de duas décadas de convívio com médicos, pacientes e suas famílias. Vivo a relação médico-paciente e dela retiro as experiências concretas e reais que me ajudam a enraizar minha reflexão filosófica na realidade.
Se alguém desejasse perguntar a mim como gostaria de ser denominado, não hesitaria: sou um médico cristão e hipocrático. Eu vivo a ética médica a cada momento em que acolho um paciente e em que sou convidado a participar de uma nova vida.
O único problema na terminologia adotada para me rotular é justamente o grande espantalho hipocrático que criaram por aí. Do que Luciana acredita que hipocrático seja, não tenho ideia, mas do que vejo por aí na Academia noto uma quase que completa ignorância dos originais hipocráticos. Sobre as falsas acusações que pesam contra o hipocratismo na saúde já escrevi em diversos artigos e em diversos livros (série Disbioética, A Morte da Medicina, A Tradição da Medicina, Arte Médica e Bioética: Vida, Valor e Verdade) e recomendo ao leitor que, caso tenha interesse, procure lá para saber com detalhes o que penso.
Quase tudo o que li sobre Hipócrates no ambiente editorial da bioética foi escrito por pessoas que aparentemente nunca leram os principais textos hipocráticos em sua integralidade, ou que deixaram de fazer a contextualização adequada com outras obras do mesmo período ou com trechos da mesma obra. É uma forma de analfabetismo funcional que repete fórmulas falsas e desgastadas e repassa uma velha mentira adiante, criada em sua origem por alguém burro, preguiçoso ou de má-fé.
Portanto, quando alguém que se diz bioeticista fala algo de Hipócrates, recomendo muita cautela. Na dúvida, leia os originais e tire suas próprias conclusões. Eu li e posso dizer que a ética presente nos textos hipocráticos não possui um paternalismo forte e, pelo contrário, respeita aspectos éticos e morais ainda vigentes e ainda considerados excelentes.
Considerando o contexto no qual se usa a expressão “bioeticista hipocrático”, sugere-se a aplicação de um rótulo odioso, além do tradicional e injusto espantalho que ronda o nome de Hipócrates no meio acadêmico da bioética.

Ponto 3 – Fundamenta todas as suas opiniões no paternalismo
Sobre onde fundamento minhas opiniões, sugiro novamente o acesso a minha obra escrita. Deixo bem clara a minha fundamentação na visão que Edmund Pellegrino tem do Bem do Paciente e também utilizo aportes filosóficos diversos, além dos cristãos. Está tudo lá.
Neste ponto discordo do juízo emitido sobre minha pessoa. O paternalismo não é uma virtude, um valor ou um princípio no qual alguém possa basear sua conduta ética em saúde, é uma forma pragmática de classificar uma ação em relação à autonomia do paciente e em relação à capacidade decisória deste e de seu médico. Luciana faria bem em meditar sobre minha obra se quiser afirmar de forma tão grandiosa que eu fundamento todas as minhas opiniões no paternalismo. Se leu, receio não ter ela compreendido o que escrevi, e acho sinceramente que sou melhor juiz acerca de minhas próprias opiniões e seus fundamentos do que ela.
De forma análoga, dizer que fundamento todas as minhas opiniões no paternalismo é algo tão estúpido quanto alguém afirmar da Luciana que ela fundamenta todas as opiniões dela com base no lucro e no mercado das ações movidas contra médicos. Isso poderia ser classificado como uma forma extremamente deturpada de ampliação indevida, isto é, tomar o todo por uma pequena parte que, além de tudo, foi distorcida e mal utilizada. No fim, é um fenômeno que julga o todo concreto da realidade por meio de abstrações falsas ou incompletas, algo típico da burrice modernista que tanto critiquei em minha breve história da ética no livro Bioética: Vida, Valor e Verdade.

Ponto 4 – Ter forte viés religioso
Sim, tenho viés cristão. Outros terão um viés ateu, outros islâmico, budista, Hare Krishna ou agnóstico. Uns mais coerentes, outros menos. Da perspectiva filosófica, todos temos uma religião, algo que nos liga a um sentido, mesmo que tal sentido seja a afirmação de que o sentido mesmo não existe, como ocorre no niilismo. É impossível não subscrever uma cosmovisão, uma forma de religião que pauta nossa perspectiva de mundo, de compreensão da realidade.
A visão secularista utilitarista da bioética é tão religiosa neste sentido quanto a visão ortodoxa, a católica ou a de alguns dos ramos do protestantismo cristão.
A questão não é ter forte viés religioso ou não, a questão é ser coerente e admitir que todos possuem uma série de pressupostos implícitos. Grande parte do esforço dialético e lógico da reflexão filosófica moral é justamente escavar tais pressupostos e trazê-los à tona para a melhor compreensão do que se afirma.
Logo, tenho um viés religioso, como todos têm, mesmo que não o admitam.
A conduta que considero idiota no sentido técnico (pesquise a etimologia de idiotes e compreenda as suas implicações) é a de que se tem uma visão imparcial, isto é, não comprometida com uma visão de mundo específica, enquanto se julga a perspectiva alheia como um pobre e prejudicado recorte da realidade. Diante da realidade, todas as nossas visões são abstrações mais ou menos completas, mais ou menos verdadeiras.
Se Luciana afirmou que tenho viés religioso como constatação simples, ela está certíssima. Se houve tentativa de menosprezar minha perspectiva ao rotular minha posição como religiosa, desqualificando minha opinião no grupo de discussão, lamento muito por ela e pelo preconceito burro que tal uso da expressão replica.
Reafirmo que tenho sim um viés religioso, pois busco continuamente me religar ao sentido da realidade. Só gostaria que o viés fosse realmente forte, pois sou muito menos forte em termos de convicção religiosa do que gostaria de ser, e a caminhada adiante em busca de virtude ainda é longa, para não dizer infinita.
O possível uso do rótulo “religioso” para desqualificar minha opinião equivaleria ao manjadíssimo argumentum ad hominem, no qual se tenta destruir um argumento com base nas características pessoais de quem o lançou.
Luciana Dadalto fez uma proeza, nisto acredito que todos poderíamos concordar. Ela foi capaz de condensar vários estratagemas erísticos nas poucas linhas de um aplicativo de mensagens. Para quem quiser saber mais sobre erística, recomendo a obra de Schopenhauer: Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão, um verdadeiro manual da trapaça discursiva por meio da manipulação psicológica. Não afirmaria que tal proeza seja fruto, porém, do uso de uma inteligência prodigiosa, pois quase toda a Academia brasileira recorre a esses recursos maliciosos de forma quase automática.
Infelizmente, isso é um típico exemplo do que é expressiva parte da Academia brasileira: uma cacofonia de insultos cínicos e golpes maliciosos de linguagem ao invés de argumentação sólida e evidências reais. E, infelizmente, não estou nem um pouco surpreso com a referência dispensada à minha pessoa, tampouco esperava algo melhor do que isso.

30 de dezembro de 2019

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Desmontando falácias abortistas - Parte 2: Caça ao Embrião

Desmontando falácias abortistas - Parte 2: Caça ao Embrião



Mentirinha: “Essa valorização do feto humano é um exagero. Chegamos ao absurdo de impedir a realização de grandes descobertas científicas que poderiam curar os mais terríveis males que assolam a humanidade por causa de uma preocupação sem sentido com embriões que poderiam ser utilizados para pesquisas com células-tronco embrionárias.”

Talvez uma das mais impressionantes formas de defender o extermínio humano por meio do aborto seja justamente colocá-lo ao lado do progresso científico que arroga para si o papel de redentor da humanidade acometida por terríveis males. Para os abortistas, o aborto se transforma em uma necessidade para que haja mais pesquisas “redentoras”.

É um apelo muito mais emocional do que racional a uma solução parcial para uma das coisas mais assustadoras na vida humana: o sentimento de finitude, muitas vezes acompanhado pelo medo do desconhecido e do sofrimento que a morte traz. Com o intuito de combater a morte, eis que surge novamente a nossa campeã, a maravilhosa ciência, parteira de tantos milagres humanos, e agora também utilizadora de embriões.

No passado não tão distante, esperava-se que, com a conclusão do Projeto Genoma, o ser humano pudesse ser reprogramado e a caixa de Pandora fosse escancarada para que cientistas alcançassem todos os mais loucos sonhos. Isso não se realizou. Descobrimos muitas outras caixas de Pandora como a epigenética, que mistura os hábitos e a cultura humana no caldo genético e a proteômica.[1]

Embarcando na marola que sobrou da onda de esperanças destroçadas, onda esta advinda da ambição pelo domínio do destino humano por meio da genética, ainda surgem aqueles que sonham com a manipulação do ser humano por meio da terapia com células-tronco.

Eis que lá vêm os abortistas em busca da mais nova desculpa para seus lucrativos abortos: utilizar as células-tronco embrionárias, muito mais poderosas do que as células-tronco adultas, para promover soluções ainda mais espetaculares.

No Brasil, o Supremo Tribunal Federal, em seu ativismo, legislou sobre a matéria, anunciando a legalidade de se pesquisar com embriões humanos, para o desgosto dos defensores da vida. Também não agradaram por completo os próprios abortistas, já que há clara orientação para não se produzir novos embriões destinados à pesquisa.

Isso tudo apesar de não haver evidências de que células-tronco embrionárias de fato possuam grandes vantagens sobre o uso de células-tronco adultas.[2]E ainda há relatos de que as células-tronco embrionárias sejam de difícil controle, já que podem causar câncer em seus receptores, dado o altíssimo potencial que encerram.[3]Por outro lado, há um grande investimento em uma nova técnica que permite a transformação de células adultas em células-tronco, são as Células-Tronco Humanas Pluripotentes Induzidas, repletas de possibilidades e com menores entraves morais.[4]Esta última técnica, que nos pouparia de grandes dúvidas acerca da moralidade em se destruir embriões humanos para pesquisar, surge em um contexto no qual a pesquisa em embriões não foi estimulada. A criatividade humana encontrou um caminho mais ético, enfim, recusando o atalho oferecido por incautos pesquisadores.

Surgem também nos dias de hoje as acusações feitas pelos abortistas de que os defensores da vida humana são retrógrados, inimigos da boa ciência que salva milhões de vidas, saudosos de uma vida medieval – como se medieval fosse algum tipo de xingamento horrendo.

Em periódicos de altíssima circulação, esfregam na cara dos defensores da vida humana que hoje milhões de pessoas de todas as idades se beneficiam das vacinas. Segundo os abortistas, é preciso ser coerente e honrar o fato de que grande parte dessas vacinas foram produzidas com a ajuda de células fetais obtidas em abortos. O que esses iluminados escritores de editoriais de revistas cientificas famosas não falam é que se pode recorrer a células fetais de abortos espontâneos e que não há compromisso ético algum em permanecer fazendo algo questionável moralmente só porque se obteve algo de positivo de uma prática antiética realizada no passado. De forma análoga, pode-se perceber o grau de estupidez dessa linha de raciocínio ao se propor o absurdo de prosseguir com as práticas nazistas de experimentos monstruosos em seres humanos só porque, no passado, de forma criminosa, algum nazista hipoteticamente descobriu algo que nos beneficiaria no presente. Não faz o menor sentido.[5]

Aliás, já que falamos em analogias e raciocínios estúpidos, cabe lembrar outro exemplo vergonhoso da argumentação abortista: o argumento do terrível prédio em chamas (ou seria o terrível argumento do prédio em chamas?).

Alguns abortistas utilizariam a seguinte situação hipotética: imagine que você está em um prédio, em meio a um terrível incêndio. Você tem a chance de salvar uma menina de cinco anos ou doze embriões congelados. Você ousaria salvar os embriões?

Michael Sandel, que propôs essa situação, utiliza isso contra a ideia de equivalência moral entre embriões e pessoas já paridas em seu livro Contra a Perfeição. Seu argumento é de que, como as pessoas de regra salvariam a menina, conclui-se que as pessoas de fato não acreditam que embriões são seres humanos.[6]Eis um verdadeiro exemplo de non sequitur.

A resposta é dada por Yuval Levin, que argumenta contra a conclusão de que embriões deveriam ser apenas material bruto para pesquisas. 

Ele reproduz a analogia da seguinte forma: imagine que você está em um prédio em chamas com sua esposa e um estranho. Se tiver que escolher, obviamente escolherá sua esposa para salvar em detrimento do estranho (ou, pelo menos, espera-se que a escolha). Ninguém poderia culpar o homem que salvou a sua esposa e não a um estranho. Disso não se concluiria de forma alguma que o estranho, que não foi salvo, era apenas material bruto para queimar ou destruir. Tampouco se concluiria que poderíamos sair por aí pegando estranhos para arrancar-lhe os órgãos para pesquisa, certo?[7]

Segundo Levin,

O problema, em outras palavras, está na aplicação da lógica de um prédio em chamas – a lógica da triagem e da emergência – para a vida cotidiana. Nosso mundo não é um prédio em chamas. Argumentar a favor disso, como foi sugerido no caso de pesquisas médicas moralmente controversas, seria negar a legitimidade de praticamente todos os limites éticos e morais sobre a ação, se tal ação fosse direcionada à resolução de uma emergência. E se nossa natureza humana ou condição mortal em si é a emergência, logo qualquer ação – qualquer meio – seria moralmente permissível para estender nossas vidas.[8]

Falando de embriões e de pesquisas antiéticas, o anúncio recente de que cientistas chineses comemoram a criação de dois bebês humanos editados geneticamente pela técnica CRISPR para que sejam imunes ao vírus do HIV desperta preocupação até mesmo em grandes entusiastas dos grandes avanços tecnológicos e do Transumanismo, como Julian Savulescu, que afirma com correção que 

Se for verdade, esta experiência é monstruosa. Os embriões eram saudáveis, sem doenças conhecidas. A edição genética em si é experimental e ainda está associada a mutações indesejadas, capazes de causar problemas genéticos em etapas iniciais e posteriores da vida, inclusive o desenvolvimento de câncer. (...) Esta experiência expõe crianças normais e saudáveis aos riscos da edição genética em troca de nenhum benefício necessário real. (...) contradiz décadas de consenso ético e diretrizes sobre a proteção dos participantes humanos em testes de pesquisa. [Os bebês resultantes dos testes de He, pesquisador chinês formado nos EUA] estão sendo usados como cobaias genéticas. Isso é uma roleta russa genética.[9]


O que se vê, na linha de argumentação abortista em prol do pretenso avanço da ciência, é o risco real e imediato de uma profunda desumanização do homem, instrumentalizando-o em prol de um avanço científico de forma irresponsável e, portanto, antiética. Em troca da imoralidade, oferecem-nos maravilhosas expectativas.

Desde quando se justifica praticar um ato com altíssimo risco de ser antiético em prol de um hipotético avanço do conhecimento humano? Pois a dúvida moral em si mesma, como obrigatoriamente acontece no caso de um ato irreversível como a edição genética ou um aborto, já aponta imediatamente a sua falha ética. 

Por fim, usar embriões humanos em pesquisas é a instrumentalização irreversível e antiética de alguns seres humanos em prol de outros, é a desvalorização da vida humana ao afirmar que ela nada ou pouco tem de especial, é dar a cara a tapa para a velha crítica posta por George Orwell em seu romance A Revolução dos Bichos: Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros...[10]




Hélio Angotti Neto é médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo com Residência Médica em Oftalmologia e Doutorado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atua como Professor e Coordenador do Curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo. É Presidente do Capítulo de História da Medicina da Sociedade Brasileira de Clínica Médica (Triênio 2017-2020), membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e Delegado do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo em Colatina (2018-2023). Foi Global Scholar do Center for Bioethics and Human Dignityda Trinity International Universityem 2016 (Illinois, USA) e é Diretor Editorial da Mirabilia Medicinae, publicação em Humanidades Médicas sediada no Institut d’Estudis Medievalsda Universidad Autónoma de Barcelona. Publicou os livros: A Morte da Medicina; A Tradição da Medicina; Disbioética Volume 1: Reflexões acerca de uma estranha ética; Disbioética Volume 2: Novas Reflexões Sobre uma Ética Estranha; Disbioética Volume 3: O Extermínio do Amanhã; Arte Médica: De Hipócrates a Cristo; além de diversos capítulos de livros e artigos em Oftalmologia, Bioética, Política e Humanidades Médicas. Criador e Coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina. É Presbítero da 3ª Igreja Presbiteriana de Colatina. Casado com Joana e pai de Arthur, Heitor e André.


[1]FANU, James Le. The Rise and Fall of Modern Medicine. New York: Basic Books, 2012.
[2]PEREIRA, Lygia da Veiga. Células-Tronco. Promessas e Realidades. São Paulo: Moderna, 2013.
[3]AMARIGLIO, Ninette; et al. ‘Donor-Derived Brain Tumor Following Neural Stem Cell Transplantation in an Ataxia Telangiectasia Patient’. InPLoS Medicine, 6(2), 2009.
[4]LEVIN, Yuval. ‘What Happened to Bioethics’. InThe New Atlantis. A Journal of Technology and Society, vol. 56, 2018, p. 92-98.
[5]Recomendo a leitura de meu artigo “Tudo é bom motivo para matar um bebezinho”, publicado em: ANGOTTI NETO, Hélio. Disbioética Volume II: Novas reflexões sobre os rumos de uma ética estranha. Brasília, DF: Monergismo, 2018.
[6]SANDEL, Michael J. Contra a Perfeição. Ética na era da engenharia genética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.
[7]LEVIN,op. cit., p. 93-94.
[8]Ibid., p. 94.
[9]LYI, Macarena Vidal. Cientistas chineses dizem ter criado os primeiros bebês geneticamente modificados. Os bebês, duas gêmeas, agora têm uma modificação que supostamente as protege contra o vírus da AIDS, segundo o geneticista He Jiankui. In:El PaísInternethttps://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/26/ciencia/1543224768_174686.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM&fbclid=IwAR3DrSoMs3k7l-JcWbIcKzL5Ci2ozAne5BJgnI_uSZFiVgLo7LF7obAq50s
[10]ORWELL, George. A Revolução dos Bichos. Um conto de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Desmontando falácias abortistas. Parte 1 – A Incrível História do Maravilhoso Amontoado de Células

A Incrível História do Maravilhoso Amontoado de Células



A Mentira: "O embrião é um amontado de células. Não é certo chamá-lo de ser humano, pois, conforme a ciência afirma, ainda não formou sistema nervoso central. Além do mais, quando se declara ausência de função cerebral em um paciente em estado grave, é o que se chama de morte encefálica. Portanto, não se considera vida um embrião que ainda nem tem sistema nervoso central".

Vamos começar desmontando um dos pacotes falaciosos mais utilizados, a mentira que eu gosto de denominar de “A Incrível História do Maravilhoso Amontoado de Células”.

Antes de começar, é preciso deixar bem claro que somente as pessoas mais ignorantes, mais incompetentes ou mais imbuídas de má-fé na argumentação ousariam afirmar que o embrião ou o feto não é um ser humano vivo. Os principais bioeticistas que defendem o aborto no mundo - como Tooley, Peter Singer, David Boonin e Mary Anne Warren - afirmam taxativamente que o feto é um ser biologicamente humano, mesmo que ousem negar o reconhecimento de seu statusmoral e da dignidade plena do ser humano.[1]

Contudo, como abortistas de regra não se prendem a distinções de qualidade em termos de argumentação ou ciência – e teremos tempo de ver estas perspectivas em breve – vamos descascar até mesmo essas pseudoargumentações mais rasas e estapafúrdias.

Imagine a seguinte situação hipotética, já enunciada pelo implacável debatedor Ben Shapiro: o simpático robô que vaga pela superfície de Marte coleta um material e envia à Terra evidências inegáveis de que, sobre o solo marciano, se encontram células bem primitivas e simples. Não haverá a menor dúvida. Gritariam a plenos pulmões e seria manchete das primeiras páginas que a vida foi encontrada em Marte! Com ponto de exclamação e tudo o mais.[2]

Voltemos à realidade e ao nosso pequenino planeta Terra.

Tanto a célula do zigoto quanto o grupamento de células que formam o embrião são absurdamente complexos. Tais células, desde o momento em que eram somente uma célula, possuem no seu núcleo um código genético que determinará em grande parte sua forma, e esse código é irrecusavelmente humano.

As reações bioquímicas que, desde o momento mais precoce, logo após a união entre o gameta masculino e o feminino, cada um contendo metade do código genético presente no núcleo – e o gameta feminino contendo o código genético das mitocôndrias –, são extremamente complexas e funcionais. Tudo acontece rumo ao desenvolvimento de um ser cada vez maior, mais interativo e com maior grau de independência – ou menor grau de dependência, a considerar da perspectiva.[3]

Se o embrião for um amontoado de células, todos nós, sem exceção, seremos também amontoados de células. E se amontoados de células podem ser destruídos, todos nós poderemos ser assassinados. É uma questão de lógica.

Amontoados de células, por exemplo, seriam cutículas empilhadas de diversos clientes de uma manicure ao fim do dia. Amontoados de células são hambúrgueres prestes a serem cozinhados no fast-foodda esquina. O embrião, por outro lado, é um ser vivo, organizado, executando funções bioquímicas orientadas ao desenvolvimento crescente de interação e autonomia relativa e parte de um complexo sistema composto por inúmeros seres vivos e elementos inorgânicos de apoio.

A única desculpa para chamar um embrião de amontoado de células talvez seja a existência de um amontoado de células a ocupar o lugar onde deveria existir um cérebro humano.

Sobre o critério de que um ser humano só pode ser assim chamado após desenvolver seu Sistema Nervoso Central, é preciso deixar bem claro que é de uma arbitrariedade absurda.

A primeira coisa que qualquer estudioso do desenvolvimento humano irá afirmar é que não há barreiras claras entre as etapas do desenvolvimento humano. Nós somos produto de um contínuo processo de mudança, repleto de evoluções e involuções. Nós somos uma complexa mistura de avanços e retrocessos, de potenciais revelados ao longo de uma vida.

Já há indícios de Sistema Nervoso Central antes das doze semanas, e seu desenvolvimento prossegue ao longo de toda a vida humana. Após nascer, há estupendas transformações no cérebro humano e na visão humana, por exemplo, por anos após o parto ter acontecido.[4]

O terceiro grande engodo é dizer que, já que podemos declarar morto um paciente com ausência de função cerebral, poderíamos igualmente declarar não vivo ou destituído de statusde pessoa um feto ou embrião no qual o Sistema Nervoso Central ainda não estivesse minimamente formado.

Essa analogia não passa de comparar alhos com bugalhos. Um paciente com diagnóstico de morte encefálica está com suas possibilidades de vida encerradas. Já um feto, mesmo que não tenha aquilo que certos abortistas teimam em denominar de Sistema Nervoso Central “desenvolvido”, está justamente no polo oposto, repleto de potencialidades de vida. Aquele está extinguindo suas funções vitais, este, por outro lado, as está iniciando.

Fazendo uma analogia econômica dessa primeira analogia porca entre aquele que morre e aquele que acaba de nascer, poderíamos dizer que tanto uma empresa decadente que logrou grande sucesso no passado e  que está fechando suas portas por ter declarado falência e não ter mais dinheiro para pagar suas contas, quanto outra empresa, que tem em caixa uma quantidade de dinheiro semelhante àquela primeira, mas que acaba de ser criada e está em processo de expansão, sem dívidas, têm o mesmo statuseconômico. Não faz o menor sentido.

O que nos mostra a ciência de boa qualidade e a filosofia é que o embrião e o feto são seres humanos extremamente complexos e repletos de potencial de vida. Qualquer outra coisa é mera especulação fantasiosa ou negação histérica da realidade.

Hélio Angotti Neto

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Hélio Angotti Neto é médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo com Residência Médica em Oftalmologia e Doutorado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atua como Professor e Coordenador do Curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo. É Presidente do Capítulo de História da Medicina da Sociedade Brasileira de Clínica Médica (Triênio 2017-2020), membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e Delegado do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo em Colatina (2018-2023). Foi Global Scholar do Center for Bioethics and Human Dignityda Trinity International Universityem 2016 (Illinois, USA) e é Diretor Editorial da Mirabilia Medicinae, publicação em Humanidades Médicas sediada no Institut d’Estudis Medievalsda Universidad Autónoma de Barcelona. Publicou os livros: A Morte da Medicina; A Tradição da Medicina; Disbioética Volume 1: Reflexões acerca de uma estranha ética; Disbioética Volume 2: Novas Reflexões Sobre uma Ética Estranha; Disbioética Volume 3: O Extermínio do Amanhã; Arte Médica: De Hipócrates a Cristo; além de diversos capítulos de livros e artigos em Oftalmologia, Bioética, Política e Humanidades Médicas. Criador e Coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina. É Presbítero da 3ª Igreja Presbiteriana de Colatina. Casado com Joana e pai de Arthur, Heitor e André.



[1]KACZOR, Christopher. A Ética do Aborto. Direitos das Mulheres, Vida Humana e a Questão da Justiça. São Paulo: Edições Loyola, 2014, p. 26.
[2]Vídeo disponível com tradução para o Português em: https://www.youtube.com/watch?v=NbXC30Zea18&-feature=youtu.be
[3]ANGOTTI NETO, Hélio. Disbioética. Volume III: O Extermínio do Amanhã. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2018, p. 107-112.
[4]Ibid., p. 49-53.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Dysbioethics Volume III

Volume III of Dysbioethics deals with a current theme in Brazil: before being brought to light, what is the being found in the womb of a woman? A human being or not? Is it right to abort him?

For many people, influenced by the ideals of the left, the response begins with "a heap of cells," then passes to "is not a human being" and ends with a loud and resounding "yes." For another part of the population, however, the answer is "I do not care". And for the majority of the population, still under the Christian culture, or adept of its main branches, the answer will always be "a human being; from conception to birth; it's wrong to murder him deliberately. "

Dr. Hélio Angotti Neto deals with all these issues and competently clarifies the situation from a medical point of view. He also deals with these important issues: Why is the issue important considering public policy? Is not this, after all, an intimate topic?; How one can deal with abortion advocates? What are the arguments of these people? Their goals really consist of what?

In addition, dr. Helio also gives us some very important rules for the public debate on this and any other issue of "polemical" character and makes us reflect on how we can dialogue with even those who wish evil for us.

The book also contains a very special appendix that deals with the decision of the Federal Supreme Court of Brazil on abortion, written by Eduardo Luiz Santos Cabette.

This subject is literally a case of life and death!

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

DISBIOÉTICA VOLUME III - O EXTERMÍNIO DO AMANHÃ


DISBIOÉTICA VOLUME III


O volume III de Disbioética trata de um tema muito mais que atual no Brasil: antes de ser trazido à luz, o que é o ser que se encontra no ventre de uma mulher? Um ser humano ou não? É correto abortá-lo?
Para muitas pessoas, influenciadas pelos ideais da esquerda, a resposta começa com “um amontoado de células”, passa para “não é um ser humano” e termina com um prepotente e retumbante “sim”. Para outra parte da população, entretanto, a resposta não passa de “não me importa”. E para a maioria da população, de cultura influenciada pelo cristianismo, ou adepta de seus principais ramos, a resposta sempre será “um ser humano, da concepção ao nascimento; é errado assassiná-lo de forma deliberada”.
Dr. Hélio Angotti Neto lida com todos esses temas e esclarece com competência a situação do ponto de vista médico. Ele também lida com estas questões importantes: “Por que a questão é tão importante como política pública? Não se trata, afinal, de um tema de foro íntimo?”; “Como lidar com quem defende o aborto? Quais são os argumentos dessas pessoas? Seus objetivos consistem de fato em quê?”
Além disso, dr. Hélio também nos repassa algumas regras importantíssimas para o debate público sobre esse e qualquer outro tema de caráter mais “polêmico”, e nos faz refletir sobre como dialogar até mesmo com quem deseja o mal para nós.
O livro contém ainda um apêndice muito especial que trata da decisão do Supremo Tribunal Federal do Brasil sobre o aborto, escrito por Eduardo Luiz Santos Cabette.
Este assunto é literalmente um caso de vida ou morte!
Adquira o livro em: https://editoramonergismo.com.br/products/disbioetica-volume-iii 
ISBN: 978-85-69980-78-0
Editora: Editora Monergismo
Data de Publicação: 2018
Número de Páginas: 210
Dimensões: 14 x 21 cm

Hélio Angotti Neto é Presbítero da 3ª Igreja Presbiteriana de Colatina, médico pela Universidade Federal do Espírito Santo, especialista em Oftalmologia pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e Doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina da USP.
Atualmente é professor e coordenador do Curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo, Diretor Editorial da Mirabilia Medicinæ (publicação especializada em Humanidades Médicas), coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina e Presidente do Capítulo de História da Medicina da Sociedade Brasileira de Clínica Médica (Triênio 2017-2020). É membro do Center for Bioethics and Human Dignity (Global Scholar do CBHD em 2016), do Comitê de Ética em Pesquisa da UNESC e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia. Marido de Joana Gonçalves Soares Angotti e pai do Arthur e do Heitor, mora em Colatina, interior do Espírito Santo.

domingo, 22 de julho de 2018

DISBIOÉTICA VOLUME 2

DISBIOÉTICA VOLUME 2
Novas Reflexões sobre os rumos de uma ética estranha.


In this expected second volume of Dysbioethics, Dr. Hélio Angotti continues his analysis, dealing with subjects that threaten bioethics - or the ethics related to individual and social human life - in the cultural and political scene of our days.

There are certain forms of bioethics that are much more error-oriented. Therefore, we can discern the existence of several paths, of several ways of thinking ethics.

In the brief articles that make up this new collection - including ethics, philosophy, politics, and book reviews - we are presented to the actual chaos of Bioethics in our societies and encouraged to act.