quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

CALL FOR PAPERS - Mirabilia Medicinae 4!


Dear Colleague,

It is truly an honor to reach you for our fourth issue on Medical Humanities, which will be published in the Mirabilia Medicinæ 4 (2015/1). We cordially invite you to submit your manuscript to this issue until June 30, 2015.

Mirabilia Medicinæ is a special supplement of Mirabilia Journal (ISSN 1676-5818).

Mirabilia is a Journal from the Institut d’Estudis Medievals (Universitat Autònoma de Barcelona) and it is indexed in many databases worldwide.

Mirabilia Medicinæ Journal is an online publication that provides articles, documents and academic reviews produced by scholars of the Medical Humanities. Such an area includes studies in Philosophy of Medicine, Bioethics and Medical Ethics, History of Medicine, Medicine and Arts, Narrative Medicine, Literature and other humanistic content in the search for the Modern, Medieval and Ancient roots of contemporary medicine.

The main theme of the fourth issue is “Virtues and Principles in Healthcare”. There will be also space for contributions outside the main theme in the subsection Varia, and I hope you feel comfortable in sending us your article.


Cordially,

Hélio Angotti Neto, MD, PhD
Director of Mirabilia Medicinæ

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Para Escrever Melhor...

Aos alunos do SEFAM e interessados em ingressar na vida acadêmica e em publicar algo, sinto-me obrigado a indicar algumas ferramentas básicas para o exercício da atividade, infelizmente negligenciadas em grande parte no Brasil: Ler e Escrever... Muito.

E antes de ler e escrever, não há como negligenciar outros dois aspectos básicos: escutar e falar!

Por fim, antes de qualquer coisa, é preciso compreender o que é a Vida Intelectual, e para isso indico uma obra que sem dúvida nenhuma será lida mais de uma vez no decorrer da vida: A Vida Intelectual de Antonin-Dalmace Sertillanges. O livro trabalha o essencial para o acadêmico: o caráter e os hábitos.



Para escutar e falar, recomendo um livro de Mortimer Jerome Adler: Como Falar, Como Ouvir. Acredite, hoje em dia desaprendemos as mais básicas normas do falar e ouvir, o que reduz em muito nossa capacidade de entendimento e até de relacionamento. É o que mais fazemos na vida em comunicação, e aquilo para o qual recebemos menos treinamento formal.


E para ler com qualidade, sejam artigos acadêmicos, ensaios, livros de filosofia ou romances, indico o clássico também escrito por Mortimer Adler: Como Ler Livros. Indispensável!


Depois dessas obras iniciais, vão algumas dicas para quem quer escrever. Leia muito e leia coisas boas na área em que deseja escrever. Deseja escrever na área de Bioética? Leia livros originais dos melhores autores do assunto, leia os clássicos milenares que tocam em assuntos similares e leia os artigos das melhores revistas internacionais sobre o tema. E aí mais uma necessidade: Leia em inglês, leia muito inglês! Para quem deseja realmente ingressar na vida intelectual, nacionalismo bocó não tem vez. É preciso ler muito bem o português e aceitar o desafio de ler em diversas outras línguas: francês, espanhol, inglês, etc.

Alguns cursos e escritos sobre como escrever também auxiliam muito. No Coursera, uma plataforma de cursos gratuitos internacionais de grandes universidades, pode ser encontrado um curso sobre como escrever artigos acadêmicos: https://www.coursera.org/course/sciwrite 

E o ideal: encontre alguém que escreva bem e que escreva com rigor, tenha um bom dicionário (físico ou online) e uma boa gramática de consulta e coloque-se à disposição para ser corrigido. Tentar, errar e tentar de novo. Não há fórmula mágica, é preciso humildade, persistência e disciplina. Humildade para escutar quem sabe mais, persistência para não desistir e disciplina para progredir.

No pain, no gain, já diziam os anglófonos. Não há lugar para preguiçosos ou mediocridades. O esquecimento dessas simples e antigas verdades conseguiu deixar o Brasil entre os piores na educação e na academia a nível mundial.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

SUGESTÃO DE LEITURA - Thieves of Virtue: When Bioethics Stole Medicine


A Bioética surgiu lá pelos anos 70 quando ficou claro que a tradicional Ética Médica Ocidental derivada de Hipócrates, da Cristandade e de médicos mais modernos como William Osler, entre outros, não daria conta do recado. Isto é, a tradicional Ética Médica encontrava-se desarmada para lidar com situações postas pelo imenso avanço tecnológico e pelas mudanças culturais. Certo?

ERRADO!

Tom Koch expõe de maneira contundente a fragilidade do véu de silêncio imposto sobre a Ética Médica tradicional por aqueles que denigrem o legado hipocrático e tecem louvores à Bioética contemporânea. O "Mito de Fundação" da Bioética pressupõe como certos alguns elementos não comprovados.

Segundo Koch, as falhas éticas da história recente da medicina se deram justamente por falhas ao seguir a máxima hipocrática, isto é: beneficiar o paciente acima de tudo. Seu livro resgata a prioridade tradicional do médico como salvaguarda para a profissão. O médico não serve a Estados, o médico não serve a mercados, o médico não serve a ideologias... o médico serve ao paciente, em prol de seu bem, compreendido num contexto que pode apresentar variações culturais, mas que mantém um forte componente universalista, como já apontado pelo historiador da Ética Médica e da Bioética Albert Jonsen.

Tom Koch critica a elevação da autonomia ao patamar máximo da Bioética, e denuncia o que chama de "Bioética do bote salva-vidas". Tal Bioética é aquela na qual cabe ao médico seguir o apontamento de filósofos capazes de distribuir as benesses da sociedade de forma racional, ao invés de investir inutilmente na vida de pessoas pouco úteis à sociedade. 

No livro, somos lembrados de que o compromisso do médico não é cortar gastos, economizar ou ser competitivo economicamente. O compromisso é fazer o bem. Somos lembrados também da realidade concreta das pessoas, repleta de fragilidades, limitações e deficiências que superam as abstrações lógicas. Um exemplo clássico de tais abstrações torna-se evidente ao observar artigos que negam o estatuto de pessoas a determinados seres humanos, negando também dignidade à vida humana como princípio.

O ataque ao paternalismo médico é criticado por Tom Koch, que enxerga no termo a encarnação de um grande espantalho, de um falso mito no qual médicos são opressores terríveis. Certo grau de assimetria é óbvio e necessário, pois o médico e o paciente existem justamente por serem diferentes e possuírem diferentes capacidades e papéis. A autonomia completa não passa enfim de uma figura de linguagem, longe de ser um conceito técnico válido e universal.

Tocar no nome de Hipócrates para fazer qualquer outra coisa que não seja criticar a Ética Médica Tradicional é algo complicado nos dias de hoje. Acusações de que tal ética seja moralmente insuportável estão nas bocas de muitos bioeticistas contemporâneos, legisladores do bem alheio e da vocação alheia. Estes são os ladrões da virtude, segundo Tom Koch.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

SEFAM em 2015: Planos e Projetos


O Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina terá muitas novidades em 2015, e inicia os projetos para conclusão em 2016.

Os módulos III e IV continuam regularmente no UNESC.

No primeiro semestre teremos a segunda edição do "Bioética em Questão" (http://medicinaefilosofia.blogspot.com.br/2015/02/curso-presencial-gratuito-bioetica-em.html), de caráter gratuito e vagas limitadas já preenchidas. Ao fim do módulo será aplicada uma prova de seleção para projetos de Iniciação Científica.

No segundo semestre teremos o módulo IV: Filosofia da Medicina. E iniciaremos os três trabalhos para apresentação no Encontro anual do Center foi Bioethics and Human Dignity (https://cbhd.org/) em 2016, na Trinity International University em Deerfield, Illinois, EUA. Os temas serão:
1 - Transhumanist Cosmovision: Philosophical, Cultural and Historical Analogies;
2 - Medical Humanities Teaching Based on the Aristotelian Four Discourses Theory;
3 - The Redemption of Hippocrates in Clinical Bioethics.

Também no segundo semestre ocorrerá o III Seminário UNESC de Humanidades Médicas, incluindo o I Curso de Formação Política para Profissionais da Saúde (http://medicinaefilosofia.blogspot.com.br/2014/11/em-2015-formacao-politica-para.html).

Ficará para 2016, provavelmente, o livro "A Tradição da Medicina", se tudo der certo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

CURSO PRESENCIAL GRATUITO: BIOÉTICA EM QUESTÃO


O curso tratará de questões fundamentais na área de Bioética, enfatizando o pensamento dialético na resolução e na reflexão de questões polêmicas em nossa sociedade envolvendo a vida, a morte, a saúde e a doença. É dedicado a todos aqueles que se interessam em refletir sobre a realidade vivida e que se dedicam aos cuidados com a saúde humana, como médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, educadores físicos etc. Também é de interesse para advogados que se dedicam à área do Biodireito, filósofos, historiadores e estudiosos das Humanidades em geral.

CRONOGRAMA DE ATIVIDADES

 

17 de março de 2015. 18:00 às 22:00
Ética Médica – Uma breve História do Legado Hipocrático – 4 horas
Prescrições Morais do Juramento de Hipócrates. A Tradição Hipocrática e as questões controversas da Ética Médica. Oponentes da Ética Hipocrática: a crítica de Tom Koch. A Dignidade Humana. O Valor da Vida. A Beneficência como parâmetro máximo. As críticas anti-hipocráticas de Robert Veatch.
Artigo para Estudo: The Hippocratic Oath and Contemporary Medicine: Dialectic Between Past Ideals and Present Reality? (Fabrice Joterrand – Rice University, Houston, Texas, USA – Journal of Medicine and Philosophy, 30, 2005, p. 107-128)

 
07 de abril de 2015. 18:00 – 22:00
Bioética, sua história e seus fundamentos – 4 horas
O surgimento da Bioética e a Ética do Bote Salva-Vidas. A Bioética Global e a Bioética Clínica. A evolução da Bioética e suas Escolas de Pensamento. A Declaração Universal da Bioética. O Principialismo, o Utilitarismo, o Personalismo, a Ética Baseada em Virtudes, a Bioética Feminista e a Ética do Cuidar. Ferramentas para a prática da bioética e a deliberação moral.
Artigo para Estudo: Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos. (Tradução e revisão final sob a responsabilidade da Cátedra UNESCO de Bioética da Universidade de Brasília e da Sociedade Brasileira de Bioética. Tradução: Ana Tapajós e Mauro Machado do Prado. Revisão: Volnei Garrafa)

 
21 de abril de 2015. 18:00 – 22:00
A Vida e a Dignidade Humana.  Clonagem, Eugenia e Transumanismo – 4 horas
Aborto e Homicídio Infantil. Aborto como problema de saúde pública. A história do aborto no ocidente. Aborto no Brasil. O Início da Vida Humana. Pessoa ou não pessoa? Potencialidade e Atualidade no aborto. Clonagem e liberdade. Aprimorar em relação a quem? Quem aprimorar? Questões d eBiodireito e Biopolítica na Clonagem Humana. Responsabilidade e Temor diante das possibilidades de Clonagem. Eugenia nos Estados Unidos, na Alemanha Nazista e na contemporaneidade. Transumanismo e Identidade Humana.
Artigo para Estudo: Moral Transhumanism: The Next Step (MICHAEL N. TENNISON)
 

12 de maio de 2015. 18:00 – 22:00
Eutanásia e o Controle da Morte Humana – 4 horas
Eutanásia, Distanásia e Ortotanásia. Protocolo Groningen. Morte Cerebral. Transplante e Ética Médica. O Direito de Morrer. Cadáver ou Ser Humano? A Dignidade do Corpo?
Artigos para Estudo: After-birth abortion: why should the baby live? (GIUBILINI E MINERVA); Abordagem crítica filosófica, científica e pragmática ao abortamento pós-nascimento (Angotti & Cols.); Brain Death, Paternalism, and the Language of “Death” (Michael Nair-Collins).

 
02 de junho de 2015. 18:00 – 22:00
Pesquisa, Avanço Tecnológico e Ética Médica – 4 horas
Regras para pesquisa no Brasil. Declarações Mundiais sobre Direitos Humanos e Pesquisas Científicas. Princípios e Conflitos em Pesquisa.
Artigo para Estudo: Philosophical Reflections on Experimenting with Human Subjects (Hans Jonas)

 
Participação no Fórum de Discussões pela Internet – 16 horas

 Ao fim do curso será disponibilizada uma avaliação de seleção para aluno de Iniciação Científica, com base em conhecimentos adquiridos durante o curso e em Inglês.


Carga Horária Total: 40 horas

10 Vagas para Acadêmicos de Medicina

2 Vagas para Outros membros da Comunidade Acadêmica ou da Comunidade Externa

Observação: O Curso Presencial é Gratuito.

Local: Sala de Reuniões da Coordenação do Curso de Medicina – Bloco A – CAMPUS I do Centro Universitário do Espírito Santo
Pré-Inscrição: Envie E-Mail para Hélio Angotti Neto
 
Organização: Prof. Dr. Hélio Angotti Neto

APOIO

domingo, 8 de fevereiro de 2015

TEMPERANÇA como Virtude Médica

Publicado originalmente no portal Academia Médica


É a arte do autocontrole, da busca pelos prazeres ditos do espírito e não do físico, sabendo que em última instância, este se beneficiará muito mais daquele. Seu papel lembra em grande parte a virtude da Prudência, mas apresenta especificidades interessantes para o médico moderno.

É a arte de evitar excessos ou faltas, é a arte de viver de forma inteligente. É no cotidiano evitar os vícios que podem destruir a carreira e prejudicar a capacidade de beneficiar o paciente.

Isso inclui coisas óbvias, desde evitar tomar um porre na véspera do plantão no Centro Cirúrgico até o exercício da modéstia cautelosa em grandes cirurgias plásticas, nas quais alguns pacientes podem nutrir expectativas irreais.

Os antigos sabiam que a busca pela saúde é também uma busca moral, uma busca pela vida correta. Nas Dietas e Regimes prescreviam-se não somente fármacos terapêuticos, mas também condutas e virtudes a serem praticadas para a boa vida.

Uma situação que logo vem à mente é a tentação de brincar de Deus, de negar a vida ao bebê no útero materno, de apressar a morte de forma indevida, de legislar sobre o que é o ser humano de forma arrogante e de ousar encarnar na prática médica um tipo de engenharia do novo homem ou do super-homem ideológico, tecnológico e geneticamente alterado.

A temperança ajuda a evitar o abuso de tratamentos dispendiosos e inúteis para o paciente, a temida obstinação terapêutica. A temperança ajuda a evitar danos ao paciente ao exagerar na mão durante procedimentos, causando a temida Iatrogenia.

Por fim, a Temperança está colada às demais virtudes de forma semelhante à Prudência, aconselhando o bom e velho “caminho do meio” que Aristóteles preconizava em sua Ética a Nicômaco.

II UNESC Seminar of Medical Humanities


The second UNESC Seminar of Medical Humanities happened in October 24 at CAMPUS I of UNESC (University Center of Espírito Santo Brazil). The event united Physicians, Philosophers, Nurses, Physiotherapists and Researchers from several institutions in an interdisciplinary meeting about Medical Humanities.


The first block happened in the morning with the following presentations about Thanatology:



Cultural and Philosophical Visions of Death & The Terminality of Life. Two Grand Conferences presented by Professor José Benjamin Gomes (PhD) from Pernambuco University, Historian and Philosopher.


Legal Aspects of Death. A Conference presented by Professor and Lawyer Luciana Dadalto, an expert on Bioethics and Advance Directives from Minas Gerais Federal University.


Negation of Death and Medical Utopia. Conference by Professor Hélio Angotti Neto, Dean of UNESC Medical School and Coordinator of the event. Presentation available at: https://www.youtube.com/watch?v=T6h1jyqdaZI


The second block included Oral Presentations in several themes from Medical Humanities:


Research integrity and the impact of conflicts of interests on society: An Analysis in the Light of the Theory of Recognition of Axel Honneth, presented by Professor Márcia Cássia Cassimiro, from Oswaldo Cruz Foundation in Rio de Janeiro. The paper has been published in Mirabilia Medicinae 3 (http://www.revistamirabilia.com/medicinae/issues/mirabilia-medicinae-3-2014-2).

The Use of Eponyms in Medical Practice, presented by Medicine Academic Fleury Marinho da Silva from UNESC Medical School. The paper has been published in Mirabilia Medicinae 3 (http://www.revistamirabilia.com/medicinae/issues/mirabilia-medicinae-3-2014-2).


Beliefs, Values and Social Representations of Normal Birth, presented by Professor Luciano Antônio Rodrigues. The paper has been published in Mirabilia Medicinae 3 (http://www.revistamirabilia.com/medicinae/issues/mirabilia-medicinae-3-2014-2).


History of Medicine & Medical Education: Bioethics and Humanities, two Grand Conferences presented by Professor Patrícia Deps, from the Faculty of Medicine of Espírito Santo Federal University.


Human Body in the Philosophical Pedagogy of Ramon Llull, presented by Professor Fabrícia Giuberti from Alacant University (Spain) and Espírito Santo Federal University.

Ethics in Physiotherapy Education, presented by Professor João Wagner Rodrigues Hernandez from the UNESC School of Physiotherapy.



Bioethics and Rape: What a Physician Should Do? Presented by Medicine Academic Rafael Ângelo Ferreira da Fonseca, from UNESC Medical School.

It was a great opportunity to meet good friends and debate important questions in Healthcare. And the inscriptions for the next UNESC Seminar of Medical Humanities - in 2015 - will soon be available at SEFAM and www.unesc.br 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

FORTITUDE, A CORAGEM MORAL

Artigo publicado originalmente no Portal Academia Médica


 Você já viu alguém corajoso? Aquele que diante de uma ameaça à sua integridade física resiste ao impulso de simplesmente correr ou se entregar? Cada dia fica mais raro, obviamente, mas não é no campo físico que atua a fortitude ou resiliência, o equivalente moral da coragem.

No campo físico da coragem, o médico atua quando enfrenta guerras e condições inóspitas para ajudar o próximo (médico sem fronteiras), quando auxiliar pessoas com doenças infecciosas e mortais e quando opera pacientes com doenças transmissíveis pelo sangue, colocando sua vida em risco em prol do bem para o paciente.

Exemplos de coragem médica atravessam os séculos, com relatos de médicos que enfrentaram a peste - mesmo sem saber como era transmitida -, relatos de médicos que não fugiram de grandes tragédias e “ficaram para trás” junto aos feridos e muitas outras situações heroicas. É claro que tal atitude heroica não se pode cobrar de ninguém, embora se espere em certa medida daquele que diz ser médico.

Já a fortitude é a capacidade de lidar com problemas e desafios de ordem moral sem se abalar, sem ceder, sem perder a compostura. É resistir à pressão do grupo, à pressão da sociedade ou à covardia moral para buscar acima de tudo o que é certo para o paciente.

Mas assim como a coragem física, seu excesso pode significar problema! No caso da coragem, seu excesso pode simplesmente traduzir-se em ousadia irresponsável e estupidez, levando o indivíduo a enfrentar obstáculos desnecessários e situações impossíveis, beirando a loucura. No caso da fortitude, o médico precisa abalar-se pelo menos o pouco suficiente para criar um vínculo empático eficaz com o seu ambiente, evitando ceder no terreno moral mas compreendendo que não habita um mundo paradisíaco em meio a anjos e, sim, um mundo repleto de problemas, conflitos, dúvidas, sofrimento e múltiplas necessidades cobrando decisões difíceis.

“Médicos precisam da fortitude para fazer a coisa certa que é esperada e exigida que ele faça, dada sua opção de vida.[1]” É fazer o que deve ser feito mesmo que os outros estejam fazendo o errado. É negar, numa linguagem teológica, a influência do “mundo”.
Outro sinal de fortitude – a coragem moral – é simplesmente negar a forte tendência de mediocridade de nossos dias, de impessoalidade crescente na prática médica.

Há uma grande pressão para orientar nossa profissão rumo a protocolos, procedimentos quase que automáticos, cotas, limites de atendimento, tratamento impessoal – muitas vezes disfarçado sob o nome de igualdade de prestação de serviços, só que ao invés de prestar um serviço igualmente valioso, presta-se um serviço igualmente medíocre – e aderência à moral minimalista.

Lembro do fantástico título da obra de Robert Musil: O Homem sem Qualidades[2]. O médico sem fortitude é um médico sem qualidades. É um burocrata. Ele está seco e morto, é um cadáver ambulante. Qualquer um lhe dirige, pois sua consciência já não habita nele. Ele tombará para onde o vento soprar.




[1] PELLEGRINO, Edmund D.; THOMASMA, David C. The Virtues in Medical Practice. Oxford: Oxford University Press, 1993
[2] MUSIL, Robert. O Homem sem Qualidades. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira – Sinergia, 2006.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Utopia Médica e Negação da Morte - Raízes Culturais do Transumanismo

Apresentação de Tema Livre no II Seminário de Humanidades Médicas do UNESC e II Seminário Capixaba de Humanidades Médicas, realizado em Colatina, ES, no CAMPUS I do Centro Universitário do Espírito Santo, dia 24 de outubro de 2014.



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

FILOSOFIA, CULTURA E BIOÉTICA


Todo esforço em Ética Médica e Bioética é, antes de tudo, um esforço em Filosofia Moral. É a busca pela compreensão do rico fenômeno que chamamos de moral, aspecto inegável da realidade humana.


Lembro de uma palestra proferida pelo médico e filósofo bioeticista Diego Gracia durante o Congresso Brasileiro de Bioética em 2013. Segundo o discípulo de Xavier Zubiri, o melhor escrito sobre ética era a obra de Aristóteles: Ética a Nicômaco. Alguns da platéia rudemente riram baixinho, outros comentaram de forma depreciativa daquele jeito brasileiro que traduz claramente a sequência: não li, não gostei, não quero ler e ignoro quem lê, é coisa retrógrada...

Sintoma da barbárie brasileira, sem dúvida. 

Como pensar e debater Bioética e Ética Médica sem os Diálogos Platônicos? Sem o questionamento da virtude e de como ensiná-la mostrado em Protágoras e Mênom? Sem o vislumbre do íntimo do ser humano e de seus questionamentos mais sublimes lidos no Fédon? Como pensar a Justiça sem ter lido o Górgias ou a República de Platão e seu contraponto aristotélico: A Política? Como não repetir o exemplo de Allasdair McIntyre (After Virtue) na sua busca pela ética das virtudes e retornar a Aristóteles e seu já citado Ética a Nicômaco?

Como evitar os estoicos, o Cristianismo e toda a progressão do pensamento humano em suas formulações mais sutis e sublimes, capazes de tocar a experiência humana em seus momentos mais impactantes: a vida, a morte, a saúde e a doença? Como evitar os escritos morais médicos ao longo de mais de dois mil anos e suas preciosas lições?

Como negar o papel inspirador da boa literatura e de obras que auxiliam o médico e o paciente a compreender o drama da existência humana? Como negar a riqueza de vida presente em A Montanha Mágica, A Mulher que Fugiu de Sodoma, A Morte de Ivan Illitch, A Queda, Sinto Muito, Admirável Mundo Novo e tantas outras obras?

Sim, o esforço da Filosofia Moral inclui a Alta Cultura. Diria até que são indissociáveis, e que a tentativa de pensar a ética sem o aporte cultural de qualidade legado por milênios de questionamentos e reflexões só poderá terminar na brutalidade sem sentido.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

VIRTUDES MÉDICAS: JUSTIÇA SEJA FEITA! PORÉM SEMPRE COM AMOR...

Publicado originalmente no Portal Academia Médica: http://academiamedica.com.br/justica-como-virtude-medico/



A virtude da Justiça busca dar a cada um o que lhe é devido. Não é muito necessário enfatizar como hoje a discussão do que é o justo a fazer se alastra pela sociedade causando debates intensos e agressivos como um incêndio subindo o morro sob forte ventania.

Fala-se do bem comum, do bem para o indivíduo e do bem para a profissão médica. Mediando essas tensões como horizonte orientador está a Justiça, mesmo que fragmentada e quase eclipsada pelo relativismo nosso de cada dia.

Na civilização cristã, um precioso adendo foi ressaltado no contexto da busca pela Justiça: a Caridade. Em si, a Caridade é uma virtude cristã aliada à compaixão e, ocasionalmente, ao perdão. Na profissão médica também funciona como a moduladora da Justiça: não cabe ao médico julgar seu paciente quanto ao merecimento de algum bem, parte-se do princípio que o médico faz o bem de forma indiscriminada a todos os que o procuram[1].

Manteve-se uma prática de caridade na profissão médica ao longo dos séculos e, inclusive, de crítica à falta de caridade por parte de médicos que traíram seus juramentos e compromissos. Espera-se do médico uma prática concreta de Justiça temperada pelo amor que a transmuta e faz com que seja transcendido o mero sentimento legalista[2].

É muito triste e decadente observar a profissão médica entrar na fase de degeneração conhecida como fase burocrática de uma profissão[3], na qual o médico cumpre apenas uma obrigação contratual, um papel social, um protocolo ou uma peça na engrenagem impessoal que lida com o ser humano de forma mecânica e fria[4].

Frente à sociedade, a virtude da Justiça leva o médico a pensar no próximo e em seu dever como membro de uma sociedade e da comunidade moral terapêutica.

É a Justiça, inegavelmente ligada ao princípio de não-maleficência, que permite ao médico quebrar o sigilo profissional se estiver diante de um caso no qual a vida de um terceiro está sob risco, como no caso de um indivíduo HIV positivo que se nega a informar e proteger o(a) cônjuge. Há uma certa “intromissão” do bem coletivo dentro da prática do bem individual, atestando que as divisões entre as duas modalidades são, por fim, abstrações. Úteis mas, ainda, abstrações.

É a Justiça que nos coloca diante de problemas que chocam nossa prática ou os anseios da sociedade com os valores que sustentam toda a profissão ou com as exigências de autoridades seculares que nos sãos superioras hierarquicamente; como é o caso da legalização do abortamento voluntário.

É o sentimento de Justiça que permite ao médico alegar objeção de consciência, acusado pela Justiça que transcende o aspecto legalista de regras mortas no papel, tantas vezes incapazes de traduzir a riqueza de experiências e dilemas que é a vida humana, inspiradora de tantas poesias e tragédias.

É a Justiça aliada à Prudência que equilibrará na melhor forma possível o infindável conflito entre o bem para o indivíduo e o bem para a sociedade. E o médico só poderá utilizar essas duas virtudes, e todas as outras por fim, se entregar-se realmente à sua vocação de amigo e bom samaritano: auxiliar o próximo.

Prof. Dr. Hélio Angotti Neto
Doutorado em Ciências Médicas pela FMUSP
Médico Oftalmologista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia
Coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina – SEFAM
Coordenador do Curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo – UNESC
Diretor Editorial da Mirabilia Medicinae, revista especializada em Humanidades Médicas




[1] Mesmo ao político petista corrupto e detrator de médicos, como já disse em outro lugar.
[2] PELLEGRINO, Edmund D.; THOMASMA, David C. The Virtues in Medical Practice. Oxford: Oxford University Press, 1993, p. 94-95.
[3] Diego Gracia, em seu livro que é referência obrigatória em Ética Médica e Bioética – Fundamentos de Bioética – divide as profissões clássicas em três fases: carismática, tradicional e burocrática. Alguém tem alguma dúvida sobre em qual fase nos encontramos? Cf. GRACIA-GUILLÉN, Diego. Fundamentos de Bioética. Madrid, Espanha: Editorial Triacastela, 2008.
[4] Talvez uma das grandes tentações do funcionarismo público.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

SUGESTÃO DE LEITURA
 

 Para Fundamentar a Bioética. Jorge José Ferrer e Juan Carlos Álvarez

Um livro introdutório ao estudo da fundamentação bioética, suas diversas escolas e teorias de decisão e justificação moral. Trata dos conceitos básicos e das escolas anglo-saxãs como a Principialista, a Baseada em Virtudes, a Utilitarista, a Naturalista, a Ética da Permissão de Engelhardt e a Casuísta; trata... também de algumas escolas que o autor denomina mediterrâneas, incluindo a Principialista Escalonada e Realista de Diego Gracia, com forte fundamentação em Xavier Zubiri e Pedro Laín Entralgo, a Personalista de Elio Sgreccia e a Secular italiana.

Uma dica que considero importante: ler a fundamentação ética da teoria de Diego Gracia sem conhecer a obra de Xavier Zubiri é um desafio, mesmo com a tentativa de facilitar a compreensão empreendida pelos autores desta obra introdutória. Obras auxiliares que ajudarão muito a compreender a fundamentação e o valor da obra de Diego Gracia são os originais de Xavier Zubiri (Trilogia Senciente) e Introdução ao Pensamento de Xavier Zubiri. Há um curso online que pode ser feito na Fundación Xavier Zubiri que também oferece uma fundamentação de qualidade para compreender Zubiri. Acredite, o esforço vale a pena!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A Indispensável Virtude Médica da Prudência – Phronesis

Artigo originalmente publicado no Portal Academia Médica

Edmund Pellegrino afirmava que:

Phronesis era o termo que Aristóteles utilizava para a virtude da Sabedoria Prática, a capacidade de intuição moral, a capacidade – em uma circunstância específica – de discernir qual escolha moral ou curso de ação conduzirá melhor ao bem do agente ou da atividade na qual o agente encontra-se comprometido. Phronesis é a virtude intelectual que nos predispõe a buscar a verdade em prol da ação, oposta à busca da verdade em prol dela mesma, o que constitui a sabedoria especulativa ou sophia.”[1]

A prudência é mediadora entre todas as demais virtudes na busca ativa de executar um bem[2]. Como balancear a beneficência com a autonomia? Utiliza-se a prudência. O quão justo, corajoso, humilde, compassivo e bondoso se deve ser? A prudência ajuda a tomar o “caminho do meio”, ajuda-nos a não desviar nem para a direita e nem para a esquerda.

Na Medicina a prudência irá auxiliar sobremaneira o raciocínio clínico e o plano terapêutico. É a prudência que equilibrará a compaixão subjetiva e a equanimidade objetiva. É a prudência que nos auxilia a contar uma notícia trágica, a comunicar a morte de um ente querido, a anunciar o fim das capacidades da medicina, de nossa inteligência e de nossa tecnologia. É ela que nos ajuda a dosar a quantidade e a temperatura da informação dada a cada momento.

Ao pesar o risco de uma terapia e seus benefícios contra o risco de se deixar uma doença seguir seu curso e ao se considerar o quanto de qualidade de vida será comprometida com determinado curso de ação, a prudência será a haste da balança.

Na tríade do erro médico, a imprudência arrasta os outros dois quesitos. Um médico imprudente tomará a conduta errada mesmo que tenha o conhecimento adequado e mesmo que queira ajudar o paciente. Um médico imprudente ousará ir além do limite permitido por seu conhecimento e seus estudos e práticas, prejudicando o paciente. Um médico imprudente, por fim, agira de forma negligente, deixando de utilizar seu conhecimento e sua técnica para realizar o bem a seu paciente[3].

Se há uma virtude que “tempera” todas as demais, esta virtude é sem dúvida nenhuma a prudência.





[1] PELLEGRINO, Edmund. The Virtues in Medical Practice. Oxford: Oxford University Press, 1993.

[2] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução do grego de António de Castro Caeiro. São Paulo: Editora Atlas S.A., 2009.

[3] CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. A Medicina para além das normas: Reflexões sobre o novo Código de Ética Médica. Nedy Neves (Org.). Brasília: Conselho Federal de Medicina, 2010.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

ARTIGO PUBLICADO: The Four Aristotelian Discourses in Medicine: Educational Tools for Physicians


The Four Aristotelian Discourses in Medicine: Educational Tools for Physicians
Os Quatro Discursos Aristotélicos na Medicina: Ferramentas Educacionais para Médicos
Hélio Angotti-Neto, Andreia Bosi, Angela Regina Binda da Silva de Jesus
Centro Universitário do Espírito Santo – UNESC, Brasil

The four Aristotelian discourses (Poetic, Rhetoric, Dialectic and Logic) encompass all human verbal communication, and their study in Medical Humanities is an important instrument for medical practice and education. The discourses differ according to their intention, form, credibility and precision, and they can be studied to develop several aspects, such as understanding the patient, empathy, personal development and communication skills. Their study can also stimulate clinical and philosophical thought in general. The study of Poetic includes Narrative Medicine, literature, cultural studies, case reports and arts. Rhetoric includes verbal and non-verbal communication for the purposes of convincing and instructing other people. Dialectic includes clinical investigation thought and research. Logic includes scientific discourse, discursive analysis and education. Aristotelian works remain valuable instruments to develop a complete physician.

Keywords: Medical Philosophy, Medical Education, Narrative Medicine, Logic, Clinical Reasoning.

Artigo completo em: 
http://www.biomedicalandbiopharmaceuticalresearch.com/images/Article2_11n2.pdf

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Mirabilia Medicinae 3 Online!



 Thematic Number
http://www.revistamirabilia.com/medicinae/issues/mirabilia-medicinae-3-2014-2
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1. Editorial: II UNESC Seminar of Medical Humanities
Hélio ANGOTTI NETO (Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC)
http://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/medicinae/pdfs/med2014-02-01.pdf

2. Research integrity and the impact of conflicts of interests on society: An Analysis in the Light of the Theory of Recognition of Axel Honneth
Márcia Cássia CASSIMIRO; Agemir BAVARESCO; André Marcelo M. SOARES (Oswaldo Cruz Foundation/PUCR/UFRJ)
http://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/medicinae/pdfs/med2014-02-02.pdf

3. The Use of Eponyms in Medical Practice
Fleury Marinho da SILVA; Rodolfo Costa SYLVESTRE; José Guilherme Pinheiro PIRES (Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC)
http://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/medicinae/pdfs/med2014-02-03.pdf

4. Beliefs, Values and Social Representations of Normal Birth
Luciano Antonio RODRIGUES; Bruno Alves da SILVA; Priscila Margarete Araújo Beserra VALENTIM (Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC)
http://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/medicinae/pdfs/med2014-02-04.pdf

Articles

5. Humanizing the Biomedical Model, and the Quality-of-Care Crisis
James A. MARCUM (Baylor University)
http://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/medicinae/pdfs/med2014-02-05.pdf

6. Bioethics in the process of medicine's humanization: an interdisciplinary approach
Euler Renato WESTPHAL (Faculdades EST/UNIVILLE)
http://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/medicinae/pdfs/med2014-02-06.pdf

Review

7. Book Review: Angotti Neto and the case against Medicine as Ideology
Ivanaldo Oliveira dos SANTOS FILHO (Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN)
http://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/medicinae/pdfs/med2014-02-07.pdf