sábado, 29 de agosto de 2015

Sugestão de Leitura: A Imagem Descartada, de C. S. Lewis.


Minha linha de pesquisa levou-me a pesquisar a Ética Médica ao longo dos milênios. Parte desse esforço inclui a necessidade de compreender como os antigos, os medievos e os modernos enxergaram o mundo. O que foi descartado, o que foi absorvido, o que foi destruído e o que foi criado de novo ou recriado.

No caminho para entender melhor a mente daqueles que fundaram nossa civilização, deparei-me com uma obra preciosa, recentemente traduzida e lançada pela É Realizações: A Imagem Descartada: Para Compreender a Visão Medieval do Mundo, escrita pelo fantástico C. S. Lewis, conhecido principalmente pelo seus livros infantis, secundariamente pela sua obra apologética e, por alguns poucos, pela sua obra de Alta Cultura e resgate das bases culturais de nossa civilização. 

Lá estão Boécio, PseuDionísio e Apuleio. Lá estão as descrições do Céu, os Seres Longevos, a Terra e seus habitantes. Lá está o "Modelo", como Lewis chamava.

As referências e alusões da obra são muito ricas e distantes para o leitor brasileiro, e aqueles que ousarem confrontar o lado mais complexo - e por que não dizer rico - da obra do criador das Crônicas de Nárnia, encontrarão um maravilhoso convite para entrar no mundo dos clássicos e na mente dos antigos.


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

SEFAM Módulo IV - Aula 04: O que é "Humanidades Médicas" e o Ensino das Virtudes



Nesta aula do SEFAM foram discutidos vários temas, incluindo Tanatologia, Universais, Metafísica, Estética, Epistemologia e Teologia. De todo o conteúdo apresentamos o segmento que tratou da definição de Humanidades Médicas e de como utilizar tal área de estudo na formação do médico.


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Pérolas da Medicina: Lisa Rosenbaum

"Os médicos que eu mais admiro não são caracterizados pelo quanto sabem, mas sim, por uma sofisticada intuição sobre como compartilhar melhor o que sabem. Algumas vezes eles dizem ao paciente o que fazer; algumas vezes eles oferecem uma escolha. Algumas vezes, quando discutem o tratamento, podem cobrir todos os sete princípios do consentimento informado. Outras vezes, vendo o terror e a incerteza no rosto de seus pacientes, poderão oferecer recomendações e dizer: 'Eu não sei como tudo irá acabar, mas eu prometo que estarei aqui com você todo o caminho'. "


Dra. Lisa Rosenbaum, Cardiologista
Correspondente Nacional do New England Journal of Medicine
"The Paternalism Preference - Choosing Unshared Decision Making"
Perspective, August 13, 2015. The New England Journal of Medicine

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Não é hora de "mea culpa", mas sim, de agir!

Frente aos perversos, demonstrar fraqueza é pedir o desprezo e a agressão. Lembrem-se das sábias palavras que nos aconselham a sermos símplices como as pombas, porém prudentes como as serpentes.

Sobre a culpa da má fama da medicina ser dos médicos e do governo ao mesmo tempo, tenho algo que gostaria de compartilhar...

Observem as seguintes críticas:

- Os médicos transformaram a arte de curar na arte de ganhar dinheiro.

- Vemos que os médicos (...) andam bem vestidos (...) e juntam riquezas (...) graças aos grandes enganos que causam a seus doentes, os quais enganam de todas as maneiras, pois se gabam de conhecer a doença que não conhecem. Além disso, eles prolongam (...) as doenças nos doentes, para que tenham mais ganhos. E eles dão aos doentes (...) [medicações] para que tenham parte do lucro do que fazem os especialistas nas coisas que vendem aos doentes.



A primeira foi feita no século XIII por Tomás de Aquino, a segunda foi feita por Ramón Llull (1), um filósofo catalão contemporâneo a Tomás de Aquino que escrevia sobre Medicina.

Sempre existiu a crítica contra maus médicos, e mesmo naqueles tempos o bom médico era querido e gozava de boa fama.

Hoje existem bons e maus médicos como sempre existiram. Porém, os bons amargam uma realidade cada vez pior e um ódio gratuito vindo de muitos elementos da população. Qual a diferença?

O governo nos difama. É simples assim.

Mea culpa por causa de médicos picaretas é algo comum na história da medicina no ocidente.

Hipócrates já falava mal dos médicos de "mentirinha", meros figurantes perto dos verdadeiros atores da medicina. Mas à época não tinham uma elite revolucionária caluniadora e maquiavélica para combater.

Paremos com o discurso politicamente correto assumindo culpas por todos os lados. Os bons médicos estão sofrendo. A esquerda revolucionária é perita em utilizar o discurso de culpa alheio para promover a destruição do próximo e se reerguer cobrindo as próprias falhas, como já foi mais do que bem descrito pelo fenômeno do Bode Expiatório (René Girard) e pelo uso sistemático do ódio (Gabriel Liiceanu).

É hora de trabalhar fazendo boas coisas ao lado dos pacientes, e ganhar seus corações com as boas virtudes e as boas obras que sempre caracterizaram a medicina como profissão.

_______________________________________________________________

1 - ANGOTTI NETO, Hélio; COSTA, Ricardo da. A Lepra Medieval e a Medicina Metafórica de Ramon Llull (1232-1316). Disponível em: <http://www.ricardocosta.com/artigo/lepra-medieval>. Acesso em: 24 ago. 2015.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

MEDICINA E ESPIRITUALIDADE: DUAS PALESTRAS NA BAYLOR UNIVERSITY

Começa a preparação para a apresentação de duas palestras na Universidade Baylor, no Texas, em fevereiro. 



Recebi o gentil convite do grande professor James A. Marcum, autor de um livro de Introdução à Filosofia da Medicina (An Introductory Philosophy of Medicine: Humanizing Modern Medicine) que li há alguns anos.



Lembro de pensar comigo como eu gostaria de poder trocar alguns pensamentos e aprender mais com o autor do livro que lera. E quem diria que anos depois receberia um honroso convite para encontrar pessoalmente um daqueles que inspirou o livro A Morte da Medicina!


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Apresentação no I Seminário UFES de Paleopatologia: A Lepra na Idade Média

Hoje o trabalho "A Lepra Medieval e a Medicina Metafórica de Ramon Llull (1232-1316)" foi apresentado no I Seminário UFES de Paleopatologia, ao lado do grande professor medievalista Ricardo da Costa.


Confira o trabalho na página do professor Ricardo da Costa!
http://www.ricardocosta.com/artigo/lepra-medieval-e-medicina-metaforica-de-ramon-llull-1232-1316


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

SEFAM IV - Aula 04: A Medicina e a Morte

SEFAM Módulo IV: A Medicina e a Morte: Aspectos Culturais, Filosóficos, Sociais e Bioéticos.

Na terceira aula do SEFAM, o grupo mostrou interesse no estudo da Tanatologia. Conforme pactuado entre os participantes, os temas são parcialmente direcionados de acordo com a curiosidade e o contexto das discussões, e o papel do médico frente à morte será o assunto abordado semana que vem, dia 26 de agosto de 2015, das 18:30 às 21:30 na sala de vídeo da Biblioteca do CAMPUS I do UNESC.

O encontro do dia 19 foi adiado, pois estarei no I Seminário UFES de Paleopatologia apresentando em conjunto com o grande professor Ricardo da Costa a respeito da Lepra na Idade Média.



Roteiro de Estudo

- Retratos da morte no século XXI.

- Etapas psicológicas da morte

- A condução médica da morte

- Ars moriendi

- Visões sobre o morrer

- Visão médica sobre a morte

- A medicina como a mensageira da morte

- Choque de princípios na condução da morte

- O suicídio e a Medicina

- A eutanásia e a Medicina

- O preparo para a morte

- Sofrimento e morte

- Protocolo Groningen


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

FILOSOFIA DA CIÊNCIA E ASCENSÃO DA MEDICINA MODERNA

SEFAM, Módulo IV, Aula 02. Filosofia da Ciência e Ascensão da Medicina Moderna


Gravação da segunda aula do SEFAM, segundo semestre de 2015.


Pintura Original

domingo, 9 de agosto de 2015

SEFAM IV - Aula 03: Aforismas de Hipócrates e Virtudes Médicas

Na terceira aula do SEFAM, duas missões: Falar acerca de quais lições podemos retirar dos aforismas de Hipócrates quando o assunto é ética médica e iniciar o trabalho no mapeamento de todas as medidas tomadas durante o governo do PT contra a profissão médica.



GUIA DE ESTUDO

Medicina hipocrática e ética médica.

Leitura e interpretação dos aforismas que tratam de ética.

Introdução à Ética Baseada em Virtudes. Da possibilidade de se ensinar a moral. A comunidade moral dos médicos. Exemplos positivos e negativos da medicina ocidental ao longo do tempo. Resgate cultural como resgate profissional e moral da medicina.

Leitura dos artigos do volume IV da Revista Mirabilia.

Leitura do Decreto 8497/2015 sobre formação de especialistas no Brasil.




terça-feira, 4 de agosto de 2015

Perguntas e Respostas: DA ESSÊNCIA DA MEDICINA



Recebi algumas perguntas interessantes (obrigado ao Cezar Moura) que aprofundam o debate sobre o que é a Medicina. Como o assunto toca temas centrais ao entendimento da antiga Arte, creio que vale uma publicação aqui no SEFAM.

1 - Na medicina atual, a falta de estudo sobre placebo seria o medo de ver que muitos dos tratamentos médicos continuam agindo mais pelo efeito placebo?

Não diria que faltam estudos sobre o placebo, pelo contrário. Encontram-se livros e artigos científicos sobre, inclusive, o papel do médico como terapia, isto é, como placebo benéfico. E a ação do placebo é bem conhecida e utilizada com sabedoria por muitos médicos experientes.

Um dos livros que trata especialmente dos efeitos benéficos de uma boa relação médico-paciente foi escrito pelo médico húngaro Michael Balint, intitulado: O Médico, seu Paciente e a Doença. Recomendo a leitura e a reflexão.

Outro trabalho curioso foi publicado por Fabrizio Benedetti, na revista Physiological Reviews, e tem como título: PLACEBO AND THE NEW PHYSIOLOGY OF THE DOCTOR-PATIENT RELATIONSHIP. O artigo é uma interessante revisão que inclui mais de 350 artigos originais!

2 - A medicina atual é uma ciência, ou apenas usa a ciência em benefícios corporativos e financeiros?

A medicina é uma arte que usa a ciência para fins pragmáticos, isto é, para aumentar as chances de cura ou alívio de doenças ou padecimentos do ser humano. Pode agir em benefício de interesses corporativistas e financeiros? Sim, desde que idealmente não se afaste do foco principal.

Quem trabalha de graça completamente abstraído do ganho financeiro? Alguma profissão é capaz de se sustentar sem ganhar nada? A única crítica que cabe em relação ao elemento financeiro seria a perversão da hierarquia de valores, esta sim, um vício.

Em relação ao corporativismo, há trabalhos que discutem o mesmo como ferramenta de controle da credibilidade e da qualidade profissional. Quando bem utilizado, pode servir como auxílio no efeito placebo que beneficia o paciente inclusive. Desde Hipócrates já se reconhecia que um médico de boa fama e comportamento auxiliar na cura de seu paciente.

3 - Mas qual trabalho científico, nos moldes atuais, não envolve efeito placebo?

De fato, é impossível escapar totalmente do efeito placebo, embora se tenham mecanismos de redução do mesmo, desenvolvidos principalmente nos estudos do tipo Ensaio Clínico.

Sem dúvida nenhuma, um dos elementos da ascensão da medicina moderna foi o desenvolvimento do experimento clínico por Austin Bradford Hill, como James Le Fanu lembra em sua obra The Rise and Fall of Modern Medicine. Tal desenho de estudo minimizou o aspecto subjetivo da pesquisa médica.

4 - Mas tu sabes o quanto o afastar por completo o efeito placebo é impossível, pois a simples interação entre 2 humanos já está gerando o efeito placebo, enfim, se não podemos afastar por completo, como podemos saber qual percentual de efeito placebo aconteceu?

Não podemos, mas podemos saber se há diferença estatística entre tratamentos que incluam doses semelhantes de placebo, desde que o estudo seja duplo-cego, mascarado e controlado, por exemplo.

5 - Como considerar a medicina atual não reducionista, no momento em que atua por especialidades?

Como quase tudo o que se faz hoje em dia, guarda-se importante aspecto reducionista. Mas toda ação, por mais reducionista que seja, ocorre num ambiente real, isto é, extremamente rico e complexo. O que cabe não é evitar a especialização, mas sim, buscar a especialização de qualidade sem abrir mão dos conhecimentos gerais que fundamentaram a especialidade, como o filósofo Mário ferreira dos Santos já alertava.

Hoje temos inúmeros defensores do pensamento complexo e da necessidade de entender a realidade de forma adequada, incluindo Xavier Zubiri, Olavo de Carvalho e Edgar Morin, mas tal anseio está presente há séculos. Encontro as raízes do pensamento complexo em Platão e Aristóteles, por exemplo, que analisavam uma questão sob diversas perspectivas, mas buscavam respostas em profundidade. Todo médico tem um grande desafio se ousar a especialização: não deixar de ser médico com profundos conhecimentos gerais, inclusive conhecimentos humanísticos, como Gregório Marañón já alertava ao dizer que "O Médico que só sabe Medicina, nem Medicina sabe. "

Com a tecnologia atual, é impossível não se especializar um mínimo que seja sem abrir mão da qualidade.

6 - Aliás, estaria a ideia de especialidade médica gerando simplesmente aumento de consumo de serviços médicos?

De certa forma sim. O aumento de ferramentas e conhecimentos à disposição do paciente aumentou exponencialmente e, com isso, a necessidade de que pessoas se dediquem a áreas específicas para que o benefício máximo seja alcançado também aumentou.

Para um médico conseguir realizar uma cirurgia chamada vitrectomia e evitar a cegueira num descolamento de retina grave, há a necessidade de no mínimo onze ou doze anos de estudo, só para citar um exemplo. Isso não desmerece quem optou por um campo mais genérico (tão desafiador e complexo quanto a especialidade, quando encarado seriamente).

O problema na pergunta é a palavra simplesmente. Aumenta-se o consumo, mas aumenta-se também em muitos casos a qualidade de vida. Considere os avanços na cirurgia de catarata, por exemplo. Pessoas de sete ou oito décadas de vida praticamente cegas que voltam a enxergar e se conectam novamente com o mundo e que, além disso, evitam traumas e quedas ao ver melhor por onde caminham.

O aumento do "consumo" médico vem ao lado de muitas conquistas.

7 - Numa sociedade que consome serviços de saúde quando está doente, estaria a ideia de especialidade médica gerando mais doença ou isto tudo é mera coincidência com o fato do governo pensar que o problema de saúde do Brasil é falta de médico para atender tantas consultas?

A visão de que a sociedade "consome serviços" é um pouco estranha e enviesada. Prestação de serviços de saúde não é material de consumo. Mas é um fato que as pessoas de todas as classes sociais demandam cada vez mais serviços de qualidade e alta complexidade. E também é fato que muitos comecem a enxergar - erroneamente - a medicina como um produto.

Também não se pode evitar a percepção de que muitos procedimentos trazem benefícios às custas de efeitos colaterais novos e novos desafios, e que a Iatrogenia (lesão causada por ação médica) é uma realidade que deve preocupar cada vez mais os médicos conscientes.

Já as razões para que o governo traga mais médicos são várias, e recomendo uma leitura no artigo publicado na revista Ibérica de Estudos Interdisciplinares. Nessa questão do Mais Médicos, o buraco é muito mais embaixo. Artigo: http://www.sophiaweb.net/repositorio/iberica/iberica21/interiorizacao-medico-angotti.pdf 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

SEFAM Módulo IV - Aula 02: Da Ciência e da Ascensão da Medicina Moderna

Dia 05 de agosto, na Sala de Vídeo da Biblioteca do CAMPUS I do UNESC, às 18:30.



No segundo encontro do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina discutiremos alguns momentos da medicina moderna e algumas de suas características científicas e artísticas.

Como base para a discussão, utilizarei o livro "O Que É Ciência Afinal?" de Allan Chalmers, que trata da metodologia científica e de suas bases filosóficas, além de alguns outros autores como Mary Midgley e Xavier Zubiri. 

Tratarei de conceitos básicos como indutivismo, deducionismo, falsificacionismo, Ciência como salvação, Ciência como cosmovisão, teoria da Revolução Científica e Realismo Radical de Zubiri e panorama científico contemporâneo.

Aplicando os conhecimentos à História da Medicina moderna e sua scensão conforme descrito na obra de James Le Fanu, visitaremos a descoberta da penicilina, da estreptomicina e da metodologia de pesquisa em saúde e causalidade daquele que pode ser considerado o precursor da Medicina Baseada em Evidências: Austin Bradford Hill.


E para encerrar, uma pequena introdução ao estudo da obra hipocrática e seu legado ético. Discutiremos o livro Aforismas de Hipócrates, e descobriremos os elementos que atravessaram as eras e ainda permanecem vivos na prática médica de nossos dias.


GUIA DE ESTUDO

1. A pretensão normativa da Ciência Moderna na cultura popular.

Indutivismo e Probabilidade. Medicina como Arte e Ciência.
Falsificacionismo e Provisoriedade. Ciência ou Cientificismo? Exemplo de teorias filosóficas do comportamento humano: Vontade de Poder (Nietzsche).
Teoria das Revoluções Científicas e Relativismo. A resposta de Giovanni Reale a Thomas Kuhn em seu livro sobre Platão.
Realismo Radical de Xavier Zubiri e a Ciência Contemporânea. Da apreensão à razão.

2. A ascensão da Medicina Moderna conforme a obra de James Le Fanu

A descoberta da penicilina e da estreptomicina.
Austin Bradford Hill e a teoria de causalidade. A fundamentação da Medicina Baseada em Evidências.

3. Ética Hipocrática

Resgate cultural da Ética Médica e crítica da ética contemporânea.
Aforismas de Hipócrates. Os valores atemporais norteadores da prática médica.

Introdução à Ética Baseada em Virtudes

sexta-feira, 24 de julho de 2015

SEFAM Módulo IV - Aula 01: A lição da Romênia para a Medicina Brasileira

SEFAM Módulo IV - Aula 01: A lição da Romênia para a Medicina Brasileira



No dia 29 de julho reinicio o Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina. 

Estudaremos a compatibilidade entre Medicina e várias ideologias, e estudaremos o exemplo da Medicina da Romênia conforme as críticas feitas por Gabriel Liiceanu e Teodora Manea.

O Brasil caminha rumo à destruição de sua própria Medicina? Quais lições podemos aprender com aqueles que sofreram na mão das Ideologias de Massas do século XX? Como evitar a derrocada da profissão médica? Estes e outros temas serão debatidos na quarta. 

No último módulo dos quatro que ocorrem a cada dois anos, tratarei dos seguintes temas:

- Filosofia da Ciência: Indutivismo e Probabilidade. Falsificacionismo e Provisoriedade. Teoria das Revoluções Científicas e Relativismo. Realismo Radical de Xavier Zubiri e a Ciência Contemporânea.

- Filosofia da Medicina: A busca pela formação médica com base numa ética de virtudes. Fundamentos históricos da Filosofia Moral da Medicina - A Escola Hipocrática.

- Crítica Cultural: Modelos de Medicina e de sociedade no Brasil. 

- Medicina e Política: Estudo de casos brasileiros. Manipulação Psicológica, Engenharia Social e Medicina como ferramenta de transformação - o perigo da instrumentalização da vida humana.

- História da Medicina: A ascensão da Medicina Moderna. Comentários à obra de James Le Fanu.

Boas vindas a todos!

quinta-feira, 16 de julho de 2015

I SEMINÁRIO UFES DE PALEOPATOLOGIA

No dia 20 de agosto acontecerá um evento sobre tema inédito em nosso estado: o I Seminário UFES de Paleopatologia. Com convidados de nível internacional, a saúde e a medicina ao longo das eras serão debatidas.

Uma oportunidade única e preciosa de conhecer melhor as raízes históricas da Medicina!


domingo, 12 de julho de 2015

Hipócrates e a Relação Médico-Paciente nos Aforismas - Parte 2


O primeiro aforismo provavelmente é conhecido por muitos.

I. βος βραχς, δ τχνη μακρ, δ καιρς ξς, δ περα σφαλερ, δ κρσις χαλεπ. δε δ ο μνον ωυτν παρχειν τ δοντα ποιοντα, λλ κα τν νοσοντα κα τος παρεντας κα τ ξωθεν.[1]

I. A vida é breve, a Arte é grande, o tempo é fugaz, a experiência é enganosa e a decisão é difícil. O médico deve estar pronto não somente para executar seu dever ele mesmo, mas também para assegurar a cooperação do paciente, dos familiares e dos de fora.

A vida é breve para abarcar uma arte de tamanha complexidade como a medicina. Se hoje isto é uma verdade, em tempos de tecnologia globalizada e informação virtualmente infinita ao alcance imediato de todos no mundo inteiro além de milhares de publicações que tornam impossível qualquer tentativa de conhecer todo o panorama científico mundial, talvez alguém imagine que à época dos antigos médicos gregos tal formulação seja um pouco exagerada, certo?

Errado. Antes de toda inovação moderna, a Medicina já era inabarcável, assim como o é toda a experiência humana concreta.

O antigo médico sabia que todo seu conhecimento derivava da observação de dados particulares interpretados à luz de determinada teoria com limitado poder de generalização. Cada novo caso traz consigo uma surpresa, uma situação nova, detentora de segredos e desafios próprios.

É da essência da própria ciência a generalização dos dados passados e a indução frente a novas situações, nunca se livrando totalmente de certo grau de incerteza, mesmo que mínimo.

Voltando aos tempos atuais, o aforismo permanece verdadeiro. Não há vida longa o suficiente que baste para aprender tudo sobre o ser humano, sua saúde, seus sofrimentos, suas alegrias, sua vida e sua morte. 

Nas escolas de medicina já nem se tem a pretensão de ensinar o “estado da arte” em questões médicas, mas sim, deseja-se ensinar a capacidade de ser autodidata em meio ao oceano de conhecimentos, técnicas e inovações. É o tão repetido “aprender a aprender”, que virou um slogan muito ouvido, porém nem sempre compreendido em toda sua amplitude.

E enquanto a arte médica é longa e a vida é breve, o tempo corre rápido. Nos quadros agudos de urgência ou emergência qualquer minuto pode fazer toda a diferença.

Não bastasse tudo isso, a experiência pode ser enganosa. Os quadros clínicos se confundem. Sinais e sintomas semelhantes podem ser indício de diferentes doenças. A reflexão acerca dos diagnósticos diferenciais é uma das mais complexas em Medicina, e talvez a mais crucial.

Algumas doenças só poderão ser descobertas e corretamente tratadas após o decorrer de preciosos dias – ou meses! – e ludibriam até mesmo o mais experiente dos médicos.

E tudo isso culmina com aquela que muitas vezes é uma difícil decisão. Com base na experiência dá-se o diagnóstico. Com base no diagnóstico prescreve-se um plano terapêutico. Com base no plano terapêutico e no diagnóstico, espera-se um determinado prognóstico, uma evolução no quadro clínico do paciente. Riscos e benefícios são pesados numa balança na qual o ponteiro marca o quanto se pode ajudar efetivamente o paciente.

E se o risco for alto demais? E se um erro puder levar à morte ou a graves disfunções? E se algo inesperado acontecer? Não existe exame infalível ou tampouco tratamento infalível, e não existe situação absolutamente previsível em todos os seus detalhes.


A Medicina é uma arte complexa, realmente, e o primeiro aforisma creditado a Hipócrates espelha essa maravilhosa e assustadora profissão.

Permanece vivo o conselho hipocrático: A arte é longa, a vida é breve...




[1] Hippocrates, Heracleitus. Nature of Man. Regimen in Health. Humours. Aphorisms. Regimen 1-3. Dreams. Heracleitus: On the Universe. Translated by W. H. S. Jones. Loeb Classical Library 150. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1931, p. 98-99.

terça-feira, 30 de junho de 2015

MIRABILIA MEDICINAE - 4ª EDIÇÃO


ANGOTTI NETO, Hélio (org.). Mirabilia Medicinæ 4 (2015/1).
Virtues and Principles in Healthcare
Virtudes e Princípios no Cuidado com a Saúde
Jan – Jun 2015

Publicação do Instituto de Estudos Medievais da Universidade Autônoma de Barcelona, sob Edição do Professor Ricardo da Costa e Organização do Professor Hélio Angotti Neto

Thematic Number

1. Editorial: Teaching Medical Virtues
Hélio ANGOTTI NETO (Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC)

2. Can Virtues be taught in Medicine? Aristotle’s Virtue Theory and Medical Education and Clinical Practice
Niloy SHAH; James A. MARCUM (Medical Humanities Program and Department of Philosophy, Baylor University, Waco, Texas)

3. Living Will´s History: understanding the past and reflecting about the present.
Luciana DADALTO  (Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG)

4. Philosophical aspects of medical schools with Problem-Based Learning: the Narcissus error.
Rinaldo Henrique AGUILAR-DA-SILVA (Faculdade de Medicina de Marília - FAMEMA)

5.  The body in the pedagogical philosophy of Ramon Llull (1232-1316).
Fabricia dos Santos GIUBERTI (Universitat d'Alacant (UA), España)

6.  Compassion: The Lost Pearl of Healthcare.
Jorge CRUZ (Universidade Católica Portuguesa)





domingo, 28 de junho de 2015

Profissionalismo e Ética Médica: Thomas Percival


“O Esprit du Corps é um princípio de ação fundamentado na natureza humana e que, quando apropriadamente regulamentado, é racional e louvável. Todo homem, quando entra numa fraternidade, compromete-se tacitamente a não apenas submeter-se às leis, mas a promover a honra e o interesse da associação, desde que tais sejam compatíveis com a moralidade e o bem geral da humanidade. Um médico, portanto, deve zelar cuidadosamente para evitar qualquer dano à respeitabilidade geral de sua profissão; e deve evitar qualquer apresentação desdenhosa da escola médica em geral; evitar todas as queixas gerais contra seu egoísmo ou improbidade; e evitar a indulgência frente a um ceticismo jocoso ou afetado frente à eficácia ou utilidade da arte de curar”[1].

Thomas Percival (1770-1804 AD)



[1] PERCIVAL, Thomas. Extracts from the Medical Ethics of Dr. Percival. Philadelphia, 1823, p. 18.

sábado, 27 de junho de 2015

Hipócrates e a Relação Médico-Paciente nos Aforismas - Parte 1


Este é o primeiro artigo de uma série que trata das raízes do que é ser médico.

Da obra hipocrática e seus posteriores pouco se aproveita quando o assunto é técnica ou teoria das doenças. A Patologia e Terapêutica sofreram indiscutíveis e maravilhosos avanços, deixando obsoleto o antigo conhecimento intitulado científico (conhecimento e explicação teorética das causas). Mas há um rico manancial de outros ensinamentos.

O que ainda se aproveita é justamente o componente atemporal dos escritos hipocráticos, o que se mantém válido e, ousaria dizer, essencial aos nossos tempos. O legado ético prático dos antigos médicos.

A descrição e a prescrição das virtudes e comportamentos que um médico deveria possuir não foram exclusividade de Hipócrates, e por muitas vezes foram repetidas nos séculos posteriores. Mas olhar o passado buscando o bom exemplo repetido por eras de profissionais dedicados é fonte de inspiração para o médico de hoje, e pode apontar algumas soluções para alguns problemas e conflitos que enfrentamos, além de colocar certas afirmações na perspectiva adequada.

Em breve abordaremos trechos da obra hipocrática denominada Aforismas.


Prof. Dr. Hélio Angotti Neto
Coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina (http://www.medicinaefilosofia.blogspot.com.br/)
Membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, da Academia Brasileira de Oftalmologia, da Associação Brasileira de Educação Médica, do Center for Bioethics and Human Dignity e do Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC, onde atua também como Coordenador e Professor do Curso de Medicina.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

O PROBLEMA DA AUSÊNCIA DE FORMAÇÃO POLÍTICA ENTRE MÉDICOS

O Problema da Ausência de Formação Política Entre Médicos


A Medicina encontra-se acometida de um grave problema: os médicos - e demais profissionais da saúde - carecem da formação política adequada. Isso gera a inevitável perda da eficácia de suas práticas em sociedade e o seu progressivo aviltamento diante da opinião pública.

Com formação política não digo conhecimentos de Ciência Política, mas sim, conhecimentos teóricos e práticos de estratégia, ação política e exercício do poder, técnicas dominadas com maestria por revolucionários e agitadores da esquerda radical ou da fabiana[1], e quase nunca utilizadas para algo de bom. Técnicas completamente desconhecidas pela enorme maioria dos médicos.

No Brasil não é prudente a ingenuidade diante dos lobos. Como as sábias palavras das Escrituras advertem há milênios: sejamos símplices como os pombos, porém prudentes como a serpente[2]. E como não ser prudente diante do revoltoso mar da política que tantas vezes faz submergir nações? Quem dirá pobres médicos latino-americanos?

Um sábio brasileiro afirma que os ingênuos estão na cadeia alimentar dos mal-intencionados[3], e quando colocamos nessa cadeia alimentar os médicos - partindo do princípio de que boa parte deles atua beneficamente para o próximo - a perda da efetividade política e, portanto, da efetividade geral da Medicina em sociedade não é algo a ser menosprezado. As consequências podem ser funestas.

Tal deformação, ou falta de formação política, afeta não somente médicos e seus pacientes, cujo sofrimento pode deixar de encontrar conforto eficaz, mas também afeta as famílias daqueles que padecem de algum mal e, consequentemente, toda a sociedade, reféns que são da má política.

Nos médicos observa-se diariamente o esgotamento, o desestímulo profissional e o abandono da carreira. Tais consequências inevitavelmente atrapalharão os resultados da prática médica, aumentando os riscos à saúde assim como, por exemplo, a má administração derivada de uma política inadequada faz ao deixar de fornecer ambientes próprios para o atendimento dos pacientes.

E, por fim, quem mais sofre é o paciente, o mais frágil elo da corrente, acometido pela doença e vulnerável, à mercê de uma situação malconduzida.

Ao observar o quadro geral da formação humanística e política do médico no Brasil, algo totalmente ineficiente ou ausente, o cenário torna-se assustador. Milhões de vidas e carreiras profissionais são afetadas ou até mesmo destruídas.

E diante desse cenário desanimador, quais são as medidas adotadas?

As lideranças políticas e estratégicas dos médicos, sejam seus sindicatos, sejam os Conselhos, tomam medidas políticas muitas vezes fragmentadas e fadadas ao fracasso desde o início[4]. Além do mais, a ação política não identifica o cenário político com a adequada visão; ou, se possui ciência da realidade, finge ineficácia e perplexidade diante dos movimentos políticos. Movimentos estes que tantas vezes colaboram para a destruição da saúde do brasileiro e para o aumento exponencial da corrupção e do assassinato moral de toda a classe médica no Brasil, verdadeiro Judas espancado.

A medida ideal é a atuação estratégica de fortes lideranças treinadas e capacitadas para o jogo político, orientadas por valores caros à prática médica e necessários à sociedade. E para que tal liderança exista há forte necessidade de tornar a ação política consciente e eficaz, concretizada por pessoas de grande valor e forte disposição.

Como tornar real tal consciência e tal exercício de poder benéfico? A solução aqui proposta é fornecer ferramentas analíticas para ler a sociedade de forma correta, para enxergar intencionalidades e estratégias de aliados e oponentes e para traçar planos de ação com competência rumo a ideais mais nobres.

Grupos de tais líderes seriam uma verdadeira benção para nosso país e, principalmente, para nossos doentes e profissionais da saúde, que ousariam sonhar com um ambiente menos hostil e insalubre para a busca da saúde.

Áreas do conhecimento importantes para esta empreitada incluem Filosofia, Estratégia, Comunicação, Logística, História, Relações Internacionais, Psicologia, Medicina Baseada em Evidências, Literatura, Retórica etc. As fontes incluem incontáveis artigos, livros e depoimentos de grandes líderes e estrategistas. Nenhum conhecimento ou ideologia podem ser estranhos ao se deparar com a realidade, ainda mais com a realidade que envolve o humano de forma tão íntima como saúde o faz.

Aviso claramente que não me aproximo do tema como um cientista político ou especialista em análises estratégicas, mas como um médico aplicado aos estudos e ansioso por ver tempos melhores para a cultura e para a política do Brasil, fatores que deveriam ser fontes de amparo e segurança, mas que em nosso Brasil se tornaram mananciais de temor e revolta.

E convido ao debate e ao estudo os colegas.

Em breve começarão as oficinas de Formação Política para Profissionais da Saúde e, quem sabe, um curso continuado de análises filosóficas, políticas e estratégicas em saúde pela internet.

Prof. Dr. Hélio Angotti Neto
Coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina (http://www.medicinaefilosofia.blogspot.com.br/)
Membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, da Academia Brasileira de Oftalmologia, da Associação Brasileira de Educação Médica, do Center for Bioethics and Human Dignity e do Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC, onde atua também como Coordenador e Professor do Curso de Medicina.






[1] A esquerda fabiana, ao contrário da radical, prega uma lenta e insidiosa marcha rumo ao socialismo, normalmente utilizando-se dos mecanismos da democracia e evitando uma luta armada sempre que possível.

[2] Nas palavras do Cristo: “Eis que vos envio como ovelhas para o meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices como as pombas”. Mateus 10.16. SPROUL, RC (Editor Geral). Bíblia de Estudo de Genebra. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999.

[3] Cf. PUGGINA, Percival. Pombas e Gaviões: Uma indispensável leitura sobre política, porque os ingênuos estão na cadeia alimentar dos mal-intencionados. Porto Alegre: AGE Editora, 2010.

[4] Muitas das decisões e negociações são feitas dentro do panorama intelectual e linguístico da esquerda que deseja controlar a classe médica e instrumentalizá-la em seus planos de hegemonia. A questão não é ceder à esquerda ou à direita, mas sim, estabelecer um diálogo com capacidade própria, sem depender de muletas e travas pré-concebidas pelo oponente.