segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Prof. Ms. Leonardo Serafini Penitente: Palestrante do Seminário de Humanidades Médicas

A Dignidade do Feto e da Criança na Cristandade


Mestre em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (2006), especializado em Direito Público pelo Centro Universitário do Espírito Santo, aperfeiçoamento em Direito Processual Civil pela Universidade Cândido Mendes. 

Atualmente é professor na Universidade de Vila Velha (UVV). 

Ocupou o cargo de coordenador adjunto do curso de Direito da Universidade de Vila Velha. 

Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Filosofia, Sociologia, Teoria do Estado e Ciências Políticas. 

Ministra aulas, desde 2003, de Filosofia Geral, Filosofia do Direito, Sociologia Geral, Sociologia do Direito, Hermenêutica Jurídica e Direito Penal. 

Em 2003 inicia suas atividades na advocacia e hoje advoga com ênfase na área criminal.


sábado, 26 de setembro de 2015

Prof. Dr. Ricardo da Costa. Palestrante do Seminário de Humanidades Médicas

A Morte em São Tomás de Aquino
Prof. Dr. Ricardo da Costa



Graduado em Bacharelado e Licenciatura em História (1993), mestre e doutor em História Social pela UFF (1997 e 2000), com dois Pós-Doutorados em História Medieval e Filosofia Medieval pela UIC (Universitat Internacional de Catalunya, Barcelona, 2003 e 2005). 

Professor Associado IV do Departamento de Teoria da Arte e Música da UFES. 

Professor Efetivo do Programa de Doctorado Internacional Transferencias Interculturales e Históricas en la Europa Medieval Mediterránea da Facultad de Filosofía y Letras da Universitat d Alacant (UA-Espanha) e dos Programas de Pós-Graduação em Filosofia (PPGFil) e Artes (PPGA) da UFES. 

Acadèmic Corresponent da Reial Acadèmia de Bones Lletres de Barcelona, Espanha (15-12-2005). 

Membro de CAPIRE - Colectivo para el análisis pluridisciplinar de la Iconografía religiosa europea da Universidad Complutense de Madrid (UCM). 

Líder do Grupo de Pesquisa do CNPq "Arte, Filosofia e Literatura na Idade Média". 

Membro de IVITRA (Institut Virtual Internacional de Traducció), da Universitat d'Alacant (Espanha), do Grupo de Trabalho "Filosofia na Idade Média" da ANPOF e do "Principium" (Núcleo de Estudo e Pesquisa em Filosofia Medieval, UEPB). 

Trabalhos disponíveis em seu site - www.ricardocosta.com. 

Traduziu a novela "Curial e Guelfa" (séc. XV) e "Lo Somni" (1399), de Bernat Metge (1340-1413), sob encomenda para a Universitat d'Alicant (Espanha), publicada pela Universidade de Santa Bárbara (California). 

Apresentará uma visão histórica de como o medievo enxergava a morte e a dignidade da vida humana.

Palestra do Seminário de Humanidades Médicas: Profa. Dra. Patrícia Duarte Deps

A Dignidade Humana e os Erros Médicos e Científicos
Conferência de Abertura
Profa. Dra. Patrícia Duarte Deps


Graduada em Medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (1993), Pós-graduação em Dermatologia pela UNIFESP (1996), Dermatologista pela SBD desde 1996, Mestre em Doenças Infecciosas pela Universidade Federal do Espírito Santo (1998), Doutora em Medicina (Dermatologia) pela Universidade Federal de São Paulo (2003) e Pós-Doutora em Medicina Tropical na London School of Hygiene & Tropical Medicine (2008).

Honorary Clinical Research Fellow (2008) na clinica de dermatologia tropical do Hospital for Tropical Diseases (UCLH-NHS) em Londres. Professora Associada nível 02, do Departamento de Medicina Social da Universidade Federal do Espírito Santo desde 2002. 

Nomeada recentemente Honorary Visiting Researcher da University of Bradford, Reino Unido, a partir de 1 de setembro de 2014. Leciona Psicologia Médica, Saúde Coletiva e Formação Médica, Ética Médica e História da Medicina; é membro do corpo docente da Pós-Graduação em Doenças Infecciosas da UFES (nota 5 CAPES em 2010) onde orienta alunos a nível de mestrado e doutorado. 

Atua tanto na área básica como clinico-epidemiológica. Membro do Corpo Editorial da Mirabilia Medicinae desde 2013, revista especializada em Humanidades Médicas. Foi membro efetivo do Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde/UFES, ligado ao CONEP, e da Câmara Técnica de Pesquisa da UFES. 

Fundadora do Ambulatório de Pesquisa Clinica em Dermatologia do HUCAM/UFES. Desenvolveu parcerias de pesquisa com profissionais da UNIFESP, ILSL-Bauru, LSHTM (Londres) e Guy`s & St Thomas`s Hospital (London) e USL (USA). 

Membro da Cochrane Skin Group (Cochrane Library-UK) desde 2008. 

Tem experiência em Medicina, com ênfase em Dermatologia, atuando principalmente nos seguintes temas: hanseníase, DST/AIDS, dermatolgia tropical, saúde pública e sistemas de saúde e uso de laser para onicomicoses. 

Ganhou em 2006 o premio de Pesquisadora do Ano pela Assembleia Legislativa do ES. Em 2007 ganhou o Premio Latino-Americano La Roche-Posay de melhor projeto de pesquisa em dermatologia.

No III Seminário UNESC e I Seminário UFES de Humanidades Médicas, dias 19 e 20 de novembro, no Auditório do Elefante Branco no Campus Maruípe da UFES. Uma grande oportunidade para aprender e debater.



segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Espantalhos, Nazistas e Coerência Ética

Espantalhos, Nazistas e Coerência Ética



Alguns seres humanos têm a capacidade de nos surpreender ao tornarem realidades as mais estapafúrdias hipóteses.

Explico melhor...

No livro A Morte da Medicina eu joguei com a hipótese da perda de dignidade do feto e do bebê, e perguntei se caso não houvesse problema em matar um feto ou bebê por não o considerar pessoa, por que então haveria problema em vender suas partes ou degustá-lo como fina iguaria? Confesso que foi um gracejo na época, uma conductio ad absurdum de valor retórico, talvez.

E assisti surpreso a uma série de vídeos nos quais uma das maiores empresas abortistas do mundo, a Planned Parenthood, fundada pela excêntrica eugenista estadunidense Margareth Sanger, negociava pedaços de bebês e fetos, inclusive enquanto um “espécime” ainda com o coração batendo era dilacerado.

O que era hipótese grotesca e chocante virava realidade da noite para o dia.

Mas quando acho que posso tomar fôlego, eis que um novo fato surpreende. Em um dos melhores periódicos médicos do mundo é publicado um comentário no mínimo curioso, demonstrando certa indignação com a indignação alheia, reclamando dos incoerentes defensores da dignidade da vida humana[1]. Mas fico surpreso porque o artigo inteiro nada mais é do que uma série de proposições falaciosas ao redor de um grande espantalho[2] inventado pela autora Alta Charo, importante bioeticista da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos.

A autora começa reclamando sobre as grandes “vias de esperança” (avenues of hope) que poderão ser destruídas pelo ativismo de grupos politiqueiros. Segundo ela:

“(…) essas vias de esperança [para pacientes atuais e futuros por causa da pesquisa com tecido fetal] são ameaçadas [por meio do corte de verbas federais para a Planned Parenthood] por uma luta política pura – um aluta que, neste caso, não vai afetar de forma alguma o número de fetos abortados ou trazidos a termo, objetivo alegado pelos ativistas envolvidos.”

"(...) those avenues of hope [for current and future patients because of fetal tissue researching] are being threatened [by the Federal defunding of Planned Parenthood] by a purely political fight – one that, in this case, will in no way actually affect the number of fetuses that are aborted or brought to term, the alleged goal of the activists involved.”

Há vários erros no raciocínio exposto.

Declarar que tudo não passa de uma briga política é cometer um dos grandes crimes filosóficos dos quais se tem notícia: reducionismo. Reduzir à politicagem uma questão que toca no valor da vida humana e na dignidade da vida e nos limites de definição do que é digno, correto ou errado fazer é, no mínimo, uma barbaridade. É ignorar, ou preferir não reconhecer, que há sim elementos políticos na discussão, mas que esta discussão é algo muito mais sério, amplo e profundo do que a política, é uma questão que aborda diretamente a cosmovisão de toda uma nação, senão de uma civilização. É uma questão essencial para a definição de quem são afinal os norte-americanos.

Alta Charo também parece melindrada sobre bagunçar esperanças alheias em grandes descobertas num futuro hipotético. Mas, desde que Hans Jonas publicou sua obra chamando a atenção da comunidade mundial de bioeticistas sobre o princípio da Responsabilidade e do Temor[3] - sendo acusado por muitos incautos de conservador justamente por não advogar o progresso científico acima do bem do indivíduo concreto e real de nosso tempo -, analistas prudentes perceberam que nenhuma esperança em algo hipotético e, portanto, opcional, no futuro, pode justificar uma falha ética no presente. Logo, não há razões para melindres a respeito de expectativas futuras se houver razões para melindres a respeito de falhas éticas graves no presente.

E verdade seja dita: o que mais se tem quando se fala em Células Tronco Embrionários é esperança.

Dizer também que o número de abortos não diminuirá por meio do ativismo político e social de defensores da vida de fetos e bebês também não é uma proposição muito adequada. Há que se ter um pouco mais de cautela, pois numa situação relativamente nova no conhecimento geral e pouco pesquisada e analisada, não se sabe se a disponibilização de um mercado de pedaços de bebês e fetos não geraria um grande aumento do número de abortos. Da mesma forma, não se pode afirmar que a proibição da destinação de verbas federais à Planned Parenthood não geraria uma redução no número de abortos. Quem sabe? Eu não sei, e creio sinceramente que Alta Charo também não pode afirmar saber.

A seguir ela diz que:

“Ao ver de perto a pesquisa em tecido fetal, observa-se o dever de usar esse precioso tecido na esperança de encontrar formas de prevenir ou tratar doenças devastadoras. Virtualmente qualquer pessoa neste país se beneficiou da pesquisa com tecido fetal. Todas as crianças que foram poupadas dos riscos e sofrimentos da catapora, rubéola ou pólio podem agradecer aos ganhadores do Prêmio Nobel e outros cientistas que usaram tal tecido para produzirem a vacina que nos protege.”

“A closer look at the ethics of fetal research, however, reveals a duty to use this precious resource in the hope of finding new preventive and therapeutic interventions for devastating diseases. Virtually every person in this country has benefited from research using fetal tissue. Every child who’s been spared the risks and misery of chickenpox, rubella, or polio can thank the Nobel Prize recipients and other scientists who used such tissue in research yielding the vaccines that protect us.”

Realmente o número de pessoas que se beneficiou com o uso de tecido fetal é incontável em quase um século de vacinas. Mas do fato que se pode utilizar tecido fetal para beneficiar o próximo não se depreende que tal tecido tenha que ser colhido de ações eticamente questionáveis. Por que não colher apenas tecido fetal decorrente de situações eticamente inquestionáveis como aquelas em que ocorre aborto espontâneo ou traumático acidental? Por que não investir em meios de pesquisa mais avançados para proliferar o tecido obtido por meios menos controversos e fornecer material suficiente para pesquisa sem incorrer em questões existenciais que podem comprometer os valores de todo um povo?

Ou por que não investir em novos tecidos e novas técnicas capazes de evitar problemas éticos?

Acomodar-se, cobrar coerência e continuidade em relação a determinada linha de pesquisa e ridicularizar um dos lados da questão não parece ser realmente o melhor caminho. E se eu quiser fazer o meu espantalho também, parece algo bem reacionário dentro de um contexto progressista, se é que vocês me entendem...

Há também a cobrança de uma coerência por parte dos defensores enragé da vida:

“Críticos apontam para os abortos por trás da pesquisa, afirmam que são antiéticos, e argumentam que a sociedade não pode endossá-los ou até mesmo beneficiar-se deles, sob o risco de encorajar mais abortos ou tornar a sociedade cúmplice com o que eles veem como um ato imoral. No entanto, eles têm se utilizado sobremaneira das vacinas e tratamentos derivados da pesquisa com tecido fetal, e não dão indicação de que irão abrir mão de benefícios obtidos. Justiça e reciprocidade sugerem que eles têm o dever de apoiar o trabalho, ou ao menos, não o atrapalhar. ”.

“Critics point to the underlying abortions, assert that they are evil, and argue that society ought not implicitly endorse them or even indirectly benefit from them, lest it encourage more abortion or make society complicit with what they view as an immoral act. Yet they have overwhelmingly partaken of the vaccines and treatments derived from fetal tissue research and give no indication that they will forswear further benefits. Fairness and reciprocity alone would suggest they have a duty to support the work, or at least not to thwart it.”

Alta Charo cobra um determinado tipo de coerência no mínimo questionável. Exemplifico com uma analogia.

Suponhamos que a medicina nazista, utilizando judeus, prisioneiros de guerra ou crianças com retardo mental, tenha produzido um avançado medicamento no passado que salvou muitas vidas arianas e não arianas até os dias de hoje. Utilizar tal medicação e reconhecer seu benefício não quer dizer que, automaticamente, há que se assumir um compromisso em seguir fazendo pesquisa e medicina nos moldes nazistas, ou utilizando judeus, crianças deficientes ou prisioneiros.

É muito mais coerente cobrar que, ao ser descoberta uma ameaça à ética, tal ameaça seja imediatamente avaliada e que chances de perpetuar um erro sejam suspensas até que se saiba melhor qual caminho tomar. Parar com a “venda” de fetos ou suspender temporariamente o aporte de novos espécimes para pesquisa não implicará imediatamente no fim das pesquisas com os tecidos fetais já colhidos, ou até mesmo na coleta de novos tecidos à medida em que novos abortos espontâneos ou sob condições mais seguras do ponto de vista ético continuem acontecendo.

A autora prossegue menosprezando a perspectiva alheia e declara que:

“(...) parece óbvio que as necessidades de pacientes de hoje e do futuro superam o que só podem ser gestos simbólicos ou políticos de preocupação. ”

“(...) it seems clear that the needs of current and future patients outweigh what can only be symbolic or political gestures of concern.”

Só parece óbvio, mas não é. Nesse esquema lógico, uma premissa não bate. Há uma falta de empatia mortal ao debate intelectual. O pressuposto de que se está ao lado da verdade e do bem, e que o próximo é um hipócrita interesseiro ou um simplório incapaz de sentimentos genuínos e profundos não parece contribuir para o ambiente respeitável de diálogo e compreensão que a Bioética exige.

Dra. Charo também observa uma ironia, que descreve como o fato de que:

“reduzir o acesso à contracepção [ao deixar de custear com verbas do governo a Planned Parenthood, que também atua na distribuição de anticoncepcionais] é o caminho mais certo para aumentar o número de abortos.”
“reducing access to contraception is the surest way to increase the number of abortions.”

Mas antes de ser uma ironia há uma possibilidade em jogo. Pode muito bem ser possível que outras organizações sem entraves éticos como a Planned Parenthood tomem para si o papel de orientar acerca da contracepção. Pode ser que novos serviços surjam. Pode ser que o número de abortos até diminua, afinal de contas, quem faz o aborto e o defende pode, de uma hora para outra, não estar lá. Não é possível afirmar que tirar verbas do contribuinte norte americano da megaempresa abortista aumentará de fato o número de abortos. Isso seria brincar de prever o futuro sem muita fundamentação em exemplos históricos.

Por fim, o artigo encerra com um tom fortemente retórico e emocional, tentando exibir a feiura moral daqueles que discordam:

“Esse ataque representa uma traição Às pessoas cuja vida poderia ser salva pela pesquisa, e uma violação do dever mais fundamental da medicina e da política de saúde, o dever de cuidar.”

“This attack represents a betrayal of the people whose lives could be saved by the research and a violation of that most fundamental duty of medicine and health policy, the duty of care.”

Se o ataque é uma traição a pessoas do futuro, porque a venda de órgãos de fetos e bebês não seria uma traição aos seres humanos do presente? Se o dever fundamental da medicina e das políticas de saúde é cuidar do próximo, onde está o cuidado com as vidas interrompidas, ou com a sua dignidade?

A preocupação da doutora Charo é plenamente compreensível e respeitável dentro de uma perspectiva progressista e cientificista. O mínimo que se espera de alguém de sua importância como figura pública, bioeticista e educadora, é um esforço genuíno para compreender que a postura daqueles que ela chama de traidores e politiqueiros também é respeitável dentro de suas próprias perspectivas.

Criar espantalhos ou menosprezar problemas éticos nessa altura do campeonato não ajudará em nada ao debate bioético de qualidade.

Hélio Angotti Neto
Dean of UNESC Medical School
Seminar of Philosophy Applied on Medicine
www.medicinaefilosofia.blogspot.com.br






[1] CHARO, Alta. Fetal Tissue Fallout. New England Journal of Medicine, 373(10), September 3, 2015, p. 890-891.
[2] Evocar um espantalho numa discussão, debate ou argumentação é criar uma versão estereotipada de seu “adversário” e passar a atacar a própria criação ao invés de abordar a pessoa real com quem se relaciona.
[3] JONAS, Hans. Princípio Responsabilidade – Ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro, RJ: Editora Contraponto, 2006.

sábado, 19 de setembro de 2015

A RECEITA DO SEFAM

A RECEITA DO SEFAM



Lendo o livro "O Que É Conservadorismo", de Roger Scruton, com tradução de Guilherme Ferreira Araújo e prefácio do Bruno Garschagen, vejo duas características básicas do SEFAM descritas de forma bem explícita.

A primeira característica é a motivação para qualquer um que busca o SEFAM:

"Da mesma forma, as pessoas vão obter educação somente se elas a desejarem por seu próprio fim, mas conseguirão bem mais do que isso. Elas vão adquirir a habilidade de se comunicar, de persuadir, de atrair e de dominar. Em qualquer arranjo social, tais capacidades serão vantagens, mas a educação nunca pode ser buscada somente como meios para elas, mesmo se são sua consequência natural."

E a segunda é a percepção de que o SEFAM é sim um empreendimento elitista no sentido intelectual e moral, ou pelo menos almeja ser com sinceridade. E oferece uma oportunidade singular e bem desigual para os que buscam as Humanidades Médicas, pois, como diria Roger Scruton, de forma irônica:

"A menos que tomemos as crianças de suas mães e cuidemos delas em granjas, a 'desigualdade de oportunidade' não poderia ser erradicada. E mesmo assim sua total total erradicação dependeria da remoção de uma parte do conhecimento natural da criança, digamos, sujeitando seu crânio a uma série de golpes repetitivos de martelo ou removendo porções de seu cérebro."

Sem dúvida nenhuma o objetivo do SEFAM é que os participantes sejam o mais diferente possível do meio que os circunda, e ainda mais diferentes entre si, partindo de um legado cultural comum que possibilitará alçar maiores vôos independentes. É uma oportunidade extremamente desigual, felizmente, e jamais poderia ser imposta.

Hélio Angotti Neto
Coordenador do SEFAM
Professor de Medicina e Coordenador do Curso de Medicina do UNESC


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A Dimensão Espiritual na Psicologia

A Dimensão Espiritual na Psicologia


"Foi (Viktor) Frankl quem reintroduziu a dimensão espiritual do homem na psicologia, ocasionando uma revisão fundamental da concepção do homem. O espírito não busca o prazer; busca o sentido. O espírito não busca a satisfação de suas necessidades; procura no mundo tarefas e objetivos que tenham sentido. E justamente neste ponto surge o mundo exterior com suas inúmeras possibilidades de sentido e seus valores subjetivos, que precisam ser concretizados. Unicamente uma imagem do homem, que inclua a dimensão espiritual, pode transcender o mundo interior do eu, regulado homeostaticamente, e reconhecer o homem como um ser que, além de seu equilíbrio interno de necessidades, tem a motivação singular e suprema de encontrar e realizar um sentido no mundo externo; este sentido pode significar-lhe tanto que, se necessário, consagraria até sua vida a ele. Pascal, o grande filósofo, já disse: 'O homem transcende infinitamente a si mesmo'."

Assistência Logoterapêutica
Elisabeth Lukas

terça-feira, 15 de setembro de 2015

III Seminário de Humanidades Médicas do UNESC e I Seminário de Humanidades Médicas do HUCAM


Filosofia Política em Saúde no Congresso Brasileiro de Educação Médica, 2015

Filosofia Política em Saúde no Congresso Brasileiro de Educação Médica, 2015


No 53º Congresso Brasileiro de Educação Médica, o Centro Universitário do Espírito Santo e o Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina estarão presentes na programação com o tema: Filosofia Política em Saúde.

O Grupo de Estudo ocorrerá no dia 09 de novembro na sala 06, das 16:15 às 18:15, no Centro de Convenções Sul América, no Rio de Janeiro.


PROGRAMAÇÃO

Tipologia do poder em geral e do poder do profissional da saúde. 
Evolução histórica do poder no Ocidente conforme Bertrand de Jouvenel. 
Política e Filosofia Clássica: Platão e Aristóteles. Política Medieval: Agostinho, João da Salisbúria e Tomás de Aquino. 
Política de guerra em Sun Tzu  
Política moderna maquiavélica. 
Política revolucionária. 
Política Conservadora e Liberal. 
A Mentira, o  Segredo e o Ódio como instrumentos políticos. 
A erística de Schopenhauer. 
A manipulação psicológica na influência social. 
Redes em conflitos na guerra cultural. 
Consequencialismo em 3 escalas conforme Allenby e Sarewitz. 
Temor, humildade e responsabilidade em Hans Jonas. 
Valores em Guerra. 
O Exercício do Poder Cultural. 
O Exercício do Poder Econômico. 
O Exercício do Poder Político. 
Medicina em Sociedade.

Metodologia
Exposição Dialogada e Sugestões Bibliográficas

O tempo de apresentação será muito breve, mas o objetivo principal é apresentar um panorama das grandes possibilidades de estudo e ação dentro da esfera política quando o assunto envolve saúde e sociedade. Confira a página do congresso: http://www.cobem.com.br/2015/programacao/

Para os que desejarem uma oficina mais aprofundada, os mesmos temas serão discutidos de forma mais aprofundada na Oficina de Formação Política para Profissionais da Saúde, no doa 19 de novembro (quinta-feira) no III Seminário de Humanidades Médicas do UNESC e I Seminário de Humanidades Médicas da UFEs, em Vitória, ES.

Mais informações em breve!


Preletor: Prof. Dr. Hélio Angotti Neto

Coordenador do Curso de Medicina do UNESC (Centro Universitário do Espírito Santo); Coordenador do SEFAM; Membro do Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC; Diretor Editorial da Mirabilia Medicinae; Editor Associado da Revista Internacional de Humanidades Médicas. Membro da Sociedade Brasileira de Bioética, do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, do Conselho Regional de Medicina do ES, do Center for Bioethics and Human Dignity, da Associação Brasileira de Educação Médica e da Academia Brasileira de Oftalmologia.




quinta-feira, 3 de setembro de 2015

SEFAM IV - Aula 05: Educação Médica e Metafísica Médica

Quinta aula do SEFAM, Módulo IV. 

Educação Médica e o relatório de Abraham Flexner. Metafísica da Medicina. Importância da Formação Política.




quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Grupo de Pesquisa do CNPq “Arte, Filosofia e Literatura na Idade Média”

Apresentação do Professor Ricardo da Costa, sobre o grupo de pesquisa "Arte, Filosofia e Literatura na Idade Média".


Call For Papers - Mirabilia Medicinæ 5 (Institut d'Estudis Medievals (UAB/Spain)

Dear Colleague,

It is truly an honor to reach you for our fifth issue on Medical Humanities, which will be published in the Mirabilia Medicinæ 5 (2015/2). We cordially invite you to submit your manuscript to this issue until November 30, 2015.

Mirabilia Medicinæ is a special supplement of Mirabilia Journal (ISSN 1676-5818).

Mirabilia is a Journal from the Institut d’Estudis Medievals (Universitat Autònoma de Barcelona) indexed in many databases worldwide.

Mirabilia Medicinæ Journal is an online publication that provides articles, documents and academic reviews produced by scholars of the Medical Humanities. Such an area includes studies in Philosophy of Medicine, Bioethics and Medical Ethics, History of Medicine, Medicine and Arts, Narrative Medicine, Literature and other humanistic content in the search for the Modern, Medieval and Ancient roots of contemporary medicine.

LAST ISSUE: Mirabilia Medicinae Volume 4:

Cordially,


Helio Angotti-Neto, MD, PhD

Corrigindo uma injustiça: Abraham Flexner, o grande educador.


Na Educação Médica, a plenos pulmões, o educador Abraham Flexner é acusado de conteudismo pedagógico, biologismo anti-humanista, tecnologização da prática, medicina curativa individualista e de ser submisso às corporações médicas.

Mesmo eu já repeti críticas ao "modelo biomédico flexneriano" sem pensar direito no que fazia e com que bases eu anunciara tais acusações. Dou uma dica: ouvi dizer que...

Porém, fiz o que todos devemos fazer quando em nossas vidas começamos a levar as coisas a sério: fui às fontes originais.

Lendo o Relatório Flexner e o excelente artigo de Naomar de Almeida Filho (Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 26(12): 2234-2249, dez, 2010) intitulado "Reconhecer Flexner: inquérito sobre produção de mitos na educação médica no Brasil contemporâneo", constatei a enorme injustiça feita ao pedagogo norte-americano.

Num ambiente de escolas médicas em enorme quantidade (eram 457 antes e 31 depois do relatório), isoladas dos demais cursos e sem critério algum de funcionamento, Flexner falou de integração entre cursos, medicina preventiva, modelos de ensino precursores da Aprendizagem Baseada em Problemas, autodidatismo, aprendizagem contínua (lifelong learning) e estudo das humanidades antes e durante o curso de Medicina com o intuito de obter "experiência cultural variada e ampla". Além disso, enfatizou realmente a qualidade científica dos currículos, muitas vezes carregados de retórica barata e empirismo inadequado.

E constatei, por fim, que fiz injustiça a um grande educador não médico que muito ofereceu à Medicina do mundo inteiro. Flexner foi um visionário, de fato.

Pena que no Brasil falamos tão bem de maus professores, como o Paulo Freire, e difamamos tanto os excelentes, isso quando simplesmente não os esquecemos, como é o caso de Reuven Feuerstein.

sábado, 29 de agosto de 2015

Sugestão de Leitura: A Imagem Descartada, de C. S. Lewis.


Minha linha de pesquisa levou-me a pesquisar a Ética Médica ao longo dos milênios. Parte desse esforço inclui a necessidade de compreender como os antigos, os medievos e os modernos enxergaram o mundo. O que foi descartado, o que foi absorvido, o que foi destruído e o que foi criado de novo ou recriado.

No caminho para entender melhor a mente daqueles que fundaram nossa civilização, deparei-me com uma obra preciosa, recentemente traduzida e lançada pela É Realizações: A Imagem Descartada: Para Compreender a Visão Medieval do Mundo, escrita pelo fantástico C. S. Lewis, conhecido principalmente pelo seus livros infantis, secundariamente pela sua obra apologética e, por alguns poucos, pela sua obra de Alta Cultura e resgate das bases culturais de nossa civilização. 

Lá estão Boécio, PseuDionísio e Apuleio. Lá estão as descrições do Céu, os Seres Longevos, a Terra e seus habitantes. Lá está o "Modelo", como Lewis chamava.

As referências e alusões da obra são muito ricas e distantes para o leitor brasileiro, e aqueles que ousarem confrontar o lado mais complexo - e por que não dizer rico - da obra do criador das Crônicas de Nárnia, encontrarão um maravilhoso convite para entrar no mundo dos clássicos e na mente dos antigos.


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

SEFAM Módulo IV - Aula 04: O que é "Humanidades Médicas" e o Ensino das Virtudes



Nesta aula do SEFAM foram discutidos vários temas, incluindo Tanatologia, Universais, Metafísica, Estética, Epistemologia e Teologia. De todo o conteúdo apresentamos o segmento que tratou da definição de Humanidades Médicas e de como utilizar tal área de estudo na formação do médico.


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Pérolas da Medicina: Lisa Rosenbaum

"Os médicos que eu mais admiro não são caracterizados pelo quanto sabem, mas sim, por uma sofisticada intuição sobre como compartilhar melhor o que sabem. Algumas vezes eles dizem ao paciente o que fazer; algumas vezes eles oferecem uma escolha. Algumas vezes, quando discutem o tratamento, podem cobrir todos os sete princípios do consentimento informado. Outras vezes, vendo o terror e a incerteza no rosto de seus pacientes, poderão oferecer recomendações e dizer: 'Eu não sei como tudo irá acabar, mas eu prometo que estarei aqui com você todo o caminho'. "


Dra. Lisa Rosenbaum, Cardiologista
Correspondente Nacional do New England Journal of Medicine
"The Paternalism Preference - Choosing Unshared Decision Making"
Perspective, August 13, 2015. The New England Journal of Medicine

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Não é hora de "mea culpa", mas sim, de agir!

Frente aos perversos, demonstrar fraqueza é pedir o desprezo e a agressão. Lembrem-se das sábias palavras que nos aconselham a sermos símplices como as pombas, porém prudentes como as serpentes.

Sobre a culpa da má fama da medicina ser dos médicos e do governo ao mesmo tempo, tenho algo que gostaria de compartilhar...

Observem as seguintes críticas:

- Os médicos transformaram a arte de curar na arte de ganhar dinheiro.

- Vemos que os médicos (...) andam bem vestidos (...) e juntam riquezas (...) graças aos grandes enganos que causam a seus doentes, os quais enganam de todas as maneiras, pois se gabam de conhecer a doença que não conhecem. Além disso, eles prolongam (...) as doenças nos doentes, para que tenham mais ganhos. E eles dão aos doentes (...) [medicações] para que tenham parte do lucro do que fazem os especialistas nas coisas que vendem aos doentes.



A primeira foi feita no século XIII por Tomás de Aquino, a segunda foi feita por Ramón Llull (1), um filósofo catalão contemporâneo a Tomás de Aquino que escrevia sobre Medicina.

Sempre existiu a crítica contra maus médicos, e mesmo naqueles tempos o bom médico era querido e gozava de boa fama.

Hoje existem bons e maus médicos como sempre existiram. Porém, os bons amargam uma realidade cada vez pior e um ódio gratuito vindo de muitos elementos da população. Qual a diferença?

O governo nos difama. É simples assim.

Mea culpa por causa de médicos picaretas é algo comum na história da medicina no ocidente.

Hipócrates já falava mal dos médicos de "mentirinha", meros figurantes perto dos verdadeiros atores da medicina. Mas à época não tinham uma elite revolucionária caluniadora e maquiavélica para combater.

Paremos com o discurso politicamente correto assumindo culpas por todos os lados. Os bons médicos estão sofrendo. A esquerda revolucionária é perita em utilizar o discurso de culpa alheio para promover a destruição do próximo e se reerguer cobrindo as próprias falhas, como já foi mais do que bem descrito pelo fenômeno do Bode Expiatório (René Girard) e pelo uso sistemático do ódio (Gabriel Liiceanu).

É hora de trabalhar fazendo boas coisas ao lado dos pacientes, e ganhar seus corações com as boas virtudes e as boas obras que sempre caracterizaram a medicina como profissão.

_______________________________________________________________

1 - ANGOTTI NETO, Hélio; COSTA, Ricardo da. A Lepra Medieval e a Medicina Metafórica de Ramon Llull (1232-1316). Disponível em: <http://www.ricardocosta.com/artigo/lepra-medieval>. Acesso em: 24 ago. 2015.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

MEDICINA E ESPIRITUALIDADE: DUAS PALESTRAS NA BAYLOR UNIVERSITY

Começa a preparação para a apresentação de duas palestras na Universidade Baylor, no Texas, em fevereiro. 



Recebi o gentil convite do grande professor James A. Marcum, autor de um livro de Introdução à Filosofia da Medicina (An Introductory Philosophy of Medicine: Humanizing Modern Medicine) que li há alguns anos.



Lembro de pensar comigo como eu gostaria de poder trocar alguns pensamentos e aprender mais com o autor do livro que lera. E quem diria que anos depois receberia um honroso convite para encontrar pessoalmente um daqueles que inspirou o livro A Morte da Medicina!


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Apresentação no I Seminário UFES de Paleopatologia: A Lepra na Idade Média

Hoje o trabalho "A Lepra Medieval e a Medicina Metafórica de Ramon Llull (1232-1316)" foi apresentado no I Seminário UFES de Paleopatologia, ao lado do grande professor medievalista Ricardo da Costa.


Confira o trabalho na página do professor Ricardo da Costa!
http://www.ricardocosta.com/artigo/lepra-medieval-e-medicina-metaforica-de-ramon-llull-1232-1316


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

SEFAM IV - Aula 04: A Medicina e a Morte

SEFAM Módulo IV: A Medicina e a Morte: Aspectos Culturais, Filosóficos, Sociais e Bioéticos.

Na terceira aula do SEFAM, o grupo mostrou interesse no estudo da Tanatologia. Conforme pactuado entre os participantes, os temas são parcialmente direcionados de acordo com a curiosidade e o contexto das discussões, e o papel do médico frente à morte será o assunto abordado semana que vem, dia 26 de agosto de 2015, das 18:30 às 21:30 na sala de vídeo da Biblioteca do CAMPUS I do UNESC.

O encontro do dia 19 foi adiado, pois estarei no I Seminário UFES de Paleopatologia apresentando em conjunto com o grande professor Ricardo da Costa a respeito da Lepra na Idade Média.



Roteiro de Estudo

- Retratos da morte no século XXI.

- Etapas psicológicas da morte

- A condução médica da morte

- Ars moriendi

- Visões sobre o morrer

- Visão médica sobre a morte

- A medicina como a mensageira da morte

- Choque de princípios na condução da morte

- O suicídio e a Medicina

- A eutanásia e a Medicina

- O preparo para a morte

- Sofrimento e morte

- Protocolo Groningen


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

FILOSOFIA DA CIÊNCIA E ASCENSÃO DA MEDICINA MODERNA

SEFAM, Módulo IV, Aula 02. Filosofia da Ciência e Ascensão da Medicina Moderna


Gravação da segunda aula do SEFAM, segundo semestre de 2015.


Pintura Original

domingo, 9 de agosto de 2015

SEFAM IV - Aula 03: Aforismas de Hipócrates e Virtudes Médicas

Na terceira aula do SEFAM, duas missões: Falar acerca de quais lições podemos retirar dos aforismas de Hipócrates quando o assunto é ética médica e iniciar o trabalho no mapeamento de todas as medidas tomadas durante o governo do PT contra a profissão médica.



GUIA DE ESTUDO

Medicina hipocrática e ética médica.

Leitura e interpretação dos aforismas que tratam de ética.

Introdução à Ética Baseada em Virtudes. Da possibilidade de se ensinar a moral. A comunidade moral dos médicos. Exemplos positivos e negativos da medicina ocidental ao longo do tempo. Resgate cultural como resgate profissional e moral da medicina.

Leitura dos artigos do volume IV da Revista Mirabilia.

Leitura do Decreto 8497/2015 sobre formação de especialistas no Brasil.




terça-feira, 4 de agosto de 2015

Perguntas e Respostas: DA ESSÊNCIA DA MEDICINA



Recebi algumas perguntas interessantes (obrigado ao Cezar Moura) que aprofundam o debate sobre o que é a Medicina. Como o assunto toca temas centrais ao entendimento da antiga Arte, creio que vale uma publicação aqui no SEFAM.

1 - Na medicina atual, a falta de estudo sobre placebo seria o medo de ver que muitos dos tratamentos médicos continuam agindo mais pelo efeito placebo?

Não diria que faltam estudos sobre o placebo, pelo contrário. Encontram-se livros e artigos científicos sobre, inclusive, o papel do médico como terapia, isto é, como placebo benéfico. E a ação do placebo é bem conhecida e utilizada com sabedoria por muitos médicos experientes.

Um dos livros que trata especialmente dos efeitos benéficos de uma boa relação médico-paciente foi escrito pelo médico húngaro Michael Balint, intitulado: O Médico, seu Paciente e a Doença. Recomendo a leitura e a reflexão.

Outro trabalho curioso foi publicado por Fabrizio Benedetti, na revista Physiological Reviews, e tem como título: PLACEBO AND THE NEW PHYSIOLOGY OF THE DOCTOR-PATIENT RELATIONSHIP. O artigo é uma interessante revisão que inclui mais de 350 artigos originais!

2 - A medicina atual é uma ciência, ou apenas usa a ciência em benefícios corporativos e financeiros?

A medicina é uma arte que usa a ciência para fins pragmáticos, isto é, para aumentar as chances de cura ou alívio de doenças ou padecimentos do ser humano. Pode agir em benefício de interesses corporativistas e financeiros? Sim, desde que idealmente não se afaste do foco principal.

Quem trabalha de graça completamente abstraído do ganho financeiro? Alguma profissão é capaz de se sustentar sem ganhar nada? A única crítica que cabe em relação ao elemento financeiro seria a perversão da hierarquia de valores, esta sim, um vício.

Em relação ao corporativismo, há trabalhos que discutem o mesmo como ferramenta de controle da credibilidade e da qualidade profissional. Quando bem utilizado, pode servir como auxílio no efeito placebo que beneficia o paciente inclusive. Desde Hipócrates já se reconhecia que um médico de boa fama e comportamento auxiliar na cura de seu paciente.

3 - Mas qual trabalho científico, nos moldes atuais, não envolve efeito placebo?

De fato, é impossível escapar totalmente do efeito placebo, embora se tenham mecanismos de redução do mesmo, desenvolvidos principalmente nos estudos do tipo Ensaio Clínico.

Sem dúvida nenhuma, um dos elementos da ascensão da medicina moderna foi o desenvolvimento do experimento clínico por Austin Bradford Hill, como James Le Fanu lembra em sua obra The Rise and Fall of Modern Medicine. Tal desenho de estudo minimizou o aspecto subjetivo da pesquisa médica.

4 - Mas tu sabes o quanto o afastar por completo o efeito placebo é impossível, pois a simples interação entre 2 humanos já está gerando o efeito placebo, enfim, se não podemos afastar por completo, como podemos saber qual percentual de efeito placebo aconteceu?

Não podemos, mas podemos saber se há diferença estatística entre tratamentos que incluam doses semelhantes de placebo, desde que o estudo seja duplo-cego, mascarado e controlado, por exemplo.

5 - Como considerar a medicina atual não reducionista, no momento em que atua por especialidades?

Como quase tudo o que se faz hoje em dia, guarda-se importante aspecto reducionista. Mas toda ação, por mais reducionista que seja, ocorre num ambiente real, isto é, extremamente rico e complexo. O que cabe não é evitar a especialização, mas sim, buscar a especialização de qualidade sem abrir mão dos conhecimentos gerais que fundamentaram a especialidade, como o filósofo Mário ferreira dos Santos já alertava.

Hoje temos inúmeros defensores do pensamento complexo e da necessidade de entender a realidade de forma adequada, incluindo Xavier Zubiri, Olavo de Carvalho e Edgar Morin, mas tal anseio está presente há séculos. Encontro as raízes do pensamento complexo em Platão e Aristóteles, por exemplo, que analisavam uma questão sob diversas perspectivas, mas buscavam respostas em profundidade. Todo médico tem um grande desafio se ousar a especialização: não deixar de ser médico com profundos conhecimentos gerais, inclusive conhecimentos humanísticos, como Gregório Marañón já alertava ao dizer que "O Médico que só sabe Medicina, nem Medicina sabe. "

Com a tecnologia atual, é impossível não se especializar um mínimo que seja sem abrir mão da qualidade.

6 - Aliás, estaria a ideia de especialidade médica gerando simplesmente aumento de consumo de serviços médicos?

De certa forma sim. O aumento de ferramentas e conhecimentos à disposição do paciente aumentou exponencialmente e, com isso, a necessidade de que pessoas se dediquem a áreas específicas para que o benefício máximo seja alcançado também aumentou.

Para um médico conseguir realizar uma cirurgia chamada vitrectomia e evitar a cegueira num descolamento de retina grave, há a necessidade de no mínimo onze ou doze anos de estudo, só para citar um exemplo. Isso não desmerece quem optou por um campo mais genérico (tão desafiador e complexo quanto a especialidade, quando encarado seriamente).

O problema na pergunta é a palavra simplesmente. Aumenta-se o consumo, mas aumenta-se também em muitos casos a qualidade de vida. Considere os avanços na cirurgia de catarata, por exemplo. Pessoas de sete ou oito décadas de vida praticamente cegas que voltam a enxergar e se conectam novamente com o mundo e que, além disso, evitam traumas e quedas ao ver melhor por onde caminham.

O aumento do "consumo" médico vem ao lado de muitas conquistas.

7 - Numa sociedade que consome serviços de saúde quando está doente, estaria a ideia de especialidade médica gerando mais doença ou isto tudo é mera coincidência com o fato do governo pensar que o problema de saúde do Brasil é falta de médico para atender tantas consultas?

A visão de que a sociedade "consome serviços" é um pouco estranha e enviesada. Prestação de serviços de saúde não é material de consumo. Mas é um fato que as pessoas de todas as classes sociais demandam cada vez mais serviços de qualidade e alta complexidade. E também é fato que muitos comecem a enxergar - erroneamente - a medicina como um produto.

Também não se pode evitar a percepção de que muitos procedimentos trazem benefícios às custas de efeitos colaterais novos e novos desafios, e que a Iatrogenia (lesão causada por ação médica) é uma realidade que deve preocupar cada vez mais os médicos conscientes.

Já as razões para que o governo traga mais médicos são várias, e recomendo uma leitura no artigo publicado na revista Ibérica de Estudos Interdisciplinares. Nessa questão do Mais Médicos, o buraco é muito mais embaixo. Artigo: http://www.sophiaweb.net/repositorio/iberica/iberica21/interiorizacao-medico-angotti.pdf