terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Programação do Módulo I do SEFAM

Módulo I do SEFAM: Humanidades Médicas

Ciência, Filosofia e Saúde


No primeiro semestre de 2016, teremos o módulo I presencial gratuito para os alunos do UNESC. E uma novidade: teremos também a versão online! Já estou concluindo as negociações para disponibilizar o conteúdo.


I.                   Descrição do Curso e Objetivos

Estudaremos as Humanidades Médicas na busca do aprimoramento pessoal enquanto profissionais da área da saúde e estudiosos interessados no fenômeno da vida humana. Os participantes terão acesso a leituras, filmes e artigos acadêmicos durante seminários, aulas expositivas e debates. A capacidade de estudo interdisciplinar é um pré-requisito, ou pelo menos a boa vontade em fazê-lo, e todos deverão estar abertos a um amplo estudo e para a busca nas mais diversas fontes.

Os objetivos deste curso são: (1) promover a busca pela Alta Cultura entre os participantes; (2) conhecer os principais temas e materiais em Humanidades Médicas; (3) aprimorar-se intelectual e moralmente; (4) treinar as capacidades argumentativa, deliberativa e meditativa; (5) pensar sobre o papel do médico e do profissional de saúde na sociedade.

A versão online será um curso livre e não oferecerá certificação institucional ou governamental. 

O curso presencial poderá oferecer certificação via UNESC na qualidade de Atividade Complementar e é gratuito.


II.              Cronograma

Introdução
Questões administrativas básicas do curso. Apresentação da bibliografia. Em Busca da Alta Cultura. Apeirokalia. O ideal grego clássico de formação nobre (Paidéia). O valor do estudo dos clássicos em saúde. Literatura e Medicina.

A Vida Intelectual e a Vida Acadêmica
As condições para uma vida intelectual verdadeira. A busca da formação humanística. Disciplina e Perseverança. Moralidade e conhecimento. A formação clássica do livre pensador. Rotinas da vida acadêmica. Publicando em Humanidades Médicas e Bioética. A crítica da Academia internacional e brasileira. A invasão vertical dos bárbaros na Academia. A deturpação das instituições conforme Eric Voegelin no livro Hitler e os Alemães.

Origens da Filosofia.
O projeto Socrático. Filosofia X Produto Filosófico X Sofística X Filodoxia. Platão e a Academia. O Liceu Aristotélico. O Mito da Caverna. Apologia de Sócrates e a Verdade da alma contra o mundo. O conhecimento da própria ignorância como passo elementar da filosofia socrática.

Os Quatro Discursos Aristotélicos.
Introdução aos Quatro Discursos. Os quatro discursos na Medicina. Poética. Retórica, Dialética. Lógica. O uso dos quatro discursos como ferramenta para classificação do próprio conhecimento.

Ferramentas Aristotélicas para Médicos.
As quatro causas. Substância e Acidente. Ato e Potência. Aplicação das Causas Metafísicas na saúde humana, na avaliação de artigos científicos e na análise de situações em bioética.

Retórica e Argumentação.
A retórica clássica. Introdução à Lógica Informal. Erística. Comunicação não-verbal. Como ouvir, como falar. Programação neurolinguística. Análise de casos.

Filosofia da Ciência.
A Ciência Clássica. A ciência moderna experimental e empírica. O paradigma indutivista. O Falsificacionismo de Karl Popper. A Teoria das Revoluções Científicas de Thomas Kuhn e a resposta de Giovanni Reale. Ciência e Mito. CiÊncia como religião. Progresso e Responsabilidade na filosofia de Hans Jonas.

O Método Filosófico.
Introdução ao método filosófico por Olavo de Carvalho. Os passos do método filosófico. Aplicação do método filosófico a uma questão de bioética.

Fundações Culturais da Medicina
Valores judaicos, gregos e cristãos. A Medicina da Grécia Antiga. Hipócrates. O Juramento. A Obra Hipocrática. Antigos valores, lições ainda válidas.

A Erística
Truques erísticos comuns na altercação brasileira. Argumentos ad hominem. Golpes psicológicos na discussão. Análise de debates.



III.              Professor
Prof. Dr. Hélio Angotti Neto graduou-se médico na Universidade Federal do Espírito Santo; fez residência médica na Universidade de São Paulo, em Oftalmologia, onde também fez Doutorado em Ciências Médicas (Oftalmologia); foi preceptor no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP em 2006; foi assistente médico em Oftalmologia na Universidade Federal do Espírito Santo e na Universidade Federal do Triângulo Mineiro; é professor do Centro Universitário do Espírito Santo onde atua desde dezembro de 2012 na qualidade de Coordenador do Curso de Medicina; foi Coordenador do Mestrado Interinstitucional entre o UNESC de Colatina e a UNESC de Criciúma; atua no Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC; É Diretor Editorial da revista internacional em Humanidades Médicas Mirabilia Medicinae, sediada no Institut d’Estudis Medievals da Universidade Autônoma de Barcelona; atua como revisor dos Arquivos Brasileiros de Oftalmologia; é membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, da Associação Brasileira de Educação Médica, da Sociedade Brasileira de Bioética, do Center for Bioethic and Human Dignity e da Academia Brasileira de Oftalmologia.

IV.                BIBLIOGRAFIA BÁSICA

ADLER, Mortimer. Aristóteles Para Todos: Uma introdução simples a um pensamento complexo. São Paulo, SP: É Realizações, 2010.

BEAUCHAMP, T.L.; CHILDRESS, J.F. Principles of Biomedical Ethics 7th ed. Oxford University Press, 2012.

NOUGUÉ, Carlos. Suma Gramatical da Língua Portuguesa. São Paulo: É Realizações, 2015.

PELLEGRINO, Edmund D.; ENGELHARDT Jr., H.T.; JOTERRAND, Fabrice. The Philosophy of Medicine Reborn: A Pellegrino Reader. University of Notre Dame Press: 2008.

______, THOMASMA, D.C. Helping and Healing: Religious Commitment in Health Care. Georgetown University Press, 1997.

______, THOMASMA, D.C. The Christian Virtues in Medical Practice. Georgetown University Press, 1996.

______, THOMASMA, D.C. The Virtues in Medical Practice. Oxford University Press, 1993.

PLATO. Plato: Euthyphro. Apology. Crito. Phaedo. Phaedrus (Loeb Classical Library). Harvard University Press:1999.

SCHOPENHAUER, Arthur. Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão, em 38 estratagemas. São Paulo, SP: Topbooks, 2003.

SERTILLANGES, Antonin-Dalmace. A Vida Intelectual: Seu Espírito, Suas Condições, Seus Métodos. São Paulo, SP: É Realizações, 2015.

WALTON, Douglas N. Lógica Informal. São Paulo, SP: WMF Martins Fontes, 2012.


domingo, 10 de janeiro de 2016

Sugestão de Leitura: O Médico, de Rubem Alves

O Médico, de Rubem Alves



Há dois dias li "O Médico", de Rubem Alves. 

O livro abre com capítulos repletos de lirismo ao redor da bela obra de Luke Fields. A mesma que adorna a página de abertura do SEFAM. O protótipo do bom médico, do médico humanista, do médico presente, reflexivo e prestativo. 

Rubem Alves segue o livro contando um pouco da inspiradora história de Albert Schweitzer, músico, filósofo e médico ganhador do prêmio Nobel da paz. 

Fala também sobre a sempre presente morte. Certeza dos nascidos e amiga incômoda de todo médico, de toda a vida.

Terminaria bem o livro, mas não segue na mesma toada de seu início.

Aqui sei que arrisco muito em futucar um buda dourado, um ícone "sagrado", como Rubem Alves.

Mas quando o lirismo descamba para uma romantização artificialmente embelezadora de maníacos cruéis como Lênin e Marx, quando velhas figuras de linguagem automatizadas pela ideologia de esquerda ("caminhando e cantando...") aos poucos substituem o lirismo profundo, íntimo e belo, o escrito progressivamente toma um ar de superficialidade, de ênfase forçada.

O lirismo de Rubem Alves também soa superficial ao criticar a religião e a teologia cristã, contra as quais o autor guardou, provavelmente, alguns ressentimentos de antigos desafetos. Transforma fenômenos complexos e sublimes em espantalhos.

Mas creio sinceramente que este livro não é amostra do que o autor tem de melhor. 

Mais, eu não digo, pois sei que já remexi demais o vespeiro. E antes que algum dardo inflamado dispare em minha direção, deixo duas excelentes opções de crônicas e relatos belíssimos sobre a arte de ser médico e de ser paciente, sem pretensões ideologizantes:

- Sinto Muito, de Nuno Lobo Antunes;



- A Morte de Ivan Illitch, de Leon Tolstói.


Boa leitura.

Entrevista sobre o SEFAM cedida à Radio Vox

Entrevista cedida em 16 de novembro de 2015.




Os Desafios do Médico

O médico salva diversas vidas, sim! Isso pode até não ser um grande desafio na maioria das vezes, mas é maravilhoso e recompensador.

 Li um comentário que despertou o interesse em falar acerca de qual seria o maior desafio do médico.

“Não há desafio maior do que salvar vidas humanas”.

Antes de falar qual seria o maior desafio, seria bom começar a falar de quais são os desafios do médico.

A tríade da clínica nos impõe três grandes desafios de caráter geral. O primeiro grande desafio geral é o diagnóstico. Investigar e descobrir qual o problema, mapear terrenos.

O segundo grande desafio é o prognóstico. De posse do conhecimento acerca do problema do paciente, prever o risco, os possíveis caminhos a seguir, os possíveis destinos a alcançar.

O terceiro grande desafio é a terapêutica. O tratamento, que pode ser cirúrgico, farmacológico, de reabilitação ou simplesmente de conforto. Sem o mapeamento do terreno a caminhar e sem saber o que esperar ao fim de cada caminho, como traçar um percurso?

Esses três desafios gerais são complementares. Algumas vezes o mais desafiador será o diagnóstico, e um tratamento simples poderá poupar uma vida. Às vezes o diagnóstico será facílimo, porém o tratamento necessitará de grande perícia, ou muita coragem.

Mas toda a tríade da ação médica visa um objetivo, uma finalidade: o bem do paciente. Aí cabe uma série de desafios adicionais.

Qual o bem desejado pelo paciente? Qual o bem necessário identificado pelo médico? Qual o maior bem possível de ser alcançado na relação médico-paciente?
Posso atender a um paciente que deseja novos óculos e detectar um dano ao nervo óptico compatível com o diagnóstico de Glaucoma Primário de ângulo Aberto. A doença é silenciosa, e o paciente mal sabia que a tinha. O paciente chegou pensando num resultado: enxergar melhor com novos óculos. No meio da consulta ele descobre um outro problema e um objetivo alternativo: evitar a cegueira num futuro hipotético. Qual o melhor resultado possível desta situação e qual o maior desafio? E ainda estamos num exemplo relativamente bem simples, bem cotidiano.
O bem final a ser alcançado pode ser um entre muitos: salvar uma vida, aliviar a dor, confortar alguém que sofre, oferecer sentido à situação de fragilidade e dúvida, informar conhecimentos e promover a autonomia do paciente e de sua família etc.
O desafio e sua gradação mudam de acordo com a situação.

Às vezes o tratamento que salvará uma vida é algo simples, corriqueiro, como a simples injeção da tradicional Penicilina Benzatina que salvará de uma infecção potencialmente mortal. Às vezes salvar uma vida será um desafio extraordinário, de ousadia, técnica, ciência e compaixão, como o grande desafio aceito por nobres cirurgiões pediátricos que decidiram lutar pela vida humana quando tantos outros desistiram.

Um exemplo clássico pode ser visto no esforço de Rob de Jong, crítico do Protocolo de Eutanásia Infantil conhecido como Protocolo Groningen.

O Protocolo Groningen, da Holanda, advoga o extermínio da vida de um bebê em situações drásticas, sem prognóstico, de grande sofrimento irreversível. Joga-se a toalha. Em 2008 foram reportados 22 casos de aplicação do Protocolo em crianças com espinha bífida.[1]

Desistir sempre da vida humana seria tão fácil! Alguns resultados garantem que tudo pôde ser feito em acordo com os pais e a equipe médica, e sem gerar processos legais incômodos.

Mas aí o grande desafio é realmente salvar uma vida, inovar, batalhar. Rob de Jong mostra o resultado de uma de suas batalhas: uma criança operada e sorridente, aos 7 meses, interagindo, com o diagnóstico que garantiria sua entrada no Protocolo Groningen, porém sem o sofrimento insuportável ou o prognóstico irreversível descrito.[2]

Foto do artigo de Rob de Jong, Internet, http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2092440/

Quantas vezes um médico ou um cientista não se deparou com o que parecia ser um beco sem saída? Quantas vezes o impossível não se tornou possível e hoje parece ser algo garantido?

Lembro da história do Dr. Ben Carson, neurocirurgião pediátrico que pela primeira vez separou com sucesso dois gêmeos siameses unidos pela região occipital do crânio. Assim como ele venceu um desafio pela primeira, vez, alguém pela primeira vez realizou um transplante de rim, operou um coração, usou com sucesso um antibiótico etc.

Sim, salvar a vida é um grande desafio em diversas oportunidades.

Mas há oportunidades nas quais a grande novidade, a grande descoberta, a revolução no tratamento não ocorre. Nesses casos a vida não poderá ser salva. O grande desafio será aliviar ou confortar, e esses atos são deveres primários de qualquer médico.

Esqueça o conselho amargo de alguns desiludidos ou menos otimistas que afirmam que o médico nada faz, que o médico não está lá para salvar vidas. O médico faz muita coisa, e se for um bom médico, de boa formação humanística e científica, fará ainda mais. O médico salva diversas vidas, sim! Isso pode até não ser um grande desafio na maioria das vezes, mas é maravilhoso e recompensador.

Prof. Dr. Hélio Angotti Neto é Coordenador do Curso de Medicina do UNESC, Diretor da Mirabilia Medicinæ (Revista internacional em Humanidades Médicas), Membro da Comissão de Ensino Médico do CRM-ES, Médico Oftalmologista pela Secretaria de Saúde do ES, Membro do Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC e criador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina (SEFAM).



[1] Verhagen AA, Sol JJ, Brouwer OF, Sauer PJ. Deliberate termination of life in newborns in The Netherlands; review of all 22 reported cases between 1997 and 2004. Ned Tijdschr Geneeskd. 2005 Jan 22;149(4):183-8.
[2] JONG, T. H. Rob de. Deliberate termination of life of newborns with spina bifida, a critical reappraisal. Childs Nerv Syst. 2008 Jan; 24(1): 13–28.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Pérolas da Medicina: Margaret Somerville



"A idéia mais perigosa do mundo é achar que não há nada de especial no ser humano"


É Possível Agradar Gregos e... Romanos?

No Academia Médica, acaba de iniciar uma série de artigos sobre Ética Médica e Bioética. E já começamos o ano de 2016 colocando um pouco de lenha na fogueira. Há incompatibilidade entre a Ética Hipocrática e Cristã e a Bioética contemporânea? Mas, espere um momento... Qual bioética?


Confira: http://academiamedica.com.br/bioetica-e-etica-medica/

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Projetos para 2016

2016 promete muito para o Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina.

Prosseguiremos com a iniciativa cultural em Humanidades Médicas. Com a ajuda da Liga Acadêmica de Humanidades Médicas de Colatina (LIAHM) promoveremos o IV Seminário UNESC de Humanidades Médicas, trazendo diversos convidados para Colatina e criando um proveitoso espaço para o debate em saúde.

A parceria com os acadêmicos que criaram a LIAHM promete excelentes frutos, e diversos projetos de humanização ocorrerão por iniciativa dos alunos nos locais de atendimento à saúde ligados ao UNESC.
A edição da Mirabilia Medicinae continua, com a previsão de um volume para junho e outro para dezembro de 2016. Um dos volumes será dedicado aos trabalhos apresentados no Seminário de Humanidades Médicas.
Recomeçamos o ciclo bianual do SEFAM no UNESC. Em dois anos teremos os quatro módulos, um por semestre, gratuitos, oferecidos aos interessados em Humanidades Médicas, Ética Médica, Bioética e Filosofia da Medicina.

O primeiro módulo será principalmente sobre Humanidades Médicas, e se chama: Ciência, Filosofia e Saúde. O segundo será Narrativa e Retórica Médica. O terceiro será Bioética em Questões. O último, no segundo semestre de 2017, será Filosofia da Medicina. Todos juntos promoverão a passagem do aluno pelo estudo e pela prática do discurso nas quatro formas: Poética, Retórica, Dialética e Lógica, conforme o artigo publicado no seguinte link: http://www.biomedicalandbiopharmaceuticalresearch.com/images/Article2_11n2.pdf 

Está previsto para 2016 o lançamento do livro "A Tradição da Medicina", com uma análise discursiva e simbólica do Juramento de Hipócrates e outros materiais sobre a formação em Virtudes para o médico e a criação e fundamentação do SEFAM. O livro deverá ser lançado pela VIDE Editorial, que lançou o livro "A Morte da Medicina".

Novos alunos do SEFAM se preparam para iniciar suas pesquisas em Humanidades. Após completarem a segunda edição do Seminário, preparam um estudo sobre a Ética Hipocrática, que auxiliará na formação do imaginário médico contemporâneo e nos lembrará de quem somos. Todos estaremos trabalhando no resgate da cultura médica, sem a qual qualquer tentativa de crítica cultural ou aprimoramento moral profissional será quase impossível.


E, por fim, dois honrosos convites foram feitos para apresentações nos Estados Unidos. Em fevereiro, na Baylor University, tratarei da formação moral do médico na cidade de Waco, no Texas, no retiro anual de Humanidades Médicas (mais informações no jornal: http://www.baylor.edu/medical_humanities/doc.php/254888.pdf )


E no mês de junho, participarei como convidado da Iniciativa Global em Bioética do Center for Bioethics and Human Dignity, numa série de eventos sobre Bioética Cristã. Em Illinois, na Trinity International University, terei a chance de apresentar o trabalho sobre o Juramento de Hipócrates que deu sustentação ao livro A Tradição da Medicina.


Só posso agradecer àqueles que colaboraram para o sucesso do SEFAM e de nossos estudos e pesquisas. Um feliz 2016 para todos, cheio de grandes desafios e sucessos, se Deus quiser!

Prof. Dr. Hélio Angotti Neto
Coordenador do SEFAM
www.medicinaefilosofia.blogspot.com.br

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Precisamos mesmo de falar sobre quem fala do Olavo de Carvalho?

Da arte de difamar e menosprezar o melhor...


Foto de Matheus Bazzo Malgarise - Permissão de Josias Teófilo

Se há algo cansativo no ambiente letrado – ou pseudoletrado – do Brasil é a difamação contra os melhores.

Exemplo mais que repetido é o que se faz contra o filósofo (filósofo sim), professor e escritor Olavo de Carvalho.

O filósofo Olavo reúne uma plêiade caricatural e tenebrosa de ex-alunos e de acadêmicos diplomados que não param de prestar-lhe atenção a todos os movimentos, dispostos ao ataque no mais simples deslize ou mal-entendido. Os professores e grandes pesquisadores já o deixaram em paz há anos, após terem se escaldado na água fervente de sua crítica cultural em obras essenciais para o Brasil como O Imbecil Coletivo I e II e O Mínimo. Porém, agora é a vez dos miúdos, que atacam sem a cautela dos grandes, e com menos vergonha também.

Um texto que repete a fórmula foi publicado na revista Colombo pelo economista Joel Pinheiro, que destaca alguns trechos de sua escolha para representar seu material (http://www.cafecolombo.com.br/ideias/precisamos-falar-sobre-olavo-de-carvalho/). O autor direciona sua mira também aos alunos e amigos do filósofo brasileiro radicado na Virgínia.

Solicitado a traçar um perfil, Joel respondera que este seria crítico. Mas creio que o significado da palavra crítico não foi bem compreendido pelo editor. O perfil foi, ao que parece pelos trechos selecionados, uma difamação pura e simplesmente, e não somente contra Olavo de Carvalho, mas também contra os seus alunos, entre os quais felizmente tenho a pretensão de me incluir.

Alguns trechos foram destacados pelo próprio autor, divulgando sua publicação na revista. Ofereço um contraponto baseado numa simples e concreta realidade: estudo a obra do Olavo há doze anos e faço seu curso online desde o início. Li praticamente tudo o que ele publicou nesse período, conheço seus alunos pelos resultados mostrados e, alguns, diretamente por meio de laços acadêmicos, de respeito ou de amizade.

Sei o que sou e sei do que e de quem falo em meu contexto. Coisa que não posso afirmar do Joel, de quem pouco sei. Mas o assunto não é Joel. O assunto é Olavo e os alunos de Olavo.


“Diante de tal cenário [dominação da América Latina pelo comunismo], Olavo propõe uma solução clara e consistente: um golpe militar para extirpar a esquerda do poder. Embora já tenha clamado pelo golpe nas redes sociais, prefere instruir seus seguidores a agirem com discrição e arquitetarem a intervenção por trás dos panos, junto às Forças Armadas. Felizmente, ninguém que o leva a sério parece ter muita influência nos centros de poder. ”


Olavo nunca propôs golpe militar algum. Como todo bom filósofo deveria fazer, ele por diversas vezes listou pontos contrários e favoráveis a tal medida e, inclusive, reuniu ofensas contra si mesmo por parte de alguns alunos intervencionistas quando criticou a avidez com que alguns desejavam jogar nas costas dos militares o dever de “salvar” o Brasil.

A medida sempre defendida pelo filósofo foi a de criar uma nova elite cultural, sábia, responsável e profundamente amparada pelo estudo, pela produção de alta qualidade e pela maturidade.

Sobre extirpar algo do poder, há sim uma pretensão: extirpar o monopólio esquerdista do poder político e cultural. Se muitas críticas são feitas à esquerda, qualquer informado com o mínimo aceitável de dados para ousar escrever um perfil deveria saber que muitas outras críticas são tecidas aos liberais e conservadores brasileiros. E extirpar o monopólio esquerdista é algo tremendamente diferente de extirpar a presença da esquerda!

Conselhos foram dados sim para inúmeras pessoas sobre inúmeros assuntos. Um conselho confirmado pelo próprio Olavo de forma explícita era o de que liberais deveriam ter se aproximado dos militares. Quem deveria escutar não escutou, e o que temos é a esquerda se esforçando para influenciar, cooptar e usar os militares brasileiros enquanto os liberais não querem se “misturar”.


“Estou convencido de que, na atuação de Olavo, a forma é mais importante que o conteúdo, e chega mesmo a substituí-lo. Olavo vende com maestria a imagem de sábio e de bravo defensor do bem para jovens sedentos de certezas. E, com a confiança que nele depositam, leva-os pela mão a seu mundo mental particular. ”


Algo escrito nas entrelinhas não cheira bem. Se alguém acusa Olavo de vender uma imagem, está implicitamente deixando a pista de que ele nada é do que afirma ser ou vende. Então, em uma pequena frase, temos as acusações de que Olavo é imprudente, falsário (apenas aparência, sem conteúdo) e maligno, além de possivelmente ser um aproveitador de jovens sedentos de certezas.

É engraçado notar alguns nomes entre os jovens cheios de incertezas, citados como leitores, admiradores e seguidores pelo próprio Joel: Reinaldo Azevedo, Felipe Moura Brasil, Rodrigo Constantino, Bruno Garschagen, Flavio Morgenstern, Rodrigo Gurgel, Martim Vasques da Cunha, Lobão, Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e Padre Paulo Ricardo. É claro que a alcunha de jovens cheios de incertezas pode até ser lisonjeira para alguns desses experientes senhores repletos de cabelos brancos – ou carecas - e, em alguns casos, pais de família. Afinal, os pobres e imaturos citados são apenas escritores experientes, editores, economistas, cientistas políticos, críticos literários, músicos da “velha guarda” do rock brasileiro, políticos bem conhecidos e um sacerdote católico experiente com formação na Universidade Gregoriana do Vaticano.

Eu mesmo - pai de família, médico, presbítero, pesquisador, professor e gestor em educação médica – estaria incluído na lista de jovens inexperientes? Agradeço pelo jovem, e até mesmo pelo inexperiente, se isso significar alguém disposto a aprender com a experiência até o último suspiro.

Experiente, idoso e sábio mesmo deve ser o Joel, certo? Afinal, julga cientistas, escritores, sacerdotes e políticos com um ar repleto de nobre condescendência.

Em relação a ser fonte de certezas, após mais de meia década de aulas e uma década de leitura e pesquisa de seus livros e artigos, posso dizer que escutei muito mais a afirmação “não sei” do que respostas definitivas vindas do Olavo. E quando escutei respostas, provisórias ou definitivas, estas vieram classificadas conforme sua teoria aristotélica dos quatro discursos, graduadas de acordo com a credibilidade e o nível de certeza. Algo bem distante do perfil difamatório traçado na revista Colombo.

Foto de Matheus Bazzo Malgarise - Permissão de Josias Teófilo

Por fim, posso concordar que Olavo realmente conduziu muitos ao seu “mundo mental particular”, se por esse termo entende-se a explicitação de toda uma cosmovisão. Aliás, Olavo não possui mundo mental público! O Joel possui? Ou considera que o mundo particular mental de Joel é melhor do que o do Olavo? Não sei. Prefiro deixar para lá, dada a irrelevância de tal assunto “joelístico” para meu crescimento pessoal e considerando a amostra de seu mundo mental exposta na Revista Colombo. O fato é que toda a interação humana inclui o encontro entre mundos mentais, e que bom o Olavo disponibilizar o seu.


“O olavismo é um simulacro de religião que segrega seus adeptos do mundo. Uma “religião” que é parasitária do cristianismo por ele pregado, e em especial do catolicismo, mas que poderia facilmente se moldar a outros credos. Todos os possíveis pontos de contato com visões diferentes são neutralizados.”


Não vejo, entre os nomes de jovens inexperientes já citados, pessoas desligadas do mundo. Vejo cientistas políticos concluindo doutorados internacionais, colunistas de revistas de circulação nacional, críticos literários que participaram de bancas julgadoras em eventos internacionalmente reconhecidos e religiosos de grande repercussão.

E, pessoalmente, depois do estudo facilitado pela obra do Olavo, não posso afirmar que fiquei segregado. Pelo contrário. Participei de congressos nacionais e internacionais, fui reconhecido e premiado pelo meu trabalho, tornei-me diretor editorial de uma revista internacional, conheci acadêmicos, pesquisadores e professores do mundo inteiro, fui chamado a uma palestra nos Estados Unidos e fui escolhido para participar de uma iniciativa global em Bioética. Se isso é ser segregado do mundo, até canso em pensar o que seria ser “inserido” no mundo. Talvez o tecedor de perfis possa mostrar como é alguém superexposto, engajado e inserido para nossa iluminação, certo? Seria escrever um perfil difamatório na jovem revista Colombo o critério suficiente para o atestado de não alienação frente ao mundo? Ou na ainda jovem e interessante Dicta & Contradicta? A ausência de critérios nos leva a especular...

Sobre neutralização de perspectivas discordantes, tenho que discordar novamente. Vários de seus alunos discordam em pontos cruciais do que escutam, e nem por isso o diálogo e a aprendizagem são impedidos. Aliás, o ambiente filosófico criado raramente “neutraliza” alguém. Os poucos que foram retirados do curso (lembro de dois casos em mais de cinco anos em meio a milhares de alunos) demonstraram previamente uma falta de sinceridade e de caráter comprometedora. E os demais que saíram o fizeram por conta própria, muitas vezes tendo entrado com segundas intenções.

Eu mesmo, cristão protestante reformado, tenho minhas diferenças teológicas e discordâncias em relação ao que escuto, mas não vejo em que isso impossibilitaria uma produtiva relação de aprendizagem e amizade com o filósofo Olavo de Carvalho ou em que isso diminui o valor do conhecimento adquirido. Outros, como o genial Fábio Salgado de Carvalho, nutriram discussões metafísicas e metodológicas importantes e foram, inclusive, citados elogiosamente pelo professor, mesmo em discordância.

Sobre existir um fenômeno chamado olavismo, e tal fenômeno ser um simulacro de religião, pouco entendi. Faltaram na vulgar afirmação definições mais precisas para que alguém ouse entender melhor e tente responder (quem sabe não encontro no perfil completo quando chegar a Revista Colombo?). 

Se olavismo for estudar com Olavo de Carvalho, aí sim é algo real. Mas religião? Improvável. E se for uma deturpação alheia do que na realidade Olavo faz, não caberia ser citado de tal forma num perfil.


“Tudo em Olavo leva o aluno a se aferrar na autoridade e importância do mestre. Olavo destrói a autoestima de seus seguidores, substituindo-a pela devoção à sua pessoa. A dependência pessoal, a confiança exacerbada, a aniquilação do senso crítico em favor de uma visão supostamente mais profunda, o cultivo da admiração embasbacada. Em cada um deles, uma só conclusão: Olavo é o único canal seguro de contato com a realidade. E por isso a defesa tão aguerrida de seus seguidores. Se Olavo cair, isto é, se ficar patente que ele não é esse grande luminar do pensamento que lhes foi vendido, cairá o mundo dos discípulos.”


Joel confunde admiração e amizade pelo professor com devoção. Em relação à baixa autoestima, novamente incorre em terrível imprecisão. Depois que estudei com o Olavo, ganhei coragem para entrar no campo interdisciplinar de pesquisa e obtive todas as conquistas já descritas. Se ganhei algo, foi coragem, curiosidade e reconhecimento. E tudo foi feito sem nenhuma permissão ou orientação direta do Olavo, que à época mal sabia de minha existência; sou apenas um entre muitos alunos do curso online que nunca o viram pessoalmente, tampouco receberam orientação estratégica ou intelectual personalizada, mas que nutrem um cordial sentimento de amizade.

O desfile de mentiras sem fundamentação nos pequenos excertos selecionados pelo autor é grande, porém denota até certa criatividade ao imaginar um terrível guru opressor que instiga em seus “discípulos” (termo que gera particular aversão ao próprio Olavo): “a dependência pessoal, a confiança exacerbada, a aniquilação do senso crítico em favor de uma visão supostamente mais profunda, o cultivo da admiração embasbacada...”

Joel conclui que, para os alunos do Olavo, “Olavo é o único canal seguro de contato com a realidade”. Com a liberdade da expressão e autoridade de aluno, só posso responder uma coisa: mentirinha cabeluda, hein?

Sobre a pretensão de ser um “único canal seguro”, só posso afirmar que Olavo é ótimo em apresentar outros filósofos e escritores de peso para seus alunos e em ampliar formidavelmente o leque de influências. Onde mais alguém escutaria indicações elogiosas de filósofos, teólogos e escritores protestantes (Abraham Kuyper e Dooyeweerd), católicos (Tomás de Aquino, Bernard Lonergan e muitos, muitos outros), muçulmanos, seculares etc.

Se há alguém no Brasil que foi responsável por iniciar uma revolução editorial e refrescar com novos ares e múltiplas influências o embolorado ambiente intelectual brasileiro, esse alguém foi o Olavo.

Se, de acordo com Joel, Olavo cair, seja lá o que isso quer dizer, ficará comprovado o que o próprio Olavo afirma repetidamente: ele é apenas um ser humano, falho em diversos pontos, assim como eu ou até mesmo o tecedor de perfis, Joel Pinheiro. O mundo continua e, como já escutei em uma das aulas do Seminário de Filosofia, “um grande conforto é saber que se eu desaparecer de uma hora para outra, o mundo seguirá seu curso normalmente. ”

Sobre ser defendido de forma tão aguerrida por seus alunos e amigos – seguidores é uma palavra que beira um recurso erístico do tipo “rotulação odiosa” e nada acrescenta de útil ao perfil -, a razão é clara: ele ofereceu muito conhecimento de grande valor a muita gente. Pessoalmente, posso afirmar que o sentimento de gratidão e amizade pelo ensino e pelo incentivo recebido para o ingresso na vida intelectual geraram um profundo sentimento de respeito e uma vontade, aguerrida sim, de defendê-lo contra a injusta malícia alheia.

Isso não me torna um seguidor, um fanático ou qualquer outra coisa que caiba em perfis difamatórios, isso atesta que reconheço um benefício recebido.


“Quem quiser ler o resto, é só comprar a Revista Café Colombo. Não se decepcionará. ”


Fiz o que o editor da Revista Colombo provavelmente queria com a publicação do perfil, comprei um volume. Nada mais justo do que ler na íntegra o tal perfil e torcer para que seja muito melhor do que a seleção de trechos indicada pelo seu autor. Se algo de conteúdo aparecer, prometo escrever mais sobre o tema.

Espero ser a primeira e última vez que compro a Revista Colombo.

Primeira vez por um mórbido desejo de ver onde mais a difamação pode alcançar (talvez nutrido pela inclinação de estudar processos patológicos natural a um médico) e pelo sentimento de obrigação em defender a honra de um filósofo, pai de família, benfeitor e professor. Última vez pela constatação de que revistas que publicam perfis sensacionalistas e difamatórios não devem prosperar num ambiente decente. Mas, enfim, quem disse que nosso Brasil de hoje é decente?

Ah, antes que eu esqueça. Precisamos mesmo falar de quem fala do Olavo? Que canseira, não precisamos não!

Sei que o Joel é economista de estirpe liberal e é diplomado pela USP, e sei que escreveu um perfil difamatório sobre o Olavo. Mais não preciso e nem quero saber. Espero que, fora este ato difamatório, seja um bom moço e que alcance sucesso produzindo coisas melhores e mais dignas. E falemos de coisas mais importantes, certo?

Acredito que até mesmo o Olavo de Carvalho concordaria comigo e diria que é muito mais desafiador e intrigante escrever sobre filosofia, biografias de santos e/ou heróis e literatura de boa qualidade do que traçar perfis desta categoria sobre este ou aquele professor ou aluno.

Deixo somente uma recomendação final: se gostam de biografias e perfis de boa qualidade, prestem atenção a um projeto que promete muito: o documentário Jardim das Aflições. Será sobre a vida e obra do filósofo Olavo de Carvalho e está em produção nas mãos competentes de cineastas e entrevistadores profissionais. Possui uma qualidade quase que singular nesses nossos dias de Lei Rouanet: não utilizou verba pública! Algo que merece louvor até mesmo de um economista liberal como o Joel, não é mesmo?

***

Continuação do texto - após leitura do "perfil crítico" completo na Revista Colombo.

NADA DE NOVO, NADA DE ÚTIL
Escrevi há alguns meses um breve artigo sobre a maledicência contra Olavo de Carvalho.

Foi sobre um perfil difamatório publicado na Revista Colombo. A revista chegou e li o artigo na íntegra. Estava devendo a continuação da crítica.


Nada de novo e nada de útil encontrei após ler tudo. Só reforcei a constatação de que o jovem tecedor de perfis tem a capacidade de distorcer tudo com um olhar incrivelmente malicioso.

A capacidade de enxergar maldades é tão intensa no texto difamatório que eu imagino se, por exemplo, ao ler os quatro Evangelhos, o autor do escrito publicado na revista "cultural" não encontraria mil razões ocultas e malignas para até mesmo Cristo ter feito o que fez.

Por trás de cada atividade do Curso Online de Filosofia, Joel Pinheiro encontrou planos maquiavélicos e intenções escusas. Conseguiu distorcer todo o propósito (causa final) de tudo o que é ou foi feito no curso online, oferecendo explicações totalmente mediocrizantes, desprovidas de empatia ou de sincera busca bem intencionada pela verdade.

Depois é o Olavo quem é adepto da Teoria da Conspiração! (12 de agosto de 2016).

Prof. Dr. Hélio Angotti Neto
Coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Liga de Humanidades Médicas no Natal.

A LIAHM organizou de uma singela ação hoje, no Hospital Maternidade São José, no Setor de Pediatria.

Participaram os alunos Kaique Dadalto, Letícia Dalvi, Alexandre Calasans, Suellen e Pâmela. Ainda hoje farão uma visita ao Orfanato, e já estão organizando ações junto à APAE de Colatina.

Parabéns aos alunos pela bela iniciativa.