domingo, 5 de junho de 2016

Existe Vida Indigna?

O que se esconde por trás das palavras?

Entenda melhor o significado do que Daryl Charles chamou de "a prostituição das palavras para justificar o mal social" no artigo publicado no Academia Médica.

Link: https://academiamedica.com.br/uma-vida-indigna-de-ser-vivida_/


sexta-feira, 3 de junho de 2016

Ciência, Cultura e Saúde - no Kátedra


Página do Curso: http://katedra.com.br/?product=sefam-modulo-1-ciencia-cultura-e-saude
O curso Ciência, Cultura e Saúde consiste no primeiro módulo do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina (SEFAM), e é ministrado em nosso ambiente virtual de aula, onde você pode acompanhar as aulas no ritmo que quiser e puder, e vê-las quantas vezes desejar nos 60 dias seguintes à compra do curso. Você recebe também acesso ao grupo de discussões no Facebook, onde alunos e ex-alunos trocam ideias e experiências sobre os assuntos abordados e o professor responde perguntas e dúvidas com hora marcada.
A duração média de cada aula é de uma hora, e o módulo tem um total de 10 aulas. O professor fará sessões de perguntas e respostas no grupo de discussões exclusivo dos alunos, no Facebook.

Ementa
  • Introdução: questões administrativas básicas do curso. Apresentação da bibliografia. Em Busca da Alta Cultura. Apeirokalia. O ideal grego clássico de formação nobre (Paidéia). O valor do estudo dos clássicos em saúde. Literatura e Medicina.
  • A Vida Intelectual e a Vida Acadêmica: as condições para uma vida intelectual verdadeira. A busca da formação humanística. Disciplina e Perseverança. Moralidade e conhecimento. A formação clássica do livre pensador. Rotinas da vida acadêmica. Publicando em Humanidades Médicas e Bioética. A crítica da Academia internacional e brasileira. A invasão vertical dos bárbaros na Academia. A deturpação das instituições conforme Eric Voegelin no livro Hitler e os Alemães.
  • Origens da Filosofia: o projeto Socrático. Filosofia X Produto Filosófico X Sofística X Filodoxia. Platão e a Academia. O Liceu Aristotélico. O Mito da Caverna. Apologia de Sócrates e a Verdade da alma contra o mundo. O conhecimento da própria ignorância como passo elementar da filosofia socrática.
  • Os Quatro Discursos Aristotélicos: introdução aos Quatro Discursos. Os quatro discursos na Medicina. Poética. Retórica, Dialética. Lógica. O uso dos quatro discursos como ferramenta para classificação do próprio conhecimento.
  • Ferramentas Aristotélicas para Médicos: as quatro causas. Substância e Acidente. Ato e Potência. Aplicação das Causas Metafísicas na saúde humana, na avaliação de artigos científicos e na análise de situações em bioética.
  • Retórica e Argumentação: a retórica clássica. Introdução à Lógica Informal. Erística. Comunicação não-verbal. Como ouvir, como falar. Programação neurolinguística. Análise de casos.
  • Filosofia da Ciência: a Ciência Clássica. A ciência moderna experimental e empírica. O paradigma indutivista. O Falsificacionismo de Karl Popper. A Teoria das Revoluções Científicas de Thomas Kuhn e a resposta de Giovanni Reale. Ciência e Mito. Ciência como religião. Progresso e Responsabilidade na filosofia de Hans Jonas.
  • O Método Filosófico: introdução ao método filosófico por Olavo de Carvalho. Os passos do método filosófico. Aplicação do método filosófico a uma questão de bioética.
  • Fundações Culturais da Medicina: valores judaicos, gregos e cristãos. A Medicina da Grécia Antiga. Hipócrates. O Juramento. A Obra Hipocrática. Antigos valores, lições ainda válidas.
  • A Erística: truques erísticos comuns na altercação brasileira. Argumentos ad hominem. Golpes psicológicos na discussão. Análise de debates.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Curiosidades da Medicina da Antiga Roma

Patients and Healers in the High Roman Empire - Ido Israelowich


Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2015, 191p.



Em minha estadia nas proximidades de Chicago, durante o programa global de educação em Bioética do Center for Bioethics and Human Dignity, terei a chance de ler e pesquisar em diversas fontes relacionadas à História da Medicina, às Humanidades Médicas, à Filosofia da Medicina e à Bioética.

A participação na qualidade de Visiting Scholar propiciará uma excelente oportunidade de acessar inúmeros materiais de pesquisa que dificilmente encontraria no Brasil, além de promover um saudável intercâmbio cultural com colegas de outros países.

Como parte dos meus esforços de pesquisa, tentarei divulgar algumas informações curiosas que encontrei nas obras pesquisadas. 

Hoje trago algumas informações sobre a medicina romana antiga.

A Roma Antiga sofria uma importante influência cultural da Grécia Clássica. Na medicina, não somente os termos eram derivados da língua grega, mas Roma inclusive importava médicos, estimulando sua imigração ao oferecer cidadania romana e isenção de impostos. Tal política data do governo de Júlio César e Augusto César. Inclusive, em momento de grande crise, quando escravos e diversos membros da população eram expulsos da cidade, os médicos foram autorizados a permanecer, tamanha a importância que tinham. Não é exatamente um Mais Médicos (eles não mandavam dinheiro para um ditador numa ilha distante), mas há algumas curiosas semelhanças com o tempo presente.

É claro que esses eram médicos gregos da linhagem Hipocrática, famosos na antiguidade. Eram os médicos profissionais, que atendiam os mais favorecidos. De forma geral, qualquer um poderia se intitular médico e sair a tratar quem bem entendesse, algo que só valorizava a existência dos médicos profissionais vindos da Grécia, onde tal formação estava incluída nos esforços educativos tradicionais conhecidos como παιδεία

Do médico cobrava-se principalmente dois aspectos: probitas morum et peritias artis, isto é, uma vida de retidão e a perícia na arte. Também havia benefícios em ser médico reconhecido publicamente, já que tal profissional não seria punido em caso de insucesso, um detalhe que gerou reclamação em alguns textos do passado.

Além de tratar da identidade do médico romano antigo, o livro também trata de como o paciente percebia a medicina, de questões relacionadas à fertilidade feminina, da participação do médico e dos conhecimentos hipocráticos nos esforços militares de Roma e do turismo médico.

Sobre como as pessoas lidavam com a medicina, relatos históricos mostram que pessoas buscavam a cura apelando tanto a meios clínicos hipocráticos quanto a meios religiosos ligados à fé em Asklépio. Hoje todos buscam o médico, mas na hora do aperto, muitos apelam também a Deus.

Sobre o aborto, em geral era permitido na sociedade romana, a não ser quando comprometia a produção de descendência do chefe da família, o que era visto com maus olhos. O apreço pela vida humana era uma característica específica de somente alguns grupos como os hipocráticos. Hoje quando se luta pela legalização do abortamento voluntário, briga-se na verdade por um retorno ao passado remotíssimo, quando a vida humana nem valia tanto assim para algumas culturas.

Apesar da sociedade excluir a mulher de muitos cenários, havia mulheres médicas em Roma e algumas delas, inclusive, foram homenageadas por meio de relatos e estátuas. É claro que hoje há uma proporção incrivelmente maior de mulheres no mercado e no meio profissional, algo que só tornou-se possível após os esforços cristãos de dignificação da mulher.

Sobre os famosos acampamentos de guerra e campanha dos romanos (vocês lembram dos acampamentos ao redor da aldeia dos irredutíveis gauleses de Uderzo e Goscinny?), o livro demonstra que utilizavam conhecimentos derivados da escola hipocrática para evitar o adoecimento das tropas. E na tradição hipocrática há uma ampla gama de livros dedicados a considerar a influência do ambiente no adoecer e na manutenção da saúde.

Se hoje, quando alguém muito rico adoece, busca-se hospitais de luxo como Albert Einstein em São Paulo ou até mesmo se viaja para o exterior, no passado os doentes recorriam aos famosos centros de turismo médico da Antiguidade, como os templos de Asklépio em Atenas, Cós, Pérgamo e Epidauro. Se hoje existem os médicos "de grife", no passado existiram os famosos médicos de Alexandria, Éfeso e Roma.

E há muitas outras curiosidades, mas uma coisa salta à vista: ao ler detalhes históricos antigos não há como deixar de reconhecer naqueles habitantes do passado pessoas muito mais próximas de nós do que ousaríamos pensar no começo.

Prof. Dr. Hélio Angotti Neto é Coordenador do Curso de Medicina do UNESC, Diretor daMirabilia Medicinæ (Revista internacional em Humanidades Médicas) e criador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina (SEFAM). Membro da Comissão de Ensino Médico do CRM-ES, do Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC e do Center for Bioethics and Human Dignity.






segunda-feira, 23 de maio de 2016

Ameaças à Medicina Contemporânea

Fragmentos diversos


I. A Idéia mais perigosa do Mundo!

Segundo Margaret Somerville, "A idéia mais perigosa do mundo é achar que não há nada de especial no ser humano".http://medicinaefilosofia.blogspot.com.br/search…
Um exemplo bem claro das razões distorcidas de tal pensamento pode ser visto abaixo, num trecho selecionado do famoso bioeticista Peter Singer, grande colaborador para o que entendo ser A MORTE DA MEDICINA.
"Do fato de que o bebê deficiente é um membro da espécie Homo sapiens, deduz-se que ele deve ser tratado de forma diferente quando comparado a um porco ou a um cachorro. Fazer parte de uma espécie, simplesmente, não é moralmente relevante. Humanos que creditam valor superior à vida dos seres humanos, somente por serem membros de sua própria espécie, estão fazendo juízo de forma semelhante à dos brancos racistas que creditaram valor superior à vida dos brancos como eles, meramente por serem membros de sua própria raça... Se colocarmos de lado a obsoleta e errônea ideia de que toda vida humana é sagrada, nós podemos começar a olhar a vida humana como ela realmente é, podemos começar a olhar a qualidade de vida que cada ser humano possui ou pode alcançar." Peter Singer.

II - Fundações Judaico-Cristãs e Hipocráticas

"A Era Dourada da Medicina foi construída sobre as fundações éticas judaico-cristãs e sobre a tradição hipocrática. Ela floresceu por causa dessa fundação. Em qualquer lugar ou tempo no qual tal fundação tenha sido abandonada, a medicina cedeu espaço ao barbarismo e à superstição."
Hugh Flemming. POST-HIPPOCRATIC MEDICINE: THE PROBLEM AND THE SOLUTION. How the Christian Ethic has Influenced Health Care.
Abordo temas semelhantes no livro "A Morte da Medicina" (http://videeditorial.com.br/a-morte-da-medicina ) e, em breve, no livro "A Tradição da Medicina", a ser lançado pela Editora Monergismo, capitaneada pelo Felipe Sabino.

III - Tudo Começa Pequeno...

Sobre os crimes julgados pelo tribunal em Nuremberg:
"Seja quais forem as proporções que tais crimes finalmente tenham assumido, ficou evidente a todos aqueles que os investigaram que eles (os crimes) partiram de discretos inícios. No início, tudo não passava de uma sutil mudança de foco na atitude básica dos médicos. Começou com a atitude de aceitação - básica para a eutanásia - de que existia algo como uma vida indigna de ser vivida... A questão levantada por tal fato é se há sinais de alerta de que médicos americanos também tenham sido infectados pela filosofia utilitarista fria e hegelianista, e se traços precoces dessa infecção capaz de levar a medicina a desfechos similares aos dos nazistas podem ser detectados no pensamento médico."
Excerto do artigo: "Medical Science under Dictatorship" de Alexander Leo, MD. Citado em obra recomendada pelo grande Felipe Sabino: A Medicina Pós-Hipocrática, o Problema e a Solução, de Hugh Flemming.


quinta-feira, 5 de maio de 2016

ERÍSTICA E MEDICINA

A patrulha ideológica contra os nomes e os conhecimentos proibidos



Erística é a arte de discutir para vencer, por meios lícitos ou ilícitos.[1]

Recebi um ataque curioso após tornar público um texto anterior: O Médico em Busca da Filosofia. Digo ataque por se tratar de um clássico exemplo de erística, e não de um argumento válido.

Aproveito a ocasião para treinar um pouco de análise da erística, instrumento hoje indispensável para não ter o seu cérebro transformado em geleia.

Quando publiquei o texto, sabia muito bem do risco de despertar a raiva da militância e da patrulha ideológica, e o efeito surtido foi exatamente o desejado: obtive material para analisar o que se passa na cabeça do brasileiro, incluindo alguns médicos aparentemente favoráveis ao que critiquei no artigo.

O ataque começa com um clássico Ad Hominem[2] dirigido a uma escolha bibliográfica, objetivando desmerecer a análise do autor, isto é, fala-se de alguém e não de algo ou alguma situação:

Olavo de Carvalho não é exemplo pra médico algum, um desbocado e homofóbico de marca maior.
Não estou aqui para ser o advogado do mais que mal interpretado e atacado Olavo de Carvalho. Aliás, ele merece um advogado muito melhor do que um médico como eu; porém é trágico perceber que a discussão pública brasileira recorre sempre a este recurso tão limitado e inadequado.

Antonin-Dalmace Sertillanges, autor do livro A Vida Intelectual[3], antigamente recomendado normalmente aos calouros de medicina[4], preconizava que somente a verdade interessa, independente da boca que a profere. Dizer que alguém é isto ou aquilo nada depõe contra a verdade ou falsidade de seu conteúdo.

E, mesmo que o ataque fosse verdadeiro, seria algo tão absurdo quanto dizer que Oscar Wilde não merece ser lido ou citado por ter sido um pedófilo. Ou ninguém deveria escutar o Apóstolo Paulo por ter sido ele um assassino de Cristãos.

Mas, para a patrulha ideológica, o pior crime possível é discordar do pensamento único.

Além disso, a rotulação odiosa[5] utilizada – desbocado e homofóbico – também não é critério para se avaliar a obra filosófica de alguém.

O que se segue é uma curiosa variação de ataques erísticos no mínimo duvidosos em termos de pragmaticidade.

O patrulheiro ideológico começa com um apelo à ignorância do leitor. Isso mesmo, ele apela à ignorância do leitor e alude ao mesmo tempo à uma provável ignorância do autor (eu).

Creio que você formaria um juízo mais próximo da realidade se frequentasse congressos de formação médica e apresentasse trabalhos a pessoas dessa área de conhecimento, não para médicos neófitos em humanidades.
É deprimente discutir em termos de fiz isso ou aquilo, mas não deixa de ser uma resposta com fatos a um ataque indevido do tipo Ad Hominem contra alguém que mal se conhece:

(1) eu frequento diversos fóruns e congressos de educação médica, colaborando no COBEM com um grupo de estudo; 

(2) todas estas discussões aqui no Academia Médica já foram e são ainda travadas em ambientes acadêmicos e especializados dentro e fora do Brasil; 

(3) já apresentei diversos trabalhos a pesquisadores das Humanidades Médicas no Congresso Brasileiro de Bioética - no qual fui premiado como um dos melhores trabalhos de fundamentação filosófica da bioética -, no COBEM e no Congresso Internacional de humanidades Médicas.

Acredito que qualquer médico ou estudante de medicina está intelectualmente mais que capacitado para acompanhar a discussão em Bioética e Humanidades Médicas, embora talvez não esteja disposto a aceitar a insossa marmita ideológica de muitos dos nossos líderes.

E, para encerrar o ataque erístico, ocorre uma série de mudanças de assunto e espantalhos, isto é, de ataques do tipo mutatio controversiae, nos quais o colega patrulheiro tece acusações contra algo que não foi feito e ataca alguém que não existe.[6]

Contra preconceitos, o médico não cura a si mesmo apenas lendo textos, mas o faz principalmente em diálogo com os outros, num currículo mais humano, sim. Esse debate você já perdeu e os currículos devem e vão continuar mudando.
Em meu artigo, o ataque foi direcionado à elite burocrática que nada ou pouco entende do que deseja legislar, e a uma hoste de ideólogos e doutrinadores criminosos que brincam com o cérebro de jovens médicos nas escolas.

Primeiro ponto: ninguém atacou módulos ou disciplinas que ensinam o diálogo com o outro. Na verdade, eu pessoalmente introduzi em um dos módulos onde leciono, a atividade de conversar com o paciente precocemente.

Segundo ponto: este não é um debate, e o empreendimento da educação médica, especialmente em Humanidades Médicas, não pode ser reduzido a uma estúpida luta política, na qual se perde ou ganha. A politização exagerada de nossa cultura é uma das fontes da tragédia brasileira.

Terceiro ponto: Ninguém deseja congelar a reforma curricular. Eu mesmo implementei uma reforma e encabecei outra, atualmente também implementada! O currículo com certeza deverá seguir em mudança, pois a realidade é dinâmica. Obviedade das obviedades.

No fim, o exemplo utilizado aqui repete uma fórmula usada à exaustão no Brasil: cria-se um espantalho, uma falsa imagem de alguém que não se gosta pelas mais diversas razões, e ao invés de mirar o ataque, a objeção ou a crítica na pessoa ou nos fatos reais, ataca-se a falsa imagem, de regra construída na forma de esquema simplificado e tosco.

Que isso ocorra no Brasil de forma difusa não é surpresa. Num país onde fração expressiva da classe universitária – professores e alunos – é tida como analfabeta em termos funcionais, não se pode esperar mais do que isso. Mas que isso ocorra vindo de colegas médicos, segundo alguns a “nata” da educação, produtos de uma escola rigorosa e extremamente exigente, é assustador.

Se as Humanidades Médicas podem ajudar em algo, aqui temos um exemplo. Com os estudos das Humanidades aprende-se a gramática, a oratória e a lógica e, portanto, aprende-se como argumentar e viver em sociedade de forma civilizada.

E para o desgosto da patrulha ideológica, deixo mais uma recomendação ligada ao injustamente odiado e mais que necessário Olavo de Carvalho: Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão, escrito por Arthur Schopenhauer e comentado por adivinhem quem?



Por fim, uma dica complementar que trata das formas de manipulação psicológica utilizadas comumente em nossa sociedade: Maquiavel Pedagogo, de Pascal Bernardin.





Prof. Dr. Hélio Angotti Neto é Coordenador do Curso de Medicina do UNESC, Diretor da Mirabilia Medicinæ (Revista internacional em Humanidades Médicas) e criador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina (SEFAM). Membro da Comissão de Ensino Médico do CRM-ES, do Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC e do Center for Bioethics and Human Dignity.






[1] SCHOPENHAUER, Arthur. Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão, em 38 Estratagemas (Dialética Erística). Introdução, Notas e Comentários – Olavo de Carvalho. Rio de Janeiro: Topbooks, 2003, p. 95.
[2] SCHOPENHAUER, Arthur. Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão, em 38 Estratagemas (Dialética Erística). Introdução, Notas e Comentários – Olavo de Carvalho. Rio de Janeiro: Topbooks, 2003, p. 148. Lembro que há situações nas quais atacar uma pessoa é válido, mas não configura um apelo Ad Hominem, e sim, um argumentum in contrarium. O exemplo clássico é a tese marxista de que a classe proletária liderará a revolução, sendo ele mesmo, um líder revolucionário, burguês. A existência factual de Karl Marx desmente sua própria tese!
[3] SERTILLANGES, Antonin-Dalmace. A Vida Intelectual: Seu Espírito, Suas Condições, Seus Métodos. São Paulo: É Realizações, 2010.
[4] BRAGA, Homero. Um momento, Calouro! Aula inaugural proferida na solenidade de abertura dos Cursos da Faculdade de Medicina do Paraná, a 1º de março de 1947. Homero Braga foi Catedrático de Clínica Pediátrica Médica e Higiene Infantil da Faculdade de Medicina da Universidade do Paraná.
[5] SCHOPENHAUER, Arthur. Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão, em 38 Estratagemas (Dialética Erística). Introdução, Notas e Comentários – Olavo de Carvalho. Rio de Janeiro: Topbooks, 2003, p. 174.
[6] SCHOPENHAUER, Arthur. Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão, em 38 Estratagemas (Dialética Erística). Introdução, Notas e Comentários – Olavo de Carvalho. Rio de Janeiro: Topbooks, 2003, p. 150.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

CURSO CIÊNCIA, CULTURA E SAÚDE

Curso disponível no portal Katedra: http://katedra.com.br/?product=sefam-modulo-1-ciencia-cultura-e-saude 


ASCENSÃO E QUEDA DA MEDICINA MODERNA

THE RISE AND FALL OF MODERN MEDICINE

Uma aula baseada no livre The Rise and Fall of Modern Medicine, de James Le Fanu.
Segunda-Feira, no curso online oferecido pelo portal Katedra em http://katedra.com.br/?product=sefam-modulo-1-ciencia-cultura-e-saude
Quarta-Feira, 27 de abril, na Biblioteca do Centro Universitário do Espírito Santo.
Temas: Vitórias e avanços da medicina moderna. A ascensão da Medicina Moderna. O fim do otimismo e a estagnação. A Queda: descrédito e erros da medicina moderna. Consequências da queda.

sábado, 2 de abril de 2016

COMPREENDER A MORTE PARA VIVER A VIDA

Compreender a Morte para Viver a Vida


Nós não gostamos de falar sobre a morte. Gostamos ainda menos de falar acerca da morte de nossos amigos e familiares e abominamos completamente a tomada de consciência de nossa própria finitude.

Nossa cultura contemporânea nos estimula a pensar e agir como se fôssemos imortais neste mundo, eternamente na busca de novos prazeres, negando frustrações e limitações.

Numa aula sobre tanatologia para ingressantes no Curso de Medicina, escutei deboches quando perguntei sobre como as pessoas gostariam de morrer. É uma postura defensiva clássica - debochar daquilo que se teme – que pode nos fazer perder tempo em reconhecer as questões realmente preciosas da vida. Quem debochou foram alunos novos; muitos ainda não perderam seus entes mais amados e, talvez, nenhum deles ainda tenha visto bem de perto o dia de seu fim. E sem a clara percepção de nossa finitude, como valorizar adequadamente nossos momentos de vida?

Em uma viagem recente à Universidade de Baylor, em Waco no Texas, para palestrar num evento de Humanidades Médicas, recebi preciosas dicas de leitura do professor William Hoy. Um autor recomendado com especial entusiasmo foi o Médico Paliativista Ira Byock, autor do livro “The Four Things That Matter Most: A Book About Living”.



No livro, Ira Byock utiliza vários exemplos daquele que é o grande momento de perda, dor e fragilidade – a morte – para ensinar acerca de como viver bem. Ele trata das quatro coisas mais valiosas para se dizer quando nos despedimos de alguém[1], e também nos alerta sobre o fato de que não precisamos esperar o momento de dizer adeus para falar sobre isso.



O valor de se acumular narrativas, advindas da realidade vivida ou da literatura de boa qualidade, é inestimável para a formação moral e existencial do médico. E Ira Byock se encaixa entre os vários médicos e escritores que produzem obras realmente marcantes sobre a vida e a morte humana.

São histórias verdadeiras de grande sofrimento e de grande superação.

Outros livros que trazem narrativas, fictícias ou reais, preciosas para a compreensão do fenômeno da vida humana são:

- Sinto Muito, de Nuno Lobo Antunes;

- A Morte de Ivan Illich, de Liev Tolstói;

- Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl;

- Mortais, de Atul Gawande.

A única ressalva é que este último, mais aclamado, percorre uma série de relatos de pessoas que enfrentaram o fim de suas vidas com coragem e dignidade, auxiliadas por médicos que procuraram dar a elas o máximo de conforto e respeito, e em seus últimos capítulos fornece uma estranha, descontextualizada e incoerente defesa do suicídio assistido e da eutanásia.

Por outro lado, o livro de Byock, desconhecido pela maioria dos brasileiros, mantém a coerência de um médico que respeita e valoriza a vida até seus últimos momentos, e que vai além da busca pelo alívio físico para trabalhar o próprio sentido da vida nos mais tensos momentos existenciais, fornecendo ao paciente a chance de alcançar algo que vai além da aceitação da própria finitude: a sublimação.

Para Saber Mais:

- Breve comentário sobre as Quatro Coisas:

- Conversa sobre as Quatro Coisas que mais importam:

 Prof. Dr. Hélio Angotti Neto é Coordenador do Curso de Medicina do UNESC, Diretor da Mirabilia Medicinæ (Revista internacional em Humanidades Médicas), Membro da Comissão de Ensino Médico do CRM-ES, Médico Oftalmologista pela Secretaria de Saúde do ES, Membro do Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC e criador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina (SEFAM).








[1] As quatro coisas importantes para se dizer são: Perdoe-me, Te Desculpo, Obrigado e Te Amo. Quem viveu o mínimo para tornar-se adulto provavelmente gostaria de ter dito algo parecido àqueles que se foram. BYOCK, Ira. The Four Things That Matter Most: A Book About Living. New York: ATRIA Books, 2014.

segunda-feira, 28 de março de 2016

BIOÉTICA DA ELITE "ESCLARECIDA"

BIOÉTICA DA "ELITE ESCLARECIDA"

BIOÉTICA PARA O POVO, PELO POVO OU SOBRE O POVO? REFLEXÕES ACERCA DA BIOÉTICA COMO INSTRUMENTO DE ENGENHARIA SOCIAL


Em recente artigo publicado no Academia Médica, tratei acerca do aspecto de poder cultural ligado à Bioética. Neste, analiso algumas consequências e exemplos dessa realidade.

O discurso padrão nos informa que os jovens das décadas de 60 e 70, fomentados pela ideologia trazida pela famigerada Escola de Frankfurt, se ergueram contra as convenções, contra as tradições e contra o elitismo.

Nesse contexto surgiu a Bioética, justificada pelo anseio de democratizar o debate em saúde.

Segundo reza a lenda corrente na academia, deveríamos ter um debate de amplo acesso, diferente do debate enclausurado, elitista e opressor dos médicos, trancafiados em suas torres de marfim com seus códigos exclusivistas e seu Juramento antiquado e ineficaz para nos proteger de abusos horrendos.

O livro de Bioética mais lido no mundo inteiro, por exemplo, já começa anunciado placidamente, inexoravelmente, a derrota da moralidade hipocrática da medicina e a necessidade incontornável da adoção da nova Bioética. É o famigerado Mantra de Georgetown.[1]

Em todo esse cenário, parcialmente verdadeiro e, portanto, verossímil, há diversas mistificações e torções exageradas da realidade.

Não duvido que na raiz da Bioética estava o desejo saudável de transdisciplinaridade. Acredito sinceramente que os melhores bioeticistas ainda anseiam pelo contato com outras mentes e corações apaixonados pela vida humana, e querem realmente abrir o debate sincero em busca do melhor. Mas ao mesmo tempo vejo diversos estudiosos da Bioética que estão claramente dispostos a utilizá-la como arma de combate cultural, como instrumento de engenharia social e até mesmo de opressão contra discordantes.[2]

Quero convidar o leitor à reflexão acerca de quais usos tem sido atribuídos à Bioética em nossos dias.

Embora os médicos sejam acusados de paternalistas e elitistas, não é totalmente certo dizer que a ética denominada profissional é inadequada por não representar a sociedade. Médicos, enfermeiros, psicólogos e fisioterapeutas, entre tantos outros, são membros da sociedade e representam-na, acreditados como profissionais, em seus grêmios.

Mas é óbvio que, ao mesmo tempo, há que se buscar uma harmonia saudável entre os valores gerais da sociedade e os valores específicos de seus habitantes especializados em determinada área, neste caso a da saúde. É no mínimo suspeito ser instaurada uma medicina abortista num país cristão que é maciçamente contra o aborto, como está para acontecer no Brasil.

De certa forma, o debate democratizou, mas talvez não da forma que os mais otimistas esperavam.

Ao invés da participação da sociedade brasileira, muitas vezes observo a ingerência externa e a participação de agências e instituições internacionais totalmente contrárias aos valores brasileiros.[3]

É inegável que, hoje, profissionais de diversos ramos discutem assuntos arcanos onde antes médicos e enfermeiros dominavam. Porém, os assuntos ainda permanecem arcanos, dominados por “magos” diferentes.

Os temas especializados da Bioética ainda habitam o interior de suas torres de marfim e repetidamente revelam estar muito longe dos valores do público e de seu escrutínio.

Alguns bioeticistas, filósofos e formuladores de políticas públicas parecem repudiar o contato com a “plebe”. Plebe, esta, repleta daquilo que a Organização das Nações Unidas, por meio da UNESCO, chama de preconceitos familiares, isto é, religião e tradições herdadas.[4]

Descobri que a Bioética não era tão aberta quanto eu imaginava há algum tempo, quando encontrei o artigo que defendia chamar o assassinato de bebês pelo nome de Aborto Pós-Nascimento. Deparei-me com o artigo quase que aleatoriamente, ao passear pelo conteúdo do Journal of Medical Ethics. Levei-o ao Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina para discutir com os alunos e a reação foi quase que unânime: todos estavam chocados em saber como algo tão monstruoso quanto o homicídio infantil fora discutido de forma tão corriqueira, tão vã, no meio acadêmico especializado da Bioética.[5]

A reação na mídia também veio. Pessoas liam horrorizadas o que respeitáveis senhores e senhoras discutiam de cima de suas cátedras, com palavras elegantes e conceitos rigorosos. Era uma obscenidade, mas era uma obscenidade elegante e lógica, entenda bem.

Do outro lado, editores e pesquisadores reclamaram da violência verbal daqueles “populares” que leram o artigo e responderam horrorizados à proposta ali contida: matar bebês.

Eram os terríveis “reacionários incultos” que se erguiam escandalizados para censurar o debate iluminado dos acadêmicos.

De um lado havia o choque à sensibilidade moral de milhões de pessoas que mal podiam acreditar no que se propagava num respeitado periódico de ética médica e que reagiam com acusações verbais altamente agressivas; porém, do outro, estava uma elegante e erudita elite universitária que propunha, com termos mui chiques e técnicos – é tudo lógica, afinal – o extermínio de vidas humanas negando-lhes a condição de pessoa digna.

E isso chamou minha atenção.

Vive-se uma guerra cultural, isto não é novidade.

Mas o curioso é que de um lado está a elite política, a elite empresarial e a elite midiática com suas tropas de choque: artistas, professores, repórteres e cantores. Também desse lado está boa parte da elite universitária mundial. Uma privilegiada minoria, sem dúvida. Seus valores, de regra, são justamente o contrário do que o povo brasileiro maciçamente defende.

O povo é contra o aborto? Reúna atores e cantores para convencer a turba acéfala – ou assim devem achar ao querer manipular a massa de forma tão tosca – de que matar fetos e bebês é a coisa mais linda e progressista do universo.
O povo é religioso? Contrate milhares de professores para ensiná-los que esse negócio de religião é “coisa do capeta” ou, na melhor das hipóteses, é só uma superstição boba de gente burra.

O povo gosta de uma vida pacífica, ordeira e segura? Convença-os de que isso é coisa de burguês acomodado, e que o bom mesmo é exaltar a marginalidade, como Herbert Marcuse já ensinou quando percebeu que os proletários estavam enriquecendo e virando burgueses.

A atual elite que se diz progressista e seus aliados complacentes, interessados mesmo é na grana dos pagadores de impostos, estão aí para ensinar os jovens a rebelarem-se contra os valores de suas famílias, enquanto os domesticam e os preparam a entregar toda sua moral e sua cosmovisão aos iluminados que nunca os viram, ou, se os viram, pouco se importam com seu destino.

A Bioética, nesse contexto de elite praticante da ardilosa engenharia social, tocando ao som dos conselhos maquiavélicos de Gramsci, é mais uma arma do que um canal pelo qual a voz do povo pode se manifestar.

Se determinada escola de bioética convence as pessoas de certos interesses, de certas necessidades de mudanças sociais, a bioética é boa, é excelente, é maravilhosa. Se não, o povo é que é retrógrado e precisa de mais doses de bioética, intratecais, quem sabe?

Mas o que defendo é o seguinte: o povo deve ter acesso à ética médica e à bioética, e estas devem respeitar os valores do povo que as suporta, ao invés de ansiar por uma tosca e desrespeitosa engenharia social. Defender isso não é desestimular o debate, pelo contrário, é respeitar a bioética que respeita os valores do povo e colocar todos os conflitos às claras. O que vejo muitas vezes é a supressão daqueles que discordam de determinada elite.

Só para citar um breve exemplo, fui testemunha pessoal do bloqueio autoritário da participação de um filósofo num evento de Direitos Humanos por causa de seu espectro político de direita. Veja bem, debate só parece ser bom para essas mentes tacanhas quando os dois lados concordam.

E cabe lembrar, aqui no fim, que há muitas bioéticas, e várias respeitam os valores do povo brasileiro sim.

O que não suporto é a bioética ideológica da torre de marfim (ou de rubi, no caso do Brasil), que ao chocar o cidadão comum com seu sangrento pensamento de vanguarda, ataca a moralidade alheia com a pose de iluminada ditadora de parâmetros civilizacionais e guia confiável do povo, suprimindo outras visões e utilizando rótulos odiosos.

Não posso concordar com a utilização de jovens médicos como bucha de canhão e massa de manobra para o ataque aos valores da sociedade no contexto de guerra cultural em que vivemos.

Podem discordar dos valores que eu defendo, e é claro que muitos discordam. Mas que o façam conscientes de seus atos e de suas influências ideológicas, em respeito à própria integridade e à sanidade, e que não tenham a ousadia irresponsável de silenciar um dos lados e chamar isso de debate.



[1] BEAUCHAMP, Tom L.; CHILDRESS, James F. Principles of Biomedical Ethics, Seventh Edition. New York: Oxford University Press, 2013, p. 1.

[2] Exemplos bem conhecidos são os dos bioeticistas internacionalmente famosos, como Giani Vattimo e Julian Savulescu que defendem ser obrigatório para um médico realizar o aborto, independente de seus valores pessoais, e Udo Schüklenk, que escreve contra a objeção de consciência de médicos canadenses que não desejam praticar a eutanásia.

[3] A Organização Mundial da Saúde, claramente favorável ao projeto abortista em países “subdesenvolvidos” ou “em desenvolvimento”, distribui material educativo e pressiona diversos países com sua agenda ideológica específica.

[4] Como denunciado por Pascal Bernardin em seu livro Maquiavel Pedagogo. BERNARDIN, Pascal. Maquiavel Pedagogo. Campinas: Vide Editorial, 2010.

[5] GIUBILINI, Alberto; MINERVA, Francesca. After-birth abortion: why should the baby live? Journal of Medical Ethics, (2012). doi:10.1136/medethics-2011-100411 Internet, http://jme.bmj.com/content/early/2012/03/01/medethics-2011-100411.full.pdf+html