segunda-feira, 31 de outubro de 2016

ARTIGO ÉTICO E TRANSPARENTE

SEU TRABALHO É ÉTICO E TRANSPARENTE?



Um trabalho publicado na PLOS Biology em janeiro deste ano demonstra que uma irrisória minoria dos trabalhos publicados na área de biomédicas podem ser considerados realmente transparentes*.

Embora alguns aspectos estejam melhorando, como a citação de conflitos de interesse, em  uma amostra aleatória de 441 artigos, somente um foi considerado realmente completo e transparente do ponto de vista ético.

Algumas das medidas que caracterizam um trabalho adequado incluem:

- Disponibilização do Protocolo de Pesquisa em sua integralidade;

- Disponibilização da informação bruta (não trabalhada e recortada) colhida para redação de resultados e discussão do trabalho;

- Explicitação acerca de dados relativos a patrocínio da pesquisa, incluindo valores e origens das verbas;

- Declaração explícita se o trabalho contém novidade no campo de pesquisa ou se replica trabalhos já realizados;

- Explicitação de conflitos de interesse;

- Citação de trabalhos prévios realmente utilizados na elaboração da pesquisa;

- Número de aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa.

* Fonte: IQBAL, Shareen A; WALLACH, Joshua D.; KHOURY, Muin J.; SCHULLY,  Sheri D.; IOANNIDIS, John P. A. Reproducible Research Practices and Transparency across the Biomedical Literature. PLOS Biology, January 4, 2016, p. 1-13.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Para Aprender Medicina, dicas de dois milênios

Dicas para aprender Medicina...


"Quem desejar adquirir um conhecimento adequado da Medicina deve ter a posse das seguintes dádivas: uma disposição natural, instrução, uma inclinação favorável ao estudo, orientação desde cedo, amor ao trabalho e tempo ocioso. Antes de qualquer outra coisa, é necessário um talento natural, pois, quando a Natureza leva ao que é mais excelente, a instrução na Arte acontece. A instrução deve ser apropriada pelo estudante por meio da reflexão, ao tornar-se um pupilo o mais cedo possível num local adaptado ao ensino. Também deve trazer consigo um amor ao trabalho e perseverança, de tal forma que a instrução que se enraíza traga frutos dignos e abundantes."

Hipócrates, A Lei.



"He who is going truly to acquire an understanding of medicine must enjoy natural ability, teaching, a suitable place, instruction from childhood, diligence, and time. Now first of all natural ability is necessary, for if nature be in opposition everything is in vain. But when nature points the way to what is best, then comes the teaching of the art. This must be acquired intelligently by one who from a child has been instructed in a place naturally suitable for learning. Moreover he must apply diligence for a long period, in order that learning, becoming second nature, may reap a fine and abundant harvest."

"Χρὴ γάρ, ὅστις μέλλει ἰητρικῆς σύνεσιν ἀτρεκέως ἁρμόζεσθαι, τῶνδέ μιν ἐπήβολον γενέσθαι· φύσιος· διδασκαλίης· τόπου εὐφυέος· παιδομαθίης· φιλοπονίης· χρόνου. πρῶτον μὲν οὖν πάντων δεῖ φύσιος· φύσιος γὰρ ἀντιπρησσούσης κενεὰ πάντα· φύσιος δὲ ἐς τὸ ἄριστον ὁδηγεούσης, διδασκαλίη τέχνης γίνεται· ἣν μετὰ φρονήσιος δεῖ περιποιήσασθαι, παιδομαθέα γενόμενον ἐν τόπῳ ὁκοῖος εὐφυὴς πρὸς μάθησιν ἔσται· ἔτι δὲ φιλοπονίην προσενέγκασθαι ἐς χρόνον πολύν, ὅκως ἡ μάθησις ἐμφυσιωθεῖσα δεξιῶς τε καὶ εὐαλδέως τοὺς καρποὺς ἐξενέγκηται."

HippocratesPrognostic. Regimen in Acute Diseases. The Sacred Disease. The Art. Breaths. Law. Decorum. Physician (Ch. 1). Dentition. Translated by W. H. S. JonesLoeb Classical Library 148. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1923, p. 262-265.


terça-feira, 25 de outubro de 2016

FERRAMENTAS ARISTOTÉLICAS PARA MÉDICOS

FERRAMENTAS ARISTOTÉLICAS PARA A MEDICINA


Dia 08 de novembro de 2016: atividade prática no Hospital Maternidade São José onde utilizaremos uma adaptação da entrevista de História da Pessoa da McGill University. às 18:00.

Dia 22 de novembro, no auditório 124, às 18:00, ocorrerá a palestra sobre "O Dia da Entrevista" no processo de seleção para a residência médica.

E, finalmente, no dia 29 de novembro, às 17:00 na biblioteca do UNESC, teremos uma imersão em Aristóteles. Trataremos dos usos médicos de ferramentas e conceitos filosóficos como: 

- Matéria e Forma;
- Ato e Potência;
- Substância e Acidentes
- Essência;
- 4 Causas;
- Leis da Lógica;
- Retórica, Oratória e os 4 Discursos;
- As esferas da atuação humana: Tekne, Episteme e Praxis.

Em breve, prepararemos as atividades para o próximo semestre, no qual continuaremos as entrevistas e faremos o módulo "Bioética em Questão".
Os grupos de trabalho começaram a definir suas pesquisas, incluindo: Humanização Hospitalar, Aborto e Saúde Materna, Educação Médica e Humanidades Médicas etc. Mãos à obra!

Radicalismo Reativo: Sir Walter Raleigh

Lendo o livro "A Ciência de Deus", do inglês Allister McGrath, encontro uma citação de Sir Walter Raleigh que explica muitíssimo bem o choque entre o racionalismo iluminista secularizante exagerado e o pós-modernismo irracionalista reativo:

"É da natureza humana, depois de fugir de um extremo que tiveram de suportar longamente, correr em direção ao outro extremo, esquecendo-se que a virtude sempre reside no meio."

MCGRATH, Allister. A Ciência de Deus: Uma Introdução à Teologia Científica. Coleção Ciência e Fé Cristã. Viçosa, MG: Ultimato, 2016, p. 53.

sábado, 22 de outubro de 2016

O SEFAM E A TRILHA DA FILOSOFIA

O SEFAM E A TRILHA DA FILOSOFIA


Começo a leitura de "O que é Filosofia" de José Ortega y Gasset, traduzido por Felipe Denardi e publicado pela Vide Editorial. Percebo na versão em português o estilo marcante da escrita de Ortega, assim como permanece nessa obra o convite à reflexão característica de outras leituras, tais como "A Rebelião das Massas".
Já no primeiro capítulo noto pontos de contato que aprofundam a reflexão acerca do que se procura obter no Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina:
"(...) a meditação sobre um tema qualquer, quando é positiva e autêntica, inevitavelmente aparta o meditador da opinião recebida do ambiente, da que, com razões mais graves do que vocês supõem agora, merece ser chamada de 'opinião pública' ou 'vulgaridade'. Todo esforço intelectual que o seja a rigor nos aparta, solitários, da costa comum e, por rotas recônditas que nosso esforço descobre precisamente, nos conduz a lugares remotos, colocando-nos sobre pensamentos insólitos."(1)
A ousadia de iniciar um pensamento independente levou o SEFAM a buscar as raízes da ética e da medicina nos originais do passado e a repensar as críticas destrutivas que hoje são feitas na Academia contra o legado hipocrático e o médico tradicional por vozes que se destacam mundialmente no campo da bioética. Antes de "tomar a caneta" e escrever a primeira página, foram mais de dez anos de estudo, reflexão e de constatações - às vezes surpreendentes - de como tantas coisas deixaram de ser ditas com precisão e verdade.

Além disso, como diria o Filósofo Olavo de Carvalho, estudar e aprender é adquirir consciência de algo que outro não sabe, um elemento que potencializa muitas vezes a solidão e exige vigor extra para caminhar cada vez mais os caminhos poucos trilhados e distantes. Fato que não está isento de certos riscos e desvios, obviamente.
"Os grandes problemas filosóficos requerem uma tática similar à que os hebreus empregaram para tomar Jericó e suas rosas íntimas: sem ataque direto, circulando em torno lentamente, apertando a curva cada vez mais e mantendo vivo no ar o som de trombetas dramáticas. No cerco das idéias, a melodia dramática consiste em manter sempre desperta a consciência dos problemas, que são o drama ideal."(2)
No estudo das Humanidades Médicas e da Bioética, examinei problemas e fundamentos durante anos, às vezes perplexo, às vezes decidido e focalizado, sempre aberto à descoberta, em posse daquele estado de dúvida que difere em muito do ceticismo vulgar. Muitas conclusões foram trocadas, e muitos conhecimentos foram ampliados. Novamente cito Olavo de Carvalho, ao afirmar que o intelectual precisa se acostumar com o estado da dúvida, precisa de ter fibra para aguentar as diversas tensões que ameaçam cindir sua opinião - e tantas vezes realmente a cindem.
Por fim, no estudo das Humanidades Médicas, busquei a compreensão dos antigos, de quem muitos contemporâneos tanto falam mal. Descobri que seria impossível ser empático com um paciente hoje se não somos capazes de empatia verdadeira com um distante "amigo" do passado. Essa foi uma lição aprendida com um grande amigo e mestre: Ricardo da Costa.

"O pressuposto mínimo da história é que o sujeito de quem ela fala possa ser entendido. No entanto, não se pode entender senão o que possua alguma dimensão de verdade. Um erro absoluto não nos pareceria um erro, porque nem sequer o entenderíamos. O pressuposto profundo da história é, portanto, o completo oposto de um relativismo radical. Quando vai estudar o homem primitivo, supõe que sua cultura tenha sentido a verdade e, se tinha, continua tendo. Como, se à primeira vista, nos parece tão absurdo tudo o que aquelas criaturas fazem ou pensam? A história é exatamente a segunda vista, que consegue encontrar a razão da aparente sem-razão.
De acordo com isso, a história não é propriamente história, não cumpre sua missão constitutiva se não chega a entender o homem de uma época, seja ela qual for, incluindo a mais primitiva. Mas não se pode entendê-lo se o próprio homem dessa época não leva uma vida com sentido, portanto, se o que pensa e faz não tem uma estrutura racional. Desse modo a história se compromete a justificar todos os tempos, e se torna o contrário do que de início ameaçava ser: ao nos mostrar a variabilidade das opiniões humanas, parece nos condenar ao relativismo; mas como dá um sentido plenário a cada posição relativa do homem e descobre a verdade eterna que cada tempo viveu, supera radicalmente o que há de incompatível no relativismo com a fé num destino trans-relativo e como que eterno no homem."(3)
Cito também alguns trechos do livro "O que é Conservadorismo" de Roger Scruton, que guardam notáveis paralelos com os objetivos do SEFAM e demonstram duas características básicas:

"Da mesma forma, as pessoas vão obter educação somente se elas a desejarem por seu próprio fim, mas conseguirão bem mais do que isso. Elas vão adquirir a habilidade de se comunicar, de persuadir, de atrair e de dominar. Em qualquer arranjo social, tais capacidades serão vantagens, mas a educação nunca pode ser buscada somente como meios para elas, mesmo se são sua consequência natural." (4)
A segunda é a percepção de que o SEFAM é sim um empreendimento elitista no sentido intelectual e moral, ou pelo menos almeja ser, com sinceridade. E oferece uma oportunidade singular e bem desigual para os que buscam as Humanidades Médicas, pois, como diria Roger Scruton, de forma irônica:
"A menos que tomemos as crianças de suas mães e cuidemos delas em granjas, a 'desigualdade de oportunidade' não poderia ser erradicada. E mesmo assim sua total total erradicação dependeria da remoção de uma parte do conhecimento natural da criança, digamos, sujeitando seu crânio a uma série de golpes repetitivos de martelo ou removendo porções de seu cérebro." (5)
Sem dúvida nenhuma o objetivo do SEFAM é que os participantes sejam o mais diferente possível do meio que os circunda, e ainda mais diferentes entre si, partindo de um legado cultural comum que possibilitará alçar maiores vôos independentes. É uma oportunidade extremamente desigual, felizmente, e jamais poderia ser imposta.

Hélio Angotti Neto

(1) ORTEGA Y GASSET, José. O que é Filosofia? Campinas: VIDE Editorial, 2016, p. 15.
(2) Ibidem, p. 17.
(3) Ibidem, p. 26.
(4) SCRUTON, Roger. O Que É Conservadorismo. São Paulo: É Realizações, 2015.
(5) Ibidem.



terça-feira, 18 de outubro de 2016

A POLÍTICA TRANSFORMADA EM RELIGIÃO

Nossa civilização, em termos de política, foi definida por uma simples frase capaz de desmontar um Império e fazer renascer uma nova visão de mundo: a César o que é de César; a Deus o que é de Deus.
A política perdia seu caráter divino e passava a tratar da organização das coisas mais mundanas, ficando o espírito livre para buscar no transcendente a orientação moral que poderia preencher o vazio no coração.

Hoje, observa-se o movimento contrário!


A Política aos poucos retoma o aspecto totalitário de um passado quase esquecido e ambiciona tornar-se o supremo juiz de toda a humanidade. O Estado tem suas procissões, seus hinos, seus ditames e seu politicamente correto, essa máquina de supressão da inteligência e da liberdade humana.

A secularização progressiva inevitavelmente empurra a todos para tal estado de coisas, no qual o projeto socrático de filosofia é destruído para que todos se submetam à lei da maioria, imanentizada. No projeto socrático a verdade encontra-se aninhada no âmago do indivíduo, em seu próprio coração, onde tem acesso às Leis ali gravadas capazes de trazer ordem à sociedade. Esse projeto foi universalizado por Cristo em um sentido ainda muito mais intenso, esse projeto encontra-se acossado.

O livro de Nelson Lehmann da Silva, A Religião Civil do Estado Moderno, lançado pela VIDE Editorial, trata justamente disso. Uma leitura concisa, erudita, agradável e extremamente necessária para estes nossos dias nos quais corações são lançados ao sangrento altar do deus Estado. 



domingo, 16 de outubro de 2016

MEMÓRIAS DO SEFAM: NARRANDO VIDAS.

Lembro de um dia há alguns anos, ainda no primeiro ciclo bianual do SEFAM, no qual dois alunos vieram a convite numa de nossas reuniões. Foram chamados por uma veterana no programa.

Estávamos a discutir técnicas de narração e estilos literários, com o objetivo de que cada aluno fosse capaz de relatar uma experiência sua com um paciente. Os alunos que vieram sem o conhecimento prévio estranharam muito a atividade. Eu também estranharia. era aula de redação ou aula de medicina?

Mas os participantes de longa data foram capazes de escrever excelentes e emocionantes narrativas.

Algo que descobrimos durante o curso é a capacidade de catarse que a escrita ou a transmissão oral possuem. Conta-se uma história, vive-se novamente a experiência original com novas reflexões e amplifica-se as possibilidades intelectuais e emocionais geradas pela situação clínica inicial.

A escrita médica na forma de narrativa e a leitura de várias narrativas são poderosos instrumentos de enriquecimento do imaginário e de formação humanística. Vejo o vídeo "Por que Médicos Escrevem: encontrando humanidade na medicina" e reforço minha impressão inicial.



Todos deveríamos ter um diário de bordo, com histórias de nossas vidas e da vida de nossos pacientes.

Confira o documentário: https://www.kbprods.com/portfolio/why-doctors-write/

BIOÉTICA, DE ROBERT VEATCH

Em seu livro introdutório ao estudo da Bioética, Robert Veatch escreve com muita didática acerca dos principais temas dessa área cada vez mais complexa e ampla.

Considero o primeiro capítulo o melhor da obra. Veatch lida com o significado de termos centrais ao esforço intelectual no campo da Bioética e apresenta de forma sintética e muito clara um esquema de compreensão do discurso, muito próximo inclusive da teoria dos quatro discursos aristotélicos.

No nível menos lógico e mais poético encontra-se a aproximação casuísta de um problema bioético. A seguir, Veatch fala sobre Regras e Direitos presentes em Códigos de Ética profissional que auxiliam no esforço de obter parâmetros mais confiáveis de conduta em situações problemáticas, o que nos remete ao uso da retórica. A Ética normativa e a Metaética corresponderiam, respectivamente, aos discursos dialético e lógico.

A partir do segundo capítulo, porém, começa uma longa sequência de afirmações anti-hipocráticas. O Juramento de Hipócrates é interpretado de forma quase caricatural, transformado num grande espantalho.

Para exemplificar, reproduzo abaixo um fragmento do livro entre os muitos que radicalizam a obra hipocrática conduzindo-a por meio de falsas formulações do tipo reductio ad absurdum:

"O Juramento de hipócrates nos diz que o médico deve fazer o bem para o paciente de acordo com sua capacidade e seu julgamento. Assim, o Juramento está dizendo ao Dr. Westerman (um médico que deseja fazer histerectomia em sua paciente contra evidências por estar em dúvida) que, mesmo que seus colegas discordem de seu julgamento crítico e tenham diversos estudos empíricos e dados para dar suporte a sua posição, é seu dever moral fazer o que ele acha ser benéfico." (VEATCH, Robert M. Bioética. São Paulo: Pearson, 2014, p. 54-55)
Para quem lê este trecho desavisado, o médico "hipocrático" parece ser definido pelo impulso de suas decisões arbitrárias e arrogantes. Ao buscar os originais hipocráticos, qualquer um pode observar uma ampla série de escritos que alertam ao médico acerca da necessidade de estudar e conhecer as teorias, adquirir larga experiência e atuar com o auxílio de colegas médicos e leigos. Causa estranheza a intensa ojeriza destinada ao hipocratismo médico.

Restam algumas perguntas sobre o por quê de tanta rixa. Será o descrédito intencional do antigo com o intuito de obter credibilidade para a Boética ainda jovem? Será o repúdio indireto por princípios radicais e intensamente morais como a sacralidade da vida humana?

Imagino Hipócrates se vivesse nos dias de hoje e lesse o que escrevem a respeito de sua tradição profissional. Provavelmente ele não reconheceria nas críticas aquilo que buscou transmitir junto a seus descendentes na família de Esculápio.

Em termos gerais, o autor faz excelentes observações sobre os principais dilemas, abordando assuntos polêmicos de diversas perspectivas. É uma leitura agradável e informativa, com exceção das menções inadequadas à tradição hipocrática.







segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Profissão Médica (James Drane)

James Drane foi um dos precursores da Bioética na América Latina. 

Em seu capítulo, escrito para o livro "Bioética na Íbero-América: Histórias e Perspectivas", organizado por Leo Pessini e Christian de Paul de Barchifontaine - ambos famosos bioeticistas no Brasil e no mundo -, ele identifica com muita propriedade o problema gerado pela abandono da tradição hipocrática e pelo abandono da noção de profissionalismo entre os médicos.



Na tradição hipocrática e em sua evolução durante os tempos de cristianismo está o coração da verdadeira medicina enquanto profissão, isto é, instituição que professor valores publicamente. Drane enumera algumas características básicas de uma profissão:

1. Fornecem serviços públicos essenciais para o bem dos outros.

2. Considera uma vocação, um dom, e não somente um trabalho, aspirar e prestar um serviço público profissional.

3. Um prolongado treinamento universitário especializado é um pré-requisito para entrar na profissão. A educação universitária envolve tanto compreensão teórica como treinamento prático.

4. A permissão para entrada na profissão passa por uma licença: deve-se ter uma licença própria para praticar uma profissão.

5. Os comitês de admissão e licenciamento são constituídos por membros da profissão.

6. As leis referentes à profissão são idealmente influenciadas pela profissão.

7. Aqueles que pagam por serviços profissionais não podem controlar ou ter autoridade sobre aquilo que é determinado.

8. As profissões gozam de autonomia na execução de serviços.

9. Os profissionais elaboram seus próprios códigos de ética e os padrões da prática.

10. As profissões trabalham de acordo com regras éticas objetivas e com atitudes subjetivas virtuosas dos praticantes.

Drane afirma que a autonomia profissional está sob ameaça. Ele está certíssimo.



PESSINI, Leo; BARCHIFONTAINE, Christian de Paul de. Bioética na Ibero-América: História e Perspectivas. São Paulo: Centro Universitário São Camilo & Edições Loyola, 2007.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Sugestão de Leitura: A Morte da Humanidade (e a defesa da vida)



Richard Weikart nos alerta em sua obra "The Death of Humanity" acerca dos elementos de nossa cultura que contribuem para a destruição da dignidade humana e do valor da vida em sociedade. Em sua inquietante obra, Weikart disseca, uma por uma, as fontes de ameaça.

Weikart fala do mecaniscismo cientificista, que vê no ser humano nada mais do que uma complexa máquina. Da tendência darwinista de enxergar no ser humano apenas um animal como outro qualquer, e em desenvolvimentos recentes como a estranha bioética de Peter Singer e a militância agressiva - e hipócrita - da PETA. Fala do determinismo genético e das consequências sociais de enxergar no ser humano um mero produto de sua carga genética, e do determinismo social que leva à situação inversa. Fala do hedonismo, e de como tal inclinação, quando elevada à cosmovisão, cai em contradição. Fala do niilismo e do existencialismo, e de como tais tendências levaram ao massacre de incontáveis vidas. Aborda os problemas da eutanásia, do suicídio assistido, do aborto e do homicídio infantil. E, por fim, trata do transumanismo e da eugenia, e de como tal anseio é intrinsecamente incoerente e perigoso.

A obra é uma excelente iniciação aos problemas mais preocupantes do campo da bioética e revela como tal área de estudo está no olho do furacão de diversas transformações sociais que impactarão a vida de todos nós.

Vale a pena ler!

WEIKART, Richard. The Death of Humanity, and the case for life. Washington, DC: Regnery Faith, 2016, 346 p.


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Fragmentos da História da Bioética


"No despertar das atrocidades nazistas, ficou mais difícil vender a idéia da eutanásia no ocidente ao fim dos anos 40 e nos anos 50. Apesar disso, Joseph Fletcher, um dos fundadores da Bioética, que nascia como disciplina (e um dos membros da Sociedade de Eutanásia da América), desenvolveu novas justificativas para a eutanásia. Já que Fletcher era um sacerdote episcopal e ensinara por muitos anos em um seminário episcopal, alguns poderiam concluir que a bioética de Fletcher refletiria alguma perspectiva cristã. No entanto, tal concepção seria errônea. Em suas reflexões autobiográficas, Fletcher explicou que quando era jovem, ele tornou-se radical pela leitura de George Bernard Shaw, H. L. Mencken e outros intelectuais de esquerda e ceticistas. Aderiu ao sacerdócio episcopal não por causa da convicção das verdades cristãs, mas por causa da oportunidade de realizar seu ativismo social."

Trecho do inquietante livro "The Death of Humanity", de Richard Weikart, sobre o nascimento da Bioética e sobre os elementos de desumanização presentes em diversas escolas do pensamento bioético contemporâneo.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

PILARES DA BOA MEDICINA


PILARES DA BOA MEDICINA 

Características semelhantes marcam a boa medicina ao longo das eras. Em ordem de importância:

- Tudo fazer pelo bem do paciente, resguardando sua vida;


- Prezar pela honra da profissão;


- Buscar a excelência pessoal.



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A Revolução do Papel do Médico na Antiguidade, e o Retrocesso de Hoje.



"Pela primeira vez em nossa tradição houve uma separação completa entre matar e curar. Ao longo da história do mundo primitivo, o médico e o feiticeiro normalmente eram a mesma pessoa.



[Médico e feiticeiro] tinham o poder para matar e o poder para curar... 

Com os gregos, a distinção entre ambos ficou clara. Uma profissão, a dos seguidores de Esculápio, deveria dedicar-se completamente à vida sob todas as circunstâncias, independente de classe, idade ou intelecto - à vida de um escravo, de um imperador, de um estrangeiro, de uma criança deficiente...



Esta é uma dádiva sem preço que não podemos arriscar que se corrompa. Todavia, a sociedade está sempre tentando transformar o médico num assassino - para matar a criança deficiente ao nascer, para 'esquecer' as pílulas soníferas ao lado do leito de um paciente com câncer...



É dever da sociedade proteger o médico de tais demandas."



Margaret Mead



“For the first time in our tradition there was a complete separation between killing and curing. Throughout the primitive world, the doctor and the sorcerer tended to be the same person.

[Doctor and sorcerer] with power to kill had power to cure. . . .

With the Greeks, the distinction was made clear. One profession, the followers of Asclepius, were to be dedicated completely to life under all circumstances, regardless of rank, age, or intellect – the life of a slave, the life of the Emperor, the life of a foreign man, the life of a defective child…

This is a priceless possession which we cannot afford to tarnish, but society always is attempting to make the physician into a killer – to kill the defective child at birth, to leave the sleeping pills beside the bed of the cancer patient…

It is the duty of society to protect the physician from such requests."


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

TRECHO DE "A TRADIÇÃO DA MEDICINA"


"A Medicina não é uma página em branco na qual a sociedade escreve o que quiser. É uma realidade que deriva de condições existenciais objetivas e concretas. Alguém, acometido por uma doença ou por um tormento de qualquer espécie, busca auxílio; alguém se presta a auxiliar o próximo em condição de fragilidade. A relação entre os dois é a tradicionalíssima relação médico-paciente, e este elemento teleológico é essencial e imutável.
Há espaço para a construção social? Sim, porém é limitado. Há determinadas características imutáveis que, uma vez manipuladas, desvirtuam tudo aquilo que é, que foi e que pode ser a Medicina digna de tal nome . Daí a importância de saber o que é perene na Medicina – o que é atemporal de fato – e que deve ser mantido por seu valor imprescindível. Buscar tais elementos perenes num texto comprovadamente milenar e ainda tão útil, de um poder simbólico tão evidente como é o Juramento, é uma oportunidade preciosa."

terça-feira, 6 de setembro de 2016

PRIMEIRA COMISSÃO DE BIOÉTICA DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO - HOSPITAL MATERNIDADE SÃO JOSÉ /UNESC

PRIMEIRA COMISSÃO DE BIOÉTICA DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO - HOSPITAL MATERNIDADE SÃO JOSÉ /UNESC


É do UNESC e do Hospital Maternidade São José a primeira Comissão de Bioética do Espírito Santo! Com funções de assessoria, pesquisa e educação em bioética, iniciamos com um grupo interdisciplinar de pessoas dedicadas a promover o bem do paciente acima de tudo.
Agradecimentos a toda equipe!

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Destruição de Memórias

Destruição de Memórias

Uma especulação, uma pergunta e uma resposta acerca da destruição de legados culturais.


Hélio: Prezado Prof. Ricardo da Costa,
Observo um fenômeno recorrente em alguns escritos de bioética: acusam insistentemente a tradição hipocrática de anacronismo, tornando-se incapazes de perceber (ou reconhecer) as intensas similaridades morais. Muitos afirmam sua completa inutilidade para a Ética Médica de nossos dias. 
Noto a incapacidade contemporânea de ter empatia com os antigos e a completa indisposição em encontrar pontos de conexão. 
Seriam esses os frutos da herança nominalista de Ockham e de uma reação exagerada ao intenso poder de tecer analogias dos medievos? Qual é seu parecer acerca da dificuldade de muitos em "conectar" com o passado? Má-fé, nominalismo exagerado, preguiça, etc?

Ricardo: Dr. Hélio Angotti Neto,
O genuíno estudo do passado, o interesse pelo passado não é algo natural. O máximo que penso pertencer à Humanidade é um desejo de conhecer a história de seus pais, de sua família. Mas isso costumeiramente se restringe aos avós, paternos ou maternos. Em outras palavras, alguém estudar a história para além de 50 anos antes da data de seu nascimento não é algo comum.

O estudo do passado que ultrapassa o âmbito de sua família, de seu estado, de seu país, de seu próprio século, é fruto do pertencimento a uma cultura, a uma tradição cultural. É algo incomum. A cada vez maior incapacidade contemporânea de estabelecer uma empatia com os antigos é, creio, consequência da cada vez maior e mais ampla crise da Educação e da disseminação de um “presentismo” que só se interessa culturalmente, no máximo, a até o início do século XX. Esse último aspecto não é gratuito, mas o resultado de uma articulada e deliberada política cultural revolucionária, dona de uma visão de mundo estreita, míope e pragmática que pretende “apagar” a História da Civilização por entender que seu ensino obstaculiza transformações quaisquer. Talvez o nominalismo de Guilherme de Ockham (1285-1347) seja, de fato, uma de suas raízes filosóficas. Mas entendo que essa forma restrita de se pensar o mundo e a vida no mundo sempre existiu. A diferença é que hoje, cada vez mais, há um projeto político explícito, repito, revolucionário, que alicerça essa destruição do passado.

domingo, 28 de agosto de 2016

Assassinato de Reputações no Hipocratismo Médico?

Novo artigo no Academia Médica.

"A medicina não é uma ciência no sentido moderno; a medicina é uma Arte que usa a ciência, entre outros elementos, profundamente humana, ocasionalmente bem sucedida e intrinsecamente moral."


Saiba mais em: https://academiamedica.com.br/hipocrates-e-o-assassinato-de-reputacao/ 

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Retiro Anual de Humanidades Médicas da Universidade Baylor - Programa de Humanidades Médicas

Divulgado originalmente no informativo HEARTBEAT: New from the Medical Humanities Program at Baylor University (edição de primavera de 2016).
Link original: http://www.baylor.edu/doc.php/266598.pdf

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O CORAÇÃO DE UM VERDADEIRO MÉDICO

Eis a palestra originalmente proferida no Retiro Anual de Humanidades Médicas da Baylor University em fevereiro de 2016. O conteúdo foi encurtado para quarenta minutos de duração (na forma original tinha mais de duas horas), porém a mensagem essencial permaneceu.

Foi proferida no dia 29 de julho de 2016 no IV Seminário de Humanidades Médicas do UNESC, organizado pela Liga Acadêmica de Humanidades Médicas sediada em Coaltina - ES.





sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A FILOSOFIA COMO MANEIRA DE VIVER

Filosofia como exercício existencial da Consciência


Terminei de ler a série de entrevistas feitas com Pierre Hadot sobre a Filosofia como Maneira de Viver, publicada pela É Realizações.
Realmente há duas formas de se enxergar Filosofia.
Uma é mais acadêmica, cristalizada na forma de profissão (de bacharelado), centrada principalmente na análise de textos, na lógica e na argumentação. Essa é uma forma de filosofia que não seria reconhecida como tal no passado. Talvez fosse até chamada de sofística ou filodoxia.
E a outra Filosofia, mais antiga, trata de como se deve viver, trata de existir conscientemente perante toda a realidade, em postura de contemplação amorosa e vivência plena.
Há paralelos importantes com obras que tratam da essência da Filosofia como modo de vida e buscam defini-la:
1. A Filosofia e Seu Inverso (Olavo de Carvalho);
2. A Consciência de Si, indicado como excelente exercício espiritual (Louis Lavelle);
3. Filosofia e Anti-Filosofia (Michele Federicci Sciacca);
4. Que és Filosofia (Dietrich von Hildebrand) e muitos outros, incluindo praticamente todos os clássicos filosóficos antigos e medievais.

Essa Filosofia como modo de viver dificilmente será encontrada na Universidade. Ela é encontrada na vida, na convivência em busca da sabedoria.
Essa Filosofia, para o Cristão, é viver plenamente inserido na realidade em reflexão profunda com o aporte da sabedoria evangélica e da sabedoria salomônica de Provérbios e Eclesiastes.
Para saber mais: http://www.olavodecarvalho.org/textos/filosofia-inverso.html


domingo, 14 de agosto de 2016

Uma Ponte para o Futuro Direto do Passado

A Obra de Van Rensselaer Potter




Recentemente, foi publicada em português a obra primordial da Bioética escrita pelo biólogo e bioquímico pesquisador em oncologia Van Rensselaer Potter pela Editora Loyola, com a tradução de Diego Carlos Zanella e uma introdução à edição brasileira escrita pelo padre Leo Pessini, importante ator da Bioética no Brasil e no mundo. Era uma obra que o mercado brasileiro necessitava há tempos por muitos motivos.

Citado por muitos e lido, talvez, por poucos, o livro sempre foi mencionado como excelente fonte dos primórdios da Bioética. É uma pedra fundamental nesse campo interdisciplinar de estudo que ajuda sobremaneira a compreender os rumos da discussão acadêmica mundo afora e no Brasil.

Potter instaura a Bioética numa perspectiva global, incluindo questões acerca da sobrevivência humana na biosfera, ecologia, crescimento populacional, responsabilidade no ambiente científico e perigos dos avanços tecnológicos. A Bioética Clínica, instaurada quase que simultaneamente por Hellegers, tratou, desde os primórdios, de questões semelhantes, porém mais restritas à assistência à saúde no contexto dos avanços tecnológicos e dos novos desafios à moralidade de médicos, pacientes e demais envolvidos.

As temáticas de Potter ainda hoje são lugares comuns na discussão bioética: responsabilidade frente às próximas gerações, valores laicos e religiosos em sociedade, controle populacional, preservação da natureza, excesso de especialização na ciência, incapacidade de lidar com as questões maiores da sociedade e individualismo.

Potter exemplifica bem o que Yuval Levin explicou em seu livro recente (Imagining the Future: Science and American Democracy): indivíduos com tendências à esquerda do espectro político (no sentido denominado progressista e liberal) estão agindo de forma conservadora quando o assunto envolve desenvolvimento tecnológico e proteção da natureza.

Outro aspecto muito curioso e ilustrativo da realidade dos ambientes de discussão em Bioética são os contrastes exemplificados pelo próprio autor em sua obra. Um secularista mecanicista que promove - com certa competência, devo dizer - um reducionismo do ser humano ao status de máquina cibernética, trazendo o aporte de vários achados científicos interpretados sob um paradigma naturalista bem específico. Ao mesmo tempo, não descuida da cultura circundante, fazendo referências contínuas a trechos das escrituras, mesmo que para anunciar placidamente que perderam sua validade nos dias de hoje. A Bioética ainda é um campo de ferrenhos duelos entre o secularismo e as outras crenças, inclusive as religiosas; todos partilhando ao menos a disposição em conversar, mesmo que com ânimos acirrados algumas vezes.

E, talvez, algo ainda mais curioso: Potter é profundamente moralista, embora subscreva a cosmovisão naturalista e mecanicista. Há uma tensão incontornável entre tais visões, à beira do abismo niilista. Não duvido por um momento sequer da sinceridade do autor em recomendar aquilo que realmente julgava certo, mas ele descartou a fé alheia com muita facilidade e evitou regressar aos seus pressupostos mais básicos. Tal regresso às fundações de suas crenças, filosófico e anamnésico ao mesmo tempo, o levaria ao terrível choque entre o naturalismo e a necessidade de pregar moralmente.

De fato, o livro de Potter é uma ponte para o futuro. Lá estão prenunciados os conflitos de hoje na Bioética. Lá já se defendia a existência daquele engenheiro social (bioeticista) que contornaria a visão super especializada de suas pesquisas cada vez mais avançadas e cada vez mais distantes do cotidiano e da aplicabilidade prática para pregar uma nova moral de uma nova fé.

Se os termos parecem exagerados, o leitor me desculpará ao ler o Credo Bioético oferecido pelo autor, com suas crenças e compromissos. E compreenderá melhor o papel central desse pequeno livro no cenário internacional que hoje se vê.

Sem dúvida nenhuma essa obra chega tarde, mas melhor agora do que nunca. Parabéns à Loyola e aos envolvidos pelo trabalho bem realizado e por trazer esse importante pedaço do quebra-cabeça chamado Bioética para a língua portuguesa.




Prof. Dr. Hélio Angotti Neto


Médico Oftalmologista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia. Doutor em Ciências Médicas pela USP. Coordenador do Curso de Medicina e Membro do Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC. Visiting Scholar do Center for Bioethics and Human Dignity em 2016. Criador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina (SEFAM).


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Quer fazer algo chocante? Defenda a Vida Humana.


O Politicamente Correto e os tecnocratas da medicina utilitarista e transumanista se esforçam ao máximo para difamar, distorcer e inibir a cultura hipocrática e cristã ligada à medicina.

Pintam a moral tradicional da medicina como algo autoritário e desrespeitoso, mas o verdadeiro alvo é outro bem diferente: a valorização incondicional da vida humana.
Quer melhor razão do que esta para conhecer mais acerca do Hipocratismo Médico?
Defender a vida humana raramente foi algo tão chocante e "revolucionário" quanto nos dias de hoje!