segunda-feira, 3 de julho de 2017

ENTREVISTA: O que é formar um médico integralmente?

O QUE É FORMAR UM MÉDICO INTEGRALMENTE?

ENTREVISTA CEDIDA AO NÚCLEO ACADÊMICO DO SINDICATO DOS MÉDICOS DO RIO GRANDE DO SUL

 

Entrevistador: O senhor defende que os médicos precisam buscar uma formação humanista, além da técnica e científica. O que exatamente o senhor deseja propor com esta abordagem?

A reconquista dos instrumentos intelectuais e para a formação do caráter que foram abandonados pela concepção pedagógica presente. O médico precisa do aporte científico e dos instrumentos de aprendizagem ativa e medicina baseada em evidências para atualizar-se, mas precisa também da formação humanística antiga que o capacitará a agir em sociedade, compreender a realidade e pensar de forma aguçada e verdadeiramente crítica. Não há atalhos neste quesito, formação humanística não é bom mocismo, é captar e integrar em seu ser o conhecimento acumulado de mais de dois mil anos de história e pensamento.

Entrevistador: Por que é importante integrar o lado humanista na formação do médico?

Por que a ciência não esgota e jamais esgotará o ser humano. Cada paciente é uma vida única e oferece um desafio inédito. Há coisas em nossas práticas que são gerais, porém, sem a riqueza moral e intelectual adequadas, falharemos em aplicar os conhecimentos científicos à realidade concreta ou em obter sucesso no tratamento. Do que adianta passar o tratamento certo se o paciente não confia em você? De que adianta saber medicina baseada em evidências se te falta o conhecimento literário e hermenêutico de interpretação dialética dos textos para enxergar nas entrelinhas o que não está escrito? O médico que reduz seu conhecimento à medicina compreendida como empreendimento científico somente também negligencia seu papel de agente de influência na sociedade, e serve cegamente a interesses alheios que muitas vezes priorizam qualquer outra coisa, menos a saúde do paciente.

Entrevistador: O senhor fala em médico integral? O que é este conceito?

É o médico que une o melhor da ciência, da técnica, da virtude e das humanidades. É um profissional que seja capaz de realizar um procedimento de qualidade, com a indicação adequada, na hora certa e com o estabelecimento de uma relação médico-paciente sólida sustentada na confiança do paciente e na honra e excelência do médico.

Entrevistador: Por que é preciso pensar a Medicina em um contexto maior do que normalmente se pensa nas escolas?

Por que lidar com o ser humano é uma das tarefas mais complexas que se pode executar. Lidar com a vida, a morte, a doença e a saúde são atividades que abrangem os cumes e os vales mais sombrios da experiência humana. Lidamos dia a dia com os anseios mais profundos e os maiores tormentos da humanidade e perdemos a capacidade de formar pessoas integralmente. Se não há formação de caráter e formação cultural adequadas, teremos médicos superficiais e desarticulados, incapazes de lidar com as complexas situações de seus pacientes e incapazes de agir eficazmente em sociedade para promover a tão desejada saúde integral, utopia muito mencionada, porém pouco pensada de fato.

Uma das coisas que mais me preocupa em termos de educação médica em humanidades é a vulgarização do termo e a utilização dessa busca por uma formação integral para inserir nos currículos a mais vulgar manipulação ideológica, censurando o legado cultural verdadeiro de nossa civilização e oferecendo as mais vis e baixas formulações pseudointelectuais no lugar do conteúdo de verdade. Felizmente, os alunos de medicina costumam ser inteligentes demais para cair nessa cilada. O problema é que muitos acreditam que humanidades se resumem à vulgaridade ideológica e se concentram somente no aspecto científico da medicina, suprimindo a possibilidade de buscar uma verdadeira formação humanística. Mesmo que discordem, engolem a mentira que foi contada e acreditam que as humanidades nada mais são do que loucura e enganação. 

Entrevistador: Qual é o papel do médico na sociedade?

O médico é o guardião da saúde humana e da vida de seu paciente. É o ombro amigo que consola quem está prestes a partir e aqueles que estão prestes a perder um parente amado e que ficarão para trás, enlutados. O médico é aquele que observa a sociedade com olhos atentos e mente penetrante, apto a diagnosticar problemas individuais e coletivos e propor uma terapia ao contemplar o prognóstico. O médico é aquele compromissado com a beneficência de seu paciente mediante o uso da prudência, da inteligência e de todas as suas virtudes. O médico é aquele que busca a excelência em sua arte em prol de seu paciente. Nosso papel é o de guardião dos mais frágeis entre nós, é responder ao pedido de socorro.

Entrevistador: Como o senhor vê as políticas públicas para a saúde?

Muito boas no papel, péssimas na prática. Leis e dinheiro não mudam uma população, o bandido sempre encontra a ocasião. Precisamos de mudanças na cultura, no caráter e na inteligência. O Brasil está entre os países mais violentos, mais corruptos e mais burros do mundo! Esses são problemas de "saúde" gravíssimos, e precisamos realmente repensar nosso pais. Como um país desse tamanho e com essa riqueza, repleto de gente trabalhadora e esforçada, pode estar entre os últimos colocados nos testes de conhecimento a nível internacional? Como um país de gente que era tão pacífica pode ter se transformado em um campeão de assassinatos? Creio que políticas públicas são necessárias e, em geral, são bem formuladas. Mas não temos uma elite com o caráter e a vontade para realmente fazer acontecer um Brasil de verdade. Temos espoliadores que buscam nutrir-se do sistema mesmo que para isto tenham que destruir seu hospedeiro.

Entrevistador: O senhor vê um movimento para diminuir o prestígio da categoria médica?

Médicos bons e médicos ruins sempre existiram, desde os tempos hipocráticos, ao longo da Idade Média e ainda hoje. Mas é a primeira vez que se observa um governo sistematicamente infiltrar-se em conselhos profissionais, montar propagandas claramente ofensivas contra toda uma classe profissional e utilizar o discurso de guerra de classes e ódio para a premeditada destruição daquilo que consideram uma elite concorrente. O fato de que tudo tenha vindo à tona no momento em que médicos ao lado de muitos outros profissionais da saúde foram às ruas em 2013 para reclamar melhores condições é extremamente sugestivo. Na política há pouco espaço para o acaso. Assistimos à votação do Ato Médico, na qual médicos foram acusados de criar a doença para enriquecer, observamos as propagandas acusando médicos de racistas com a falsa interpretação de dados do SUS e até mesmo uma presidente agindo de forma leviana ao acusar a classe médica de tratar mal os pacientes brasileiros. Uma grande e esforçada maioria, incluindo alguns exemplos heroicos de dedicação, pagou pelo erro de poucos e pela maldade institucionalizada de um governo indecente.

Entrevistador: Gestão e liderança tem sido exigido dos médicos. Estes conceitos são importantes? São tão importantes quanto a formação política e filosófica?

Sem dúvida a gestão e a liderança são importantíssimos. Na formação humanística clássica, por exemplo, partia-se do estudo do indivíduo (Ética e Psicologia, chamada de estudo da alma) e dos discursos (Gramática, Lógica, Dialética e Retórica) e alcançava-se o estudo da sociedade como um todo (Política). Contudo, no meio do caminho estava o estudo das relações de trabalho e das relações familiares, chamado de economia (Oiko = comunidade; Nomos = regras). O médico é o responsável pela equipe, e deve aprender a agir como tal, assim como deve aprender e desenvolver o caráter e a nobreza de um verdadeiro líder, demandando respeito por meio do exemplo acima de tudo.

Conforme disse o filósofo britânico Roger Scruton: 

"Da mesma forma, as pessoas vão obter educação somente se elas a desejarem por seu próprio fim, mas conseguirão bem mais do que isso. Elas vão adquirir a habilidade de se comunicar, de persuadir, de atrair e de dominar. Em qualquer arranjo social, tais capacidades serão vantagens, mas a educação nunca pode ser buscada somente como meios para elas, mesmo se são sua consequência natural." (SCRUTON, Roger. O Que É Conservadorismo. São Paulo: É Realizações, 2015.)

A educação em humanidades deve ser desafiadora, deve ser interessante e prazerosa. Buscada em si para o desenvolvimento do caráter, da inteligência e pelo prazer intelectual e emocional que proporciona, automaticamente capacitará o médico ao desenvolvimento da liderança.

Entrevistador: Qual conselho o senhor daria para a categoria médica? E para os acadêmicos?

Aos colegas permanecer firme no antigo mandamento: Amar o próximo como amam a si mesmos. Exercer o dom da empatia com competência e com compaixão.
Aos acadêmicos, que sejam bons médicos agora! Sejam excelentes em suas áreas. Dediquem-se verdadeiramente aos seus pacientes. Não tenham pressa em terminar seus estudos formais e entendam que não há desculpas depois para a falta de conhecimentos. Aquilo que se conquista e se integra à personalidade é um tesouro que ninguém pode remover. Cresçam e amadureçam o quanto antes, em todos os sentidos. Busquem ser médicos na verdadeira acepção da palavra.

Hélio Angotti Neto

03 de julho, Colatina – ES.

domingo, 2 de julho de 2017

O DEVER DE MATAR

O DEVER DE MATAR

O pesadelo do ser humano submisso à tecnocracia utilitarista




A cada dia a Cultura da Morte penetra mais fundo na Medicina, fazendo com que a antiga arte traia sua vocação hipocrática e cristã. Uma das ferramentas da Cultura da Morte é a Disbioética, uma forma deturpada de estudar e disseminar práticas imorais que infecta e envenena a discussão acadêmica espalhando-se como um vírus letal nas mentes da elite universitária. E duas das grandes bandeiras da Disbioética são a Eutanásia e o Suicídio Assistido.

Subjacente a essas práticas mórbidas estão diversas idéias inegavelmente tenebrosas.

Uma dessas idéias, apontada por Jeffrey Bishop, médico e filósofo da Saint Louis University, é a de que o foco na qualidade de vida desviou perigosamente o foco anterior da medicina em conservar a vida humana, permitindo hoje a instrumentalização da morte e a ação totalitária do médico sobre a vida do paciente.[1]

Numa linguagem muito semelhante àquela utilizada por médicos nazistas do começo do século XX que encarnaram a epítome da medicina desumanizada e submissa a um Estado assassino, fala-se hoje novamente em morte digna, vida indigna e interrupção misericordiosa da vida para expressar o anseio em encerrar brevemente a existência ou até mesmo evitar o parto daqueles humanos indesejados.

Muitos defendem a possibilidade de matar pacientes, cometer suicídio com a ajuda de médicos e até mesmo matar o próprio filho como direitos dos pacientes, ousando chamá-los inclusive de Direitos Humanos, numa linguagem realmente torpe.

É óbvio, ou deveria ser, que um direito de alguém exige um dever de outro. Se eu tenho direito a algo, alguém tem a obrigação de executar um ato que concretize meu direito. Daí a conclusão inevitável de que a atual grande discussão em Bioética é justamente a limitação da objeção de consciência e a possível escravidão moral e espiritual da classe médica, que será obrigada a matar.

Quando o assassinato for legalizado, a sociedade provavelmente cairá em uma progressiva dessensibilização moral, como já acontece com a Holanda. Após a legalização e a formalização do suicídio assistido, o perfil da casuística de mortes está mudando radicalmente. 

Relativamente são exterminados menos pacientes com câncer e mais pacientes com distúrbios psiquiátricos, uma indicação eticamente muito mais controversa para a permissão do suicídio assistido. Hoje também já se observam as clínicas da morte, que entregam o produto letal de forma rápida e sem empecilhos desconfortáveis, denotando alta eficácia em matar a custos reduzidos, sem muitas perguntas.[2] O próximo passo é a liberação da eutanásia para pessoas saudáveis acima de 75 anos.[3] Ser velho voltou a ser uma boa razão para ser morto, como já fora defendido por iluminados utilitaristas do passado recente, que defendiam medidas muito “humanas” como a câmara de gás para pessoas que não fossem capazes de se adequar à sociedade, incluindo idosos sem capacidade laboral.[4]

Relatos como o reproduzido a seguir denotam o quanto tudo está fugindo do controle:

Durante o acampamento de verão de minha paróquia no interior de Quebec, três anciões receberam o diagnóstico de câncer no hospital local, um estabelecimento interiorano a uma hora de viagem de carro do centro urbano de Ottawa e ainda mais distante da super-secular Montreal. Porém, após a informação do diagnóstico, a primeira questão perguntada para cada uma dessas pessoas foi 'você quer fazer eutanásia?' É isso o que o sistema canadense de eutanásia alcançou em apenas poucos meses: colocou a eutanásia no topo das opções do cardápio proposto para pessoas gravemente doentes.[5]

Como os novos médicos serão ensinados nesse contexto de vulgarização da morte? Serão eles instruídos a oferecer a eutanásia como qualquer outra opção ou até mesmo como a primeira opção? Serão eles pressionados para corte de gastos monetários e emocionais com a eliminação dos "casos difíceis"? Respeitarão aqueles médicos que ousarem alegar objeção de consciência?

Se, para o paciente, toda essa conversa pode soar assustadora, para o médico que honra a vida humana e a protege isso pode significar o fim de sua carreira ou a corrupção definitiva de sua vocação, pois agora o risco é que sejam realmente forçados a matar.

Num regresso aos tempos pré-hipocráticos, é o médico quem novamente irá administrar venenos, abandonando seu ancestral juramento sagrado de proteção da vida humana, equiparando-se novamente aos mortais feiticeiros e assassinos da antiguidade, desprezando a profissão que por tantos séculos angariou a admiração e o respeito de tantos povos.[6]

E todo esse descalabro assumiu recentemente uma face ainda mais assustadora, embora em nada imprevisível, como se vê no caso do bebê Charlie Gard, do Reino Unido. Nesse macabro caso, os pais do bebê, que sofre de uma doença rara e quase sempre letal - a Síndrome de Depleção Mitocondrial -, precisam implorar pela oportunidade de removerem seu filho do hospital estatal inglês e levá-lo a um médico particular de outro país para tentar um tratamento alternativo e caríssimo.[7]


Não é o caso de gastar o dinheiro do contribuinte inglês num tratamento milionário para salvar, talvez, uma única vida. Os médicos, a serviço do Estado e não do paciente, proibiram a remoção do bebê do hospital e decretaram que o melhor a ser feito era deixar que morresse sem tentar o caro tratamento em outro país.

Podemos ter, nesse caso do pequeno Charlie e sua família desautorizada pelo Estado a tentar salvá-lo, um vislumbre de nosso sombrio presente e nosso nada promissor futuro. A vida do bebê não está mais sob a tutela de seus pais que o amam profundamente, está nas mãos da tecnocracia estatal que julgou não valer a pena lutar por sua vida, tão insignificante como a vida de qualquer incapacitado é para os cálculos utilitaristas dos burocratas que enxergam números e não pessoas.[8]

Fomos avisados há décadas sobre esse mal que emergia na alma da medicina e da sociedade contemporânea, mas permanecemos surdos ao ressurgimento da Cultura da Morte.[9] O ser humano tornou-se um objeto de cálculos utilitaristas, um frio produto cujo preço deve ser avaliado para, no fim, ser considerado digno ou não de viver.[10]

Talvez a pergunta que todos devamos fazer seja a seguinte: desde quando viramos objetos de uma tecnocracia impessoal que decide o quanto vale nossa vida ou qual a sua “qualidade”?

Você quer um Estado que decida que está na hora de você morrer? Para mim, um dos piores pesadelos distópicos possíveis é viver numa sociedade em que a elite tecnocrática de um Estado tirano encontrou meios formais para livrar-se daqueles os quais julga inúteis.

Até quando você será útil?

Hélio Angotti Neto
Colatina, 02 de julho de 2017.




[1] BISHOP, Jeffrey. The Anticipatory Corpse. Medicine, Power, and the Care of the Dying. Notre Dame, Indiana: University of Notre Dame Press, 2011.
[2] KOOPMAN, Jacob J. E.  ‘Developments in the Practice of Physician-Assisted Death Since Its Legalization in the Netherlands’. Dignitas 23, no. 2, Summer 2016, p. 9-14. Internet, https://cbhd.org/content/developments-practice-physician-assisted-death-its-legalization-netherlands
[3] FREIRE, Emma Elliott. Netherlands Considers Euthanasia For Healthy People, Doctors Say Things Are ‘Getting Out Of Hand’. The proposed 'Completed Life Bill' would allow any person over age 75 to receive euthanasia. Even if they are perfectly healthy. The Federalist. Internet, http://thefederalist.com/2017/06/30/netherlands-considers-euthanasia-healthy/?utm_source=The+Federalist+List&utm_campaign=e8d13aa942-RSS_The_Federalist_Daily_Updates_w_Transom&utm_medium=email&utm_term=0_cfcb868ceb-e8d13aa942-52858105
[4] "The notion that persons should be safe from extermination as long as they do not commit willful murder, or levy war against the Crown, or kidnap, or throw vitriol, is not only to limit social responsibility unnecessarily, and to privilege the large range of intolerable misconduct that lies outside them, but to divert attention from the essential justification for extermination, which is always incorrigible social incompatibility and nothing else." Fonte: SHAW, George Bernard. Plays Political: The Apple Cart, On the Rocks, Geneva. Penguin Classics: 1990.
"We should find ourselves committed to killing a great many people whom we now leave living, and to leave living a great many people whom we at present kill. We should have to get rid of all ideas about capital punishment … A part of eugenic politics would finally land us in an extensive use of the lethal chamber. A great many people would have to be put out of existence simply because it wastes other people's time to look after them." Fonte: SHAW, George Bernard. Lecture to the Eugenics Education Society. The Daily Express, 4 de março, 1910.
"The moment we face it frankly we are driven to the conclusion that the community has a right to put a price on the right to live in it … If people are fit to live, let them live under decent human conditions. If they are not fit to live, kill them in a decent human way. Is it any wonder that some of us are driven to prescribe the lethal chamber as the solution for the hard cases which are at present made the excuse for dragging all the other cases down to their level, and the only solution that will create a sense of full social responsibility in modern populations?" Fonte: SHAW, George Bernard. Prefaces. London: Constable and Company, 1934, p. 296.
[5] GRANT, Edward R. Cracks in the wall: confronting the legalization of physician-assisted suicide and euthanasia. DIGNITAS, 2016, Volume 23(3), p.1, 4-6.
[6] ANGOTTI NETO, Hélio. A tradição da medicina. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2016.
[7] HAWKEN, Abe. Terminally ill baby Charlie Gard's parents 'utterly distraught' after losing final appeal in European court - meaning their son's life support WILL be switched off. Mail Online. Internet, http://www.dailymail.co.uk/news/article-4644268/Charlie-Gard-s-parents-lose-final-appeal.html#ixzz4ljCBPbrP 
[8] WALSH, Matt. Tradução e adaptação: Equipe do site Christo Nihil Praeponere. Bebê é sentenciado à morte por Tribunal Europeu dos “Direitos Humanos”. Descubra o que está por trás da sentença de morte do pequeno Charlie Gard, o bebê cuja vida e família foram simplesmente “atropeladas” pela decisão irrecorrível de um tribunal. Internet, https://padrepauloricardo.org/blog/bebe-e-sentenciado-a-morte-por-tribunal-europeu-dos-direitos-humanos
[9] Em obra a ser traduzida em breve pela Editora Monergismo: KOOP, C. Everett; SCHAEFFER, Francis A. Whatever Happened to the Human Race? Wheaton, Illinois: Crossway, 1983.
[10] WEIKART, Richard. The Death of Humanity and the Case for Life. New Jersey, Regnery Faith, 2016.

domingo, 18 de junho de 2017

A DOR SILENCIOSA: UM ESTUDO SOBRE O SOFRIMENTO DO FETO

A DOR SILENCIOSA




Fala-se muito da mãe quando o assunto é aborto, e com razão, já que ela é a principal responsabilizada pela vida do bebê. É a mãe quem carrega a nova vida em seu ventre e é a mãe quem possui laços estabelecidos com a sociedade por meio de sua biografia e de seus relacionamentos. Contudo, não há como esquecer a presença do feto, por mais abstrativo que seja o pensamento daquele que se debruça sobre essa situação.

Com certeza, aborteiros e abortistas evitarão falar muitos detalhes acerca da realidade e da perspectiva do feto, pois tal excesso de atenção poderá levar todos a perceberem uma incontornável realidade: o feto é, de fato, uma vida humana. Lá estão células, genes, ossos, músculos e, é claro, a capacidade de interagir com o ambiente de diversas formas.

Normalmente chamarão o feto por nomes bem técnicos e desumanos como produto da gravidez, concepto ou consequência indesejada. Chamar o feto de criança, ser humano ou, horror, admitir que é uma pessoa, trará imenso desconforto, oferecendo à consciência o choque de realidade que precede a capacidade de analisar um assunto com inteligência.

Para que imaginemos o quanto a apreensão de tais realidades pode mexer com o imaginário de alguém, basta nos lembrarmos da história de vida do rei do aborto, o médico Bernard Nathanson. Ao observar a reação do feto a um abortamento por meio da ultrassonografia, o médico aborteiro ficou profundamente perturbado. Aquele que não passava de uma abstração, um pequeno refugo a ser removido sem maior preocupação, assumira rapidamente a posição de paciente a ser cuidado. Seus movimentos, suas reações e sua face ganhavam duas dimensões no aparelho e três dimensões na imaginação.

Para os abortistas, é melhor não falar mesmo do feto, não entrar muito no mérito da questão e no excesso de detalhes biológicos e sociais. Quanto menos conhecimento, mais fácil será fingir que o pequeno homem, ou a pequena mulher, não passa de um alienígena distante e desconhecido.

Um dos aspectos que devem ser levados em conta é uma capacidade bem humana dos fetos: a possibilidade de sofrer. Por mais que tal sofrimento possa ser silencioso, é impossível imaginar com absoluta certeza todas as implicações e consequências da dor imposta ao feto. Porém, o que hoje já possuímos de conhecimento acerca da misteriosa vida do feto e de sua capacidade de sentir?

Há um consenso de que fetos podem sentir dor ao atingir cerca de 20 semanas após a concepção, isto é, aproximadamente na idade de 22 semanas de gestação. Um pouco antes disso, já estão presentes as estruturas necessárias para perceber o estímulo doloroso e para transmiti-lo ao cérebro. Com 18 semanas após a concepção o eletroencefalograma já capta atividade elétrica no cérebro, indicando a integridade dos circuitos neuronais cortical e talâmico.[1]

O córtex cerebral, sede física de nossa capacidade intelectiva mais complexa, começa a desenvolver-se às seis semanas após a concepção, enquanto o tálamo, uma parte do cérebro responsável pela sensação dolorosa, começa a desenvolver-se às oito semanas.

É importante lembrar que julgamos a situação tendo por base o aparato neuronal do adulto, conhecido por nós inclusive da perspectiva fenomenológica. Mas não há como garantir com plena certeza quais outras interações entre feto e ambiente são possíveis antes do desenvolvimento das estruturas neuronais superiores; tampouco podemos estipular com certeza quais serão as consequências de diversas atitudes maternas e interações com o ambiente no futuro desenvolvimento do feto e, posteriormente, da criança.

Já sabemos, por exemplo, que a organização básica do sistema nervoso é estabelecida aos 28 dias após a concepção (quatro semanas), com a formação dos primeiros neurônios no neocórtex que já começam a funcionar na qualidade de rede neuronal na sétima semana.[2]

Em relação à recepção de dor, já se observam receptores – chamados de nociceptores – na região ao redor da boca nas cinco semanas após a concepção. Na nona semana, já há nociceptores em toda a face, na palma da mão e na planta do pé. Antes disso, nas seis semanas, o feto responde ao toque.[3]

Outro detalhe curioso e importante para entendermos como funciona a recepção dolorosa do ser humano é que o recém-nascido prematuro tende a sentir muito mais dor aos estímulos ambientais do que crianças nascidas a termo, pois o desenvolvimento de estruturas responsáveis por reduzir a potência do estímulo ambiental e prevenir reações dolorosas exageradas são desenvolvidas posteriormente, entre 32 e 34 semanas após a concepção. Logo, é mais fácil que se sinta mais dor quanto mais cedo ocorrer o parto.[4]

Um detalhe pragmático que muitos também optam por esquecer é que o feto é considerado um paciente. Se para uns médicos, o feto claramente merece cuidado, incluindo anestesia em procedimentos cirúrgicos de altíssima complexidade dentro do útero materno, como podemos concordar que outros médicos considerem o feto apenas um monte de carne indesejável a ser expelido?

Um dos elementos típicos da vida humana é a capacidade de sentir dor e sofrer. Animais sentem dor, mas é difícil afirmar que sofrem verdadeiramente conforme a concepção humana que temos dessa expressão. E quando falamos dos mais indefesos seres humanos, já se sabe que a dor sofrida poderá gerar consequências emocionais, comportamentais e cognitivas na vida posterior, após o parto. Há inclusive evidências sobre a habilidade de formar, por parte do feto, um tipo de memória sobre a dor sofrida.[5]

Diante da atual insensibilidade aos sofrimentos do feto, diante da atual falta de consideração pelo mais frágil dos seres humanos, não estranhe se cada vez mais nos tornarmos insensíveis aos sofrimentos e dores de crianças e adultos. Se nos tornarmos incapazes de enxergar a humanidade de um feto ou de uma criança, em breve seremos incapazes de enxergar o mesmo em nossos vizinhos e parentes. Nossa sociedade mergulhará num pesadelo desumano e utilitário despersonalizado.

Hélio Angotti Neto, 18 de junho de 2017.



[1] VANHATALO, S; VAN NIEUWENHUIZEN, O. ‘Fetal Pain?’ Brain & Development, 22, 2000, p. 145-150.

[2] SADLER, Thomas W. Langman’s Medical Embriology, 11th edition. Baltimore: Lippincott Williams and Wilkins, 2009, caps. 5 e 6.

[3] BRUSSEAU, R. ‘Developmental Perspectives: Is the Fetus Conscious?’International Anesthesiology Clinics, 46 (3), 2008, p. 11-23; MYERS, LB; BULICH, LA. ‘Fetal endoscopic surgery: indications and anaesthetic management’. Best Practice & Research Clinical Anaesthesiology, 18(2), 2004, p. 231-258; BLACKBURN. Maternal, Fetal, and Neonatal Physiology.

[4] GRECO, C; KHOJASTEH, S. “Pediatric, Infant and Fetal Pain”. In: Case Studies in Pain Management. KAYE, Alan David; SHAH, Rinoo V. Cambridge: Cambridge University Press, 2014, p. 379.

[5] Doctors on Fetal Pain. Internet, http://www.doctorsonfetalpain.com/fetal-pain-the-evidence/4-documentation/ ; GRECO, C; KHOJASTEH, S. Op. cit

sábado, 17 de junho de 2017

PREFÁCIO DE "A MEDICINA PÓS-HIPOCRÁTICA"

Prefácio à edição brasileira de A MEDICINA PÓS HIPOCRÁTICA: O PROBLEMA E A SOLUÇÃO


Este livro nasceu de um curioso e assustador desafo: relatar como a ética cristã infuenciou os cuidados médicos. 

A pesquisa de Hugh Flemming, ao lado de sua formação fundamentada na leitura dos clássicos e na teologia, permitiu traçar um panorama histórico e moral que cruza as eras da história de nossa civilização. Ao mesmo tempo, permitiu que sua abordagem tocasse no cerne de uma guerra cultural que atravessa milênios,1 e que hoje vem à tona e escancara sua face nas diferentes modalidades de barbarismo niilista. Barbarismo que tantas vezes rendeu sofrimentos e extermínios, incluindo a eugenia e o abortismo, muitas vezes impulsionados pelo ímpeto prometeico de revolta contra Deus. 

Flemming avisa que a era dourada da medicina está sob o risco de terminar. Estamos abrindo mão da tradição hipocrática e da ética judaico-cristã. No livro, o autor resgata pontos defnidores desse rico legado que até hoje nos benefcia. 

 Do Antigo Testamento veio a noção de dignidade do ser humano como elemento especial da Criação, feito à imagem e semelhança do próprio Deus. Outros povos criam que o homem nada mais era que um elemento constitutivo da natureza, limitado por ela e sem abertura ao transcendente. Hoje, diversos bioeticistas parecem ter retornado ao tempo de fechamento à transcendência. Afrmam não haver nada especial no ser humano — sem dúvida a ideia mais perigosa.2 

Estamos diante da dessacralização da vida humana. Vemos a corrupção de nossa civilização e a queda do ser humano do estado de grande dignidade ao da bestialidade. 

Após o Antigo Testamento, Flemming ressalta a colaboração do Novo Testamento. Jesus Cristo é o redentor do corpo e da alma — o grande médico. E todos nós somos convidados a imitá-lo e entender que a busca pela saúde faz parte do bem maior a ser alcançado ou esperado, integrante do ato divino de salvação. É moral o curar, aliviar e confortar o próximo partindo do princípio da obrigatoriedade de respeitá-lo como obra máxima de Deus, enxergando no que sofre o maior de todos os que sofreram, o próprio Cristo. 

A medicina exercida por cristãos foi em diversos pontos semelhante à da Escola Hipocrática, um grupo de médicos que prezava a ética baseada na valorização da vida humana, no respeito à dignidade do paciente e em diversos outros pontos ainda presentes em práticas contemporâneas. Todavia, os cristãos se destacaram, sobretudo, pela caridade, o amor gratuito que se diferenciou do antigo conceito de flantropia pregado pelos médicos da Antiguidade. A caridade cristã fundamentou a construção dos primeiros hospitais, no século IV d.C.3 

Após abordar a Antiguidade, o judaísmo e o cristianismo primitivo, Flemming questiona o conceito da idade de trevas ao lidar com a Idade Média. Evitando o preconceito iluminista e marxista, novos historiadores têm apresentado estudos de grande qualidade e rigor e demonstram uma época medieval muito diferente da concebida pela cultura popular — enfada à força na cabeça de nossos jovens no ensino médio e mesmo no ensino superior.4 

O autor também subscreve, pelo menos em parte, a ideia de que o cristianismo foi o fator específco que permitiu o nascimento da ciência moderna.5

Esta obra de Hugh Flemming foge do padrão preconceituoso e anticristão tantas vezes observado na Academia brasileira. Sem dúvida, é um ganho para médicos, historiadores, teólogos e estudiosos em geral da ética, da saúde e da flosofa, oferecendo uma perspectiva de regra silenciada e ignorada justamente por quem tanto prega a tolerância e o pluralismo de ideias. 

A prática médica encontra-se ameaçada hoje pelas ideologias da morte, por uma verdadeira “disbioética” que repete e revive o discurso utilizado antes por pagãos, adoradores de Moloque e nazistas, para citar alguns exemplos. Falo da eugenia, do homicídio infantil e do abortismo. Nesse show de horrores presenciado dia após dia em nossas universidades, antigos terrores retornam sob novas máscaras, possuindo ares de autoridade científca e flosófca e demandando respeitabilidade.6 

Remova Deus da cultura, e o cenário de pesadelos estará pronto. Se o homem não é a imagem do próprio Deus, ele nada é de importante. 

Dr. Hélio Angotti Neto 
Autor, A tradição da medicina

O livro pode ser encomendado por meio da Editora Monergismo

quinta-feira, 15 de junho de 2017

HUMANISMO E CONSERVAÇÃO

Humanismo e Conservação

Serão as Humanidades Médicas um empreendimento conservador?


Antes de tentar responder, é preciso refletir sobre os termos e conceitos a serem utilizados. Tal passo deveria ser básico para qualquer um que queira abrir a boca para opinar, algo a ser feito preferencialmente após longos estudos e muita reflexão.

A expressão humanismo é utilizada no sentido de práticas humanas de engajamento na sociedade por meio da cultura de alta qualidade. Daí se entende que existe uma cultura de alta qualidade, denominada Alta Cultura, e uma cultura de baixa qualidade, hoje chamada indiscriminadamente de cultura, sendo que provavelmente jamais seria chamada de cultura em outros tempos. 

O elemento gerador dessa Alta Cultura nas grandes civilizações, sem dúvida nenhuma, é a religião. Logo, falar de humanismo não significa falar de empreendimento humanístico secularizado, mas de empreendimento humanístico de caráter geral, incluindo a perspectiva religiosa, originadora dos grandes símbolos que alimentam as artes em geral.

Também é preciso entender o significado das palavras “Conservação”, “Conservador” e “Conservadorismo”. Talvez seja mais fácil compreender esses termos falando primeiro sobre aquilo que o conservadorismo não é.

Conservar não é nutrir um sentimento de apreço ufanista pelo passado distante, denegrindo tudo o que hoje existe. O nome disso é saudosismo utópico. O conservador entende que no passado existiram coisas terríveis, e que muito do que hoje temos é fantástico, belo e bom. Ignorar as conquistas do presente é inaceitável.

Conservar também não é nutrir um sentimento de que no futuro teremos um destino perfeito e paradisíaco aqui nesta terra, no qual todo o mal será exterminado pelo esforço humano. O nome disso é progressismo utópico. O conservadorismo tampouco é o inverso do progressismo, este papel cabe ao saudosismo utópico.

Conservar não é a oposição sistemática à mudança. O nome disso é reacionarismo, uma forma de estacionar no tempo e evitar progressos ou retrocessos. O Conservador entende que retroceder e avançar fazem parte da vida.

Conservar não é uma ideologia, é uma forma de sentimento, de apreço pelo que deu certo e pelo que é seguro, sem trancar-se à realidade sempre mutável e, ao mesmo tempo, imutável em certos aspectos.

As Humanidades Médicas são conservadoras no sentido de que buscam recuperar e utilizar o que há de melhor no legado cultural da humanidade sem abrir mão dos aprimoramentos de cada dia. O antigo homem, de milênios anteriores, ainda é em termos humanísticos o homem de hoje. Possui sentimentos e experiências semelhantes em moldes novos. E o profissional da saúde deve compreender a essência humana se deseja ajudar ao próximo.

Apreender o passado é compreender o próximo de outras eras e de outras culturas, é humanizar-se.

Embora muitos liguem o projeto de humanização com base no legado cultural clássico com a idéia de intolerância ou reacionarismo, devo alertar que essa é uma mentira deslavada, pura difamação dos incompetentes e ignorantes que prefeririam morrer a ter que ler mais de vinte livros num ano (o recomendável é mais de cinquenta livros para quem deseja estudar as Humanidades Médicas).

Outros dirão que esse projeto de Humanidades Médicas ligadas ao legado da Alta Cultura pertence ao estudioso da torre de marfim, que se tranca longe do público em meio a seus livros. Outra mentira sem vergonha. Aos livros soma-se a experiência com o próximo. Todo profissional “humanizado” é um comunicador, um ouvinte atento de histórias da vida alheia, um entusiasta apaixonado pela experiência chamada de vida humana.

Com base nesses conceitos, afirmo que não existem Humanidades Médicas sem o empenho conservador corretamente compreendido. Pena que, no Brasil e em boa parte do mundo, a “novafala orwelliana” tenha transformado o termo conservador em tudo aquilo que ele realmente não é.


O paciente idoso, sentindo-se incapaz e sofrido com a aproximação da morte, ganhará muito mais de um profissional experiente que tenha lido Rei Lear de Sheakespeare, O Velho e o Mar de Hemingway, A Morte de Ivan Illitch de Tolstói e A Montanha Mágica de Thomas Mann do que ganharia com um ouvinte de funk carioca e leitor assíduo de quadrinhos da Marvel. Nada contra os ícones da cultura pop, mas nem tudo é uma simples questão de gosto, é uma questão de qualidade real e aplicabilidade.

Literatura e Imaginação Empática

A imaginação permite olhar para o paciente que veio em busca de auxílio e enxergar o mundo através de seus olhos. O médico se coloca no lugar do paciente e, de repente, está com câncer, será pai, encontra-se curado de uma doença grave ou apresenta um transtorno psiquiátrico. A imaginação é, de fato, um prodígio. Ela ergue pontes entre diferentes pessoas. Une mundos e enriquece vidas.

O médico, o enfermeiro ou o assistente social são capazes, por meio da experiência, do diálogo e da imaginação, de entrar no mundo alheio e compreender valores e perspectivas diferentes da sua. Como alguém ousa debater Bioética e Humanidades Médicas sem ter uma boa experiência de vida e uma larga intimidade com a cultura?

O crítico literário canadense, Northrop Frye, oferece em sua coletânea de ensaios preciosas observações sobre como a literatura enriquece nossa imaginação e promove a participação positiva e qualificada na sociedade.


Uma das utilidades mais óbvias (de se estudar o mundo da imaginação), penso eu, é o incentivo à tolerância: na imaginação as nossas próprias crenças são simples possibilidades, e ainda enxergamos as crenças das possibilidades alheias. Fanáticos e preconceituosos raramente tentam tirar algum proveito da arte – estão obcecados demais por suas crenças e ações para enxergá-las como talvez simples possibilidades.

O que produz a tolerância é o poder do distanciamento imaginativo, que nos permite tirar as coisas do alcance da ação e da crença. [1]

O médico que mergulha nas Humanidades vê muitas vidas nas páginas dos livros, nos lares e nos leitos das enfermarias hospitalares. Atende a um rico burguês ou a um presidiário escoltado com dedicação e excelência. Sabe que está lá para servir, não para julgar. Consegue imaginar-se na pele de um santo ou de um pecador, pois sabe que guarda elementos de ambos em sua alma, nutrida pela vida e pela Alta Cultura.

As construções da imaginação contam-nos coisas sobre a vida humana que não poderíamos saber de nenhum outro jeito.[2]

Hoje, no Brasil, as cadeiras relacionadas às humanidades parecem remar contra a maré milenar da Alta Cultura, censurando opiniões divergentes, apelando para o autoritarismo acadêmico e para a espiral do silêncio, proibindo certos nomes e obras, transformando o discurso erudito numa monótona cacofonia de poucos tons. Pessoas são divididas em classes ou grupos abstratos enquanto suas identidades, sua individualidade, são desacreditadas por sociólogos do Gulag.

Nos consultórios, postos de saúde e hospitais estão pacientes sofridos, ameaçados em sua integridade, gritando por socorro àqueles que verão um indivíduo, jamais um número numa pauta ou um objeto numa casuística. Pessoas sofridas não querem ser, de regra, burgueses, proletários ou revolucionários, eles querem ser a Dona Maria, o Seu João ou o Arthurzinho.

Como compreender uma individualidade sem imergir em incontáveis individualidades, pensamentos e emoções? Tais experiências são providas pela boa formação humanística, incluindo a boa literatura.

E, tantas vezes, fica a comunicação impedida ou restrita, pois a carência cultural omite significados, emudece sofrimentos. O médico precisa compensar a dificuldade de comunicação de seu paciente por meio do próprio crescimento cultural e imaginativo.

Ninguém é capaz de manifestar liberdade de expressão a menos que saiba usar a linguagem, e este conhecimento não é uma dádiva: precisa ser aprendido e trabalhado.

Não se pode cultivar o discurso para além de certo ponto a menos que se tenha algo a dizer, e o fundamento do que temos a dizer é a nossa visão da sociedade.[3]

A propaganda enganosa que tenta convencer o jovem de que liberdade é abandonar a “cultura ocidental” nada mais é do que oferecer as correntes espirituais que subjugarão a juventude, a imaginação e a verdadeira liberdade de seus corações. As Humanidades Médicas bem aplicadas oferecerão os recursos culturais mais elaborados de todas as eras com o intuito de permitir a livre e qualificada ação da imaginação.

Mas a tentação de ceder ao discurso mesmerizante dos ideólogos é grande.

Há em todos nós algo que quer se deixar levar ao encontro de uma turba, onde podemos todos dizer a mesma coisa sem precisar pensar no assunto, porque ali somos todos iguais, exceto aqueles que podemos odiar ou perseguir. A cada vez que usamos as palavras, estamos enfrentando essa tendência ou cedendo a ela. Ao enfrentá-la, tomamos partido da genuína e permanente civilização humana.[4]

A verdadeira liberdade das Humanidades Médicas é poder falar como um pobre nordestino do agreste, Fabiano em Vidas Secas de Graciliano Ramos, ou como Mário, médico de A Mulher que Fugiu de Sodoma de José Geraldo Vieira. É poder ser irônico e sutil como Machado de Assis, divertido e culto como Monteiro Lobato ou hiperbólico e veemente como Nelson Rodrigues.

Só quem busca e mergulha na alta cultura pode realmente pensar com qualidade e compreender o próximo com a verdadeira empatia compassiva, tão necessária para a medicina e para a convivência em sociedade, hoje e sempre.

E como buscar a Alta Cultura sem recorrer aos blocos fundamentais, já prescritos há eras? O próprio William Osler já recomendava a mesma leitura aos seus alunos de medicina, assim como recomenda também Northrop Frye:

Se não conhecemos a Bíblia e as histórias centrais da literatura grega e romana, por mais que leiamos livros e frequentemos o teatro, o nosso conhecimento da literatura não cresce, assim como não cresce o nosso conhecimento da matemática se não aprendemos a tabuada da multiplicação. Esbarramos aqui num problema educacional – o que se deve ler e quando.[5]

O Aspecto Conservador das Humanidades Médicas

Utilizarei alguns trechos do conservador Roger Scruton para tratar do aspecto conservador das Humanidades Médicas.


Na natureza tudo tende ao caos, à desorganização. Contudo, há a possibilidade de inserir um elemento regenerador na realidade.

A entropia está sempre crescendo e qualquer organismo, qualquer sistema ou qualquer ordem espontânea irá no longo prazo sofrer a dissolução. No entanto, mesmo se isso for verdade, tal fato não torna o conservadorismo fútil como prática política, assim como não se torna fútil a medicina simplesmente porque no longo prazo todos morreremos, como Keynes sabidamente colocava a questão. Ao invés disso, devemos reconhecer o conciso resumo da filosofia de Lorde Salisbury e aceitarmos que “procrastinar é viver”. O conservadorismo é a política da procrastinação, cujo propósito é manter a existência, por tanto tempo quanto seja possível, da vida e da saúde de um organismo social.

Além do mais, a termodinâmica também nos ensina que a entropia pode indefinidamente ser resistida no nível local, injetando nova energia e excluindo a dissolução (o caos).

Enquanto o socialismo e o liberalismo são inerentemente globais em seus objetivos, o conservadorismo é essencialmente local: uma defesa de um capital social recôndito contra as forças da mudança anárquica.[6]

Fala-se muito em multiculturalismo no ambiente das humanidades e jovens estudantes são treinados dia após dia a exercerem uma crítica destrutiva contra a civilização ocidental e a cultura da própria sociedade como se isso fosse sinal de grande inteligência e capacidade de independência. Como papagaios, destinam as mesmas críticas a autores que nunca foram lidos ou a textos que mal foram compreendidos. É como se todos fossem pequenos Nietzsches com analfabetismo funcional.

Como entender a perspectiva do próximo se alguém não é capaz de entender nem mesmo a civilização em que vive? Se alguém não entende sua comunidade e seu passado, como deseja entender o paciente à sua frente? Como ambiciona entender seus antecedentes, sua biografia? Ou até mesmo o próprio passado?

Essa reconstrução cordial do passado e da cultura é elemento essencial ao esforço de humanização não só em saúde, mas em todas as áreas da sociedade.

Criticar a própria sociedade com bons olhos somente para o que vem de fora é como comparar um Shopping ocidental com uma belíssima mesquita oriental. Por que não comparar o elemento religioso da cultura oriental com uma majestosa catedral gótica em sua plena glória? 

Sobre a postura diante do próximo, a tradição conservadora também tem muito a oferecer em termos de cordialidade e compreensão.

O entendimento conservador da ação política é formulado, portanto, como uma regra em termos de confiança ao invés de empreendimento, de conversação ao invés de comando, de amizade ao invés de solidariedade.[7]

Nesse contexto, como não visualizar uma relação médico-paciente saudável?

Também é típica do conservador uma atitude cautelosa diante da realidade e do inesperado, tão bem demonstrada pelo pensador Hans Jonas em sua obra Princípio Responsabilidade. Há que se temer a capacidade humana diante de certas perspectivas e utilizar de prudência ao avançar.[8]

Um grande avanço social hoje apregoado, se avanço for tomado por modificação somente, é a tentativa de liberar a eutanásia e o abortamento voluntário.

É claro que tais práticas são antiquíssimas, e poder-se-ia muito bem acusá-las de retrógradas ao invés de alardear sua pretensa vanguarda.

Quando o assunto é bioética, modificações no cuidado com a saúde podem anteceder ou sinalizar grandes mutações civilizacionais, como alerta o conservador Sir Roger:

Abolir a lei contra eutanásia poderá trazer benefícios àqueles que sofrem com doenças dolorosas e incuráveis, assim como poderá trazer benefícios aos que cuidam desses pacientes. Mas também irá mudar nossa percepção coletiva acerca da morte. Isso irá diminuir o espanto com o qual é visto o extermínio deliberado do ser humano; irá instilar um hábito calculista onde antes somente os absolutos guiavam nossas condutas; e, de forma geral, isso fará com que seja mais fácil lidar com a morte e que também seja mais fácil providenciá-la.[9]

Ter essa cautela acerca das possíveis mutações de grande porte na cultura de nossa civilização e ter a imaginação necessária para compreender onde isso pode nos levar é algo oferecido pelas Humanidades Médicas.

Excelente literatura está disponível para nos alertar, ou fazer-nos sonhar, a respeito das incríveis possibilidades do ser humano. Do Admirável Mundo Novo de Huxley ao terrível 1984 de Orwell, a riqueza imaginativa ofertada parece inesgotável.

Assim como a eutanásia, muita coisa do que nossa civilização representará depende das escolhas feitas sobre como valorizamos a vida de nossos filhos atuais ou futuros.

Logo, quando as pessoas pressionam para que haja uma reforma na lei concernente ao aborto, de forma a legalizar o abortamento nas três primeiras semanas da gravidez, nenhuma tentativa para alcançar um entendimento consensual acerca de nossos deveres em relação às crianças nos úteros foi feita; nenhuma tentativa foi realizada para verificar qual o impacto da legalização do abortamento durante os três primeiros meses sobre nossas atitudes concernentes a abortamentos posteriores na gravidez; nenhuma tentativa foi feita de verificar as mudanças de longo prazo nas atitudes das pessoas em relação às crianças, atitudes essas induzidas pela prática de livrar-se das mesmas crianças de forma tão fácil antes mesmo de ter a chance de olhá-las nos olhos. Todas as questões profundas, difíceis e importantes foram deixadas de lado.[10]

A falta da consciência dessas delicadas questões pode culminar num dos problemas mais graves para os atuais cuidados médicos: a falta de respeito e valorização em relação ao ser humano.

Para respeitar verdadeiramente, é preciso compreender com compaixão. Para compreender, é necessária imaginação. Para imaginar, é preciso ter experiência de vida e cultura de altíssima qualidade. Para ganhar essa cultura, um dos requisitos primários é o diálogo entre gerações distantes, é a compreensão do passado e de nossa biografia, de muitas biografias.

A crença essencial ao conservadorismo moderno é a crença no contrato Burkeano entre os vivos, os mortos e os ainda não nascidos. E, como Burke afirma, somente aqueles que podem ouvir os mortos são capazes de proteger os não nascidos. A teoria complexa de tradição de Eliot fornece sentido e forma a essa idéia. Pois ele deixa claro que o mais importante legado que as futuras gerações podem herdar de nós é o cultural. A cultura é o depositário de uma experiência que é ao mesmo tempo local e que permeia todos os locais, presente e atemporal, é a experiência de uma comunidade santificada pelo tempo. Só passaremos isso adiante se nós também herdarmos essa cultura. Para isso, deveremos escutar as vozes dos mortos e apreender seu sentido (...)[11]

Considerando esses aspectos, posso afirmar que o projeto adequado de humanização da medicina e das demais áreas da saúde precisa de uma perspectiva conservadora no melhor sentido da expressão.


Hélio Angotti Neto, 15 de junho de 2017.



[1] FRYE, Northrop. A Imaginação Educada. Campinas, SP: Vide Editorial, 2017, p. 68.
[2] Ibidem.
[3] Ibidem, p. 128.
[4] Ibidem, p. 132.
[5] Ibidem, p. 61.
[6] SCRUTON, Roger. A Political Philosophy. Arguments for Conservatism. London; New Delhi; New York; Sydney: Bloomsbury, 2006, p. ix.
[7] Confiança está associada com Burke, Moser e Gierke; conversação com Oakeshott; amizade com Aristóteles. Ibidem, p. 34.
[8] JONAS, Hans. O princípio responsabilidade. Ensaios de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio & Contraponto, 2011.
[9] SCRUTON, Roger. A Political Philosophy. Arguments for Conservatism. London; New Delhi; New York; Sydney: Bloomsbury, 2006, p. 68.
[10] Ibidem, p. 69.
[11] Ibidem, p. 207.