terça-feira, 27 de novembro de 2018

A LITERATURA COMO REMÉDIO, de Dante Gallian

A LITERATURA COMO REMÉDIO
Os Clássicos e a Saúde da Alma

Entrei em contato com o Professor Dante Gallian em 2013, no Congresso Internacional de Humanidades Médicas realizado na Universidade Federal de São Paulo. O Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina acabara de começar, e lá eu apresentava meus primeiros resultados e minha fundamentação teórica, e aprendia um pouco da experiência de outros professores na nobre tentativa de humanização da saúde. Foi com alegria que recebi um exemplar de seu livro, que reconta sua trajetória e expõe seus ideais. Livro este que me foi presenteado por uma amiga em uma reunião justamente dedicada ao estudo em conjunto da Alta Cultura literária e da filosofia! Não poderia haver melhor presente.

O livro inicia com a reconstrução da história sobre como surgiu o Laboratório de Humanidades Médicas (LABHUM), e de como ideais se transformaram e se sistematizaram em pesquisas que, aos poucos, ganharam merecido reconhecimento internacional. O LABHUM, dedicado primariamente aos alunos de medicina da UNIFESP, gerou uma iniciativa denominada de Laboratório de Leitura (LabLei), que se estendeu para a comunidade e para o meio corporativo, e se ramificou, inclusive, em grupos de leitura domiciliar.

O uso humanístico da literatura para formar um ser humano integral é fundamentado no capítulo 2 do livro de Gallian: A Literatura como Remédio. O papel formativo da literatura é relembrado e enfatizado de forma ousada, ecoando uma antiga crítica ao tecnicismo cientificista e ao reducionismo da educação.

Curiosamente, entretanto, aquilo que hoje é visto como algo de importância relativa e complementar (espécie de verniz cultural ou erudição) foi, em todas as culturas humanas, das mais primitivas às mais sofisticadas, o elemento estruturador por excelência.[1]

As narrativas, componente do discurso poético tão bem descrito por Olavo de Carvalho em sua obra Aristóteles em Nova Perspectiva,[2]nos fornecem o “efeito pedagógico do exemplo”, conforme Jaeger,[3]e encarnam, muitas vezes, os mitos fundadores de toda uma civilização.[4]

Coerentemente com esta função de determinação da identidade e do ethosda comunidade, as narrativas desempenhavam também um papel essencial no processo de formação de seus indivíduos.[5]

Nesse contexto formativo, disponibilizar a leitura dos clássicos realmente assume um papel estruturador e terapêutico em uma sociedade amontoada de indivíduos cada vez mais solitários e culturalmente alienados, embora cada vez mais espremidos em grandes centros urbanos. As narrativas permitem a compreensão do próximo e a expressividade, promovendo o fenômeno de catarse, pois “desde os tempos homéricos, que ‘a arte tem um poder ilimitado de conversão espiritual’; um extraordinário poder humanizador”.[6]

Para isso, Gallian ressalta que o que se espera não é a leitura ressequida e sistematizada dos que se dizem críticos literários, mas uma leitura aberta, disposta a embarcar na viagem para a qual nos chama o autor de cada clássico, uma leitura pautada pelo que Samuel Taylor Coleridge chamava de Suspension of Disbelief.

No capítulo III, Gallian explica em detalhes o funcionamento do LabLei, incluindo o Itinerário de Discussão – que visita a obra escolhida em etapas – e uma síntese ao final de um ciclo denominada Histórias de Convivência, na qual o participante poderá realizar o “balanço, a síntese de toda a experiência laboratorial vivenciada”.[7]

Com excertos oferecidos pelos participantes, Gallian oferece ao leitor os resultados que podem ser esperados por aqueles que mergulham na leitura em grupo dos clássicos no capítulo final: (1) a experiência da leitura torna-se prazerosa – é despertada – e sofre importante potencialização e, com isso, aumenta-se o poder de compreensão do leitor; (2) o horizonte cultural e intelectual é amplificado, fomentando o desenvolvimento de habilidades; (3) questões essenciais da existência humana são confrontadas, o que gera repercussões na formação pessoal e na vivência ética em sociedade; (4) a humanização de si e a consequente abertura empática para o próximo; (5) e um efeito catártico e terapêutico.

Dante Gallian está de parabéns, pois compreendeu que a literatura tem seu valor para todos. Seu empreendimento cultural, iniciado em uma tradicionalíssima escola de medicina, encontra-se entre aquelas preciosas iniciativas que compreenderam que “em todas as profissões, um conhecimento da literatura geral é de grande importância para um amplo intercâmbio com a humanidade.”[8]

Hélio Angotti Neto

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 Hélio Angotti Neto é médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo com Residência Médica em Oftalmologia e Doutorado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atua como Professor e Coordenador do Curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo. É Presidente do Capítulo de História da Medicina da Sociedade Brasileira de Clínica Médica (Triênio 2017-2020), membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e Delegado do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo em Colatina (2018-2023). Foi Global Scholar do Center for Bioethics and Human Dignityda Trinity International Universityem 2016 (Illinois, USA) e é Diretor Editorial da Mirabilia Medicinae, publicação em Humanidades Médicas sediada no Institut d’Estudis Medievalsda Universidad Autónoma de Barcelona. Publicou os livros: A Morte da Medicina; A Tradição da Medicina; Disbioética Volume 1: Reflexões acerca de uma estranha ética; Disbioética Volume 2: Novas Reflexões Sobre uma Ética Estranha; Disbioética Volume 3: O Extermínio do Amanhã; Arte Médica: De Hipócrates a Cristo; além de diversos capítulos de livros e artigos em Oftalmologia, Bioética, Política e Humanidades Médicas. Criador e Coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina. É Presbítero da 3ª Igreja Presbiteriana de Colatina. Casado com Joana e pai de Arthur, Heitor e André.


[1]GALLIAN, Dante. A Literatura como Remédio. Os Clássicos e a Saúde da Alma. São Paulo, SP: Martin Claret, 2017, p. 59-60.
[2]CARVALHO, Olavo de. Aristóteles em Nova Perspectiva. Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Campinas, SP: Vide Editorial, 2014.
[3]GALLIAN, op. cit., p. 63.
[4]PETERSON, Jordan. Maps of Meaning. The Architecture of Belief. New York & London: Routledge, 1999.
[5]GALLIAN, op. cit., p. 61.
[6]Ibid., p. 64.
[7]Ibid., p. 134.
[8]YALE, Universidade de. A Educação Superior e o Resgate Intelectual. O Relatório de Yale de 1828. Campinas, SP: Vide Editorial, 2016.

Desmontando falácias abortistas. Parte 1 – A Incrível História do Maravilhoso Amontoado de Células

A Incrível História do Maravilhoso Amontoado de Células



A Mentira: "O embrião é um amontado de células. Não é certo chamá-lo de ser humano, pois, conforme a ciência afirma, ainda não formou sistema nervoso central. Além do mais, quando se declara ausência de função cerebral em um paciente em estado grave, é o que se chama de morte encefálica. Portanto, não se considera vida um embrião que ainda nem tem sistema nervoso central".

Vamos começar desmontando um dos pacotes falaciosos mais utilizados, a mentira que eu gosto de denominar de “A Incrível História do Maravilhoso Amontoado de Células”.

Antes de começar, é preciso deixar bem claro que somente as pessoas mais ignorantes, mais incompetentes ou mais imbuídas de má-fé na argumentação ousariam afirmar que o embrião ou o feto não é um ser humano vivo. Os principais bioeticistas que defendem o aborto no mundo - como Tooley, Peter Singer, David Boonin e Mary Anne Warren - afirmam taxativamente que o feto é um ser biologicamente humano, mesmo que ousem negar o reconhecimento de seu statusmoral e da dignidade plena do ser humano.[1]

Contudo, como abortistas de regra não se prendem a distinções de qualidade em termos de argumentação ou ciência – e teremos tempo de ver estas perspectivas em breve – vamos descascar até mesmo essas pseudoargumentações mais rasas e estapafúrdias.

Imagine a seguinte situação hipotética, já enunciada pelo implacável debatedor Ben Shapiro: o simpático robô que vaga pela superfície de Marte coleta um material e envia à Terra evidências inegáveis de que, sobre o solo marciano, se encontram células bem primitivas e simples. Não haverá a menor dúvida. Gritariam a plenos pulmões e seria manchete das primeiras páginas que a vida foi encontrada em Marte! Com ponto de exclamação e tudo o mais.[2]

Voltemos à realidade e ao nosso pequenino planeta Terra.

Tanto a célula do zigoto quanto o grupamento de células que formam o embrião são absurdamente complexos. Tais células, desde o momento em que eram somente uma célula, possuem no seu núcleo um código genético que determinará em grande parte sua forma, e esse código é irrecusavelmente humano.

As reações bioquímicas que, desde o momento mais precoce, logo após a união entre o gameta masculino e o feminino, cada um contendo metade do código genético presente no núcleo – e o gameta feminino contendo o código genético das mitocôndrias –, são extremamente complexas e funcionais. Tudo acontece rumo ao desenvolvimento de um ser cada vez maior, mais interativo e com maior grau de independência – ou menor grau de dependência, a considerar da perspectiva.[3]

Se o embrião for um amontoado de células, todos nós, sem exceção, seremos também amontoados de células. E se amontoados de células podem ser destruídos, todos nós poderemos ser assassinados. É uma questão de lógica.

Amontoados de células, por exemplo, seriam cutículas empilhadas de diversos clientes de uma manicure ao fim do dia. Amontoados de células são hambúrgueres prestes a serem cozinhados no fast-foodda esquina. O embrião, por outro lado, é um ser vivo, organizado, executando funções bioquímicas orientadas ao desenvolvimento crescente de interação e autonomia relativa e parte de um complexo sistema composto por inúmeros seres vivos e elementos inorgânicos de apoio.

A única desculpa para chamar um embrião de amontoado de células talvez seja a existência de um amontoado de células a ocupar o lugar onde deveria existir um cérebro humano.

Sobre o critério de que um ser humano só pode ser assim chamado após desenvolver seu Sistema Nervoso Central, é preciso deixar bem claro que é de uma arbitrariedade absurda.

A primeira coisa que qualquer estudioso do desenvolvimento humano irá afirmar é que não há barreiras claras entre as etapas do desenvolvimento humano. Nós somos produto de um contínuo processo de mudança, repleto de evoluções e involuções. Nós somos uma complexa mistura de avanços e retrocessos, de potenciais revelados ao longo de uma vida.

Já há indícios de Sistema Nervoso Central antes das doze semanas, e seu desenvolvimento prossegue ao longo de toda a vida humana. Após nascer, há estupendas transformações no cérebro humano e na visão humana, por exemplo, por anos após o parto ter acontecido.[4]

O terceiro grande engodo é dizer que, já que podemos declarar morto um paciente com ausência de função cerebral, poderíamos igualmente declarar não vivo ou destituído de statusde pessoa um feto ou embrião no qual o Sistema Nervoso Central ainda não estivesse minimamente formado.

Essa analogia não passa de comparar alhos com bugalhos. Um paciente com diagnóstico de morte encefálica está com suas possibilidades de vida encerradas. Já um feto, mesmo que não tenha aquilo que certos abortistas teimam em denominar de Sistema Nervoso Central “desenvolvido”, está justamente no polo oposto, repleto de potencialidades de vida. Aquele está extinguindo suas funções vitais, este, por outro lado, as está iniciando.

Fazendo uma analogia econômica dessa primeira analogia porca entre aquele que morre e aquele que acaba de nascer, poderíamos dizer que tanto uma empresa decadente que logrou grande sucesso no passado e  que está fechando suas portas por ter declarado falência e não ter mais dinheiro para pagar suas contas, quanto outra empresa, que tem em caixa uma quantidade de dinheiro semelhante àquela primeira, mas que acaba de ser criada e está em processo de expansão, sem dívidas, têm o mesmo statuseconômico. Não faz o menor sentido.

O que nos mostra a ciência de boa qualidade e a filosofia é que o embrião e o feto são seres humanos extremamente complexos e repletos de potencial de vida. Qualquer outra coisa é mera especulação fantasiosa ou negação histérica da realidade.

Hélio Angotti Neto

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Hélio Angotti Neto é médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo com Residência Médica em Oftalmologia e Doutorado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atua como Professor e Coordenador do Curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo. É Presidente do Capítulo de História da Medicina da Sociedade Brasileira de Clínica Médica (Triênio 2017-2020), membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e Delegado do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo em Colatina (2018-2023). Foi Global Scholar do Center for Bioethics and Human Dignityda Trinity International Universityem 2016 (Illinois, USA) e é Diretor Editorial da Mirabilia Medicinae, publicação em Humanidades Médicas sediada no Institut d’Estudis Medievalsda Universidad Autónoma de Barcelona. Publicou os livros: A Morte da Medicina; A Tradição da Medicina; Disbioética Volume 1: Reflexões acerca de uma estranha ética; Disbioética Volume 2: Novas Reflexões Sobre uma Ética Estranha; Disbioética Volume 3: O Extermínio do Amanhã; Arte Médica: De Hipócrates a Cristo; além de diversos capítulos de livros e artigos em Oftalmologia, Bioética, Política e Humanidades Médicas. Criador e Coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina. É Presbítero da 3ª Igreja Presbiteriana de Colatina. Casado com Joana e pai de Arthur, Heitor e André.



[1]KACZOR, Christopher. A Ética do Aborto. Direitos das Mulheres, Vida Humana e a Questão da Justiça. São Paulo: Edições Loyola, 2014, p. 26.
[2]Vídeo disponível com tradução para o Português em: https://www.youtube.com/watch?v=NbXC30Zea18&-feature=youtu.be
[3]ANGOTTI NETO, Hélio. Disbioética. Volume III: O Extermínio do Amanhã. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2018, p. 107-112.
[4]Ibid., p. 49-53.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Dysbioethics Volume III

Volume III of Dysbioethics deals with a current theme in Brazil: before being brought to light, what is the being found in the womb of a woman? A human being or not? Is it right to abort him?

For many people, influenced by the ideals of the left, the response begins with "a heap of cells," then passes to "is not a human being" and ends with a loud and resounding "yes." For another part of the population, however, the answer is "I do not care". And for the majority of the population, still under the Christian culture, or adept of its main branches, the answer will always be "a human being; from conception to birth; it's wrong to murder him deliberately. "

Dr. Hélio Angotti Neto deals with all these issues and competently clarifies the situation from a medical point of view. He also deals with these important issues: Why is the issue important considering public policy? Is not this, after all, an intimate topic?; How one can deal with abortion advocates? What are the arguments of these people? Their goals really consist of what?

In addition, dr. Helio also gives us some very important rules for the public debate on this and any other issue of "polemical" character and makes us reflect on how we can dialogue with even those who wish evil for us.

The book also contains a very special appendix that deals with the decision of the Federal Supreme Court of Brazil on abortion, written by Eduardo Luiz Santos Cabette.

This subject is literally a case of life and death!

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

DISBIOÉTICA VOLUME III - O EXTERMÍNIO DO AMANHÃ


DISBIOÉTICA VOLUME III


O volume III de Disbioética trata de um tema muito mais que atual no Brasil: antes de ser trazido à luz, o que é o ser que se encontra no ventre de uma mulher? Um ser humano ou não? É correto abortá-lo?
Para muitas pessoas, influenciadas pelos ideais da esquerda, a resposta começa com “um amontoado de células”, passa para “não é um ser humano” e termina com um prepotente e retumbante “sim”. Para outra parte da população, entretanto, a resposta não passa de “não me importa”. E para a maioria da população, de cultura influenciada pelo cristianismo, ou adepta de seus principais ramos, a resposta sempre será “um ser humano, da concepção ao nascimento; é errado assassiná-lo de forma deliberada”.
Dr. Hélio Angotti Neto lida com todos esses temas e esclarece com competência a situação do ponto de vista médico. Ele também lida com estas questões importantes: “Por que a questão é tão importante como política pública? Não se trata, afinal, de um tema de foro íntimo?”; “Como lidar com quem defende o aborto? Quais são os argumentos dessas pessoas? Seus objetivos consistem de fato em quê?”
Além disso, dr. Hélio também nos repassa algumas regras importantíssimas para o debate público sobre esse e qualquer outro tema de caráter mais “polêmico”, e nos faz refletir sobre como dialogar até mesmo com quem deseja o mal para nós.
O livro contém ainda um apêndice muito especial que trata da decisão do Supremo Tribunal Federal do Brasil sobre o aborto, escrito por Eduardo Luiz Santos Cabette.
Este assunto é literalmente um caso de vida ou morte!
Adquira o livro em: https://editoramonergismo.com.br/products/disbioetica-volume-iii 
ISBN: 978-85-69980-78-0
Editora: Editora Monergismo
Data de Publicação: 2018
Número de Páginas: 210
Dimensões: 14 x 21 cm

Hélio Angotti Neto é Presbítero da 3ª Igreja Presbiteriana de Colatina, médico pela Universidade Federal do Espírito Santo, especialista em Oftalmologia pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e Doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina da USP.
Atualmente é professor e coordenador do Curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo, Diretor Editorial da Mirabilia Medicinæ (publicação especializada em Humanidades Médicas), coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina e Presidente do Capítulo de História da Medicina da Sociedade Brasileira de Clínica Médica (Triênio 2017-2020). É membro do Center for Bioethics and Human Dignity (Global Scholar do CBHD em 2016), do Comitê de Ética em Pesquisa da UNESC e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia. Marido de Joana Gonçalves Soares Angotti e pai do Arthur e do Heitor, mora em Colatina, interior do Espírito Santo.

RUMOS DA ÉTICA MÉDICA

RUMOS DA ÉTICA MÉDICA BRASILEIRA

Tive a oportunidade de falar um pouco sobre o Juramento de Hipócrates, a Ética Médica, a Bioética e a identidade de um bom médico no Congresso Brasileiro de Clínica Médica em Belo Horizonte, no dia 06 de outubro de 2017.
A plateia presenta continha aproximadamente oitenta estudantes de medicina de diversas instituições[1]e médicos de diversos lugares do Brasil. 
Foi muito bom rever também alguns que foram alunos e hoje são colegas formados, como o Jackson, que participou do primeiro ciclo do SEFAM em 2012, e alunos que mudaram para outras instituições de ensino no decorrer da carreira acadêmica. Belo Horizonte ficou com a cara de Colatina ao ver também tantos alunos do UNESC participando do evento, interagindo nas palestras e exibindo trabalhos.
As perguntas durante a palestra foram bem instigantes, e poderiam render diversas outras apresentações. Além das curiosidades típicas do Juramento de Hipócrates e de seu contexto antigo e contemporâneo, colegas e alunos perguntaram a respeito do papel da Bioética na identidade atual do médico e a respeito dos atuais desvios éticos na medicina; perguntaram sobre Van Potter e o surgimento da Bioética e sobre como humanizar a medicina. 
Foram lembradas as situações humilhantes e desnecessárias que tantas vezes ocorrem na medicina ao invés do elo de respeito e profunda amizade entre mestres e aprendizes que se observa na ética tradicional e discutimos o que é ser corporativista e elitista no bom sentido.
Falamos sobre a preocupante experiência com a eutanásia, o aborto e o suicídio assistido nos países baixos, e como o Conselho Federal de Medicina já tentou aprovar certas medidas ligadas à Cultura da Morte nada populares anteriormente.
Os aspectos mais básicos da ética hipocrática foram ressaltados, e alguns espantalhos, como o paternalismo hipocrático, foram discutidos e contextualizados.
O ponto em que todos concordaram, provavelmente, foi o da percepção que dias difíceis chegaram para a medicina de qualidade no Brasil. Dias de submissão profissional a planos políticos e dias de massificação e perigosa mediocrização da profissão.
O tempo à frente não é fácil, vivemos os piores dos dias, e vivemos os melhores dos dias, em diferentes perspectivas. Há uma crise instalada e outra a caminho, que poderá mudar irremediavelmente a identidade do médico brasileiro e remexer a nossa qualidade profissional. 
Nesse cenário desafiador, antigos lembretes devem ser resgatados. Martin Luther King Jr. disse com muita propriedade que o problema não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons. Também disse que no final, não nos lembraremos das palavras de nossos inimigos, mas do silêncio de nossos amigos. Somos chamados à coragem justamente nesses tempos de grande crise, e somos desafiados a resgatar o que há de melhor na identidade da nobre profissão médica.
Que os médicos ousem dedicar-se a manter acesa a chama da profissão médica e a transmitir aos mais novos o que de melhor recebemos de nossos predecessores. Que médicos exemplares dividam sua prática não somente com os pacientes, mas com a nova geração que precisa de bons exemplos. Negligenciar essa necessidade é trair os altos ideais profissionais que, por milênios, fizeram a medicina ser uma amada e respeitada profissão.
Que nós não possamos ser exemplos do conhecido poema de William Butler Yeats: “The best lack all conviction, while the worst are full of passionate intensity”. Sejamos os melhores, e sejamos intensos em nossa busca pela excelência e pelo bem do próximo.
Hélio Angotti Neto.
07 de outubro de 2017, Colatina – ES.


[1]Havia alunos da UVV, UNIFESO, Multivix, UNICSAL, UFAL, UEL, UFOB, FASA, UEPA, UNIPAM, UNOESTE, UFJF-GV, UFJVM e do UNESC.

sábado, 4 de agosto de 2018

ASCENSÃO E QUEDA DA ESQUERDA BRASILEIRA

DIALÉTICA, CONTRADIÇÃO E BURRICE - ASCENSÃO E QUEDA DA ESQUERDA BRASILEIRA

Uma análise relativamente rápida nos mostra um cenário em rápida evolução cultural.

No passado, a esquerda entrou nas cátedras universitárias e nas demais posições de influência na sociedade. Executaram com primor a marcha Gramsciana para dentro das instituições. Intelectuais orgânicos dedicaram suas vidas ao estudo e à estratégia. Foram muito bem sucedidos e suas táticas mostraram-se muito bem sucedidas.

Porém, havia um elemento contraditório que, inevitavelmente se mostraria problemático. Como Olavo de Carvalho aponta de forma magistral, nossa esquerda subia amparada intelectualmente por dois grandes nomes: Gramsci e Raimundo Faoro. Marcharam para dentro das instituições para controlá-las com o discurso e a justificativa de quebrar o velho e tosco patrimonialismo.

Só que eles se transformaram justamente na epítome patrimonialista, fisiológica, autoritária e burra de nossos tempos! Do casulo não saiu a borboleta, saiu uma larva ainda mais asquerosa e pegajosa. Ao entrar nas instituições, eles se transformaram no estamento superior de nossa sociedade. Eles eram os atores descritos por Faoro!

Acostumados ao poder, tornaram-se lenientes. Inseridos nos cargos administrativos e de chefia, utilizaram a força e a burocracia para promoverem sua agenda ideológica, e deixaram os cérebros para trás. A queda da inteligência, tão inevitável quanto a transformação em nova elite, começara. O livro O Imbecil Coletivo, do grande diagnosticador e filósofo brasileiro, gritou a plenos pulmões o ridículo da nova esquerda tupiniquim. 

Agora, observo a esquerda cair de podre. Inseridos no poder, não restou inteligência, tampouco o verniz de civilidade, somente os trejeitos da malandragem cômica da brasilidade marota. Mesmo ocupando os postos culturais e a mídia de massa, sua feiura moral e mental se revela a quem quer que abra os olhos. 

Destituídos dos meios estratégicos e intelectuais que efetivamente os levaram ao poder, apelam para os fraquíssimos chavões e vulgaridades que abundam nos canais de televisão e jornalecos que serviriam melhor para embrulhar fezes caninas largadas nas ruas. 

O gás intelectual da esquerda acabou. A maioria da população assiste constrangida ao show de horrores de uma cultura demolida, de uma inteligência decaída. As causas tornam-se cada vez mais excêntricas, cada vez mais apelativas e chocantes: abortismo, pedofilia, bandidolatria etc. Talvez seja um último esperneio tentando maquiar o profundo ridículo no qual se encontram, um truco final apostando na burrice universal, na cegueira absoluta daqueles que desejam manipular. Como a serpente (ou galinha) que perde a cabeça, seu corpo ainda se contorce, e ainda controlam os meios, mesmo que seus propósitos sejam absurdos e a inteligência que os levou até lá esteja morta.

Tolos mesmerizados repetem figuras de linguagem relativistas desacreditadas desde os tempos gregos antes do Cristo como se fossem elegantes formulações da alta filosofia. Cegos guiados por cegos. 

A maioria da população hoje é conservadora em costumes e relativamente liberal em termos econômicos. A juventude, todavia, em boa parte envenenada pelo discurso odiento da esquerda, destilado nos cursos de humanas, pode ser tentada a seguir o caminho mais fácil, o caminho da arbitrariedade, da violência e da falsa superioridade, mas até mesmo eles já despertam.

O risco talvez seja acreditar que a solução para a esquerda seja a ascensão da direita, seu mover o pêndulo para o outro lado. É um pensamento fácil e abstrato. Grotesco, eu diria. A solução para o cenário atual é adquirir inteligência, agir com bondade e cuidar do próximo que está a seu lado. 

Sim, eu estou à direita do espectro político, com forte tendência ao conservadorismo cultural e ao liberalismo econômico. Sim, eu considero esta a posição mais digna, moral e inteligente que existe neste momento. Contudo, utilizar isso como rótulo ou refúgio é ceder à cruel dialética das abstratas figuras de linguagem e aos reducionismos que atentam diretamente contra a boa filosofia e a inteligência. A esquerda caiu na própria dialética. Que não se faça o mesmo dos outros lados.

Hélio Angotti Neto





quarta-feira, 25 de julho de 2018

DOENÇA FILOSÓFICA


Muitos problemas de nossa sociedade não se devem a causas orgânicas ou puramente psíquicas. Estão mais para distúrbios filosóficos, capazes de gerar doenças e loucuras em preocupantes proporções.

Se diagnosticamos doenças físicas, emocionais e psíquicas, falta a nós instrumentos adequados como aqueles propostos por Constantin Noica. Precisamos diagnosticar doenças derivadas da má interpretação da realidade, doenças noológicas.


"As pessoas deveriam se proteger não apenas de médicos delinquentes e farsantes, mas também de políticas sanitárias antissociais e de filosofias patológicas. Philosophia sana in ars medica sana." (BUNGE, Mario. Medical Philosophy. Conceptual Issues in Medicine. Singapore: World Scientific, 2013, p. xvi.)

domingo, 22 de julho de 2018

DISBIOÉTICA VOLUME 2

DISBIOÉTICA VOLUME 2
Novas Reflexões sobre os rumos de uma ética estranha.


In this expected second volume of Dysbioethics, Dr. Hélio Angotti continues his analysis, dealing with subjects that threaten bioethics - or the ethics related to individual and social human life - in the cultural and political scene of our days.

There are certain forms of bioethics that are much more error-oriented. Therefore, we can discern the existence of several paths, of several ways of thinking ethics.

In the brief articles that make up this new collection - including ethics, philosophy, politics, and book reviews - we are presented to the actual chaos of Bioethics in our societies and encouraged to act.

sábado, 7 de julho de 2018

O DESPREZO DO MÉDICO PELA FILOSOFIA

O DESPREZO DO MÉDICO PELA FILOSOFIA


Por que tantos médicos desprezam a filosofia?
Estava em uma aula daquelas de final de semestre, quando a maioria dos alunos aprovados já partira para suas casas. À frente restava apenas a prova de recuperação, na qual haveria matéria de todo o semestre, incluindo um conteúdo de minha responsabilidade sobre a história da filosofia moral e suas repercussões sobre a Ética Médica e sobre a Bioética.
Foi nesse momento que fui interpelado por uma aluna que, com muita sinceridade, disse que não via tanta importância em saber o nome e as ideias daqueles filósofos esquisitos de séculos atrás (ela não usou o termo esquisito, mas que muitos desses filósofos são esquisitos, são). 
Minha resposta foi a de que era mortalmente importante. Também respondi que o desconhecimento de nossa classe profissional acerca do mundo das ideias era uma das causas de nossa alienação e da destruição dos nossos valores mais profundos, destruição esta testemunhada dia após dia. Eis a expressão que eu utilizara: “não fomos jogados na latrina da sociedade à toa”.  
De fato, somos todos governados pelas ideias de filósofos há muito enterrados; a vida dos vivos é regida pelas ideias dos mortos. A inconsciência dessa realidade condena muitos a permanecerem na ignorância e na vida destituída de profundas reflexões, tão necessárias em tempos de crises, por mais dolorosas e assustadoras que sejam.
Contudo, a consciência dessa necessidade de mergulhar nos conhecimentos humanísticos não é tão imediata assim. 
Muitos médicos e alunos de medicina desprezam completamente o esforço filosófico porque consideram-no inútil ou irrelevante. Médicos costumam questionar o que a filosofia teria a oferecer a um empreendimento tão pragmático quanto a arte de curar e aliviar. 
Outros acusam a filosofia, ou pelo menos a sua forma acadêmica tal qual disseminada no Brasil e em diversos países, de ser uma forma de ideologização da medicina ou de outras profissões, ao tentar transformar tudo e todos em meros peões de um jogo político.
Ainda há os que acusam a filosofia de ser um empreendimento para ociosos, atraindo pessoas que não têm coisas melhores para fazer e ocupam a mente com tais nulidades.
Por fim, há aqueles detentores de maior cultura histórica e que acusarão a filosofia de ter parido grandes crimes, horrores e distorções, mesmo dentro de profissões específicas como a medicina. 
Cada ponto apresentado não deixa de ter um pouco de razão, e pretendo discutir todos. Pois, de cada um, pode-se tirar algo de bom, belo, justo e verdadeiro a respeito do empreendimento filosófico que sustenta toda a busca pelas humanidades médicas e fundamenta a discussão contemporânea em Bioética e Ética Médica.



A filosofia é inútil?
Talvez devêssemos começar definindo o que é filosofia e o que não é, ou quem é filósofo e quem não é, como diria Olavo de Carvalho. Contudo, prefiro deixar a definição de filosofia para o final, abordando antes diversas acusações contra a filosofia que nos ajudarão a delimitá-la melhor.
A primeira acusação é, sem dúvida, a de inutilidade. Muitos diriam que a filosofia não cura conjuntivite viral, tampouco opera um apêndice inflamado. Estão certos neste sentido. A filosofia é um empreendimento inútil, sob certa perspectiva. Ademais, essa acusação nem é tão recente assim; é uma das mais antigas afirmações, pelo menos ao analisar um de seus ramos principais, a metafísica.
Com a filosofia eu não prego um quadro na parede, construo uma casa ou posiciono um dreno de tórax no paciente grave. Porém, é junto com a filosofia que surgem as impressões artísticas e as vivências que inspirarão as obras de beleza que serão gravadas em quadros pendurados nos lares ou museus, ou inspirarão as memórias gravadas em livros que definirão e inspirarão os rumos de toda uma civilização.
A filosofia é uma perspectiva de vida ou uma forma de enxergar o mundo, neste último sentido.
É de concepções filosóficas sobre o que é uma boa vida em sociedade que surgem estilos arquitetônicos que ditarão como construir prédios, casas e monumentos.
É de concepções filosóficas que surgirão as formas pelas quais enxergamos o ser humano e compreendemos fenômenos que denominaremos saúde, doença, morte, vida ou cura.

A filosofia é irrelevante?
Entre os estudantes de medicina, é muito comum ouvir o questionamento quanto à relevância dos estudos filosóficos. Qual a importância da filosofia diante da óbvia necessidade e importância de se estudar anatomia humana?
Já o profissional inserido no mercado de trabalho encontra-se ocupado demais em ganhar o pão de cada dia para perder tempo com essa tal de filosofia.
Para quase todas as pessoas há uma concepção de que filosofar é complicar o óbvio, criar problemas onde não há, tornar complexo o que é simples. Diriam que é um tipo de verniz intelectual: bonito, mas não relevante.
É claro que o verniz tem sua relevância! Assim como a filosofia.
Uma boa prática filosófica qualificará as demais práticas humanas. É com filosofia de boa qualidade que se participa com eficiência e consciência dos meios culturais e políticos da sociedade. É com boa filosofia que se evita a transformação das coisas simples em coisas loucas, muitas vezes impulsionadas pela ideologia porca, chamada por alguns pelo mesmo nome do amor à sabedoria, mas tão distante na prática.
Um pensamento tosco pode levar o médico a renegar a vocação de sua profissão e abraçar a cultura da morte, por exemplo. A ausência de formação filosófica pode levar qualquer um à alienação política e cultural que, com o tempo, destruirá sua prática profissional enquanto implode toda a ordem social a seu redor. Sem os melhores instrumentos reflexivos, o pensamento e a ação serão superficiais e ineficazes, cabendo ao indivíduo o papel de marionete nas mãos dos piores e dos incompetentes.
A filosofia é extremamente relevante, eu diria, para todas as pessoas em todas as situações.

A medicina é ideologizada pela filosofia?
A filosofia seria um instrumento ideológico? Muitos ressentem do uso daquilo que chamam de filosofia ao observarem a ideologização tosca da medicina, cada vez mais invadida pelos discursos de guerra de classes, ódio social e radicalismos políticos, ao mesmo tempo em que se ameaça de morte a cosmovisão hipocrática e cristã que fundamentou dois mil anos de boa prática médica.
Temem a medicina fascista e socializada. E com razão!
Médicos já juraram seguir acima de tudo a Revolução (como na União Soviética) ou o Reich (na Alemanha nazista) e os resultados trágicos devem ser lembrados para sempre.
Nesse temor, enxergam o empreendimento filosófico como um perigoso cavalo de Tróia. Porém, se tomarmos filosofia pelo seu sentido socrático, só poderemos evitar a destruição ideológica das profissões ligadas à saúde justamente por meio de uma filosofia adequada, hoje mais necessária do que nunca para combater os sofismas que ameaçam a inteligência humana e seu acesso à realidade. 
A filosofia desenvolverá a capacidade de enxergar através da cortina de fumaça que nos cerca: jogos de palavras e toscas manipulações sedativas. Com a boa filosofia pode-se discernir com qualidade e competência o melhor caminho a seguir e os piores erros a evitar.
É uma filosofia política pujante que permitirá, por exemplo, ao médico e aos demais profissionais da saúde, realizarem seu verdadeiro potencial benéfico para a sociedade.

A filosofia é para aqueles que não têm o que fazer?
É verdade que é necessário um pouco de tempo ocioso para que haja filosofia. Quem não consegue tempo suficiente para uma rotina de estudos, meditação reflexiva, prática e expressão da filosofia não terá sucesso em filosofar.
Muitos usam isso como desculpa para não o fazer. Erram, pois, de regra, gastam enormes quantidades de tempo naquelas baboseiras que somente uma sociedade do espetáculo como a nossa consegue oferecer. Quer tempo para estudar? Desligue a televisão e busque informações somente em veículos confiáveis; é um bom começo. Restrinja o tempo nas redes sociais digitais. Leia. Medite. Escreva. E leia um pouco mais. 
Pessoalmente, creio que a filosofia é justamente para aquelas pessoas extremamente ocupadas. Pessoas para as quais cada minuto é precioso e demanda o máximo de atenção, esforço e carinho pelo que se faz. 
Os momentos de ócio dedicados ao pensamento elevado da filosofia devem ser entremeados pela ação prática e bem pensada no mundo, onde as lições obtidas na profunda reflexão solitária serão exercitadas e gerarão os frutos que comprovarão o acerto nos estudos e reforçarão o caráter do filósofo.
De regra, nosso problema não é falta de tempo ocioso. É como ocupamos nossa excessiva ociosidade contemporânea, é como hierarquizamos nossas atividades cotidianas.

A Filosofia é fonte de problemas.
Eis outra verdade parcial. Há filosofias capazes de destruir a vida humana ou um empreendimento profissional como a medicina.
Já falei um pouco do potencial destrutivo da filosofia ruim ao tratar de ideologia, mas algumas observações ainda cabem.
Uma boa medicina, analisada por meio de uma filosofia adequada, demandará uma cosmovisão bem específica, o que tem sido um dos principais objetivos dos diversos textos sobre a filosofia da medicina que tenho produzido: o esclarecimento da cosmovisão hipocrática e cristã da medicina para que o imaginário profissional seja reconstruído das cinzas que restaram do desmanche civilizacional contemporâneo de nossa cultura.
A medicina precisa de uma boa filosofia para sobreviver. Temos sempre a tendência de hipervalorizar nossos problemas contemporâneos, mas creio que o último século foi realmente o mais perigoso para a cosmovisão médica hipocrática e cristã, no qual visões perigosas atacaram de forma mais pertinaz e de diferentes perspectivas.
Hoje há filosofias comunitaristas, socialistas, egoístas, liberais e transumanistas contra a velha e mal falada visão hipocrática. Cada forma de ver o mundo oferece diferentes perspectivas sobre quem é o ser humano e, consequentemente, sobre qual é o papel da medicina. Nesse oceano de impropérios que nos cerca, uma boa filosofia é essencial para manter o leme rumo ao caminho certo. A filosofia pode ser a fonte de problemas ou a ferramenta ideal para os combater.

O contato com a realidade
Boa parte da filosofia moderna nega ao homem a capacidade de conhecer a realidade como ela é. O indivíduo teria acesso, segundo dita o mainstream da filosofa moderna, somente às suas impressões subjetivas. Por mais elegante que seja anunciar esse ceticismo gnosiológico nos tempos atuais, deve ficar claro que afirmar a incapacidade humana de conhecer a verdade é uma forma grosseira e simplória de pensamento. Também deve ficar claro que esse ceticismo subjetivista é incompatível com a boa medicina.
Imagine um médico que realmente fosse cético e subjetivista nesse sentido filosófico moderno ao estilo de Kant. Agora imagine esse médico auscultando uma bulha cardíaca. Ele estaria percebendo uma sensação própria que não quer realmente dizer que escuta essa bulha cardíaca em si. É um tipo de fenômeno que misteriosamente e inexplicavelmente está ligado a outra subjetividade – a do paciente – e que gera compreensões subjetivas capazes de gerar ações que auxiliarão o paciente. Ou pelo menos o médico em sua subjetividade acha que o diagnóstico de suas próprias sensações alcançou e beneficiou o paciente por meio de sabe-se lá qual providência que aprioristicamente alinhou as sensações subjetivas interpessoais.
É muito solipsismo e muita volta inútil para evitar cair na tão mal falada tese do realismo ingênuo (uma forma de espantalho, no fim das contas). 
Mas como explicar nossa experiência de forma coerente com nosso conhecimento e nossa prática? Como fugir desse idealismo desvairado e completamente incoerente com a boa e cotidiana prática da medicina? 
Defendo que podemos sim ter contato com a realidade e, inclusive, podemos tecer afirmações verdadeiras sobre a realidade em que vivemos. Um médico que realmente defenda postulados ceticistas exagerados ou niilistas não está filosoficamente capacitado para exercer uma boa prática profissional. Todavia, a qual cosmovisão um bom médico deveria aderir?
Afirmo que não há como negar o realismo, não há como fugir de fato da realidade e de nossa capacidade de conhecê-la. Qualquer negação plena dessa realidade ou de nossa capacidade é pura contradição pomposa, é pura pose pseudointelectual. Sobre nossa capacidade irrecusável de apreender a realidade e enunciar símbolos verbais ou escritos acerca dela escreverei ao tratar da Filosofia Concreta, dos Valores, da Ética e da antropologia metafisicamente, ontologicamente e epistemologicamente necessária.[1]
Todavia, antes de prosseguir, é hora de oferecer uma definição para a filosofia, que copio de meu professor, o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho: Filosofia é a busca pela unidade da consciência na unidade do conhecimento e da unidade do conhecimento na unidade de consciência. Acima de tudo, Filosofia é um método de vida e de contemplação amorosa da realidade, uma forma de se colocar na existência dotado de uma consciência desperta, imerso na inteligência do Logos. É realmente buscar a grande coerência da vida, a razão que anima a realidade e, consequentemente, nos anima. Uma vida destituída de verdadeira filosofia – não confunda com erudição filosófica - é uma vida que se animalizou e que se reduziu, que aceitou a condição de uma existência parcial e se negou a tocar na esfera do sentido transcendente.
 A resposta definitiva para o questionamento sobre ser a filosofia irrelevante para a medicina é um estrondoso e necessário não. A filosofia de má qualidade pode até ser deletéria para a medicina, mas irrelevante? Jamais. Já a boa filosofia, por outro lado, não somente é relevante, mas essencial para que não se perca o coração do que se reconhece como boa medicina há mais de dois mil anos, nos mais diversificados contextos da sociedade humana.





[1]O artigo sobre o uso da Filosofia Concreta de Mário Ferreira dos Santos contra o ceticismo gnosiológico moderno e contemporâneo é fruto de uma apresentação do II Seminário Capixaba de Filosofia (SECAFI), que ocorrerá em Vitória, no Espírito Santo, no dia 21 de julho de 2018, e que será publicado em breve.