sexta-feira, 26 de maio de 2023

O crime perdura porque compensa

Como é que em tempos de ciência avançada – ou pelo menos assim os pesquisadores que gastam suas vidas pesquisando e recebendo polpudas verbas gostam de anunciar e pensar, sempre colocando-se como protagonistas desse mesmo tempo iluminado – tantas falcatruas e distorções podem prosperar?

Temos informação, temos comunicação, temos métodos estatísticos, temos teorias e temos tecnologias fantásticas! O ideal de controle da natureza pela ciência moderna parece cada dia mais real e mais concreto, difundido e efetivo.

O que nem todos realmente percebem – ou se percebem, calam-se pelo receio de atrair descrença, pois a realidade é grotesca e esdrúxula demais – é que o mesmo poder da técnica e da ciência que controla a natureza também controla o ser humano, diretamente por meios coercivos ou indiretamente por meio da influência ideológica e econômica.

Os avançados instrumentos da técnica e da ciência são exatamente isso que propõem ser: instrumentos. Um instrumento altamente efetivo em mãos cruéis será altamente efetivo em causar o mal, e os maus jamais receiam em aumentar o próprio poder e se impor descaradamente sobre o próximo.

As técnicas utilizadas para mentir utilizando estatísticas e metodologias científicas na saúde são refinadas e muito bem elaboradas. Exigem intelectos e preparo avançados. Ouso dizer que a maioria dos médicos não está preparada para analisar criticamente e profundamente um artigo científico, mas que a totalidade ou quase totalidade daqueles médicos que trabalha para a indústria farmacêutica é extremamente bem preparada.

E como alerta o próprio Cristo, se nossos olhos forem trevas, que grandes trevas serão. O preparo científico e técnico utilizado para ocultar, mentir e distorcer gera um produto quase que impermeável à crítica da maioria dos médicos, por mais bem-intencionados que sejam.

O livro de Peter Gøtzsche traz uma série de denúncias e bastidores do jogo tantas vezes imundo da indústria farmacêutica, mas não é o único. Na verdade, há todo um mercado literário muito técnico e específico que explora as falcatruas da ciência. Um livro mais recente que enriquece a leitura de Gøtzsche foi escrito por Jon Jureidini e Leemon McHenry, e se chama “A Ilusão da Medicina Baseada em Evidências: expondo a crise de credibilidade na pesquisa clínica”. 

Jureidini é médico professor universitário de psiquiatria e pediatria na Austrália e trabalha com pesquisa. McHenry é um filósofo americano. Juntos eles ousam remexer no monstro sagrado da medicina contemporânea: a medicina baseada em evidências.

Prof. Dr. Jon Jureidini

Somos lembrados de fatos perturbadores. Medicamentos são lançados no mercado ainda com muitas dúvidas e, no fim das contas, todos nos tornamos cobaias de fase IV da pesquisa clínica, onde é feita a vigilância farmacêutica pós-comercialização. Não são tão raros os exemplos de medicamentos aprovados e vendidos aos milhões que geraram mortes e deformidades e tiveram que ser removidos do mercado ou ter suas indicações clínicas completamente revistas.

As próprias narrativas da sociedade são compradas e manipuladas, pois representantes de pacientes são muito bem pagos para explicar o sofrimento dos pacientes, pressionando justamente a prescrição deste ou daquele medicamento “milagroso”, e médicos especialistas tratados como referências de determinados assuntos – ou doenças – introduzem novos tratamentos em eventos patrocinados pela indústria que reúnem milhares de médicos ávidos por notícias; são os famosos Keynote Speakers da indústria.

Surfando na crista de uma onda de credibilidade conquistada por grandes descobertas que revolucionaram a saúde mundial, como o antibiótico, a imunização, os transplantes auxiliados pelo uso de imunossupressores e as cirurgias minimamente invasivas, hoje a indústria tem pleno sucesso em lucrar, mas muitas vezes falha completamente em gerar valor para a humanidade.[1]

Assim como ocorre no livro de Gøtzsche, Jureidini e McHenry trazem diversos exemplos de medicamentos que geraram grandes multas, mas lucros estrondosos. Paroxetina, por exemplo, da Glaxo Smith Kline já levou a uma multa de 3 bilhões de dólares por falhar em demonstrar eficácia e gerar sérias dúvidas acerca da segurança de seu uso, mas foi bem vendida graças em parte a um artigo encomendado pela própria indústria e escrito por um ghostwriter, um escritor fantasma especializado em redigir artigos científicos de forma agradável aos interesses da farmacêutica. É claro que o artigo é oficialmente assinado por um daqueles médicos especialistas famosos que dá palestras em congressos e recebe uma enormidade de incentivos, leia-se dinheiro, por sua “consultoria”.[2]

Técnicas semelhantes, incluindo uso de redatores fantasmas, dados distorcidos, interpretações estatísticas errôneas, ocultação de dados incluindo efeitos adversos graves e mortes e seleção indevida de desfechos clínicos, foram utilizadas em outras situações, segundo os autores, incluindo medicamentos como citalopram e escitalopram para depressão em adolescentes, rofecoxib para controle da dor em pacientes com artrite, gabapentina para condições psiquiátricas e dor, fenfluramina e fentermina para perder peso, estrogênio e progesterona para combater o envelhecimento, rosiglitazona para diabete não insulino-dependente e oxicodona para controle da dor.

Gøtzsche também exibe uma série de exemplos, que denomina de Hall da Vergonha das grandes empresas farmacêuticas. O problema não consiste nas pesadas multas pagas, mas sim, no fato de que o lucro supera em muito a penalidade. Logo, o crime compensa!

A Pfizer, por exemplo, pagou 2,3 bilhões de dólares em 2009 por fazer propaganda enganosa a respeito do antibiótico Zyvox, entre outras coisas. A Novartis pagou 423 milhões de dólares em 2010, por pagar propina para que médicos prescrevessem seus medicamentos. A Sanofi-Aventis pagou mais de 95 milhões de dólares para encerrar acusação de fraude em 2009. A Glaxo-Smith-Kline pagou 3 bilhões de dólares em 2011 por ocultar dados de segurança e pagar propinas a médicos. A AstraZeneca pagou 520 milhões de dólares e, 2010 para encerrar um caso de fraude por comercialização ilegal. A Johnson & Johnson foi multada em 1,1 bilhão de dólares em 2012. Por ocultar riscos de seu medicamento risperidona. A Merck pagou 670 milhões de dólares por fraude contra o Medicaid em 2007, incluindo propinas a médicos. Eli Lily pagou 1,4 bilhão de dólares em 2009 e Abbott pagou 1,5 bilhão de dólares em 2012. Os métodos criminosos são repetitivos, embora elaborados e muito organizados, e revelam que:

“O crime corporativo é comum e que os delitos são implacavelmente executados, com gritante desrespeito pelas mortes e outros danos sérios causados por eles. (...) o crime corporativo mata as pessoas e também envolve roubos expressivos do dinheiro dos contribuintes.”[3]

Os autores Jureidini e McHenry ressaltam o perigo em se permitir o controle dos dados de pesquisa e sua propriedade pelos grandes laboratórios, interessados diretamente no lucro gerado pelas pesquisas que permitem vender medicamentos após seus registros em agências reguladoras. Essa posse dos dados leva a situações em que os médicos pesquisadores devem se calar sobre os resultados que a indústria não deseja que sejam conhecidos. Chega-se a uma situação na qual o médico precisa decidir se honrará o pacto hipocrático de beneficiar o paciente e protegê-lo do mal, ou se honrará o pacto comercial com a indústria e se calará, permitindo muitas vezes por omissão a morte e o sofrimento de incontáveis pacientes.

Uma das soluções possíveis apontadas por Jureidini e McHenry é investir na pesquisa "independente" realizada pelas universidades, como se pudessem servir de controle comparativo para o trabalho realizado pela indústria farmacêutica.

Infelizmente, a Academia está longe de ser um poço de pureza, e foi cooptada há tempos por uma chuva de recursos da indústria farmacêutica, submetendo-se aos mesmos interesses tantas vezes obscuros daqueles que querem lucrar com a doença, prometendo a saúde e vendendo ilusões.

O poder de destruição do imbecil coletivo na saúde dentro das instituições universitárias é largamente subestimado.

Até mesmo prestigiadas revistas científicas, editadas por autoridades acadêmicas internacionalmente respeitadas, pisam na jaca dos conflitos de interesses.

Empresas fazem singelas ligações para os editores de revistas científicas dando aquele aviso camarada de que comprarão reimpressões do artigo enviado caso o mesmo seja publicado.[4]

Deixar de publicar os artigos da indústria, carinhosamente preparados com tanto esmero pelos escritores fantasmas e assinados por autoridades acadêmicas que vendem seus nomes como grifes famosas no topo dos trabalhos, pode gerar enorme impacto financeiro para uma revista. O Brittish Medical Journal, por exemplo, que é reconhecido como um “osso duro de roer” pela indústria[5], após dedicar uma edição inteira aos conflitos de interesse retratando em sua capa vários médicos vestidos como porcos gulosos em um banquete ao lado de representantes da indústria farmacêutica vestidos como lagartos, recebeu a ameaça de perder 75 mil libras em anúncios. Talvez essa fama “ruim” do Brittish Medical Journal ainda perdure, pois recentemente publicou um extenso comentário intitulado “O declínio da ciência no FDA se tornou incontrolável”, de autoria do Professor de Medicina David Ross, da George Washington University School of Medicine and Health Sciences.[6] Não é por acaso que esse periódico tenha apenas quatro por cento de sua renda derivada de reimpressões, enquanto outras revistas como o The Lancet cheguem a impressionantes 41% de toda a sua renda derivada de gulosas compras da indústria farmacêutica de seus próprios artigos publicados.[7] Afinal de contas, é sempre legal desovar um artigo impresso no consultório de um médico desavisado que nada ou pouco sabe de crítica científica.

Além de lucros multimilionários para revistas acadêmicas e seus editores, a publicação de um artigo especialmente desenhado e encomendado pela indústria farmacêutica ainda rende uma chuva de citações, aumentando o impacto da revista acadêmica e, portanto, inflacionando seu prestígio e retroalimentando a imagem de autoridade daqueles autores que emprestam seus nomes para figurar entre os pesquisadores de um laboratório.

A própria indústria arregimenta uma caterva de escritores fantasmas que se dedicam a publicar trabalhos em revistas secundárias citando profusamente os artigos publicados pela mesma indústria nos grandes periódicos.[8] Gotzsche cita um estudo de 2012 que revela dados interessantes: “o custo mediano e o maior das encomendas de reimpressão para o The Lancet era de 287.353 e de 1.551.794 libras, respectivamente.”[9] Até mesmo um dos editores da The Lancet, Richard Horton, reconheceu, talvez naquele momento de sinceridade que só pode ser inspirado por um arroubo quase suicida de consciência, que “os periódicos evoluíram para operações de lavagem de informação para a indústria farmacêutica.”[10]

Tudo isso culmina em um esquema bilionário no qual incontáveis médicos perfazem as fileiras de guerra da indústria farmacêutica, aceitando desde pequenos agrados – pois muitos se vendem por muito pouco, incluindo canetas elegantes, passagens para congresso e envelopinhos com poucos milhares de dólares – até polpudas verbas de consultoria. São editores de revistas, agentes de agências reguladoras, professores catedráticos, escritores fantasmas e prescritores vendidos que alimentam o ciclo extremamente lucrativo da Bigpharmaum verdadeiro sistema que tem seus próprios headhunters em constante vigilância sobre novos talentos promissores até mesmo dentro de cursos de graduação.

Se, apesar das multas multibilionárias pagas pela indústria, essas práticas perduram de forma sistemática, só há uma resposta plausível: o crime compensa. Só não compensa para a vida daqueles pacientes e suas famílias que ao invés de adquirirem um medicamento realmente efetivo, nada mais conseguiram do que uma amarga ilusão gloriosamente coberta pela nuvem de fumaça em que se transformou a Medicina Baseada em Evidências a serviço de interesses escusos.



[1] Jon Jureidini; Leemon B. McHenry. The Illusion of Evidence-Based Medicine: exposing the crisis of credibility in clinical research. South Australia: Wakefield Press, 2020, p. 13.

[2] Ibid., p. 14.

[3] Peter C. Gøtzsche. Op. cit., 2016, p. 21-40.

[4] Richard Smith. The Trouble with Medical Journals. London: Royal Society of Medicine, 2006.

[5] Kamran Abbasi. Editor’s choice: a tough nut to crack. Brittish Medical Journal. 2005; 330: 7485.

[6] David B. Ross. The decline of Science at the FDA has become unmanageable. Brittish Medical Journal 2023; 381: p. 1061.

[7] Peter C. Gøtzsche. Op. cit., p. 65.

[8] Ibid., p. 63.

[9] Handel AE; Patel SV; Pakpoor J; et al. Hight reprint orders in medical journals and pharmaceutical industry funding: case-control study. Brittish Medical Journal. 2012; 344: e4212.

[10] Richard Horton. The dawn of McScience. New York Rev Books. 2004; 51: p. 7-9.




terça-feira, 23 de maio de 2023

MEDICINA À VENDA, MORTE À VISTA

 Há livros que nos abrem os olhos para a dura realidade. Um desses livros, sem dúvida nenhuma, pertence a Peter Gøtzsche, médico pesquisador e ex-diretor de um dos centros da Cochrane, uma organização que se dedica a analisar de forma crítica as evidências científicas que movem o mundo da medicina.

O livro se chama “Medicamentos Mortais e Crime Organizado. Como a indústria farmacêutica corrompeu a assistência médica” e é de leitura obrigatória.


Em palavras diretas, sinceras e, às vezes, irônicas – pois como não utilizar um pouco de ironia diante de uma realidade tão amarga como aquela produzida pela gigantesca e trilionária indústria farmacêutica –, o autor expõe fatos de extrema gravidade e, obviamente, de quase total desconhecimento do público e até mesmo de médicos, eu diria.


Nem todos entendem que aquilo que para uns é uma busca pela sobrevivência e pela saúde, para outros nada mais é do que um lucrativo mercado a ser explorado, não importa a que custo moral.

Gøtzsche alerta, logo no início da obra:

Quando pesquisas importantes demonstram que um produto é perigoso, diversos estudos abaixo do padrão são produzidos dizendo o contrário, o que confunde o público pois – como jornalistas dirão a você – “os pesquisadores discordam.” Essa indústria da dúvida é muito eficaz ao distrair as pessoas para ignorarem os danos; a indústria ganha tempo enquanto as pessoas continuam a morrer.[1]

Vidas nada mais são do que empecilhos no caminho do lucro exorbitante dessa indústria, que superou em muito a margem de lucro existente no mercado de forma geral.[2] Pessoas, incluindo médicos, burocratas e técnicos de agências reguladoras, jornalistas, políticos e até mesmo cidadãos em associações de pacientes portadores de determinadas doenças, são comprados sistematicamente, com o intuito de mover esse mercado extremamente poderoso.

De forma muito dura, Gøtzsche sentencia que “a principal razão pela qual ingerimos tantos medicamentos é que as empresas farmacêuticas não vendem medicamentos: elas vendem mentiras sobre medicamentos.”[3]

Durante a pandemia, não foi diferente, eu diria. Foi até mesmo pior, pois o medo abriu brechas perigosíssimas e suplantou a racionalidade e a moral de incontáveis pessoas no mundo inteiro, e a mercantilização da medicina, inevitavelmente ligada à despersonalização e perda da dignidade humana, avançou a largos passos.

Medicamentos caros foram empurrados de todas as formas possíveis, enquanto medicamentos baratos que poderiam ter sido reposicionados e melhor pesquisados foram combatidos com uma fúria assanhada que eu jamais presenciara.

Gøtzsche teve a coragem de “abrir o bico” e falar o que muitos queriam que jamais fosse falado e outros não gostariam nunca de ter ouvido, pois junto com a denúncia gravíssima dos fatos, que falam por si mesmos, imediatamente vem à consciência a acusação grave contra aqueles que abriram mão de seu caráter e de sua personalidade para se tornarem objetos imorais de uma máquina de corrupção, morte e engano. Como todo aquele que ousa falar de moral com moralidade, Gøtzsche ameaça, desagrada e se expõe ao opróbio dos medíocres e vendidos.

Contudo, cabe a nós reconhecer uma antiga verdade, já enunciada por Goethe: “O talento molda-se na solidão; o caráter na convivência.” Se é na leitura e na Academia que forjamos o nosso saber, é no ringue da realidade, lidando com ameaças reais e com a perseguição promovida pelos mercadores da morte, que forjaremos nossa personalidade e mostraremos ao mundo e, principalmente, a nós mesmos e a Deus, a que viemos.

Ler os fatos horrorosos descritos por Gøtzsche, compreendê-los e voltar a olhar a realidade da saúde, da pesquisa e da medicina após esse mergulho nas trevas, é tarefa para os mais corajosos.



[1] Peter C. Gøtzsche. Medicamentos Mortais e Crime Organizado. Como a indústria farmacêutica corrompeu a assistência médica. Porto Alegre: Bookman, 2016, p. 2.

[2] Angell M. The Truth about the Drug Companies: how they deceive us and what to do about it. New York: Random House, 2004.

[3] Peter C. Gøtzsche. Op. cit., 2016, p. 2.



sábado, 9 de janeiro de 2021

O Médico na Gestão

Muitas vezes me perguntam se cabe ao médico atuar na gestão privada ou pública. Recentemente fui convidado a pronunciar-me sobre essa possibilidade em um congresso da Associação dos Estudantes de Medicina do Espírito Santo e considerei pertinente escrever algo sobre isso que complementasse minha participação no evento.



Em minha época de graduando e residente, normalmente não víamos os gestores com bons olhos. Há um preconceito básico contra os médicos que se “desviam” do caminho da medicina para realizar atividades ligadas à gestão. Hoje, ocupando um cargo de Secretário Nacional no Ministério da Saúde, depois de passar pela residência na Universidade de São Paulo, onde também passei pelo Doutorado, e depois de atuar como médico na assistência tanto no âmbito público quanto no privado e como Coordenador de Curso de Medicina (o que já é um cargo de gestão em educação), posso dizer que adquiri uma visão um pouco mais madura a respeito dessa questão. Não há como negar que a dedicação de duas décadas aos estudos das Humanidades Médicas também foi crucial para a formulação de uma visão mais complexa.

O primeiro aspecto a ressaltar é que o médico tem um compromisso ético de agir como tal em qualquer âmbito no qual os conhecimentos médicos sejam utilizados. O que inclui sua atuação na assistência, na docência, na pesquisa ou na gestão. E, desde a antiguidade, o médico tem sim o papel de atuar na esfera pública, cuidando da saúde no âmbito político, sendo ouvido por autoridades responsáveis pelas grandes decisões ou tomando também parte nas grandes decisões.

Um exemplo histórico, retirado da obra de Platão, é a constatação de que atenienses se reuniam para deliberar sobre questões de saúde pública e recorriam à sabedoria profissional dos médicos.

ΣΩ. λλ᾿ ἐάν τε πνης ἐάν τε πλοσιος   παραινν, οδν διοσει θηναοις, ταν περ τν ν τ πλει βουλεωνται, πς ν γιανοιεν, λλ ζητοσιν ατρν εναι τν σμβουλον.

soc. Se seu mentor é rico ou pobre nenhuma diferença faz para os atenienses quando deliberam acerca da saúde dos cidadãos. Tudo o que eles exigem de seu conselheiro é que ele seja um médico.[1]

O médico permanece atrelado às exigências profissionais mesmo quando atua publicamente e isso não é, portanto, nenhuma novidade.

Aliás, o fato de ser um doutor – ou um douto, em linguagem mais antiga – por acumular uma grande amplitude de conhecimentos, dá ao médico grande autoridade frente ao público, e com essa autoridade, uma enorme responsabilidade.

Tal responsabilidade não deve ser negligenciada, e o médico precisa buscar o conhecimento e a técnica adequada para lidar com as grandes questões que afetam sua comunidade e sua civilização. Daí a importância da Filosofia e das Humanidades Médicas, que incluem as Artes Liberais: Gramática, Retórica e Lógica. 

Nas palavras de Sir Roger Scruton:

(...) as pessoas vão obter educação somente se elas a desejarem por seu próprio fim, mas conseguirão bem mais do que isso. Elas vão adquirir a habilidade de se comunicar, de persuadir, de atrair e de dominar. 

Em qualquer arranjo social, tais capacidades serão vantagens, mas a educação nunca pode ser buscada somente como meio para elas, mesmo se são sua consequência natural.[2]

Essa detenção de conhecimentos, técnicas, moral profissional e elevada capacidade de impacto social facilitam o caminho para postos de liderança. Negligenciada essa vocação de liderança e essa responsabilidade, o que se segue é a possibilidade de ser utilizado como massa de manobra para interesses diversos que não aqueles ligados à saúde ou ao estatuto moral da profissão.

Um médico que negligencia esse chamado à responsabilidade da vida pública e que se recusa a adquirir o preparo humanístico adequado é como um daqueles prisioneiros acorrentados no fundo da caverna descrita por Platão em seu Livro VII de A República. Só que no caso do médico que não imergiu nos estudos humanísticos, o prisioneiro continua sentado e virado para o fundo da caverna, mesmo que alguém se ofereça para lhe soltar as correntes. 

A pior escravidão é, de fato, aquela que surge pela falta de desejo da liberdade ou do apego doentio a uma condição sub-humana.

E o contexto recente da medicina no Brasil desvela claramente as consequências trágicas do abandono do legado cultural e moral de grande parte da classe profissional. Há uma perda difusa de credibilidade, perda da união profissional, várias tentativas de rotulação odiosa por parte de certas autoridades, desvalorização do trabalho médico, perda de liderança em postos de atendimento ou gestão, ausência de formação humanística de qualidade nas escolas e ausência de formação política adequada.

Diante desse cenário preocupante, o que se deve fazer?

Confio pouco em soluções maravilhosas, panaceias que resolverão o problema de todos, e duvido que impor um currículo básico seja suficiente. Aliás, no ambiente altamente ideologizado e medíocre em termos culturais cultivado por alguns que almejam ensinar Humanidades Médicas – ou fazer proselitismo político barato, em grande parte dos casos –, ouso afirmar que certas iniciativas serão até mesmo deletérias, servindo apenas para treinar militância acéfala ou causar ojeriza pelos estudos das humanidades. 

Contudo, um caminho mais ou menos seguro é estudar de forma interessada e autônoma a ciência política, a estratégia e as humanidades em geral, absorvendo o legado cultural milenar de nossa civilização, isto é, buscando o que muito apropriadamente é chamado de Alta Cultura. Com base nesse estudo sério e profundo, pode-se traçar planos de ação no âmbito da política e da gestão, compreendendo como a gestão pública e a gestão privada impactam a vida em sociedade como um todo. E todo esse estudo de nada valerá se não ocorrer um esforço contínuo de aprimoramento do caráter. Somente assim um profissional médico estará apto realmente a ocupar um cargo público: sendo uma boa pessoa e um bom médico.

Se o conhecimento é consolidado na solidão e no silêncio, o caráter, por outro lado, é forjado no calor da batalha. Não é à toa que se aprende tanto no internato e na residência médica, quando se está imerso na dura e crua realidade assistencial.

O médico tem uma oportunidade preciosíssima de se tornar um bom gestor, pois vivencia realidades múltiplas que lhe dão acesso a experiências cruciais na formação humanística e profissional. Desde a assistência em unidades básicas de saúde em bairros e em alas hospitalares até estar presente na formulação de grandes políticas de saúde pública, o médico tem a oportunidade de adquirir uma perspectiva realmente ampla sem se esquecer do cotidiano e do específico.

Resumindo o que chamo de ciclo virtuoso da ação pública, o que se tem é a aquisição ampliada de conhecimento e experiência de vida que leva ao aumento da responsabilidade. O aumento da responsabilidade, quando assumido com nobreza, gera a confiança em meio à sociedade. Essa confiança gera autoridade e deferência por parte do público. A autoridade inevitavelmente gera maior impacto social por parte do profissional, que adquire grande capacidade de influenciar os rumos da sociedade. E, por fim, esse impacto gera maior necessidade de conhecimento para qualificar os próprios atos e decisões, o que reinicia o ciclo de aumento de responsabilidade.

E o que seria esse estudo das humanidades capaz de ajudar na construção de um bom gestor médico? Como realizar esse estudo, indo além dos conteúdos específicos de administração? Essa é a proposta do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina, abordada em outros escritos diversos.[3]

Utilizado de forma adequada, o papel de gestor pode salvar incontáveis vidas, auxiliar nas necessidades de famílias e de todo um país e promover constante aperfeiçoamento da profissão na busca pela excelência. Eis um dos mais complexos papéis que o profissional médico pode almejar e também um daqueles de maior impacto na sociedade. 

O reconhecimento dessa possível missão deve ser devidamente tratado desde a graduação para que se evite uma geração de profissionais destituídos das competências da liderança e da nobre vocação de atuar com o bem público e individual em mente.

 

Hélio Angotti Neto

Brasília, 09 de janeiro de 2021.

 



[1] PLATO. Charmides. Alcibiades I and II. Hipparchus. The Lovers. Theages. Minos. Epinomis. Loeb Classical Library 201. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1927, p. 110-11.

[2] SCRUTON, Sir Roger. O que é Conservadorismo. São Paulo: É Realizações, 2015.

[3] ANGOTTI NETO, Hélio. A Tradição da Medicina. Brasília: Academia Monergista, 2012; ANGOTTI NETO, Hélio. Bioética: Vida, Valor e Verdade. Brasília: Editora Monergismo, 2019.

domingo, 6 de dezembro de 2020

Reflexão Pessoal de Natal - 2020

 REFLEXÃO DE NATAL – 2020

 


O ano de 2020 encerra com um cenário que eu jamais poderia imaginar. Em meio à crise mundial causada pelo novo coronavírus, estou justamente no Ministério da Saúde, dividindo o peso com uma grande equipe em busca de aliviar a dor e buscar soluções para todo o mal trazido pela doença. Nunca imaginei um desafio assim, mas agradeço antes de tudo a Deus por ter a chance de empenhar meus esforços para ajudar.

Contudo, a reflexão que agora gostaria de compartilhar não é sobre os grandes exemplos e tragédias dessa enorme crise, mas uma outra tragédia que acomete tantas famílias, muitas vezes em silêncio e muitas vezes ignorada. Tragédia que possui um profundo sentido existencial, que nos coloca em uma situação da qual não se escapa, tampouco se previne. A tragédia é um nome dramático para o que alguns chamam de destino, outros de providência, e Salomão tão bem explica como a vida debaixo do sol enquanto Jó lamenta e clama diante do próprio Deus seu sofrimento, sua tragédia pessoal.

Essa tragédia é o fato inescapável de que todos somos limitados, todos temos falhas e precisamos da compaixão alheia. E esse fato torna-se ainda mais agudo quando me deparo com a situação daqueles que possuem doenças raras ou doenças graves ainda sem tratamento, que lhes causam importantes deficiências e tornam impossível a completa adaptação em sociedade.

O lugar de trabalho no qual me encontro também trata justamente desse assunto: pessoas com doenças raras.

E falar de doenças raras é falar do sofrimento, da dependência, da esperança misturada ao desespero, da pressa e, acima de tudo, da compaixão e do amor. 

Há muitas formas de doenças raras, acometendo diferentes órgãos, diferentes funções, mas todas elas carregam uma lição de sóbria alegria e muita dor.

Há aqueles que nascem e, em meio ao choro de sua família, partem após poucos ou até mesmo nenhum suspiro. Há aqueles que vivem vidas longas, repletas de sacrifícios por sua parte e por parte de seus familiares. Cada pessoa com uma dessas condições, assim como cada pessoa existente, é única e é especial, com certeza, mas essas que possuem doenças raras ou deficiências muito graves por diversas vezes nos mostram uma experiência concentrada, que clama aos céus.

Em meio a todo o sofrimento e ao medo causado pela doença epidêmica que o mundo enfrenta em 2020, as tragédias pessoais por outras razões não pararam. Incontáveis histórias que somente a mente de Deus pode compreender, em suas mais plenas cargas existenciais, ocorrem todos os dias.

Não seria justo ignorar essas vidas, tampouco o seria ignorar outros fatos, além do sofrimento e das necessidades, que acompanham essas existências carregadas de tragédias e lições.

Uma dessas lições que presenciei foi como famílias encontram uma força que não é deste mundo para seguir em frente, para lutar, para sonhar e para cuidar. Presenciei situações de desespero que trazem à tona forças que mal sabíamos existir e que sustentam a caminhada mesmo nos mais difíceis momentos. Fé, carinho e sentimento de missão alimentados por um Amor que transcende tudo o que somos e sabemos.

Cada pessoa com uma doença rara ou com uma grave deficiência é uma oportunidade única de manifestar esse Amor, de caminhar com um propósito nobre, de superar suas próprias condições e viver o impossível, de abarcar no peito alegrias e tristezas quase infinitas que não caberiam de outra forma. “Nossos raros”, como são chamadas muitas vezes as pessoas com doenças graves e raras, tantas vezes crianças e bebês, simplesmente não cabem em nosso coração, mas podem evocar algo muito maior e melhor do que nós somos.

E cada um desses pequenos ou grandes que convive com uma grave doença abre nossos olhos para uma situação também trágica em nossas vidas: todos nós somos tão pequenos e tão indefesos diante do destino à frente, diante de nossas finitudes! Todos, em maior ou menor grau, dependemos tanto do próximo! Quem somos nós para julgarmos o valor da vida ou ousarmos afirmar que somos independentes? Nossas vidas são como um sopro, uma sombra que passa, nas palavras do salmista.

É no Natal que em especial nos lembramos da vinda e da vida do Único que não é imperfeito e que nada nos deve. Lembramo-nos com especial atenção d’Ele que em nada dependeu de nós, d’Ele que por nós se sacrificou por puro Amor, inesgotável, perfeito e divino. 

Todos nós carregamos nosso trágico destino à frente, repletos de falhas, imperfeições, deficiências. Em certa medida, todos possuímos uma doença grave que cedo ou tarde cobra o seu preço, seu sofrimento, sua dor. Contudo, temos quem cuide de nós pela eternidade. Alguém que se mostrou, que nasceu como nós nascemos e que optou por sacrificar-se por nós.

Neste Natal, lembro de que cada pessoa com uma grave doença, cada um com uma grande necessidade de suporte, também é uma oportunidade existencial única que graciosamente nos permite cuidar do próximo e exprimir um reflexo daquele Amor infinito que se derramou sobre todos nós, do qual somos todos devedores. Cada uma dessas vidas raras é uma oportunidade para compreendermos um pouco mais do mistério da vida e para amarmos o próximo como Cristo nos ama apesar de nossas fraquezas.

E que nós possamos nos lembrar com gratidão de que o bem feito a um desses “pequeninos” não será esquecido, pelo contrário, ecoará aos céus por toda a eternidade, pois neles também sofre e ama nosso Criador.

Um Feliz Natal e que Deus nos proteja e nos capacite a cuidar daqueles que mais precisam de nosso amor, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

 

Hélio Angotti Neto, Brasília, 06 de dezembro de 2020.

domingo, 26 de abril de 2020

EM TEMPOS DE BIOPOLÍTICA, GLOBALISMO E GEOPOLÍTICA

EM TEMPOS DE BIOPOLÍTICA, GLOBALISMO E GEOPOLÍTICA

A recente pandemia, conforme a Organização Mundial de Saúde decretou em 2020 por causa do Coronavírus, realmente trouxe fatos importantes que devem ser analisados e que impactarão sobre nossa realidade de forma significativa.
Pela primeira vez na história da humanidade, bilhões de pessoas acompanharam em tempo real o alastramento da doença, caso a caso. Todos fomos expostos a uma enorme carga de informação e especulações com enormes potenciais tanto positivos quanto negativos. 
Do lado positivo, sem dúvida, a possibilidade de acompanhar curvas epidêmicas e compará-las em todo o mundo, enriquecendo em muito a ciência epidemiológica. Do lado negativo, a enorme ansiedade que isso gera e todo o impacto social e econômico decorrente.
Quanto ao alastramento da doença, foi auxiliado pela intensa globalização, que abriu fronteiras e mercados por todos os lados, aprofundando laços de interdependência entre os países e o deslocamento de grandes massas humanas em pouquíssimo tempo.
Essa interdependência e essa fluidez de fronteiras geraram situações interessantes no contexto da pandemia. Uma delas é, por exemplo, a concentração da produção global de máscaras cirúrgicas na China, justamente onde se iniciou a pandemia.
Mundo afora, há diversos oligopólios globais, gerando especializações centradas em algumas nações. Na hipótese de fechamento de fronteiras, há um sério risco de desabastecimento do mercado interno de diversas nações dependentes. Para um mundo globalizado, eis que foi desenvolvida uma solução globalista.
Isso gera uma preocupação em relação à plena abertura dos mercados e uma nova tendência ao protecionismo, que pode ser interessante no caso de bens essenciais à subsistência e à segurança de todo um povo.
A dependência de uma nação, em termos estratégicos, da produção de outra nação significa algo muito claro: submissão, seja ao governo que produz o bem para exportação, seja ao grupo que lidera a produção, que pode apresentar caráter não governamental. De ambas as formas, há uma série de possíveis fragilidades, ainda mais em tempos de conflito e desconfiança, como aqueles presenciados durante a pandemia da Doença do Coronavírus (COVID-19).
Não se pode desprezar os ganhos da globalização. Informação rápida, facilidade na aquisição de mercadorias antes indisponíveis, flexibilização das fronteiras e aumento do sentimento cosmopolita por todo o globo. Mas há que se diferenciar duas situações.
A globalização propriamente dita do globalismo.
O globalismo é uma forma de administrar a realidade globalizada em termos políticos, econômicos e culturais. Sua grande ênfase é o poder concentrado em entidades supranacionais, é como controlar o próximo por cima de suas fronteiras. Há um elemento de substituição de uma elite governante de caráter nacional, muitas vezes alocada pelo próprio povo de uma nação, por uma elite tecnocrática que rompe questões como nacionalidade e patriotismo. 
Essa elite internacional atua em diversos países e funciona como um poderoso elemento geopolítico que não pode ser ignorado. 
Um exemplo seria o de um pequeno país no qual se instala um enorme complexo produtor pertencente a um dos membros dessa elite internacional. Uma vez dependente do comércio internacional, este pequeno país pode praticamente ser colocado em profunda recessão econômica e grave crise política caso tal complexo seja removido ou fechado.
A resposta dada à pandemia nesse delicado contexto de globalização permeada de globalismo, com seus mercados abertos em nível internacional, gerou uma consciência aguda acerca das limitações do modelo de caráter internacionalista.
Novamente muitos questionam as vantagens e desvantagens do nacionalismo, diferenciando a postura cautelosa e protetora da cultura e dos interesses nacionais – o nacionalismo propriamente dito – daquela postura agressiva de conquista e imposição cultural, denominada de imperialismo por autores como Yoram Hazony, autor da obra As Virtudes do Nacionalismo.
As repercussões desse grande tubo de ensaio em que se tornou a pandemia serão percebidas no campo das Relações Internacionais, da Economia, da Saúde, da Política e do Direito só para começar. As repercussões culturais ainda são incalculáveis.
Vivemos, na verdade, um cenário parcialmente previsto pelo Filósofo Olavo de Carvalho no início do século XXI, que recomendara ao então presidente do Brasil, Itamar Franco, a realização de um Congresso Mundial sobre o Nacionalismo. A sugestão então ignorada agora se faz urgente, como também é urgente a redefinição dos mercados e das fronteiras diante das atuais mutações políticas, científicas, econômicas e culturais.

terça-feira, 21 de abril de 2020

OBEDEÇA OU MORRA

Liberdade e Opressão em tempos de Pandemia

Obedeça, obedeça, obedeça... ou, na visão de certos elementos preocupados com o bem do próximo, os princípios do SUS – Universalidade, Integralidade e Equidade – não valerão para você.

“(...) parte da minha área de atuação [é] a orientação que passarei para o gabinete de crise e, em especial, aos médicos que estiverem atendendo, é que se tiverem que escolher entre esses pacientes que seguem essas recomendações (de isolamento social) e outros pacientes que não seguem essas recomendações, que já foram autuados, que vão para as redes sociais convocar os outros para a rua, que vão para as redes sociais convocar que abram o comércio, que vão para as redes sociais convocar passeata, não importa em apoio de quem (...), se tiver que escolher entre um paciente como esse e um paciente que cumpre as regras, que está exercendo uma função essencial e por isso está se arriscando, sem nenhuma dúvida faça a escolha em favor desses que estão obedecendo. A gente perfeitamente consegue monitorar as pessoas pela rede social, montar um banco de dados.”
Se nós avançarmos para esse estágio, tenhamos um banco de dados à disposição para que o profissional de saúde faça essa escolha em favor daquele que foi acometido por uma fatalidade já que não procurou “o COVID”. Uma coisa é o COVID procurar o paciente, outra coisa é o paciente por ignorância ir ao encontro do COVID. Eu acho que essas pessoas que estão cavando a sua cova com sua própria ignorância não têm o direito de tirar a vida daqueles que estão fugindo do COVID”. (Marcelo Lessa, Promotor Público, em declaração para RJTV).

Seguindo essa curiosa linha de raciocínio, deveríamos negar atendimento a presidiários ou criminosos que chegam baleados em serviços de emergência? Deveríamos usar quais outras formas de classificar adultos, idosos e crianças? Capacidade de contribuir para a sociedade com trabalho? Notas escolares? Cor da pele ou dos olhos? Concordância política com o governante? Usuários regulares de vitaminas e suplementos alimentares?
Basta termos um sistema de vigilância poderoso o suficiente e o grande porrete do Estado estará a postos para te excluir ou te punir se você não tiver sido um bom menino. 
Por alguns momentos senti que estava em um romance de George Orwell, mas percebi que esta é a realidade em que vivemos. E pessoas que defendem essa postura são justamente aquelas que sequestraram a expressão democracia e acusam quem se lhes opõe de ditador!
Na realidade alternativa em que vivem, as coisas ocorrem como Orwell descreveria: Ódio é Amor, Mentira é Verdade, Opressão é Liberdade...

terça-feira, 24 de março de 2020

DIGA-ME COMO REAGES E TE DIREI QUEM ÉS

Seria muito melhor se esse novo Coronavírus jamais tivesse existido, com certeza. Mas da complexidade da realidade, muitas coisas se apreendem de cada situação. Lições de vida são algumas delas, proporcionadas por momentos alegres ou, no caso de uma epidemia como a atual, tensos, mas reveladores.
Nesses momentos de grande tensão, medo e dificuldade, algo de menos controlado e mais instintivo parece vir à tona em todos nós. Pela resposta das pessoas nessas horas, podemos conhecer bem mais a respeito delas ou de nós mesmos. A resposta individual à epidemia do novo coronavírus não seria um caso diferente. Alguns podem dizer que a reação política e social está exagerada ou até mesmo histérica, outros diriam que estão subestimando o problema, mas a resposta individual dada à presente situação é algo bem concreto e imediatamente verificável.
Há aqueles que reagem com calma e coragem, e fazem o possível para ajudar. No caso de profissionais da saúde, surgiram muitos pedidos, vindos de diversas partes do país, de estudantes da saúde e profissionais – alguns até acima de 70 anos de idade – para que pudessem ajudar de alguma forma, qualquer forma. São pessoas que se sentiram profundamente incomodadas pela situação e sabem que podem ajudar, que podem ser úteis. Essa é a essência da nobreza da qual tanto falou José Ortega y Gasset, o oposto da mediocridade característica do que o filósofo espanhol chamava de homem-massa.
Para Ortega, o homem-massa é justamente aquele que odeia qualquer um que ouse se levantar acima dos demais, qualquer um que ouse demonstrar valor e caráter. O homem-massa é o “senhorzinho que só busca a própria satisfação” e torna-se insensível ao próximo e aos mais altos ideais de dever e responsabilidade que formam a história de um povo.
Em contextos como o que vivemos, todos têm sua colaboração de dever, responsabilidade e honra a oferecer. Seja ficando em casa, com paciência, mesmo que sem sintomas, sabendo que pode transmitir a doença a alguém mais frágil, seja trabalhando como profissional da saúde, no front dessa guerra silenciosa.
Na esfera política e social, que muito influencia a saúde, surgiram também ofertas de ajuda mesmo de alguns que nunca se mostraram lá muito amistosos em relação ao atual governo. Compreendem que somos pessoas e tratamos de pessoas. O melhor em cada um que veio à tona foi capaz de superar desavenças em tempos diferentes.
Mas nem tudo são rosas.
Há outras formas de resposta que de regra surgem nessas horas e que mostram um contraste tão evidente como o da noite em relação ao dia.
Há quem se aproveite da situação de tensão para capitalizar tudo em termos políticos, para aproveitar a tensão e alimentar o caos com objetivo de desestruturar o próximo, de plantar a discórdia para semear o ódio e o medo. Há quem tente lucrar durante a crise não por meio da coragem e da criatividade, mas da mesquinhez e do oportunismo político, para tentar ganhar na crise o que não ganhara em tempos mais tranquilos, por exemplo.
Pode ser que tais elementos o façam por não acreditar em algo chamado Justiça, ou que justiça para eles seja ajudar os amigos e detonar os “inimigos”, como afirmara Polemarco diante de Sócrates no antigo diálogo filosófico A República.
Por fim, há aqueles que, chamados a agir com calma e a ajudar o próximo, temem desesperadamente o risco. Profissionais de saúde e estudantes que, mesmo munidos de equipamentos de segurança e fora dos grupos de risco de maior de letalidade da doença, se apavoram e declaram que não irão à frente assistencial.
Tal medo é compreensível. Aliás, só é corajoso aquele que venceu o próprio medo, como tantos discursaram de forma correta ao longo da história.
Mas é preciso salientar algumas perspectivas básicas no presente cenário quando tantos falam em questões como heroísmo, segurança e profissionalismo.
Uns falam de heroísmo, outros dizem que o discurso que profissional da saúde precisa ser herói é uma desculpa para exigir condições inadequadas de trabalho e para que profissionais se exponham ao risco de forma despreparada e se submetam a condições ruins e desnecessárias de trabalho. 
Estupidez é uma coisa, heroísmo é outra. E ser prudente não é ser covarde. Heróis podem e devem ser prudentes, mas são heróis pelos valores encarnados e pelo sacrifício realizado em prol do próximo. 
Médicos que não se enxergam como heróis ou sacerdotes não são profissionais na concepção mais tradicional da palavra. Somente por almejar ser herói ou santo é que o médico foi respeitado desde os tempos hipocráticos, utilizando o mandato social recebido para agir além do mínimo que se exigiria para qualquer um. Quando nos afastamos disso, caímos na perigosa e morna mediocridade.
Mesmo fora dos tempos de epidemia, muitos profissionais da saúde seguem dando exemplos de como ser herói sob diversos aspectos. 
Um médico cirurgião não pode negar cirurgia a um paciente com hepatite C ou soropositivo pra HIV, por exemplo. Ele sabe que assume um risco quando entra em campo operatório. Mas para isso ele será treinado e receberá os devidos meios para agir com a máxima redução do risco.
Há risco e necessidade de certo heroísmo cada vez que um médico intensivista ou infectologista e toda a equipe de saúde composta por fisioterapeutas, enfermeiros e nutricionistas entram em uma área de isolamento na unidade de terapia intensiva, pois mesmo fora de epidemias, há doenças altamente contagiosas e muito perigosas a serem combatidas.
Quantos médicos, enfermeiros e diversos outros profissionais da saúde rotineiramente fazem muito mais do que entregar um serviço? Há exemplos do que chamaríamos de ação supererrogatória por todos os lados. Palavra utilizada no campo dos estudos éticos que denota justamente fazer mais do que o mínimo necessário, fazer algo de valor que supera a obrigação 
Almejar cumprir o antigo Juramento de Hipócrates, que preconiza respeitar a vida e de guardar a si mesmo e a Arte Médica com pureza e santidade pode parecer anacrônico para alguns. Eu, por outro lado, diria que tais valores representados entre profissionais da saúde há milênios são atemporais e jamais desvanecerão enquanto durarem os sentimentos profissionais de beneficência e excelência.
Há quem diga que heróis ou santos são reflexos de uma sociedade doentia, que caso estivesse saudável jamais necessitaria dos mesmos. O fato é que todos somos fracos, doentes e limitados por natureza e em diferentes graus, e que somente naqueles momentos em que nos elevamos um pouco acima de nossas mais cotidianas misérias é que vislumbramos algo superior a nós mesmos, algo pelo qual valha a pena fazer algum tipo de sacrifício. São esses momentos e a resposta que lhes é dada que direcionam a história de um povo, e que podem ser capazes de realmente formar uma história digna de ser legada à próxima geração e definir de fato o que é o Brasil.
Hoje temos um povo que ousou sair da mediocridade, ousou mudar de rumo. Pessoas falam novamente de heroísmo, valores, família, sacrifício e honra. Palavras consideradas fora de moda ou inúteis para alguns e que há relativamente pouco tempo eram politicamente incorretas. No entanto, são símbolos das coisas que realmente refletem o bem que nos transcende, e que sem dúvida merecerão ser recordadas nos livros de história para nossos filhos.
Que Deus ajude nosso país a ter cada vez mais pessoas que realmente desejam tornar-se heroicas e tomar para si a corajosa missão de fazer algo além do mínimo necessário. Pessoas que, na crise, ao invés do oportunismo egoísta ou da indiferença, estendam a mão para oferecer auxílio.
Hélio Angotti Neto
24 de março de 2020, Brasília - DF.

quinta-feira, 19 de março de 2020

NOS PIORES MOMENTOS, OS MELHORES

Essa frase – “nos piores momentos, os melhores” – foi inspirada no lema dos bombeiros voluntários que tive a feliz oportunidade de conhecer durante uma visita a trabalho em Santa Catarina. Fornecem grande inspiração para o presente e demonstram o valor daqueles que decidem realmente fazer a diferença positiva na sua comunidade.
Há momentos na história em que uma nação tem a chance de mostrar seu heroísmo e seu caráter, deixando para a posteridade a lembrança do que realmente alcançou em seus mais difíceis desafios ao mobilizar todo seu potencial. 
No caso de guerras, erguem-se os combatentes: membros das forças armadas que pegam em armas não para atacar os inimigos à frente, mas para proteger aqueles que ficaram para trás. 
No caso da suspeita ou instalação de epidemias, levantam-se os profissionais da saúde, não para pegar em armas, mas para usar da ciência e da excelência técnica contra um inimigo invisível e tantas vezes letal que por diversas vezes ressurge ao longo da história sob diferentes formas.
Hoje, esse inimigo que se aproxima assume a forma de um novo vírus altamente contagioso e potencialmente letal, principalmente na mais frágil parcela de nossa população.
Ainda não se sabe a real extensão do desafio que aguarda o nosso povo, mas sabemos do nobre papel milenar que pertence aos médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos e tantos outros valorosos combatentes da saúde. Nos momentos de grande fragilidade, seja no tumulto dos dias de suspense frente à suspeita de epidemia, seja nos dias de franco combate, cabe ao profissional da saúde cumprir o papel hipocrático de valorizar a vida e cuidar daqueles que ficaram doentes.
Pode parecer duro e até mesmo injusto para alguns que, no momento em que a maioria se recolhe, o profissional de saúde deva se expor, mas é justamente isso o que está implícito no chamado profissional: a nobre busca pela virtude em prol do cumprimento de um dever considerado sagrado em benefício do próximo, pois profissão vem de professio: professar elevados valores que beneficiam a todos. 
Nenhuma mãe, pai, esposa, filho ou marido gosta de ver seu amado ir para o combate ou para um cenário de risco ao lidar com doenças contagiosas, mas todos sabem em seus corações o que é necessário nesse momento de crise.
Diante do desespero, há que se manter a equanimidade temperada pela ciência, pela habilidade técnica e pela presteza em tomar difíceis decisões diante da rápida evolução clínica ou de um conturbado cenário social. Diante do perigo, há que se comportar de forma prudente e cuidadosa, consciente de que riscos devem ser controlados para quem cuida e para quem recebe o cuidado. Diante da fraqueza e da necessidade alheia, há que se manter a coragem, a caridade e a compaixão. 
Após cada conquista, cada vida salva, cada dor aliviada ou cada família confortada, deve-se manter a humildade para reconhecer em si mesmo semelhante fragilidade àquela encontrada no paciente e a possibilidade de tornar-se também doente – de virar paciente – absorvendo no corpo e na alma a doença que no outro foi eliminada ou aliviada.
O chamado do qual aqui se fala não é um chamado para todos, como acredito que aqueles que me leem perceberam, mas é um chamado especialmente direcionado a alguns – daí o nome vocação – para que todos possam ser beneficiados. É o chamado heroico dos profissionais da saúde. E a resposta a esse grande chamado – marcado pela caridade, compaixão, integridade, ciência, coragem e esperança – é o que diferencia quem é profissional de fato daqueles que somente possuem um diploma.
A todos aqueles que se arriscam e se arriscarão para ajudar ao próximo e suas famílias, nenhum agradecimento é suficiente. Que Deus ajude cada profissional da saúde a ser o melhor possível para o próximo. E que nossos filhos e netos escutem acerca de nossa geração os grandes feitos e realizações que marcarão nossas vidas e o futuro de nossa nação.
Que sejamos, de fato, os melhores profissionais nos piores momentos.

Hélio Angotti Neto