sábado, 7 de outubro de 2017

O JURAMENTO DE HIPÓCRATES, A ÉTICA MÉDICA E A BIOÉTICA

O JURAMENTO DE HIPÓCRATES, A ÉTICA MÉDICA E A BIOÉTICA

Apresentação do dia 06 de outubro de 2017 em Belo Horizonte, no 14º Congresso Brasileiro de Clínica Médica e 4º Congresso Internacional de Medicina de Urgência e Emergência.



Tive a oportunidade de falar um pouco sobre o Juramento de Hipócrates, a Ética Médica, a Bioética e a identidade de um bom médico recentemente, no Congresso Brasileiro de Clínica Médica em Belo Horizonte, no dia 06 de outubro de 2017.


A platéia presenta continha aproximadamente oitenta estudantes de medicina de diversas instituições[1] e médicos de diversos lugares do Brasil. Foi muito bom rever também alguns que foram alunos e hoje são colegas formados, como o Jackson, que participou do primeiro ciclo do SEFAM em 2012, e alunos que mudaram para outras instituições de ensino no decorrer da carreira acadêmica. Belo Horizonte ficou com a cara de Colatina ao ver também tantos alunos do UNESC participando do evento, interagindo nas palestras e exibindo trabalhos.


As perguntas durante a palestra foram bem instigantes, e poderiam render diversas outras apresentações. Além das curiosidades típicas do Juramento de Hipócrates e de seu contexto antigo e contemporâneo, colegas e alunos perguntaram a respeito do papel da Bioética na identidade atual do médico e a respeito dos atuais desvios éticos na medicina; perguntaram sobre Van Potter e o surgimento da Bioética e sobre como humanizar o médico.


Foram lembradas as situações humilhantes e desnecessárias que tantas vezes ocorrem na medicina ao invés do elo de respeito e profunda amizade entre mestres e aprendizes que se observa na ética tradicional e discutimos o que é ser corporativista e elitista no bom sentido.


Falamos sobre a preocupante experiência com a eutanásia, o aborto e o suicídio assistido nos países baixos, e como o Conselho Federal de Medicina já tentou aprovar certas medidas nada populares anteriormente.


Os aspectos mais básicos da ética hipocrática foram ressaltados, e alguns espantalhos, como o paternalismo hipocrático, foram discutidos e contextualizados.


O ponto em que todos concordaram, provavelmente, foi o da percepção que dias difíceis chegaram para a medicina de qualidade no Brasil. Dias de submissão profissional a planos políticos e dias de massificação e perigosa mediocrização da profissão.


O tempo à frente não é fácil, vivemos os piores dos dias, e vivemos os melhores dos dias, em diferentes perspectivas. Há uma crise instalada e outra a caminho, que poderá mudar irremediavelmente a identidade do médico brasileiro e remexer a nossa qualidade profissional.


Nesse cenário desafiador, antigos lembretes devem ser resgatados. Martin Luther King Jr. disse com muita propriedade que o problema não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons. Também disse que no final, não nos lembraremos das palavras de nossos inimigos, mas do silêncio de nossos amigos. Somos chamados à coragem justamente nesses tempos de grande crise, e somos desafiados a resgatar o que há de melhor na identidade da nobre profissão médica.


Que os médicos ousem dedicar-se a manter acesa a chama da profissão médica e a transmitir aos mais novos o que de melhor recebemos de nossos predecessores. Que médicos exemplares dividam sua prática não somente com os pacientes, mas com a nova geração que precisa de bons exemplos. Negligenciar essa necessidade é trair os altos ideais profissionais que, por milênios, fizeram a medicina ser uma amada e respeitada profissão.

Que nós não possamos ser exemplos do conhecido poema de William Butler Yeats: “The best lack all conviction, while the worst are full of passionate intensity”. Sejamos os melhores, e sejamos intensos em nossa busca pela excelência e pelo bem do próximo.

Hélio Angotti Neto.
07 de outubro de 2017, Colatina – ES.


[1] Havia alunos da UVV, UNIFESO, Multivix, UNICSAL, UFAL, UEL, UFOB, FASA, UEPA, UNIPAM, UNOESTE, UFJF-GV, UFJVM e do UNESC.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

RESENHA: BASES DA DIREITA E DA ESQUERDA

RESENHA: BASES DA DIREITA E DA ESQUERDA

O GRANDE DEBATE: Edmund Burke, Thomas Paine e o Nascimento da Esquerda e da Direita

Yuval Levin


Em seu livro “O Grande Debate: Edmund Burke, Thomas Paine e o Nascimento da Esquerda e da Direita”, recentemente traduzido para o português, Yuval Levin busca um elemento essencial do pensamento político contemporâneo, remexendo na história de um acalorado debate entre dois grandes políticos e pensadores: Burke e Paine.

Burke, um dos precursores do que hoje se denomina pensamento de direita, defendia a história de erros e acertos do passado contra o impulso revolucionário e destrutivo do presente. Posicionava-se ao lado de uma política de prudência, como Russel Kirk posteriormente a denominou, observando na história uma prescrição de lições contínuas e deveres necessários para a manutenção de uma sociedade adequada.

Paine, por outro lado, defendia a aplicação de princípios atemporais da razão à sociedade, buscando um regresso aos elementos que promoveriam a existência de um povo mais igualitário e justo, mesmo que ao custo da destruição do atual estado de coisas, evitando a inércia e o reacionarismo, para moldar uma nova sociedade capaz de encarnar melhor os ideais de justiça.

Embora ambos concordassem com os intuitos da Revolução Americana, de independência, o ponto de discórdia se deu na Revolução Francesa. Paine viu uma fantástica oportunidade para aplicar os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade, poderosas abstrações que poderiam reformular uma sociedade inteira e acabar com um estado corrompido prévio. Burke via com desgosto e preocupação essa reformulação racionalista do mundo, alertando contra o ato de desprezar as lições prudenciais do passado. Temia, o derramamento de sangue, que de fato ocorreu, parindo a modernidade.


Segundo Paine, “Temos o poder de reiniciar o mundo” e “ver o governo começar como se vivêssemos no início dos tempos”. Burke afirmava que um retorno ao início sem o devido cuidado seria um retorno ao barbarismo. A visão conservadora da natureza humana era muito pessimista – ou realista, conforme a origem de quem falava – para acreditar nesse paraíso primitivo defendido por Paine e outros pensadores iluministas como Rousseau.

Alinhado ao atual pensamento de viés liberal e socialista predominante, Paine afirmava que “Meu país é o mundo e minha religião é fazer o bem.” Já Burke prenunciava o conservadorismo atual defendendo uma posição mais local e menos universal, embora diversa, assim como Roger Scruton prescreve. “Para que amemos nosso país, ele deve ser digno de amor”, e “Nosso país não é meramente uma localidade. Ele consiste, em grande medida, na antiga ordem em que nascemos.” Concordem com Burke ou não, o Brasil tiraria preciosas lições para o sentimento geográfico e desmemoriado que temos de patriotismo.

Paine, otimista com a natureza humana, afirmava ao contrário de Hobbes que “O homem só é inimigo do homem por meio de um falso sistema de governo”. Paine declarava que “A humanidade teve muito pouco propósito se, neste período do mundo, precisa voltar 2 ou 3 mil anos em busca de lições e exemplos.” Com base em um novo entendimento da natureza e dos princípios da justiça e da sociedade, o mundo veria um renascimento. Ao estilo da new Left revolucionária de hoje, Paine revela dificuldade em distinguir entre destruição e construção durante a revolução.

Burke comentaria, escandalizado pelos frutos do pensamento racionalista aplicado à sociedade, que “Nunca antes um conjunto de homens literários se converteu em uma gangue de ladrões e assassinos; nunca antes um antro de vilões e bandidos assumiu o garbo e o tom de uma academia de filósofos”.

A visão de Paine era “assertiva, confiante, racionalista, tecnocrática e progressista”, defendendo que por meio do uso de sua razão, o homem poderia remodelar o mundo em busca de justiça. Um anseio muito contemporâneo presente entre socialistas e transumanistas de forma geral.

A visão de Burke, por outro lado, se mostrava “grata, protetora, cautelosa, moralista, gradualista e reformista”, compreendendo que o mundo só pode ser melhorado caso compreendamos nossas limitações e construamos sobre as fundações previamente estabelecidas.
Em suas conclusões, Levin resume:

“O objetivo utópico fundamental no âmago do pensamento de Paine – o objetivo de liberar o indivíduo das obrigações impostas a ele por seu tempo, seu lugar e suas relações com os outros – permanece essencial para a esquerda americana.” “Com o tempo, o objetivo utópico ganhou preferência, e uma visão do Estado como provedor direto das necessidades básicas e amplamente livre de restrições do liberalismo iluminista de Paine surgiu para defende-lo.”
A esquerda atual, segundo Levin, exibe coletivismo material ao lado de individualismo moral. Já o conservadorismo exibiria um certo coletivismo moral, no respeito às tradições e à história, ao lado do individualismo material.

Levin afirma que a esquerda atual começa a se desviar para a fria lógica do utilitarismo, e que faria bem em relembrar dos avisos de Thomas Paine em relação aos limites do podere e do papel do governo. Já a direita, tem se mostrado aberta demais ao “canto de sereia” do hiperindividualismo material e da falta de uma teorização adequada, podendo aproveitar o foco  burkeano no caráter social do homem.

Num país como o Brasil, no qual multidões usam palavras como porretes sem ao menos conhecer o real significado daquilo que buscam expressar, faz bem ler Yuval Levin, e compreender que Direita e Esquerda são polos de como nos relacionamos com nossos semelhantes, do passado, do presente e do futuro. Como lembra muito bem Edmund Burke, não respeitaremos os nossos descendentes se não respeitarmos nossos antepassados, mas, no ideal de Paine, não podemos desmerecer a urgência do presente.

Hélio Angotti Neto.
03 de outubro de 2017, Colatina – ES.


RESENHA: RAÍZES DA CULTURA OCIDENTAL

RESENHA: RAÍZES DA CULTURA OCIDENTAL

Herman Dooyeweerd



Em seu livro, Herman Dooyeweerd distingue as quatro fundações de nossa civilização, declarando-as como incompatíveis entre si. Afirma que tais fundações são pontos fundamentais de partida sobre o qual se apoiam todas as visões de mundo que caracterizam nossos tempos.

A primeira dessas fundações é a pagã, grega e romana. Baseada no dualismo entre o elemento vital e natural e o elemento cultural e histórico, gerou uma visão de matéria e forma que foi mesclada à fé cristã pelo catolicismo romano. Segundo Dooyeweerd, essa síntese católica comprometeu a visão original de Cristo de integralidade da Criação, sua Queda e sua Redenção.

A segunda fundação é justamente o cristianismo, baseado não numa abstração ou numa divisão entre forma e matéria, mas na concretude do ser humano centrado em seu coração ou alma, dentro de um cosmos descrito em termos de Criação, Queda e Redenção, afetando todos os aspectos existenciais ligados ao homem.

A terceira fundação é a tentativa de síntese entre as duas anteriores, movida pela Igreja Católica Apostólica Romana. A quarta é o secularismo, que absolutiza um dos polos da fundação pagã.

Um conceito importante para compreender o pensamento de Dooyeweerd é, sem dúvida, o de soberania das esferas. Para compreender a criação de Deus, o homem não pode absolutizar um de seus aspectos ou esferas. Não se pode compreender a realidade somente pelo seu viés histórico ou lógico. Embora cada um desses aspectos possua uma série de leis internas e uma soberania própria, todas as perspectivas da realidade manifestam-se de forma concreta e interligada. Aquele que deseja compreender melhor a criação, deve se esforçar por adquirir uma ampla visão de todas as esferas e de suas ligações analógicas (que Dooyeweerd chama de antecipações e retrocipações).

Absolutizar uma das esferas, como a econômica (a economia dita os rumos da humanidade, ao gosto dos marxistas), por exemplo, ou a sentimental (tudo é sentimento e o ser humano age por prazer – hedonismo), é um tipo de idolatria que diminui a inteligência humana e sua capacidade de interagir como mundo de forma eficaz. Um nome mais conhecido de tal ato de empobrecimento intelectual é reducionismo.

Diversos autores reconhecem hoje o problema desse reducionismo e os riscos de se arrancar o ser humano do contato com a transcendência complexa e concreta. Um dos autores brasileiros que repete a crítica da absolutização de esferas da realidade, como o tempo e a matéria (o historicismo e o positivismo), é Olavo de Carvalho em sua obra magistral “O Jardim das Aflições”.

Embora seja lembrado por suas críticas ao protestantismo ao falar em ambientes virtuais públicos, Olavo reconhece em suas aulas de filosofia dedicadas a seus alunos a importância de Herman Dooyeweerd e Abraham Kuyper, mesmo ao discordar em alguns pontos como, por exemplo, a crítica que faz a Dooyeweerd em relação à capacidade da absorção dialética empreendida pela Igreja Católica ao lidar com a cultura pagã.

Para Dooyeweerd, há um antagonismo (chamado de antinomia) essencial entre as visões de mundo cristã, secular e pagã, e qualquer sincretismo pode minar irremediavelmente a potência da cosmovisão cristã, distorcendo a forma pela qual enxergamos a realidade. Olavo de Carvalho, por outro lado, entende a visão cristã como superior a todas as outras e capaz de absorvê-las e enriquecer-se dialeticamente, ao invés de degenerar-se. Mesmo em discordância em relação a alguns aspectos, Olavo de Carvalho deixa claro em suas aulas no Curso Online de Filosofia que estudantes sérios deverão passar por Kuyper e Dooyeweerd.

No contexto da soberania das esferas, uma esfera inferior da realidade é considerada aberta quando permite a progressão para a próxima. Um exemplo seria a abertura da esfera relacionada às relações sociais, direcionada para a formação econômica de uma sociedade, a esfera imediatamente superior. Quando uma dessas esferas inferiores se fecha, torna-se uma fonte de reducionismo da qual o homem dependerá para interpretar e viver a realidade. Uma compreensão introdutória das esferas pode ser absorvida com a leitura da obra de Kalsbeek - Contornos da Filosofia Cristã -, uma excelente introdução à filosofia de Herman Dooyeweerd.

A esfera pística, relacionada à fé, é considerada por Dooyeweerd como a mais alta esfera. É justamente a fé que se encontra no limiar entre o temporal e o atemporal, entre a imanência e a transcendência. A depender da fé verdadeira, a concepção de mundo será aberta ou fechada à transcendência.

No capítulo Fé e Cultura, Dooyeweerd demonstra como a fé se utiliza de todas as esferas anteriores e como as transcende, exemplificando sua teoria filosófica.

Um dos pontos de sua crítica à formulação católica romana da fé é direcionada ao pensamento escolástico quando este identifica a fé com

a crença no conteúdo doutrinário católico-romano, alegando que a fé era o dom sobrenatural da graça ao intelecto, por meio do qual o intelecto aceitava as verdades supranaturais da salvação. Assim, a função da fé se tornou extensão sobrenatural da função lógica encontrada na natureza humana. A fé consistia numa aceitação puramente intelectual, mas por meio de uma luz superior que transcendia os limites da razão natural. A compreensão da natureza única da função da fé dentro do aspecto limite da realidade temporal havia desaparecido completamente dessa concepção escolástica.

Embora haja vertentes mais místicas de aproximação da fé no catolicismo romano de forma geral, assim como o há no meio protestante e, especialmente, no meio ortodoxo, a Ênfase escolástica realmente identifica a fé, ou procura abordá-la, dentro da concepção discursiva lógico-racional.

Os católicos romanos costumam culpar ao protestantismo pela secularização de nossa civilização alegando a quebra do poder, da autoridade e da união da Igreja. Dooyeweerd enxergaria o poder, como aos poucos se manifestou na história, e sua concentração cultural e religiosa dentro da instituição eclesiástica por meio da autoridade e do discurso lógico, como um perigoso precedente de reducionismo da esfera pística e precursor do secularismo exacerbado de nossos dias.

Absorvendo as duas críticas, tanto a protestante quanto a católica romana, é possível distinguir colaborações ou participações de ambos os lados na derrocada da cristandade e na ascensão do secularismo. O protestantismo quebrou a autoridade imanente deixando um vácuo na esfera do poder por causa da desunião entre os membros da Igreja. O catolicismo romano reduziu a fé a elementos discursivos racionais e rompeu a soberania das esferas fechando a esfera superior da fé a elementos inferiores institucionalizados. São dois polos de ação que poderiam ser descritos como exageros de ambas as partes, ambos potencialmente complicados e repletos de possíveis ganhos e falhas.

Assim como fazem muitos críticos do protestantismo, Dooyeweerd também traça um dos nexos causais responsáveis pela secularização à obra de Guilherme de Ockham, que separou a natureza da fé cristã ou graça.  Ockham influenciou sobremaneira Lutero, que renegou a natureza e, por meio dela, a Lei, para enfatizar a graça sobrenatural. Se a Igreja Católica Romana negava a divisão entre natureza e graça, considerando aquela como uma via de acesso inferior a esta, Lutero renega completamente um dos lados dessa visão dualista de mundo, embora ainda se mantivesse em seu interior ao enunciar a existência dualista da realidade. A influência mediada por Lutero ainda se faz sentir, de acordo com Dooyeweerd, em vários teólogos modernos, como Karl Barth.

Na vertente secularista, a natureza se separa completamente da graça e, cada vez mais, adquire autonomia e absolutização na visão de mundo. O indivíduo é elevado à estatura de princípio da sociedade por uns e, por outros, a matéria quantificável pela ciência o faz, criando vertentes individualistas e liberais ou positivistas. Por outro lado, a ênfase em elementos formais e não materiais pode agir no ambiente secular por meio do historicismo, tão em voga nos estudos históricos contemporâneos.

A evolução do pensamento destituído do aspecto transcendente progride, posteriormente ao racionalismo liberal e ao positivismo, para o que se denomina romantismo, exaltando o aspecto comunitário, geográfico e racial ao invés do indivíduo. Compreendemos as consequências dessa guinada para a exaltação do comunitarismo, do sangue e da terra ao verificarmos os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial.

Foi justamente essa visão que organiza e classifica seres humanos em raças, classes ou grupos julgando a realidade por meio de generalizações abstratas e características pretensamente representativas, descrita por Max Weber de Tipo-Ideal, que fundamenta as atuais ciências sociais.

Herman Dooyeweerd aprofunda conceitos importantes para a compreensão de sua teoria da soberania das esferas e de como a visão cristã antagoniza as visões pagãs e seculares. Busca os pressupostos metafísicos que qualificam a visão reformada frente à busca pela síntese executada pela Igreja Católica Romana e descreve desenvolvimentos históricos e acadêmicos que podem nos ajudar a compreender a ascensão do secularismo e como o mundo das idéias contribuiu para o fenômeno antirreligioso que hoje se nota.


O livro Raízes da Cultura Ocidental é uma leitura interessante para compreender um pouco mais sobre um dos momentos que marcou mais profundamente nossa história: a Reforma Protestante. É óbvio que Católicos Romanos discordarão das observações de Dooyeweerd, assim como protestantes reformados provavelmente discordarão da síntese católica entre a visão pagã de mundo e a visão cristã, mas vejo a leitura dessa pequena reunião de artigos como um aporte necessário para enriquecer a discussão.

Hélio Angotti Neto
03 de outubro de 2017, Colatina - ES

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

RESENHA: A CORRUPÇÃO DA INTELIGÊNCIA, DE FLÁVIO GORDON

RESENHA: A CORRUPÇÃO DA INTELIGÊNCIA

Em seu livro, Flávio Gordon revela como a prostituição do que se convenciona chamar de intelectualidade frente aos anseios políticos e hegemônicos causou a corrupção da inteligência brasileira.

O livro se insere naquela categoria típica de obra descritiva das sociedades que acabam de despertar para a filosofia ao perceberem a tragédia final que se avoluma sobre um povo: a crítica cultural.

Seguindo os passos da grande influência geradora da obra – o filósofo Olavo de Carvalho -, Flávio Gordon descreve de forma irônica e, ao mesmo tempo, erudita e aberta, o estado degenerado em que se encontra a inteligência brasileira, graças aos intelectuais.

O livro é escrito com uma invejável e ampla visão dos acontecimentos recentes da história de nosso país, e lança mão de numerosas citações diretamente colhidas dos fatos de conhecimento público, aparentemente desconexos, porém, claramente interligados por uma mente capaz de estabelecer os nexos causais adequados, como o faz o autor.

O uso dessas citações, “cruéis fantasias” concretamente reais, nos mostra o percurso dessa grande derrocada de nossa capacidade de enxergar, interpretar e agir na realidade de forma adequada. A inteligência do povo brasileiro, e de muitos estrangeiros, foi progressivamente destruída, deturpada, cegada e redirecionada pelos agentes políticos travestidos de professores e condutores da mente alheia.

O povo brasileiro aprendeu a amar as banalidades e a elevar o indigno, menosprezando e profanando o que lhe resta de bom, belo e justo. Essa degradação do que é nobre, para abrir espaço para a ascensão do que é medíocre e suscetível à manipulação daqueles que são imorais, já fora muito bem descrita por José Ortega y Gasset em seu clássico “A Rebelião das Massas” e por José Ingenieros em seu “O Homem Medíocre”, uma leitura estranhamente familiar para qualquer brasileiro que tenha sido testemunha dos desgovernos petistas nas últimas duas décadas.

Descreverei alguns dos temas abordados em cada capítulo do livro, alertando desde já ao leitor que este é um resumo extremamente incompleto e incapaz de sintetizar a riqueza de detalhes e referências do autor, e que não substitui de forma alguma a leitura integral do original. Aliás, “A Corrupção da Inteligência” é um livro essencial para a compreensão de nossos tempos e de nosso Brasil. É um registro histórico que, se sobrevivermos por mais algumas gerações, revelará aos nossos descendentes toda a miséria e degradação moral e intelectual vivida por nossas tristes gerações, habitantes de nosso triste trópico que já foi conhecido por ser uma dos mais belos, felizes e promissores lugares do mundo para se viver.

No capítulo 1, “Mentalidades afins”, Gordon contrasta a moralidade das elites com a do povo e contextualiza a formação da famigerada opinião pública, consenso do seleto grupo pervertido que compõe uma enorme parcela de nossa elite econômica, política e, por que não deixar logo bem claro, intelectual.

No capítulo 2, “A longa marcha sobre as instituições”, o autor mostra o aspecto quasi-religioso que as ideologias de massa assumiram, explicando como pessoas, aparentemente dotadas de inteligência, podem se submeter a projetos desastrosos e cruéis impostos por líderes ridículos. O papel de Antônio Gramsci fica bem claro, assim como sua influência na elite da esquerda brasileira, nos dois capítulos seguintes, “O mal-estar dos intelectuais” e “Gramsci no Brasil”.

O capítulo 5, “Dom Quixote e Sancho Pança”, trata da manipulação da linguagem e das percepções alheias pela classe falante e pela mídia. O uso indiscriminado de baixezas erísticas é denunciado, lembrando ao leitor o carnaval de rótulos odiosos e delírios de interpretações que rondam o debate político e cultural no Brasil, se é que podemos denominá-lo debate. Está mais para altercação.

O capítulo 6, “Imaginação moral, imaginação idílica, imaginação diabólica”, encerra a primeira parte do livro ao estilo temático dos capítulos penúltimos de “O Jardim das Aflições”. Amparado por grandes precedentes como Lionel Trilling, Karl Kraus, Hugo von Hofmannsthal, Marcel Proust, Russel Kirk, Oswaldo de Meira Penna, Edmund Burke, Eugen Rosenstock-Huessy, Gilbert K. Chesterton, T. S. Eliot, Northrop Frye, Leopold von Ranke, Roger Scruton, os clássicos da literatura mundial e os Evangelhos, Flávio Gordon tece sua crítica ao espírito solapado pela corrupção, destituído dos altos voos da transcendência, elemento expresso de forma imediata diante do indivíduo ou, no aspecto coletivo, expresso pelo mais precioso e rico legado da Alta Cultura. Neste capítulo, o autor já deixa bem claro que estamos diante de uma hecatombe de proporções civilizacionais, que nos deformou e nos isolou da rica realidade cultural que nos gerou.

Após estabelecer as bases literárias, antropológicas, históricas e filosóficas de sua crítica, Flávio Gordon inicia a segunda parte de seu livro, dedicada a analisar especialmente a situação brasileira, encaixando-a no panorama internacional. Embora temas nacionais tenham sido tocados na primeira parte, o estilo anterior era o de expansão progressiva. Na segunda parte, vemos uma contração que se aproxima cada vez mais do presente, a partir da fatídica metade do século XX.

No capítulo primeiro da segunda parte, “Uma história muito mal contada”, Gordon fornece detalhes de como a intelectualidade da vertente esquerda do espectro ideológico dedicou-se a beber da sedutora taça do poder e a manter sua hegemonia, aleijando e alijando intelectuais discordantes e, inevitavelmente, impossibilitando aquela que é uma das mais potentes máquinas de criar inteligências: a velha dialética aristotélica, baseada na síntese das teses e antíteses. Os intelectuais foram os maiores agentes e as maiores vítimas de sua estratégia.

O capítulo 2, “Comunismo e consciência: o momento Kronstadt”, aborda o fenômeno de devoção cega que solapa tantas mentes teoricamente dotadas de tudo o que seria necessário para caracterizar uma pessoa inteligente. Gordon também trata dos casos em que alguns intelectuais perfuraram o cerco à consciência e conseguiram se desvencilhar da escravidão ideológica, enxergando todo o mal e degeneração ao qual estavam presos.

O capítulo 3, “A doutrina Golbery e a hegemonia cultural da esquerda”, aborda a política de descompressão do General Golbery e a crescente influência que os destruidores culturais da Escola de Frankfurt e da New Left, de forma geral, tiveram na sociedade brasileira, principalmente nos meios universitários e na mídia.

O capítulo 4, “Aplausos com uma só mão”, mostra as discretas – e secretas – ligações de nossos intelectuais com agentes ideológicos estrangeiros. Um assunto pouquíssimo lembrado – ou ocultado? – em nossa academia. Mostra também como a experiência de um seleto grupo de elite com a ditadura militar foi fixado no imaginário cultural de nosso país e, até hoje, foi convertido numa monótona cacofonia instrumentalizada para a guerra política de ocupação e controle de espaços.

O livro encerra com uma demonstração narrativa, concreta e vívida, dos fatos que ilustram o estado de calamidade cultural em que nos encontramos.

Lembrando de grotescas manifestações de nossas universidades, Gordon descreve situações como as do homem que arrastava tijolos com o pênis, a mulher cachorro com focinheira que urina no poste, o jovem eletrocutado confundido com artista performático, o culto satânico sadomasoquista lésbico chamado de arte  e bancado com dinheiro público, o professor universitário que estimula o fuzilamento daqueles que discordam, o enaltecimento sistemático da bandidagem, o totalitarismo violento e “fascistóide” dos que pregam a liberdade e a “tolerância”, a manifestação visceral de certos protestos na forma de “vomitaços” e o uso do orifício anal como ápice da revolução cultural e política mundial.

Flávio Gordon vislumbra, a título de comparação, o que foi descrito pelo Cardeal John Newman como um clássico Scholar: um sujeito dotado de verdadeira cultura intelectual, cujos atributos são a liberdade, a equidade, a calma, a moderação e a sabedoria, ao invés de simples possuidores de saberes específicos. Diante do desolador cenário atual, lamenta a ausência dessa figura hoje quase mítica em nosso país e constata que a universidade brasileira está repleta de “gente furiosa contra os livros que já não sabe ler”, como diria Carpeaux.

Flávio Gordon encerra o livro constatando que “os pais, que outrora lamentavam perder os filhos para as drogas e as más companhias, agora os perdem para a universidade. ” Não é à toa que este último capítulo abre com a inscrição do pórtico do inferno dantesco: “Abandonai toda a esperança, ó vós que entrai”.

Hélio Angotti Neto

22 de setembro de 2017, Colatina – ES.


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

MEDICINA E HUMANIDADES - Entrevista para a Revista DOC

MEDICINA E HUMANIDADES – Entrevista para a Revista DOC

 

1 - Em qual das duas áreas você se formou primeiro: Medicina ou Filosofia? E por que a escolha por cada uma delas? Você se considera um médico dedicado à Filosofia ou um filósofo que pratica Medicina?

 Formei-me em Medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo. Depois fui residente em Oftalmologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, onde atuei também como preceptor e onde fiz meu Doutorado em Ciências – Oftalmologia.

Não tenho nenhum título formal em Filosofia, tampouco em Bioética. Sou filósofo no sentido em que busco a sabedoria na qualidade de indivíduo, cristão, pai de família e médico, buscando integrar conhecimento e consciência, conforme definiu o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho. Não tenho título de bacharel em filosofia, embora atue de forma acadêmica, escrevendo, editando e pesquisando, também nessa área.

O meu estudo no campo da filosofia e das humanidades em geral ocorreu e ainda ocorre de forma independente há cerca de quinze anos. Digo independente no sentido em que não busquei formalizar um título.

Sobre ser médico, cristão ou filósofo, nos termos que entendo, não vejo uma escolha ou predominância, vejo uma complementaridade. Minha fé constrói a forma pela qual entendo a realidade, a filosofia determina junto com minha fé a postura que adoto diante do real e a medicina é uma forma de aplicar o que sei e acredito em prol dessa mesma realidade. Em minha profissão encontrei uma compatibilidade de valores entre as perspectivas de minha vida.

A medicina eu escolhi como profissão. A filosofia eu escolhi por obrigação com a verdade e por identificação, motivado pela minha fé. É uma mistura antiga, essa a da filosofia com a medicina, legada a nós desde a Antiguidade Clássica.

2 - Quando você decidiu explorar a Filosofia na área médica? E como surgiu essa ideia?

Decidi explorar a filosofia na área médica quando ingressei no programa de residência médica. Diversas mudanças e novas responsabilidades em minha vida convidaram-me a adotar uma postura mais reflexiva. Quanto mais eu estudava sobre humanidades médicas, mais eu enxergava minha carência em conhecimentos humanísticos. O interesse pelos temas mais variados e a aplicabilidade deles na arte médica, ao lado da ciência, levaram-me a prosseguir no estudo e na pesquisa.

No começo estudei filosofia de forma geral e, aos poucos, as conexões surgiram, levando-me ao estudo da Filosofia da Medicina e da Bioética.

3 - Como se dá a relação entre Medicina e Filosofia? O que há em comum e de divergente nessas duas áreas?


A medicina, nas palavras de Edmund Pellegrino, é a mais científica das humanidades e a mais humana das ciências. É uma arte que utiliza a ciência para lidar com a realidade do paciente em busca do bem.

Um médico exercerá sua arte nas três esferas do conhecimento conforme o entendimento aristotélico: exercendo uma habilidade, dotado de conhecimento, em um contexto ético específico. Essa integração entre ação, conhecimento e moralidade é completamente compatível com a filosofia em sua formulação socrática.

A filosofia e, particularmente, as humanidades médicas, ajudam a compreender melhor o ser humano em toda a sua complexidade e a interferir de forma mais positiva na vida alheia.

Tanto a filosofia quanto a medicina ajudam a compreender o mundo em que vivemos e, em especial, o homem. A grande diferença entre uma e outra é o alcance. A boa filosofia é a base para todos os demais conhecimentos.

4 - Em seu blog, você fala sobre Humanidades Médicas. Como explicar esse conceito? E por que é possível dizer que a Filosofia é uma delas?

 O conceito de Humanidades Médicas só pode ser compreendido hoje em conjunto com a compreensão da divisão artificial entre arte ou humanidades e ciência. Em oposição à ciência, que seria o conhecimento experimental, matematizado e pretensamente mais objetivo, têm-se as humanidades, que compõem todo aquele conhecimento empírico e subjetivo que lida com o inédito e com a imprevisibilidade inerente a cada ser humano.

Hoje fala-se muito a respeito da bioética em saúde. Mas para falar de bioética com propriedade, é necessário compreender a Alta Cultura de uma civilização; seus fundamentos humanísticos, incluindo literatura, história, arte e, na base de tudo, a filosofia e a religião, que nos oferecem as ferramentas necessárias para uma reflexão integradora de todos os campos do conhecimento.

5 - Ao longo dos anos, as transformações sociais vêm provocando mudanças na Medicina, principalmente na relação médico-paciente, e têm sido alvo de discussões de pesquisadores da Bioética. Para você, quais mudanças, de fato, ocorreram e como as explica?

 Mudanças ocorreram, ocorrem a cada dia, e ocorrerão sempre.

Na antiguidade o médico se confundia com o feiticeiro e com o sacerdote. Curava e matava. Tudo começa a mudar com a medicina hipocrática, quando o médico se separa da esfera religiosa propriamente dita e almeja uma arte mais técnica e científica, conhecedora das causas e devotada ao reconhecimento da preciosidade da vida humana.


Com o advento do cristianismo, essa percepção do valor da vida humana torna-se hegemônica e se difunde pela civilização ocidental.

Com a medicina moderna, veio a concepção mecanicista do ser humano. Já na época contemporânea, onde temos os grandes milagres da técnica médica, surgiram problemas relacionados a falhas éticas em pesquisa e riscos de mutações civilizacionais irresponsáveis. Uma outra modificação bem presente, ao ponto de ser ignorada por muitos, é o conflito inerente de interesses quando o médico se encontra dividido entre diversas demandas, vindas do Estado e de instituições privadas que se colocam como intermediárias da relação médico-paciente, quebrando o vínculo tradicional de confiança que existe entre médico e paciente há milhares de anos.

Eu entendo que mudanças são constantes, porque a realidade não é estática. Porém, há um fundo de valores que permanecem, e que devem sempre serem atualizados e reconhecidos nos mais diversos contextos, para que a medicina continue promovendo o bem ao qual se propõe. Se o médico não atualizar de forma constante esses valores ao longo dos contextos que se alteram, o elo de confiança com o paciente será quebrado. Digo atualizar no sentido de tornar ato, tornar algo presente. Os valores estão aí, sempre estiveram, é necessário manifestá-los na relação médico-paciente.

6 - Como você caracterizaria a Medicina Hipocrática? Acredita que seus legados ainda estejam presentes atualmente?

A medicina hipocrática é aquela arte comprometida com a busca da causa dos problemas de saúde do ser humano por meio de uma explicação predominantemente natural e com a cura ou o alívio em relação à doença e com o consolo, o conforto e o respeito ao paciente.

Embora existam algumas técnicas ancestrais de investigação clínica e até mesmo alguns procedimentos terapêuticos que guardam grande semelhança com práticas utilizadas ainda hoje, as explicações científicas mudaram completamente. Contudo, há um elemento atemporal na antiquíssima medicina hipocrática que permanece tão valioso, atual e distintivo a ponto de ter gerado respeito entre os cristãos e muçulmanos que vieram séculos depois: o seu componente ético.

Vários elementos da ética hipocrática ainda se encontram presentes na medicina: a defesa da vida humana como pilar da benevolência e da não malevolência; o sigilo entre o médico e seu paciente; o reconhecimento da fragilidade de quem se encontra doente e a necessidade de proteger seu pudor e sua vulnerabilidade e muitos outros elementos. Procuro deixar claro os pontos de contato entre as diferentes culturas e épocas nas obras “A Tradição da Medicina” (já lançada, na qual abordo o Juramento de Hipócrates e as virtude médicas) e “A Arte Médica” (a ser lançada pela Editora Monergismo, na qual abordo a tradição hipocrática de forma geral, em seu conteúdo ético).

Os elementos hipocráticos ainda estão presentes, embora muitos menosprezem ou difamem a antiga ética. Do passado veio também uma infeliz e dolorosa lição sobre o que pode acontecer quando nos afastamos de tais ideais nobres, como quando aconteceu com os horrendos exemplos da medicina comunista e da medicina nazista, se é que podemos chamá-las pelo nome de medicina.

7 - Como o paternalismo médico pode ser explicado pela Filosofia e qual sua opinião sobre o tema?

Há várias explicações e significados possíveis para o termo paternalismo, o que torna arriscado qualquer discussão sobre o tema. De regra geral, pode-se falar acerca de um paternalismo forte e autoritário, ligado à figura daquele médico que não considera a opinião do paciente e mal lhe escuta direito. Por outro lado, há um paternalismo fraco, representado pela figura do médico benevolente que age em prol do paciente extremamente vulnerável e destituído de autonomia real. No primeiro caso, o paternalismo torna-se um ato imoral, destituído de empatia e respeito; no segundo, pode ser até mesmo uma conduta obrigatória e benevolente com o paciente e sua família. Inclusive, muitos pacientes exigem do médico uma postura paternalista fraca.

Há muitas nuances e diferentes formas de enxergar esta questão. Contudo, é incontornável o fato de que a doença causa, na maioria das pessoas, uma extrema fragilidade psíquica e um aumento da dependência em relação ao próximo. Na figura do médico muitos enxergarão a imagem paternal. Essa condição inerente à condição humana frágil e limitada somente reforça a enorme responsabilidade do médico e a grande necessidade de formar adequadamente o seu caráter ao trabalhar suas virtudes. Um dos grandes objetivos da relação terapêutica em prol do bem do paciente, inclusive, é restituir autonomia ao paciente, um elemento importante de sua integridade, como lembra Eric Cassel em sua obra de grande importância para as Humanidades Médicas (The Nature of Suffering – A Natureza do Sofrimento).

8 - Você é coordenador de Medicina da UNESC. A grade do curso tem algum conceito filosófico embutido? E qual é a importância de formar o aluno de Medicina com base nesses conceitos?

Há conceitos ou aspectos filosóficos em tudo o que fazemos, mesmo que não sejam percebidos. A educação médica não escapa desta observação. O próprio método de aprendizagem ativa se ampara em muitos pressupostos filosóficos e pedagógicos.

Quanto ao conteúdo na grade curricular, há algumas inserções que gradualmente foram estabelecidas, conforme a compatibilidade e a necessidade do Projeto Pedagógico do Curso. De forma geral, há um estímulo ao estudo de questões psicossociais, embora seja menosprezado por escolas médicas mundo afora, mesmo que estejam formalmente integrados às discussões. Há também módulos específicos que abordam elementos da formação profissional do médico, da filosofia da medicina, da bioética, dos direitos humanos e da cultura que são ministrados por mim com ajuda de colegas médicos e professores do direito.

Além da inserção curricular, é necessário criar um ambiente de pesquisa e promoção das humanidades e da ética médica. Um caminho encontrado por nós foi criar o Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina, com atividades de extensão, ensino e pesquisa em Humanidades Médicas, levando trabalhos a congressos e publicando livros e artigos. Por fim, exercendo um papel importantíssimo, surgiu a Liga de Humanidades Médicas, de iniciativa discente. Diferentes atores e diferentes processos ajudam a despertar a curiosidade e a enxergar a importância desses estudos.


Sobre a importância em se formar o médico em termos humanísticos, devo lembrar da famosa citação de José de Letamendi y Manjarrés: O médico que só sabe medicina, nem medicina sabe. A medicina é uma arte complexa, e a ciência claramente é insuficiente para preparar o futuro profissional. As humanidades médicas buscarão o que há de melhor na cultura por mais de dois mil anos acumulados para formar um indivíduo maduro e preparado para a verdadeira ação em sociedade; justamente o que os antigos gregos denominavam spoudaios e que hoje muitos chamariam de cidadãos ou elementos maduros da sociedade.

Fala-se muito em cidadania. De regra é apenas uma expressão vazia e sem conteúdo concreto para a maioria das pessoas, essa tal de cidadania; tornou-se um chavão. Um indivíduo preparado para compreender os profundos recessos da experiência humana, própria e alheia, dotado das melhores ferramentas de comunicação e empatia legadas por mais de dois mil anos de história e cultura, e preparado com os instrumentos da técnica filosófica que providenciarão firmeza de caráter e solidez à consciência, estará apto a assumir de forma responsável a responsabilidade de ser médico e cidadão. Isso é cidadania de verdade.

9 - Quais são os principais ensinamentos que a Filosofia pode fornecer ao médico? Você indicaria o estudo da área para seus colegas de profissão?

 A filosofia fornece autoconhecimento e humildade. O seu aspecto geral e o amplo leque de reflexões também prepararão o médico para a ação interdisciplinar e potencializarão a criatividade e a inteligência, possibilitando conexões entre conhecimentos e experiências que, de outra forma, permaneceriam dissociadas. A investigação séria, metódica e profunda sobre a realidade auxiliará na compreensão da vida alheia e de formas de promover a saúde e combater a doença e o sofrimento. O treino lógico e dialético promoverá um raciocínio clínico e ético eficaz e complexo, capaz de lidar com as grandes complexidades vividas dia após dia por médicos em seus consultórios, hospitais e postos de saúde.

Sem dúvida nenhuma, o estudo da filosofia de boa qualidade está indicado para qualquer pessoa que queira viver uma vida mais plena e consciente. Não digo a filosofia do bacharelado ou da licenciatura, que reúne um conteúdo específico de conhecimentos, mas sim, a filosofia como forma de viver (que pode estar associada à forma anterior), como prática de vida, conforme o projeto original de Sócrates, Platão e Aristóteles, assim como enxergam alguns grandes filósofos mais recentes como Olavo de Carvalho, Mário Ferreira dos Santos, Pierre Hadot, Louis Lavelle e Eric Voegelin, somente para citar alguns.

10 - No dia a dia, como você concilia o exercício da Filosofia e da Medicina? Fale um pouco de sua rotina, por favor.

A busca constante pela sabedoria a todo momento implica um exame constante da própria vida. Tal exame permite enxergar as mais diferentes situações de diferentes perspectivas, reconhecendo melhor a complexidade da realidade em que vivemos. Outra forma de conciliação entre medicina e filosofia é a crítica do próprio conhecimento, e a constante busca pela coerência entre o conhecimento, a crença e a ação.

Em todos os meus estudos e práticas, busco sempre estabelecer pontes, conexões, entre coisas aparentemente não relacionadas. Isso fornece a criatividade e a agilidade de pensamento para buscar novidades e estar sempre alerta às mudanças necessárias.

A filosofia aplicada diretamente à medicina também ajuda na empatia compassiva, na compreensão da realidade alheia e dos pontos de conexão desta conosco.

Quanto à rotina de práticas e estudos, recebo muitas perguntas sobre como conciliar e buscar tantos conhecimentos tão amplos e, aparentemente, diferentes.

Ser cristão atuante, marido, pai de dois filhos pequenos, médico, cirurgião, coordenador de curso, professor, pesquisador, editor e autor, entre outras coisas e ler sempre entre cinquenta e oitenta livros por ano nos últimos dez anos é um desafio e realmente gera um pouco de curiosidade.

A fórmula que funcionou para mim inclui diversos pontos.

Faço o que gosto e faço aquilo em que acredito. Nisto encontro motivação imensa para melhorar sempre e nuca retroceder.

Há técnicas para estudar. Procuro utilizá-las com as devidas adaptações. Consultas às obras de Barbara Oakley e Pierluigi Piazzi e aos cursos sobre métodos de estudo de Olavo de Carvalho fornecerão importantes dicas.


Sempre estudo algo que desperta meu interesse ou que é extremamente necessário para resolver um problema importante. Mesmo que sejam dez escassos minutos de estudo, todo dia tenho que ler e absorver algo.

Mantenho meu interesse por diversos assuntos ao mesmo tempo. Gosto de estudar oftalmologia, medicina geral, epidemiologia, medicina baseada em evidências, teologia, bioética, filosofia de forma geral, política, história e literatura. Às vezes leio diversos livros aos poucos, todos ao mesmo tempo; às vezes concentro minha atenção em uma leitura mais urgente. É incrível como as conexões vão aparecendo aos poucos e como há, de fato, um crescimento exponencial das relações culturais que passam a se mostrar nas mais diferentes áreas do saber.

Acordo cedo, leio um pouco, vou trabalhar, almoço quase sempre em casa – um dos luxos de se morar no interior -, trabalho novamente, retorno ao lar, estudo mais um pouco e produzo um pouco. No fim de semana, a rotina obviamente muda, com mais presença no lar junto à família e, no domingo, leituras mais centradas em filosofia e teologia e a convivência na Igreja, elemento importantíssimo.

Essa rotina funciona, entremeada com imprevistos e algumas viagens, graças à esposa maravilhosa que tenho. Seria impossível fazer o que faço sem o suporte amoroso e paciente da Joana. A família é protagonista para uma vida de estudos saudável.

Além disso, algumas dicas cotidianas: desligue a televisão, desista de novelas e outras banalidades, leia diretamente nas fontes de confiança as notícias de que você precisa para se manter atualizado (sem Fake News, não há tempo a perder). Aproveite o seu tempo compreendendo o quão é precioso cada momento.

William Osler, famoso médico anglófono, já preconizava leituras indispensáveis que deveriam habitar a cabeceira de um bom médico ou estudante de medicina. A boa leitura e a presença real junto ao paciente oferecem oportunidades valiosíssimas para amadurecer e crescer intelectualmente e em termos pessoais.


11 - Qual é a área da Filosofia mais chama sua atenção? E da Medicina?

 Pode responder todas as áreas? Se tivesse que decidir por uma, não conseguiria responder. Mas, da filosofia, estudo principalmente a metafísica, a filosofia política, a filosofia moral e a epistemologia. É difícil definir, pois a filosofia é essencialmente geral e interdisciplinar.

Já na medicina, gosto de oftalmologia - principalmente de órbita e neuro-oftalmologia -, ética médica, história da medicina, semiologia, medicina baseada em evidências e comunicação médica.

No geral, tudo o que diz respeito a Deus e ao ser humano interessa muito a mim.

12 - Há alguma influência da Filosofia na sua relação com os pacientes? É possível dizer que existe um atendimento diferenciado?

 Sim, há uma intensa influência de minha filosofia e de minha fé na relação com os pacientes. Muito dependerá de como o médico enxerga o mundo.

Um atendimento que enxergo como diferenciado seria: a)      Radicalmente realista e intuicionista, pois acredita poder tocar a realidade do paciente, sem negar o grau de subjetividade e de transcendência que às vezes nos escapa; b)      Moral e empático, pois age em meio à relação estabelecida entre pessoas com moralidade que estabelecem e demonstram valores em suas atitudes; c)      Comunicativo e compassivo, pois liga duas ou mais perspectivas em prol de um bem comum ao perceber o sofrimento; d)      Complexo e inédito, dentro de um contexto de infinitude que permeia toda a realidade.

Tais elementos derivam, de fato, de uma forma filosófica bem específica de enxergar o mundo. Contudo, devo lembrar que há certas formas de pensamento e perspectivas que também recebem o nome de filosofia que poderão acabar levando aqueles que as subscrevem à loucura, ao delírio, ao solipsismo e à degeneração maldosa.

13 - Você organizou em maio deste ano a primeira edição do Seminário Capixaba de Filosofia (SECAFI). Com que objetivo o evento foi criado? Quais foram os resultados?

 O Seminário Capixaba de Filosofia foi um evento multidisciplinar que envolveu médicos, advogados, historiadores, cientistas políticos, cientistas sociais, escritores e filósofos, entre outros, para analisar os frutos e principais características da obra filosófica do Olavo de Carvalho, sem o rancor ideológico demonstrado por tantos elementos de nossa sociedade que ousam falar do que não leram, ou, se leram, do que não entenderam.


O ambiente acadêmico das humanidades no Brasil transformou-se num lugar de hostilidade e ódio à sincera busca pela verdade, no qual pessoas são rotuladas e desprezadas por suas crenças políticas e o valor de suas obras é julgado pelo alinhamento de seu autor. Queríamos um ambiente no qual tudo o que interessava era o debate intelectual honesto, destituído dos preconceitos que embrutecem e emburrecem o ensino superior em tantos locais do Brasil.

O objetivo foi alcançado, eu acredito.

Abordamos aspectos políticos, filosóficos, literários e históricos da obra de Olavo. Tais elementos - gostem ou não aqueles que governam as cátedras dos estudos sociais brasileiros, impregnados pelo gramscismo - despertaram um diálogo realmente diversificado na sociedade brasileira, assim como levaram centenas (ou milhares?) de pessoas às prateleiras de livros filosóficos e clássicos da literatura. Foi graças ao persistente trabalho de um pensador isolado que hoje o mercado editorial brasileiro está realmente diversificado em termos políticos e filosóficos.

Em sua primeira edição o evento atraiu pessoas de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e de diversos cantos do Espírito Santo. Foi um evento puramente dedicado ao estudo filosófico, feito sem filiação partidária alguma e com nenhum, repito, nenhum patrocínio que não fosse o dinheiro pessoal dos organizadores, muito boa vontade e o dinheiro dos inscritos. Apesar disso, o salão ficou lotado.

Para um evento filosófico que não ofereceu créditos em cursos universitários ou certificação nenhuma, totalmente dependente do interesse alheio e independente do dinheiro de partidos políticos ou dos cofres públicos, foi um inesperado sucesso. As palestras foram disponibilizadas e, em breve, há a expectativa de lançarmos um livro com artigos especialmente selecionados.

14 - Quando a sua relação com a Filosofia e a Medicina ultrapassou as fronteiras do consultório e da universidade, chegando aos livros? Como surgiu a inspiração para escrever Disbioética e A tradição da Medicina? Há previsão de lançar mais livros?

Após dez anos de estudo, absorvendo cultura e meditando sobre a experiência cotidiana, criei o Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina, no UNESC. No segundo ano do seminário discutia com os alunos alguns artigos na área de bioética quando nos deparamos com um inusitado trabalho defendendo o conceito de abortamento pós-nascimento. Uma resposta a este artigo transformou-se no livro “A Morte da Medicina”. A busca pela cultura que sustenta a medicina ainda hoje, fornecendo elevados ideais éticos e profissionais, acabou por gerar “A Tradição da Medicina”, no qual abordo o Juramento de Hipócrates e a Ética Baseada em Virtudes. Por fim, os desvios e perigos representados por determinados movimentos no campo da bioética levaram-me a escrever o “Disbioética”, que ainda terá mais três volumes, no mínimo.


O volume dois da série Disbioética tratará sobre política e medicina. O terceiro será intitulado “O Extermínio do Amanhã”, e tratará do aborto. Por fim, o quarto volume abordará o tema da liberdade de consciência no campo da saúde.

Ainda há previsão também de lançar um volume sobre os aspectos éticos gerais das obras hipocráticas e suas interações com outras tradições culturais, como a da cultura cristã no ocidente, e reflexões sobre o Código de Ética Médica.

Ainda pretendo escrever sobre muitas outras questões, ressaltando também diversos médicos e filósofos do passado e do presente.

15 - De olho no futuro, qual a sua perspectiva para este universo onde Filosofia e Medicina caminham de mãos dadas?

Vejo um longo e árduo caminho para que se crie, ou se resgate, a Alta Cultura dentro da medicina. Embora estejamos em meio a relativas trevas nos dias de hoje, não temos a opção de desanimar. Nossos pacientes dependem da qualidade e da dignidade profissional da medicina em muitas situações de fragilidade e sofrimento.

E é justamente nas grandes crises que surge a filosofia. O momento atual de crise, se bem trabalhado, pode muito bem apontar o surgimento de uma nova consciência entre os médicos, pode apontar a necessidade de escutar a antiga frase de José de Letamendi y Manjarrés, e fazer com que compreendamos com clareza a antiga verdade de que o médico precisa saber muito mais do que somente a medicina para ser um bom profissional.

Com uma filosofia de qualidade, o médico refletirá melhor sobre os rumos tomados e decidirá com maior consciência. Com filosofia de qualidade o médico poderá voltar a participar de forma mais efetiva na sociedade, tanto culturalmente quanto politicamente.

Se não resgatarmos nossa identidade cultural e a aprimorarmos com base em uma sólida formação de caráter, conhecimentos e técnicas, a nobre profissão médica em seus mais elevados padrões estará com os dias contados.

Hélio Angotti Neto
21 de setembro de 2017
Colatina - ES