quarta-feira, 25 de julho de 2018

DOENÇA FILOSÓFICA


Muitos problemas de nossa sociedade não se devem a causas orgânicas ou puramente psíquicas. Estão mais para distúrbios filosóficos, capazes de gerar doenças e loucuras em preocupantes proporções.

Se diagnosticamos doenças físicas, emocionais e psíquicas, falta a nós instrumentos adequados como aqueles propostos por Constantin Noica. Precisamos diagnosticar doenças derivadas da má interpretação da realidade, doenças noológicas.


"As pessoas deveriam se proteger não apenas de médicos delinquentes e farsantes, mas também de políticas sanitárias antissociais e de filosofias patológicas. Philosophia sana in ars medica sana." (BUNGE, Mario. Medical Philosophy. Conceptual Issues in Medicine. Singapore: World Scientific, 2013, p. xvi.)

domingo, 22 de julho de 2018

DISBIOÉTICA VOLUME 2

DISBIOÉTICA VOLUME 2
Novas Reflexões sobre os rumos de uma ética estranha.


In this expected second volume of Dysbioethics, Dr. Hélio Angotti continues his analysis, dealing with subjects that threaten bioethics - or the ethics related to individual and social human life - in the cultural and political scene of our days.

There are certain forms of bioethics that are much more error-oriented. Therefore, we can discern the existence of several paths, of several ways of thinking ethics.

In the brief articles that make up this new collection - including ethics, philosophy, politics, and book reviews - we are presented to the actual chaos of Bioethics in our societies and encouraged to act.

sábado, 7 de julho de 2018

O DESPREZO DO MÉDICO PELA FILOSOFIA

O DESPREZO DO MÉDICO PELA FILOSOFIA


Por que tantos médicos desprezam a filosofia?
Estava em uma aula daquelas de final de semestre, quando a maioria dos alunos aprovados já partira para suas casas. À frente restava apenas a prova de recuperação, na qual haveria matéria de todo o semestre, incluindo um conteúdo de minha responsabilidade sobre a história da filosofia moral e suas repercussões sobre a Ética Médica e sobre a Bioética.
Foi nesse momento que fui interpelado por uma aluna que, com muita sinceridade, disse que não via tanta importância em saber o nome e as ideias daqueles filósofos esquisitos de séculos atrás (ela não usou o termo esquisito, mas que muitos desses filósofos são esquisitos, são). 
Minha resposta foi a de que era mortalmente importante. Também respondi que o desconhecimento de nossa classe profissional acerca do mundo das ideias era uma das causas de nossa alienação e da destruição dos nossos valores mais profundos, destruição esta testemunhada dia após dia. Eis a expressão que eu utilizara: “não fomos jogados na latrina da sociedade à toa”.  
De fato, somos todos governados pelas ideias de filósofos há muito enterrados; a vida dos vivos é regida pelas ideias dos mortos. A inconsciência dessa realidade condena muitos a permanecerem na ignorância e na vida destituída de profundas reflexões, tão necessárias em tempos de crises, por mais dolorosas e assustadoras que sejam.
Contudo, a consciência dessa necessidade de mergulhar nos conhecimentos humanísticos não é tão imediata assim. 
Muitos médicos e alunos de medicina desprezam completamente o esforço filosófico porque consideram-no inútil ou irrelevante. Médicos costumam questionar o que a filosofia teria a oferecer a um empreendimento tão pragmático quanto a arte de curar e aliviar. 
Outros acusam a filosofia, ou pelo menos a sua forma acadêmica tal qual disseminada no Brasil e em diversos países, de ser uma forma de ideologização da medicina ou de outras profissões, ao tentar transformar tudo e todos em meros peões de um jogo político.
Ainda há os que acusam a filosofia de ser um empreendimento para ociosos, atraindo pessoas que não têm coisas melhores para fazer e ocupam a mente com tais nulidades.
Por fim, há aqueles detentores de maior cultura histórica e que acusarão a filosofia de ter parido grandes crimes, horrores e distorções, mesmo dentro de profissões específicas como a medicina. 
Cada ponto apresentado não deixa de ter um pouco de razão, e pretendo discutir todos. Pois, de cada um, pode-se tirar algo de bom, belo, justo e verdadeiro a respeito do empreendimento filosófico que sustenta toda a busca pelas humanidades médicas e fundamenta a discussão contemporânea em Bioética e Ética Médica.



A filosofia é inútil?
Talvez devêssemos começar definindo o que é filosofia e o que não é, ou quem é filósofo e quem não é, como diria Olavo de Carvalho. Contudo, prefiro deixar a definição de filosofia para o final, abordando antes diversas acusações contra a filosofia que nos ajudarão a delimitá-la melhor.
A primeira acusação é, sem dúvida, a de inutilidade. Muitos diriam que a filosofia não cura conjuntivite viral, tampouco opera um apêndice inflamado. Estão certos neste sentido. A filosofia é um empreendimento inútil, sob certa perspectiva. Ademais, essa acusação nem é tão recente assim; é uma das mais antigas afirmações, pelo menos ao analisar um de seus ramos principais, a metafísica.
Com a filosofia eu não prego um quadro na parede, construo uma casa ou posiciono um dreno de tórax no paciente grave. Porém, é junto com a filosofia que surgem as impressões artísticas e as vivências que inspirarão as obras de beleza que serão gravadas em quadros pendurados nos lares ou museus, ou inspirarão as memórias gravadas em livros que definirão e inspirarão os rumos de toda uma civilização.
A filosofia é uma perspectiva de vida ou uma forma de enxergar o mundo, neste último sentido.
É de concepções filosóficas sobre o que é uma boa vida em sociedade que surgem estilos arquitetônicos que ditarão como construir prédios, casas e monumentos.
É de concepções filosóficas que surgirão as formas pelas quais enxergamos o ser humano e compreendemos fenômenos que denominaremos saúde, doença, morte, vida ou cura.

A filosofia é irrelevante?
Entre os estudantes de medicina, é muito comum ouvir o questionamento quanto à relevância dos estudos filosóficos. Qual a importância da filosofia diante da óbvia necessidade e importância de se estudar anatomia humana?
Já o profissional inserido no mercado de trabalho encontra-se ocupado demais em ganhar o pão de cada dia para perder tempo com essa tal de filosofia.
Para quase todas as pessoas há uma concepção de que filosofar é complicar o óbvio, criar problemas onde não há, tornar complexo o que é simples. Diriam que é um tipo de verniz intelectual: bonito, mas não relevante.
É claro que o verniz tem sua relevância! Assim como a filosofia.
Uma boa prática filosófica qualificará as demais práticas humanas. É com filosofia de boa qualidade que se participa com eficiência e consciência dos meios culturais e políticos da sociedade. É com boa filosofia que se evita a transformação das coisas simples em coisas loucas, muitas vezes impulsionadas pela ideologia porca, chamada por alguns pelo mesmo nome do amor à sabedoria, mas tão distante na prática.
Um pensamento tosco pode levar o médico a renegar a vocação de sua profissão e abraçar a cultura da morte, por exemplo. A ausência de formação filosófica pode levar qualquer um à alienação política e cultural que, com o tempo, destruirá sua prática profissional enquanto implode toda a ordem social a seu redor. Sem os melhores instrumentos reflexivos, o pensamento e a ação serão superficiais e ineficazes, cabendo ao indivíduo o papel de marionete nas mãos dos piores e dos incompetentes.
A filosofia é extremamente relevante, eu diria, para todas as pessoas em todas as situações.

A medicina é ideologizada pela filosofia?
A filosofia seria um instrumento ideológico? Muitos ressentem do uso daquilo que chamam de filosofia ao observarem a ideologização tosca da medicina, cada vez mais invadida pelos discursos de guerra de classes, ódio social e radicalismos políticos, ao mesmo tempo em que se ameaça de morte a cosmovisão hipocrática e cristã que fundamentou dois mil anos de boa prática médica.
Temem a medicina fascista e socializada. E com razão!
Médicos já juraram seguir acima de tudo a Revolução (como na União Soviética) ou o Reich (na Alemanha nazista) e os resultados trágicos devem ser lembrados para sempre.
Nesse temor, enxergam o empreendimento filosófico como um perigoso cavalo de Tróia. Porém, se tomarmos filosofia pelo seu sentido socrático, só poderemos evitar a destruição ideológica das profissões ligadas à saúde justamente por meio de uma filosofia adequada, hoje mais necessária do que nunca para combater os sofismas que ameaçam a inteligência humana e seu acesso à realidade. 
A filosofia desenvolverá a capacidade de enxergar através da cortina de fumaça que nos cerca: jogos de palavras e toscas manipulações sedativas. Com a boa filosofia pode-se discernir com qualidade e competência o melhor caminho a seguir e os piores erros a evitar.
É uma filosofia política pujante que permitirá, por exemplo, ao médico e aos demais profissionais da saúde, realizarem seu verdadeiro potencial benéfico para a sociedade.

A filosofia é para aqueles que não têm o que fazer?
É verdade que é necessário um pouco de tempo ocioso para que haja filosofia. Quem não consegue tempo suficiente para uma rotina de estudos, meditação reflexiva, prática e expressão da filosofia não terá sucesso em filosofar.
Muitos usam isso como desculpa para não o fazer. Erram, pois, de regra, gastam enormes quantidades de tempo naquelas baboseiras que somente uma sociedade do espetáculo como a nossa consegue oferecer. Quer tempo para estudar? Desligue a televisão e busque informações somente em veículos confiáveis; é um bom começo. Restrinja o tempo nas redes sociais digitais. Leia. Medite. Escreva. E leia um pouco mais. 
Pessoalmente, creio que a filosofia é justamente para aquelas pessoas extremamente ocupadas. Pessoas para as quais cada minuto é precioso e demanda o máximo de atenção, esforço e carinho pelo que se faz. 
Os momentos de ócio dedicados ao pensamento elevado da filosofia devem ser entremeados pela ação prática e bem pensada no mundo, onde as lições obtidas na profunda reflexão solitária serão exercitadas e gerarão os frutos que comprovarão o acerto nos estudos e reforçarão o caráter do filósofo.
De regra, nosso problema não é falta de tempo ocioso. É como ocupamos nossa excessiva ociosidade contemporânea, é como hierarquizamos nossas atividades cotidianas.

A Filosofia é fonte de problemas.
Eis outra verdade parcial. Há filosofias capazes de destruir a vida humana ou um empreendimento profissional como a medicina.
Já falei um pouco do potencial destrutivo da filosofia ruim ao tratar de ideologia, mas algumas observações ainda cabem.
Uma boa medicina, analisada por meio de uma filosofia adequada, demandará uma cosmovisão bem específica, o que tem sido um dos principais objetivos dos diversos textos sobre a filosofia da medicina que tenho produzido: o esclarecimento da cosmovisão hipocrática e cristã da medicina para que o imaginário profissional seja reconstruído das cinzas que restaram do desmanche civilizacional contemporâneo de nossa cultura.
A medicina precisa de uma boa filosofia para sobreviver. Temos sempre a tendência de hipervalorizar nossos problemas contemporâneos, mas creio que o último século foi realmente o mais perigoso para a cosmovisão médica hipocrática e cristã, no qual visões perigosas atacaram de forma mais pertinaz e de diferentes perspectivas.
Hoje há filosofias comunitaristas, socialistas, egoístas, liberais e transumanistas contra a velha e mal falada visão hipocrática. Cada forma de ver o mundo oferece diferentes perspectivas sobre quem é o ser humano e, consequentemente, sobre qual é o papel da medicina. Nesse oceano de impropérios que nos cerca, uma boa filosofia é essencial para manter o leme rumo ao caminho certo. A filosofia pode ser a fonte de problemas ou a ferramenta ideal para os combater.

O contato com a realidade
Boa parte da filosofia moderna nega ao homem a capacidade de conhecer a realidade como ela é. O indivíduo teria acesso, segundo dita o mainstream da filosofa moderna, somente às suas impressões subjetivas. Por mais elegante que seja anunciar esse ceticismo gnosiológico nos tempos atuais, deve ficar claro que afirmar a incapacidade humana de conhecer a verdade é uma forma grosseira e simplória de pensamento. Também deve ficar claro que esse ceticismo subjetivista é incompatível com a boa medicina.
Imagine um médico que realmente fosse cético e subjetivista nesse sentido filosófico moderno ao estilo de Kant. Agora imagine esse médico auscultando uma bulha cardíaca. Ele estaria percebendo uma sensação própria que não quer realmente dizer que escuta essa bulha cardíaca em si. É um tipo de fenômeno que misteriosamente e inexplicavelmente está ligado a outra subjetividade – a do paciente – e que gera compreensões subjetivas capazes de gerar ações que auxiliarão o paciente. Ou pelo menos o médico em sua subjetividade acha que o diagnóstico de suas próprias sensações alcançou e beneficiou o paciente por meio de sabe-se lá qual providência que aprioristicamente alinhou as sensações subjetivas interpessoais.
É muito solipsismo e muita volta inútil para evitar cair na tão mal falada tese do realismo ingênuo (uma forma de espantalho, no fim das contas). 
Mas como explicar nossa experiência de forma coerente com nosso conhecimento e nossa prática? Como fugir desse idealismo desvairado e completamente incoerente com a boa e cotidiana prática da medicina? 
Defendo que podemos sim ter contato com a realidade e, inclusive, podemos tecer afirmações verdadeiras sobre a realidade em que vivemos. Um médico que realmente defenda postulados ceticistas exagerados ou niilistas não está filosoficamente capacitado para exercer uma boa prática profissional. Todavia, a qual cosmovisão um bom médico deveria aderir?
Afirmo que não há como negar o realismo, não há como fugir de fato da realidade e de nossa capacidade de conhecê-la. Qualquer negação plena dessa realidade ou de nossa capacidade é pura contradição pomposa, é pura pose pseudointelectual. Sobre nossa capacidade irrecusável de apreender a realidade e enunciar símbolos verbais ou escritos acerca dela escreverei ao tratar da Filosofia Concreta, dos Valores, da Ética e da antropologia metafisicamente, ontologicamente e epistemologicamente necessária.[1]
Todavia, antes de prosseguir, é hora de oferecer uma definição para a filosofia, que copio de meu professor, o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho: Filosofia é a busca pela unidade da consciência na unidade do conhecimento e da unidade do conhecimento na unidade de consciência. Acima de tudo, Filosofia é um método de vida e de contemplação amorosa da realidade, uma forma de se colocar na existência dotado de uma consciência desperta, imerso na inteligência do Logos. É realmente buscar a grande coerência da vida, a razão que anima a realidade e, consequentemente, nos anima. Uma vida destituída de verdadeira filosofia – não confunda com erudição filosófica - é uma vida que se animalizou e que se reduziu, que aceitou a condição de uma existência parcial e se negou a tocar na esfera do sentido transcendente.
 A resposta definitiva para o questionamento sobre ser a filosofia irrelevante para a medicina é um estrondoso e necessário não. A filosofia de má qualidade pode até ser deletéria para a medicina, mas irrelevante? Jamais. Já a boa filosofia, por outro lado, não somente é relevante, mas essencial para que não se perca o coração do que se reconhece como boa medicina há mais de dois mil anos, nos mais diversificados contextos da sociedade humana.





[1]O artigo sobre o uso da Filosofia Concreta de Mário Ferreira dos Santos contra o ceticismo gnosiológico moderno e contemporâneo é fruto de uma apresentação do II Seminário Capixaba de Filosofia (SECAFI), que ocorrerá em Vitória, no Espírito Santo, no dia 21 de julho de 2018, e que será publicado em breve.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

O DESAFIO PARA A CARIDADE MÉDICA



Today many Christian physicians, nurse, administrators, and hospitals justify their compromising the virtue of Charity on grounds of exigency and survival. They thus give proof to the mordant observation of Machiavelli that a "man who wishes to act entirely up to his professions of virtue soon meets with what destroys him among so much that is evil". But is not the challenge of Christian ethics to do precisely what Machiavelli thought impossible?

Hoje, muitos médicos, enfermeiros, administradores e hospitais cristãos justificam o comprometimento da virtude da caridade por motivos de exigência e sobrevivência. Dão, assim, prova à mordaz observação de Maquiavel que "um homem que deseja agir inteiramente de acordo com suas profissões de virtude logo encontra o que o destrói entre tantas coisas que são más". Mas o desafio da ética cristã não é exatamente o que Maquiavel considerava impossível?

PELLEGRINO, Edmund D. The Philosophy of Medicine Reborn. A Pellegrino Reader.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

O Estranho Doutor que Gostava da Morte

O Estranho Doutor que Gostava da Morte


Há pessoas marcadas com gosto por coisas nada ortodoxas. Uma das mais estranhas e mórbidas ideias, sem dúvida nenhuma, é a obsessão com a morte. Não é um tema improvável, visto que todos temos tal evento como certeza em nossas vidas, mas é algo que normalmente não se pensa até o momento de sua aproximação, seja natural, seja por meio de doença.

Jack Kevorkian, conhecido também pelo nome de Doutor Morte, é uma dessas pessoas com uma estranha curiosidade pelo fim. Diria até mais, já que se dedicou a ser elemento ativo na morte alheia.

Filho de pais que escaparam do genocídio na Armênia, abandonou a fé cristã de sua família ainda menino. Na residência médica, já era obcecado com a morte, e se revoltava quando médicos utilizavam argumentos religiosos sobre a santidade da vida humana como base para negar a licença para matar. 

Tais argumentos e a própria lei não foram impedimento para Kevorkian, que desenvolveu sua máquina de matar, carinhosamente chamada de thanatron (palavra derivada de thanatos, que significa morte), e tornou-se um ativista da eutanásia durante os anos 90 do século XX. 


Sua primeira vítima foi Janet Adkins, portadora de Alzheimer com 54 anos de idade que o procurou em busca de um suicídio assistido. Kevorkian ligou-a em seu thanatron e a matou em 4 de junho de 1990. O doutor morte não examinou a paciente, não consultou o médico assistente da mesma e tentou a venóclise perfurando o membro da paciente por cinco vezes seguidas. 

Após tudo estar preparado, coube a Adkins pressionar o dispositivo e morrer. Seu médico assistente informara à época que provavelmente ela já não tinha plena consciência do que estava acontecendo, isto é, já não estava mentalmente competente.

Mais 130 pessoas tiveram suas mortes auxiliadas pelo estranho doutor, que foi enfim sentenciado a 25 anos de prisão.

Hoje, com a pressão para legalizar o papel do médico como entregador da morte por meio de abortos, suicídios e eutanásias, a vida de Kevorkian tem sido romantizada por alguns militantes da cultura da morte, quando na verdade o que ficou demonstrado é como a cultura da morte aliada à má técnica e à falta de ética profissional adequada se transforma numa perigosa máquina de extermínio e desespero.

A opção forçada entre morrer ligado de forma desumana em aparelhos ou recorrer ao suicídio ou à eutanásia é uma falsa colocação da questão, que reduz a equipe de saúde a uma condição bestializada e monstruosa na qual se deve decidir entre monstros que torturam o paciente ou monstros que matam. Quem se interessa por tanatologia deve perfurar a venda colocada à força em nossos olhos por essas narrativas enviesadas e enxergar as verdadeiras opções, como a medicina paliativa de boa qualidade, que sempre prezou a vida humana e a respeitou sem transformar o médico ou qualquer outro membro da equipe de saúde em um verdugo apto a matar.

Será que ainda não aprendemos as lições terríveis de nosso passado? Quantos ainda precisarão morrer para que o médico retorne à sua vocação original ou desista dessas utopias da morte?

Hélio Angotti Neto - Colatina, 04 de junho de 2018.

Bibliografia

BISHOP, Jeffrey P. The Anticipatory Corpse. Medicine, Power, and the Care of Dying. Notre Dame, Indiana: University of Notre Dame Press, 2011.
GORSUCH, Neil. The Future of Assisted Suicide and Euthanasia. Princeton & Oxford: Princeton University Press, 2006.
NICOL, Neal; WYHE, Harry. Between the Dying and the Dead: Dr. Jack Kevorkian’s Life and the Battle to Legalize Euthanasia. Madison: University of Wisconsin Press; Terrace Books, 2006.
WEIKART, Richard. The Death of Humanityand the Cas for Life. Washington, DC: Regnery Faith, 2016.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

AINDA O PATERNALISMO HIPOCRÁTICO

Canso de escutar pessoas que nunca leram a obra hipocrática ou livros de seus contemporâneos falando sobre o terrível paternalismo hipocrático e a maravilhosa valorização da autonomia do paciente que se observa nos dias iluminados de nossa época contemporânea.

Deixo um breve trecho para reflexão:





"Mas o médico nascido livre se ocupa principalmente em visitar e tratar das enfermidades das pessoas livres e o faz investigando-as desde o começo e conforme o curso natural; conversa com o próprio paciente e com seus amigos, podendo assim tanto obter conhecimento a partir daqueles que padece da doença [e seus amigos] como transmitir a estes as devidas impressões na medida do possível. Ademais, ele não prescreve nada ao paciente enquanto não conquistar o consentimento deste, para só quando consegui-lo então, mantendo a docilidade do paciente por meio da persuasão, realmente tentar completar a tarefa de devolver-lhe a saúde."

PLATÃO. As Leis incluindo Epinomis. Baurú, SP: EDIPRO, 1999, Livro IV, p. 195.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

II SEMINÁRIO CAPIXABA DE FILOSOFIA

II Seminário Capixaba de Filosofia (SECAFI)


Nada podemos conhecer do verdadeiro ser”. Esse trágico mantra agnóstico da modernidade capitaneou, pela sua paradoxal dinâmica interna, o surgimento de infindáveis reducionismos totalitários, igualmente arbitrários: “Tudo o que existe são combinações caóticas da matéria”,“a lutas de classes”,“os desejos”,“a vontade de poder”, etc. Com essas premissas ganhando força na cultura, não há como negar que os genocídios e a destruição dos padrões éticos e estéticos que se seguiram nos últimos séculos foram suas consequências diretas. 
As grandes inteligências do século XX vislumbraram esse drama com clareza, e realizaram obras de imenso valor curativo, merecendo nota toda a Escola de Madri, Eric Voegelin, a Neoescolática, Herman Dooyweerd, Louis Lavelle e, atualmente, sem dúvidas, Olavo de Carvalho. 
Mas talvez nenhum país tenha tido oportunidade mais segura de superar aqueles grotescos erros do que o Brasil. Já na década de 50 do último século nosso grande filósofo Mário Ferreira dos Santos havia desenvolvido e publicado seus principais estudos, demonstrando a força e importância estruturante da metafísica para a resolução das confusões mentais que as ideologias dominantes criavam. 
Profundo conhecedor das diversas culturas, religiões e sociedades esotéricas, em especial de seu simbolismo, absorveu com maestria a tradição clássica da filosofia, de Pitágoras a Husserl, explorou de forma pioneira as riquezas da escolástica portuguesa e espanhola dos séculos XVI e XVII, desenvolvendo com isso instrumentos para ordenar perspectivas tão dispares quanto o marxismo e o anarquismo, a logística e a simbólica, Nietzsche e o Cristianismo, a metafísica e as ciências naturais, para citar apenas alguns temas dominados pelo filósofo.  
Portanto, não só com demonstrações rigorosas de teses o conhecimento da estrutura da realidade foi afirmado em livros essenciais como “Lógica e Dialética”, “Filosofia Concreta”, “Tratado de Simbólica” e “A Sabedoria das Leis Eternas”, mas sobretudo por meio da riquíssima capacidade integradora que a Mathesis Megisterevela a todo momento, permitindo analogar - isto é, reunir os opostos em torno de uma unidade superior - os diversos e espetaculares novos conhecimentos que a humanidade tem alcançado com a compreensão realista e milenar do verdadeiro lugar do Homem no Cosmos – a imagem e semelhança do Criador. 
Assim, o II SEMINÁRIO CAPIXABA DE FILOSOFIA, neste ano em que se completa cinco décadas do falecimento do Mário Ferreira dos Santos, foi organizado de forma a ressaltar algumas das principais perspectivas de sua imensa obra, com o firme intuito de não mais prolongar nossa demora, como pessoas e nação, em reconhecer e aprender com um dos grandes gênios da filosofia, que tudo fez apenas para nosso Bem maior. 

PROGRAMAÇÃO:
21 de julho de 2018
8:30h - Abertura 
I) 9:00h - LÓGICA E DIALÉTICA: matéria e forma na filosofia da natureza.
Raphael De Paola

II) 10:30h - FILOSOFIA CONCRETA DOS VALORES: réquiem ao relativismo. 
Hélio Angotti Neto

(intervalo das 12:00h às 13:15h)

III) 13:30h - TRATADO DE SIMBÓLICA: a força da analogia.
Francisco Escorsim

IV) 15:00h - A SABEDORIA DAS LEIS ETERNAS: ontologia do número.
Leonardo S. Penitente

17:00h  Encerramento

Local:América Centro Empresarial – Avenida Fernando Ferrari, 1.080, Vitória/ES, CEP 29.066-380

domingo, 6 de maio de 2018

DECLARAÇÃO DE COMPROMISSO COM A VIDA

COMPROMISSO COM A VIDA HUMANA, EM TODAS AS SUAS FORMAS


A medicina possui uma longa e honrada tradição a favor da vida humana. Um compromisso afirmado em tempos pré-cristãos pelos médicos hipocráticos e judeus e ratificado, reforçado, atualizado e enquadrado pela ética cristã ao longo dos séculos em nossa civilização. Esse compromisso com a vida do ser humano é refletido por outras profissões em qualquer sociedade que contempla o ser humano, em todas as suas formas e dimensões, como uma pessoa digna de respeito e proteção.
Em nossos dias, assim como foi no passado, observamos ameaças erigidas contra a santidade e dignidade da vida humana e contra o compromisso do modelo hipocrático e cristão da medicina. Diante dessa realidade que aponta para a tentativa de mudança de paradigma, capaz de provocar a perigosa alteração dos valores básicos que estruturam toda nossa sociedade, nós, Médicos de Cristo (Brasil) e Associação Cristã Evangélica de Profissionais de Saúde (Portugal), nos sentimos obrigados a declarar abertamente nosso compromisso com o paciente, com a sua dignidade e com a sua vida.
Compreendemos que nós, profissionais de saúde cristãos, devemos:
- Atuar sempre em defesa da vida humana, desde a concepção até à morte natural, como fundamento para todos os demais direitos e valores da sociedade;
- Prestar cuidados de saúde integral com pureza, santidade, rigor ético, responsabilidade e amor sacrificial, conscientes de nossas fragilidades e limitações, e conscientes acima de tudo da Graça e da Misericórdia que alcançam a todos, profissionais da saúde e pacientes, cristãos e não-cristãos;
- Labutar para que as pessoas tenham acesso a cuidados de saúde globais que reconheçam a dimensão biológica, mental, social e espiritual do ser humano.
- Recusar qualquer atentado contra a Dignidade Humana, como a eutanásia, o abortamento voluntário, o suicídio assistido e o trato desumano com o paciente;
- Recusar participação em tortura ou pena de morte, compreendendo a missão sagrada a nós entregue: proteger a vida humana, reconhecendo a sua dignidade;
- Pesquisar somente em prol da sociedade, respeitando e priorizando o bem do paciente, recusando a participação em experimentos antiéticos, perigosos ou orientados para o dano ao ser humano;
- Visualizar em cada ser humano, embrião, feto, criança, adulto ou idoso, saudável ou doente, capaz ou deficiente, um ser imortal digno do melhor esforço técnico, econômico e científico, digno de todo respeito, de todo carinho e de todo o amor;
- Agir com integridade, compaixão, competência, responsabilidade e respeito em um contexto de Caridade, Fé e Esperança em prol do bem do paciente, sem abrir mão dos valores tradicionais dos nossos códigos de ética e deontologia que tanto bem promoveram e ainda promovem aos diversos povos;
- Ter Jesus Cristo como grande Modelo de vida, sabedoria e ação, e ver Cristo em cada um daqueles que busca o auxílio em seu momento de dor, tristeza ou doença, beneficiando a todos os seres humanos, de todas as classes sociais, de todas as religiões, de todos os povos e de todas as nações, assim como fizeram os nossos antepassados.

Hélio Angotti Neto – Médico especialista em Oftalmologia, doutor em Ciências Médicas, membro do Comitê de Países de Língua Portuguesa da International Christian Medical & Dental Association (ICMDA), membro do Grupo de Trabalho de Bioética dos Médicos de Cristo. Presidente do Capítulo de História da Medicina da Sociedade Brasileira de Clínica Médica. Reside em Colatina, Espírito Santo, Brasil.

Jorge Cruz - Médico especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular, doutor em Bioética, membro do Comitê de Países de Língua Portuguesa da International Christian Medical & Dental Association (ICMDA), membro honorário da Associação Cristã Evangélica de Profissionais de Saúde (ACEPS-Portugal), membro do Conselho Internacional da PRIME - Partnerships in International Medical Education. Reside em Porto, Portugal.

Soraya Cassia Ferreira Dias - Médica especialista em Pediatria e Homeopatia, membro do Conselho Fiscal dos Médicos de Cristo e do Conselho Internacional do International Christian Medical & Dental Association, membro do Grupo Coordenador da Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS). Reside em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil



terça-feira, 1 de maio de 2018

Crítica e Autocrítica da Classe Médica

CRÍTICA E AUTOCRÍTICA DA CLASSE MÉDICA


Todos sabem que sou ferrenho crítico das tentativas de legalização do aborto no Brasil, assim como sou diretamente e explicitamente contrário à instrumentalização das tentativas de humanização em saúde pela ideologia política mais rasteira e oportunista.
Acredito que nosso dever é criticar, com certeza, e deixar nossa posição bem clara, cobrando uma posição adequada do próximo.
Critiquei e ainda critico abertamente a gestão anterior do Conselho Federal de Medicina pelo posicionamento tomado a favor da legalização do aborto até a décima segunda semana e a favor de estranhos dispositivos de eutanásia infantil ao estilo do Protocolo Groningen.[1]
Estamos agora cada vez mais pertos de uma audiência pública sobre a legalização do aborto proposta pelo PSOL e pela ANIS – Instituto de Bioética.[2]Ainda tenho a esperança, talvez ingênua, de que nosso Conselho mude a trajetória que nossa representação vinha demonstrando. Vamos aguardar os fatos para concluir melhor.
Como já afirmei em outros lugares, o Conselho Federal de Medicina representa a classe médica frente ao governo e é responsável pela fiscalização da profissão. Contudo, questiono quem eles representam de fato quando defendem o aborto – ou a escolha da mulher, de acordo com o viés ideológico e o jogo de palavras adotado. Não é o povo brasileiro, que em sua maioria é claramente pró-vida; ou pelo menos ainda é pró-vida enquanto os frutos da intensa engenharia social imposta por certas elites não venham à luz do dia. Também não é a classe médica como um todo que representam, pois a maioria dos médicos ainda é contra o aborto, assim como a maioria dos obstetras ainda realiza objeção de consciência.
Vou aguardar a audiência pública e torcer para estar errado. Torcer para que a nossa geração de médicos não seja justamente aquela que jogará a herança hipocrática e cristã que sustenta nossa civilização no lixo, e pague o preço por tamanha falta de responsabilidade.
Contudo, parto agora para um outro tema em paralelo.
Quando fiz críticas ao Conselho Federal de Medicina, muitos colegas também se enfureceram com a falta de posicionamento em favor da vida humana. Posicionamento este que deve ser embasado nas evidências que existem, sem conflitos de interesse das organizações abortistas, e em uma moralidade compatível com a tradição e o propósito de nossa profissão. Porém, outros levantaram pontos que julgo merecerem melhor análise.
Muitos outros colegas lançaram diversas acusações contra o gasto dos conselheiros em diárias, que é bem alto, de fato, e nunca foi escondido de ninguém. O que poucos param para refletir é que os conselheiros de regra são colegas já bem estabelecidos, que poderiam ganhar muito mais em suas práticas privadas e que abandonam consultórios e famílias para viajar Brasil afora debatendo temas éticos e promovendo educação continuada – eu mesmo já recebi um representante do Conselho Federal de Medicina no interior do Espírito Santo e participei de diversas atividades promovidas pelo meu conselho regional também no interior. Poucos param para refletir o desgaste sofrido por eles e o quanto abrem mão de ganhar com a medicina. 
Posso ser um crítico feroz de alguns posicionamentos, mas para ser justo, preciso reconhecer o sacrifício e a dedicação de nossos colegas que participam da atividade ética da carreira médica. 
Chego ao ponto específico dessa observação: a necessidade de quem critica em fazer algo além da mera crítica negativa e destrutiva, a necessidade de fugir dos velhos moldes da crítica social frankfurtiana (feita pela New Lefte pelos membros da antiga Escola de Frankfurt) que apela para o desmonte cultural sem ser propositiva de fato.[3]
Muitos reclamam sobre os posicionamentos passados do Conselho Federal de Medicina a favor do aborto e a atual indefinição da gestão presente. Mas o que fazem a respeito? 
Eu já dedico mais de quinze anos de minha vida ao estudo das questões éticas e da filosofia da medicina para tecer algo mais construtivo e mudar, nem que seja um pouco, a cultura ao meu redor. Já sei de dois colegas que se inscreveram para participar da Audiência Pública contra a proposta de legalizar o aborto até a 12ª semana, abrindo mão da convivência familiar e da renda de seus consultórios por alguns dias preciosos para ir a Brasília. Vocês ouvirão em breve o nome deles e das instituições que chancelaram sua participação. Sei também de diversos outros espalhados pelo Brasil que se aprofundam nos estudos humanísticos da medicina, pessoas bem-sucedidas e satisfeitas com sua carreira que se sentiram obrigados a aprofundar em conhecimentos mais amplos. Os nomes deles também surgirão com o devido tempo, é inevitável.
Muitos reclamam das atividades dos Conselhos, mas nunca participaram de uma destas atividades sequer! Fui convidado a participar como Delegado de meu Conselho Regional, um serviço voluntário, e lá vou eu ajudar no que for possível. 
Muitos reclamam da educação médica e de como o Conselho Federal de Medicina deveria se posicionar melhor. Só posso dizer que fui além. Estudei sobre Educação Médica, tornei-me professor e até fui convidado a ser Coordenador de Curso, e agora participo há dois anos como avaliador do Sistema de Avaliação das Escolas Médicas (SAEME), promovido e viabilizado pelo CFM e pela Associação Brasileira de Educação Médica.
Muitos reclamam das escolas médicas que abrem em cascata, uma após a outra. Julgam que não há critério no processo de abertura. Concordo com as críticas em grande parte. Mas fiz o que julguei ser o mais correto. Inscrevi-me como avaliador do Ministério da Educação e Cultura e fui aprovado como avaliador para abertura de novos cursos (deve sair em breve no Diário Oficial da União se tudo der certo). Estudei os critérios de avaliação de curso e vou fazer o melhor para ser justo em busca de real qualidade.
Muitos reclamam da ideologização das cadeiras médicas ligadas às ciências sociais. Concordo também com a crítica de aparelhamento ideológico completamente inadequado e até mesmo danoso para os propósitos da Medicina. Criei o Seminário de Filosofa Aplicada à Medicina, promovendo pesquisa e atividades de extensão junto aos alunos, oferecendo uma possibilidade diferente de visualizar a importância das Humanidades Médicas em sua vida profissional.
E você, colega médico, o que você faz?
Quantas horas de seu consultório e do convívio familiar você cedeu para dedicar-se de fato, de corpo e alma, ao trabalho de honrar sua profissão e melhorar o que você percebe que está errado? Qual o preço que você pagou e ainda paga?
Alguns podem dizer que não são professores, que nada podem fazer para mudar o panorama educacional. Mas poderiam muito bem receber alunos em suas práticas como estagiários voluntários e ensinar pelo exemplo, que pressuponho ser muito bom. Até hoje lembro-me com carinho dos mestres informais que tive, dos plantões que acompanhei fora da escola em busca de aumentar meu aprendizado.
Você reclama da educação médica, mas já participou de quantos eventos dedicados ao assunto? 
É preciso realmente sair da inércia, do pessimismo suicida que se tranca num pequeno paraíso de segurança provisória enquanto o mundo lá fora cai em chamas. Acredito que os médicos perceberam claramente que os bárbaros chegaram e que estão rompendo as muralhas, mas ainda não entenderam que não vai haver batalha se não houver quem lute. Ainda não entenderam que não se deve lutar para criticar ou atacar algo, tampouco alguém, mas para defender algo valioso que se encontra atrás de nós, protegido e sustentado por nossos ombros.
Discorda ou concorda? Independente da sua reposta, mãos à obra.


[3]Sobre a New Left, recomendo a obra: SCRUTON, Roger. Pensadores da Nova Esquerda. Coleção Abertura Cultural. São Paulo: É Realizações, 2014; SCRUTON, Roger. Fools, Frauds and Firebrands. Thinkers of the New Left. London: Bloomsbury, 2015.

domingo, 29 de abril de 2018

Feliz Aniversário, Olavo de Carvalho

OLAVO, O PRESENTE DE ANIVERSÁRIO



Olavo de Carvalho comemora no dia 29 de abril mais um aniversário. É um sobrevivente, como tantas vezes já recordou em aulas a respeito do seu profético nome. 
Recentemente, sobreviveu a uma intervenção cirúrgica e a uma pneumonia. Nas semanas seguintes já estava de volta às aulas de seu Curso Online de Filosofia, que alcançou a surpreendente proeza de permanecer no ar de forma ininterrupta desde março de 2009 reunindo milhares de alunos interessados em saber mais sobre filosofia. 
Veja bem, estamos falando do Brasil e de milhares de pessoas – jovens em sua maioria – aprendendo pelo prazer de aprender, sem esperar certificado ou título algum. Eis uma inusitada realidade em nossa terra de bacharéis tão apegados a seus diplomas com letras estilizadas. 
Nos seus 71 anos completos, é um dos mais amados e odiados filósofos e professores de todo o Brasil. E, com certeza, um dos mais conhecidos filósofos brasileiros mundo afora. Sua obra já acumula dezenas de livros, dezenas de milhares de páginas transcritas de suas aulas e conteúdo suficiente para a produção de centenas de outras obras. Seus cursos e sua filosofia colaboram na confecção de incontáveis outros cursos e na redação de trabalhos e teses dentro e fora da Academia. 
Mais do que uma pilha de livros e ideias, Olavo é uma pessoa cuja rica biografia surpreende e assombra. Pai de família (acredite, é um elemento do currículo que pode oferecer enormes desafios e enredos para grandes romances), pesquisador da astrologia, filósofo, católico, ex-membro da tariqa de Fritjof Schuon, colaborador de revistas esotéricas, de diversos jornais e de periódicos acadêmicos médicos, caçador de ursos, debatedor implacável, crítico feroz e agudo, imitador do Alborghetti, educador online e presencial, escritor de obras de filosofia nos mais diversos ramos - da metafísica à política -, conservador, comunista, revolucionário, reacionário, liberal e muito, muito mais. 
Na verdade, Olavo de Carvalho transformou sua vida no exemplo claro do que é uma pessoa concreta, de carne e osso, com suas contradições, polêmicas, amizades, inimizades e dúvidas. Por fugir dos estereótipos abstratos, simplificados e previsíveis tão amados pela intelectualidade medíocre da Academia e da mídia brasileira, Olavo é capaz de enfurecer, chocar e escandalizar a prosaica moralidade burocrática e burguesa de nosso país – à qual aderem até mesmo os nossos revolucionários -, que se contenta com figuras bem delimitadas, que tanta segurança transmitem ao ouvinte, sempre evitando superar as expectativas já rebaixadas de nossa cultura.
Você quer um palestrante educado, que repete chavões de autoajuda ou adocicadas platitudes completamente óbvias e agradáveis? Não escute o Olavo, suas frágeis orelhas serão ofendidas. Ligar o computador para assistir ao Curso Online de Filosofia ou a qualquer um de seus cursos avulsos é puro Trigger Warning. Não há Safe Spaces!
Você quer o professor universitário que fala complicado, repetindo em cada frase dois ou três nomes de estudiosos importantes que escrevem obras igualmente complicadas e impenetráveis aos não iniciados? Olavo fala de uma forma clara e cotidiana, atraindo desde professores universitários e pesquisadores internacionais a frentistas, lavradores do interior do Brasil e estudantes de nível médio.
Você quer um professor “importante”, recheado de títulos como um peru é recheado de farofa na véspera do Natal? Olavo não exibe nenhum título, mas acumula menções honrosas e reconhecimento intelectual internacional invejáveis, alcançados por pouquíssimos brasileiros em toda nossa história.
Você quer alguém que seja previsível, que caiba no modelo de mundo que você adotou e que se esforça para seguir à risca? Não achará consolo nas aulas do Olavo, nas quais ama e critica ao mesmo tempo a Igreja Católica e ofende e elogia pensadores protestantes e islâmicos. 
Se você quer alguém com quem concordar plenamente, não vá ao Olavo, seu negócio é outro. Um programador neurolinguístico ou um guru de autoajuda satisfará seus anseios de busca pela segurança e tranquilidade.
A conclusão à qual chego é que Olavo de Carvalho, mais do que filósofo, é um ser humano real. E ao invés de ele receber todos os presentes que merece nesse aniversário, oferece ao Brasil e ao mundo um presente inestimável: a obra de uma pessoa concreta que dedicou sua vida à busca do conhecimento e à sua transmissão.
Que Deus permita ao Olavo permanecer por muito mais tempo junto a nós, ensinando e aprendendo as duras lições da filosofia, chocando um Brasil que precisa urgente de uma cardioversão para ser reanimado do profundo estado de apatia moral e intelectual no qual se encontra.
Que Deus proteja toda a sua família e lhe dê força para seguir adiante, sobrevivendo e cumprindo a missão para a qual foi destinado. Feliz Aniversário.

Hélio Angotti Neto, 29 de abril de 2018, Brasil.

sábado, 28 de abril de 2018

A Ética Gnóstica Imanentista de Sánchez Vázquez

A ÉTICA GNÓSTICA IMANENTSTA DE SÁNCHEZ VÁZQUEZ

Leio o livro “Ética”, de Adolfo Sánchez Vázquez, e eis que chego na segunda parte do capítulo IV, na qual o autor fala da moral e da religião. Lá, identifiquei alguns pontos que merecem uma boa análise dialética, por assim dizer.
Desde o começo do livro, o autor deixa bem clara a sua posição. 
Para ele, 
Uma ética científica pressupõe necessariamente uma concepção filosófica imanentista e racionalista do mundo e do homem, na qual se eliminem instâncias ou fatores extramundanos ou super-humanos e irracionais. De acordo com esta visão imanentista e racionalista de mundo, a ética científica é incompatível com qualquer cosmovisão universal e totalizadora que se pretenda colocar acima das ciências positivas ou em contradição com elas.[1]
Pergunto, antes de qualquer avanço, se uma cosmovisão que nega o aspecto transcendental da realidade, que reduz a realidade comprovável ao aspecto positivista somente e que enxerga as ciências positivas como máxima e absoluta autoridade (mesmo que elas mesmas não possam comprovar a própria autoridade do método científico que tanto utilizam) não seria igualmente ou ainda mais universal e totalizadora do que qualquer outra que possa ser colocada em questão.
Também é curioso como o autor, após achatar a realidade humana a seus aspectos imanentes, afirma que só 
É possível falar em comportamento moral somente quando o sujeito que assim se comporta é responsável pelos seus atos, mas isto, por sua vez, envolve o pressuposto de que pôde fazer o que queria fazer, ou seja, de que pôde escolher entre duas ou mais alternativas, e agir de acordo com a decisão tomada.[2]
O autor, assim como muitos outros que negam a possibilidade de existência do transcendente, afirma misteriosamente a liberdade humana a despeito da realidade empobrecida e imanente que tanto prega. Assim como tantos outros, Vázquez não enxerga problema algum, pelo que sua obra deixa transparecer, em afirmar que o ser humano só age moralmente quando pode decidir livremente, e que o mundo é pura imanência positivista.
Dessa indisposição frente à transcendência deriva toda a leitura ressequida que o autor faz da religião e de sua ligação com a moral. Transcendência esta tão bem descrita e defendida por filósofos da estatura de um João Poinsot (João de São Tomás), de um Lorenz Puntel ou de um Mário Ferreira dos Santos.
Segundo Vázquez, a religião deve ser compreendida como um protesto contra a “miséria real”, mesmo que só ofereça a solução para uma vida além desta nossa que vivemos na realidade. Para o autor, a religião se transforma num mero instrumento de dominação da elite, de conformismo, resignação e conservadorismo. Ele comemora as tendências revolucionárias que podem ser observadas nas últimas décadas com a busca pela transformação efetiva do mundo humano.
É claro que a religião cristã protesta contra a maldade, criada pela idolatria humana e pela vontade de se impor moralmente sobre o próprio Deus. Por outro lado, a religião cristã também compreende que tudo o que Deus permite e faz acontecer coopera para o bem de seus filhos. O mundo criado é bom, mesmo que muitos atentem contra o Criador e que toda a Criação sofra pela presença do pecado.
Há que se buscar um equilíbrio entre a contemplação do bem que já existe e a revolta contra a ausência do bem pleno, prometido para a próxima etapa de nossa realidade. Ressaltar a revolta e a pretensão de reformar o mundo é cair novamente no velho e perigosíssimo engodo do gnosticismo. E o pior de tudo, cair no gnosticismo político!
Nada foi tão destrutivo, nada massacrou tantos milhões de pessoas, quanto a política imanentista e gnóstica de nossos dois últimos sofridos séculos. Lênin, Stálin, Mao Dze Dong e tantos outros monstros utópicos que o digam. Suas bocas escancaradas ainda aguardam logo atrás das suas utopias gnósticas sanguinárias, prontas para sorver o sangue das massas idiotizadas pelo sentimentalismo tóxico e pela manipulação de seus mais baixos sentimentos em prol de um futuro imanente de perfeição.
Vázquez lembra da afirmação de Dostoievski: “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. Logo depois afirma que a moral não necessita de Deus para existir, afirmando como prova o fato de que a moral precede a religião, como “demonstra a própria história da humanidade”. 
Considerando religião no sentido proposto pelo próprio autor, acredito ser esta uma afirmação muito difícil de sustentar. Segundo ele, religião é “a fé ou crença na existência de forças sobrenaturais ou num ser transcendente e sobre-humano, todo poderoso, com o qual o homem está em relação ou está religado”.[3]
A última tese deste ambicioso trecho do livro “Ética” sobre as relações entre Religião e Moral é igualmente – ou ainda mais – ambiciosa, assemelhando-se mais ao tradicional e bem conhecido wishful thinkingdos profetas marxistas.
Se o comportamento moral e o religioso articulam-se ainda em nossos dias, com as particularidades que assinalamos, não se deduz que a moral precise permanecer necessariamente dependente da religião. Se no passado Deus era o fundamento e a garantia da vida moral, hoje são cada dia mais numerosos os que procuram no próprio homem o seu fundamento e a sua garantia.[4]
A moral não depende socialmente da religião, e ninguém em sã consciência afirmaria isso da forma como foi colocada pelo autor. 
Mesmo quem não é religioso apresenta uma vida moral em diferentes gradações. 
O que Dostoievski, assim como escritores e filósofos de todos os tempos e de todas as partes, afirmam claramente é a necessidade ontológica que a moral tem da existência de um parâmetro transcendental, caso contrário recairá no mais puro voluntarismo. 
O autor também nos lembra muito do aspecto de revolta da religião contra a maldade presente no mundo. Curiosamente, cala completamente quando chega a hora de criticar o comunismo, a maior máquina de destruição já inventada pela humanidade, mas critica abertamente o burocratismo, o produtivismo, o individualismo burguês e a aparição de novas formas de alienação.[5]Seu silêncio conformista é ensurdecedor neste aspecto e sugere somente a defesa disfarçada de uma das fés mais equivocadas e malignas de toda nossa civilização.
Talvez porque seja o próprio comunismo uma das maiores contraprovas de seu pensamento. Foi justamente nos sistemas de governos contemporâneos claramente ateus e antirreligiosos que ocorreram as maiores catástrofes da história da humanidade, como o Holodomor, as deportações em massa para os Gulagse a perseguição intelectual assassina dos dissidentes. 
Realmente, como afirma Vázquez, são cada vez mais numerosos os que procuram no próprio homem o seu fundamento moral. Nietzsche enxergou muito bem onde chegaríamos com essa falta de visão.
A tentativa de elogiar o papel reformista da religião na realidade, em prol da criação de uma nova realidade, promove o que Eric Voegelin chamou de imanentização do Eskathón: o rebaixamento das expectativas apocalípticas de perfeição no além para nossa realidade mundana e imanente. Diante de expectativas tão maravilhosas e paradisíacas de perfeição, cria-se uma nova religião de caráter historicista ou positivista capaz de justificar todas as inversões que caracterizam tão bem a mentalidade revolucionária, descrita de forma magistral pelo filósofo Olavo de Carvalho:
1 – A inversão temporal: tudo o que se faz no presente é justificado pelo futuro já garantido nas expectativas apocalípticas dos reformadores de realidades;
2 – A inversão moral: todo o mal que se comete hoje em prol de um bem futuro é desculpável (verdade seja dita, Vázquez repudia esta ideia, mas demonstra falta de visão ao não ligar suas expectativas religiosas às cruéis inversões maquiavélicas que presenciamos hoje);
3 – A inversão sujeito-objeto: um hipotético agressor é apenas uma vítima da sociedade, representada pela sua vítima que pode ser, então, assaltada ou morta em prol da causa.
Eis o perigo do gnosticismo político descrito por Hans Jonas, Eric Voegelin e Nelson Lehmann. 
Se há algo que está mais que comprovado é aquele antigo aviso de Gilbert Keith Chesterton: “Quando se deixa de acreditar em Deus, passa-se a acreditar em qualquer besteira”.

Hélio Angotti Neto
28 de abril de 2018, Colatina – ES.


[1]VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017, p. 27.
[2]Ibid., p. 18.
[3]Ibid., p. 89.
[4]Ibid., p. 92.
[5]Ibid., p. 52-53.