sábado, 18 de fevereiro de 2017

COMO DEBATER COM QUEM LHE QUER MAL

COMO CONVERSAR COM QUEM LHE QUER MAL

 



Ben Shapiro é temido por sua capacidade de engajar no combate discursivo. Assisti-lo é quase garantia de ficar impressionado com a forma pela qual ele destrói um a um todos os argumentos de seus adversários.

Se muitos temem o filósofo William Lane Craig por sua lógica implacável e sua capacidade de analisar e destruir falácias, Ben Shapiro, com sua velocidade em destruir o adversário, não fica atrás. A forma pela qual ele vira os artifícios erísticos contra seus oponentes mal intencionados é algo que dá gosto de ver.

Considerando a qualidade deplorável do ambiente político e acadêmico no Brasil, aprender a identificar e se defender da trapaça intelectual é importantíssimo. A obra de Schopenhauer comentada pelo filósofo Olavo de Carvalho – Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão - já se tornou um clássico indispensável no tema, que deve ser apreciado em conjunto com outras obras fundamentais como A Nova Retórica de Chaim Perelman e Lógica Informal de Douglas Walton.

Aos referenciais básicos, pode-se acrescentar um livreto disponibilizado por Ben Shapiro (How to Debate Leftists and Destroy Them: 11 Rules for Winning the Argument), assim como seus vídeos disponibilizados gratuitamente na Internet. São exemplos extremamente úteis - e divertidos - da arte de argumentar e da discussão combativa, lembrando que, aqui no Brasil, todos os espectros políticos usam e abusam de recursos indevidos na hora de pensar e discutir.

Destacarei alguns trechos que nos oferecem uma visão geral da obra. Ben Shapiro demonstra que aquilo que acontece na esfera política não é bonito, não é cordial. É batalha encarniçada e sangrenta, é vida ou morte. Não há espaço para amadorismos. Se ao assistir Ben Shapiro rapidamente lançar argumentos, alguém julga que há somente um raciocínio rápido, engana-se. Há raciocínio rápido sim, e muito preparo, muita estratégia. Conheça um pouco do combate das palavras:

Tudo o que importa é a vitória. Esta é a mensagem que parece ter sido perdida entre os conservadores, que estão constantemente centrados na virtude de sua mensagem, na honestidade intelectual de sua causa e na frustração de observar que ninguém está ligando para essas coisas. É porque conservadores não pensam em como vencer que eles não param de perder.

O problema de muitos conservadores e liberais à direita e ao centro é que simplesmente acreditam discutir com pessoas honestas, e perdem tempo achando que estão num debate intelectual ou moral quando na verdade estão em pleno campo de batalha. Muitos creem compartilhar dos mesmos princípios de seus debatedores, quando na verdade não existem princípios do outro lado e não se tem debatedores, mas sim, detratores e distratores.

Não é de se estranhar que a esquerda busca evitar o debate político a qualquer custo. Por que ligar? Membros da esquerda não estão interessados em debater sobre política. Eles não estão interessados em discutir o que é importante para o país. Estão interessados em debater a tua pessoa. Querem te castigar como o ser humano malvado que tu és justamente por discordar deles. É isso o que faz os esquerdistas serem esquerdistas: um imerecido senso de superioridade sobre o próximo. E se puderem instilar esse senso de superioridade moral em outras pessoas ao fazer de ti o bandido, eles o farão.

A rotulação odiosa, as acusações infundadas e as indignidades lançadas por radicais em discussões são tão ultrajantes que chegam a desconcertar qualquer pessoa bem intencionada e um pouco ingênua que seja. Se o diálogo não é uma dialética saudável, e sim, uma agressiva luta de posições, não espere clemência ou honestidade, e não demonstre fraqueza.

As pessoas na esquerda são ensinadas desde criancinhas sobre como eles são melhores do que os conservadores – isso faz com que se sintam bem ao odiar conservadores. E esse ódio é justificável porque, afinal de contas, todos os conservadores são intolerantes.

O foco de atenção na discussão com alguém intelectualmente desonesto geralmente ocorre em acusações feitas à pessoa em si, e não à suas idéias. É o famoso argumentum ad hominem. Considerar-se monopolista das boas intenções e realizar a redução totalizante do adversário também condiz com importante elemento da mentalidade revolucionária que, em posse de uma santidade autoproclamada, julga o universo e crer ser capaz de reestruturar a realidade, numa verdadeira revolta gnóstica como tantos bons pensadores já acusaram.

O senso de autojustificação moral dos estudantes universitários não deriva de suas conquistas – deriva da crença que tu és uma pessoa má. Tu és um racista e sexista; eles não são.

Com a falsa impressão da pureza dos próprios sentimentos, que tantas vezes desculpam as piores maldades, e com o desconhecimento na natureza humana, o “outro lado” torna-se merecedor de toda repreensão e artifício indevido. Não é de se espantar que existam tantos paredões, gulags, campos de concentração, guilhotinas e extermínios das formas mais excêntricas imagináveis nos regimes revolucionários.

Diante desse inimigo carente de autoconsciência e de caráter, como agir? Shapiro fornece algumas importantes regras.

Regra #1: Rumo à linha de fogo. Esta é uma regra que aprendi de meu mentor Andrew Breitbart. Ele era um tático muito sagaz que entendeu a luta como realmente é: compreendeu que política é guerra por outros meios, e que tu deves tratar a política como tal. Andrew costumava falar que tu deves abraçar a guerra, caminhar rumo à linha de fogo. Explicaria que tu serás alvejado por estilingues e flechas ultrajantes, não importa em que direção caminhe.

Não há calmaria. A paz não existe. Não importa o quão legal e educado tu sejas, eles virão atrás de ti.

Como Aristóteles já ensinava, não se pode debater com quem não compartilha dos mesmos pressupostos. Uma pessoa que deseja debater, frente àquele que deseja somente agredir e humilhar, estará fadada à derrota numa disputa que não iniciou. Frente a alguém que se coloca como hostil inimigo, qualquer demonstração de fraqueza ou condescendência atrairá somente agressão. As regras de um bom debate são rigorosíssimas e, verdade seja dita, são raríssimos aqueles capazes de segui-las no Brasil.

Regra #2: Bata Primeiro. Não leve o primeiro golpe. Bata primeiro. Bata forte. Bata onde marca ponto.

Isso requer pesquisa. Você precisa conhecer seu oponente. Você tem que saber o que ele dirá, quais são suas táticas favoritas e quais serão suas posições típicas. Você precisa conhecer o oponente de dentro para fora.

Não subestime um oponente, não entre despreparado numa altercação. Essa regra não é nova, com certeza, pois já era claramente enunciada por Sun Tzu para o general que desejava vencer a guerra. O problema é que muitos não percebem quando outros movem uma verdadeira guerra.

Regra #3: Enquadre seu oponente. Demonstrei que o guia inteiro da esquerda consiste num único truque: caracterizar a oposição.

Esse truque é extremamente utilizado no Brasil. A esquerda define a si mesma como protetora dos pobres, oprimidos e desvalidos – embora mantenha laços com as maiores fortunas do planeta Terra. Ao mesmo tempo, é a esquerda que define o que é direita e quem deve ser chamado de direita. O resultado: uma totalização maligna de qualquer oposição que empobrece o cenário cultural e político do Brasil, virando uns contra os outros.

A resposta adequada à acusação de que você bate na sua mulher não é explicar que você não bate nela e, na verdade, é um ardoroso feminista. A resposta é mostrar que lançar falsas acusações sem evidências faz de seu oponente um lixo.

A esquerda não tem um manual de regras. Eles têm uma encenação. Uma encenação somente: Você é um mané. Eles têm somente uma ação: dizer que você é malvado! Tire isso deles, e eles não terão mais nada.

Num debate, não se pode permitir que o lado oposto domine as definições dos termos e situações básicas do contexto. É partir da derrota. Desmascare a mentira de forma direta.

Regra #4: Enquadre o debate.

Eles são tolerantes, plurais, guerreiros pela justiça social; se você se opõe a eles, por contraste, você é intolerante, xenófobo e favorável à injustiça social.

O trágico é que as mesmas pessoas que lançam essas acusações tantas vezes tomem parte em depredações, violências físicas e violências verbais, incapazes de agirem com o mínimo de tolerância. Veja o exemplo do que fizeram com o corajoso Professor Rodrigo Jungmann em 2016.[1] É preciso remover a máscara e as falsas acusações e mostrar a realidade como ela é, definindo o contexto da discussão, enquadrando o debate.

Regra #5: Identifique as inconsistências nos argumentos da esquerda. Os argumentos da esquerda estão repletos de inconsistências.

Inconsistências internas que são inerentes à visão de mundo em geral da esquerda. Isso porque poucas pessoas na esquerda admitirão sua agenda verdadeira, que é bem extremista.
No caso do aborto, a esquerda diz que é a favor da escolha, mas ignora a falta de escolha do bebê.

Para se mostrar um santo e revelar como o oponente é diabólico, esquerdistas e demais mal intencionados precisam recorrer a frequentes abstrações, recortes da realidade. A exposição da pobreza existencial de tais recortes falsamente moralistas é um passo necessário para qualquer conversa.

Regra #6: Force esquerdistas a responderem a questões. Esta é, na verdade, um corolário da Regra #4. Esquerdistas somente se sentem confortáveis quando forçam você a responder suas questões. Se eles têm que responder questões, começarão a coçar suas cabeças. As questões que eles gostam de perguntar são sobre seu caráter. As questões que eles não gostam de responder são todas.

Um recurso erístico já bem conhecido é lançar pergunta atrás de pergunta sem deixar tempo para que seu oponente responda adequadamente. A melhor e talvez única forma de responder a este tipo de agressão é parar em uma pergunta de cada vez, devolvendo outra pergunta e batendo o pé até que o oponente a responda. Quem cai no ardil de tentar responder muitas questões maliciosas acaba não respondendo nada e fazendo papel de bobo.

Regra #7: Não se distraia. Você poderá notar que, enquanto argumenta com alguém da esquerda, ele começará a gritar sobre George W. Bush.

Esse recurso erístico é conhecido como Mutatio Controversiae. Quando a coisa começa a esquentar para o lado do sujeito, ele subitamente tenta mudar de assunto. A reação deve ser sempre a insistência no ponto que gerou a tentativa de mudar de assunto, pois ali estará uma fragilidade que amedrontou o oponente.

Regra #8: você não tem que defender as pessoas que estão do seu lado. Apenas porque alguém está do seu lado, não quer dizer que você tem que defender tudo o que essa pessoa diz.

No Brasil, muitos discutem como se tudo fosse uma grande partida de futebol. Nenhum dos lados é perfeito. A direita costuma admitir isso, a esquerda dificilmente admite, e quando o faz, alerta que o “traidor” da causa é na verdade “de direita”.

Regra #9: Se você não sabe de alguma coisa, admita!

Não vale a pena ficar rodeando um ponto no qual você não está capacitado. E será justamente aí que alguém mal intencionado tentará cercá-lo. Se não souber de algo, bola para frente.

Regra #10: Deixe o outro lado obter vitórias sem sentido.

Qualquer um pode dizer algo certo de vez em quando. No Brasil, muitos esquerdistas criticam a mídia, dizendo que não se pode confiar no quarto poder, embora a mídia, de regra, somente faça bajulação da esquerda. Nisso – a falta de confiança que pode ser depositada na mídia – a direita pode concordar com a esquerda. Não vale a pena brigar somente por brigar.

Regra #11: Linguagem Corporal importa.

Não se pode negligenciar o impacto de uma boa apresentação e de uma conduta tranquila.

Outras regras importantes incluiriam a plateia. Se você ousar debater num ambiente já preparado para sua destruição, nenhum argumento importará. As pessoas estarão ali somente para agredir.

Essas regras podem parecer agressivas, mas o fato é que a esquerda ganhou terreno com base na agressividade covarde e na destruição da reputação alheia, e que a destruição cultural que sofremos há décadas nos impossibilitou de participar de um debate qualificado.

Embora as regras sejam de um combativo conservador norte-americano, sua validade para o brasileiro é impressionante.